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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O Brasil é um país cheio de boas intenções

Nascer no Brasil é uma verdadeira bênção, constantemente pouco reconhecida. Não é à toa q inúmeros estrangeiros escolhem aqui morar. Clima tropical, solo fértil, povo acolhedor, oportunidades múltiplas. Seguramente nem tudo é bom, como exemplos: a corrupção, péssimos serviços públicos, pobreza, criminalidade.

Creio q grande parte dos problemas brasileiros são resultado de um descompasso, uma falta de sintonia, entre a "alta cultura" dos eruditos e a "cultura popular" da "plebe", algo profundamente marcado pelas questões étnico-raciais entre "brancos" e "negros".

Tanto "brancos" como "negros" entre aspas pois os "brancos" muitas vezes não são propriamente brancos, mas o querem ser, e os "negros" muitas vezes não se vêm como negros, devido à grande miscigenação e racismo não-declarado; preferindo ver-se como "semi-brancos". Inúmeras vezes me vi diante de pessoas claramente negras q se declaravam brancas, e se ofendiam se alguém lhes dissesse q não eram brancas.

Como dizia um professor meu, "nos EUA uma gota de sangue negro faz de alguém aparentemente branco um negro. No Brasil, uma gota de sangue branco faz de alguém aparentemente negro um branco."

A elite branca brasileira parece posicionar-se sócio-culturalmente como se estivesse numa "missão civilizatória" visando "melhorar, instruir, ou educar" a "plebe inculta e mestiça". E isso pode ser demonstrado por esta elite tentar "iluminar o povo com a alta cultura (européia, é claro)". Neste texto explorarei 2 exemplos disto: nosso hino nacional e nossos parâmetros curriculares federais.

Numa avaliação internacional feita por músicos e maestros, o Hino Nacional Brasileiro foi eleito como o segundo mais belo do mundo, atrás apenas de "La Marseillaise", o célebre hino francês. Seguramente é belíssimo nosso hino. Porém, tem um "pequeno" problema: poucos brasileiros o sabem cantar.

Este hino é cheio de palavras belíssimas, como plácido, fúlgido, impávido, clave, flâmula, brado etcs. Termos eruditos completamente estranhos ao "povão". Sua melodia é riquíssima, mas não reflete nenhum ritmo brasileiro, popular. Não há nada em nosso hino nacional q faça "o povo brasileiro" se identificar com ele. O hino não foi feito pelo povo, nem para o povo. Mas sim pela elite, para a elite.

Muitos acham q o povo brasileiro não conhece nem canta o hino por falta de patriotismo. Creio q o problema é outro. O povo não o canta pois não se reconhece nele, não sente q este hino seja verdadeiramente "nacional", mas apenas representa aquela parcela "branca, educada, elitista" da população. Há um claro descompasso entre as aspirações, o folclore, a lírica e a musicalidade populares, em relação às representações "oficiais" da cultura brasileira. O hino não atende ao povo, por isso ele o rejeita.

Outra demonstração clara do desencontro entre as intenções da elite e as aspirações do povo são os Parâmetros Curriculares Nacionais para a educação pública. Sou professora de História e usarei esta disciplina como exemplo.

O Currículo educacional brasileiro é tão maravilhoso quanto nosso hino. Muito bem-estudado, elaboradíssimo, abarca todo o conhecimento da História Universal, do ponto de vista europeu. Lendo-o me perguntei: "provavelmente quem escreveu isso é PhD em Coimbra, Oxford ou Harvard". E produziu parâmetros visando colocar os alunos brasileiros em condições de disputar vagas nestas instituições.

De acordo com estes parâmetros, eu deveria formar alunos na oitava série, com 14 anos, na posse de todo o conhecimento da História Universal, desde a pré-História até o fim da Guerra Fria. Q maravilha! Quem lê este documento ACHA q isto é posto em prática, transformado em realidade. Vã ilusão.

Os alunos estão "se lixando" para a Grécia, Roma, o Feudalismo, a Revolução Francesa. Nada disso faz parte do seu cotidiano e seu horizonte cultural. Querem aprender coisas palpáveis, práticas, úteis. E essas coisas não fazem parte do currículo.

A disciplina de "História" tenta fazer do aluno um mini-historiador, e não ensinar-lhe sobre cidadania, Direitos Humanos, relações inter-raciais. Não procura, em nenhum momento, ensinar a instrumentalizar o conhecimento histórico para a compreensão do hoje. Não há nenhum conteúdo q me instrua a ensinar-lhes sobre documentos, imposto de renda, política, atualidades, as coisas q os estudantes realmente precisam e querem aprender.

Ao invés de educá-los para a vida e a cidadania, os PCN's me dizem q eu devo prepará-los para o vestibular da USP. O "pequeno" problema é, como todos sabem, q raramente um aluno egresso de escola pública entrará na USP. Seguramente, menos de 1 por sala. E em prol deste 1, q entraria na USP de qquer forma, eu sacrifico os outros 40, q deixam de aprender coisas úteis para "perder tempo" não aprendendo coisas q, para eles, seriam muito úteis.

Outro exemplo é a disciplina de Química, q tenta fazer dum aluno um mini-químico, calculando elétrons, ligações covalentes e mols. Em nenhum momento pretende prepará-los para usar estes conhecimentos no cotidiano. Nada lhes ensina sobre higiene pessoal, limpeza doméstica, farmacologia e interação medicamentosa, agricultura e pesticidas. Os alunos perdem tempo não aprendendo a ser mini-químicos, enquanto poderiam estar aprendendo química instrumental, para usar no dia-a-dia, beneficiando sua saúde.

Os burocratas, q ganham como juízes, e trabalham em Brasília no ar condicionado, representantes da "elite branca" não vêm a realidade pois nunca deram sequer uma aula na rede pública. Quem realmente sabe do q está falando, pois lida cotidianamente com a realidade existente e não imaginada, freqüentemente manifesta os problemas curriculares.

