terça-feira, 30 de novembro de 2010

De como perdi meu primeiro emprego

Recentemente vi-me numa conversa entre amigos pós-universitários sobre nossos primeiros empregos. Um fôra office boy, outro atendente numa loja, uma terceira, secretária de uma dentista. Uma quarta comentou, reflexivamente, que seu primeiro trabalho remunerado dera-se apenas depois de graduada. Outro, que nunca tivera assim, propriamente, um emprego, apenas mesadas familiares e bolsas de estudo governamentais.


Percebi que dentre todos eu fôra a mais jovem a exercer atividade trabalhista regular e remunerada. Normalmente crê-se, ao menos no Brasil que quanto mais é postergado o momento de ingresso no eito, mais, em acepção espanhola, experto e preparado é entregue ao mercado de trabalho o cidadão. Discordo em todos os graus. Creio que quanto mais tardio o contato com o “trabalho”, menos disposto estará o cidadão em efetivamente “trabalhar”. Como se diz em minha terra, é de menino que se torce o pepino.


E que não distorçam-me lendo nisto apologia ao trabalho infantil. Mesmo que o próprio conceito de “infância” seja questionável, pronuncio-me aqui apenas a respeito de pessoas legalmente cônscias, excedidas a 14 anos.


O quê são os 14 anos? No Brasil, a idade mínima para o consentimento sexual. Certa vez expliquei a meus alunos:


- Se uma menina de 14 anos “transa” com seu namorado de 13 anos ela pode ser enquadrada como delinqüente no artigo de “estupro de vulnerável”, condenada e mandada para a FEBEM – Fundação CASA, cumprindo de 6 meses a 3 anos de “medida sócio-educativa de internação”.


Embora improvável, isto seria perfeitamente legal. Atualmente no Brasil a legislação prevê que a idade mínima para o trabalho são os 16 anos. Quando eu mesma era adolescente, eram 14 anos e foi por conta disso que aos 15 anos pude ter meu primeiro emprego.


Vi uma faixa no McDonald’s da avenida Anhanhia Mello, da janela do ônibus: “Estamos recebendo currículos”. Fui com meus colegas do colégio Chico e Romeu entregá-los e participar da entrevista. Como sou meio “outspoken”, o que seria meio-traduzido por algo entre faladeira e articulada, fui selecionada e eles não.


Para qquer menina brasileira de classe média-baixa é um orgulho ser recrutada para trabalhar no McDonald’s, um ícone multinacional.


Eu trabalharia no “restaurante” Anália Franco Drive, que seria brevemente inaugurado em frente ao canteiro de obras do então futuro Shopping Anália Franco, no canto milionário do Tatuapé, a 2 quilômetros da vila operária em que eu residia em casa alugada.


Meu treinamento deu-se na loja à rua Serra de Bragança, onde eu já comera muitíssimas vezes, próxima à praça Sílvio Romero, coração do Tatuapé. Lá aprendi o ofício. Orgulhosamente uniformizada, decorei até a temperatura em que cada hambúrguer deveria ser grelhado. Selecionada com o perfil de atendente “de salão”, e bilíngüe, lidava com os clientes e pouco trabalhei diretamente na cozinha.


Ao final do treinamento, fomos avaliados e recebemos notas de 0 a 100. Essas notas foram divulgadas numa reunião. Sem que eu me surpreendesse, obtive a maior nota, 97. Recebi então um adesivo de alguém segurando uma bandeja em meu crachá e um pin, ou bottom, exclusivo, para atachar ao meu uniforme.


Na semana seguinte inauguramos o AFD e havia um espaço em branco na parede assinalado pela placa “funcionário do mês”. Ora, sem modéstia, obviamente concluí que em breve estaria lá minha foto num sorriso exultante, afinal eu fora a que mais exemplarmente concluíra o treinamento.


Rsrsrs... Como eu era boba com 15 anos.


Cheguei num dia seguinte e vi, no espaço vazio, a foto de uma loirinha bonitinha num sorriso tolo assinalada como “Joyce”. Joyce fôra a segunda colocada na avaliação, com 96 pontos. Tinha eu 15 anos e senti coçar-me os brios, o que urgi em comentar em voz alta, publicamente, no refeitório:


- Como assim, a Joyce é a “funcionária do mês”?! Fui eu que recebi o pin! Fui eu a com a melhor nota! Por quê ela? Por que ela é loira? Por que ela é simpática? Por que ela é bonita?


Explicaram-se depois à boca pequena:


- É porque ela é do Drive. Já me disseram que é comum que os funcionários que atendem ao Drive Thru sejam privilegiados.


Compreendi então que no mercado de trabalho muito mais importante que a capacidade eram as coligações políticas: o lugar certo, o sorriso certo, a saudação certa na hora certa. E que mesmo que meu trabalho fosse melhor, o Drive Thru era politicamente mais importante. E também que a loirice de Joyce era mais plástica que minha latinidade.


Eu tinha 15 anos e não engoli isso a seco, não sem lutar. Por isso sei exatamente o motivo pelo qual fui rapidamente demitida. Na semana seguinte estava eu recolhendo o lixo do salão externo. Vindo do salão interno, outro atendente meu colega abordou-me para perguntar:


- Vc viu o Orlando?


Orlando era nosso sub-gerente, subordinado ao todo-todo meu xará Fernando. Não contive, em minha adolescência, minha língua coçando numa insinuação maldosa, amarga e pretensamente espirituosa:


- Não vi o Orlando. Deve estar por aí puxando o saco do Fernando.


Meu colega atendente retornou à cozinha e eu reenfoquei-me no meu serviço. 3 minutos depois vi descer pela escada do andar superior não só o sub-chefe Orlando, mas também o mega-chefe-xará Fernando. E enquanto desciam as escadas, dirigiram-se um após o outro certo olhar fulminante.


Como fôra "um certo olhar" e não "um olhar certeiro", torturou-me por 3 dias a dúvida: “Será que eles ouviram, do andar de cima, aquela frase despretensiosa, e cria eu, sem conseqüências, que eu soltara sem pensar, especialmente que mais alguém ouviria?


No terceiro dia tive a resposta. Ouviram-me.


Chamou-me outra sub-chefe, oxigenada. E a outra atendente da minha “turma”, Karina SS. Disse entre robótica e contrita: “Então, este restaurante não teve o movimento esperado e vamos ter que dispensar vcs duas.”


Fiquei completamente chocada. Achei que talvez eu fosse levar um pito, ser advertida, chamada para uma conversa. Nunca, sumariamente, demitida. Então caiu a ficha de uma frase que eu já ouvira muitas vezes: que eu tinha uma “língua de trapo” ou “de sapo”.


Até então eu achava que a veracidade, autenticidade e sinceridade eram virtudes. Quando, por conta delas, perdi meu primeiro emprego, percebi que estes podem ser defeitos, dependendo do mundo em que se vive. No McDonald’s, com certeza veracidade, autenticidade e sinceridade são defeitos e a superficialidade, cegueira e mudez são virtudes. E não só nesta multinacional, mas em qquer empresa que aglomere muitas pessoas, especialmente mulheres.


Ganhava eu então, em 1998, R$1,46 a hora. O que devia dar algo como US$ 0,60 por hora. Pensem o que quiserem, orgulhava-me eu de ganhar, aos 15 anos, com o suor do meu rosto, meu dinheirinho para minhas coisas adolescentes. CD’s, sessões de cinema, revistas, roupas, refrigerantes.


Assim, com minha primeira demissão, comecei a aprender a ser hipócrita e a não dizer abertamente o que penso. E também que, mais importante que a efetiva capacidade de trabalho, eram as relações pessoais. Quisera eu já ter-me conformado e aprendido tudo isso, mas minha língua cotidianamente coça, e não consigo controlá-la, comprometendo-me socialmente, ainda hoje, com isso. Triste.


Não que eu tenha a língua solta, mas que a sinceridade seja, em nosso mundo, defeito.


Da palavra não dita és senhor. Da palavra dita és escravo” - Abraham Benson.


Portanto, se os leitores querem um conselho que seguramente não vão seguir, mas sobre o qual deveriam ao menos pensar: aprendam a controlar a própria língua e a não falar tudo o quê pensam. E, especificamente, além do falar, publicar na Internet. Isto torna imprescritível cada pequeno deslize. Todos devemos preocupar-nos com isso.


Ditado popular: Deus nos deu dois ouvidos e uma boca para ouvirmos o dobro do que falamos.


Outro: em boca fechada não entra mosca. Mais um: quem fala o quê quer ouve o quê não quer. Feqüentemente negligenciamos tolamente a sabedoria que os "ditos populares" nos legam.


