quinta-feira, 21 de julho de 2016

Dez conselhos que a Fernanda de 34 anos daria pra Fernanda de14 anos



1 - Não tenha pressa. Para nada. Para casar, ter filho, escolher profissão, para nada. A vida é longa e você tem que pensar muito bem antes de tomar decisões definitivas. Não se contente com o primeiro cara legal que aparecer no seu caminho. Outros melhores te aguardam.

2 - Não fume. Fumar na década de 1990 era legal, mas agora já não é tanto. Isso só vai prejudicar sua saúde e te fazer gastar muito dinheiro à toa.

3 - Cultive as boas amizades. Amigos de escola são inestimáveis e te trazem uma sensação de segurança. Amigos de faculdade te ajudarão a ter mais oportunidades de emprego. Cultive-os. Não perca o contato com eles.

4 - Jamais se deixe dominar por ninguém. Família, namorado, melhor amigo, patrão, por ninguém. Ouça com atenção os conselhos das pessoas, especialmente as mais velhas, mas jamais permita que outra pessoa te domine.

5 - Tenha a si mesma como prioridade, sempre. Você é a única pessoa preocupada com o seu próprio bem-estar. Se você mesma não se valorizar, ninguém o fará.

6 - Preste atenção nas aulas de Matemática. Na escola parece que não servem pra nada, mas a maioria das profissões que pagam bem são da área de Exatas.

7 - Não tire fotos comprometedoras, não exagere nas selfies, e nudes jamais! 

8 - Pense antes de falar. Nascemos com duas orelhas e uma boca pra ouvir muito mais do que falar. E em boca fechada não entra mosquito. Se abstenha de "tiradas engraçadinhas" em que só você vê graça. A Fernanda de 34 anos passou por incontáveis situações constrangedoras ao tentar fazer piadas.

9 - Não perca seu tempo comparando sua vida com a de outras pessoas. Cada um tem sua própria trajetória, seus percalços e merecimentos. Enquanto você perde o seu tempo se ressentindo que fulano fez algo que você gostaria, esse mesmo fulano se ressente que você alcançou algo que ele almejava.

10 - Não tenha medo. Você é jovem e tem a vida toda pela frente. Se joga! Tope, encare, vá, viaje, tente, pule e voe! Você só é jovem uma vez e a vida de adulto é muito chata!


sexta-feira, 8 de julho de 2016

Quatro motivos porque somos contra a compra e venda de filhotes de raça.


Você tem uma cachorrinha fêmea de raça. Ela é muito linda, fofa, meiga, uma gracinha. Aí você pensa "Ah, que mal tem? Vou cruzar minha cachorrinha, vender os filhotinhos, fazer algumas famílias felizes e de quebra ganhar uma graninha extra, que mal tem?" 

Aí você compartilha o anúncio da venda dos filhotinhos, tão lindinhos, e não entende porque aparecem uns malucos que se dizem "protetores de animais" te criticando. O que é que você está fazendo de errado, trazendo lindos filhotinhos de raça ao mundo? Que mal tem isso? 

Ou você leva os filhotinhos pra uma feira de pets e aparecem uns loucos protestando contra os maus-tratos aos animais, contra os canis de fundo de quintal, mas você não tem nada a ver com isso, né? Seus filhotinhos são "puro fruto do amor", ainda que vez por outra você saiba que alguns deles morrem logo depois de vendidos. Que pena, né? São tão pequenos e frágeis... Mas não dá pra devolver o dinheiro...

Os protetores de animais nada têm contra cachorros de raça. Amamos cachorros. E gatos. E todos os pets. Sem raça, com raça, de meia raça, de qualquer jeito. O que somos contra é a irresponsabilidade, a exploração e o abandono. Vamos, portanto, tentar explicar pra você, que nós acreditamos que goste de cachorros, porque você deveria parar de cruzar o seu e vender os filhotes.

1 - Você está arriscando a vida, e explorando biologicamente, seu próprio cachorro, a cada gestação. Cada gravidez traz inúmeros riscos de complicações e problemas, ainda mais em raças pequenas. Por melhores que sejam os cuidados que você dedica à fêmea matriz, cada gestação sacrifica o corpinho da sua fêmea.

2 - Você está causando danos psicológicos à fêmea matriz e aos filhotinhos prematuramente desmamados. Imagine o que é uma mãe ser engravidada uma vez por ano, amamentar só até os três meses e ter seu bebê arrancado de si e vendido, como se fosse mercadoria. E para o bebê, ser separado da mãe tão cedo... Não parece legal, né? Se não é legal pra você, porque seria legal para aquela que você chama de "filha"?

3 - Cada filhote vendido é um cachorro de rua a mais que nunca encontrará um lar. Cada pessoa que compra um cachorro, se não fosse possível comprar, adotaria um, que seria retirado da rua. Portanto, cada lindo filhotinho que você traz à vida tira o lugar que poderia ser ocupado por um cachorro de rua.

