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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Dos Fenômenos Literários



Em conversas com pessoas similares a mim em muitas coisas, como idade, nível social e educacional é comum um "estranhamento cultural": apesar de eu ser uma leitora voraz, não ser adepta de nenhuma "saga literária" das várias que se consagraram como "fenômenos" da "cultura pop".


As mais populares nos anos 2000 são Harry Potter, The Lord of the Rings e The Twilight saga. Não li nenhum dos livros nem assisti a nenhum dos filmes. Quer dizer, cheguei a ser compelida a assistir ao primeiro filme do "Senhor dos Anéis" com um grupo de amigos. E enquanto eu bocejava, eles exultavam.


Os motivos de eu não participar dessa "onda cultural massificada" são vários, e como já fui muitas vezes confrontada pelo espanto dos meus interlocutores por eu não parecer muito empolgada a gastar um ingresso de cinema para assistir ao "Hobbit", vale o registro.


- Tudo isso foi lançado (ou virou viral) quando eu já tinha mais de 18 anos, já tendo lido vários clássicos qualitativamente superiores em enredo, linguagem, estética, como Kafka, Shakespeare, García Márques, Sartre.


- Sempre soube reconhecer o tipo de literatura ou música classificável como "guilty pleasure": algo do que até se gosta, mas se sabe que não tem muita "qualidade". Estava ciente disso já aos 14 anos, ao reconhecer que ler livros do Paulo Coelho e chorar com as músicas do Bon Jovi eram coisas das quais no futuro eu meio que me envergonharia...


- Tive meu próprio "Harry Potter" na figura da série de 14 livros de Anne e Serge Golon "Angélica, a Marquesa dos Anjos", cada um em média com 300 páginas. Aos 12 anos já tinha lido todos, e já tinha um "cenário fantástico" no qual fantasiar com as aventuras de Angélique de Peyrac no século XVI, entre o Poitou, O Languedoc, Versalhes, o Saara e o Novo Mundo.


- Conhecer mitologia grega. Quando criança minha família tinha uma coleção de livros de mitologia grega. Como "descer o nível" depois disso?


- Ter feito faculdade de História, percebendo assim com facilidade todo o humor involuntário dos acochambramentos que os "autores pop" cometem. Isso também me trouxe uma certa visão de que se determinado autor não atingiu o nível de "clássico", com tantos clássicos imortais na minha lista de ainda por ler, devo direcionar meus esforços primeiro ao que é um "dever" ler, antes de qualquer coisa "acessória".


- Estudar a Torah. Se comparada à mitologia grega o "Senhor dos Anéis" parece bobo, o que dizer de sua comparação à Torah? Ter estudado a Bíblia Hebraica em toda a sua riqueza e multiplicidade meio que "estragou minha tolerância" a literaturas fantásticas de banca de revista.


- Perceber claramente uma "mudança de gosto" conforme os anos passaram. Um "fenômeno literário" no qual embarquei foi o de Dan Brown. Li as 400 páginas de "The DaVinci Code" em um final de semana, assim que lançado. Devorei e adorei, com 20 anos. 8 anos depois comprei "The Lost Symbol". Li, com sofrimento, 35 páginas. Achei um lixo completo. Coloquei na prateleira e nunca mais senti vontade de retomar. Se eu fosse ler hj o "Código da Vinci" seguramente também abandonaria.


Em suma, sem querer me desfazer das paixões de ninguém, passo muito bem sem literatura-pop de vampiros, bruxinhos, elfos e gnomos.


Depois de ler Eclesiastes, Provérbios, Sabedoria de Salomão, como poderia apreciar "O Segredo", "A cabana", "Quem mexeu no meu queijo"?



sábado, 8 de dezembro de 2012

Porque escrevo este blog

É possível q grande parte das pessoas q leêm os textos do meu blog não compreendam o q me motiva a escrever. Os esclarecerei.

1 - Desabafar.

Quando comecei a escrever isso não estava lá muito claro. A princípio, queria divulgar textos legais, poesias, músicas, e até receitas q não queria perder. Depois comecei a escrever sobre minhas experiências como professora, refletindo sobre as coisas q me aconteciam, os problemas q enfrentava, as histórias de meus alunos.

Percebi q escrever me ajudava psicologicamente. Q ao colocar essas coisas "pra fora" eu ficava aliviada. O assunto meio q "parava de incomodar tanto". Ao escrever, fixando fatos e pensamentos, eu descarregava as emoções q esses assuntos me traziam, e passava a vê-los de forma mais "distanciada" ou "bem resolvida".

Acontecia de um "causo" de determinado aluno, ou uma efeméride q me envolvia privar-me do sono, circulando continuamente em meus pensamentos, até q eu escrevia um texto sobre isso e a questão parava de me incomodar.

Quase como se ao "dar upload" a uma memória, eu a pudesse remanejar para meu "arquivo morto" mental e então "colocar uma pedra sobre o assunto", uma vez q sobre ele já escrevi, refleti; e quando o quiser revisitar, estará na ponta dos dedos.

Ao escrever sobre meu presente e perceber q isso me fazia bem, tive a idéia q nos leva ao segundo motivo q me faz escrever.

2 - Divulgar meu testemunho de época.

Como historiadora conheço o valor e a importância de documentos de época. E não apenas são documentos de época "textos oficiais", jornais, livros. Tb são matéria-prima da História diários, cartas pessoais, declarações, testamentos, depoimentos. São instrumentos fundamentais para o estudo da História das Idéias, da Mentalidade, do Cotidiano.

Ao relatar minhas impressões sobre a vida, elas podem até não ser relevantes ou "impressionantes" hoje. Mas daqui a 200 anos este blog pode ser um documento muito útil para pesquisadores estudarem a vida neste princípio do século XXI. Meu testemunho pode parecer enfadonho hoje, mas pode ser muito interessante conforme os séculos passam.

Outra questão subjacente é o fazer-me conhecer por meus descendentes: netos, trinetos, tataranetos, q não virei a conhecer. Isso visando procurei escrever também sobre meus antepassados, citando nomes e lugares, para q no futuro minha descendência saiba sua origem.