A Internet ecoará pela Eternidade. Permita Deus. Um dia meus netos agradecerão ao Dr. Orkut e aos Srs. Facebook a oportunidade de conhecer-me, em toda a minha inconseqüente, adolescente, espontânea, irrefletida, específica, latino-americana à paulista, autenticidade avacinada. :) Ou nos amaldiçoarão, caso eu mesma macule meu nome. Como disse recentemente Bernie Madoff: o sobrenome de sua descendência foi maculado. Permita minha recentemente nascida prudência que eu não incorra neste pesar.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Da polissemia dos termos – Benjamin e as jornalistas da Globo

Estranhos são os caminhos que despertam inspirações para minhas postagens. Este aqui surgiu a partir da reflexão sobre um adaptador de tomada. Hoje choveu tropicalmente em minha cidade, e conforme eu principiei a desplugar os eletrodomésticos indispensáveis, vendo um benjamin empoeirado entre meus dedos, comecei a enamorar-me da idéia de como até este cotidiano objeto pode iniciar uma reação em cadeira que talvez inspire, em poucos, uma explosão crônica.


Muitos dos leitores talvez não saibam ao que me refiro pelo objeto “benjamin”. Só me dei conta disto com largos 25 anos. Num final de ano, naquele triste e calendáricamente obrigatório apenas na FEBEM dezembro, como se não houvesse nada mais a ensinar no final do ano, após as provas e contagem dos vistos, preparei-me para passar um filme para os alunos.


Qual? Apollo 13. Banal? Talvez. Tarimbado? Com certeza. Mas para os expectadores “menores”, inédito. Metade talvez nem reconheceu em Tom Hanks quase um clichê cinematográfico. Disse um destes:


- Não é o cara das raquetadas?


Referia-se a Dan Stulbach, que agredia sua esposa às raquetadas numa novela de Manoel Carlos. Qual nome? Impossível lembrar dada a pouca criatividade deste autor em batizar obras e protagonistas. Talvez tenha sido “Páginas da vida” ou “Viver a vida” ou “Por amor”. Seguramente ambientada no Leblon. (E que fique claro que a-do-ro Manoel Carlos, suas novelas e suas Helenas). Para a maioria das pessoas é Dan Stulbach que assemelha-se a Tom Hanks. Para quem nunca foi ao cinema, é Tom Hanks que assemelha-se a Dan Stulbach.

Eu, e creio que meu leitor, já fomos mais de uma centena de vezes ao cinema. Muitos de meus alunos nunca. Este é o tipo de dado do qual se desconfia e se considera exagerado ou impossível. A alguém de classe média. Mas é constrangedor quando auferido in loco. Pode descrer-me com certeza o leitor que nunca pisou numa instituição prisional, e por isso o relevo, por ver-me consciente que eu mesma veria-me desconfiada desta afirmação antes de trabalhar na FEBEM – Fundação CASA.


Portanto, a quem duvidar de que muitos de meus alunos nunca pisaram num cinema, pergunto: “Vc já trabalhou na FEBEM?”


À negativa seguramente coletiva, prossigo. Para ligar a TV e o DVD, eu precisaria de um benjamin. Como não o encontrasse, dirigi-me à agente educacional terceirizada da ONG:


- Me traz um benjamin?


Ela olhou-me com um olhar perdido que não compreendi. Virou-se para um lado, outro, e respondeu-me como a me pedir desculpas:


- Professora, não tem nenhum Benjamin aqui, nem interno nem funcionário...


Contraí as sobrancelhas e conti o riso. Dei-me conta de que “benjamin” talvez fosse uma gíria paulistana, uma vez que o nome não remetia imediatamente ao objeto num outro ambiente. Tive então uma grande lição acerca da polissemia dos termos. Para mim um benjamin sempre fora um benjamin. Para outrém, seria o nome de alguém. Principiei a descrever: queria um adaptador de tomada, com várias saídas, etcs.


Aliviada, respondeu-me:


- Ah!... A senhora quer um “T”.


- Isso, um “T”.


Para mim a letra “T” assim, no maiúsculo, lembra pulsões primitivas e vulgares. Para a senhora que ganhava menos que eu pra dar expediente de muito mais largas horas, não. Era um singelo adaptador de tomada.


A lembrança deste fato acorreu-me ao ver a proeminente barriga de Rosana Jatobá ao anunciar o clima no “Jornal Nacional”. Esta postagem e tudo que escreverei depois desta frase constranger-me-ão no futuro, disto estou apercebida, mas o redijo para eternizar dois impulsos arquetípicos instintivamente machistas que tive hoje.


Acerca de Rosana Jatobá, grávida dos gêmeos Lara e Benjamin. Não sei pq, mas enquanto ela anuncia chuvas e secas, eu não conseguia olhar para o mapa, mas apenas para sua gigantesca barriga. Preconceituoso e neurótico? Com certeza, mas há algo de estranho em ver uma grávida expondo-se publicamente. Não sei como, mas Rosana Jatobá muito bem vestida no Jornal Nacional constrange, em 2010, quase tanto quanto Leila Diniz chocava de biquíni, na década de 70. E eu não sei por quê. E é animador que a grandiloqüente Rede Globo tenha já hoje a audácia de expor, e até comentar nacionalmente, a gravidez abençoada da “moça do tempo”. É quebrando paradigmas que uma empresa se coloca àfrente das demais.


Outro paradigma quebrado pela Rede Globo assisti hoje pela manhã. Este foi um dia típico, ou atípico, dependendo da localização geográfica de quem fala. Para uma interiorana caipira paulista, típico. Para um morador de um morro carioca atípico.


Para o leitor que desconhecer a que me refiro, uma anedota:


Como vc pode ter certeza de que a segurança púbica brasileira não existe?


– Quando o programa da Ana Maria Braga vira plantão policial.


Disse exatamente isso pra minha avó, acrescido dum:


- Será que ela não tem o programa dela pra apresentar? Dar receitas, dicas de decoração, falar sobre Princess Kate?

Pois é, diante da guerra urbana carioca, as receitas da globalmente engessada Ana Maria Braga são postergáveis: urge alertar sobre os ataques narco-terroristas, o que em outros tempos recairia à Record. Urge acrescentar aos da Globo que emasculam e tolhem à joaquinense Ana Maria: ninguém assiste ao “Mais Você”. Os telespectadores assistem ao programa da Ana Maria Braga, qual seja seu nome ou canal. E quanto mais “Mais Você” e menos o “programa da Ana Maria Braga” ele se torna, mais audiência perde.


O que isso tem a ver com meu machismo psíquico insuspeito? A repórter no Globocop. Enquanto a pesarosa Ana Maria Braga comentava os recentes ataques, passou a voz ao Globocop. Estranhei que fosse uma e não um a repórter a bordo. E eu não sei por quê. A feminilidade da jornalista de certa forma parecia fora de lugar num helicóptero, narrando o incêndio de um ônibus, às 8 e meia da manhã. E, mais uma vez, parabéns à Globo por colocar, achauvinisticamente, uma e não um repórter no Globocop. É transcendendo preconceitos que uma empresa de comunicação dita, e não acompanha, trending topics.


É curiosamente estranho quando uma mulher pretensamente libertária apercebe-se de seu próprio machismo insuspeitamente arraigado. E de como o frêmito verbal de expor isso pode nascer de um simples objeto empoeirado.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Causos escolares – a acometida por “chiliques”

Esta claramente não é uma “anedota” e por isso este termo não foi aplicado ao título. Nem é um “causo”, mas um drama indelével. Esta história não é pertinente apenas ao ambiente escolar, mas aos mais profundos questionamentos humanos da própria essência que nos separa, ou não, da animalidade.


O incesto é um tabu em todas as sociedades humanas, mesmo que nem sempre com o mesmo significado e amplidão. Descendências consangüíneas sabidamente levam à “degenerescência” e à eclosão de várias síndromes e anormalidades.


Recentemente, dois casos concernentes a este fato chocaram amplamente a opinião pública. Joseph Fritzl, o monstro de Amstetten (Áustria) manteve em cárcere privado por 24 anos e engravidou por 6 vezes sua filha Elizabeth Fritzl, num bunker anti-apocalíptico em sua própria casa.


Na miséria paraense, foi recentemente descoberto que o ribeirinho Agostinho Bispo Pereira mantera aberto concubinato com sua filha Sandra, engravidando-a por 7 vezes. As crianças, algumas deficientes, e a própria Sandra, foram encontradas em condições abaixo da miséria absoluta, em total isolamento e abandono. Ademais foi revelado que outra irmã mais velha que Sandra, também chamada Sandra, fora engravidada por este mesmo pai, e fugira de casa para escapar à recorrente violência sexual de que era e continuaria a ser vítima. Com a fuga da Sandra mais velha, o pai amasiou-se com a Sandra mais nova e menos corajosa, que aceitou ser seviciada por ver-se completamente despida de qualquer outra opção.