Apenas para obter como resposta q o currículo é ótimo, foi elaborado por um PhD pela Sorbonne, e q se ele não funciona é por incapacidade dos professores. Meio q dizem "quem são vcs, meros professorinhos da rede pública, para achar q podem dizem para nós, professores doutores, o q deve ser ensinado?"

Respondo: "nós somos aqueles q têm CONHECIMENTO DE CAUSA para falar disso, somos nós que ensinamos, somos nós q sabemos o q funciona e o q é ruim. Vcs, burocratas de terno italiano e sapatos Louboutin, não têm a menor idéia da realidade. Vcs criam leis para um país q não existe." Estes burocratas podem estar cheios de boas intenções, mas elas mais atrapalham do q ajudam quem de fato trabalha no dia a dia escolar.

É necessário romper com essa noção de q a elite deve "civilizar" a plebe inculta. O povo não precisa "ser civilizado na cultura européia", mas instrumentalizado para serem agentes interventores e conscientes na realidade brasileira.

Não é o povo q tem q "melhorar" para poder cantar nosso elaboradíssimo hino. É o hino q tem q ser mudado para refletir a cultura, e o povo brasileiro. Não são os estudantes, nem os professores, q têm q "melhorar" para cumprir o currículo. São os PCN's q têm q melhorar para atender as demandas dos alunos, para ensinar-lhes coisas úteis, cotidianas, e não abstratas, distantes, estranhas à cultura brasileira.

As "boas intenções" são ótimas até falharem no teste da realidade. Até percebermos q elas apenas aparentam ser boas. Na verdade são perniciosas, pois nos fazem desperdiçar anos e anos digressando sobre Roma enquanto os alunos não sabem a diferença entre o CPF e o RG, não têm a menor idéia do q é carga tributária, quais são seus direitos trabalhistas e pq são obrigados a votar a cada 2 anos.

Como diz o famoso ditado "de boas intenções o inferno está cheio", pois não basta ter "boas intenções"; é necessário q, no teste prático, elas sejam validadas como boas. Se o teste prático não as valida, estas intenções mais são uma camisa de força q limita as ações dos professores, q se vêm como um Napoleão de hospício, digressando longamente sobre assuntos q, para os alunos, são tresloucados, irreais e inúteis.


quinta-feira, 11 de agosto de 2011

De como Irene adentrou ao Céu

“Irene no Céu” – Manuel Bandeira

Irene preta

Irene boa

Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no Céu:

-Licença, meu branco!

E São Pedro bonachão:

-Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.


Irene in Heaven” – Manuel Bandeira (minha tradução para o inglês)


Black Irene

Good Irene

Irene always in good mood.

I imagine Irene getting into Heaven:

-Excuse me, my (fellow) white (dude)!

And good-natured Saint Peter:

-Come in, Irene. You don’t need to ask (for) excuse.


Essa belíssima poesia de Manuel Bandeira externa como a língua determina e delimita nossos conceitos a partir dos subtextos e múltiplos significados que cada palavra guarda. Embora tal possa ser descrito em vários textos, escolhi este por sua brevidade e fácil compreensão.

Este texto nos mostra como, numa mesma frase, uma língua diz uma coisa enquanto outra descortina significados divergentes, com outras implicações. Alguém que leia tal poema apenas em sua tradução inglesa não compreenderá exatamente o que Manuel Bandeira quis dizer. E isso tem implicações teológicas.

O cerne é a diferença semântica entre o português “pedir licença” e o inglês “to ask for excuse”, que embora equivalentes numa tradução, estão longe de significar plenamente a mesma coisa.

Quando, em português, Irene pede “licença” compreendemos que ela está “pro forma”, por educação, solicitando permissão, solicitando permisspenamente a mesma coisa.as implicaço para adentrar num recinto enquanto já está entando. Irene solicita autorização. Em espanhol, seu "permeso" é equivalente ao português.

Em inglês o "excuse me", embora seja equivalente ao português para "Solicitar permissão para adentrar num recinto", também traz outro significado: o pedido de perdão, desculpas.

Ao adentrar ao Céu, em inglês, Irene não pede apenas permissão, pede perdão. O que, para entrar no Céu, traz todo um significado teológico ausente no português.

Em português, não podemos inferir nenhum sentido de culpa, arrependimento ou pedido de perdão no "licença" de Irene, mas no seu "excuse me" inferimos toda uma gama de significados de passividade, arrependimento e culpa ausentes no português.

Tanto licença como excuse formam verbos. Em português, "licenciar" é análogo ao inglês "to license". Eu licencio meu carro todo ano, ao pagar os impostos necessários para ser autorizada por rodar como ele pelas ruas. O "Licenciamento" anual é obrigatório para todos os carros brasileiros. "Licenciar" também é equivalente ao adquirir os copyrights de uma obra.

Em inglês "to excuse" significa "perdoar", justificar, excusar. Nada análogo ao português "licenciar".

Em português, São Pedro diz que Irene não precisa pedir permissão. Em inglês, São Pedro diz que Irene não precisa pedir desculpas. Portanto, a língua determina e delimita nossos conceitos a partir dos subtextos e múltiplos significados de cada palavra guarda, em cada língua.

Tradutore est traditore - O tradutor é traidor

P.S.: Se algum dia este próprio texto for traído, ops, traduzido, talvez seu titulo seja "About How Irene Came into Heaven" e alguém compreenda um subtexto sacrílego e ria-se sobre o que signifca o "to come" de Irene. :D


Irene never even needed to knock on heaven's door...

Guns n' Roses - Knocking on heaven's door

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Porque fui mandada embora da FEBEM – Fundação CASA


Apenas hoje, dois anos depois, sinto-me segura para expor o motivo pelo qual não cheguei a ser demitida, mas fui “desconvidada a prosseguir” a dar aulas na Fundação CASA de Rio Claro. Obviamente isso não foi explicitado por meus superiores, mas percebi como foram mal recebidos os relatórios infratranscritos. E também fiz o nexo entre eles e o aviso de que eu não deveria me apresentar para tornar a dar aulas no ano seguinte naquela unidade.