4 - Cachorros não são mercadoria, e muitas vezes são comprados por pessoas irresponsáveis, que os abandonarão assim que derem "problema". Tome-se por exemplo o filhotinho presenteado no auge da paixão, num dia dos namorados. E depois que o namoro acaba? E o filhotinho lindo, que cresce demais para morar em apartamento? E aquele que late demais, e os vizinhos reclamam? Sim. Muitos desses acabam simplesmente abandonados na rua, pro dono "se livrar do problema". E, na rua, acabam se reproduzindo sem controle. Mas seus filhotes mestiços não serão adotados, porque  a "avó matriz" continua produzindo lindos filhotinhos, até morrer.

Nós, protetores de animais, acreditamos que você seja uma pessoa boa, que realmente ama seus cachorros, e pedimos que você reflita sobre esse texto e se questione se realmente é certo continuar cruzando seus filhinhos e vendendo seus netinhos.

Porque para nós o amor não tem preço. E filhos e netos não se compra nem se vende.





terça-feira, 14 de junho de 2016

A história de Cacau



Há mais de três anos, desde que passou o luto por minha avó, eu não atualizava este blog. Por diversos motivos, que ainda explicitarei. Mas sobretudo por estar a esperar por algo de realmente bom para escrever.

Há alguns meses atualizei meus perfis incluindo a descrição "noachide operária de 'tikkun olam' e um pseudo projeto de 'boddisattva'." "Tikkun Olam" se traduz por "retificação do mundo". E mais do que ganhar dinheiro , ter sucesso ou "felicidade" isso é o que sempre tive como objetivo principal a atingir em minha vida. E é a respeito de uma pequena contribuição neste sentido que escrevo agora.


No começo deste 2016 na atribuição de aulas escolhi, além de minha escola sede, voltar a dar aulas numa escola que eu já conhecia de anos anteriores, situada num distrito afastado 6 kms da cidade, chamado Assistência, entre Rio Claro e Piracicaba. Tivera boas experiências lá na outra vez. 

Começando a dar aulas, vi que a escola alimentava com restos de merenda a uma cachorrinha, branca com manchas marrons. Como sempre tive e gosto de cachorros, peguei simpatia por ela, e aos poucos a fui observando. Dois meses depois de iniciadas as aulas, outra cachorrinha, pretinha, com gravidez a termo, meio que "invadiu" a escola, e pariu na sala de informática. Em alguns dias o Canil Municipal, pressionado, a buscou com seus filhotes.

Ouvi conversas aqui e ali que a outra, branquinha, precisava ir embora antes que aparecesse grávida. Um aluno disse que de final de semana ela ia pedir comida no bar, e às vezes apanhava dos bêbados do boteco. Isso cortou meu coração. E passei a observá-la mais de perto.

Ela sempre ficava ao lado da inspetora. Comecei a cogitar abrigá-la para ser castrada. Perguntei a esta inspetora, Bete, se a cachorrinha tinha nome. Disse que a chamava de "Maria Encrenca". Não era um bom nome. Tirei uma foto e publiquei num grupo do Facebook perguntando como poderia castrar uma cachorra de rua gratuitamente.

Me indicaram o centro de Zoonoses de RC, liguei e me deram seis meses de prazo. Me casdastrei, pensando se em seis meses a cachorrinha ainda estaria na escola.

Foi então que um grupo de protetoras de animais, que nunca me viram pessoalmente até agora, se dispuseram a pagar pela castração da cachorrinha, se eu me dispusesse a lhe dar abrigo, "lar temporário", no jargão dos protetores. Morando sozinha num apartamento de dois quartos, topei. Era uma sexta-feira.

Na segunda, alto outono, trouxe a cachorrinha pra minha casa e lhe escolhi um nome que acreditei não só lhe cabia como lhe traria bons augúrios: Cacau, pois era branca e marrom, como um bombom de chocolate branco, e igualmente doce. No mesmo dia, horas depois, Rio Claro teve uma enorme tempestade. Na mesma semana levei Cacau para castrar, mas descobrimos que já  era castrada, então as protetoras da AICA de RC trocaram o pagamento da castração pela vacina V10, que tem duas doses.

Compartilhei, e comigo diversas pessoas, a foto da Cacau para adoção, e apareceu uma família interessada, levei Cacau até a casa deles de carro, pois queria me certificar das condições e com quais pessoas ficaria. Era um casal com duas crianças, uma delas bebê, numa casa de classe média baixa. Senti firmeza e lá deixei Cacau com o compromisso de ir buscá-la se qualquer coisa desse errado.

Fiquei feliz, segura que Cacau  estava em seu lar definitivo e até compartilhei pros meus amigos a notícia de que Cacau tinha tido um final feliz. Porém, uma semana depois, me mandaram ir buscá-la alegando que ela não tinha se dado bem com a filha menor do casal. A busquei em menos de 24 horas, de volta ao meu apartamento.

Já sabia a essa altura que Cacau era inteligente e de boa índole. E que estava disposta a fazer todo o possível para se agarrar a esta chance que lhe estava dando, de ser uma "cachorrinha de família ", e não mais uma cachorra de rua, à mercê das maldades dos bêbados. A cada momento percebi que Cacau estava bem disposta, a dar o seu melhor, a aprender, evoluir, mesmo com o choque de do nada deixar de ser uma cachorra de rua e virar uma cachorra de apartamento.