Essas notícias chocam, mas parecem distantes, filhas do narcisismo de um louco ou da perversão nojenta de um miserável analfabeto. Mas infelizmente o tabu do incesto não é algo tão longínquo, ou um desvio tão raro da norma. Sigmund Freud chocou a vitoriana elite vienense ao declarar que grande parte do motivo da histeria das moças da alta sociedade austríaca era devida ao fato de elas terem comumente sido abusadas sexualmente por seus próprios pais.


Analogamente, nos Tristes Trópicos lusitanos vigora a lenda amazônica do boto, que seduziria e engravidaria às jovens desavisadas. Sabe-se hoje amplamente que esta lenda mascara a prática equatorial de que “quem plantou a bananeira tem direito a colher o primeiro fruto”. Ou seja, que cabe ao pai iniciar sexualmente suas filhas pubescentes. Os frutos destes abusos são legitimados à comunidade como “filhos do boto”. E àqueles que estejam a desconfiar que escrevo isso para expurgar algum trauma próprio, impera ficar claro: nunca fui vítima de incesto.


Voltando às circunstâncias escolares que suscitaram este texto, relatarei os fatos acerca de M, a protagonista desta deplorável história real e tangível que cruzou minha prática professoral. M foi minha aluna na sexta série. Aos 16 anos, destacava-se por sua vivacidade e comentários espontâneos entre as salas da EJA, normalmente tumbáticas por seu silêncio e apatia. Em algumas reuniões de HTPC (hora trabalho pedagógica coletiva) fiquei sabendo que M era acometida quase que semanalmente por episódios convulsivos durante o horário escolar.


Um professor “alegre” comentou quase que anedoticamente que ao ver M cair ao chão e começar a debater-se, saiu correndo da sala de aula, saltitante e ágil tal qual uma gazela à vista do fogo na savana, gritando por socorro da direção completamente feminina, que compareceu para socorrê-los, enquanto ele permanecia amedrontado do lado de fora da sala, como se a apoplexia fosse transmissível.


Numa reunião posterior nossa coordenadora pedagógica disse em tom despreocupado, corriqueiro e quase risonho:


- É que vcs não sabem, mas já me contaram. A M é filha de um pai-avô. Parece que a mãe dela é amigada com o próprio pai, e tiveram vários filhos com problemas. Reparem na própria M como seus membros são desproporcionais e sua aparência um pouco “deformada”. Os socorristas dos Bombeiros, que já estão acostumados a atender à M, me disseram outro dia que o que ela tem não são verdadeiras “convulsões”, mas uma outra coisa neurológica, e por isso, mesmo que ela tome anti-convulsivos, eles não fazem efeito e ela continua a ter “chiliques”.


Chiliques”... Essa palavra, assim, tão trivial, no plural, sonoramente vulgar, denotando um “estado de nervos” opcional, internamente provocado, um faniquito, como o que uma criança mimada faz diante da frustração de ter seu imperioso desejo negado.


Chilique” é o que eu tenho diante de um burocrata que recusa-se a aceitar um atestado médico verdadeiro. “Chilique” e o que eu tenho com uma inocente operadora de telemarketing terceirizada ao ligar para cancelar uma fatura de cartão de crédito não-solicitado e nunca usado. “Chilique” é o que eu tenho diante do entregador de pizza que bate à minha porta com uma de pepperoni.


Chilique” com certeza não era o que acometia à M.


Permaneci chocada e muda por quase uma hora diante da revelação indiscreta da triste origem familiar de M. E não só com este fato, mas com o termo “chilique” dito assim, num compasso tão banal, desenhando uma sonoridade cruamente metálica, recendendo a ostras repulsivamente afrodisíacas, para referir-se a um ser humano inocentemente vitimado pelo maior dos pecados originais.


Como aprendi recentemente sob duras penas a controlar minha musculosa língua, permaneci calada. Medi física e moralmente a autora desta frase tão chocante. Mulher quarentona, com filhos pouco mais jovens que eu própria, vaidosa, bem-resolvida, animada. Já havíamos saído para confraternizar e embebedado-nos juntas. Considero-a até hoje uma amiga e uma boa companhia para um happy hour. Sua experiência pedagógica é quatro vezes mais extensa que a minha. Apequenando-me em minha inexperiência principiei tristemente a suspeitar que o motivo do tom corriqueiro daquela informação seria devido a ela já ter muitas vezes deparado-se com situações semelhantes de alunos frutos de incesto, o que para mim até então era, como aprendera teoricamente, um tabu universal respeitado por todas as sociedades pretensamente humanas.


Depois desta reunião nunca mais conseguir olha à M diretamente nos olhos, e nunca mais a divisei com o mesmo olhar. Sentia-me pungentemente constrangida por sua simples existência, a esfacelar uma das poucas certezas civilizacionais que me fora inculcada. Temia a cada aula quando seria eu a sorteada para testemunhar seu tormento inextirpável. Esta ocasião, fatalmente, apresentou-se; para enriquecer meu triste acervo de dramas humanos.


Certo dia, durante o intervalo de aulas, saí da sala dos professores para, entre os alunos da Educação de Jovens e Adultos, fumar um cigarro. Sentada na mureta, observava-os devorar o freqüente macarrão com salsicha de papelão, quase sem molho de tomate. Apaguei a bituca na caixa de areia e principiei meu trajeto de volta o recinto separado dos mestres, em cujo meio do caminho estava uma rampa, imperativamente colocada pelos ditames modernos da “acessibilidade”.


Em pé no topo da rampa, encostada a uma viga de metal, estava M, com o olhar insuspeitamente absorto. Vendo-me a meio metro dela, saudei-a com um despretensioso “oi, tudo bem?” Não me respondeu. Peguei nas minhas ambas suas mãos. Não reagiu. Sosla-lhe-ia.


Sosla-lhe-ia. Conforme asseguro-me de cada hífen neste termo, pergunto-me: (Que tipo de pessoa usa a palavra “Sosla-lhe-ia”, assim, corriqueiramente, com todos os tracinhos proibidos, num acento oitocentista?) Não sei que tipo de pessoa recai no uso de tal sintetização exata, sharp, germânica, digna de Ruy Barbosa. Mas, apercebida de que poucos leitores cogitem qual seria o vago significado de tal termo, o expando num arroubo descritivo algo machadiano para a melhor compreensão do movimento referido: (lentamente girei meus globos oculares viciados, divizando-a timidamente pelo canto dos meus olhos na esguelha janela oblíqüa não recoberta pelos óculos pendentes de meu rosto cabisbaixo, vendo vagamente seu vulto numa nuvem indistinta).


Gelei. Chegara-me a hora. Naquele milissegundo perguntei-me como agiria. Como uma gazela que foge ao incêndio ou como um símio superior supostamente sapiens ao quadrado, dotado de polegar opositor, "hombridade" e empatia? Naquele silêncio indizível, urgia optar: dirigir-me-ia com gritos e pernas aos meus superiores ou concentrar-me-ia, até o âmago de cada hífen, em M? Seria eu mulher suficiente para não furtar-me ao meu dever? Não de professora, mas de um ser humano, qualquer que seja, diante do seu próximo.


Orgulho-me de ter tido coragem. Retesei entre as minhas suas mãos disformes. Chamei-a suavemente: “M..., você está me ouvindo?” Imediatamente, principiou a desfalecer para trás, como se força faltasse-lhe às pernas. Segurei-a firmemente e lentamente a pousei no chão, enquanto ela principiava a debater-se.


Contorcendo furiosamente o pescoço, sacudia a cabeça de um lado a outro. Protegi-a. Gritei para que os alunos circundantes nos acudissem. Vieram rapidamente ajudar-nos e agarraram com força várias partes de seu corpo para que ela não se machucasse. Toda essa cena que demora largos minutos para ser lida descreveu-se numa parábola de 4 intermináveis segundos.


Vendo-me auxiliada, larguei suas mãos e coloquei sua cabeça entre minhas pernas. Só então gritei à toda por auxílio da direção. Acionados o 193 e o 192 passamos mais de 40 minutos no aguardo de socorro enquanto M sacudia-se intempestivamente, quase sem pausas, exposta à curiosidade pública no pátio da escola durante o “recreio”. Dezenas principiaram a acotovelar-se em nossa volta, roubando nosso ar, comentando abertamente a “atração” da noite.


Quando, finalmente, a ambulância chegou, a primeira pergunta do bombeiro costumeiro foi:


- Ela caiu e bateu a cabeça no chão?


- Não.