Busquei na memória e fiz pesquisa com minha avó para q ela me contasse mais detalhes sobre estes fatos pregressos q se passaram em sua infância, e os relatei o mais fielmente possível. Se não tivesse lhe perguntado esses fatos morreriam com ela. Se eu não tomasse a iniciativa de os eternizar por escrito, no futuro os descendentes dos Bianchetti, Pilon, Gonçalves, Alves, Reiter, Ignácio, Novais, Silva, Tomasella, Ramos, Alencar, Massuella, jamais saberiam de q forma essas famílias se uniram e aparentaram-se. Eu tenho a convivência com minha avó Tula q seus demais descendentes não têm, portanto apenas eu posso tomar o depoimento diretamente de sua testemunha ocular, e assim preservar a História Oral e as tradições da família. As quais "morreriam" se eu não as escrevesse.

3 - Publicar ensaios e reflexões.

Há pelo menos 9 anos participo ativamente de comunidades virtuais de debates teológicos. Comecei ainda nos tempos do Orkut com as comunidades Perguntas Cristãs Complicadas, Perguntas Cristãs Complexas, Religião & Vida (criminosamente deletada) e a Perguntas Cristãs Ridículas. Esta última, criei e moderava com muito prazer. Por sua causa dui excluída do Orkut, e passei a moderar a Bnei Noach - Filhos de Noé no Facebook.

Nenhum dinheiro no mundo seria capaz de pagar pelo treinamento q nessas comunidades tive sobre praticamente todos os aspectos da experiência humana. Como cheguei a participar de tudo isso vale o relato.

Sempre tive desde criança uma "sede" pelo transcendental. Apesar de nunca ter gostado de ir no centro espírita (o q vale outro texto), sentia um certo "comichão" q me levava a tentar me conectar e descobrir o q "havia além" deste mundo. Já na faculdade, ao aprender justamente sobre a importância dos documentos de época, me decidi a ler o mais fundamental deles. Também fui estimulada a isso pela presença no campus de missionários evangélicos americanos, do grupo "Alpha e Ômega". Queria com eles praticar e desenferrujar meu inglês. Mas o único assunto sobre o qual queriam conversar era "a Bíblia".

Não me fiz de rogada. Comprei uma boa tradução (a "Bíblia de Jerusalém") e li. Não li inteira, confesso. Pulei os profetas. Mas li todo o resto, Antigo e Novo Testamento. Acho q li uns 70% da Bíblia católica, mais extensa q a protestante e, obviamente, q o Tanach hebreu. Antes de começar a ler, dela tinha uma idéia superficial, preconceituosa. E talvez prosseguisse a ter essa visão não fosse minha formação como historiadora.

É um texto cru, sangrento, machista, xenófobo, violento. Retrata sacrifícios humanos, recomenda o genocídio completo dos cananeus, prescreve apedrejamentos, rituais sacrificiais, espalha o preconceito e afirma q a mulher é propriedade do marido. Completamente chocante.

Sim, chocante. Compreendido com os olhos de hoje. Porém, se analisado sob a perspectiva histórica, todos esses temas ganham outros matizes. O Antigo Testamento foi escrito na Idade do Bronze, por um povo de pastores nômades q tentava sobreviver no deserto, ameaçado por diversos poderosos impérios, e por eles escravizados.

Ao ler as Escrituras Hebraicas sob o prisma de sua historicidade, esses detalhes chocantes cessam de incomodar. Não há como exigir de um texto fixado há 2.500 anos conceitos como o respeito aos Direitos Humanos, Auto-determinação dos povos, liberdade de culto, igualdade entre os sexos. Seria um completo anacronismo, por exemplo, descartar a Bíblia por ser machista, uma vez q a Revolução Sexual, q tanto me beneficia, aconteceu há meros 50 anos.

Uma vez isso compreendido, outros temas do texto saltam aos olhos. O conceito de responsabilidade civil, de misericórdia, a prescrição de q o escravo deve ser libertado após 7 anos, ou q se for agredido ganha a liberdade, o respeito ao trabalhador, aos órfãos e viúvas, o respeito aos animais, a recomendação do perdão, a necessidade do devido processo legal, testemunhas e defesa num julgamento. O "amai ao próximo como a ti mesmo" (Levítico 19:18).

Assim analisado em todas as suas matizes, à luz da compreensão histórica, vemos q todos estes temas eram, em sua época, inéditos e revolucionários. Assim nos damos conta da profundidade da contribuição do povo hebreu para a construção do ethos e da práxis ocidentais. E pq nossa civilização não é "Ocidental", mas Judaico-Cristã-Ocidental.

E quanto mais eu lia, estudava, analisava, questionava esse texto, mais ele se engrandecia em significados e profundidade. Confesso: o q começou com a curiosidade de um passatempo ou oportunidade de agregar um "acessório intelectual" para poder debater teologia em grau profundo, tornou-se uma paixão quase obsessiva.

E quanto mais eu lia e debatia nessas comunidades virtuais, mais eu me interessava em saber mais. Foi assim q me direcionei aos estudos judaicos e comecei a ter algumas idéias, argumentos e mesmo "teses" teológicas próprias. Vi q os contendores de idéias católicos e evangélicos eram "fichinha". Q estudo realmente sério eu teria em sinagogas e yeshivás. E passei a investir nestes interlocutores, q realmente sabem do q estão falando, não espalham "achismos" nem "o q é loucura par os sábios" (1 Coríntios 1:23).

E assim comecei a produzir textos com meus modestos estudos, reflexões, questionamentos e afins sobre as Escrituras. Muitas vezes me surpreendi em pleno sábado à noite me deleitando em elaborar idéias entre o Mishnê Torah e o Moré HaNevuchim (Guia dos Perplexos)!

4 - Treinar a arte da escrita.

Ainda hoje não sei se levo muito jeito para professora. Também não sei muito ao certo se gostaria de trabalhar na iniciativa privada, tornar-me empreendedora, fazer uma conversão ortodoxa seguida de Aliyah, virar hippie e me mudar pra Alto Paraíso de Goiás, casar ou comprar ou comprar uma bicicleta.

Certa vez numa grave crise de identidade em plena noite insone passei horas me questionando sobre meu propósito nesta vida, e perguntei-me: "o q eu queria ser quando crescesse?". Só uma resposta me veio à lembrança. Sempre sonhei em um dia ser escritora. Lembrei-me das dúzias de cadernos q preenchia com fantasias quando era pré-adolescentes, dos lugares exóticos e nomes pitorescos q dava aos meus personagens. Das centenas de poemas q escrevi e mantenho bem guardadinhos, como trunfos na manga, para procurar uma editora num momento de desemprego.