Não roeu nada. Nada destruiu ou sujou a toa. Não se entendeu muito bem com Amy, e pôr isso não pensei em mantê-la. Mas sempre por culpa da Amy, que a pentelhava e enchia o saco. Cacau nunca foi de sua parte agressiva ou hostil com minha Amy. Mas amizade entre elas não ia rolar.

Depois de sua primeira devolução, decidi divulgá-la aos meus alunos, imprimi um cartaz e passei em uma sala. Falei dela em outras. Alguns alunos se interessaram. Lhes dei meu telefone. Dois dias depois veio um aluno, feliz e sorridente:

- Professora, falei com meus pais, e eles concordaram em ficar com a Cacau!

Combinamos certinho, ele me passou o endereço, e fui lá entregar Cacau num sábado de manhã. Dei os mesmos alertas que à família anterior, que a buscaria se houvesse qualquer probelma. Era uma casa um tanto menos favorecida materialmente que a anterior. Na segunda-feira seguinte seria a segunda dose da vacina v10 da Cacau e deixei combinado de ir buscá-la. Qualquer problema já a devolveriam.

Qual não foi minha surpresa, ao chegar e perguntar à mãe do aluno, e ela muito mais receptiva, dizer que a Cacau era ótima, muito dócil, estava dando tudo certo. Só me pediu se poderia comprar uma casinha, pois não tinha condições. Comprei a casinha, levei pra vacinar, comprei coleira com medalhinha de identificação com o telefone celular dela.

A fui decolver quando o aluno, Davi, estava chegando da escola. Ele literalmente deu alguns pulos de alegria quando me viu tirar do porta malas do meu Uno Mille a casinha da Cacau. Grande, de compensado de TetraPak. Mas o suficiente para ela se esquentar. Adicionei um colchonete que já usava no meu apartamento, que coube perfeitamente dentro da casinha.

Há um mês "Maria Encrenca" estava na rua, passando frio e fome, sendo agredida por bêbados. Hoje, Cacau está vacinada, vermifugada e medicada, em uma casinha quentinha e fofa, cuidada por uma família, e especialmente por um menino de onze anos chamado Davi. E o fato de que eu de alguma forma propiciei que todo esse bem acontecesse a Cacau me traz profunda alegria e a sensação de que vim ao mundo para fazer coisas deste tipo, e que mais coisas assim quero fazer. É este tipo de história que quero contar a respeito de minha vida e de minha presença neste mundo. Espero que Deus me ajude a ter muitas mais histórias como essa para contar.






domingo, 24 de agosto de 2014

Pequeno guia com 12 dicas para os iniciantes na Internet



1 - Não aceite a amizade de estranhos. Tem gente que sai adicionando os outros "de bobo", outras que adicionam para passar vírus e dar golpes virtuais. E outras ainda que adicionam desconhecidos por motivos ainda mais escusos, criminosos mesmo. Simplesmente não aceite a amizade de ninguém que não seja previamente seu amigo na "vida real".


2 - Se você for menor de idade, não use uma foto de perfil (avatar) em que isso seja perceptível. Infelizmente, a internet está cheia de pedófilos e fotos que você acha normais e inocentes podem ser vistas de outra forma por esses tarados. Se você é menor, use como foto de perfil uma foto de um desenho, uma flor, uma paisagem, um personagem, de forma a que simplesmente pela foto o pedófilo não identifique que você é uma criança ou adolescente. Outra forma de evitar pedófilos é informar no seu perfil outro ano de nascimento, mais antigo, de forma a que os desconhecidos achem que você já é maior de idade. 


3 - Se algo é segredo, você deve ser o primeiro a guardá-lo. Não conte a NINGUÉM. Se você mesmo "espalha" o seu segredo, como pode achar que os outros vão guardá-lo? Procure, você mesmo, não espalhar fofocas nem publicar nada que ofenda a terceiros. Você poderá ser acionado judicialmente e processado no "mundo real" pelas coisas que publica na Internet.


4 - Nunca, jamais, em nenhuma circunstância, faça fotos "sensuais" ou nu. Nem com seu namorado, noivo ou marido. Pode parecer que "não tem nada de mais", mas tem sim. As pessoas são muito neuróticas com sexo e nudez. Uma única foto sem roupas poderá transformar sua vida num inferno, te tornar alvo de chacota e destruir sua reputação... para sempre. 


4 A - Pense: as pessoas cobram, muito caro, para posarem nuas... Por que você faria isso de graça... a menos que pretenda "divulgar seus serviços sexuais"? É justamente isso que as pessoas pensarão ao ver suas fotos nuas: que você é um profissional do sexo.


4 B - Pense nisso antes de tirar fotos com seu namorado ou marido na hora da "empolgação". Hoje vocês se amam de paixão, mas e quando esse relacionamento acabar? As pessoas são vingativas e aquele que você acha que é o "amor da sua vida" pode no futuro, por raiva, vazar na net suas fotos íntimas. Ele vai parecer um "garanhão conquistador", e você sairá dessa como uma "prostituta". Imagens que para você são de "amor", para os outros são pornografia.


