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sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Causos escolares - A suástica tatuada

Este é mais um episódio suscitado pelo ambiente prisional. Desta vez no CRM, Centro de Ressocialização Masculino de Rio Claro, interior do estado de SP, Brasil. No qual trabalhei durante 6 meses, no segundo semestre de 2008, lecionando tanto História quanto Geografia – além de supostamente Sociologia e Filosofia.

No corrente ambiente político de meu estado, sob os sucessivos governos do PSBD, partido Social Democrata, cujo símbolo é o ufanista tucano, foi perceptível o investimento maciço no SAP, Superintendência de Administração Penitenciária e na área de Segurança Pública em geral, simbolizada pela tropa de elite da PM, Polícia Militar Paulista: a ROTA, Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar.

É engraçado lembrar de Paulo Salim Maluf, ex-governador, ex-prefeito da capital, ex-candidato à presidência da República, também famoso pelos “estupra, mas não mata” e “se o Pitta não for um grande prefeito, nunca mais votem em mim”:

- Eu vou colocar a RRRRota na rrrrua.

Com um ére rosnado, pesado, intermitente, como um ronco do motor de um carro a álcool falhando ao dar a partida, bem paulistano, da Moóca. A respeito de Paulo Salim Maluf, me contaram, e felizmente não me lembro, que durante sua campanha presidencial perdida para Tancredo Neves, toda vez que Paulo Maluf aparecia na TV eu, com 3 anos de idade, abria um grande sorriso e batia palminhas. Não sei se ele usa algum tipo de macete subliminar, mas eu gostava muito de Paulo Maluf aos 3 anos de idade. De minha primeira infância acá, eu algo evoluí. Muitos eleitores não, haja visto que mesmo nas últimas eleições do corrente ano ele foi reeleito, com todos os seus éres e inquéritos por corrupção (procurem por malufar num bom dicionário), a deputado federal, e com muito expressiva votação. O Malufismo ainda viceja, tristemente, nas conservadoras hostes paulistas...

A evocação da ROTA visava aterrorizar aos criminosos, pois a ROTA é “faca na caveira”, a versão paulista do BOPE, Batalhão de Operações Especiais fluminense, afamado pelos filmes “Tropa de Elite”.

Devo reconhecer que o investimento em segurança resultou na queda das estatísticas de homicídios, se é que tais estatísticas merecem algum crédito, mas são as únicas das quais disponho. Só mais um parêntese a respeito de “estatísticas”: enquanto eu trabalhava na FEBEM, lembro de abrir o Jornal Cidade e ver uma foto sorridente do diretor da ONG, Organização não Governamental, à qual fora terceirizado grande parte do tratos aos “menores internos”. Na entrevista, ele afirmava enfaticamente que o índice de reincidência entre os egressos de sua unidade era zero. Dei uma gargalhada convulsiva ao ler isso. Ri de como ele podia afirmar publicamente algo que todos que trabalhavam lá sabiam ser falso... Muitas vezes eu não vejo necessidade de assistir a programas de humor pois a realidade já é-me suficientemente risível.

Voltando ao CRM, bloggeira-windows que apercebo-me: é uma cadeia, dentro do possível, “decente”. Não conheci-lhe todas as dependências, nem as celas. Mas parecia-me organizada, limpa, relativamente bem-equipada. É uma das poucas cadeias brasileiras que oferece trabalho a seus apenados. Os em regime fechado trabalham em funções manuais da indústria. Os em regime semi-aberto trabalham na Ludival, que fabrica sofás e na Tigre, indústria de tubos e conexões, além de outras fábricas menores da cidade. Por mais que sejam explicitamente explorados como mão-de-obra barata, é louvável que os gerentes destas fábricas contribuam para a ressocialização dos presidiários.

Os do regime semi-aberto têm hora certa para chegar, se não retornarem, são considerados fugitivos. Lembro-me que certo poente eu estava indo dar aula pela rua de terra, embaixo de espessa chuva e divisei, na beira da via, um de meus alunos andando apressado, carregando pelo braço sua bicicleta. Se ele fosse nela, com certeza escorregaria, por isso a arrastava. Ao passar por ele e vê-lo molhado até os ossos de chuva até pensei em oferecer-lhe carona. Mas ao ver-lhe o uniforme prisional amarelo ensopado, desisti. Não pq ele fosse molhar o banco do meu carro, mas pq ele era, afinal, um presidiário. E eu sequer cogitava por qual crime fora preso. E com certeza não é prudente para uma mulher sozinha, numa rua de terra, numa quebrada, oferecer carona a uma pessoa que ela sabe, objetivamente, ser um criminoso. Coloquei minha própria segurança acima de qualquer pena que eu estivesse a sentir por sua triste situação.

Passei sem olhá-lo e ele prosseguiu apressado, pois sua hora para chegar se aproximava. Outro aluno seu colega de sala, mas do regime fechado é o mote desta postagem. Como professora, sou uma “de fora”, posto que quem dá aula no sistema penitenciário e na Fundação CASA são professores regulares da Secretaria Estadual de Educação, os mesmo que dão as aulas regulares na rede de ensino público. E é ótimo que assim seja, pois pessoas “de fora”, sem nenhuma relação empregatícia com o SAP têm convívio virtualmente diário com seus “clientes” e podem, de certa forma, “fiscalizar” o trato que é dispensado aos encarcerados. Por ser “de fora”, não tenho acesso às fichas e, portanto, desconheço por qual crime e por quantos anos cada um estará preso.

No CRM dei aulas a uma turma de 50 alunos do Ensino Médio. Muito variado era o perfil, étnico, etário, educacional, de meus alunos. Como eram muitos, de poucos guardei o nome, em especial não me lembro o nome deste, a quem me referirei apenas como o ornado por uma suástica.