Escrevendo neste blog não apenas eu atinjo todos os objetivos supracitados, como treino, refino, destilo, instilo, sofistico e lapido meu "chamamento literário". Percebo meus cacoetes. O uso do "q" e não "quê". Meus vícios de linguagem, pedantismos, auto-comiseração, auto-indulgência, omissões, senões e pontos fracos. Onde sou chata e onde pego direto no ponto. Treino a construção de imagens multi-sensoriais, com certa beleza poética.

Vou estudando a arte q nenhum mestre pode ensinar: como ser um observador arguto, perspicaz, e às vezes inclemente, de si mesmo, dos q me cercam, da sociedade e da cultura q nos produziu. E a reproduzir essas observações em apenas 27 caracteres, de forma bela e quiçá relevante.
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terça-feira, 6 de março de 2012

Está pensando em comprar um tablet? Leia

Sei que muitos devem estar pensando em comprar um tablet, e na dúvida se vale a pena e qual comprar. Eu também pensei longamente se era melhor comprar o iPad ou o Galaxy Tab e optei pelo primeiro. Gostaria de expor os motivos para que vcs possam fazer uma escolha mais esclarecida.

Antes gostaria de elencar alguns motivos para se comprar um tablet, independente da marca:

1 - Segurança. Com um tablet, vc não precisará se logar em lan houses e computadores de terceiros, suas senhas estarão bem mais seguras.

2 - Praticidade. Com um tablet com internet 3G vc fica com online aonde for, em outras cidades e até outros estados, sem roaming. O tablet faz o seu tempo render mais. Horas antes desperdiçadas no ônibus ou na fila do banco se tornam produtivas quando vc tem um tablet à mão. Sem contar o conforto de fazer (quase) tudo o que fazia sentado na frente do PC, mas agora confortavelmente esparramado no sofá ou deitado na sua cama.

3 - O tablet substitui outros gadgets "físicos": mp3 player, rádio, computador, lanterna, bloco de notas, pen drive, gravador de voz, televisão (sim, o iPad te fará desligar a TV), jornal, revista, livro, agenda, GPS, calendário, calculadora, videogame, câmera fotográfica e filmadora digitais, lista de compras, espelho, despertador, previsão do tempo, telefone (via Skype), guia da TV, qualquer instrumento musical, até os mais estranhos, dicionário em qualquer língua, Kindle, e muito mais. E, insuspeitamente, até animais de estimação. Esqueçam o famoso Tamagotchi (bichinho virtual); no tablet vc pode ter aquários, gatinhos, unicórnios... Eu tenho até um tigre de bengala de estimação! Nenhum deles morre nem faz sujeira...

4 - Muita coisa grátis. Centenas de apps que facilitam baixar música livre de copyrights. Milhares de livros (a maioria em inglês, mas a oferta em português está aumentando) de domínio público. Apps de jornais (a Folha de SP pode ser lida gratuitamente e na íntegra por quem tem iPad, cortesia de uma grande construtora paulista). Há milhares de apps pagos, mas quem tem paciência e sabe garimpar encontra quase tudo o que quer de graça. Milhares de joguinhos clássicos e novos; alguns que eu tenho: xadrez, forca, Wolfenstein, Pac Man, Bejeweled Blitz, The Sims free play, Angry Birds, Free Cell, jogos do Atari, etcs.

5 - Participar das novas redes sociais feitas para smartphones e tablets: Instagram, Foursquare, Pinterest, Social Cam etcs. Você ficará muito mais plugado às novidades que estão bombando!

6 - A tela grande, muito mais confortável para navegar do que a mirrada telinha dos smartphones.

7 - Geolocalização. Não são todos os tablets que tem, e vale a pena pagar mais caro por um com GPS. Com ele sempre ligado, especialmente se vc tiver 3G, se vc for sequestrado ou seu tablet for roubado, é relativamente fácil geolocalizá-lo e a polícia ir direto ao mocó de quem te roubou.

8 - Interface intuitiva com apps educativos. Mexer num tablet é tão fácil que até crianças analfabetas não terão dificuldades. Para quem tem filhos, o tablet é um investimento inestimável. Há milhares de livros infantis interativos, joguinhos de raciocínio, de memória, de conhecimentos. Fazer de seu filho alguém plugado desde cedo pode fazer uma baita diferença em seu desenvolvimento cognitivo.

9 - Facilidades para quem é deficiente. Não precisei baixar nenhum desses apps, mas há centenas de aplicativos adaptados para pessoas com as mais variadas deficiências. Vide

10 - Aplicativos para coisas que vc nunca imaginou, não sabia que precisava e não conseguirá mais viver sem. Alguns que eu tenho: para dormir, tem app que toca mantra budista, sons ambientes para relaxar, app que com infra-sons fazem os cachorros parar de latir, apps estilo "jardim japonês", apps religiosos (tenho uma menorah virtual pela qual é possível segyir toda a liturgia do shabbat), controle remoto virtual (depende da sua TV ser bem moderna, mas funciona!), contador de calorias, personal trainer virtual, e muitos mais que ainda não conheço, mas um dia encontrarei!

11 - Ficar online 24hs. Diferente do computador, que tem ventoinha/cooler e pode superaquecer, o iPad é como um celular que pode ficar ligado direto 24horas. Vc pode simplesmente NUNCA desligá-lo e toda vez que vc quiser dar uma checada na net, simplesmente pegá-lo e usá-lo, sem estabilizador, sem liga/desliga, sem desperdício de energia e... Sem medo que um raio o queime!

Escolhi o iPad por vários motivos:

1 - A variedade de apps (aplicativos, "programas"). A Apple tem uma atração magnética sobre os geeks, que adoram mostrar como podem fazer apps geniais e exibi-los aos outros "nerds". A Samsung, fabricante do Galaxy Tab nem de longe exerce o mesmo fascínio, e portanto tem uma variedade bem menor de apps, e apps menos "cool and trendy".

2 - A qualidade do produto, indiscutível no caso da Apple. É um produto "top de linha".

3 - Memória. O Galaxy só oferece a versão de 16 gigas. O iPad tem 3 configurações: 16, 32 ou 64 GB. Para vcs terem uma ideia, tenho meu tablet há apenas 2 meses e já ocupei 8 gigas de memória.

4 - Bateria. A da Apple dura muito mais!

Agora alguns motivos para vc não comprar um iPad (não podia faltar):

1 - Trabalho escravo. Muitas são as denúncias contra a exploração dos trabalhadores chineses nas fábricas da Apple/Foxconn

2 - Tornar-se escravo dos produtos da Apple. Uma vez que vc caiu na rede, vira peixe dessa empresa com conhecidas práticas monopolistas.

