sábado, 11 de dezembro de 2010

O torcicolo psicossomático

“Psicossomático”, reconheço, é uma “palavra difícil”, conjugando dois radicais. Desenterremo-os. Psico refere-se à esfera mental, psicológica, do ser humano, oposto ao que é orgânico, físico. Somático provém do verbo somatizar que significa: transformar em sintoma, manifestar fisicamente um distúrbio ou enfermidade. Portanto psicossomático traduz-se ao vernáculo por: apresentar sintomas físicos de aflições psicológicas.

Conheci essa palavra no cursinho. A psicóloga, apresentado as bases de sua profissão relatou que numa visita a um manicômio reparara que lá ninguém sofria de queda de cabelo, oleosidade na pele, dores nas costas, pele ressecada. Enquanto que a maioria das pessoas somatizam suas dores psicológicas no corpo físico, quem, por algum motivo, tem esse mecanismo bloqueado acaba enlouquecendo.

Que ninguém confunda dores psicossomáticas com dores imaginárias. A dor é física e tão real quanto o tormento psicológico. Dói de ter que tomar remédio. Dói de não se encontrar posição confortável para dormir. A mim doía de não conseguir virar o pescoço. Chegaremos até lá.

Algumas pessoas choram, aberta e desesperadamente seu sofrimento. Outras o guardam, recalcado, mudo, civilizado, taciturno e seco de lágrimas. São essas as pessoas que ou somatizam suas dores ou acabam enlouquecendo.

Dei-me conta disso há pouco tempo quando, pelo telefone, aos prantos no luto desesperado pela morte recente de minha canis lupus angelicus Jade, ouvi de minha madrinha:

- Mas nem pelo seu avô vc chorou assim!

Minha madrinha é umas das 2 ou 3 pessoas que podem-me dizer impunemente algo deste tipo, sem receber no instante seguinte um indicador a meio centímetro de seu nariz. Naquela noite repassei longamente esta frase, e percebi que era acurada: enquanto eu permitira-me chorar convulsivamente por meus cachorros Jade e Lucca, eu envergara uma máscara de cera inexpressiva após o falecimento de meu avô.

Perguntei-me o pq disso. Pq a meus cães eu pranteara abertamente, mas não ao meu avô? Sabia que meu amor por ele não era um verniz barato que descasca à primeira chuva, e nem uma maquiagem familiar calculada para me permitir acesso à sua pródiga benevolência. Era um amor profundo, atávico, real. Mas eu não chorara. Até chorara, mas não tanto assim. Não tanto quanto ele merecia e minha dor exigia.

Percebi então que ainda restava meu precioso e amado morto por chorar, e que se eu não o chorara, era pq ainda guardava, necrosadas, essas lágrimas não vertidas dentro de mim. Mas como bombeá-las, do fundo da minha psique, e finalmente drená-las? Pelo ladrão? Pela caixa de gordura? Pela fossa sanitária? Como sanear um edema na alma?

Meu subconsciente passou muitos dias processando este questionamento até que manifestou-se, sem que eu me desse conta à primeira vista, no dia 15 de novembro; uma segunda-feira, feriado devido à Proclamação da República no Brasil em 1889. Neste dia acordei com um terrível torcicolo, o pior que eu já tive, que me incomoda continuamente até agora, quase 1 mês depois. Não conseguia mexer o pescoço em nenhuma direção. Repuxava-me o lado direito, e doíam-me também o ombro, a omoplata, o braço direito, dedos indicadores e anular. Pensei: deve ser tendinite, ou dormi de mau jeito; e esperei que a dor passasse ao longo do dia. Não cedeu. Ao cair da noite, finalmente tomei um antiinflamatório para tentar aplacá-la.

Na manhã seguinte consegui um encaixe no ortopedista e desfrutei justamente minha terceira falta médica no Estado. Dr. Olavo Narkevitz receitou-me Tandrilax, pediu exames de raio-X e encaminhou-me à fisioterapia. Pretendia dar-me alguns dias de afastamento, mas expliquei-lhe que apenas poderia gozar de um. Senti-me quase intimidada e pensei em dizer “Não precisa de tudo isso”, como se eu não fosse digna de tanto cuidado. Mas como até dirigir tornara-se um tormento a cada esquina, e sem poder dobrar o pescoço eu poderia até causar um acidente, engajei-me nas sessões de fisioterapia.