Acorri em esclarecer. Como poderia eu adjetivar estas três letras nasaladas? Talvez “triunfalmente”. Não tivesse eu naquele exato instante tido minha trajetória interceptada pelo olhar perdido de M, e tido a "feminilidade" ou "girl power" de tangê-la até o fim de minhas forças, ela teria rolado contorcendo-se rampa abaixo sem amparo, e talvez fatalmente.


Muito pouco eu posso fazer por M, e por vários outros alunos. Mas sinto-me feliz pois quando essa situação inadjetivável apresentou-se, agi com Humanidade e coragem. Talvez salvando uma vida que, para começo de conversa, nunca deveria ter existido.


Esta foi a terceira convulsão que testemunhei. A primeira foi de meu filho canis lupus angelicus Lucca; a segunda, de meu amado avô Vicente. Mas sobre esta ainda não me sinto prepararada para escrever, espero que compreendam o porquê.

sábado, 20 de novembro de 2010

Anedotas escolares – parentes presos e a féria comparada.

Esta é uma anedota escolar de humor negro, se é que tal expressão ainda não foi banida do léxico pela patrulha do politicamente correto... E para piorar, esta aqui data de meus tempos de FEBEM – Fundação CASA. Não como interna, mas como professora.


Como faz muito tempo, não me lembro exatamente do contexto que resultou na conversa. De toda forma, vi-me comentando com os alunos que antes de trabalhar ali eu nunca havia conhecido ninguém que tivesse sido preso. Eu disse isso de forma completamente informal, sem suspeitar a reação que tal sentença acarretaria neles.


Desacreditaram completamente. Olhos arregalaram-se, sobrancelhas arquearam-se, troncos retrocederam, mãos encontraram queixos.


- Como assim, “você nunca conheceu ninguém preso” ? Impossível!!! Nenhum irmão? Nenhum tio? Nenhum primo? Nenhum... cunhado? Nenhum... namorado? Nenhum... vizinho?...


Eles sucediam os adjetivos de relação enquanto eu meneava negativa e sucessivamente a cabeça. Após alguns instantes de silêncio um deles disse em tom de malandragem:


- Ah, com todo o respeito, a senhora tá passando um 171 prá nós, mas tudo bem, não quer contar, não conta.


“171” refere-se ao artigo do Código Penal brasileiro referente ao Estelionato, crime dos falsários e golpistas. Não me ofendi; mas, eu não estava a mentir. Nunca havia conhecido até então ninguém que tivesse estado preso. A única vez que eu mesma entrara em uma delegacia fora como vítima, para fazer o B. O. (Boletim de Ocorrência) de um furto que sofrera. Já havia entrado num presídio sim, no Carandiru desativado, no curto espaço de tempo em que esteve aberto à visitação pública antes de ser implodido.


Mas para os internos da FEBEM é inconcebível uma família que não tem problemas com a Justiça pois para todos eles os problemas com as leis são familiares e, como denota sua condição de menores infratores, herdados pelos mais jovens.


Todos eles têm algum pai, irmão, tio, primo, cunhado, vizinho, preso ou ex-presidiário. Muitos deles enquanto crianças acompanharam suas mães em visitas aos presídios e agora são eles próprios os visitados por elas no sagrado dia de domingo.


Para muitos deles o tráfico é apenas um ramo extremamente lucrativo do comércio. Ou até um negócio familiar, passado de geração em geração. Para muitos o roubo é apenas uma forma fácil de ganhar a vida. Um deles chegou certa vez a jogar-me desafiadoramente à face:


- O que a senhora ganha num mês eu roubo num dia.


Está certo. Para quem nunca teve ninguém que lhes ensinasse o valor da honestidade. Que lhes demonstrasse o preço em suor que todo trabalhador honesto paga por dormir tranqüilo à noite sabendo que a polícia não o arrancará de sua cama com algemas. Para alguém que nunca viu ninguém “crescer na vida” à custa de estudo e esforço.


Para eles todo aquele que ganha um suado dinheiro trabalhando é um Zé Mané, pois é tão mais fácil simplesmente coçar o mês inteiro e bater uma ou duas carteiras... Ou talvez ao invés de ralar por uma féria de uns R$40,00 no trabalho braçal, fazer algumas entregas de entorpecente ganhando muito mais.


É, talvez a Zé Mané seja eu. Mas prefiro suar meu dinheirinho mixo e dormir tranqüilamente à noite sabendo que se a polícia me abordar será com um “Com licença, senhora” e não com um “Perdeu, malandro!”

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Anedotas escolares – a mãe pelada

A historieta seguinte tornou-se um causo folclórico na escola onde se passou. Esta escola em particular tem uma obscessão foucaltiana a respeito do uniforme escolar.


Além da blusa de gola polo do uniforme, que não pode ser customizada, são obrigatórios calça jeans azul denin, em lavagem média, pois se for clara ou escura demais pode não ser considerada “da cor do uniforme” e tênis com meia, sem boné. Pode parecer bom, mas em Rio Claro, em 70% da duração do ano é torturante tal qual uma burka no deserto a calça comprida de tecido duro, o tênis necessariamente fechado com meia e a suadeira gola polo.


Como professora, com certa liberdade de usar regatas, sapatos abertos e até bermuda, muitas vezes sinto pena dos alunos abanando-se em suas blusas mauricinhas, ou enrolando para diminuir em alguns centímetros a barra das calças pesadas. Não sou contra a uniformização dos alunos, apenas é visível a inadequação deste modelo do uniforme às condições climáticas tropicais. Também é questionável a falta de opção por uma bermuda escolar, como existe em praticamente todas as escolas estaduais.


Às vezes é com especial ênfase que no capítulo sobre Fascismo alerto aos alunos que essa questão da uniformização é, em toda a expressão do termo, uma política fascista. E que este simples fato, numa sociedade pseudo-democrática pós-68 já é argumento mais do que decisivo numa discussão. A qual infelizmente eles não têm mobilização coletiva para empreender...


Em outras escolas, normalmente a única peça exigida do uniforme é a blusa. A parte de baixo pode ser calça ou bermuda, de qualquer cor (mesmo as mais berrantes, como agora anda em voga na onda dos “coloridos” pós-emo). Nos pés, não se legisla sobre as meias, e todo calçado é aceitável, até os de saltinho que as meninas gostam de exibir já na quinta série, ou até antes... Bonés, em algumas escolas são liberados, em outras não, à guisa da direção. A respeito de roupas, tenta-se apenas interferir quando há algo muito curto, como uma mini-saia.


É claro que na escola que gosta de Vigiar e Punir exercendo até a última gota da Microfísica do Poder os alunos encontram suas maneiras de respeitar e burlar as regras ao mesmo tempo. Meninos expressam-se nas meias berrantes, tênis esdrúxulos, cabelos em moicano-Neymar ou lambido-Justin Bieber e mochilas pichadas freqüentemente com o “espiritual” símbolo do Yin e Yang e o singelo acróstico PJL. PJL refere-se ao lema “Paz, Justiça e Liberdade”. Para os mais desinformados, estes são estandartes do PCC, Primeiro Comando da Capital, “organização criminosa que age dentro e fora dos presídios paulistas”. Aparentemente este “fora” inclui servir como ídolo de rebeldia nas escolas estaduais...


As meninas compram a blusa do uniforme em número bem menor, de forma a forçar um modelo “baby look” e usam sob a peça branca soutiens coloridos e estampados, que destacam-se sob o tecido barato semi-transparente denunciando desejos de apelo sexual adolescente. Ostentam brincos, prendedores de cabelo, relógios, bolsas e afins bem chamativos para diferenciar-se na uniformização imposta. Ademais costumam, às escondidas, enrolar a barra da blusa para deixar a barriga de fora.


Nessa circunstância uma aluna da sexta-série foi flagrada por uma burocrata sedenta de reafirmar seu poder. A menina gelou enquanto percebia um sorriso sádico desenhando-se no rosto da não senhora, mas Dona. A burocrata, fingindo estar chocada, pegou a menina pelo punho e a levou à antessala da vice-direção. Adentrou velozmente o recinto e interrompendo a subalterna ao telefone sentenciou em seu comum tom severo:


- Encontra agora a mãe dessa menina e diz para ela vir buscar ela hoje pq elas vão ter uma conversa séria comigo. Olha a roupa dessa menina, vê se pode, barriga de fora!


A garotinha permaneceu o resto da tarde de castigo por ali, observando o vai-e-vém da secretaria. Ao chegar o horário da saída, teve que esperar mais uma larga hora para que sua mãe saísse do trabalho e chegasse à escola. A burocrata subalterna que a vigiara observou quando a mãe apareceu e principiou a subir as escadarias.


