terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Do afogamento

Morrer afogado é um medo ancestral, bem cimentado em nossos arquétipos mentais. Uma daquelas fobias comuns, ao lado da aracnofobia (medo de aranhas), agorafobia (medo da multidão), acrofobia (medo de altura), aicmofobia (medo de injeção), nictofobia (medo do escuro), catsadidafobia (medo de baratas), musofobia (medo de ratos).

O medo de morrer afogado, ou de submergir-se em água, chama-se hidrofobia. Além de designar um transtorno psiquiátrico (medo de água) este nome tb se aplica a uma doença transmitida por vírus, popularmente denominada "raiva", cf: http://pt.wikipedia.org/wiki/Raiva_(doença) . Por sua incidência entre mamíferos silvestres e de estimação, todos os anos o governo brasileiro disponibiliza a vacina anti-rábica aos nossos pets.

A primeira vez q experimentei a sensação de afogamento, contava uns 6 ou 7 anos, numa piscina de hotel, creio q no Guarujá. Lembro q, muito confiante, já sabia mergulhar, e a piscina tinha um fundo em declive. Já tendo explorado toda a parte q me dava pé sem nenhum revés, comecei a fazer minhas gracinhas, me aventurando no fundo até q numa dessas o fôlego faltou, o pé não encontrou o chão, a boca não encontrou ar, comecei a engolir água, me debater como uma lagartixa. Batendo as mãozinhas na superfície, pra meu grande alívio, alguém, creio q Regina, percebeu minha aflição e me puxou pra cima. Cuspindo água, me agarrei no deck e me dei conta q ainda era criança, indefesa, apesar de me sentir muito adulta. O tomei como lição e não restou disso nenhum temor de fazer futuros mergulhos.

Aprendi a boiar com uns 10 ou 11 anos, na praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Meu único tio, Renê, acabara de se casar com uma bela paranaense, minha tia Marilurdes, e para q todos se familiarizassem, fomos visitar os recém-casados em seu apartamento em Jacarepaguá: eu, Cristhiane, Patrícia, e meus avós Tula e Morzinho. Lembro q quando chegamos de carro ao Rio era aniversário de Cristhiane, 28 de dezembro, e justo nesta data o covarde Guilherme de Pádua assassinara Daniella Peres, filha da novelista Glória Peres.

Numa ida à praia da Barra, vi minha irmã do meio, Patrícia, magicamente suspensa na superfície da água. Perguntei-lhe como era capaz de fazer isso. Cheia de marra, me deu uma de suas comuns desancadas e me disse q estava boiando, e q para fazer isso não precisava saber nenhuma técnica ninja, bastava "relaxar o corpo e não ter medo, q o corpo bóia sozinho, pois 'bosta não afunda'." (palavras dela).

Tentei imitá-la 1, 2, 3 vezes, sem sucesso. Eu afundava. Tentava deitar na água, mas ao estirar os braços, sempre ia pra baixo, e lutava para voltar à tona. Virei pra Patrícia e disse: "eu não devo ser feita de bosta, pq eu afundo!". Ela riu e disse q todos somos feitos da mesma coisa, q o "macete" era "não ter medo de se afogar, não lutar contra a água".

Com dezenas de tentativas, aos poucos fui compreendendo o q ela queria dizer. Q eu não devia encarar a água como uma inimiga contra a qual lutar, mas como uma parceira da qual me aproveitar, ou uma companheira a saber controlar. Sim, a água era potencialmente fatal, se eu não soubesse corretamente me comportar nela. Mas podia ser fonte de diversão, relaxamento, se eu soubesse compreendê-la e decodificasse a "etiqueta" do bom nadador. Se antes eu a achava ameaçadora, quando a conheci e comecei a desvendar seus segredos, passei a amá-la. Me tornei ótima nadadora, e capaz de boiar tanto no mar como na piscina.

