terça-feira, 24 de abril de 2012

Porque nao tiro mais Tarot

Poucos dos q me conhecem pessoalmente tiveram a oportunidade de testemunhar minhas habilidades de cartomante. Não as costumo propagandear ou fazer uso delas por uma série de motivos, reais e imaginados.

Aprendi a tirar as cartas do tarô ainda no Ensino Médio. Na época comprei um set de cartas e 3 livros sobre o assunto: Tarô Clássico, Os Arcanos Maiores do Tarot e a Cabala, e Iniciação à Cabala; e tendo-os lido comecei a brincar de ler a sorte dos meus amigos, de forma desprentesiosa.

Sempre tive noção da responsabilidade do q estava a fazer, por isso em todas as vezes, ao "abrir as cartas" não fazia uma leitura livre, mas me munia do significado das cartas no livro Tarô Clássico e relia a descrição do significado de cada carta antes de interpretá-la no "jogo". E também jamais cobrei de absolutamente ninguém por isso, só o fazia para amigos, e a pedido deles.

Aqueles q conhecem minha militância em defesa da Torah podem estranhar o fato de eu haver lido Tarot pois tal prática é vetada pela Halachá (Lei Judaica) neste versículo:

Levítico 19: 31 Não se dirijam aos necromantes, nem consultem adivinhos, porque eles tornariam vocês impuros. Eu sou Javé, o Deus de vocês.

Antes de mais nada, a Lei Mosaica é obrigatória aos judeus, não aos gentios. Não estou falando q seja lícito tirar o Tarot, pois não é. Aos judeus. Os Noachides não são obrigados a seguir os 613 mandamentos da Torah, apenas as 7 leis de Noé. Mesmo sabendo q eu não era "obrigada" a cessar de praticar "adivinhações", após começar meus estudos de Teologia Judaica, parei de "brincar" de perscrutar os desígnios divinos.

Mas apenas muitos depois fui compreender, visceralmente, pq não devemos tentar divisar as coisas q nos estão ocultas. Parei de tirar o Tarot até para mim mesma, percebendo q não era capaz de compreender e de lidar com o que os arcanos revelavam sobre minha própria vida. E por vários anos meu jogo de Tarot ficou esquecido acumulando poeira.

Até q numa conversa despretensiosa com duas amigas professoras lhes disse que era também taróloga. Mais do q rapidamente ambas ficaram em polvorosa para que eu "lesse seus destinos". Numa ocasião posterior marcamos de nos encontrar na casa de uma delas e solicitaram-me que levasse meu baralho de Tarot. Meio q de brincadeira, levei. Me pediram q lhes abrisse as cartas.

Amiga T. Colega historiadora. Gaúcha, fizera faculdade no Paraná onde, no último ano, engravidara de seu namorado paulista, motivo pelo qual se mudara para minha cidade. Em nossas conversas, ela sempre dizia como tudo o q fazia atualmente era em prol de sua filha, q só se mudara para SP por ela, q aguentava todos os desaforos da sogra por ela, q suportava os desfeitos do namorido pouco dedicado em nome de sua filha. Abri-lhe o Tarot.

Minha primeira frase, após um longo suspiro foi: "As cartas falam uma coisa muito diferente do q vc me disse. Olha, se eu estivesse cobrando, diria o q vc quer ouvir, mas como não estou cobrando, e vc é minha amiga, vou te dizer a verdade: sua filha sequer aparece no jogo." Olhando bem a carta dos enamorados encimada pelo carro e pela papisa disse: "Olha, desculpa a sinceridade, mas pelo q estou vendo aqui vc se mudou e está aqui pq vc ama seu namorado, não por causa da sua filha. Aqui está muito claro: vc ama esse homem. Não é por causa da sua filha q vc está aqui, é por causa do seu namorado."

Ela não fez nenhum comentário, guardou um silêncio pesado e me olhou como se eu houvesse pichado no muro um grande segredo q ela escondia de si mesma.

Amiga R. Filósofa. Estava envolvida com um rapaz q acabara de descobrir q sua outra namorada, da qual R. sabia, estava grávida. Antes de pegar o Tarot ela me disse: "Preciso saber se ele mentiu pra mim, pois falou q queria ficar comigo, e agora a outra está grávida. Quero saber se ele está sendo sincero comigo ou fazendo jogo duplo".

Abrimos as cartas. Sol, temperança, carro, imperatriz. Nenhuma Lua. Eu pessoalmente não gostava do rapaz e cria q R. não fazia bom negócio ao ficar com ele. Contudo, relatei o q o jogo revelava, e nele não havia nenhuma mentira, nenhuma enganação. Abri minha boca e disse: "as cartas não revelam nada sobre mentira, muito pelo contrário, dizem q ele está sendo sincero com vc."

Ela abriu um sorriso como de quem agradece um grande favor, e pareceu aliviada com o resultado da leitura das cartas.

Naquele dia fiz uma leitura do Tarot q eu mesma considerei sem maiores conseqüências. Até uma semana depois.

Em exatos 7 dias minha amiga T. se separou do namorido. Disse-me : "tudo o q vc falou no Tarot fez muito sentido. Eu colocava nas costas da minha filha o peso de decisões q eu tomei não por ela, mas por mim. Depois q vc leu as cartas para mim parei para pensar e vi q vc estava certa. Eu me mudei para cá não pq tinha uma filha pequena, mas pq amava o pai dela. E sabe o q descobri depois de pensar muito nisso? Q não o amo mais! Vou voltar pro Rio Grande do Sul!"

Engoli seco. Percebi minha parcela de responsabilidade no "separar uma família". Sei q não sou responsável pelas escolhas de T., mas talvez eu tivesse lhe dito coisas q ela não estava pronta para ouvir, e com isso me tenha feito parcialmente responsável por sua filha, no futuro, não ter nenhuma lembrança do próprio pai.