Idoso. Mais de 60 anos, com certeza. Cabelos bem alvos algo crescidos, e abundantes. Trajava o uniforme ocre ou cáqui, da cor de burro quando foge, demonstrando ser do regime fechado. Nunca soltou uma só palavra nos seis meses em que lhe dei aula. Jamais pediu para ir ao banheiro, ou tomar água. Sequer à chamada respondia verbalmente, apenas acenava com a mão que estava ali. Sentava-se na primeira fileira, não conversava com ninguém, fazia sua lição direitinho e tinha todos os disputados vistos. Não seria motivo de pousar-lhe o olhar duas vezes não tivessem meus olhos, já à primeira, divisado o número abundante de tatuagens que ostentavas, mesmo 75% de seu corpo estando recoberto por seu uniforme. E sobretudo, uma tatuagem em especial.

Todos os prisioneiros usam alpargatas, dessas bem chinfrins que descolam as tiras. E este senhor tinha seus pés bastante tatuados, com essas tatuagens de cadeia, tortas, feitas com tinta de caneta esferográfica e aparelho de barbear. Uma delas quase piscava pelo anátema que desperta a todos que tenham vivido no século XX: uma suástica.

Podem argumentar que este é um antigo símbolo de proteção asiático, mas não: qualquer um que tatue atualmente, no Ocidente, uma suástica, sabe perfeitamente que está fazendo apologia ao Nazismo personificado no candidato a anti-Cristo mais recente: Adolf Hitler.

Não surpreendia tanto que alguém, numa cadeia, exiba uma suástica, mas a pela morena em que ela estava tatuada. Este apenado não chegava a ser “mulato”, mas percebia-se-lhe não só o pé na cozinha como a mancha mongólica. Era um brasileiro, de cabelo enrolado, nariz largo, olhos amendoados e pele morena.

Lembro-me dele com curiosidade, não só do pq estava preso, mas por quais caminhos alguém tatua, improvisadamente, com tinta de caneta Bic uma suástica na pele morena miscigenada e vira-latas que Hitler destinaria à “eutanásia”. Pois é, para que assistir programas de humor, ou até ler livros de filosofia se os próprios fatos corriqueiros do cotidiano são depositários de uma galhofa reflexiva tão irônica?

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Causos escolares – o sem festa de aniversário

Quando, leitor, é o seu aniversário?

Essa é uma das respostas mais rápidas e certeiras que qualquer um acima de 7 anos sabe responder com segurança e presteza. E este dado, curiosamente, em nossa sociedade, de certa forma é atachado à própria identidade do indivíduo, tendo que ser citado inúmeras vezes em todas as mais variadas situações em escolas, postos de saúde, na Justiça Eleitoral, na delegacia de polícia e afins.

Pois é, costumamos, como se diz em inglês “take for granted” que todos têm direito, anualmente, à celebração de seu aniversário, mesmo que simbólica por conta da pobreza. Pois é, nem todos. Isso aprendi boquifechada na FEBEM.

Certo dia, ao final do ano, levei revistas e cartolinas para fazer cartazes com os internos da Fundação CASA na qual trabalhava. Nesta sala do ensino fundamental, franqueei as revistas para que os alunos as folheassem à cata de algum assunto que despertasse sua atenção.

Um deles, de posse de uma Superinteressante com uma matéria cheia de gráficos lindos sobre Astronomia e Astrologia, apontando as folhas disse:

- Vamos fazer um cartaz sobre o céu e as estrelas?

Percebi que para eles, presos num internato à beira da estrada na zona rural, as estrelas abundantes no Céu noturno representavam um suspiro de liberdade, sonho, poesia. Uma certa intuição de que a vida prosseguia, resoluta e livre, além das grades.

Gostei da idéia. Disse então que os demais principiassem a procurar nas outras revistas palavras e imagens referentes a estrelas e, pq não, aos signos do zodíaco.

Como forma de diversificar e verticalizar o assunto, levantei com eles a questão dos signos zodiacais.

- Meu signo é Capricórnio, e o de vcs?

Eram 12 alunos. 11 disseram seus respectivos signos. O um que falta, Fernando, lombrosiano, analfabeto, permaneceu mudo sem interagir com a atividade. Sentei-me ao seu lado e perguntei:

- Fala, qual é o seu signo?

Atalhou num tom mau-humorado: - Não sei.

Abrindo um sorriso como se eu estivesse diante de uma criança que desconhece uma informação simples, retruquei-lhe:

- Ora, eu conheço bastante de signos. É só vc me dizer em que dia vc faz aniversário que eu te digo qual é o seu signo!

Não entendi os segundos de silêncio que se seguiram. Ao cabo deste estranhamento, Fernando, traficante de renome, olhou-me diretamente nos olhos de forma fugidia, assustada, de como quem confessa um pecado há muito cometido e sussurrou, soslaiando para assegurar-se de que mais ninguém ouvia:

- ...sabe... ...é que... ...eu não sei... ...quando eu faço aniversário...

Constri meus lábios entre os dentes tal qual fazem os centenários na ausência da dentadura. Permaneci atônita e reticentemente emudecida, sem saber se eu falava mais alguma coisa ou mais nada. Como percebi o constrangimento de meu xará apenas no nome e em mais nenhuma circunstância além de nossa espécie e nacionalidade comuns, e seu aceno em não querer prolongar o assunto, levantei-me e afastei-me dele, tentando colocar em stand by o meu choque social.

Terminados a aula e o cartaz, encaminhei-me diretamente ao funcionário responsável pela papelada dos “menores”, sr. M, de cabelos imaculadamente brancos. Mais-que-pálida, relatei-lhe o ocorrido e terminei com um:

- O senhor poderia olhar na papelada dele e me dizer qual é a data de seu aniversário?

Sr. M. contraiu seus lábios tal qual eu meia hora antes. Disse a olhar para suas gavetas transbordantes:

- Pois é, eu também não tenho a data do aniversário dele, na verdade, só tenho seu R.G. expedido quando da sua prisão, com esta data de registro, com o nome que ele declarou, de pai e mãe desconhecidos. Ele foi preso sem documentos... Na verdade, provavelmente, nunca os teve...

Arqueei da forma mais ampla possível minhas sobrancelhas num lance de dúvida e inacreditável certeza. Sequer o Estado tinha certeza do nome, idade, data de nascimento, de Fernando, além dele próprio. Embora ele sequer fosse depositário de uma identidade, isso em nenhum momento tolheu o Estado de puni-lo, sem sequer dar-se ao trabalho de ir atrás de sua documentação original, se é que ela existia.