4 C - Mesmo que você não seja vítima de um ex vingativo nem você mesma publicar as fotos "sensuais" que tira escondido de si mesmo, pense: e se você perder ou alguém roubar seu celular, tablet ou pen drive com essas fotos? E se um hacker invadir seu computador? Você acha que o ladrão terá algum escrúpulo em vender suas fotos para sites pornográficos ou de pedofilia? Com certeza, não. A única forma de se proteger disso é nunca, jamais, em nenhuma circunstância, tirar fotos sugestivas ou sem roupa. E até de biquíni.


5 - A internet é uma praça pública. Tudo o que você publicar será usado contra você, mesmo 50 anos depois. Tome muito cuidado com publicações polêmicas, brincadeiras "aparentemente inocentes" e "zoações" em geral. Se um dia, daqui a 30 anos, você for candidato a presidente, aquela sua foto entornando uma garrafa de vodka, ou com o "dedinho na boca" pode, e fará, você perder a credibilidade diante dos eleitores.


6 - Não faça postagens públicas, selecione "só para amigos". Proteja-se dos curiosos e dos haters (gente que te odeia). Seja cioso de sua intimidade, explore e se informe sobre as opções de configuração de privacidade com cuidado para que não "vazem" informações suas por aí sem o seu conhecimento.


7 - Se você for publicar algo e perceber que seus pais, ou seu chefe, não aprovariam, não publique. Nenhuma piada ou gracinha vale você "queimar seu filme" com aqueles que determinam o seu sustento.


8 - Pense se vale mesmo a pena atualizar seu "status de relacionamento" toda vez que trocar de namorado ou "ficante". Pense que no futuro quando você encontrar sua "cara metade" você pode até perdê-la se ela pesquisar e descobrir que você já teve 20 ou 30 outros parceiros. E também no que seu "grupo de amigos" vai pensar de você se você troca de parceiro engatando um novo relacionamento "sério" mês sim, mês não.


9 - Quando estiver namorando, não exagere nas "fotos românticas" e não publique fotos beijando. No futuro, se o relacionamento acabar, você vai odiar essas fotos, bem como seus futuros parceiros. Você poderá deletar as suas, mas e se houver várias dessa fotos, com dezenas de diferentes parceiros, nos perfis de outras pessoas? Nessas você não conseguirá "dar sumiço" e podem ser fruto de grande desconforto, dores de cabeça e crises de ciúme.


10 - Pense que um dia você terá filhos, netos e bisnetos. E talvez, se você não viver muito, eles só te conheçam a partir dos seus perfis nas redes sociais. Não publique coisas que poderiam envergonhar seus bisnetos daqui a 50 anos. Na internet tudo é eterno.


11 - Não perca o sono. É tentador "virar a madrugada". Não vale a pena. Não há nada que seja publicado depois da meia-noite que não possa esperar o dia seguinte para ser curtido, comentado e compartilhado. O sono é fundamental para nossa saúde e bem estar. Dormir poucas horas te fará se sentir mal e produzir pouco no dia seguinte. Durma pelo menos 8 horas por noite. E mais, se possível.


12 - Cadastre no seu perfil do Facebook todos os livros que ler e filmes que assistir. É uma forma legal de divulgar que você tem interesses culturais, de passar uma imagem positiva para todos. E, em nosso mundo, infelizmente, mais importante do que "ser" é "parecer" ou "divulgar". Cuide para que as informações que divulga sejam positivas, falem bem, e não mal, de você.


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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Acreditar em um "falso messias" viola algum mandamento?


Este é um texto genérico, não se refere especificamente a nenhuma vertente religiosa.


A palavra "Massiach" (Messias) não consta da Torah. 


Há porém duas passagens um pouco contraditórias a respeito de "profetas como Moisés" a vir no futuro, vejamos. 


Dt 18:

15 O Eterno seu D'us fará surgir, dentre seus irmãos, um profeta como eu em seu meio, e vocês o ouvirão. 16 Foi o que você pediu aO Eterno seu D'us, no Horeb, no dia da assembléia: ‘Não quero continuar ouvindo a voz dO Eterno meu D'us, nem quero ver mais este fogo terrível, para não morrer’. 17 O Eterno me disse: ‘Eles têm razão. 18 Do meio dos irmãos deles, eu farei surgir para eles um profeta como você. Vou colocar minhas palavras em sua boca, e ele dirá para eles tudo o que eu lhe mandar. 19 Se alguém não ouvir as minhas palavras, que esse profeta pronunciar em meu nome, eu mesmo pedirei contas a essa pessoa. 20 Contudo, se o profeta tiver a ousadia de dizer em meu nome alguma coisa que eu não tenha mandado, ou se ele falar em nome de outros deuses, tal profeta deverá ser morto’.