Menos de 30 anos, cabelos desgrenhados presos numa piranha, blusa surrada de alcinha fina que deixava de fora o soutien barato de pseudo-renda vermelha, não chegando a cobrir-lhe o umbigo. Exibia sua flácida e desbotada barriga tigrada. Trajava shorts de stretch cujo modelo, desculpe a referência chula, poderia ser descrito como “do Tchan” por evocar o uniforme das dançarinas da boquinha da garrafa. De sua postura emanava um odor amilscarado de vulgaridade indisfarçada.


A sub-burocrata encaminhou rapidamente mãe e filha para a sala da chefona exibindo às costas delas um certo sorriso sádico. Não por elas, mas pelo carão, que infelizmente não poderia divisar da “Big Boss” ao conferir o naipe da mãe da garota. Coisa rara, a enérgica e prolixa veria-se despida de palavras. Cena mais do que anedótica.


Se a mãe se apresenta para uma reunião com a diretora da escola de sua filha não só com a barriga, mas também praticamente com a bunda de fora, seria certamente cavar na água todo o sermão sangüíneo e enfático que estava na ponta de sua língua e uma divertidíssima comédia de erros a cena que se desenrolaria a seguir.


Diante da mãe “pelada”, que se poderia dizer à filha com uma banal barriga de fora?

domingo, 14 de novembro de 2010

Anedotas escolares – o fodido e a almoçada e jantada

Na minha prática profissional como professora, conheço a cada ano letivo centenas de alunos. Muitos se destacam por motivos curiosos, e são personagens de histórias anedóticas. Elegi duas histórias para inaugurarem esta que espero seja uma série de publicações divulgando essas reflexivas intermitências da vida que acidentam a trajetória mesmo dos mais jovens. Em comum estas duas têm o fato de não terem sido acompanhadas por mim, mas relatas por colegas de trabalho em meio a conversas sobre a desilusão conjunta com nossa profissão. Apenas para fins de facilitar a compreensão das pessoas verbais a reger cada verbo, as relatarei em primeira pessoa.


Estava a comandar uma reunião bimestral de pais quando percebi que, surpreendentemente, a mãe de um dos meninos-problema da sala comparecera, acompanhada do filho. Isso surpreende pq a participação nas Reuniões de Pais e Mestres é eletiva, e portanto normalmente comparecem apenas os pais engajados e preocupados com a educação de seus filhos. E normalmente os filhos de pais presentes não dão problemas na escola e seus pais nem precisariam comparecer à reunião. Raríssimo é o comparecimento do responsável por um adolescente com notas baixas e indisciplinado.


Todos nós professores sabemos que grande parte da razão por estes adolescentes serem problemáticos é o fato de que seus irresponsáveis não dão a devida atenção nem acompanham o desenvolvimento psicológico e escolar de seus filhos. Eles não são educados por não serem educados. Redundância maluca? Não, explico: eles não têm educação por não terem ninguém que os eduque. Com a displicência desses pais sofrem os filhos, os professores, os colegas de sala e, quem sabe no futuro, toda a sociedade que é vitimada pela delinqüência juvenil e violência adulta.


Mas voltemos à reunião. Ao dispensar os outros pais, solicitei que a mãe supracitada, contando menos de 30 anos, permanecesse mais um instante com seu filho, para um particular. Sentei-a ladeada pelo menino cabisbaixo e por mais de meia hora aconselhei-a a ser mais atenta, dar-lhe mais carinho, acompanhar suas notas, olhar todos os dias seu caderno; enfim, tentei de alguma forma despertar nela da mais positiva maneira possível o que deveria ser sua obrigação. Falei sobre o mau comportamento do menino, na presença dele, que progressivamente dobrava-se mais e mais contra si, sem me olhar nos olhos, em total silêncio. Ao concluir o, temo, “sermão” sobreveio o detalhe que torna esse causo uma anedota. A mãe virou-se para o filho e sentenciou em tom solene:


- Você viu que se você continuar assim você vai se foder, né?!


Chocada e atônita, dispensei-os com um “boa noite” e a mão estendida. Se o menino ouve da boca da mãe dele, de forma tão corriqueira, a expressão "vai se foder"; quem sou eu, uma mera professora que está com ele e mais 35 outros por apenas 2 horas e meia por semana para convencê-lo de que é impróprio mandar o coleguinha ir se foder? Ora, se a mãe dele manda ele ir se foder com toda a tranqüilidade, é mais do que compreensível que em seu universo de parâmetros tal expressão seja mais do que normal e aceitável...



O “causo curioso” a seguir, compreendam como se narrado por uma diretora de escola.


Estava numa reunião burocrática e chata com os professores, como aquelas a que é imperativo comparecer 3 vezes por semana em toda escola estadual. Uma professora pediu para ter um aparte comigo. De pé, do lado de fora da sala da reunião a professora relatou estar muito preocupada pois ouvira rumores de que a aluna L., de 13 anos, na sétima série, estava grávida. De complexão infantil, L. destacaria-se entre as já há muito tempo comuns gestantes adolescentes a freqüentar a escola. Dirigi-me à Secretaria e encarreguei às funcionárias de localizarem o responsável pela menina e que marcassem uma hora para conversar comigo sobre a garota.


Naquela mesma semana recebi a mãe da adolescente, uma moça humilde, de menos de 30 anos, provavelmente precocemente sofrida e com vida muito difícil, como transparecia em seu semblante mal-cuidado, seu cabelo desgrenhado, suas roupas baratas amarrotadas e suas alpargatas genéricas. Convidei-a a sentar-se e iniciei a conversa diretamente abordando a questão da gravidez:


- Bom, não sei se a senhora já está a par deste assunto, mas chegou ao meu conhecimento que a sua filha da sétima série está grávida. A senhora sabe como isso aconteceu, se ela tem namorado, quem seria o pai desta criança?


Como quem comenta a cotação dos legumes na feira, a “mãe” disse da forma mais “normal” e completamente despida de qualquer entonação que denotasse qualquer emoção:


- Ela não tem namorado não, mas eu até já sei como isso aconteceu. Há uns tempos atrás eu conheci no bar e abriguei lá em casa por uns dias um andarilho. Depois fiquei sabendo que ele tinha almoçado e jantado a L. Mas não dá nada não, nasce e a gente cria.


O que mais haveria a falar? Se para a mãe “não dá nada” o fato de sua filha de 13 anos ter sido violada por um morador de rua na própria casa e encontrar-se agora grávida; que poderia a burocrata encarregada de assinar e carimbar papéis fazer? O que poderia a escola fazer por L.? Enviá-la ao Conselho Tutelar para ser abrigada e tratada anonimamente, quiçá até pior que na casa de sua mãe? Para a realidade daquela mãe, de fato é corriqueiro meninas de 13 anos verem-se grávidas de crianças que jamais teriam sequer a sombra de um pai. Ou de um futuro diferente do de suas próprias mães.


Assim retro-alimenta-se a miséria da filha mais velha da última flor do Lácio, também conhecida como "o quinto dos infernos", de onde Deus seria nativo... Não são fáceis as respostas para os educadores confrontados com a miseravelmente triste realidade da “clientela” da escola pública brasileira.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

De Robert Rey – Júnior e Sênior.

Hoje assisti a um episódio, que eu já vira, de Dr. 90210, Dr. Hollywood, no qual o renomado cirurgião plástico Robert Rey Jr. retorna ao Brasil para encontrar seu pai alienado. Não pq fosse louco, mas por havê-lo abandonado. O que despertou minha atenção a ponto de citar referência televisística tão aparentemente fútil foi a cena do telefonema.


Após haver-se encontrado com seu pai idoso e contrito, Dr. Rey ligou para sua plasticamente perfeita esposa, que o atendeu em sua mansão em Beverly Hills. Cena tocante e profundamente humana, Robert narrou que encontrara em seu pai um homem arrependido, que articulara com todas as palavras “eu te amo”, coisa inaudita, e dissera-se orgulhoso do filho. Robert Rey disse:


- A weight has been lifted off my shoulders. I, definitelly, got closure. I think that anger is gone.


- Um peso foi tirado dos meus ombros. Eu, definitivamente, consegui “colocar uma pedra” sobre este assunto. Acho que aquela raiva se foi.


Hayley, em sua beleza solar, testemunhou entre sorrisos efusivos a seguir ao cameraman:


- Robert me soou tão diferente ao telefone; mais leve. Estou surpresa com a atitude do pai dele, e acho que esse reencontro lhe fez muito bem. Se ele já era um bom marido antes, agora, então, será um casamento maravilhoso!


O tocante nisso tudo foi perceber que mesmo a um cirurgião plástico mundialmente reconhecido, profissionalmente realizado, midiaticamente celebrizado, bonito, bem casado, pai amado, financeiramente muito bem situado, ainda havia algo a limitar-lhe a extensão do riso. Algo que nenhum dinheiro, carro, mansão, adulação, confetti, esposa amorosa ou paciente famoso poderia remediar: o mal-estar sobre sua origem.