3 - Incompatibilidade. Não rodar "flash" é apenas o mais visível dos problemas. O iPad até vem com cabo USB, mas ao plugá-lo no seu PC Windows vc terá a má surpresa de que os aparelhos não se reconhecem nem se comunicam. É possível fazê-los "se entender" e até sincronizá-los, mas isso é meio difícil para quem é leigo em informática, exige alguns malabarismos operacionais.

4 - Não é multitasking. Vc só pode usar um app por vez. Até agora, apenas apps que tocam música funcionam em segundo plano enquanto vc mexe em outros apps. É chato toda vez que vc vai trocar de app ter que apertar o botão e ter que fechar um para abrir o outro.

5 - Não funciona como celular.

6 - Esqueça qualquer tipo de download ilegal. Produtos da Apple só baixam arquivos legalizados.

Recomendação final: não financie seu tablet associado a um plano de minutos da sua operadora de celular, sai mais caro. Compre o tablet numa loja física, para ter garantia e um lugar onde reclamar. Depois veja qual operadora tem o melhor sinal 3G perto da sua casa. Há planos de internet (hoje) a partir de R$ 30,00. Não escolha o mais caro. O plano mais barato será mais que suficiente.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Visita à "Tabacaria" de Fernando Pessoa

Antes de mais nada, quem escreveu "Tabacaria" foi Fernando Pessoa?

Essa pergunta traz muitos mais questionamentos do que os comuns. Normalmente esta dúvida seria acerca de uma questão envolvendo plágio, porém esta palavra não pode ser jamais aplicada ao genial, único e autêntico Pessoa. Este poeta lirou não apenas em si mesmo, mas em outras vidas, com outros nomes.

Fernando Pessoa é o poeta (que se utiliza) dos heterônimos. Essa palavra significa simplesmente "outros nomes", mas esse recurso estilístico não deve ser confundido com o pseudônimo (falso nome). O pseudônimo é uma espécie de "nome fantasia" que muitos autores usam para deixar resguardada sua identidade.

Fernando Pessoa não usa pseudônimos. Ele assina suas próprias poesias, não busca o anonimato. E além da lírica que assina com seu próprio nome, produziu lírica que assinou com outros nomes, sem resguardar seu próprio. Fernando Pessoa não é apenas Fernando Pessoa. É também Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e muitos outros. E esses nomes não são seus pseudônimos, mas seus heterônimos.

São também Fernando Pessoa seus heterônimos? Por muitas décadas não se soube. O próprio Pessoa não ajudou muito a esclarecer a dúvida. E por conta disso o Espiritismo Kardecista viu nele um psicógrafo, um médium tal qual Chico Xavier que escrevia obras que não eram suas, mas "sopradas" por espíritos desencarnados. Pessoa jamais autorizou ou desautorizou tal alegação. Talvez ele mesmo não soubesse se era médium. Consta que, por exemplo, escrevia como Álvaro de Campos quando "sentia um impulso indefinível para escrever". Seria esse impulso interno ou oriundo de algum tipo de influência externa, espiritual, de outra personalidade? Ou seria a própria personalidade de Pessoa a fragmentar-se, espalhar-se por outros nomes, e vida virtuais inventadas pelo poeta?

Pessoa não sabia, e nem nós seus leitores o sabíamos. Até que a crítica e a análise literária contemporâneas comprovaram por análises estilísticas e estatísticas que, sim, era Pessoa que falava, com seu estilo indisfarçável, através de seus outros eus.

E é apenas por conta dos recentes trabalhos de análise literária que escrevi "Fernando Pessoa via Álvaro de Campos" e não "Álvaro de Campos via Fernando Pessoa" pois tal ordenamento diria que o autor do poema é o Álvaro e não o Fernando. Na sentença "Fernando Pessoa via Álvaro de Campos" está dito que o autor é, ao fim e ao cabo, Fernando Pessoa.

Fernando foi Pessoas, no plural. Poeta de vida corriqueira, sem grandes aventuras novelísticas, inventou para si outros nomes, personalidades e vidas. O poeta não cabia dentro de si. Seu lirismo transborda a aparência e personalidade corriqueira das coisas, e pessoas. Transcende sua própria pessoa, virando pessoas. Muito já ponderei sobre os prós e contras de haver nascido no Brasil. Dentre os benefícios que aos poucos vou-me dando conta devo adicionar o compreender Fernando Pessoa em sua plenitude, em minha língua materna. O português é intrincadíssimo. Uma das mais belas, ricas e complexas línguas do mundo.

Uma vez estabelecido que foi o próprio Fernando Pessoa que escreveu "Tabacaria", o analisemos.

Este poema mudou minha visão sobre a vida. Hoje, depois de lê-lo, não sei como consegui trilhar meu caminho até aqui sem o conhecer. Ou melhor, sei. O trilhava trôpega (não que agora tropece menos, mas estou algo mais lúcida). Nesta poesia está tudo. Tudo o que pecisamos saber. O apanágio para a dor da existência. Uma chave interpretativa que abre as portas da compreensão. Até então eu não achava que nenhuma arte, poesia ou texto sagrado pudesse exprimir a ingrafável questão existencial básica: a dúvida primordial do sentido e propósito da vida. Pessoa não nos dá nenhuma resposta. Mas como é bela sua expressão do inefável!

"Não sou nada.(...)À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo." "Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada." "Mas penso ser tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! Gênio? Neste momento Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu, E a história não marcará, quem sabe?, nem um,"

Consciência única e vária do "Eu". Pessoa é sublime pq percebe em sua individualidade a alteridade, a multiplicidade do mundo. Percebe o si nos outros. Vê a si mesmo em outréns. Ato impossível aos medíocres, e aos absortos na vida. É uma questão de perspectiva. Apenas quem apeia-se de si mesmo adquire a consciência da transpessoalidade. Eu não sou apenas eu. Sou apenas uma figura emblemática similar a outros "cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu". Minha humanidade, meus sonhos, minhas dúvidas existenciais não são só minhas: afligem toda Humanidade.

Pessoa externa sua consciência transpessoal de que não apenas ele se faz essas perguntas, que não apenas ele é inteligente e "genial". Reconhece-se apenas mais um dentre uma miríade de humanos que se consideram "Gênios", como ele. E a dúvida/certeza de que não basta ser gênio para se destacar.

"Não, não creio em mim. Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas! Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?"(...) "O mundo é para quem nasce para o conquistar E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez."