Para quem não tiver paciência de ler até o final: fui mandada embora por denunciar uma agressão sofrida por um adolescente por parte de um agente de segurança, numa clara violação dos Direitos Humanos.

Para quem não sabe, FEBEM significa “Fundação para o Bem Estar do Menor”, instituição tipo “reformatório” para menores infratores / em conflito com a lei / delinqüentes do estado de São Paulo, Brasil, cujo nome foi tucanado para “Fundação Centro de Atendimento Sócio-Educativo ao Adolescente”.

Os dois textos abaixo não foram escritos para este blog, são transcrições de relatórios verídicos que enviei aos meus superiores na Fundação CASA a respeito de ocorrências envolvendo coincidentemente, ou não, o mesmo adolescente.

Sinto ser necessário elucidar o motivo do apelido de FEAJ para que ninguém interprete nisso algum tipo de alusão racista.

Ao ser internado na FEBEM, FEAJ já carregava o epíteto "Azulão". Embora ele fosse afrodescendente, esse apelido não era uma referência a sua cor.

Em seu bairro FEAJ era conhecido por cometer pequenos furtos entre os vizinhos. Roubava tênis, roupas que estivessem no varal, pequenos objetos. Até torneiras ele desenroscava dos quintais e vendia no ferro-velho como sucata para conseguir dinheiro para suas pedras de crack. Com este comportamento, FEAJ tornou-se persona non grata em sua vizinhança. Relataram-me que em certa ocasião FEAJ foi surpreendido num furto e seus vizinhos acharam por bem, melhor do que remetê-lo à polícia, prendê-lo numa naquelas cestas grandes de lixo que ficam nas calçadas de condomínios. Cestos de lixo estes que têm grades, e podem ser trancados com cadeado.

Consta que FEAJ ficou mais de 2 dias trancado na lixeira, e sua mãe o alimentou por entre as grades neste período durante o qual ele ficou completamente exposto à execração pública. Acontece que mesmo nessa condição o topete de FEAJ não foi quebrado. Disseram-me que de dentro da lixeira ele ria-se da situação enquanto entoava certa música humorística afamada anos atrás no programa do Ratinho

"Solta o Azulão, solta o Azulão..."

E daí o apelido pegou.


22/10/2008

Relatório disciplinar a respeito do adolescente FEAJ, vulgo “Azulão”.

O adolescente FEAJ já apresentou em sala de aula os mais variados tipos de comportamentos inadequados. Não possui contudo qualquer tipo de deficiência intelectual, encontra-se alfabetizado, não tem problemas com cumprir o mínimo necessário em sala de aula e as lições obrigatórias. Recusou-se a fazer a prova bimestral entregando-a em branco, como sinal de que não irá colaborar sequer com sua própria promoção escolar, numa espécie de “manifesto de rebeldia” diante dos colegas.

FEAJ apresenta dificuldade em cumprir e obedecer qualquer tipo de ordem ou mesmo orientação feita no tom mais suave a respeito de seu comportamento e atitudes impróprias. Ao ser advertido oralmente, cala-se, concorda ou justifica-se. Em poucos minutos volta a fazer exatamente aquilo pelo qual acaba de ser chamado à atenção. Empreende bruscos movimentos “de brincadeira” de ameaça física, flertando com a possibilidade de “ser arrastado”. Aproveita-se da distração ou desvio da atenção dos funcionários em relação a ele para confrontar-se com os colegas, motivo pelo qual foi retirado da sala de aula neste 22/10/08.

Por diversas vezes o adolescente atrapalha a aula conversando (ou melhor, falando sozinho), cantando, provocando aos demais, levantando-se, exigindo atenção exclusiva, sendo mal-educado e inoportuno. Por diversas vezes empreendi tentativas de aconselhá-lo de forma a comportar-se pelo menos para ter uma boa “caminhada” dentro da unidade. Ele não parece pretender colaborar sequer com a restituição de sua própria liberdade.

Quando da vacinação contra rubéola e hepatite recusou-se a sair da sala de aula para ser vacinado, tendo que ser na mais absoluta literalidade arrastado para fora da sala pelo agente de segurança para tal.

Solicitado por esta professora de forma bastante calma e educada a não se referir a um colega por “aquele viado” de forma extremamente desrespeitosa, continuou reiterando seu desrespeito e desprezo, não apenas em relação a esse colega, mas aparentemente em relação a todos os demais.

Sendo também alvo de certa animosidade por parte dos outros internos, sua estratégia de sobrevivência é a auto-afirmação perante seus co-internos, procurando demonstrar que pode se comportar como quiser sem ser severamente punido, chegando a bater no peito de forma a claramente demonstrar que em sua cabeça, ele é quem manda em seu próprio comportamento e que nenhuma das medidas disciplinares tomadas até agora está surtindo qualquer efeito.

Ao ser questionado sobre o motivo de haver sido sancionado no dia 20/10/08, disse ser completamente inocente, que apenas havia tropeçado, havendo sido mal-interpretado pelo agente de segurança.

O adolescente FEAJ claramente faz uso teatral de sua aparência franzina visando obter o compadecimento dos demais, apegando-se a formas de expressão infantis ao dirigir-se aos funcionários, visando fazer-se de vítima ora dos agentes de segurança, ora da direção da unidade, das técnicas, dos demais professores e mesmo dos agentes educacionais como se ele fosse a grande vítima e todos o estivessem passando para trás e perseguindo.

O adolescente apresenta empenho em reincidir em crimes. Já disse em alto e bom som que quando sair pretende “apavorar” e voltar a cometer delitos. Relatou no dia 21/10/08 diretamente a esta professora que quando sair pretende vingar-se da senhora R., trabalhadora terceirizada da portaria, que seria sua vizinha, e que em certa ocasião não teria deixado entrar a mãe deste adolescente por algum tipo de irregularidade que ele não soube precisar. Eu disse-lhe que não era ela que fazia as regras de quem entra ou como entra e o que entra, que ela apenas segue instruções superiores. Disse o menor que isso não lhe importava, que assim que saísse, pretendia acertar-se com o filho dela e roubar-lhe a moto.

