quinta-feira, 10 de julho de 2014

Da Máfia chinesa



Em texto anterior, mencionei que minha segunda experiência profissional foi em uma firma de videokê comandada por chineses, e au passant que meu desligamento desta empresa não foi tão pacífico. Vamos aos detalhes.


Os japoneses, ao que me consta, criaram uma forma de entretenimento denominada "karaokê", termo que significaria "sem banda". Pelo mundo espalhou-se o hábito de, em bares e locais de entretenimento, haver uma máquina que, com o acionamento de moedas, tocava a trilha de uma música, possibilitando aos clientes o entretenimento de cantá-la.


Na passagem entre os 1990 e os anos 2000 o karaokê "evoluiu" para o videokê, com o avanço de que agora havia uma tela que mostrava a letra da música a ser cantada. Rapidamente começaram a pulular pelos bares as "jukebox de videokê". E justamente no fornecimento de "máquinas de videokê" a empresa King Star entrava no mercado.


Entrei em contato com ela através do meu então colega de cursinho, e para sempre grande amigo, Henrique "Figura". Ele morava no mesmo prédio do dono da empresa, e assim conseguiu o emprego. No curso pré-vestibular Figura verificou que meu domínio do português era muito bom, e me convidou, a princípio, para um trabalho freelance como revisora da grafia da letra das músicas. Me forneceu um equipamento e por alguns finais de semana gastei todas a minhas horas livres nisso, entregando o trabalho antes do prazo.


Meu trabalho causou boa impressão e me convidaram para um trabalho fixo na King Star. Adorei pois seria minha segunda experiência empregatícia, e o local de trabalho ficava a 300 metros da minha casa no Tatuapé. Sem registro em carteira, receberia, em 2001, 300 reais por mês, o que creio que fosse próximo ao salário mínimo da época.


O dono da empresa atendia pelo nome "brasileiro" de Fernando, meu xará. Era um taiwanês de 26 anos com esposa e filho pequeno, empreendedor arrojado que também empregava seus irmãos, que atendiam por Cris e Mário. Soube que antes de se dedicarem ao videokê trabalhavam com máquinas de caça-níquel, mas que haviam abandonado esse ramo por conta da proibição legal e subsequente fiscalização.


Figura rapidamente me ensinou seu métier, que era bem mais simples do que eu pensava. As máquinas, semelhantes a DVD players, vinham prontas da China. A nossa parte era desenvolver o software. Ou, mais precisamente, adicionar o máximo de músicas ao acervo do software do videokê. Baixávamos pela internet arquivos .mid com a melodia e também pesquisávamos a letra dessa canção. Nosso trabalho era simplesmente o de sincronizar letra e música, acertando compassos, timbres e tons.


Mesmo sem saber quase nada de música e sendo incapaz de tocar qualquer instrumento, era muito simples esse trabalho. E até o de multiplicar músicas, se gravadas por mais de um artista. Nosso trabalho frutificava, e as vendas iam bem até o ponto em que foi contratado um terceiro membro para nos ajudar. Após algumas entrevistas, selecionaram Roberto Mautone Jr., que frequentava minha sala do cursinho pré-vestibular.


Tudo ia muito bem... Até que... A China chamou.


Nosso chefe Fernando não nos explicou muito bem os pormenores, mas pelo que pude entender, o capital que havia usado para iniciar o negócio viera de Taiwan, de parceiros comerciais que, portanto, eram sócios no seu negocio na King Star. Aparentemente seu sócio em Taiwan estava passando por problemas, ou desconfiava de sua retidão na condução da empresa, e portanto enviaria "emissários" para um tipo de "auditoria"


Os chineses que vieram eram 2, um homem e uma mulher, esta aparentemente esposa do superior de Fernando, e aquele aparentemente seu "testa de ferro". Só falavam chinês e um pouco de inglês. Sendo nós contratados numa firma com 3 chineses e 3 subalternos brasileiros, ouvir chinês para nós era corriqueiro. Fernando, com seu sotaque pesado, veio me perguntar se eu "realmente falava inglês de verdade" e quando disse que sim, me pediu que fizesse um "meio de campo" com os visitantes, os levasse para passear no bairro, almoçar, etc, e assim fiz.


Foi numa dessas oportunidades que descobri que minha primeira tatuagem não era em japonês, mas em chinês. No dia de meu aniversário de 18 anos eu comparecera a um estúdio de tatuagem. Folheara o portfólio e selecionara duma folha onde se lia "Letras japonesas" o ideograma sob o qual estava escrito "verdade". Estava tranquila desse fato até que o "testa de ferro" do chinezão, ao vê-la, abriu um sorriso e disse: "nice, honesty!"