21 Talvez você se pergunte: ‘Como vamos distinguir se uma palavra não é palavra dO Eterno?’ 22 Se o profeta fala em nome dO Eterno, mas a palavra não se cumpre e não se realiza, trata-se então de uma palavra que O Eterno não disse. Tal profeta falou com presunção. Não tenha medo dele.


Nesta passagem, Moshe Rabeinu afirma que O Eterno lhe disse que, no futuro, faria surgir no povo de Israel "um profeta como ele". Note: um profeta como Moisés, que não era o Messias. Porém outra passagem, que finaliza a Torah, afirma algo que aparentemente contradiz isso, vejam:


Dt 34:

10 Em Israel nunca mais surgiu outro profeta como Moisés, a quem O Eterno conhecia face a face. 11 Ninguém o igualou em todos os sinais e prodígios que O Eterno o mandou realizar no Egito contra o Faraó, contra toda a sua corte e contra sua terra. 12 Ninguém se igualou a Moisés na mão forte e em todos os feitos grandiosos e terríveis que ele realizou aos olhos de todo o Israel.


E sobre o advento de "novos profetas", a Torah também diz:


Dt 13:

2 Quando no meio de vocês aparecer algum profeta ou intérprete de sonhos e apresentar a você um sinal ou prodígio - 3 se esse sinal ou prodígio que ele anunciou se realiza e ele convida você: ‘Vamos seguir outros deuses (que você não conheceu) e vamos adorá-los’ - 4 não dê ouvidos a esse profeta ou intérprete de sonhos. Trata-se de uma prova com que O Eterno seu D'us experimenta vocês, para saber se vocês de fato amam aO Eterno seu D'us com todo o coração e com todo o ser. 5 Sigam ao Eterno seu D'us e a ele temam; observem seus mandamentos e lhe obedeçam; sirvam a ele, e a ele se apeguem. 6 Quanto ao profeta ou intérprete de sonhos, deverá ser morto, porque propôs uma revolta contra O Eterno seu D'us, que tirou vocês do Egito e os resgatou da casa da escravidão, e porque procurou afastar você do caminho pelo qual O Eterno seu D'us havia mandado seguir. Desse modo, você estará eliminando o mal do seu meio.


Dessas passagens podemos concluir:


1 - Se algum dia virá "um profeta como Moisés", há dúvidas. Pois tanto se afirma que um dia haverá (Dt 18:18), como também que "nunca mais em Israel houve um profeta como Moisés". (Dt 34:10).


2 - Se o profeta for verdadeiro e as pessoas não crerem nele, não há punição prescrita, apenas esta sentença:

Dt 18: 19 Se alguém não ouvir as minhas palavras, que esse profeta pronunciar em meu nome, eu mesmo pedirei contas a essa pessoa.


3 - Se o profeta for falso e as pessoas crerem nele, e ele incitar as pessoas à idolatria, a Torah não especifica nenhuma punição aos fiéis "desviados", apenas ao falso profeta, que incite os demais à idolatria (Dt 13:6).


Tudo isto posto, perguntamos:


1 - Acreditar em um "falso messias" que não incite as pessoas à idolatria viola qual mandamento?


2 - Há alguma punição para quem acreditar em um falso messias que incite as pessoas à idolatria?


3 - O Eterno diz em Dt 13:4 que coloca à prova seus fiéis com o advento de "falsos profetas" e afirma a seguir que o importante é se apegar a D'us e seguir seus mandamentos (Dt 13:5). Assim sendo "ficar procurando um Messias" ou "novos profetas" não seria perigoso, e a postura mais segura não é simplesmente se concentrar em seguir as Leis da Torah? 


4 - Precisamos mesmo ficar ansiosamente perscrutando, desesperadamente procurando indícios de última hora de "quando virá o Messias"? Afinal, quando ele chegar, não instaurará a Era Messiânica e todos saberemos então, sem sombra de dúvida, que ele veio?


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quinta-feira, 10 de julho de 2014

Da Máfia chinesa



Em texto anterior, mencionei que minha segunda experiência profissional foi em uma firma de videokê comandada por chineses, e au passant que meu desligamento desta empresa não foi tão pacífico. Vamos aos detalhes.


Os japoneses, ao que me consta, criaram uma forma de entretenimento denominada "karaokê", termo que significaria "sem banda". Pelo mundo espalhou-se o hábito de, em bares e locais de entretenimento, haver uma máquina que, com o acionamento de moedas, tocava a trilha de uma música, possibilitando aos clientes o entretenimento de cantá-la.


Na passagem entre os 1990 e os anos 2000 o karaokê "evoluiu" para o videokê, com o avanço de que agora havia uma tela que mostrava a letra da música a ser cantada. Rapidamente começaram a pulular pelos bares as "jukebox de videokê". E justamente no fornecimento de "máquinas de videokê" a empresa King Star entrava no mercado.


Entrei em contato com ela através do meu então colega de cursinho, e para sempre grande amigo, Henrique "Figura". Ele morava no mesmo prédio do dono da empresa, e assim conseguiu o emprego. No curso pré-vestibular Figura verificou que meu domínio do português era muito bom, e me convidou, a princípio, para um trabalho freelance como revisora da grafia da letra das músicas. Me forneceu um equipamento e por alguns finais de semana gastei todas a minhas horas livres nisso, entregando o trabalho antes do prazo.