O adolescente FEAJ demonstra estar seguro de que ninguém o impedirá de fazer aquilo que lhe vier à cabeça utilizando-se da certeza da impunidade, que se mantém mesmo em sua atual condição de sofredor de medida sócio-educativa de internação. FEAJ não se sente punido. FEAJ se sente constantemente injustiçado. Não percebe a relação causa-conseqüência de seus atos e que seria através de uma transformação no seu comportamento, e não na instituição e funcionários que detêm a sua guarda que ele teria uma melhora em seu dia-a-dia.

O adolescente FEAJ demonstra uma inquietude e ansiedade completamente acima do normal, a todo momento levanta-se, anda pela sala, possui baixo nível de concentração, o que possivelmente o faça candidato à síndrome de transtorno de atenção ou de hiperatividade, e considero que diante de tantos problemas apresentados pelo adolescente, seria aconselhável alguma atenção a nível psiquiátrico a este aluno.

Concluindo, o adolescente FEAJ reúne diversos dos piores comportamentos já apresentados nesta unidade reunidos em apenas um menor, aliados a uma grande obstinação em não mudar sua forma de comportar-se na unidade ou na sociedade. Para este menor será necessário uma atenção psicológica diferenciada, sendo o tratamento regular dispensado aos demais internos inadequado para obter qualquer melhora em FEAJ.


29/10/2008

Relatório de ocorrência envolvendo o adolescente FEAJ, vulgo “Azulão”.

Na quarta aula desta quarta-feira 26/10/2008, após o intervalo entre aulas dos adolescentes, imediatamente ao entrar na sala de aula F1 um adolescente dirigiu-se à mesa desta professora e relatou que eu deveria comunicar “lá na frente” (setor pedagógico) uma agressão recém-sofrida pelo adolescente FEAJ.

Após iniciar a aula, sentei-me ao lado do adolescente FEAJ e perguntei-lhe o que havia ocorrido. Inicialmente, em voz baixa, ele alegou que nada havia acontecido. Após minha insistência, ele disse que por motivo de estar rindo no refeitório um agente de segurança cujo nome ele não especificou havia mandado-o ficar em pé contra a parede, e quando a cabeça do adolescente FEAJ se afastou desta, ele teve sua cabeça batida contra a parede pelo agente de segurança por duas vezes, fazendo grande barulho e resultando numa marca visível em sua testa.

Inicialmente o adolescente solicitou que esse fato não fosse comunicado para o setor técnico e pedagógico, demonstrando estar com medo de sofrer maiores retaliações. Eu disse-lhe que isso seria sim comunicado, que este tipo de tratamento não deve ser dispensado aos internos.

Solicitei a presença do agente educacional R. para também estar a par do relato, pois eu precisaria de uma testemunha do que me estava sendo dito. Entrando na conversa por estar sentado próximo, o adolescente PC disse que eram 31 as testemunhas oculares do ocorrido (imagino que o todo dos adolescentes da Unidade de Internação). Após a entrada da agente educacional E. na sala de aula, ela também foi comunicada por mim do ocorrido, no sentido de ela também informar-se com o menor agredido sobre este fato.

Adicionalmente, o adolescente FEAJ relatou haver recentemente comparecido à delegacia por uma agressão anteriormente sofrida por parte de um agente de segurança, e tal não haveria resultado em nada. Seria de suma importância verificar se foi o mesmo agente o agressor em ambas as ocasiões.

Conversei com o adolescente no sentido de que a ação do agente de segurança era sim errada, mas que o adolescente com seu comportamento provoca reações nos demais, que se partirem de uma pessoa despreparada para o trato dos adolescentes podem resultar em agressões físicas. Eu sei de experiência própria como este adolescente pode ser enervante, mas absolutamente nada justifica uma agressão física contundente como esta, que resultou num trabalho educativo muito prejudicado nesta aula de hoje por conta da agitação e comentários entre os internos a respeito.

Parte da função da Fundação CASA é mostrar aos adolescentes que a violência e o desrespeito à lei não são o caminho correto a trilhar. Este trabalho está sob grave risco se eles aprenderem na própria pele por parte de funcionários encarregados de sua ressocialização que justamente a violência e o desrespeito à lei seriam aceitáveis. Faz parte de nosso papel interromper este círculo de violência que resulta em adolescentes infratores que despejam contra a sociedade as agressões sofridas em ambiente familiar e institucional.

Considero que parte essencial da função desta unidade é ensinar aos internos que a ética com o próximo e o respeito à lei são o caminho correto, tanto para quem não está imbuído de poder (os adolescentes) como para quem está (os funcionários). Espero que todos possamos enviar uma mesma mensagem aos adolescentes, e não mensagens conflitantes.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

De dois analfabetos

Já há algum tempo venho adiando este texto, que vem circulando nas minhas idéias, aos poucos tomando forma.

É difícil escrever a respeito dos meus alunos. Quem são eles?

Presos. Menores infratores condenados. Moleques que acham que roubar é “profissão”. No CRM, alguns presos aguardando julgamento, outros têm cara de malandro, suástica tatuada, cabelos brancos. Funcionários “de fora”, como eu, não ficam sabendo por qual crime os detentos estão condenados. Isso funciona tanto para o bem como para o mal. Às vezes vc se pergunta: o que fez esta pessoa parar aqui? E não tem autorização para perguntar, o que chega a ser angustiante. Às vezes eles falam espontaneamente, na maioria das vezes vc nunca fica sabendo.

Entre os muitos que eu vejo ir e vir, serem condenados e serem libertados, suas histórias sempre me fazem refletir. Suas personalidades sempre deixam em mim uma certa marca. Suas histórias me tocam, me engrandecem em experiências de vida, no conhecimento do ser humano.