Eu disse "I beg your pardon, what did you say?" E ele disse "I just read your tattoo". Repliquei: "can you read it? Is it in chinese? I thought it was 'truth' in japanese". E ele disse meio que rindo da minha cara "well, it's chinese, and says 'honesty', wich also can be translated as 'truth'." Me senti meio tranquila e meio lograda. Pelo menos eu não havia tatuado "conteúdo 300 gramas" ou "sopa de cebola".


Após algumas semanas chegou da China, ou de Taiwan, pois para eles "era tudo a mesma coisa" o chefão cuja esposa eu estivera ciceroneando, mesmo com seu péssimo inglês. Aparentemente vinha para "tomar o negócio" do Fernando. Num sábado de janeiro de 2002, logo após eu fazer as provas da segunda fase da FUVEST o Fernando nos disse para ir ao trabalho "normalmente", mas para ficarmos alerta, pois algo de importante aconteceria. Eu, Figura e Beto permanecemos no andar de cima, em nossos computadores, enquanto "a chinesada" fez uma reunião no andar de baixo. No meio do expediente, ouvimos do andar de cima barulhos que pareciam de uma briga física entre eles.


Quando se aproximou a hora do fim de nosso expediente, Fernando subiu as escadas, foi à nossa sala, nos dispensou e me entregou, numa caixa, uma fita de vídeo VHS. Me pediu que a ocultasse em minha bolsa, a levasse para minha casa, e disse que mais tarde, ainda neste dia, a iria buscar. E que eu a guardasse enquanto isso como a minha vida. Ok. Enquanto íamos embora, o testa de ferro do chinesão chamou o Figura para uma conversa particular.


Beto me acompanhou no curto trajeto até minha casa e, lá chegando, não nos contivemos em colocar a fita no meu videocassete, rebobiná-la e assisti-la. Era uma gravação de uma câmera escondida colocada na luminária do teto da sala onde acontecera a reunião, no andar de baixo. A "chinesada" obviamente só falara em chinês, mas mesmo não compreendendo uma só palavra, assistimos tudo, vidrados.


A linguagem corporal não deixava dúvidas. Travavam nosso chefe Fernando, o chinesão seu superior e seu testa de ferro que reconhecera minha tatuagem uma discussão aguerrida, por conta de dinheiro ou da condução da empresa. Assistimos ao momento em que o "chinesão big boss" deu uma série de socos na mesa, e este fôra o barulho que nos alarmara, ouvido do andar de cima.


Ao fim da tarde nosso chefe Fernando veio bater à porta da minha casa, perguntando com ansiedade e insegurança de menino "onde estava a fita". A entreguei na mesma caixa, sem lhe informar que a assistira, e ele a abraçou como a uma joia preciosa.


Abriu um sorriso, me agradeceu pela discrição e disse:


"Essa fita vai salvar a minha vida".


Na semana seguinte recebi a notícia de havia sido aprovada no vestibular da USP para o curso vespertino de História e pedi meu desligamento da King Star. E soube que o "chinesão big boss" não era o "big boss" after all. Que havia, acima dele, lá na China, um "chefão" superior, e que essa fita da discussão em chinês lhe havia sido remetida por Fernando como uma forma de provar sua honestidade na condução do negócio, no intento de "queimar", lá na China, com o "verdadeiro chefão" aquele que socara a mesa da King Star.


Nesse meio tempo o Figura nos revelou o conteúdo de sua conversa com o chinês. Ele sofrera uma tentativa de suborno. O chinês lhe dissera que a King Star seria desfeita, e o convidou para "virar a casaca": abandonar o Fernando e passar a trabalhar diretamente para ele, o que lhe valeria um reajuste salarial de 50%. De 300 passaria a ganhar 450 reais. Só ele, eu e o Beto não. Não havia espaço para nós. Figura nos disse que por nenhum momento cogitou aceitar isso. Que conhecia o Fernando há anos e não colaboraria com essa "puxada de tapete". Que não aceitaria essa proposta, levando o know-how que aprendera com o Fernando, para seus agora "inimigos" e futuros concorrentes. Que não faria parte deste "golpe empresarial" que resultaria no fim do emprego meu e do Beto, seus "trutas". O Figura sempre foi muito "firmeza".


Depois disso, não mais soube que rumo levou essa contenda. Com o avanço da tecnologia, e o fim da moda, essas máquinas de videokê que vendíamos caíram no ostracismo. Não há mais quem as compre. Não sei que rumo tomaram Fernando e seus irmãos. Mas tenho certeza que estão enriquecendo, empreendendo, trabalhando diligentemente, como os chineses, ou taiwaneses, sabem fazer tão bem.