Robert Rey Júnior nasceu no Brasil e por razões que com certeza ele expôs e eu não vi por não suportar assistir às cenas cirúrgicas freqüentes em seu programa, foi entregue em adoção a missionários mórmons. Realocado nos EUA, conseguiu por seu mérito intrínseco graduar-se em Medicina e estabelecer-se como cirurgião plástico na Califórnia. Estimulado ou não por transcender seus determinantes geográficos, criou através de seu expertise um amplo renome a ponto de ser convidado a estrelar um programa estilo reality-show no qual expõe não só sua prática profissional, mas também sua vida doméstica. O que acabaria por proporcionar-lhe o reencontro que tanto temia e ansiava.


Foi eloqüentemente humano intuir a cena posterior daquele Homem em seu luxuoso e solitário quarto e hotel dobrar-se e chorar como um bebê ao reelaborar e ressignificar as lembranças que sempre haviam nublado sua vida, de que fôra um filho preterido e descartado. Após ver em seu Sênior uma postura mesérica ele finalmente poderia começar a aceitar em sua plenitude as sedas que seriam-lhe (e seguramente serão) rasgadas no futuro.


Finalmente poderia, retornado à Califórnia, abraçar seus oníricos esposa e filhos sem o fantasma familiar que murmurava-lhe continuamente ao pé do ouvido que ele não merecia ser feliz.


Senti-me empática e catarticamente feliz com Robert Rey por haver encontrado nos lábios de seu pai curvado pelos anos pedidos de perdão, declarações de arrependimento e quiçá, até, um certo amor. Embora nada disso apague o passado sofrido de Robert, a partir desta cena, talvez, aquela sensação claudicante de desconforto cesse de aguilhoar as realizações incontestáveis que talvez ele só tenha sido desafiado a alcançar pela necessidade de auto e exo afirmar-se valoroso e digno de reconhecimento.


Talvez, não tivesse o desalmado Robert Rey entregue seu Júnior em adoção, Dr. Robert Rey não seria médico, nem rico, nem casado com a belíssima Hayley. Talvez fosse ele apenas mais um paulistano meio remediado, em algum sub-emprego, casado com alguma Aparecida ou Edilene. Seria ele mais feliz?


Não sei, apenas percebi que nenhum milhão de dólares poderia dar a Robert Rey o alívio que seu pai proporcionou-lhe ao suplicar, humildemente, perdão. Apenas quando quem o feriu pediu perdão ele pôde, finalmente, perdoar. E largar à beira da estrada o pesar daquela dor, mesmo muito antiga. Superar seus traumas e exorcizar seus fantasmas. Para poder finalmente parar de ruminar o passado e passar a projetar, livremente, o futuro.


Muitas coisas não têm preço. Pelos menos as mais importantes na vida.

sábado, 6 de novembro de 2010

Prosaica elegia de Jade e Lucca.

Hoje excede-se uma semana do falecimento de minha pequena e querida cachorrinha Jade, canis lupus angelicus. Para honrar sua acidentada e ilustre memória, expurgar e elaborar minha dor pessoal, escrevo este que, espero, sirva-lhe como justo obituário.


Sei que um animal de estimação é especial apenas para os que o acalentam e são abençoados diretamente por seu amor, e sei que poucos se interessarão pela leitura das memórias de um cão, mas prossigo e o divulgo mesmo assim, visto que minha preciosa Jade o merece, e muito mais.


Jade apareceu em minha vida no ano de 2002. Linda e extremamente dócil poodle branquinha, foi encontrada, prenhe e faminta na rua da amargura por uma amiga de minha irmã Patrícia da Silva Ramos. Na casa desta moça cujo nome nunca soube, Jade deu à luz sua ninhada vira-lata e na totalidade nati-morta. Por conta disso desconfiamos que Jade haveria sido envenenada para abortar a cria indesejada e, ao não abortar, seus donos a teriam simplesmente posto na rua. Essa desconfiança foi avolumada por sua foto ter sido divulgada largamente na região sul de São Paulo, caso seus anteriores proprietários a estivessem a buscar. Nunca houve ninguém à sua procura.


Como a moça que a acolheu prenhe não podia permanecer com ela, minha irmã a trouxe à nossa casa, à rua João Migliari, número 4, no Tatuapé. O motivo disso seria ela servir como esposa ao nosso pet, Lucca, que nos foi entregue por meu ex-sogro Aparecido Donizete de Faria como poodle, mas que sempre desconfiamos ser Bichon Frisé, apesar de sua trufa rosada.

Lucca sempre foi o cachorrinho mais esperto, carismático e fofo que conheci. Encantava a vizinhança até com seus latidos. Sentado à janela observando o movimento, muitos transeuntes surpreendiam-se com seu ânimo por julgar, à sua estática, tratar-se de um bicho de pelúcia. Angelicamente alvo, com o pelo macio e liso, toda sua cútis era lindamente rosada e seus olhos castanho-claros rajados em verde, numa cor que poderia ser chamada de “hazel”. Pobrezinho, era “monoball”, tinha apenas um testículo, que parecia uma cerejinha, pequena, róseo-carnal, e pensávamos, infértil.


Quando conheci Jade, a primeira coisa que notei foi sua eloqüente magreza. Via-se-lhe as costelas. No momento seguinte surpreendeu-me sua docilidade. Eu nunca havia conhecido cachorrinha mais afável, humilde e à margem do pedantismo carinhosa. Exsudava agradecimento por termos acolhido-a. Não tinha nome. Aprazer-me-ia chamá-la Marcela, o que foi execrado. Por fim, foi decidido que seu nome seria Jade, para fazer par com o Lucas, pois vivíamos a época da novela “O Clone” de Glória Peres, na qual o casal principal era o emasculado Lucas (Murilo Benício) e a sofrida Jade (Giovanna Antonelli). E Jade tornou-se. Igualmente desconhecíamos sua idade. Uma veterinário orçou-a em 4 anos, que era a idade de nosso Lucca. Passei então a considerá-los como da mesma ninhada, e a celebrar o aniversário de ambos no natalício de Lucca, 24 de novembro de 1998.


Ao chegar, Jade tinha uma fedorenta infecção auricular que fazia brotar em seus ouvidos uma cera marrom, terrosa. Jade não me conhecia. Tomei-a em meus braços e disse-lhe:


- Sou tua mamãe-sogrinha. E apesar de ser tua sogra, me comportarei com você como uma verdadeira mãe.


Ela confiou em mim e sinto-me grata a Deus por ter me facultado honrar essa promessa, sustê-la, acarinhá-la e pensar suas feridas, até seu último suspiro, como se minha filha carnal fosse. Ou até melhor. Sem me conhecer, Jade permitiu, mesmo aos ganidos, que eu tratasse e limpasse suas doloridas orelhas, sem em nenhum momento sequer cogitar rosnar-me ou morder-me. À essa época percebi uma das poucas coisas que foi possível apreender de sua vida pregressa: Jade seguramente ao longo de toda a sua vida havia sido banhada apenas em pet shops, pois ao contrário de nosso Lucca comumente higienizado no tanque, Jade era incapaz de secar-se sozinha. Ao colocar Lucca molhado sobre a toalha, ele se esfregava quase institivamente secando-se por si só. Jade permanecia parada, nos fitando como quem diz, sem nenhuma arrogância:


- Pode vir terminar o serviço. Vou ficar quietinha.


Quando Jade entrou em seu primeiro cio em nossa casa Lucca era virgem, pobrezinho. Conheceu então o amor. Jade era uma cachorra que, brinquei à época, era meio piranha. Parecia apreciar muito o coito. Enquanto Lucca descansava extenuado, com seu pequeno pipi escoriado, inchado e avermelhado, Jade esfregava-lhe ao focinho sua “pitrica” insaciável. Fartaram-se livremente no amor canino que, surpreendentemente, resultou numa linda ninhada de 5 filhotes: 3 machos e 2 fêmeas; 2 de pêlo liso, 3 de pêlo enrolado; todos de trufa negra, como Jade.


Fomos tomados pelo maravilhoso encanto que é ter uma ninhada de filhotinhos em casa. Jade ficou meio enervada com a presença de Lucca perto dos filhotes, e o tomei para passar uma temporada em meu apartamento do outro lado da rua do famoso bar “Rei das Batidas", próximo à Cidade Universitária da USP, bairro do Butantã, São Paulo, SP, Brasil. Esses dias foram os mais ternos que tive com meu filho Lucca, que me teve então como única provedora.