"Tabacaria" é uma poesia sobre um "deitar de olhar novo" que ressignifica o que é comum. A mais trivial das banalidades: a vista que o poeta tem da rua defronte a sua janela. E desta rua Pessoa extrai o sentimento do mundo. Percebe ao mesmo tempo a realdiade e a irrealidade da existência, talvez falsa, da Tabacaria defronte. Do lado de dentro, a Tabacaria não é real, apenas sonho. Uma virtualidade que pode nunca se realizar.

Sonho de um gênio banal, que por mais genial que seja ou se considere, não há de "ganhar o mundo", em nenhum sentido. O mundo não é para os gênios. O mundo é de quem nasce com o ímpeto de o conquistar. Essência adversa (exterior) em relação ao poeta, cuja luz é interna, rouca e tão louca quanto a dos Napoleões nos manicômios.

"Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.) Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei A caligrafia rápida destes versos, Pórtico partido para o Impossível. Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas"

Pessoa sabe que sua ânsia por reconhecimento é tão vã quanto o esperar ao alpendre de uma porta inexistente. Sabe que, tenha ou não gênio, o julgamento recairá para depois de sua morte. Morreu sem saber sua real estatura. Talvez. Diz ter falhado em tudo. Diz não ser nada.

"E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo."

Pessoa ecoa a multitude e vacuidade concomitantes no ser desperto. E que é apenas no vazio de dar-se um passo fora, ou atrás, de si que se pode ver "com nitidez absoluta" e que se fica lúcido "como se estivesse para morrer" e "não tivesse mais irmandade com as coisas" ao invocar-se como espírito alheio "a mim mesmo e não encontro nada". O poeta é um degredado, a quem tudo é estrangeiro. algo onírico, e irreal.

A poesia não nos oferece respostas. Pessoa não se encontra nesses versos. Vê-se num átimo além de si, e percebe-se preso. Ao quarto, à janela, ao vício da Tabacaria. Tudo se esvairá, até o planeta. E até a lírica será reescrita, reciclada, daqui a milhares de anos, numa outra língua, por outros seres, num outro planeta. Sempre igual, estúpido, inútil e real.

O cigarro, comprado na Tabacaria, onde não se compra só tabaco, é um símbolo, uma imagem, desta vida que se nos apresenta como real, que fumamos tão rapidamente e que some tão sem propósito nem finalidade quanto a fumaça, no ar. Inexistente, mas ainda real.

Para Fernando Pessoa a vida é como um vício, e ele se vê entre a lealdade ao "viver" (o ir à Tabacaria) e seu medo da vida (de sair do quarto), ou sua constatação de que o "viver" é irreal, e tudo é sonho. Mas a vida o puxa pra fora de si. Esteves sem metafísica e o dono da Tabacaria o chamam ao banal. Mas ao real?

A vida se esvai como fumaça enquanto o poeta pondera as virtualidades confortáveis e burguesas pelas quais nunca optará. O poeta não quer e sabe que não pode "ser feliz". Sabe que não pode comer chocolates com a mesma verdade que a pequena se refestela. Fosse "feliz" estaria mergulhado na banalidade das sensações, não poderia dar o perspectivo "passo atrás", não sentiria a necessidade de desermanar-se das coisas e não as veria como são: sonho.

Nesse poema Fernando Pessoa expressa sua compreensão de que a Tabacaria não existe: ela é Metafísica.


The Verve - Bitter sweet symphony

R.E.M - Imitation of life


Chico Buarque - Futuros amantes

Adriana Calcanhoto - Esquadros

Los Hermanos - O Vento

The Matrix

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Fernando Pessoa - "Tabacaria", via Álvaro de Campos

[grifos feitos pela blogueira]

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu ,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo.
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando.
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
0 mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
0 seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena; Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
0 dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.

Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra ,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(0 Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.

Lisboa, 15 de janeiro de 1928

Oasis - The Masterplan

Oasis - Champagne Supernova


Veja minha breve análie deste poema: Visita à "Tabacaria" de Fernando Pessoa

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Viver é melhor que sonhar?

Muitas pessoas não têm "apetite" por cultura, frequentemente por considerá-la um acessório, um "frufru", uma "firula", dispensável. Muitos vêm na cultura algo vão, que rima com frescura, arrogância, desejo de se demonstrar mais "refinado" por vontade de idenficação com certo extrato ou camada social, superior, valorizada. Essa postura justica-se, sobretudo entre os que não compreendem que arte não é acessório, mas uma pulsão primordial da psique humana.

Humanos têm uma sede implacável por "arte". Mesmo que num primeiro momento não se deêm conta.

A explicação para isso está em que a arte toca em certo aspecto inefável da psicologia humana: nosso desejo de transcendência, de auto-compreensão, do ir além, do ser "especial". O ser humano é um enigma, jamais suficientemente desvendado. Na arte encontramos catarse: empaticamente nos identificamos com "o outro", e suas aventuras e desventuras são protagonizadas, ao nível do sonho, por nós mesmos. Assim, a arte é individual e transpessoal ao mesmo tempo.

Partamos de um exemplo tangível. Usarei a "obra de arte" mais valorizada em nosso tempo, inestimável: a "Mona Lisa" ou "Gioconda" de da Vinci, em exposioção no Louvre, em Paris. Seu valor não é intrínseco, mas extrínseco. Isso signfica que, em si, o quadro nada vale. É apenas uma tela de linho embebida em óleos tingidos. A Mona Lisa só ganha valor quando observada. É o ser humano, ao observar na Mona Lisa algo de si que lhe atribui valor, incalculável.

Na Mona Lisa Leonardo da Vinci não retratou a esposa de um burguês italiano; fez um ensaio analítico sobre todas as mulheres do mundo. Inclusive a meu respeito. É isso, o reconhecer-se, que justifica alguém ficar parado horas observando-a. Ele não a está observando. Está observando, realizando, dando-se conta, de aspectos antes não percebidos de sua própria condição humana.

Quem vê uma peça de arte, em qualquer de suas expressões, e não se reconhece nela, realmente, não terá nenhum gosto por esta experiência, não poderá verdadeiramente apreciá-la. Portanto, aprender a sensibilizar-se para as artes é uma forma de erigir-se melhor no viver, transformando o sonhar em realizar, transformar em realidade na vida.

Diz o famoso poema do pouco vivido poeta Fernando Pessoa que:

"Navegar é preciso, viver não é preciso."

Para melhor compreender a acepção que farei desse verso o transcreverei alterando-o:

"Navegar tem precisão, calculada, cartográfica. Viver não tem precisão, cálculo ou mapa algum."