Meu trabalho causou boa impressão e me convidaram para um trabalho fixo na King Star. Adorei pois seria minha segunda experiência empregatícia, e o local de trabalho ficava a 300 metros da minha casa no Tatuapé. Sem registro em carteira, receberia, em 2001, 300 reais por mês, o que creio que fosse próximo ao salário mínimo da época.


O dono da empresa atendia pelo nome "brasileiro" de Fernando, meu xará. Era um taiwanês de 26 anos com esposa e filho pequeno, empreendedor arrojado que também empregava seus irmãos, que atendiam por Cris e Mário. Soube que antes de se dedicarem ao videokê trabalhavam com máquinas de caça-níquel, mas que haviam abandonado esse ramo por conta da proibição legal e subsequente fiscalização.


Figura rapidamente me ensinou seu métier, que era bem mais simples do que eu pensava. As máquinas, semelhantes a DVD players, vinham prontas da China. A nossa parte era desenvolver o software. Ou, mais precisamente, adicionar o máximo de músicas ao acervo do software do videokê. Baixávamos pela internet arquivos .mid com a melodia e também pesquisávamos a letra dessa canção. Nosso trabalho era simplesmente o de sincronizar letra e música, acertando compassos, timbres e tons.


Mesmo sem saber quase nada de música e sendo incapaz de tocar qualquer instrumento, era muito simples esse trabalho. E até o de multiplicar músicas, se gravadas por mais de um artista. Nosso trabalho frutificava, e as vendas iam bem até o ponto em que foi contratado um terceiro membro para nos ajudar. Após algumas entrevistas, selecionaram Roberto Mautone Jr., que frequentava minha sala do cursinho pré-vestibular.


Tudo ia muito bem... Até que... A China chamou.


Nosso chefe Fernando não nos explicou muito bem os pormenores, mas pelo que pude entender, o capital que havia usado para iniciar o negócio viera de Taiwan, de parceiros comerciais que, portanto, eram sócios no seu negocio na King Star. Aparentemente seu sócio em Taiwan estava passando por problemas, ou desconfiava de sua retidão na condução da empresa, e portanto enviaria "emissários" para um tipo de "auditoria"


Os chineses que vieram eram 2, um homem e uma mulher, esta aparentemente esposa do superior de Fernando, e aquele aparentemente seu "testa de ferro". Só falavam chinês e um pouco de inglês. Sendo nós contratados numa firma com 3 chineses e 3 subalternos brasileiros, ouvir chinês para nós era corriqueiro. Fernando, com seu sotaque pesado, veio me perguntar se eu "realmente falava inglês de verdade" e quando disse que sim, me pediu que fizesse um "meio de campo" com os visitantes, os levasse para passear no bairro, almoçar, etc, e assim fiz.


Foi numa dessas oportunidades que descobri que minha primeira tatuagem não era em japonês, mas em chinês. No dia de meu aniversário de 18 anos eu comparecera a um estúdio de tatuagem. Folheara o portfólio e selecionara duma folha onde se lia "Letras japonesas" o ideograma sob o qual estava escrito "verdade". Estava tranquila desse fato até que o "testa de ferro" do chinezão, ao vê-la, abriu um sorriso e disse: "nice, honesty!"


Eu disse "I beg your pardon, what did you say?" E ele disse "I just read your tattoo". Repliquei: "can you read it? Is it in chinese? I thought it was 'truth' in japanese". E ele disse meio que rindo da minha cara "well, it's chinese, and says 'honesty', wich also can be translated as 'truth'." Me senti meio tranquila e meio lograda. Pelo menos eu não havia tatuado "conteúdo 300 gramas" ou "sopa de cebola".


Após algumas semanas chegou da China, ou de Taiwan, pois para eles "era tudo a mesma coisa" o chefão cuja esposa eu estivera ciceroneando, mesmo com seu péssimo inglês. Aparentemente vinha para "tomar o negócio" do Fernando. Num sábado de janeiro de 2002, logo após eu fazer as provas da segunda fase da FUVEST o Fernando nos disse para ir ao trabalho "normalmente", mas para ficarmos alerta, pois algo de importante aconteceria. Eu, Figura e Beto permanecemos no andar de cima, em nossos computadores, enquanto "a chinesada" fez uma reunião no andar de baixo. No meio do expediente, ouvimos do andar de cima barulhos que pareciam de uma briga física entre eles.


Quando se aproximou a hora do fim de nosso expediente, Fernando subiu as escadas, foi à nossa sala, nos dispensou e me entregou, numa caixa, uma fita de vídeo VHS. Me pediu que a ocultasse em minha bolsa, a levasse para minha casa, e disse que mais tarde, ainda neste dia, a iria buscar. E que eu a guardasse enquanto isso como a minha vida. Ok. Enquanto íamos embora, o testa de ferro do chinesão chamou o Figura para uma conversa particular.