Caro leitor, passe brevemente em suas lembranças todas as vezes em que vc soprou velinhas, sempre na mesma data. Fernando nunca soprou e provavelmente nunca soprará nenhuma vela em nenhum bolo de aniversário. Vc consegue agora, talvez, vê-lo por um outro prisma, quiçá mais... humano?


Como exigir "normalidade", pelo nosso parâmetro, de quem nunca teve uma vida "normal", de acordo com "nosso" próprio parâmetro... ?

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Da polissemia dos termos – Benjamin e as jornalistas da Globo

Estranhos são os caminhos que despertam inspirações para minhas postagens. Este aqui surgiu a partir da reflexão sobre um adaptador de tomada. Hoje choveu tropicalmente em minha cidade, e conforme eu principiei a desplugar os eletrodomésticos indispensáveis, vendo um benjamin empoeirado entre meus dedos, comecei a enamorar-me da idéia de como até este cotidiano objeto pode iniciar uma reação em cadeira que talvez inspire, em poucos, uma explosão crônica.


Muitos dos leitores talvez não saibam ao que me refiro pelo objeto “benjamin”. Só me dei conta disto com largos 25 anos. Num final de ano, naquele triste e calendáricamente obrigatório apenas na FEBEM dezembro, como se não houvesse nada mais a ensinar no final do ano, após as provas e contagem dos vistos, preparei-me para passar um filme para os alunos.


Qual? Apollo 13. Banal? Talvez. Tarimbado? Com certeza. Mas para os expectadores “menores”, inédito. Metade talvez nem reconheceu em Tom Hanks quase um clichê cinematográfico. Disse um destes:


- Não é o cara das raquetadas?


Referia-se a Dan Stulbach, que agredia sua esposa às raquetadas numa novela de Manoel Carlos. Qual nome? Impossível lembrar dada a pouca criatividade deste autor em batizar obras e protagonistas. Talvez tenha sido “Páginas da vida” ou “Viver a vida” ou “Por amor”. Seguramente ambientada no Leblon. (E que fique claro que a-do-ro Manoel Carlos, suas novelas e suas Helenas). Para a maioria das pessoas é Dan Stulbach que assemelha-se a Tom Hanks. Para quem nunca foi ao cinema, é Tom Hanks que assemelha-se a Dan Stulbach.

Eu, e creio que meu leitor, já fomos mais de uma centena de vezes ao cinema. Muitos de meus alunos nunca. Este é o tipo de dado do qual se desconfia e se considera exagerado ou impossível. A alguém de classe média. Mas é constrangedor quando auferido in loco. Pode descrer-me com certeza o leitor que nunca pisou numa instituição prisional, e por isso o relevo, por ver-me consciente que eu mesma veria-me desconfiada desta afirmação antes de trabalhar na FEBEM – Fundação CASA.


Portanto, a quem duvidar de que muitos de meus alunos nunca pisaram num cinema, pergunto: “Vc já trabalhou na FEBEM?”


À negativa seguramente coletiva, prossigo. Para ligar a TV e o DVD, eu precisaria de um benjamin. Como não o encontrasse, dirigi-me à agente educacional terceirizada da ONG:


- Me traz um benjamin?


Ela olhou-me com um olhar perdido que não compreendi. Virou-se para um lado, outro, e respondeu-me como a me pedir desculpas:


- Professora, não tem nenhum Benjamin aqui, nem interno nem funcionário...


Contraí as sobrancelhas e conti o riso. Dei-me conta de que “benjamin” talvez fosse uma gíria paulistana, uma vez que o nome não remetia imediatamente ao objeto num outro ambiente. Tive então uma grande lição acerca da polissemia dos termos. Para mim um benjamin sempre fora um benjamin. Para outrém, seria o nome de alguém. Principiei a descrever: queria um adaptador de tomada, com várias saídas, etcs.


Aliviada, respondeu-me:


- Ah!... A senhora quer um “T”.


- Isso, um “T”.


Para mim a letra “T” assim, no maiúsculo, lembra pulsões primitivas e vulgares. Para a senhora que ganhava menos que eu pra dar expediente de muito mais largas horas, não. Era um singelo adaptador de tomada.


A lembrança deste fato acorreu-me ao ver a proeminente barriga de Rosana Jatobá ao anunciar o clima no “Jornal Nacional”. Esta postagem e tudo que escreverei depois desta frase constranger-me-ão no futuro, disto estou apercebida, mas o redijo para eternizar dois impulsos arquetípicos instintivamente machistas que tive hoje.


Acerca de Rosana Jatobá, grávida dos gêmeos Lara e Benjamin. Não sei pq, mas enquanto ela anuncia chuvas e secas, eu não conseguia olhar para o mapa, mas apenas para sua gigantesca barriga. Preconceituoso e neurótico? Com certeza, mas há algo de estranho em ver uma grávida expondo-se publicamente. Não sei como, mas Rosana Jatobá muito bem vestida no Jornal Nacional constrange, em 2010, quase tanto quanto Leila Diniz chocava de biquíni, na década de 70. E eu não sei por quê. E é animador que a grandiloqüente Rede Globo tenha já hoje a audácia de expor, e até comentar nacionalmente, a gravidez abençoada da “moça do tempo”. É quebrando paradigmas que uma empresa se coloca àfrente das demais.


Outro paradigma quebrado pela Rede Globo assisti hoje pela manhã. Este foi um dia típico, ou atípico, dependendo da localização geográfica de quem fala. Para uma interiorana caipira paulista, típico. Para um morador de um morro carioca atípico.


Para o leitor que desconhecer a que me refiro, uma anedota:


Como vc pode ter certeza de que a segurança púbica brasileira não existe?


– Quando o programa da Ana Maria Braga vira plantão policial.


Disse exatamente isso pra minha avó, acrescido dum:


- Será que ela não tem o programa dela pra apresentar? Dar receitas, dicas de decoração, falar sobre Princess Kate?