Minha melhor lembrança com Lucca data desta época. Num final de semana coloquei-o na mochila, peguei minha bicicleta e pedalamos até à USP, Lucca mesmerizado pelo vento suave em seu focinho, complexamente recendendo à Marginal Pinheiros. Telepaticamente transparecia um inefável êxtase olfativo, da forma que apenas um criador-canicultor-pedagogo-adestrador-pigmaleão que sabe-se demiurgo do desenvolvimento cognitivo “humanizado” de um animal de estimação sabe compreender e interpretar. Na Praça do Relógio, Lucca correu à toda, rolou na grama, sentiu aromas inéditos, pulou e sentiu-se completamente livre. Desfrutou a plenitude de saber-se um cão realizado e feliz, belo, maduro, casado, amado, protegido e até mimado, com filhos pequenos e prosseguimento biológico garantido, no auge do que poderia chamar de “vida”.


Lucca era muito inteligente. Compreendia uma ampla gama de palavras, sons e entonações. Jade não. Saltava aos olhos a diferença de “inteligência” entre ambos. Jade era meio “burrinha”. Mas seu coração e boa disposição animal eram gritantemente melhores que os de Lucca, ou de Whiskey (ou Uísque), outro poodle da família estendida. Intratável e intragável, pois fôra redundantemente mal-criado por minha outra irmã, Cristhiane da Silva Ramos e minha avó Shirleÿ Alves da Silva. Ao contrário de Lucca, que pude trabalhar e desenvolver desde a mais tenra infância (chegou-me minúsculo, com menos de 1 mês). Com Jade, que chegou-me adulta, nunca pude desenvolver uma comunicação quase que intuitiva, como tinha com Lucca. Talvez apenas em seus últimos meses, quando ela se viu completamente dependente de meus cuidados gerontológicos paliativos, rendida ao decreto inexorável do passar do tempo.


Seus filhotes foram doados. À época foi cobrado de seus adotantes, indicados por nossos conhecidos, apenas R$ 80,00, referentes à excisão do rabo e à vermifugação. O último a permanecer em nossa posse, de personalidade cativante e encantadoramente irrascível e impertinente, foi alcunhado de “Marrudinho”.


O próximo ato destas duas ilustres trajetórias domésticas é o triste interregno que resultou no falecimento de Lucca, aos 5 anos, em 12 de dezembro de 2003. No final de semana anterior eu havia viajado para Campos do Jordão. Ao voltar, no domingo, Lucas estava baqueado; e urinava sangue. Na segunda foi levado ao veterinário do bairro. Não melhorou. Na mesma semana, não me lembro se na própria terça ou na quarta foi levado ao Hospital Veterinário da Universidade de São Paulo, da qual eu era aluna na FFLCH.


Primeira suspeita: leptospirose hemorrágica. Ao olhar para a proeminente barriga de grávida de Patrícia, a veterinária murmurou em tom assustadoramente soturno:


- Essa doença é contagiosa e se contraída por humanos pode ser abortiva.


A resposta de Patrícia foi afagar Lucca mais uma vez, com seus olhos profundos e coração cauterizado. O HV funcionava apenas em “horário comercial”, não havia internação, portanto a cada dia tínhamos que levá-lo de volta para a Zona Leste, mesmo que não tivesse melhorado. Num dia seguinte dessa semana, após fazer ultrassons e exames de sangue, o pequeno Lucca foi diagnosticado com anemia hemolítica auto-imune. Seu sistema imunológico estava atacando seus glóbulos vermelhos. Entrou em falência renal e, percebam, em 2003, numa das maiores metrópoles do mundo, não havia um único estabelecimento que oferecesse hemodiálise veterinária (Hoje até o há, cobrando milhares a sessão). Em seguida, Lucca entrou em falência hepática. Sua suave pele rósea passou a exibir um matiz sepulcral, num doentio amarelo-esverdeado, quase que neón.


Na tarde daquela sexta-feira eu tinha prova do professor Doutor István Jancsó, que foi meu orientador na Iniciação Científica. Naquela noite o meu grupo de amigos da faculdade celebraria o final do semestre numa festa à beira da piscina no prédio da Bela, nossa amiga também jornalista Gabriela Zini Megale. Por conta disso eu saíra de meu kitnet trajando sob a roupa meu biquíni verde-água, pois esperava que Lucca permanecesse estável e eu pudesse comparecer ao evento.


Terminando afoitamente a avaliação, peguei o ônibus circular e acorri à Veterinária. Lucca, com o soro na veia, repousava tranqüilamente na maca. Patrícia, cabisbaixa, sentada à sua cabeceira. Aproximei-me dele e, acariciando-o, dirigi-lhe palavras doces, familiares entre nós. Para meu horror ele começou a contorcer-se estranhamente, de uma forma que eu nunca vira, nem sabia ser possível. Os veterinários vieram prontamente socorrê-lo. Patrícia principiou a chorar. Eu, chocada, surpresa e atordoada, não sabia o que se passava e murmurei algo neste sentido. A pingar lágrimas em olhos cor de vinho, Patrícia exclamou:


- Você não está vendo que ele está tendo uma convulsão?!



Eu não estava vendo pois eu mal sabia o que era uma convulsão. Para mim isso era coisa exclusiva de epilépticos. Patrícia é fisioterapeuta e compreendia muito melhor do que eu a fragilidade da saúde de Lucca àquela altura e a evidentemente manifesta premência de sua morte. Deixei então de lado o projeto de comparecer à festa supostamente imperdível pois marcaria o “encerramento do semestre”. Perdeu imediatamente diante da cena que eu testemunhava qualquer relevância ou atraência. E neste instante o biquíni incógnito que eu trajava principiou a constranger-me maculando, como a insistente nota dissonante de um instrumento mal afinado, aquele momento que desvelava-se o começo de um drama definitivo.


Findou a tarde e Lucca estava como que em coma. Precisaria de uma urgente transfusão de sangue. Não havia, sub-desenvolvidamente, banco de sangue canino na mais populosa metrópole da América do Sul. Patrícia havia arranjado para o dia seguinte um cão grande para servir de doador, por parte de seu namorado, pai de minha sobrinha Ana Letícia Santos, então em gestação. Ao nos aprontarmos para levar Lucca para casa testemunhei parcialmente quando a veterinária entregou a Patrícia uma injeção, creio hoje eu que de morfina ou similar. Elas conversavam em tom baixo, em um canto, e depreendi que estavam a fazer algo “off the record”, if you know what I mean, pois a veterinária tinha diante de si uma interlocutora que era uma profissional da área médica.


Entramos no carro, Patrícia dirigindo e eu no banco de trás com Lucca no colo, em posição quase rígida de descerebração. Ele não estava em condições de passar a noite em casa e o levaríamos a uma clínica veterinária 24 horas no Tatuapé para ser assistido durante a noite. Naquele longo poente sofri excruciantes excedentes a 3 horas de congestionamento quelônio na Marginal Tietê. Lucca pungia em meus braços, num certo limbo entre o vivo e o moribundo. Defenecia. Seu ânimo parecia vazar-lhe e desvanecer a cada respiração.


Após algumas horas de deixado na clínica, ligaram para informar que Lucca falecera. Chorei desesperadamente, de forma quase pietàica. Jade agora viúva e castrada permaneceu morando naquela casa até que sob algum pretexto de inconveniência material foi remetida para morar em Rio Claro, onde faria companhia ao egocêntrico e neurótico Uísque.


Conheceu então o amargor do abandono pela segunda vez. Foi com hospitalidade veterotestamentária acolhida por meu avô major Vicente Novais da Silva, a exemplo de todos que tenham algum dia recorrido ao seu generoso coração. Quando eu vinha a Rio Claro percebia que Jade, que conheci emaciada, estava agora, de forma até preocupante, obesa. Fartava-se na atenciosa e apetitosa alimentação que meu avô, Morzinho, devotada e diligentemente praticamente deglutia, bem picadinha, em sua gamela e na de Uísque, que estava mais para anoréxico em sua neurose idiossincrática e indelével, apesar de meu esforço posterior. Muitos há interessados no legado material de meu Papica. Já no legado de sua estima, apenas eu. Triste perceber como a poucos engaja honrar a memória de seus mortos.


Em 15 de dezembro de 2006, ao concluir meu bacharelado e licenciatura em História na USP, realoquei-me em Rio Claro, para morar com meus avós maternos, os únicos que reconheço. Meu avô, acometido por câncer na próstata, vivia seus últimos dias. Faleceu no primeiro de fevereiro próximo. Vi-me então moralmente incumbida de cuidar dos seres que meu querido Moreco estimava. Além de sua viúva, minha avó Tula, passei a cuidar de duas samambaias decenárias, um papagaio que me vira nascer, um canário alaranjado que batizei “Frank Sinatra” (que permanece entre nós), Jade e Uísque.