O primeiro traço característico que se nota em quem está preso é a pobreza. Não defendo uso de clichês, mas pobreza que se nota, transparece através dos uniformes e sandálias havaianas. Pelo gestuário, pelo palavreado, pelos assuntos.

Na Fundação CASA (Centro de Atendimento Sócio-educativo ao Adolescente), novo nome da FEBEM (Fundação para o Bem-Estar do Menor), esse traço é marcante. Os meninos são, sobretudo, de periferia. Criados em famílias desestruturadas. Todos os clichês da “quebrada”: rua de terra, sem iluminação pública, escola deficiente, mães adolescentes, vários padrastos, parentes já presos etc. Cedo aprendem, em casa ou na rua, que roubar “os ricos” é normal, que traficar é apenas mais um ramo do comércio, que a justiça é feita pelos traficantes da “comunidade” e não pelo Estado Brasileiro. Que PM (policial militar) é inimigo e que todo político é ladrão.

Atualmente leciono para 45 alunos “menores infratores” com liberdade sancionada em regime de internação na CASA, divididos em 4 salas de aula. 20 na quinta e sexta. 20 divididos em duas sétimas e oitavas. 5 no ensino médio. Dá para perceber o gráfico em pirâmide que se forma? No CRM, leciono para 46 detentos, alguns em regime semi-aberto, outros em regime fechado, das mais variadas idades, condenados ou aguardando julgamento, em uma sala de ensino médio.

Como contar suas tristes histórias? Sinto tanta dificuldade em escrever sobre isso e parecer que os estou submetendo a algum tipo de “pesquisa de campo” sociológica... Não é esta a intenção, mas dou-lhes uma certa liberdade para conversar, que eles não desfrutam na presença dos seguranças. Gosto de nas minhas aulas ceder-lhes um raro respiro de uma relativa liberdade. E eles acabam se abrindo. Não há como ficar imune e não refletir sobre o que eles falam.

Como o menino que esteve preso por roubar R$30 e cinco pacotes de Passatempo na padaria do bairro. Ou o que voltou em reincidência por roubar uma bicicleta. Ou o que roubou um tênis. Ou os que estão presos por torturar uma vítima de assalto, por haver esfaqueado e assassinado um idoso, ou mesmo por estupro.

Muitos de seus crimes são chocantes, mas suas histórias são tocantes. Como o menino que teve a prima de 8 anos estuprada em um terreno baldio. E que testemunhou a irmã de 16 anos ser vítima de uma tentativa de estupro; meninos cujo pai, ou mãe, ou tio, está preso já há muitos anos? Os irmãos, os primos, os vizinhos, que ficam presos juntos? Muitos são órfãos. Muitos nunca conheceram o pai. Muitos são os criados por parentes, e não pela mãe. Muitos chegam semi-alfabetizados, os famosos “analfabetos funcionais”. Outros completamente iletrados.

Dois meninos analfabetos me tocaram profundamente. Fernando. Rapaz negro, paranaense, atarracado, bastante forte. Disse certa vez que ganhava R$5.000,00 reais por mês no tráfico. Chegou sem saber escrever o próprio nome. Sem conseguir fazer operações simples de adição e subtração. Não sei se a história sobre o seu lucro é verdadeira, mas soube que ele havia fugido de casa no Paraná por conta de violência doméstica e tinha vindo para em SP pegando carona com caminhoneiros. Certa vez tivemos uma festa de confraternização em que foram servidos produtos produzidos pelos próprios meninos da oficina de panificação. Pão de queijo, panetone, pães em geral. Nesta ocasião Fernando comeu exatos 14 pedaços de panetone. Em meio a isso perguntei-lhe: Nossa, vc deve estar com fome?! Disse-me ele: Professora, nunca comi uma coisa tão gostosa na minha vida! Panetone de frutas secas, uma coisa tão banal, que sempre sobra na minha mesa de Natal... Fernando nunca tivera um Natal como os meus.

Outro é Geremias. Com G mesmo. Geremias faz aniversário no dia 29 de dezembro. Eu faço aniversário no dia 29 de dezembro. Ele consegue, com muita dificuldade, identificar letras de fôrma. Não, porém, letras de mão. Eu entendo um pouco de paleografia, a ciência de decifrar a escrita em documentos antigos. Um abismo nos separa. Deveríamos ter sortes muito parecidas, não?

Geremias é um rapaz branco, atarracado, dente da frente faltando, testa baixa, tem uma namorada em quem pretende fazer um filho assim que receber sua liberdade. Como ela é filha única, vê nisso uma possibilidade de se mudar para a casa dos sogros e começar uma vida nova Ao contrário de Fernando, que foi alfabetizado com sucesso, Geremias receberá sua liberdade ainda analfabeto. Fez alguns avanços na matemática. Já é capaz de somar números com 3 dígitos. Numa aula minha ele, ao invés de tentar copiar a lousa, fez um desenho e mo entregou ao final da aula. O guardo até hoje. São duas figuras humanas estilizadas. Têm olhos, boca, ouvido, cabelos, pernas, braços, roupas. Um desenho até bonito. Meio que estilo cartoon. Destaca-se que nenhuma das duas figuras humanas têm mãos. Têm pés, mas não têm mãos. Os traços se encerram no punho, num corte seco. Não sou formada em psicologia, mas não pude deixar de perceber que esse detalhe demonstra que Geremias se vê maneta, literalmente incapaz de lidar com o mundo. Que ele inconscientemente percebe que seu iletramento o torna incapacitado, deficiente. E isso infelizmente não foi alterado em seus 6 meses de FEBEM.

É muito difícil conviver com tais histórias. Ver o quanto tenho uma vida confortável e sou privilegiada perto deles. E saber que eles são “o inimigo”. É por causa de pessoas como Fernando e Geremias que passo o cadeado todos os dias no portão. São pessoas como eles as que assaltam, as que seqüestram, as que matam, as que mantém a “classe média” em estado de sítio. São eles que eventualmente aparecerão em reportagens no programa do Datena.