E hoje, que "navegar" se aplica a uma realidade virtual, inexistente na época dos Argonautas citados no poema e na própria época do poeta, estes versos ganham um novo prisma analítico:

"Navegar virtualmente na net é facil, delimitado, explícito, preciso. Viver, a vida real, não é fácil, nem preciso. A vida real não tem limites demarcados. Seus significados não são expressos, estão implícitos em linguagem não-verbal."

Por isso muitas vezes sonhar, criar, compreender através da arte, é melhor e mais fácil do que viver. E muitas pessoas encastelam-se numa torre de marfim teórica que os proteja do viver cotidiano, diuturno, impreciso, assustador.

Passei individualmente por isso ao final da faculdade no dilema: teorizar ou praticar? Fazer mestrado ou trabalhar? Optei por viver, e não sonhar. Encarar a realidade, pois de certa forma me pareceu pouco honesto tornar-me como os que muito critico: pedagogos de escritório, que nunca deram efetivamente aula e criam mil teorias sobre o que não conhecem, erigindo infidáveis e inúteis castelos de areia.

Quantos milhares de assim chancelados mestres e doutores digressam longamente sobre o proletariado sem nunca terem efetivamente trabalhado, sem jamais haver ganho com o suor de seu rosto o próprio pão?

Esse aspecto é abordado na música de Belchior "Como nossos pais" popularizada na transbordante interpretação da muito vivida Elis Regina:

"Não quero lhe falar meu grande amor das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi e tudo que aconteceu comigo
Viver é melhor que sonhar, eu sei que o amor é uma coisa boa

Mas também sei que qualquer canto é menor do que a vida de qualquer pessoa"

Criar um canto, um discurso, como estou fazendo agora, é uma foma de sonhar que auxilia ao viver. Da mesma forma, apoderar-se, pela leitura ou fruição, da arte já existente é uma forma de sonhar sonhos alheios, aprimorando a experiência do próprio viver. Que agora fica mais atento, mais sensível, pela percepção de "novos" aspectos da existência, para os quais antes éramos cegos, ou insensíveis. Que já estavam lá, mas mudos, sem palavras ou imagens que os tornassem tangíveis, inteligíveis, analisáveis, por nós.

A arte nos torna conscientes, nos desperta, para aspectos de nós mesmos que antes desconhecíamos, não nos dávamos conta; que estavam ágrafos, puramente simbólicos, em nosso subconsciente. A arte coloca diante de nós estes aspectos de nós mesmos antes escondidos, não compreendidos, os quais não sabíamos ao certo como processar, expressar. A arte nos dá ferramentas para a compreensão, e desenvolvimento, de nossa personalidade em aspectos sucessivamente mais amplos.

A arte não inventa, não inova. Ela revela aspectos escondidos, universais, atemporais, de nós mesmos, da condição humana. Que muitas vezes não gostamos de encarar, de perceber. Por isso nem sempre a arte é "bela", como gostaríamos que ela, que nós; fôssemos.

Nao sei se viver é melhor que sonhar, ou se sonhar é melhor que viver; apenas sei que ambas as experiências são essenciais à construção da cada pessoa em um ser verdadeiramente humano.

Cabalá - Sonhos

A Visão Espírita dos sonhos, por Luiz Carlos D. Formiga

O sonho de Jacó

domingo, 10 de julho de 2011

Pneumotórax - Manuel Bandeira

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.


Mandou chamar o médico:
— Diga trinta e três.
— Trinta e três . . . trinta e três . . . trinta e três . . .
— Respire.


...............................................................................................................


— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

domingo, 9 de janeiro de 2011

De deus. Ou de Chico Buarque

Não que eu pretenda dar upload em todos os meus pensamentos, como o título do meu blog possa sugerir ao visitante desavisado. E tampouco esta postagem refere-se a qualquer assunto teológico, como visitantes já avisados poderiam supor.

Contumazmente elejo assuntos sobre os quais pretendo, algum dia, futuramente, redigir algum tipo de postagem. Como é típico à disposição psicológica brasílica, estes intentos são sempre reiteradamente, redundantemente, para mais que protelados, deixados para um depois que quase nunca desnuda-se numa esquina futura.

Mas às vezes sinto-me como intimada pelas pequenas coincidências que nos obrigam, de forma plenamente humana, a tentar procurar algum tipo de propósito, mesmo que arbitrário entre quaisquer dois ou dez eventos variados, pinçados a esmo da nossa particularíssima, mas cremos telúrica, biografia.

Toda pessoa meio que mais ou menos desperta para a vida deveria ser uma grande interessada por linguagens, para além da sua própria, pois pensamentos, rimas, métricas e até certo tempero apenas podem ser conferidos por um termo exato, ainda que estrangeiro, ou apenas por ser estrangeiro. E as palavras são a matéria-prima de nosso próprio pensamento, de nossa forma de expressão pessoal. E às vezes as diferentes línguas têm palavras específicas, que não possuem correspondentes em outros idiomas.

Em português o caso público mais clássico e banal é o da lusitana “saudade”. Não que estrangeiros não a sintam, mas talvez sua saudade não seja tão profunda a ponto de merecer um substantivo específico, como lá em Trás-os-Montes. A comparação mais handful é com o inglês. Quantas vezes não vemos nos filmes cenas ao som de “I missed you” traduzidas pelas legendas “Eu estou com saudades de vc” ou “Senti sua falta”. Certo, num reencontro este sentimento é inequívoco.

Mas em português o termo saudade ou a falta de alguém distante não têm nada de correlato a outros usos para “miss” como: “I almost missed my flight”, ou “My cell phone is missing”, ou mesmo: “I won the contest of miss Alabama.” Que o vocabulário e a própria expressão em língua inglesa são inequivocamente mais pobres e fáceis de dominar que o português é óbvio urrante. Não que os anglófonos não sintam saudade, mas talvez esse seja um elemento menos definidor de sua índole, se comparada aos melancólicos lusitanos, que criaram assim uma palavra repetida, enrolada e quase eterna, tão bela para ser cantada e tão sonora na voz de Amália Rodrigues.