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quinta-feira, 15 de maio de 2014

O canario Frank Sinatra


O dia 14 de maio de 2014 marca para mim a conclusão de uma das mais importantes incumbências que já recebi. Em seu leito de morte, meu avô me pediu que eu cuidasse "dos seus" com um sussurro. Padecendo de câncer terminal, saturado de morfina, em seu último momento de lucidez tivemos uma conversa física e metafísica de despedida. E, no seu último olhar, que foi de preocupação, percebi que ele, vendo-se partir, me repassava a responsabilidade de cuidar dos de sua casa. E assim foi.


Os que moravam "sob a asa" do meu avô até ele partir, eram uma pessoa, 2 cachorros e 2 pássaros. Os cachorros, Jade e Whiskey, morreram de velhos com mais de 14 anos e pude, com carinho, cuidá-los até o fim do decreto de seus dias. Minha avó, cuidei bem, alimentei, pensei suas feridas, fiz compania e até ensinei a mexer no celular. Mas para surpresa de todos, precocemente, faleceu em viagem ao Rio de Janeiro, para encontrar parentes, de derrame cerebral. Dentro das minhas forças, dela cuidei o melhor que pude, no que esteve ao meu alcance. O papagaio Chico foi doado pela minha vó Tula há muitos anos para o viveiro de um veterinário.


Restava o canário, o mais longevo de todos.


Criar canários do reino é um velho costume português que herdamos e sinceramente não me lembro de nenhuma ocasião em que a casa de meu avô não tivesse ao menos um canário. Às vezes alguns. Chegaram a dar cria. Além de singelos e de trato simples, os canários do reino cantam bonito, e interagem de forma até carinhosa com seu cuidador.


Desde o falecimento de meu avô assumi essa responsabilidade com certo pânico: nunca ninguém me instruíra a como cuidar de um passarinho tão frágil, mas pude fazer o backup das muitas memória do Major Vicente Novais da Silva, homem talhado em pedra, redobrando-se em carinhos e cuidados com seus pequenos. É simples. Basta água fresca, alpiste, vitamina uma vez por dia e de vez em quando um pedacinho de ovo, de fruta ou folha verde.


É simples, mas não era um "canário qualquer", era o canário do meu avô, que ele amava, e me pedira em seu leito de morte para cuidar. Portanto, eu não tinha "só" que cuidar dele. Para honrar ao meu avô, e a confiança que ele depositara em mim, eu tinha que cuidar MUITO BEM do agora "meu" canário, como não pude cuidar do meu avô.


Esse sentimento de responsabilidade, de cumprir a contento uma missão muito importante, não tive só a respeito do canário. Mas diferentemente dele, o papagaio, os cachorros, minha vó INTERAGIAM diretamente comigo. Depois da morte do Morzinho, minha relação com eles passou a ser DIRETAMENTE com eles. O Chico, que eu conhecia desde criança, mesmo esclerosado, ainda dançava às mesmas músicas de 20 anos antes. Os cachorros, até o problemático Uísque, me abanavam o rabinho e faziam festa. Minha vó conversava comigo, eu a levava ao shopping, almoçávamos juntas.


O canário não. Eu sabia que já era adulto, ninguém soube precisar o quanto, mas minha vó garantiu que estava com eles desde antes de eu entrar na faculdade, portanto há pelo menos 7 anos. Não me lembrava de ter ouvido meu avô chamá-lo pelo nome, e questionei Tula, mas ela não soube me dizer se tinha nome. Remexendo entre os discos de meu avô, encontrei um de Frank Sinatra, e como nosso canário era bom cantor, escolhi eu mesma este ser o nome pelo qual o chamaria.


Por pelo menos 2 anos ele me estranhou. Se assustava e entrava em rebuliço quando eu me aproximava da gaiola. Bichinho frágil e arisco, no qual nem se pode tocar, enquanto o papagaio Chico nos franqueava ainda coçar-lhe o cangote...


O canário hesitava em ter uma relação direta comigo, então minha relação sempre foi com a lembrança do meu avô, através dele. Até este dia do hoje, todas as manhãs, quando descobria Frank do seu pano de dormir azul e lhe dava vitamina, me lembrava logo cedo do meu avô. E todas as noites, quando olhava no relógio para não deixar passar da hora de pôr pra dormir o canarinho idoso, me lembrava de meu avô ao cuidadosamente cobri-lo com seu pano azul para dormir, dizendo "boa noite, Frank, durma bem."


E o mesmo terror de falhar na missão em relação a cada um destes seres que eram da responsabilidade de meu avô me assombrava em relação ao canário. Tinha medo de deixar faltar-lhe água ou comida e que morresse por minha irresponsabilidade. Tinha medo de pegá-lo para cortar suas unhas e quebrar um de seus delicados ossinhos, matando-o com minha brutalidade. Tinha medo de deixá-lo fugir da gaiola ou vê-lo atacado por um pardal e que ele morresse por minha inépcia. Tinha medo de esquecer de cobri-lo à noite, no frio, ou de esquecer de descobri-lo pela manhã, e ele sufocar, morrendo por meu descuido.