Muitos anos depois, assistindo a um programa da TV de "sobrevivência na selva" acompanhei o tutorial de Bear Grylls sobre o q fazer em situações de afogamento. Minhas sobrancelhas pularam quando ele, taciturno, decretou: (algo assim, estou transliterando de memória)

- O q mata as pessoas afogadas não é a água, mas o desespero. Quando se sente afogar, instintivamente a pessoa começa a se debater descontroladamente, o q só a faz afundar mais. Se vc se sentir afogando-se, o melhor é ficar calmo, não fazer nenhum movimento. O ar q ainda estiver nos seus pulmões te levará à superfície, e te fará boiar. Se vc vir outra pessoa se afogando, nunca vá pessoalmente salvá-la. A pessoa desesperada vai se agarrar em vc e continuar se debatendo até q os dois morram afogados. O melhor é jogar pra pessoa algum objeto q bóie na qual ela possa se agarrar: uma bóia, um pedaço de isopor, um galho de árvore.

Foi muito interessante meditar sobre este enunciado e verificar sua veracidade. Comuns são as tragédias em q um membro da família começa a se afogar, pula um parente e o resultado é um velório duplo.

É necessário compreender os perigos q nos cercam e não temê-los, mas respeitando-os, saber manipulá-los para q se tornem nossos aliados. Da mesma forma q a diferença entre o remédio e o veneno é a dose, a diferença entre a piscina q nos dá prazer e a água q nos traz o luto é apenas o auto-controle.

De forma análoga, a diferença entre a sociedade q nos aliena, atordoa, escraviza, deprime, limita, e o horizonte de possibilidades q nos estimula, desafia, realiza e enriquece é a forma como o encaramos. E nossa postura perante suas marés.

Há uma breve, mas significativa, cena no filme Amistad (1997, dirigido por Steven Spielberg) no qual o deus de ébano Djimon Hounsou, ao ser capturado pelos yankees, se lança ao mar, e tal qual Ícaro, começa a nadar em direção ao sol nascente, onde ele sabia estar a África, seu lar. É impossível atravessar o Oceano Atlântico a nado, e depois de poucas braçadas o ânimo lhe falta, ele afunda e num átimo deve tomar a decisão de sua vida: desistir perante a derrota momentânea de ter sido recapturado, prosseguir no intento q ele sabia inconquistável, além da força de seus braços, não baixar a crista, não aceitar ser reduzido à catividade mais uma vez; ou engolir o orgulho, parar de lutar, compreender q era necessário POSTERGAR a realização do sonho q, imediatamente, era impossível, e voltar ao barco onde grilhões o aguardavam.

Se vendo diante da escolha de perseverar, e morrer, ou capitular, e viver, Cinque escolheu a vida. Entre morrer "como um homem" ou sobreviver "como um rato", fez a única escolha possível: viver. Vendo-se derrotado por forças além das suas, escolheu racionalmente engolir sua vontade de partir como homem livre e submeter-se, ao menos imediatamente, às forças inimigas maiores q as suas. E posteriormente soube, ao conhecê-las, manipulá-las a seu favor. A mesma marinha americana q o capturou após a rebelião escrava no navio negreiro Amistad, foi a levá-lo de volta à África, depois dele inocentado na Suprema Corte americana.

Há 2 famosos ditos populares brasileiros q rezam: "não adianta dar murro em ponta de faca" e "não adianta chorar sobre o leite derramado". Essa sabedoria ancestral nos ensina justamente: se a situação está contra nós, se debater não ajudará em nada; e se a coisa está horrível, não tem volta e tudo deu errado, ficar se lamentando só vai fazer tudo piorar. Num nível superior, nos instruem: não importa o q acontece com vc, o q importa é como vc reage, qual é a sua atitude perante as situações ruins. E muitas vezes o melhor é não ter "atitude".

Acredito q até muito recentemente eu me debatia desesperadamente, e me afogava, no fluxo dos acontecimentos. Não compreendia a mecânica dos fatos, via as novidades, transformações e o passar dos anos me atingindo com medo, até das ondas calmas, da maré baixa. Encarava qquer maré alta como uma atemorizante ressaca, e os revezes como pequenos tsunamis pessoais, q me deixavam com fobia de voltar à praia da vida, mesmo na beira da arrebentação. Não queria mais fazer castelos de areia nem molhar os pés nas ondinhas.

Acho q estou começando a perceber q, da mesma forma q diante de uma onda alta, se soubermos ter sangue frio pra esperar o momento correto, nem vamos sentir sua marola e, mergulhando por baixo dela, podemos sobreviver incólumes, devemos ter postura parecida diante do fluxo dos acontecimentos.