Pois é, diante da guerra urbana carioca, as receitas da globalmente engessada Ana Maria Braga são postergáveis: urge alertar sobre os ataques narco-terroristas, o que em outros tempos recairia à Record. Urge acrescentar aos da Globo que emasculam e tolhem à joaquinense Ana Maria: ninguém assiste ao “Mais Você”. Os telespectadores assistem ao programa da Ana Maria Braga, qual seja seu nome ou canal. E quanto mais “Mais Você” e menos o “programa da Ana Maria Braga” ele se torna, mais audiência perde.


O que isso tem a ver com meu machismo psíquico insuspeito? A repórter no Globocop. Enquanto a pesarosa Ana Maria Braga comentava os recentes ataques, passou a voz ao Globocop. Estranhei que fosse uma e não um a repórter a bordo. E eu não sei por quê. A feminilidade da jornalista de certa forma parecia fora de lugar num helicóptero, narrando o incêndio de um ônibus, às 8 e meia da manhã. E, mais uma vez, parabéns à Globo por colocar, achauvinisticamente, uma e não um repórter no Globocop. É transcendendo preconceitos que uma empresa de comunicação dita, e não acompanha, trending topics.


É curiosamente estranho quando uma mulher pretensamente libertária apercebe-se de seu próprio machismo insuspeitamente arraigado. E de como o frêmito verbal de expor isso pode nascer de um simples objeto empoeirado.

sábado, 20 de novembro de 2010

Anedotas escolares – parentes presos e a féria comparada.

Esta é uma anedota escolar de humor negro, se é que tal expressão ainda não foi banida do léxico pela patrulha do politicamente correto... E para piorar, esta aqui data de meus tempos de FEBEM – Fundação CASA. Não como interna, mas como professora.


Como faz muito tempo, não me lembro exatamente do contexto que resultou na conversa. De toda forma, vi-me comentando com os alunos que antes de trabalhar ali eu nunca havia conhecido ninguém que tivesse sido preso. Eu disse isso de forma completamente informal, sem suspeitar a reação que tal sentença acarretaria neles.


Desacreditaram completamente. Olhos arregalaram-se, sobrancelhas arquearam-se, troncos retrocederam, mãos encontraram queixos.


- Como assim, “você nunca conheceu ninguém preso” ? Impossível!!! Nenhum irmão? Nenhum tio? Nenhum primo? Nenhum... cunhado? Nenhum... namorado? Nenhum... vizinho?...


Eles sucediam os adjetivos de relação enquanto eu meneava negativa e sucessivamente a cabeça. Após alguns instantes de silêncio um deles disse em tom de malandragem:


- Ah, com todo o respeito, a senhora tá passando um 171 prá nós, mas tudo bem, não quer contar, não conta.


“171” refere-se ao artigo do Código Penal brasileiro referente ao Estelionato, crime dos falsários e golpistas. Não me ofendi; mas, eu não estava a mentir. Nunca havia conhecido até então ninguém que tivesse estado preso. A única vez que eu mesma entrara em uma delegacia fora como vítima, para fazer o B. O. (Boletim de Ocorrência) de um furto que sofrera. Já havia entrado num presídio sim, no Carandiru desativado, no curto espaço de tempo em que esteve aberto à visitação pública antes de ser implodido.


Mas para os internos da FEBEM é inconcebível uma família que não tem problemas com a Justiça pois para todos eles os problemas com as leis são familiares e, como denota sua condição de menores infratores, herdados pelos mais jovens.


Todos eles têm algum pai, irmão, tio, primo, cunhado, vizinho, preso ou ex-presidiário. Muitos deles enquanto crianças acompanharam suas mães em visitas aos presídios e agora são eles próprios os visitados por elas no sagrado dia de domingo.


Para muitos deles o tráfico é apenas um ramo extremamente lucrativo do comércio. Ou até um negócio familiar, passado de geração em geração. Para muitos o roubo é apenas uma forma fácil de ganhar a vida. Um deles chegou certa vez a jogar-me desafiadoramente à face:


- O que a senhora ganha num mês eu roubo num dia.


Está certo. Para quem nunca teve ninguém que lhes ensinasse o valor da honestidade. Que lhes demonstrasse o preço em suor que todo trabalhador honesto paga por dormir tranqüilo à noite sabendo que a polícia não o arrancará de sua cama com algemas. Para alguém que nunca viu ninguém “crescer na vida” à custa de estudo e esforço.


Para eles todo aquele que ganha um suado dinheiro trabalhando é um Zé Mané, pois é tão mais fácil simplesmente coçar o mês inteiro e bater uma ou duas carteiras... Ou talvez ao invés de ralar por uma féria de uns R$40,00 no trabalho braçal, fazer algumas entregas de entorpecente ganhando muito mais.


É, talvez a Zé Mané seja eu. Mas prefiro suar meu dinheirinho mixo e dormir tranqüilamente à noite sabendo que se a polícia me abordar será com um “Com licença, senhora” e não com um “Perdeu, malandro!”

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Por que tantos presidiários se dizem "de Jesus"?

Antes de mais nada, gostaria de deixar claro que em nenhum momento pretendo insinuar que a crença cristã seja compatível ou conduza alguém à prática de crimes. Provavelmente Jesus é tão popular nos presídios brasileiros quanto Maomé é nos presídios da Indonésia e Buda nos presídios chineses. Ou seja, o fato de a opção dos brasileiros ser por Jesus é fruto de determinantes histórico-culturais.

Explicitado o alerta, vamos ao questionamento.

Não sei quantos de vcs já passaram pela experiência de estar encarcerado ou trabalhar num cárcere. Graças a Deus nunca estive presa, mas já tive oportunidade de trabalhar em duas instituições prisionais: a Fundação CASA, que interna menores infratores (antiga FEBEM), e o Centro de Ressocialização Masculino de minha cidade, com prisioneiros adultos aguardando julgamento, em regime fechado ou em semi-aberto.

Em ambas as instituições prisionais em que trabalhei era surpreendente a porcentagem de apenados que declaravam-se "de Jesus" ou genericamente "evangélicos". Aliás, o lema oficial do PCC, Primeiro Comando da Capital, organização criminosa que age dentro e fora dos presídios paulistas, é: "Fé em Deus, Paz, Justiça e Liberdade."