Enfim, tinha um profundo medo de não corresponder a contento à missão que meu avô me dera, e mesmo post-mortem, decepcioná-lo. Que um dia eu viesse a sonhar ou vivenciar ele me recriminando a dizer: "fui tão carinhoso sempre com você e você matou o meu canário!"


Com o tempo eu e Frank fomos construindo uma amizade. Afinal, foram quase 8 anos e após o estranhamento inicial, ele percebeu que eu era sua cuidadora agora e passou a me saudar, cantar para mim, quase a comer na minha mão. Posso dizer que enriqueci sua alimentação. Mudei o simples alpiste por um mix de cereais. Sempre lhe cozinhava ovos ao ponto de perceber que ele preferia a gema à clara. Sempre lhe oferecia diferentes tipos de vegetais até o ponto de constatar que seu prediletos eram o pepino, o brócolis e a alface. Em dia quentes, lhe colocava a banheirinha e ele se refestelava com uma alegria que com certeza valeu o registro em vídeo.


http://youtu.be/_KFV-qIZeZw


Até a véspera de morrer, sempre esteve muito bem, se alimentando de forma voraz, detonando as folhinhas, limpando o cocho de vitamina. Sua convalescença foi curta. Em 13 de maio acordou baqueado, passou todo o dia sonolento e desanimado, mas ainda comeu e bebeu um pouco. Não acordou no dia 14. Não morreu de surpresa, atacado, neglicenciado. Sua água e ração estavam cheias. Sua gaiola limpa. Ele, protegido, abrigado dentro de casa.


Morreu em paz. E assim trouxe paz para uma questão de honra para mim: fazer frente e cumprir o último desejo do meu avô. Neste dia morreu o último ser que estava sob a responsabilidade do meu avô quando ele se viu surpreendido pela morte, e cuja incumbência me repassara. Hoje, mais de 7 anos depois, todos estão mortos. E posso dormir tranquila, pois cuidei deles o melhor que pude. E a morte de nenhum deles foi causada por mim.


A partir de hoje, nem eu, nem meu falecido avô temos mais nada com o que nos preocupar. Tudo está bem, em paz, completo.


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sábado, 5 de abril de 2014

Como faz bem fazer o bem



Como faz bem fazer o bem. Como fazer o bem nos faz sentir bem.


Percebi isso hoje.


Sempre tive medo/receio de mendigos, pedintes e moradores de rua. O típico medo da classe mérdia de ser assaltado, explorado, feito de bobo.


Embora os "valores cristãos" nos recomendem praticar a caridade e ajudar ao próximo, essas "boas ações" costumam ser cerceadas por diversos motivos:


1 - Recomendam não dar dinheiro aos pedintes. Pois dar dinheiro não apenas os estimula a continuar na mendicância, como a sua doação pode ser usada para a compra de entorpecentes que prejudicarão ainda mais a saúde, física e mental, destas pessoas.


2 - Recomendam, ao invés de doar diretamente aos pedintes, fazer doações a instituições de caridade, que usarão esse dinheiro em assistência social. Porém, grande parte desta verba é revertida para o pagamento dos funcionários dessa assistência, como os operadores de telemarketing que nos ligam e motoboys que vêm buscar nossas doações. Além de que grande parte dessa população de rua se recusa a ser "institucionalizada" pelo Estado ou ONG's.


3 - Recomendam até não dar comida em pacotes fechados aos pedintes. Era meu costume comprar pacotes de bolacha e miojo extra para dar aos pedintes. Porém em diversas ocasiões fui informada que é comum pedintes coletarem esses mantimentos e os trocar por pedras de crack nas "biqueiras".


4 - Recomendam não "dar trela" para moradores de rua. Pois grande parte deles apresenta problemas psiquiátricos e a última coisa que alguém quer é um morador de rua que "encafifou" com você. E, se você lhe der atenção ou doações uma vez, pode ser que ele bata na sua porta a toda hora, no estilo "você dá a mão, quer logo o braço."


Então, embora em algumas ocasiões tenha dispensado moedas apenas para me livrar rapidamente de pedintes, minha práxis comum tem sido ignorá-los, por mais mortificada que isso me fizesse sentir. 


De certa forma esse é um sentimento de culpa. Pela percepção do quanto somos abençoados por uma segurança financeira que se sustenta sobre a exploração e exclusão (ou inclusão perversa) dessas pessoas na sociedade.


Em São Paulo capital é tão grande o número de mendigos que eles chegam a fazer parte da paisagem, e tropeçamos neles sem pedir desculpas, considerando "um fato natural da vida" a existência de meninos de rua cheirando cola ao meio-dia na praça da Sé. 