O papagaio Chico, já meio esclerosado e decibéricamente inconveniente, irritante, obstinado e constrangedor perante a vizinhança, foi encaminhado ao viveiro/santuário de um veterinário da região, sem minha interferência ou conivência. Uísque idoso faleceu suavemente após uma curta convalescença de 3 dias. Após 3 anos de convivência comigo, observando a confiança e o bom trato que eu dispensava à sua obsessivamente idolatrada Jade, ele já permitia-me há muito tempo banhá-lo com a água fria da mangueira e até ensaboá-lo, com certa precaução às “áreas nobres” tão preciosas a uma macho inseguro como ele. Uísque em sua terceira idade permitiu-me manipulá-lo, para fins de higiene ou simples carícia, de uma forma que jamais permitira à sua pretensa pseudo-mãe, a anti-fraterna e atavicamente mal-resolvida Cristhiane, que o comprara por alto preço, com pedigree, filho de pai inglês. E que o deixara rapidamente para trás à primeira inconveniência material.


Jade permaneceu entre nós por mais um ano excedido, quase cega e quase surda, pele assustadoramente manchada por seu hábito de tomar longamente o sol matinal. Olhos secos e irremediavelmente inflamados, secretando uma gosma lipídica algo amarela. Cresciam-lhe reiteradamente verrugas, que ela feria ao roçar nos móveis, estando habitualmente manchada de sangue em algum ponto de seu corpo. Desde sempre tinha o hábito de coçar-se constantemente, a ponto de supliciar-se.


Dog spins to itch bottom - Cachorra gira para coçar a bunda


A respeito da coceira, sempre foi dito por veterinários que seriam pulgas ou irritações cutâneas e ela foi algumas vezes tratada com inseticidas veterinários, sabonetes e xampus terapêuticos. Nada fez efeito. Sua coceira inclusive incomodava o sono, não só dela, mas de minha avó, com quem repousava. 3 meses antes de ela morrer, ao ir buscá-la após o banho e tosa no pet shop que freqüentava há muitos e muitos anos, a dona do estabelecimento me interpelou a respeito da coceira compulsiva de Jade. Pronunciou experimentadamente segura, entre hesitante e indignada:


- O veterinário não prescreveu Meticorten? Em casos de alergia como esse, é o que resolve.


Furtei-me ao prosseguimento da conversa, constrangida que estava por sentir-me criticada como uma mãe desmazelada. Nenhum veterinário nunca havia mencionado a possibilidade de tratar-se de uma alergia. No mesmo dia comprei o remédio e o administrei conforme o peso calculado de Jade, 10 kg. Magicamente, ao final do segundo dia de ingestão do antialérgico Jade, simplesmente, parou de se coçar. Senti um misto de alívio e frustração por perceber que teríamos podido, há muitos anos, aliviar o persistente incômodo que a afligia, com uma coisa tão simples quanto administrar-lhe um medicamento acessível a poucas quadras de nossa casa, onde quer que ela fosse. No Brasil existem mais farmácias do que padarias. E por que aquela senhora nunca havia me alertado antes?! Resignei-me depois em não mais me torturar de forma vã a vazia a respeito disso, e de tantos outros pesarosos fardos. Às vezes as coisas se passam exatamente do jeito que têm que ser, apesar de qualquer esforço que esteja a nosso alcance. Assim foi a passagem de Lucca, jovem; e de Jade, idosa.


Não pretendo levantar a bandeira anti-alopática, mas após começar a administração deste remédio que tanto a aliviou, sua saúde rapidamente se deteriorou. Entre agosto e setembro, numa temo inescapavelmente fatídica sexta-feira à noite percebi que Jade estava caminhando de maneira “engraçada”, meio que “rebolando”. Na manhã do sábado banhei-a e até então aquilo era só uma leve suspeita de um problema. Naquela noite Jade já não conseguia andar. Tentava, insistentemente. Orei e pedi ajuda por si, pois um cão que não consegue suster-se em pé não faz suas necessidades fisiológicas, o que não é coisa que possa ser ignorada ou relevada. De alguma forma tive uma súbita epifania ou insight. Possuo eu um cinto largo. Passeio-a sob o ventre de Jade, segurando-o de forma a sustê-la quase como um títere ou um bebê em seu andador. Após perceber-me sustendo-a, Jade abandonou-se à confiança de que eu não a deixaria cair e, apoiada na tipóia improvisada, aliviou-se do inadiável chamado da natureza. Também eu aliviei-me. Não fisiológica, mas emocionalmente, ao menos por aquela noite.


No domingo levei-a ao veterinário. Ao examiná-la percebi mesmo em seu enigmático semblante nipônico a imediata suspeita de que Jade não andava pois poderia ter sido agredida e sua coluna partida. Doutor Márcio Kayano apalpou longamente sua coluna vertebral e abriu um meio sorriso ao perceber sua integridade ortopédica. Solicitou exames de raio-X, que realizei na segunda imediata, ao final da qual retornei a seu consultório. Dos exames, depreendeu que Jade padecia de “bico de papagaio” e hérnia de disco. Para tal até existe cirurgia, mas que não recomendava a Jade, aos 13 anos. Receitou um suplemento ósseo-cartilaginoso e um anti-inflamatório. Acupuntura, caso ela não voltasse a andar com a medicação.


Eu estava desesperançosa de sua restauração mas para minha alegria Jade ao cabo de 2 dias voltou a andar, quase que normalmente. Continuou a ser medicada até seus últimos dias. Porém, com o andar célere do tempo, percebi-a progressivamente fragilizada e envelhecida. Viver principiava a pesar-lhe. Na derradeira semana de outubro deste 2010 Jade começou a vomitar, mesmo a melhor ração disponível, e a recusar-se a comer, mesmo à papinha elaborada e nutritiva que diligente e devotadamente cozinhei-lhe. Ela recusava. Fiz outra e mais outra. Ofereci-lhe carne moída e peito de frango desfiado puros, e até isso recusou. No intervalo de uma semana, tal qual Lucca, Jade rapidamente definhou. Emagreceu, recusando-se a comer. Nos últimos dias entuxei-lhe diretamente na boca com seringa leites vitamínicos. Ela não tinha opção. Era sorvê-los ou afogar-se.


Com o coração na boca, ao longo de toda a semana, toda vez que a olhava checava sua respiração. Até o ocaso da sexta ela era longa, pausada, abdominal, tranqüila. Naquele princípio de Shabbat do que viria a ser o 30 de outubro véspero-eleitoral este compasso alterou-se. Percebi que Jade, já incapaz de suster-se com qualquer macete que eu pudesse cogitar, respirava torácica e ofegantemente. Não parecia mais tranqüila. Telecomunicava incômodo e dor. Só então cogitei, com muita dor, a possibilidade da eutanásia, que não me é absolutamente justificada.


Ao retornar do quase centenário Centro Espírita Fé e Caridade, do qual é decenária freqüentadora, minha avó exclamou entre orgulhosa e humildemente agradecida:


- Se eu te contar, você não vai acreditar! Aconteceu hoje uma coisa que nunca se tinha passado: o veterinário espiritual Rui de Castro pronunciou-se diretamente a mim, a respeito da Jade, e disse para nos acalmarmos pois ela está sendo atendida e socorrida espiritualmente. Que ela não sentirá dor e falecerá suavemente. Foi um acontecimento realmente único e especial! Doutor Ruy de Castro nunca havia se manifestado para nós!


Senti-me presenteada e agradecida pela alta deferência exclusivamente disponibilizada a minha honrada e meritória filhinha. E meu coração algo que acalmou-se. Naquela madrugada, já shabbat, Jade faleceu durante o sono, em hora incerta, a menos de um metro de mim.


Naquele dia, levei-a com a ajuda de minha verdadeira mãe Maria José Pereira da Silva Tomazella ao sítio de seu enteado, o generoso Anthony Secco Tomazella, que franqueou sua hospitalidade para enterrarmos minha filhinha em Itapé, ao som de passarinhos livres. Sepultamo-a no pomar, à beira do riacho, enquanto o céu vertia gotas atemorizantemente pesadas, exibindo-se profético e argênteo, ibericamente melancólico e fatídico. Enquanto eu prestava a última homenagem à inscrita no livro da vida como Chaya bat Noach, umectavam nossa dor solenes lágrimas celestes, e isso, apesar da inconveniência prática, me consolou. Sobre seu túmulo cultivei uma roseira branca e assinalei-a com uma singela joaninha de cerâmica com a inscrição “Jade 30/10/10”. Não é só Jade que jaz ali. Sepultei consigo uma boa parte de minha vida e minhas memórias. E arrepio-me ao digitar isso.


Chico Buarque - Assentamento


Counting Crows - A Long December


Dave Matthews - Gravedigger

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