Tb deve ser apontado que toda instituição prisional brasileira é (ou deveria ser) aberta à atuação de conselheiros e líderes espirituais de qualquer religião, no serviço conhecido como "capelania". E que em minha experiência percebi a atuação de apenas um grupo católico e de diversos grupos evangélicos, de diversas igrejas, sendo os evangélicos mais militantes e engajados em sua "pastoral carcerária". Jamais tive notícia do interesse de qquer outra vertente religiosa em oferecer assistência espiritual ou moral aos encarcerados nos locais onde trabalhei.

Já pensei muito a respeito do porquê, enquanto 20% da população brasileira é "de Jesus", cerca de 60% de sua população carcerária declara-se da mesma forma, numa clara aberração estatística.

Algumas hipóteses que elaborei são:

a) Pura hipocrisia. Assim como fingem estar arrependidos, os criminosos fingem ter se tornado religiosos.

b) Real conversão devida ao arrependimento e à atuação dos conselheiros religiosos que trabalham nas instituições prisionais.

c) Estratégia de sobrevivência. Os demais presidiários tendem a respeitar e a não mexer com quem se diz "de Jesus".

d) Problema inerente à teologia cristã-paulina, que ao dizer que a Lei foi revogada e Jesus já pagou por todos os nossos pecados, deixa a janela aberta para a pessoa prosseguir cometendo crimes sem peso na consciência, pois somos todos pecadores.

e) Como a maior parte dos evangélicos pertence aos estratos mais pobres da população e os encarcerados pertencem, em sua maioria, a essa classe social, sendo que mais pobres ficam pesos e mais pobres são evangélicos, isso explica o fenômeno.

Pergunta Cristã Ridícula: Por que tantos presidiários se dizem "de Jesus"?

[originalmente postado como tópico em minha comunidade do orkut *Perguntas Cristãs Ridículas* http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs?cmm=14446807&tid=5513500224259778668

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Porque fui mandada embora da FEBEM – Fundação CASA


Apenas hoje, dois anos depois, sinto-me segura para expor o motivo pelo qual não cheguei a ser demitida, mas fui “desconvidada a prosseguir” a dar aulas na Fundação CASA de Rio Claro. Obviamente isso não foi explicitado por meus superiores, mas percebi como foram mal recebidos os relatórios infratranscritos. E também fiz o nexo entre eles e o aviso de que eu não deveria me apresentar para tornar a dar aulas no ano seguinte naquela unidade.

Para quem não tiver paciência de ler até o final: fui mandada embora por denunciar uma agressão sofrida por um adolescente por parte de um agente de segurança, numa clara violação dos Direitos Humanos.

Para quem não sabe, FEBEM significa “Fundação para o Bem Estar do Menor”, instituição tipo “reformatório” para menores infratores / em conflito com a lei / delinqüentes do estado de São Paulo, Brasil, cujo nome foi tucanado para “Fundação Centro de Atendimento Sócio-Educativo ao Adolescente”.

Os dois textos abaixo não foram escritos para este blog, são transcrições de relatórios verídicos que enviei aos meus superiores na Fundação CASA a respeito de ocorrências envolvendo coincidentemente, ou não, o mesmo adolescente.

Sinto ser necessário elucidar o motivo do apelido de FEAJ para que ninguém interprete nisso algum tipo de alusão racista.

Ao ser internado na FEBEM, FEAJ já carregava o epíteto "Azulão". Embora ele fosse afrodescendente, esse apelido não era uma referência a sua cor.

Em seu bairro FEAJ era conhecido por cometer pequenos furtos entre os vizinhos. Roubava tênis, roupas que estivessem no varal, pequenos objetos. Até torneiras ele desenroscava dos quintais e vendia no ferro-velho como sucata para conseguir dinheiro para suas pedras de crack. Com este comportamento, FEAJ tornou-se persona non grata em sua vizinhança. Relataram-me que em certa ocasião FEAJ foi surpreendido num furto e seus vizinhos acharam por bem, melhor do que remetê-lo à polícia, prendê-lo numa naquelas cestas grandes de lixo que ficam nas calçadas de condomínios. Cestos de lixo estes que têm grades, e podem ser trancados com cadeado.

Consta que FEAJ ficou mais de 2 dias trancado na lixeira, e sua mãe o alimentou por entre as grades neste período durante o qual ele ficou completamente exposto à execração pública. Acontece que mesmo nessa condição o topete de FEAJ não foi quebrado. Disseram-me que de dentro da lixeira ele ria-se da situação enquanto entoava certa música humorística afamada anos atrás no programa do Ratinho

"Solta o Azulão, solta o Azulão..."

E daí o apelido pegou.


22/10/2008

Relatório disciplinar a respeito do adolescente FEAJ, vulgo “Azulão”.

O adolescente FEAJ já apresentou em sala de aula os mais variados tipos de comportamentos inadequados. Não possui contudo qualquer tipo de deficiência intelectual, encontra-se alfabetizado, não tem problemas com cumprir o mínimo necessário em sala de aula e as lições obrigatórias. Recusou-se a fazer a prova bimestral entregando-a em branco, como sinal de que não irá colaborar sequer com sua própria promoção escolar, numa espécie de “manifesto de rebeldia” diante dos colegas.

FEAJ apresenta dificuldade em cumprir e obedecer qualquer tipo de ordem ou mesmo orientação feita no tom mais suave a respeito de seu comportamento e atitudes impróprias. Ao ser advertido oralmente, cala-se, concorda ou justifica-se. Em poucos minutos volta a fazer exatamente aquilo pelo qual acaba de ser chamado à atenção. Empreende bruscos movimentos “de brincadeira” de ameaça física, flertando com a possibilidade de “ser arrastado”. Aproveita-se da distração ou desvio da atenção dos funcionários em relação a ele para confrontar-se com os colegas, motivo pelo qual foi retirado da sala de aula neste 22/10/08.