É muito difícil conviver com os dois lados dessa história. Conhecer tanto sua Humanidade quanto sua desumanidade, em vários sentidos.

Existem muitos outros menores e maiores cujas histórias valem o registro. Aos poucos falarei mais. Quem ler, por favor deixe registrado em comentário, mesmo que apenas um “eu li”.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

“O inssino no Brasiu è otimo”. Ou de Veja

Está escrito na capa dessa semana. Sim, confesso, eu leio Veja. Não pq eu queira, mas como sou professora do estado e não posso assinar revistas realmente críticas e profundas, me contento em ler a Veja que a minha vó assina.

Se eu acho a revista ruim? Não, não acho. O que sempre me incomoda é a postura de quem dá a “moral da história” de seus editores. Sempre dão um jeito de encerrar as matérias com alguma empoada (e lastimável) frase de efeito. Até aí, tudo bem, a Veja está no seu direito de defender a direita classe média brasileira. Pelo menos nela não encontro embaraçosos erros de português, como no jornal local.

À página 76 desta edição 2074 encontramos a pergunta “Educação ou doutrinação?” ao lado de uma curiosa imagem que só poderia sair da cabeça de um editor de Veja: uma caneta vira uma foice e um lápis vira um martelo. Morri de rir. Como professora de História e Geografia, é comigo mesmo que eles estão falando.

Fizeram uma pesquisa: “Qual é a principal missão da escola?”

78% dos professores responderam “formar cidadãos”, o que é criticado ao longo da matéria. Curiosamente, não está entre as alternativas as opções que seriam as mais votadas pelos editores de Veja: “Formar balconistas.”, ou “Formar vendedores” ou “Formar auxiliares de serviço geral”. Em suma, formar a mão de obra barata que a direita classe média brasileira precisa para extrair-lhe a mais-valia. Podendo, assim, mandar seus filhos bem nascidos para as melhores escolas, numa cena que me lembra algo do filme “O sorriso de Monalisa” quando Julia Roberts é criticada por sua diretora por apresentar Pollock às futuras donas de casa da classe alta e outra professora é demitida por distribuir contraceptivos.

Cuidado: Jackson Pollock e contraceptivos poderão vir para destruir o seu mundo, assim como para os editores de Veja vieram Paulo Freire e Che Guevara. (Ah, só Veja poderia tb escrever em outra capa “A farsa de Che”). Quantos neurônios são necessários para decodificar a agenda destes editores? Os meus não são tantos assim, mas bem-lapidados por “ideologias furadas e fadadas ao fracasso” como Veja as decreta, eles são capazes de alguns interessantes raciocínios.

Ao longo de toda a matéria fica clara a mensagem: pais, cuidado, pelo que os professores estão incutindo na cabeça de seus alunos, eles se tornarão um bando de terroristas ludistas. Cuidado, pais empresários! Seus filhos vão arruinar seu patrimônio amealhado com tanta dificuldade. As futuras gerações serão contaminadas por uma ideologia ultrapassada e espúria [sic] e isso é demasiadamente perigoso pois as crianças não serão preparadas para o mundo do séc. XXI. Seria a virtual universalização da educação a própria responsável pela eleição de Lula? Afinal, há uma massa de cerca de 50 milhões de alunos do ensino básico sendo doutrinados por uma minoria de 2 milhões de professores, que poderão virtualmente causar a perpetuação da esquerda no poder, numa retroalimentação moto-perpétua.

Ai, até eu estou com medo agora. Quem sabe então acontecerá o que me foi dito em 1994, quando eu contava 11 anos numa escola de freiras, a respeito do que aconteceria se Lula se elegesse: “Toda família bem de vida vai ter que adotar uma criança de rua”. Pensei logo: “Eu não quero dividir meu quarto com nenhuma criança de rua.” Hehehe, então eu tb não quis que o Lula ganhasse e achei bom que o FHC vencesse, afinal, o real acabara de chegar à cantina da escola e a lata de coca-cola tinha sempre o mesmo preço. Maravilhoso!” Agora, sem o Lula, eu poderia continuar comprando a minha latinha de coca-cola e meu salgado no intervalo pelo mesmo preço. De meus 11 anos pra cá, eu evoluí. A mentalidade de alguns editores de Veja, aparentemente, não. Não que eu pretenda voltar a votar no PT, é claro.

Veja considera que o maior problema da educação é o currículo ultrapassado. Concordo. Os livros didáticos são maçantes. Os exercícios, intermináveis e inúteis. Há excesso de decoreba e de coisas que não servirão para absolutamente nada. Sinceramente, a escola como hoje ela se apresenta é um gigantesco desperdício de tempo. O que se faz em 12 anos poderia ser feito com muito melhor proveito em 5 anos. Eu mesma só não fui “pulada de ano”, como solicitei diversas vezes a meus responsáveis, por questões burocráticas. Se eu tivesse pulado da quinta série pro segundo ou mesmo terceiro colegial, não teria perdido muita coisa. Tudo que não aprendi em 12 anos de escola, assimilei sem muita dificuldade no cursinho pré-vestibular.

Defendo a diminuição do número de anos escolares? Não. Defendo que se ensine coisas úteis, e não que se tente fazer com que os alunos decorem intermináveis fórmulas de hidrocarbonetos, ou fórmulas físicas. O que era o Delta mesmo? Era de física ou de matemática? Sei lá eu! Algumas matérias simplesmente foram deletadas do meu hardware.