Beto me acompanhou no curto trajeto até minha casa e, lá chegando, não nos contivemos em colocar a fita no meu videocassete, rebobiná-la e assisti-la. Era uma gravação de uma câmera escondida colocada na luminária do teto da sala onde acontecera a reunião, no andar de baixo. A "chinesada" obviamente só falara em chinês, mas mesmo não compreendendo uma só palavra, assistimos tudo, vidrados.


A linguagem corporal não deixava dúvidas. Travavam nosso chefe Fernando, o chinesão seu superior e seu testa de ferro que reconhecera minha tatuagem uma discussão aguerrida, por conta de dinheiro ou da condução da empresa. Assistimos ao momento em que o "chinesão big boss" deu uma série de socos na mesa, e este fôra o barulho que nos alarmara, ouvido do andar de cima.


Ao fim da tarde nosso chefe Fernando veio bater à porta da minha casa, perguntando com ansiedade e insegurança de menino "onde estava a fita". A entreguei na mesma caixa, sem lhe informar que a assistira, e ele a abraçou como a uma joia preciosa.


Abriu um sorriso, me agradeceu pela discrição e disse:


"Essa fita vai salvar a minha vida".


Na semana seguinte recebi a notícia de havia sido aprovada no vestibular da USP para o curso vespertino de História e pedi meu desligamento da King Star. E soube que o "chinesão big boss" não era o "big boss" after all. Que havia, acima dele, lá na China, um "chefão" superior, e que essa fita da discussão em chinês lhe havia sido remetida por Fernando como uma forma de provar sua honestidade na condução do negócio, no intento de "queimar", lá na China, com o "verdadeiro chefão" aquele que socara a mesa da King Star.


Nesse meio tempo o Figura nos revelou o conteúdo de sua conversa com o chinês. Ele sofrera uma tentativa de suborno. O chinês lhe dissera que a King Star seria desfeita, e o convidou para "virar a casaca": abandonar o Fernando e passar a trabalhar diretamente para ele, o que lhe valeria um reajuste salarial de 50%. De 300 passaria a ganhar 450 reais. Só ele, eu e o Beto não. Não havia espaço para nós. Figura nos disse que por nenhum momento cogitou aceitar isso. Que conhecia o Fernando há anos e não colaboraria com essa "puxada de tapete". Que não aceitaria essa proposta, levando o know-how que aprendera com o Fernando, para seus agora "inimigos" e futuros concorrentes. Que não faria parte deste "golpe empresarial" que resultaria no fim do emprego meu e do Beto, seus "trutas". O Figura sempre foi muito "firmeza".


Depois disso, não mais soube que rumo levou essa contenda. Com o avanço da tecnologia, e o fim da moda, essas máquinas de videokê que vendíamos caíram no ostracismo. Não há mais quem as compre. Não sei que rumo tomaram Fernando e seus irmãos. Mas tenho certeza que estão enriquecendo, empreendendo, trabalhando diligentemente, como os chineses, ou taiwaneses, sabem fazer tão bem.


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quinta-feira, 15 de maio de 2014

O canario Frank Sinatra


O dia 14 de maio de 2014 marca para mim a conclusão de uma das mais importantes incumbências que já recebi. Em seu leito de morte, meu avô me pediu que eu cuidasse "dos seus" com um sussurro. Padecendo de câncer terminal, saturado de morfina, em seu último momento de lucidez tivemos uma conversa física e metafísica de despedida. E, no seu último olhar, que foi de preocupação, percebi que ele, vendo-se partir, me repassava a responsabilidade de cuidar dos de sua casa. E assim foi.


Os que moravam "sob a asa" do meu avô até ele partir, eram uma pessoa, 2 cachorros e 2 pássaros. Os cachorros, Jade e Whiskey, morreram de velhos com mais de 14 anos e pude, com carinho, cuidá-los até o fim do decreto de seus dias. Minha avó, cuidei bem, alimentei, pensei suas feridas, fiz compania e até ensinei a mexer no celular. Mas para surpresa de todos, precocemente, faleceu em viagem ao Rio de Janeiro, para encontrar parentes, de derrame cerebral. Dentro das minhas forças, dela cuidei o melhor que pude, no que esteve ao meu alcance. O papagaio Chico foi doado pela minha vó Tula há muitos anos para o viveiro de um veterinário.


Restava o canário, o mais longevo de todos.


Criar canários do reino é um velho costume português que herdamos e sinceramente não me lembro de nenhuma ocasião em que a casa de meu avô não tivesse ao menos um canário. Às vezes alguns. Chegaram a dar cria. Além de singelos e de trato simples, os canários do reino cantam bonito, e interagem de forma até carinhosa com seu cuidador.


Desde o falecimento de meu avô assumi essa responsabilidade com certo pânico: nunca ninguém me instruíra a como cuidar de um passarinho tão frágil, mas pude fazer o backup das muitas memória do Major Vicente Novais da Silva, homem talhado em pedra, redobrando-se em carinhos e cuidados com seus pequenos. É simples. Basta água fresca, alpiste, vitamina uma vez por dia e de vez em quando um pedacinho de ovo, de fruta ou folha verde.