Por diversas vezes o adolescente atrapalha a aula conversando (ou melhor, falando sozinho), cantando, provocando aos demais, levantando-se, exigindo atenção exclusiva, sendo mal-educado e inoportuno. Por diversas vezes empreendi tentativas de aconselhá-lo de forma a comportar-se pelo menos para ter uma boa “caminhada” dentro da unidade. Ele não parece pretender colaborar sequer com a restituição de sua própria liberdade.

Quando da vacinação contra rubéola e hepatite recusou-se a sair da sala de aula para ser vacinado, tendo que ser na mais absoluta literalidade arrastado para fora da sala pelo agente de segurança para tal.

Solicitado por esta professora de forma bastante calma e educada a não se referir a um colega por “aquele viado” de forma extremamente desrespeitosa, continuou reiterando seu desrespeito e desprezo, não apenas em relação a esse colega, mas aparentemente em relação a todos os demais.

Sendo também alvo de certa animosidade por parte dos outros internos, sua estratégia de sobrevivência é a auto-afirmação perante seus co-internos, procurando demonstrar que pode se comportar como quiser sem ser severamente punido, chegando a bater no peito de forma a claramente demonstrar que em sua cabeça, ele é quem manda em seu próprio comportamento e que nenhuma das medidas disciplinares tomadas até agora está surtindo qualquer efeito.

Ao ser questionado sobre o motivo de haver sido sancionado no dia 20/10/08, disse ser completamente inocente, que apenas havia tropeçado, havendo sido mal-interpretado pelo agente de segurança.

O adolescente FEAJ claramente faz uso teatral de sua aparência franzina visando obter o compadecimento dos demais, apegando-se a formas de expressão infantis ao dirigir-se aos funcionários, visando fazer-se de vítima ora dos agentes de segurança, ora da direção da unidade, das técnicas, dos demais professores e mesmo dos agentes educacionais como se ele fosse a grande vítima e todos o estivessem passando para trás e perseguindo.

O adolescente apresenta empenho em reincidir em crimes. Já disse em alto e bom som que quando sair pretende “apavorar” e voltar a cometer delitos. Relatou no dia 21/10/08 diretamente a esta professora que quando sair pretende vingar-se da senhora R., trabalhadora terceirizada da portaria, que seria sua vizinha, e que em certa ocasião não teria deixado entrar a mãe deste adolescente por algum tipo de irregularidade que ele não soube precisar. Eu disse-lhe que não era ela que fazia as regras de quem entra ou como entra e o que entra, que ela apenas segue instruções superiores. Disse o menor que isso não lhe importava, que assim que saísse, pretendia acertar-se com o filho dela e roubar-lhe a moto.

O adolescente FEAJ demonstra estar seguro de que ninguém o impedirá de fazer aquilo que lhe vier à cabeça utilizando-se da certeza da impunidade, que se mantém mesmo em sua atual condição de sofredor de medida sócio-educativa de internação. FEAJ não se sente punido. FEAJ se sente constantemente injustiçado. Não percebe a relação causa-conseqüência de seus atos e que seria através de uma transformação no seu comportamento, e não na instituição e funcionários que detêm a sua guarda que ele teria uma melhora em seu dia-a-dia.

O adolescente FEAJ demonstra uma inquietude e ansiedade completamente acima do normal, a todo momento levanta-se, anda pela sala, possui baixo nível de concentração, o que possivelmente o faça candidato à síndrome de transtorno de atenção ou de hiperatividade, e considero que diante de tantos problemas apresentados pelo adolescente, seria aconselhável alguma atenção a nível psiquiátrico a este aluno.

Concluindo, o adolescente FEAJ reúne diversos dos piores comportamentos já apresentados nesta unidade reunidos em apenas um menor, aliados a uma grande obstinação em não mudar sua forma de comportar-se na unidade ou na sociedade. Para este menor será necessário uma atenção psicológica diferenciada, sendo o tratamento regular dispensado aos demais internos inadequado para obter qualquer melhora em FEAJ.


29/10/2008

Relatório de ocorrência envolvendo o adolescente FEAJ, vulgo “Azulão”.

Na quarta aula desta quarta-feira 26/10/2008, após o intervalo entre aulas dos adolescentes, imediatamente ao entrar na sala de aula F1 um adolescente dirigiu-se à mesa desta professora e relatou que eu deveria comunicar “lá na frente” (setor pedagógico) uma agressão recém-sofrida pelo adolescente FEAJ.

Após iniciar a aula, sentei-me ao lado do adolescente FEAJ e perguntei-lhe o que havia ocorrido. Inicialmente, em voz baixa, ele alegou que nada havia acontecido. Após minha insistência, ele disse que por motivo de estar rindo no refeitório um agente de segurança cujo nome ele não especificou havia mandado-o ficar em pé contra a parede, e quando a cabeça do adolescente FEAJ se afastou desta, ele teve sua cabeça batida contra a parede pelo agente de segurança por duas vezes, fazendo grande barulho e resultando numa marca visível em sua testa.

Inicialmente o adolescente solicitou que esse fato não fosse comunicado para o setor técnico e pedagógico, demonstrando estar com medo de sofrer maiores retaliações. Eu disse-lhe que isso seria sim comunicado, que este tipo de tratamento não deve ser dispensado aos internos.

Solicitei a presença do agente educacional R. para também estar a par do relato, pois eu precisaria de uma testemunha do que me estava sendo dito. Entrando na conversa por estar sentado próximo, o adolescente PC disse que eram 31 as testemunhas oculares do ocorrido (imagino que o todo dos adolescentes da Unidade de Internação). Após a entrada da agente educacional E. na sala de aula, ela também foi comunicada por mim do ocorrido, no sentido de ela também informar-se com o menor agredido sobre este fato.

Adicionalmente, o adolescente FEAJ relatou haver recentemente comparecido à delegacia por uma agressão anteriormente sofrida por parte de um agente de segurança, e tal não haveria resultado em nada. Seria de suma importância verificar se foi o mesmo agente o agressor em ambas as ocasiões.