A outra amiga, a filósofa R. menos de 2 anos depois se casou com o rapaz sobre o qual havia-me perguntado se era mentiroso e eu garantira q não. Não há como saber, objetivamente, se na ocasião de ele ter engravidado outra ele estava mentindo ou não, mas não deixei de pensar q, caso naquela ocasião, eu tivesse dito q ele mentia, R. não estaria hj casada com ele.

E me caiu muito mal a sensação de q um dia essa amiga pode se virar para mim e dizer: "Casei com o maior 171 pq vc me garantiu q ele era sincero, e quebrei a cara!" Sei q não sou responsável pelas escolhas dela, mas percebi como arvorar-me em ser capaz de "ver o q está escondido" poderia interferir, de forma definitiva, no destino dos meus consulentes, e como eu não estou disposta a arcar o peso dessa responsabilidade.

Desde então, há vários anos, não tiro as cartas para ninguém, nem para mim. E o motivo não foi perceber q eu não fosse capaz de fazer as leituras, muito pelo contrário. Parei de ler as cartas do Tarot justamente por perceber q eu era, de fato, capaz de interpretá-las. Que eu era com elas capaz de ver coisas q os próprios consulentes não revelavam. Que com as cartas eu faria afirmações q interfeririam nas escolhas das pessoas, o q me faria parcialmente responsável pelo seu futuro.

Parei de tirar o Tarot pois não quero mais ver-me responsável por separar uma família q talvez ainda devesse estar junta, ou por possibilitar um casamento q talvez não devesse ter ocorrido. Parei de tirar o Tarot por perceber q não devemos brincar com os desígnios divinos, e que muitas vezes é melhor não saber, esperar as coisas se desenrolarem por si. E também por ver q não é da minha alçada interferir nas escolhas dos outros. Nem revelar-lhes coisas q não estão preparados para compreender.

8 comentários:

  1. Olá Fernanda!

    Independente do que tenha ocorrido, e como disses que és 'defensora da Torah", como bat noach saibas que a Torah, Midrash falam muito bem acerca da alma de uma mulher, Hashém é quem sabe realmente o futuro de cada um, ams ele concedeu a mulher algo especial de que é sentir forte ou seja ter intuição, mas é preciso saber muito bemcompreender e sabe usar tal intuição, como no caso da história, você usou. A intuição e os aspectos especiais de uma mulher bat noach ou judia, são geralmente colocados em prática, uam vez que tais exemplos de mulheres estão conectadas fortemente a Hashém!!!

    Tudo de bom.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. De fato eu percebo como mulher um certo conhecimento intuitivo q é desconhecido pelos homens. Adorei seu comentário! Shalom!

      Excluir
  2. Li o seu artigo acima e a minha conclusão é a seguinte. Você não fez o dever de casa antes de começar a brincar com o tarô. Você não trabalhou sua própria sobra. Quando a sobra começou a lhe atingir, você culpou o antigo testamento. Isto é, transferiu o que voce mesma deveria ter enfrentado como o fazem as pessoas evangélicas hoje em dia, ou aquelas que pensam que são evangélicas e são tão confusas que constróem um Templo de Salomão, sem saber que isso tudo é do antigo testamento e nao tem nada a ver com a nova versão de amor de Jesus. Aconselho a voce a voltar a trabalhar a sua sobra. Uma boa terapia vale a pena. Aí voce verá que as cartas tambem falavam a verdade para voce mesma.

    ResponderExcluir
  3. Toda regra tem exceção. O taró pode ajudar muito mais do que destruir, da mesma forma que uma religião evangélica, igualmente pode.. Ir para uma igreja e cair na mão de um pastor picareta pode ser muito mais nocivo para a vida espiritual do consulente do que uma consulta mensal de taro ou outro oráculo qualquer. O mundo está cheio de vigaristas em qualquer religião. A unica coisa que o consulente deve observar , por informações, seriam as credenciais do "guru" em foco.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. .. e um adento. Voce jamais pode garantir 100% que essa ou aquela pessoa é sincera para influenciar na decisão de um casamento. Todos temos defeitos. Creio que você resolveu parar de ler, não por culpar o oráculo, mas pela maneira errônea de aplicá-lo. Não basta apenas saber o significado das cartas para uma tiragem. Há muito mais coisa envolvida.

      Excluir
    2. .. e um adento. Voce jamais pode garantir 100% que essa ou aquela pessoa é sincera para influenciar na decisão de um casamento. Todos temos defeitos. Creio que você resolveu parar de ler, não por culpar o oráculo, mas pela maneira errônea de aplicá-lo. Não basta apenas saber o significado das cartas para uma tiragem. Há muito mais coisa envolvida.

      Excluir
  4. Toda regra tem exceção. O taró pode ajudar muito mais do que destruir, da mesma forma que uma religião evangélica, igualmente pode.. Ir para uma igreja e cair na mão de um pastor picareta pode ser muito mais nocivo para a vida espiritual do consulente do que uma consulta mensal de taro ou outro oráculo qualquer. O mundo está cheio de vigaristas em qualquer religião. A unica coisa que o consulente deve observar , por informações, seriam as credenciais do "guru" em foco.

    ResponderExcluir
  5. Também tenho facilidade com o Tarô. Certo dia, resolvi perguntar as cartas se este instrumento divinatório me afastava ou me aproximava de Deus. A resposta que obtive foi que me afastava. Então, parei com isso. Não estou dizendo aqui que o Tarô é uma coisa ruim para todos, mas que ele é ruim pra mim. Que é ruim para o desenvolvimento da minha personalidade.

    ResponderExcluir

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...