Em Rio Claro - SP não há "meninos de rua" e mendigos como em SP. Estamos relativamente bem servidos por entidades de Assistência social. Temos orfanato, "Casa das Crianças", "Casa da Aldeia" (com "mães sociais") e a Casa Transitória que abriga moradores de rua. Portanto é raro, em Rio Claro, ver um mendigo jogado na calçada. E é de se supor que ao encontrar algum, ele esteja na rua justamente por se recusar à institucionalização, a ser "fichado e rotulado".


Esses andarilhos não querem "se enquadrar" no esquema de vida burguesa. O que sempre leva aos membros da "classe média", como eu, a passar por essas pessoas com ar de superioridade e desprezo, ignorando-as. E, ao sermos abordados, frequentemente nos sentimos aviltados "como ele ousa me dirigir a palavra, esse bêbado, esse drogado? Ai, que medo!" E passamos por eles correndo, virando a cara.


No dia de hoje estacionei meu carro em frente a um supermercado e perto dele havia uma casa lotérica, onde aproveitei para ir pagar umas contas. Nesse trajeto, passei a meio metro de um morador de rua. Ao passar por ele, me dirigiu algumas palavras, à quais me recusei a ouvir, passei direto, balançando minha cabeça em negativa, enquanto reparava em sua excessiva magreza. 


Prossegui meu caminho até a lotérica, pensando sobre ele, percebendo que seu jeito idiossincrático denotava que ele provavelmente era possuidor de transtornos mentais. E que estes poderiam ser o motivo de ele prosseguir na rua, recusando as possibilidades de Assistência Social que nossa cidade oferece.


Um bêbado, um louco, um drogado, um desajustado...


Pensando sobre isso na fila cogitei que direito tinha eu de julgá-lo. Netinha do vovô militar que sou, em tudo o que tive estímulo, ele teve desilusão. Em tudo o que tive oportunidades, ele teve barreiras. Em tudo o que tive conforto, ele teve dureza. Em tudo o que tive aconchego, ele teve violência.


Pequeno e magro, jogado na calçada, minha negativa em ajudá-lo começou a me incomodar. Era meu conforto que me incomodava. Era minha arrogância de superioridade que me incomodava. Era a percepção de que na verdade, pequenas circunstâncias da vida dos separavam, que me incomodava. Mas, sobretudo, que eu teria que passar de novo por ele, na volta a caminho do mercado, que me incomodava.


Resolvi que "daria uma chance às circunstâncias": se no trajeto de volta ele falasse comigo de forma que eu não me sentisse ameaçada, o ajudaria. Não com dinheiro. Isso seria pedir demais.


Na volta, mais uma vez ele falou comigo, baixo e timidamente, já antecipando ser ignorado por mais uma patricinha arrogante. Mas, para sua e minha surpresa, parei e o olhei, como a um ser humano, como talvez nem ele mais me sentisse e poucos (inclusive eu) o considerassem. Me dissera sussurrando:


- Me dá uma ajuda...


Parei e lhe disse com a maior simplicidade que pude:


- Você está com fome, sede? Estou indo no mercado, me fala do que você está precisando.


Ele abriu um sorriso amplo, mas com poucos dentes, e disse "Uma Coca". Talvez tenha pensado que se tivesse pedido uma aguardente, eu recusaria, mas eu não teria recusado. Teria-lhe sim comprado um litro de pinga, se pedisse. Na sua condição, é mais do que compreensível que queira se entorpecer. Mas só me pediu um refrigerante e isso me fez ter vontade de também lhe comprar algo de comer.


Fui ao mercado e peguei uma Coca de 600 ml pensando que depois que poderia usar a garrafa para guardar água. Fui à padaria do mercado e peguei uma bandeja de bauru de forno, quentinho, com guardanapos e sachês de maionese e mostarda. Passei pelo caixa e fui levar até ele.


- Comprei uma Coca e uma coisinha pra você comer também.


Ele abriu um sorriso um pouco mais largo, com um dente a mais e disse:


-Deus lhe abençôe!


Tenho certeza que isso me trouxe mais bem-estar do que a ele. Que este ato, quantitavamente, mais aliviou a minha própria culpa por me sentir abençoada e pouco solidária do que a fome objetiva dele. Ele se sentiu um ser humano, mas eu me senti um pouco mais "superior e boazinha".


Ao fazer essa "boa ação" que me fez sentir tão bem, me lembrei de todas as vezes nas quais, em circunstâncias similares, passei reto, ignorei, não ajudei quem previsava, e rapidamente essa intercorrência cotidiana foi esquecida. Como poderia tudo ter sido tão mais simples. E humano...


Graças a Deus, há vários anos tenho emprego fixo, segurança financeira e comprar um refri e um salgado de vez em quando para um pedinte não me custa nada nem faz rombo algum no meu orçamento, cada vez menos apertado. O que me impedia era o medo, tudo aquilo que, com certa sabedoria da experiência, nos recomendam para nossa salva-guarda.