É simples, mas não era um "canário qualquer", era o canário do meu avô, que ele amava, e me pedira em seu leito de morte para cuidar. Portanto, eu não tinha "só" que cuidar dele. Para honrar ao meu avô, e a confiança que ele depositara em mim, eu tinha que cuidar MUITO BEM do agora "meu" canário, como não pude cuidar do meu avô.


Esse sentimento de responsabilidade, de cumprir a contento uma missão muito importante, não tive só a respeito do canário. Mas diferentemente dele, o papagaio, os cachorros, minha vó INTERAGIAM diretamente comigo. Depois da morte do Morzinho, minha relação com eles passou a ser DIRETAMENTE com eles. O Chico, que eu conhecia desde criança, mesmo esclerosado, ainda dançava às mesmas músicas de 20 anos antes. Os cachorros, até o problemático Uísque, me abanavam o rabinho e faziam festa. Minha vó conversava comigo, eu a levava ao shopping, almoçávamos juntas.


O canário não. Eu sabia que já era adulto, ninguém soube precisar o quanto, mas minha vó garantiu que estava com eles desde antes de eu entrar na faculdade, portanto há pelo menos 7 anos. Não me lembrava de ter ouvido meu avô chamá-lo pelo nome, e questionei Tula, mas ela não soube me dizer se tinha nome. Remexendo entre os discos de meu avô, encontrei um de Frank Sinatra, e como nosso canário era bom cantor, escolhi eu mesma este ser o nome pelo qual o chamaria.


Por pelo menos 2 anos ele me estranhou. Se assustava e entrava em rebuliço quando eu me aproximava da gaiola. Bichinho frágil e arisco, no qual nem se pode tocar, enquanto o papagaio Chico nos franqueava ainda coçar-lhe o cangote...


O canário hesitava em ter uma relação direta comigo, então minha relação sempre foi com a lembrança do meu avô, através dele. Até este dia do hoje, todas as manhãs, quando descobria Frank do seu pano de dormir azul e lhe dava vitamina, me lembrava logo cedo do meu avô. E todas as noites, quando olhava no relógio para não deixar passar da hora de pôr pra dormir o canarinho idoso, me lembrava de meu avô ao cuidadosamente cobri-lo com seu pano azul para dormir, dizendo "boa noite, Frank, durma bem."


E o mesmo terror de falhar na missão em relação a cada um destes seres que eram da responsabilidade de meu avô me assombrava em relação ao canário. Tinha medo de deixar faltar-lhe água ou comida e que morresse por minha irresponsabilidade. Tinha medo de pegá-lo para cortar suas unhas e quebrar um de seus delicados ossinhos, matando-o com minha brutalidade. Tinha medo de deixá-lo fugir da gaiola ou vê-lo atacado por um pardal e que ele morresse por minha inépcia. Tinha medo de esquecer de cobri-lo à noite, no frio, ou de esquecer de descobri-lo pela manhã, e ele sufocar, morrendo por meu descuido.


Enfim, tinha um profundo medo de não corresponder a contento à missão que meu avô me dera, e mesmo post-mortem, decepcioná-lo. Que um dia eu viesse a sonhar ou vivenciar ele me recriminando a dizer: "fui tão carinhoso sempre com você e você matou o meu canário!"


Com o tempo eu e Frank fomos construindo uma amizade. Afinal, foram quase 8 anos e após o estranhamento inicial, ele percebeu que eu era sua cuidadora agora e passou a me saudar, cantar para mim, quase a comer na minha mão. Posso dizer que enriqueci sua alimentação. Mudei o simples alpiste por um mix de cereais. Sempre lhe cozinhava ovos ao ponto de perceber que ele preferia a gema à clara. Sempre lhe oferecia diferentes tipos de vegetais até o ponto de constatar que seu prediletos eram o pepino, o brócolis e a alface. Em dia quentes, lhe colocava a banheirinha e ele se refestelava com uma alegria que com certeza valeu o registro em vídeo.


http://youtu.be/_KFV-qIZeZw


Até a véspera de morrer, sempre esteve muito bem, se alimentando de forma voraz, detonando as folhinhas, limpando o cocho de vitamina. Sua convalescença foi curta. Em 13 de maio acordou baqueado, passou todo o dia sonolento e desanimado, mas ainda comeu e bebeu um pouco. Não acordou no dia 14. Não morreu de surpresa, atacado, neglicenciado. Sua água e ração estavam cheias. Sua gaiola limpa. Ele, protegido, abrigado dentro de casa.


Morreu em paz. E assim trouxe paz para uma questão de honra para mim: fazer frente e cumprir o último desejo do meu avô. Neste dia morreu o último ser que estava sob a responsabilidade do meu avô quando ele se viu surpreendido pela morte, e cuja incumbência me repassara. Hoje, mais de 7 anos depois, todos estão mortos. E posso dormir tranquila, pois cuidei deles o melhor que pude. E a morte de nenhum deles foi causada por mim.


A partir de hoje, nem eu, nem meu falecido avô temos mais nada com o que nos preocupar. Tudo está bem, em paz, completo.


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