E o que eu estou fazendo pra mudar isso? Apesar de trabalhar com o público carcerário, principalmente na FEBEM lido com adolescentes em idade escolar. Selecionados entre os piores elementos de suas respectivas escolas, muitos há vários anos afastados das salas de aula, a maioria maciça com histórico de mau-comportamento, vandalismo ou mesmo agressão a professores. Aboli o único livro didático em quantidade disponível, o Encceja e fiz por conta própria um resumo do que era interessante em vários livros didáticos que ganhei (livro didático é como água, sempre vão te dar uma pilha dos que “estão sobrando” por falta de uso). Adicionei a isso aulas muito interessantes, como uma explicação das diferenças entre as religiões, orientação sobre os poderes do Estado brasileiros, os cargos eletivos e o que fazer para ter um voto consciente (coloco ambas as coisas no mesmo nível de neutralidade), tb ensino sobre os diversos documentos e a finalidade de cada um, sobre o que é o imposto de renda, enfim, uma certa “educação para a burocracia”, que embora essencial, não consta do currículo oficial. Pretendo ler em breve a Constituição para ensinar a eles as bases fundamentais das leis que nos regem. Para que eles saibam, afinal, pq estão presos e com que autoridade o Estado dispõe sobre as liberdades do cidadão.

Eu tento formar cidadãos. Cidadãos que saibam dos seus direitos e deveres essenciais. Que saibam que pagam com seus impostos os salários do políticos. Que saibam que atendimento de qualidade no posto de saúde da “quebrada” não é favor, mas dever do prefeito. E que este não pode interferir em questões de segurança, de âmbito estadual, como vejo a desinformação invadir minha televisão durante o horário eleitoral. Alunos que saibam que reclamar para o vizinho que a rua não foi asfaltada não adianta, mas que uma carta ao jornal local pode ser muito eficiente. Muito mais coisas úteis não são ensinadas aos nossos alunos, e deveriam. Eu estou aos poucos tentando fazer a minha parte.

Se a editora Abril deseja fazer realmente uma boa ação no sentido de melhorar a educação no Brasil, solicito que envie gratuitamente e em quantidade suficiente a cada escola pública assinaturas não apenas de Veja, mas tb da Superinteressante, Nova Escola e assim por diante. Que pare de se colocar em cima de um pedestal para criticar e passe a agir um pouquinho. Sempre levo revistas Veja para meus alunos lerem. Essa semana, levei a da “farsa do Che”. Como ele é uma das imagens mais emblemáticas do séc. XX, facilmente identificável, alguns que o conheciam apenas pela foto de Korda e pelo nome me perguntaram: “Professora, quem foi Che?”. A resposta curta: “Che foi um revolucionário socialista”. Neutra? Talvez não para Veja. A resposta semi-curta: “Ernesto Guevara, o ‘Che’, era um médico argentino que numa viagem pela América Latina ficou chocado com a miséria e exploração das pessoas pobres, aderiu à ideologia do socialismo, fez a Revolução Cubana e ao tentar fazer o mesmo na Bolívia, acabou derrotado e executado.” Eu poderia dizer muito mais, mas mais que isso estaria além do que meus alunos compreenderiam. Não há muito espaço para doutrinação em minha sala de aula.

“Fernanda, vc tenta implantar idéias subversivas nos seus alunos?”

Certa vez uma amiga que fez faculdade comigo perguntou isso. Respondi-lhe com certa propriedade: “Nem que eu quisesse conseguiria. Primeiro eu tenho que fazer com que eles não tenham vergonha de sua cor, que não achem que bater em mulher é normal, que saibam pq eles são obrigados a cada dois anos a comparecer diante de uma urna.”

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Do medo, da FEBEM e do “cadeião”

Qual foi a situação mais periculosa de sua vida? Estar num carro com um motorista bêbado dirigindo perigosamente? Perder-se numa “quebrada”? Andar sozinho à noite no centro de São Paulo? Engolir seco diante de um policial mal-preparado?

Quando vc teve mais medo em sua vida? Indeciso diante da inscrição do vestibular? Perder o emprego e achar que não vai conseguir outro tão cedo? Ser assaltado e se ver sem dinheiro sequer para pegar um ônibus? Sendo “peitado” por uma pessoa que vc sabe que está disposta a te agredir fisicamente?

Nesta quarta-feira passei por uma situação incrivelmente periculosa e amedrontadora e surpreendentemente, o que senti não pode ser classificado como “medo”, mas como “receio”. Estava receosa de que algo poderia acontecer, e não com medo que alguma coisa estivesse prestes a acontecer.

Engraçado como o destino vai aos poucos nos encaminhando. Depois de formada, distribui alguns currículos, e como tenho licenciatura, me inscrevi para dar aulas no Estado. As aulas são escolhidas de acordo com um ranking de pontuação, por títulos e especializações, mas especialmente pelo tempo de trabalho na rede estadual. Minha pontuação? 0,000. Às vezes os números falam mais do que palavras.

Na escolha oficial das aulas “normais”, não sobrou nada pra mim... Resolvi ir a uma atribuição específica para a Fundação CASA (FEBEM) de Rio Claro, recém-inaugurada. Mais uma vez, não peguei aulas L . 2 semanas depois, já meio desanimada de não estar conseguindo nada, recebi uma ligação, me chamando para uma nova atribuição da FEBEM. Compareci eu e um outro professor, mais experiente, com maior pontuação. Ele era um cara musculoso, grandão, e logo que o vi tive certeza que escolheriam a ele. Como a FEBEM é “diferenciada”, fomos entrevistados. Surpreendentemente, me chamaram de volta e dispensaram o outro candidato. Me disseram que era pq eu já conhecia o material didático a ser utilizado, o método Encceja, com assinatura do Gabriel Chalita. Às vezes um só nome fala mais do que muitas palavras...

Eu conhecia mesmo, tenho uma cópia do material que veio às minhas mãos por acaso (?), quando no começo do segundo ano de faculdade houve uma grande distribuição gratuita de livros numa calourada. Levei pra casa a caixa pesada do material, que estava sobrando e ninguém mais queria. Isso me valeu meu atual emprego. J Depois soube que eu havia pegado as aulas da FEBEM depois de 3 desistências.