Se no horizonte se forma um espectro q parece q vai nos derrubar, é melhor não se precipitar, não enfrentar a força descomunal de frente. Devemos nos posicionar de viés, manter o olhar fixo na ameaça, aguardar q a onda comece a vir em nossa direção e, só então, /tchibum/, mergulhar nos desviando do perigo. A onda continua seu caminho e nós, usando nossa inteligência, fomos obrigados a fazer uma capitulação temporária, mas vencemos no final.

Quando entramos num mar q não nos dá pé, não servirá de nada nos debater, pensando "eu não acredito q isso tá acontecendo, eu não mereço isso, sou inocente, sou uma boa pessoa, isso é injusto, q q eu fiz pra merecer isso? etcs, etcs, etcs..." Em suma, ter uma "atitude", mesmo de defesa duma honra merecida, diante dum revés, nada mais é q BURRICE. É preciso ter "jogo de cintura" e ser capaz de ter estômago para "dançar conforme a música" e sobreviver, ao menos imediatamente, quando a situação está manifestamente contra nós.

Não podemos ser simplistas, inocentes, de peito aberto, sem reservas, duelando quixotescamente contra o mundo inteiro. Devemos ser capazes de apreender nossa própria pequenez, como muitas vezes somos coadjuvantes elencados nas farsas alheias, e q muitas vezes é preciso fingir q nos conformamos com nosso papel secundário.

É preciso ao menos 3 décadas de experiência em natação no fluxo da realidade para começar a saber boiar no marasmo confortável do cotidiano pequeno-burguês, e então ganhar confiança para se lançar na arrebentação da infindas possibilidades q podemos lutar para conquistar, sabendo do risco de morrer na praia.

Até pouco tempo atrás, eu me debatia desesperadamente contra tudo q me acontecia e contra todos q conhecia. Tinha muito medo de soltar do deck seguro das minhas lembranças e projetos passados. Acho q já compreendi q devo perder o medo, relaxar meus músculos, reaprender a boiar na maré calma e reaprender a nadar no mar agitado. Acho q decidi "mudar de estratégia". Acho q percebi o valor, ou a necessidade social, de "fazer cara de paisagem", "se fazer de sonsa" e do "me engana q eu gosto".

A partir de hj vou passar a observar melhor o fluxo das marés. Um pouco mais cinicamente, vou aprender a calar meu orgulho e capitular, não pq eu queira, não pq vacile minha convicção, não pq não tenha gana para lutar até o fim de minhas forças, mas pq compreendi q é MAIS INTELIGENTE saber manejar as ondas a meu favor, e q enfrentar as adversidades muitas vezes é suicídio puro e simples.

Muitas vezes, melhor q enfrentar diretamente alguém, é "dar corda" para q a própria pessoa se enforque. Antes eu achava q, ao ver algo errado, eu devia ser "intransigente", era minha obrigação "exortar" cada um. Achava q ao alertar alguém sobre um erro a pessoa o veria e quiçá me agradeceria pela ajuda, pelo alerta. Ledo, crasso, engano. Percebi q, tentando ajudar, em troca ganhava um adversário ofendido, um ex-amigo ultrajado. Já calejada, hj percebo q da mesma forma q eu sou "cheia de boas intenções", todas as outras pessoas tb o são, cheias de SUAS PRÓPRIAS boas intenções, do seu próprio metro do q é "bom senso". E q ao tentar "ajudar" as pessoas eu apenas estava-lhes impingindo o meu conceito de retidão, q elas não queriam aceitar. Portanto, a partir de hj, quando ver alguém cavando a própria sepultura, tentarei a muito custo permanecer calada, por saber a priori q, se eu falar algo isso não ajudará a outra pessoa em nada, apenas me fará ganhar uma antipatia.

É sem orgulho q percebo q não será "o mundo" a se curvar para aprazer a forma q eu acho q as coisas deveriam acontecer. Sou eu q devo ter sangue-frio para saber capitular quando tudo está contra mim, e saber vir a tona, apresentando a atitude correta de lutar ou relaxar quando a calmaria vier.

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