Escrevo isso pq, como hoje é domingo, acordei, e ao contrário de lançar-me a um longo acorda-não-acorda, pulei da cama pois precisava dar uma saída. A manhã de domingo arranca-me assim que acordo da cama pois para mim domingo é sinônimo de uma coisa deliciosa: o jornal de domingo, em especial o “Caderno Mais” da Folha de SP, recentemente reformulado com o nome “Ilustríssima”. Tão tradicional é este suplemento dominical que até seu principal concorrente, o Estado de SP “ Estadão”, desistiu do combate direto de intelligentsia no domingo e, conformado, lançou seu “Sabático” aos sábados. Pulei da cama pois no domingo passado, no qual haveria a cobertura da posse de Dilma Roussef, quando cheguei na banca, não só não havia mais exemplares da Folha, como já acontecera, como até o Estado já se esgotara.

Foi através do então caderno Mais que descobri, aos 17 anos que, para além das coisas imediatas de meu universo sensível, haviam multiversos de conhecimento a ser descobertos ou mesmo desvendados. Descobri que as minhas respostas certas não eram tão óbvias assim, que o mundo era muito maior, multidimensional, para além da paisagem quase plana que até mesmo eu, que pensava tanto de mim era capaz então de ver e arquitetar.

O Caderno de hoje traz o texto “Na ponta da língua. O idioma dá forma ao pensamento?” de Guy Detscher, que analisa a influência da língua materna na própria conformação psíquica das estruturas do pensamento individual. Analisa línguas em que há masculinos e femininos para objetos inanimados e como isso influencia a própria concepção que estas pessoas têm desses conceitos, a depender do “sexo” arbitrário que lhes atribuem, citando "The awfful german language" de Mark Twain. Apresenta análises e comparações de “idiomas geográficos” incutidores de uma concepção toda diferente da localização espacial de todas as coisas, memórias e expressões. Assinala que assim duas pessoas falantes de línguas distintas se lembrarão de forma completamente diferente da mesma realidade, pois seus falantes submetem todos os seus parâmetros ora a algo absoluto, cardeal, ora a um parâmetro auto-centrado, particular.

E ainda aprendi, além deste novo conceito, uma nova palavra em alemão, e sei como soa bonito usar, numa roda da intelligentsia, um ou outro termo bem sonoro em alemão: Schadenfreude (alegrar-se com o infortúnio alheio). Não que os brasileiros ou portugueses não sintam inveja, muitas vezes perversa, mas talvez esse não seja um elemento definidor de sua índole a ponto de merecer um verbo especial.

Atualmente, é estranho perceber como as pessoas continuam sempre as mesmas. Enquanto que até agora penso estar cada vez mais aceleradamente, tal qual o Universo, para mais e além de digitar mais rápido, de forma progressivamente mais bela, com opulento vocabulário, melhores e mais lapidados conceitos; outras, antes iguais a mim conformaram-se com seu estar passado e, vistas de minha perspectiva, “pararam no tempo”.

Nunca, talvez, leram aos cadernos intelectuais dos grande jornais paulistas. Talvez abram o jornal apenas para ler ao resumo das novelas e o horóscopo. Talvez dêem uma passadinha pelo caderno de empregos, verifiquem, só pra constar, a cotação do dólar. E, num dia realmente inspirado sua sabedoria burguesa resvale na leitura integral do caderno de entretenimento e num passar de olhos nas notícias das guerras pelo mundo, como tantas vezes eu mesma fazia. Até os 17 anos de idade, quando um certo bichinho me infectou, e este vírus contaminou-me através da leitura do Caderno Mais da Folha de São Paulo, as aulas do professor James do cursinho e a audição quase compulsiva das músicas de Chico Buarque, que é o mote final deste texto em redemoinho, ou talvez em pororoca.

Nesta mesma edição de Ilustríssima, na seção Arquivo Aberto – Memórias que viram histórias há o texto, algo até sentimentalista, mas delicioso “Saramago almoçou em minha casa. Carapicuíba, 1997” de Cristiano Mascaro. Tudo ia meio mais ou menos quando uma frase arrancou-me da mesmice inércia do hoje.

O autor lista os que convidara para o almoço, citando banqueiros, intelectuais, quatrocentões e arremata: “E, para despertar uma certa preocupação no Franco, meu genro, e alegria em minhas filhas Isabel e Teresa (e acredito que em Satiko também) [convidei] Chico Buarque.”

Como explicar a preocupação de Franco para quem desconhece quem é Chico Buarque? A coceira que imediatamente sentiu na testa? Como explicar a explosão de ansiedade nas três anfitriãs? Como piscaram longamente seus olhos na doce expectativa de poder estar a um metro de distância de Chico Buarque? Quem teria coragem de cozinhar para tentar alegrar ao paladar de Chico?

Numa expressão curta para demonstrar a mesura que sua presença suscita: Chico Buarque é deus.

Que fique claro que sou monoteísta estrita, e não pretendo com isso diminuir ao atribuir auxiliares ao meu Criador. Apenas pretendo fazer alguma justiça à arte de Chico Buarque.

Para ilustrar: é dito popular conhecido que absolutamente todo e qualquer homem é um potencial corno na presença de Chico Buarque. E toda mulher inteligente deveria colocar em seu acordo pré-nupcial: qualquer tipo de relacionamento, emocional, sexual ou intelectual com Chico Buarque não é adultério, mas a realização de um sonho inatingível acalentado por milhões de mulheres. Mesmo atualmente, com Chico já bem passado dos 60 anos. E todo homem corneado com Chico Buarque deveria, resolutamente, conformar-se que simplesmente nenhum mortal é páreo para competir com Francisco Buarque de Hollanda. E deve, compreensivamente, dar razão à sua esposa, reconhecendo que, se ele mesmo fosse mulher, não poderia deixar passar qquer oportunidade de poder eternamente gabar-se diante das amigas da inesquecível noite de amor que teve ao lado de Chico. Este é o tipo de feito que eu relataria até a meus bisnetos! Não digo que eu venderia minha alma ao diabo por uma noite de amor com Chico Buarque, mas acho que eu daria um rim para passar uma noite inteira com Chico, cantando-me, baixinho, no cangote. Ui!... Isso, com certeza, vale um rim!

Dizem que há um ranking do Índice de Felicidade Mundial análogo ao IDH, “Índice de Desenvolvimento Humano". E que no ranking da satisfação o campeão imbatível é o Butão, minúsculo e perdido no topo do Himalaia. No Brasil, tenho certeza, o campeão imbatível é o Rio de Janeiro pois as cariocas têm o deleite de eventualmente, ver Chico Buarque passar pelo calçadão, ainda mais diáfano que Helô Pinheiro, mesmo aos 20 anos. Só a felicidade de Marieta Severo, famosa e discreta atriz, que foi esposa de Chico por muitas décadas, já dispara exponencialmente a felicidade de todas as cariocas na média geral.