Não escrevo isso para esfregar na cara de quem quer que seja que "sou boazinha" ou alardear "minha caridade", mas justamente para dizer que não costumo praticar caridade diretamente aos que dela necessitam, me abordam pelas ruas e pedem. E que hoje o resolvi fazer, pela primeira vez. E que, com isso, percebi que a oportunidade que esse mendigo me deu para lhe "fazer o bem" trouxe um benefício maior a mim do que a ele. Acho que, a partir de agora, rompida essa barreira, poderei fazer coisas simples como essa mais vezes. Com menos medo da próxima vez.





sábado, 22 de março de 2014

Solo un ratito



Era uma sexta-feira à noite, perto de uma e meia da manhã, eu estava sentada no sofá, na sala da minha casa, placidamente assistindo à TV quando um barulho chamou minha atenção. Olhei para o lado direito, onde estava porta aberta e vi, de relance, tentando entrar furtivamente, um rato. Na verdade um ratinho, um camundongo, pequeno e cinza. Dei um grito, ele se assustou e saiu correndo. Talvez com mais medo de mim do que eu dele.


Terror total! Havia um rato tentando entrar em minha casa!


Imediatamente tranquei todas as portas e janelas, lacrando as frestas com panos de chão. E pensei: "quando escolhi essa casa para alugar vi seu grande jardim como vantagem, se eu soubesse que ratos poderiam se instalar nele, teria ficado com aquele kitnet no terceiro andar..." Mas, contrato assinado, e aqui instalada há mais de 6 meses, a única opção era seguir em frente.


Não foi a primeira vez em que um rato apareceu numa casa na qual eu morava, mas nas 2 vezes anteriores, não era EU a responsável por dar cabo dele. Eu podia simplesmente aguardar que "os adultos responsáveis" pela casa, e por mim, resolvessem o problema. Agora a casa era minha, eu era a adulta, e o problema era meu para resolver.


Na manhã seguinte, decidida a fazer uma "operação de guerra", levei #AmyThePoodle para passar alguns dias na casa da minha mãe. Fui na pet shop, comprei ratoeiras de metal, ratoeiras de cola e veneno (dos que têm aroma artificial de queijo). Fiquei super alerta por uns 4 dias, checando cada sombra. Na segunda-feira, já estava "desencanada" de que o rato tinha ido embora pra rua e no dia seguinte iria desarmar as ratoeiras e buscar a Amy.


Acordei na terça cedo para ir ao trabalho, despreocupada. Fui para a cozinha. Ia preparar meu sanduíche para comer no intervalo das aulas. Abri o armário.


Na parte de baixo, vi um pequeno ser cinza pular, furtivamente, tentando se esconder entre meus pacotes de miojo e batata palha. Era um rato. Berrei e imediatamente tranquei de novo o armário. Com ele e todas as minha comidas dentro.


Para minha sorte, já tinha marcado hora na dentista na quarta seguinte e avisado que daria falta médica no trabalho. Pedi ajuda à minha mãe, pois tenho pânico de ratos, e não conseguiria lidar com isso sozinha.


Não é propriamente uma "fobia". Não tenho medo de ratos albinos de laboratório, do Mickey Mouse, de hamster limpinhos, criados em gaiola. Mas de ratos de rua, tenho absoluta aversão e ojeriza. Penso em leptospirose e febre tifóide como atributos indissociáveis de todo rato de rua, daí meu pânico total.


Minha mãe veio me ajudar. Abrimos juntas o armário. Começamos a tirar as coisas e de repente, no meio delas, ele pulou. Gritamos. Pegamos cada uma uma lata enorme de inseticida (ainda que ele seja um mamífero) e despejamos no armário. Já nós mesmas intoxicadas, trancamos tudo de novo e esperamos mais uma bela meia hora, na esperança de que o rato fosse alérgico, ou asmático, e morresse.


Reabrimos o armário. Tiramos o resto das coisas. Nada do rato. O esquadrinhamos, tombamos, e nada do rato. Teria fugido? Onde estaria? Armário esvaziado, comprei mais veneno e ratoeiras, colocados em locais estratégicos. Com tristeza, deixei a Amy mais alguns dias na casa da minha mãe. Senti muita falta de sua companhia nestes dias.


Quase não entrei na cozinha até o sábado, quando trouxe de novo minha mãe para verificar o rato e o armário. Abrimos. Nada. Tombamos. Eu segurando, ela olhou. Nada. Disse "peraí", cutucou com a vassoura:


- O rato!


Senti terror completo e gritei, segurando o armário pesado, com os olhos fechados:


- Vivo ou morto?!... VIVO OU MORTO?!


