domingo, 3 de junho de 2012

Causos escolares: aborto e covardia

Recentemente ouvi um relato de uma aluna q me tocou profundamente por sua sinceridade e delicadeza. Foi numa sétima série da EJA, a aluna é uma mulher negra de mais de 40 anos, com o semblante sofrido das pessoas q trabalham desde sempre por um salário miserável. Durante a aula eu havia comentado algo sobre o reconhecimento de paternidade e naqueles 5 minutos finais ela espontaneamente começou a contar essa história. Espero ser capaz de reproduzí-la dignamente. Apenas para fins didáticos, a relatarei do ponto de vista da aluna.

- Sabe, professora, eu tenho uma filha q não tem o nome do pai da certidão. Eu nem vou atrás disso nem de pensão, hj sou casada e meu marido é um verdadeiro pai pra minha filha.

- Mas vc deve ir atrás disso. O dinheiro da pensão não é para vc, é para a menina. Mesmo q vc não precise ou não queira tocar no dinheiro, entre na Justiça e exija a pensão a q sua filha tem direito. Se vc quiser, pode deixar esse dinheiro no banco e ela pode sacar quando ficar maior de idade, assim ela vai ter um dinheiro pra fazer faculdade, ou até comprar um carro.

- Mas é q me disseram q se o pai pagar pensão vai ter direito de levar ela nos finais de semana.

- Sim, é um direito. Quando a pensão alimentícia é acertada, o juiz também determina os dias de visitação. Se o pai estiver pagando pensão, tem direito a passar alguns finais de semana com a menina.

- Professora, é justamente isso q eu não quero. A senhora não sabe o quanto esse homem me fez sofrer. Quando eu engravidei, ele falou q não queria o bebê, q eu já tinha 2 filhos, do meu ex-marido q tb nunca pagou pensão, q ele estava desempregado, q eu era faxineira e ganhava salário mínimo. Um dia ele chegou com uma cartela de remédio na mão, me mandou tomar e disse q isso ia "resolver o problema". Nem sei dizer como eu me senti.

Eu olhava pros meus filhos e sentia uma dor, nem sei onde, pensando se eu tivesse abortado eles, matado eles e eles não estivessem naquela hora sorrindo pra mim. Não sou religiosa nem nada, nunca tinha pensado em fazer um aborto, mas vendo meus filhos, mesmo naquela situação, não tive coragem. Sabe, se um homem tivesse me pegado à força talvez eu tivesse coragem, mas tinha feito aquele bebê apaixonada. O bebê não tinha culpa se agora eu descobria q o pai dela não era um homem de verdade.

Não tive coragem, professora. O meu namorado largou de mim quando eu disse q não ia abortar. Nunca mais olhou na minha cara nem quis saber da criança. Eu chorei a gravidez inteira, sem saber o q seria de mim, sozinha e com 3 filhos pequenos pra criar, sem marido pra me ajudar. Quando fui contar pros meus patrões, tive medo de ser demitida, mas eles me deram força, ainda mais quando contei o q o pai da criança tinha sugerido. Mesmo levando a gravidez adiante, não estava feliz, não fazia planos, não conseguia pensar num nome, o bebê era mais motivo de preocupação do q de alegria, e assim foi os 9 meses.

Mas sabe, professora, quando a gente tá no fundo do poço a gente vê como Deus não nos abandona e nos dá força quando a gente mais precisa. Entrei em trabalho de parto justamente na festa de Reveillon. Q apuros! Comecei a sentir as contrações e meu pensamento foi "Agora para melhorar tudo não vou conseguir q ninguém me socorra, ninguém vai trocar a festa de Reveillon por uma noite no hospital, talvez nem tenha médico pra fazer o parto!"

Mas um vizinho me ajudou na hora, me levou pra Santa Casa e minha filha nasceu assim q o ano virou, perfeita e saudável. Minha filha foi o primeiro bebê a nascer em Rio Claro em 20**. Todas as enfermeiras e médicos ficaram emocionados, veio todo mundo me dar os parabéns. Até um jornalista tirou foto da gente e perguntou o nome da bebê. Eu ainda não tinha decidido, mas naquela hora o nome dela veio direto na minha cabeça e não tive nenhuma dúvida: "O nome dela é Vitória".

Minha filha foi a minha vitória na vida, e percebi q ela tinha nascido naquele momento pra me trazer de volta a esperança. Senti um pouco de vergonha de ter passado a gravidez tão triste, preocupada e sem esperanças, pois segurando minha filhinha no colo vi q ela era um presente de Deus e q me traria muitas alegrias no futuro. E como ela saiu no jornal, virou o xodó da vizinhança e ganhei um monte de roupinhas e fraldas q eu não teria condições de comprar.

O pai dela nem quis saber. Ele mora perto de mim até hoje, e quando a gente se cruza na rua ele vira a cara, muda de calçada, dá um jeito de fingir q não nos conhece. Alguns anos depois me casei de novo, e meu atual marido é um verdadeiro pai para a Vitória.

Se eu for pedir pensão pra minha filha, ela vai me perguntar pq me separei do pai dela, pq ele nunca quis saber dela. E eu não quero contar pra ela. Eu não quero q ela saiba q o pai quis q ela fosse abortada. Acho melhor ela não saber, pois se ela souber q o pai dela existe e quis q ela não existisse ela pode ficar revoltada, e com razão.

Às vezes quando ela está brincando, percebo q ela fantasia com o pai imaginário, q seria um grande herói. Quando ela me perguntou quem é o seu pai disse q ele mora em outra cidade, e a gente não tem mais contato. Não sei o q vou dizer quando ela crescer, ou se alguém apontar o pai dela na rua, pois eles são muito parecidos. Não quero q ela saiba q um dia não foi desejada, pois ela, junto com meus outros filhos, é a maior alegria q eu tenho, e meu motivo de viver. Nem sei como eu me sentiria hoje se tivesse sido covarde e matado minha filhinha. Não quero q ela jamais venha a saber disso.


- Acho q vc está mais q certa. Parabéns pela sua coragem. - disse eu, percebendo q naquela aula ela havia ensinado a mim mais do q eu poderia ensinar a ela. Não sobre História, mas sobre Vida, Coragem, Ética e Amor.

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