Se eu morasse no Rio, eventualmente, esperaria, como os paparazzi, Chico Buarque passar desavisadamente pela rua, só para poder suspirar a 4 metros dele, mas creio que não teria coragem de pedir-lhe um autógrafo, com medo de que sua pessoa física pudesse manetear sua persona criativa, que tanto amo. Fique tranqüilo, Chico, jamais me tornaria aquilo que os malucos americanos têm um ótimo termo para ilustrar: stalker. Um desses vitimou outro gênio musical, já citado: John Lennon. Mas como o Brasil tem bem menos malucos por km2 que os EUA, seus gênios e presidentes podem andar quase tranqüilos.

Assim como as pessoas se utilizam de seu acervo pré-fabricado, seu campo semântico familiar, sua língua, para expressar seus pensamentos, creio que da mesma forma utilizam-se de um certo acervo de expectativas, imagens mentais, arquétipos, clichês, sentimentalismos, que adquirem em parte através das músicas com as quais permitem-se chorar, e ouvem até decorar a letra ou até decifrar arranjos e partituras. Talvez eu não precise “maldizer o nosso lar, sujar teu nome, te humilhar e me vingar a qualquer preço te adorando pelo avesso” pois eu já chorei não só ao ouvir Chico cantá-lo mas também pela interpretação avassaladora de Elis Regina desta “Atrás da Porta”.

Em outras palavras, creio que a experiência de ouvir as músicas ricas e geniais de Chico Buarque alargou meu campo proximal de emoções e projeções psíquicas. Ampliou minha própria capacidade de ter sentimentos e fazer associações e transferências emotivas. Para quem tem 17 anos é muito mais proveitoso ouvir a discografia de Chico Buarque do que ler a “Os Lusíadas”. Não que Camões não seja relevante. Mas há pouco, sinceramente, que Camões realmente diga aos corações verdes dos adolescentes do séc XXI.

A maioria das pessoas contenta-se com um João Bosco & Vinícius, ou Maria Cecília & Rodolfo, ou Ivete Sangalo e similares. Eu pensava que Oasis, Pearl Jam, Renato Russo e a Legião Urbana eram o mais longe que eu poderia ir, mas vi-me inesperadamente diante de deus. Caí de joelhos e, como toda brasileira que já ouviu falar dele, me apaixonei. Não que eu tenha parado em Chico, depois fiquei mais boquiaberta ainda, embora não apaixonada, por João Gilberto, e a queda vertiginosa prossegue até hoje nas experiências emotivas e intelectuais que as músicas podem suscitar.

Assistir aos DVD’s de Chico Buarque e perder-se em seu olhos, como duas águas-marinhas é uma experiência hipnotizante. Perceber as diferentes nuances de sua voz em gravações com às vezes 30 anos de distância é o louvor de perceber como os anos, os cigarros e os excessos fizeram-lhe bem à expressão. Além de musicista, letrista, cantor, compositor, dramaturgo, Chico também tem se tornado romancista e é com orgulho que digo que já li 3 livros escritos por deus. A Torah? Não!!! Estorvo, Budapeste e Benjamin.

Até o recente “twiquito” (faniquito virtual via Twitter) pedindo que ele devolvesse o prêmio Jabuti recebido por seu mais recente Leite Derramado, tenho certeza foi despertado para satisfazer ao epíteto rodriguiano (do Anjo Pornográfico Nelson Rodrigues) de que “toda unanimidade é burra”. Então, não para dizer que Chico seja unanimidade pois há todo tipo de maluco no mundo, mas para reverificar o ditado ousaram sugerir que Chico não merece tal prêmio!

Para tentar ilustrar este texto tentei-me lançar à ingrata tarefa de elencar minhas músicas favoritas de Chico Buarque – estão a seguir sem nenhuma ordem. Tal tarefa é interminável. Em outra postagem elenquei, rápida e facilmente minhas favoritas de Amy Winehouse, Ella Fitzgerald e Billie Holiday. Mas com Chico não é tão simples assim. Sua obra é longa, abrange pelo menos 4 décadas, e é, toda, ótima.

Chico é deus. Chico é um gênio. Chico vai do samba ao blues, à valsa ao fado e ao samba, pára na bossa nova, dá uma pirueta no tango, no rock, no xote e termina num emocionante bolero. Outros artistas compõem letras de músicas. Chico Buarque é um ourives que rendilha, reconstrói e enobrece à última flor do Lácio, ou mesmo a enovela lindamente com suas primas, como em “Joana Francesa”.

Chico fez das próprias tripas a primeira lira que animou todos os sons. E canta toda sua profundidade abissal que apenas um eu-lírico feminino é capaz de compor, cantando com uma voz curtida numa longa boemia não só no Rio como em Paris, com um sobrenome duplo tão sonoro e pomposo, e tudo isso ainda engastado com dois hipnotizantes olhos azuis como uma turmalina-paraíba. Conhecer, saborear e enveredar-se pela obra de Chico Buarque é... orgásmico!


Lista das melhores músicas de Chico Buarque:


Amor Barato

Joana Francesa

Carioca

Chão de estrelas

Sem compromisso

Cotidiano

Morena de Angola

Notícia de jornal

Mulheres de Atenas

Samba de Orly

Sob medida

Teresinha

Pedaço de mim

Samba e amor

Homenagem ao malandro

A Rita

Construção

Minha história

Partido Alto

Xote de navegação

Assentamento

Cantando no Toro

Lígia

Luiza

Fado Tropical

Pois é

A ostra e o vento

Amanhã, ninguém sabe

As vitrines

Samba do Grande amor

João e Maria

Paratodos

Cálice

Vai passar

Bastidores

Futuros Amantes

Sobre todas as coisas

Valsa Brasileira

Cecília

Acalanto

Aquela mulher

Bancarrota blues

Cálice

Folhetim

Gota d’água

Romance

Samba e amor

Todo o sentimento

Tanto mar

Ciranda-da-bailarina

Apesar de você

Geni e o Zeppelin

Querido Amigo

Te amo

Bárbara

Olê Olá

A banda

A Rita

Trocando em miúdos

João e Maria

As minhas meninas

Beatriz

Sinal Fechado

Rosa dos Ventos

Carolina

Casamento dos pequenos burgueses

A ilha

Sonhos sonhos são

Feijoada Completa

Valsinha

Você vai me seguir

Atrás da porta

Deus lhe pague

De todas as maneiras

Tango do covil

Basta um dia

Umas e outras

Almanaque

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