Fui submetida a um aparelho que dava “choquinhos” nas áreas doloridas, por 20 minutos, e a seguir 5 minutos de creio que ultrassom. Logo na primeira sessão a fisioterapeuta portando a ponteira do segundo aparelho, tentando manobrá-la no encontro entre meu ombro e pescoço disse furtivamente:

- Nossa, acho que nunca vi um músculo tão tenso...

No momento, superficialmente, tomei esta frase com uma banal curiosidade. Mas depois principiei a desconfiar que aquela tensão poderia ser minha somatização enlutada, sempre presente, a dificultar-me conciliar o sono diuturnamente. Em outros termos, que a dor não chorada pela perda de meu avô jazia materializada ali, no meu ombro direito. Mas, por mais que eu tentasse, alongasse, o aparelho cutucasse, e a fisioterapeuta insistisse, eu não conseguia relaxar aquele músculo.

Até a décima terceira sessão. Nessa vez fui atendida por outra fisioterapeuta, que não me conhecia. Aprontou o aparelho e perguntou-me onde era o incômodo. Descrevi-lhe e apontei-lhe em meu corpo. Por algum motivo ela não colocou os eletrodos nos músculos costumeiros, mas exatamente sobre minha coluna cervical. Ligou o aparelho e eu quase pulei. Conti-me até que ela saiu deixando-me só na baia terapêutica. E assim que entrefechou a porta sanfonada de plástico, começaram a rolar-me sobre a face lágrimas profusas e antes que eu me perguntasse pq veio-me na lembrança a cena em que despedi-me de meu avô.

Conti-me para não soluçar e despertar a atenção de ninguém. Mas finalmente sentia, fisicamente, ser cutucada a nódoa na qual eu represara todo o meu luto contido. Meu avô não fôra embora. Sua ausência estava ali, aguilhoando meu pescoço, maneteando minha mão direita, fazendo silêncio em todo lugar. Pelos 20 minutos ao longo dos quais os eletrodos tentaram despertar o nervo que relaxaria aquele músculo quase mumificado, parte da tensão física da insegurança, desproteção e falta de referência à qual a ausência de meu avô haviam me lançado principiaram a dissolver-se, tal qual uma colherada de açúcar em uma xícara de chá.

Obviamente uma dor contida por 4 anos não esvai-se rapidamente. Mas enquanto, naquele mesmo dia eu escrevia a postagem “De como dei a extrema-unção ao meu avô”, sentia ceder, lentamente, milímetro a milímetro, a tensão em meu ombro. E neste exato instante do agora, enquanto livro-me do peso de ter de guardar apenas em minhas memórias este insight sobre meu torcicolo psicossomático, percebo que mais um milímetro cede meu ombro e com ele, cicatriza mais um tanto a dor pela perda de meu avô.

4 comentários:

  1. Muito bom seu texto. Acordei com torcicolo hoje também e sabia que havia algo de emocional também, eu só sabia que meu corpo estava tenso e isso não causava a dor, mas piorava intensamente. Fui procurando razões relaxando, tentando buscar até que percebi que eu estava segurando uma emoção e então soltei, nisso comecei a chorar sem saber o porque e logo senti que o chorar prendia algo no meu peito que aprisionava a dor. Comecei a investigar a dor e percebi que estava inseguro financeiramente, com medo de gastar, em outras palavras, "prendendo" as coisas em mim, e isso me lembrava meu Pai que era quem me transmitia segurança. Chorei bastante também e pude perceber que apesar da dor não parar, ela simplesmente está ali agora como uma "dorzinha" física, meu corpo encontrou um alívio. Isso me fez pensar que o psicológico não é a dor, mas é o aprisionamento da dor que amplifica aquela sensação mil vezes mais!! Gostei do post !!

    um abraço

    Roberto

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. seu texto acaba de me dar um insight também, obrigada ;)

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