Conversei com o adolescente no sentido de que a ação do agente de segurança era sim errada, mas que o adolescente com seu comportamento provoca reações nos demais, que se partirem de uma pessoa despreparada para o trato dos adolescentes podem resultar em agressões físicas. Eu sei de experiência própria como este adolescente pode ser enervante, mas absolutamente nada justifica uma agressão física contundente como esta, que resultou num trabalho educativo muito prejudicado nesta aula de hoje por conta da agitação e comentários entre os internos a respeito.

Parte da função da Fundação CASA é mostrar aos adolescentes que a violência e o desrespeito à lei não são o caminho correto a trilhar. Este trabalho está sob grave risco se eles aprenderem na própria pele por parte de funcionários encarregados de sua ressocialização que justamente a violência e o desrespeito à lei seriam aceitáveis. Faz parte de nosso papel interromper este círculo de violência que resulta em adolescentes infratores que despejam contra a sociedade as agressões sofridas em ambiente familiar e institucional.

Considero que parte essencial da função desta unidade é ensinar aos internos que a ética com o próximo e o respeito à lei são o caminho correto, tanto para quem não está imbuído de poder (os adolescentes) como para quem está (os funcionários). Espero que todos possamos enviar uma mesma mensagem aos adolescentes, e não mensagens conflitantes.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

A bagunça de Serra na educação do estado de São Paulo

(originalmente postado no tópico do orkut)

"O que ele fez pra vc se referir a ele como ditador? É o tradicional descaso com a educação ou algo além? " O Serra não negocia, ele ordena. Ele não promulga leis, ele as decreta. Ele mexeu tantas vezes na legislação de professores contratados desde 2007 que ele criou diversas categorias de professores, com direitos diferentes, sempre reduzidos a cada novo decreto. Ele se recusa a negociar com os professores. Ele se recusa a ouvir as demandas.

Mesmo em relação ao conteúdo, ele quer mandar em tudo. Enquanto que o estatuto do magistério celebra a autonomia escolar ele quer uniformizar via decreto todo o ensino estadual. Ora, a realidade da capital é muito diferente de Cabobró do Judas. E com relação às "metas".

Como o Serra adora falar em metas, avaliações, diferenciação por um suposto "mérito"...

Para receber o tal "bônus" tão propagandeado a escola tem uma "meta" que é medida tanto pelo desempenho dos alunos no Saresp, uma avaliação unificada para todo o estado, como pelos índices de evasão e repetência. Resultado: cada aluno reprovado é descontado diretamente do "bônus" dos professores, portanto reprovar um aluno, que já era difícil, torna-se impossível pela pressão econômica do governo. O Serra quer números. Como se uma escola não reprovar ninguém fosse um dado positivo. Tb a respeito do bônus. A meta é calculada em cima do desempenho anterior. A escola que tirou 3 tem uma meta de 3,3, por exemplo. A escola que tirou 5 tem meta 5,5. A escola que atinge 3,3 recebe bônus enquanto que a escola que manteve seu 5 não ganha um centavo, embora seu ensino seja, presumivelmente, melhor que o da escola nota 3.

São tantas as distorções numéricas... Outro exemplo: teve prova para ter aumento "por mérito". Ora, o teórico que se dá bem na prova não necessariaente dá uma boa aula ou ensina direito aos alunos. O Serra quer pasteurizar a educação, pressionar os professores com metas empresarias e plantar a desunião entre eles ao fazer uns ganharem x e outros ganharem y apenas baseado em uma prova arbitrária.

Sobre o descaso tradicional, bem, dou aulas há apenas 3 anos mas ouço de colegas mais experientes que desde que o PSDB subiu ao poder em SP (isso ainda na época de Mário Covas) ele apenas tem sucateado cada vez mais a educação. Tanto Covas como Alckmin e agora o lastimável Serra têm desmontado nosso sistema educacional, e cada vez parece mais claro que a real "meta" é chegar na terceirização da educação no estado de SP.

Muito triste.

Sobre as várias categorias de professores, só para vcs terem uma ideia. Não sou expert no assunto, mas por estar no olho do turbilhão passei a entender um pouco sobre a complicação das categorias.

Em 2 de junho de 2007 o Serra baixou um decreto mudando os contratos dos novos professores (estou falando apenas dos não-concursados chamados de OFAS ou ACT's). Quem já era OFA (Ocupante Função atividade) ficava na categoria F. Os contratados a partir de então viravam categoria L. Diferenças? Na época ninguém sabia, depois descobrimos que os L não contribuíam para a SPPrevi, mas para o INSS. A Apeoesp (sindicato dos professores) obteve na Justiça que os F ganhassem estabilidade sobre 10 horas/aula. Ou seja: o Estado era obrigado a assegurar pelo menos 10 horas/aula semanais para a categoria F. Até aí isso não teve nenhuma aplicação prática.

Em 2008-2009 o Serra inventou uma nova categoria: a O. Agora os novos contratados não seriam mais da categoria L, mas da O. Principal diferença? Menos direito a abono (os F tem 6 por ano, os O 2), menor direito a férias (na verdade sem direito a férias remuneradas), menor licença saúde etcs, mas principalmente a cláusula dos 200 dias. Exemplo: alguém que se formou agora tem 0,000 pontos no Estado. Que aulas sobram? As licenças temporárias, por exemplo, por saúde e maternidade. Este recém-formado que assume uma licença saúde de 3 meses é contratado na categoria O. Quando acaba a licença a cláusula dos 200 dias impede que este professor tenha um novo contrato de aulas estaduais por pelo menos 200 dias. Pq 200 dias? Pq esta é a duração, em dias úteis, de 1 ano letivo. Resultado: os categoria O trabalham ano sim, ano não. Num ano comem, no outro passam fome. Num ano moram, no outro vão pra debiaxo da ponte. Fiquei sabendo de um professor que ficou meses indo todo dia como eventual (substituto) pq se fosse contratado não poderia trabalhar agora em 2010.