Os 2 segundos que ela levou pra responder estão entre os "top ten" momentos mais terríficos de minha existência (até agora). Depois do lapso temporal que me pareceu levar várias horas de completo terror, ela disse:


- Morto. Tá estufado, comeu o veneno, olha!


- Não quero ver, tira ele de casa!!!


Ela tirou, colocou num saco e jogou no lixo externo. Ufa! Aí sim fui inundada por uma sensação maravilhosa de alívio. Não só tinha de fato um rato mesmo e não era loucura da minha cabeça, como eu tinha conseguido prendê-lo, o veneno tinha funcionado, seu cadáver fôra localizado e devidamente descartado. Eu voltava a ser a dona de minha cozinha e área de serviço.


Muito prestativa, minha mãe se prontificou a me ajudar na limpeza completa desses ambientes que se seguiu. Faxinamos tudo com muito desinfetante. Passamos álcool em todas as frestinhas do armário de cozinha. Por termos despejado inseticida sobre as comidas guardadas nele, joguei fora tudo o que estava aberto, e lavei com água e sabão, esfregando bem, todo o resto. 


Pensando em tornar meu armário "à prova de ratos", comprei potes de vidro e plástico bem grosso, onde guardo agora todos os meus gêneros alimentícios. Meu pensamento: "se acontecer de outro rato entrar aqui, não vai conseguir comer nada e vai embora!" Também comprei daquelas "cobras de areia" que se coloca embaixo das portas, para impedir que outro rato entrasse. Desarmei as ratoeiras de metal e pude então ir buscar minha Amy, de quem já estava a morrer de saudades.


Era só um ratinho. Mas para mim foi uma marca, uma conquista. Dei conta. Resolvi o problema. Venci. Aprendi. Escolada, agora estou muito mais atenta. As ratoeiras de cola continuam escondidas em locais estratégicos, onde a Amy não alcança. Deixei veneno embaixo de alguns móveis e no vão das janelas. 


Continuo alerta, prestando atenção a ruídos, verificando o armário e se há "alguma  novidade" nas ratoeiras de cola. Essa é mais uma etapa superada na minha vida. Não que ratos de rua tenham cessado de me aterrorizar. Mas agora, depois de dar cabo do meu primeiro, me sinto mais pronta, segura, senhora de mim, para enfrentar outro, se aparecer.


Sinceramente espero nunca mais ter que passar por isso na minha vida, e essa experiência me fez repensar que quando eu for adquirir um imóvel, é bem provável que isso me faça optar por um novo, e não usado. Mas apesar de não desejar, jamais, ter que passar por isso de novo, por pior que tenha sido, foi uma experiência que me fez sentir poderosa, no controle, capaz. 


#girlpower #singlelady





domingo, 16 de março de 2014

Cotidiano da vida adulta



Percebi que preciso manter minha vida num cabresto curto. Se não, tudo foge dos eixos.


Gosto de rotina, dum cotidiano sem surpresas, de ter dias previsíveis, bem cronometrados e planejados. Gosto de a cada noite, antes de dormir, construir uma imagem mental de como será o amanhã, projetando todas as idas e vindas, e ainda que sejam extenuantes, se foram previstas, não me cansam tanto.


Mas qualquer coisa que saia fora do meu "esqueminha" tem potencial para me abalar, me tirar do prumo, ou mesmo "acabar com meu dia". 


Uma visita inesperada. Uma indisposição. Um imprevisto. Um incidente. Um telefonema. Um e-mail que precisa ser respondido com urgência. Um prazo que só lhe é informado prestes a expirar. Algo que "precisa ser resolvido/entregue/protocolado pra 'ontem'." Ter que correr atrás de papéis. Ter que depender dos "favores" e da "boa vontade" dos outros para cumprir prazos apertados... Te cobrarem por coisas das quais você não recebeu aviso prévio...


A vida adulta parece consistir de só stress, cobrança e trabalho... Prazos, papéis, obrigações... Solidão, sono atrasado e conformismo... Eu achava que quando me tornasse "adulta" eu viveria a MINHA VIDA... 


Não sei se sou só eu, mas me sinto vivendo uma meia-vida. Meio-minha (nas cada vez mais raras horas de folga) e meio "cumprindo minha (extenuante) 'função social'." 


Me sinto feliz de cumprir uma "função social", mas achava que isso seria um complemento à MINHA VIDA. Não que isso seria como o sono, algo inescapável e inadiável, vampirizando a maior parte do meu tempo.