A primeira sala de aula que encarei assim que me formei foi uma turma de ensino médio com 12 “menores infratores” dentro da FEBEM. Assustador o suficiente pra vc? Vesti a personagem da “senhora Fernanda” (os alunos são obrigados a chamar a todas as funcionárias mulheres por “senhora”, não importa a idade) e fui adiante. Aos poucos aprendi as gírias, macetes e valores de quem vive na criminalidade, e passei a entender, e a deixar de temer para apenas recear seu mundo.

Quem trabalha numa detenção logo aprende que se vc não se impõe, não se “faz de macho”, não levanta a voz e coloca eles no seu lugar, eles “montam em cima de vc” e vc perde seu emprego. Vi umas 2 dezenas de funcionários serem demitidos pq “não tinham perfil” para trabalhar com esse “público”. E como “mente vazia é a oficina do demônio”, o mais divertido passatempo dos menores é testar e tentar “entrar na mente” dos funcionários, especialmente os que parecem mais frágeis, como uma menina magrinha (agora já não tanto) de 24 anos recém-formada. Que havia aprendido muito sobre Braudel, Caio Prado, Vygotsky e Rousseau, mas absolutamente nada sobre como dar uma aula.

No começo usei o Encceja, mas depois descobri que eu poderia ter total autonomia sobre o conteúdo a ser ensinado. Maravilha. Desenvolvi um conteúdo baseado em diversos livros didáticos e no que eu acho que realmente merece ser ensinado, descartando as discussões sobre remanescentes de quilombo pra quem nem sabe o que é a escravidão ou sobre a fundação de Roma pra quem não sabe o que a.C. e d.C. significam.

Agora voltamos ao “mote” deste texto. De alguma forma consegui me manter na FEBEM, agora já na quarta atribuição de aulas. Daí, surgiu um novo telefonema nesta terça-feira. Estavam me ligando do CRM, perguntando se eu estava disposta a dar aulas no período noturno. Claro! CRM? É alguma escola particular? Não, e conforme a funcionária muito simpática e aliviada por finalmente encontrar um professor foi me explicando, a sigla se referia ao “cadeião” de Rio Claro.

Topei. Chegar lá à noite sozinha numa estrada de terra no meio de uma “quebrada”? No primeiro dia, com medo de me perder, pedi pra minha avó ir me levar e depois me buscar. Entrei. Me deram a lista de chamada. 50 alunos. Engoli seco. A “sala de aula”? Um pátio, com um tapume de madeira no meio e duas lousas nas extremidades. Do lado do fundamental, com uma segunda professora, 70 presidiários. Do meu lado, no ensino médio, 50 presidiários. Tatuagens, cabeças brancas, uniformes em diferentes cores, dentes faltando. Duas mulheres num saguão com 120 presidiários? A distância do agente de segurança mais próximo? Dois portões gradeados de metal trancados e uns 150 metros. Assustador o suficiente pra vc? Para fins de comparação, na FEBEM cada professor fica em média com uns 12 alunos, e a uns 5 metros, sem portas trancadas, de pelos menos 3 agentes de segurança e dois agentes educacionais. São 4 salas de aula, totalizado em torno de 46 “internos”, com 4 professores. “Outro esquema”.

Blz, já aprendi a me “fazer de macho” e a falar alto esculachando “bandido” folgado (odeio isso e me sinto mal toda vez que o faço, mas é necessário). Logo no primeiro dia, a outra professora, novata no sistema carcerário, estava sendo desrespeitada pelos “alunos”. Como eu sabia que se ninguém fizesse nada aquilo adquiriria sempre maiores proporções, não tive dúvida, fui pro lado dela do tapume, pedi licença e fiz um discurso moralista pros alunos dela. 70 presidiários contra uma desconhecida “patricinha metida” curiosamente usando um jaleco de médico do hospital Albert Einstein (essa é outra história...)? Sem problemas, falei usando todos os chavões do “respeito”: “ela é uma senhora que está aqui fazendo um trabalho honesto”, “ela merece o mesmo respeito que as esposas e mães de vcs” e assim por diante. Quem tá preso adora dizer que não é bandido e tem altos valores morais, o que inclui respeitar quem é trabalhador, especialmente as mulheres, especialmente as senhoras com jeito de mãe, como a outra professora.

Para minha sorte, a maioria ficou quieta, alguns concordaram, e meus alunos até falaram “é isso mesmo!” e pude arrematar com um “Se não tiver respeito aqui dentro, ninguém vai poder dormir, pq não sabe se vai acordar.” Muito bom. Mas nada disso me prepararia pra o que ocorreu logo no segundo dia.

Nove e quinze da noite. Meio da aula. Todas as luzes de repente se apagam. Duas mulheres sozinhas num pátio com 120 presidiários, a 150 metros e duas portas trancadas de distância de um solitário agente de segurança? Breu completo, de repente se ouve alguns gritos, como os que ocorreriam em qualquer escola estadual com alunos arruaceiros. Cenário perfeito para uma rebelião com duas ótimas reféns para servir como moeda de troca. Assustador o suficiente pra vc? Nem tanto pra mim, que senti receio, mas não medo. No breu, rapidamente criei um plano: se eu me sentisse ameaçada, me esconderia atrás da lousa esperando que eles não cometessem nenhuma violência comigo e a outra professora. Senti um certo receio, mas não medo. O gerador começou a funcionar, dando um certo alívio. Todos continuavam sentados. Em alguns segundos, o gerador falhou, e um novo breu se apresentou, agora à meia-luz de alguns isqueiros.

O gerador voltou e o agente de segurança solitário veio e disse para encerrarmos as aulas e irmos embora, mandando os alunos para suas celas. Ufa! Saímos sem nenhum arranhão.

Depois descobri que a luz havia faltado em toda a cidade, e pela manhã de hoje pude fazer piada. Perguntava pra todo mundo: “Onde vc estava quando faltou luz?” Alguns, no banheiro, outros vendo a novela, alguns ao telefone. Pude dizer me gabando: “Eu e uma outra professora estávamos num pátio com 120 presidiários, a 150 metros e 2 portões trancados de distância de um solitário agente de segurança.

E eu não senti medo.

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