Eu achava que, quando adulta, teria tempo para viver. Mas tirando o dormir e o trabalhar, sobram raros momentos no dia para relaxar: ver TV, tomar uma cervejinha, navegar na net... E quase nenhum tempo, nenhuma brecha para "viver", investir em mim, passear, conhecer pessoas, espairecer, exercer meus hobbies...


http://www.youtube.com/watch?v=WBwo5MzB7io&feature=kp




quarta-feira, 5 de março de 2014

Metade - Oswaldo Montenegro

Que a força do medo que eu tenho

Não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
A outra metade é silêncio

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Pois metade de mim é partida
A outra metade é saudade

Que as palavras que falo
Não sejam ouvidas como prece nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas como a única coisa
Que resta a um homem inundado de sentimentos
Pois metade de mim é o que ouço
A outra metade é o que calo

Que a minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que mereço
Que a tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso
A outra metade um vulcão

Que o medo da solidão se afaste
E o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita meu rosto num doce sorriso
Que me lembro ter dado na infância
Pois metade de mim é a lembrança do que fui
A outra metade não sei

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o seu silêncio me fale cada vez mais
Pois metade de mim é abrigo
A outra metade é cansaço

Que a arte me aponte uma resposta
Mesmo que ela mesma não saiba
E que ninguém a tente complicar
Pois é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Pois metade de mim é plateia
A outra metade é canção
Que a minha loucura seja perdoada
Pois metade de mim é amor
E a outra metade também


sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Dos Fenômenos Literários



Em conversas com pessoas similares a mim em muitas coisas, como idade, nível social e educacional é comum um "estranhamento cultural": apesar de eu ser uma leitora voraz, não ser adepta de nenhuma "saga literária" das várias que se consagraram como "fenômenos" da "cultura pop".


As mais populares nos anos 2000 são Harry Potter, The Lord of the Rings e The Twilight saga. Não li nenhum dos livros nem assisti a nenhum dos filmes. Quer dizer, cheguei a ser compelida a assistir ao primeiro filme do "Senhor dos Anéis" com um grupo de amigos. E enquanto eu bocejava, eles exultavam.


Os motivos de eu não participar dessa "onda cultural massificada" são vários, e como já fui muitas vezes confrontada pelo espanto dos meus interlocutores por eu não parecer muito empolgada a gastar um ingresso de cinema para assistir ao "Hobbit", vale o registro.


- Tudo isso foi lançado (ou virou viral) quando eu já tinha mais de 18 anos, já tendo lido vários clássicos qualitativamente superiores em enredo, linguagem, estética, como Kafka, Shakespeare, García Márques, Sartre.


- Sempre soube reconhecer o tipo de literatura ou música classificável como "guilty pleasure": algo do que até se gosta, mas se sabe que não tem muita "qualidade". Estava ciente disso já aos 14 anos, ao reconhecer que ler livros do Paulo Coelho e chorar com as músicas do Bon Jovi eram coisas das quais no futuro eu meio que me envergonharia...


- Tive meu próprio "Harry Potter" na figura da série de 14 livros de Anne e Serge Golon "Angélica, a Marquesa dos Anjos", cada um em média com 300 páginas. Aos 12 anos já tinha lido todos, e já tinha um "cenário fantástico" no qual fantasiar com as aventuras de Angélique de Peyrac no século XVI, entre o Poitou, O Languedoc, Versalhes, o Saara e o Novo Mundo.


- Conhecer mitologia grega. Quando criança minha família tinha uma coleção de livros de mitologia grega. Como "descer o nível" depois disso?


- Ter feito faculdade de História, percebendo assim com facilidade todo o humor involuntário dos acochambramentos que os "autores pop" cometem. Isso também me trouxe uma certa visão de que se determinado autor não atingiu o nível de "clássico", com tantos clássicos imortais na minha lista de ainda por ler, devo direcionar meus esforços primeiro ao que é um "dever" ler, antes de qualquer coisa "acessória".


- Estudar a Torah. Se comparada à mitologia grega o "Senhor dos Anéis" parece bobo, o que dizer de sua comparação à Torah? Ter estudado a Bíblia Hebraica em toda a sua riqueza e multiplicidade meio que "estragou minha tolerância" a literaturas fantásticas de banca de revista.


- Perceber claramente uma "mudança de gosto" conforme os anos passaram. Um "fenômeno literário" no qual embarquei foi o de Dan Brown. Li as 400 páginas de "The DaVinci Code" em um final de semana, assim que lançado. Devorei e adorei, com 20 anos. 8 anos depois comprei "The Lost Symbol". Li, com sofrimento, 35 páginas. Achei um lixo completo. Coloquei na prateleira e nunca mais senti vontade de retomar. Se eu fosse ler hj o "Código da Vinci" seguramente também abandonaria.


Em suma, sem querer me desfazer das paixões de ninguém, passo muito bem sem literatura-pop de vampiros, bruxinhos, elfos e gnomos.


Depois de ler Eclesiastes, Provérbios, Sabedoria de Salomão, como poderia apreciar "O Segredo", "A cabana", "Quem mexeu no meu queijo"?



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