Mas o negócio ficou ainda pior: em julho de 2009 o Serra decretou que simplesmente não contrataria novos OFAS. Simples assim. Resultado: milhares de alunos ficaram sem professores pois não havia quem substituísse os professores que se afastavam ou faltavam. O que o Serra fez? Resolveu ativar a "estabilidade" dos categoria F. Em novembro ele decretou de novo: todo F que não tivesse pelo menos 10 aulas semanais era OBRIGADO a pegar mais aulas até completar pelo menos 10. Uns 3 dias depois alguém alertou que ainda não seria suficiente e o Serra não titubeou: agora todos os F eram OBRIGADOS a pegar mais aulas pelo menos até completar 20.Quem não pegasse as aulas era intimado a assinar sua demissão. Pode parecer uma coisa boa, o Serra oferecedo trabalho a professores com pouca carga horária, mas a parte do OBRIGADO é que causa o problema.

Primeiro: já era NOVEMBRO! Que que esses professores iam ensinar? Nada! O Serra só precisava de alguém pra assinar a papelada como se os alunos não tivessem ficado um dia sem aulas. Segundo: já era NOVEMBRO! Todo mundo já estava com seu final de ano esquematizado, e muitos professores dão poucas aulas no Estado pq desempenham outras atividades profissionais, ou dão aulas em escolas particulares. Terceiro: a escolha de aulas é regionalizada. Vou dar o meu exemplo: dou aulas em Rio Claro, cidade subordinada à Diretoria de ensino de Limeira, junto com várias cidades da região. A mim só interessa dar aulas em Rio Claro, pois o salário é baixo e não compensa pegar estrada todo dia para ganhar merreca. Se chega a minha vez e não tem aula em Rio Claro eu simplesmente não pego essas auals. Mas com a parte do OBRIGADO a pessoa era OBRIGADA a escolher aulas, nem que isso fosse anti-econômico. Eu vi sair gente da diretoria de ensino que, sem ter carro, foi obrigado a pegar aula em 4 cidades diferentes. A pessoa ia dar essas aulas? Claro que não! Mas como era OBRIGADA, teve que asisnar o papel. Ouvi dos funcionários neste horrível novembro: vc tem que pegar as aulas, agora se vc vai poder comparecer e dar as aulas é outra questão, o problema é seu.

Este ano descobri que foi inventada uma nova categoria, a I. Diferenças? Ainda não descobri e tenho medo de quais serão. As diferentes categorias de OFAS são apenas um aspecto da insegurança jurídica que José Serra implementou na educação do estado de São Paulo. Existem muitos outros aspectos da batalha entre professores e governo tucano de SP. Auxiliado por seus asseclas Maria Helena Guimarães e Paulo Renato, José Serra conseguiu em sua gestão deixar a educação ainda mais confusa e instável. Como se não bastassem os problemas da sala de aulas, agora o professorado tem que se haver com as mudanças de humor do governador do estado de SP a cada novo decreto.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Do Decreto-Lei anti-fumo.

Os brasileiros estão sabendo?

O futuro candidato à presidência da República, atual governador do estado de São Paulo, sr. José Serra, do PSDB, baixou um decreto que virou a lei nº 13.541, de 7 de maio de 2009 que “Proíbe o consumo de cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos ou de qualquer outro produto fumígeno, derivado ou não do tabaco, na forma que especifica“ - todas as citações são do próprio texto da lei, que consta em: http://www.al.sp.gov.br/repositorio/legislacao/lei/2009/lei%20n.13.541,%20de%2007.05.2009.htm


Fica especificado que não será mais permitido fumar em: “‘recintos de uso coletivo’ compreende, dentre outros, os ambientes de trabalho, de estudo, de cultura, de culto religioso, de lazer, de esporte ou de entretenimento, áreas comuns de condomínios, casas de espetáculos, teatros, cinemas, bares, lanchonetes, boates, restaurantes, praças de alimentação, hotéis, pousadas, centros comerciais, bancos e similares, supermercados, açougues, padarias, farmácias e drogarias, repartições públicas, instituições de saúde, escolas, museus, bibliotecas, espaços de exposições, veículos públicos ou privados de transporte coletivo, viaturas oficiais de qualquer espécie e táxis.

Taxistas fumantes, mesmo que sozinhos no carro, podem ser multados se fumarem. Se o cigarro faz parte de uma peça de teatro, sequer os atores poderão fumar. Em boates, bares, clubes noturnos, esqueçam o ambiente boêmio e esfumaçado. Até nos fumódromos é proibido fumar. Será que até o gelo-seco proibiram? Avisem ao roteirista de “A Grande Família”: se Marilda fumar dentro de seu salão de beleza a Globo receberá uma multa por lar que sintonizou o programa no estado de São Paulo!

Esta lei virtualmente inviabiliza a 25% da população o lazer noturno. Como um fumante vai fazer numa balada? Vai ter que pagar a conta toda vez que for fumar na calçada?

Os estabelecimentos comerciais manifestaram interesse em fazer fumódromos. Mas, em ambientes fechados eles são proibidos. Talvez colocar um aviso na porta: *ambiente exclusivo para fumantes*. Tb não pode. A lei decreta que todos os ambientes são exclusivos para não fumantes e tira a liberdade do bar A ser para pessoas que querem um ambiente livre do cigarro e o bar B para pessoas que fumam ou não se importam com a fumaça.

O sr. José Serra tem um problema pessoal com o cigarro. E com isso penaliza milhões de paulistas, muitos seus eleitores, e com certeza caminhando para adicionar um ex a isto. José Serra quer transformar os fumantes quase que em cidadãos de segunda classe, restritos em sua liberdade, considerados “indesejáveis” para o trabalho por conta do tempo perdido nos deslocamentos necessário a cada cigarro.

Eu sou contrária a todo tipo de restrição da liberdade legal do indivíduo e acrescento que se tal lei é pra valer, necessariamente deve ser imposta em todos os lugares, especialmente nas repartições públicas. Vejamos onde a lei diz não se aplicar:

“Esta lei não se aplica:
I - aos locais de culto religioso em que o uso de produto fumígeno faça parte do ritual;
II - às instituições de tratamento da saúde que tenham pacientes autorizados a fumar pelo médico que os assista;
III - às vias públicas e aos espaços ao ar livre;
IV - às residências;
V - aos estabelecimentos específica e exclusivamente destinados ao consumo no próprio local de cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos ou de qualquer outro produto fumígeno, derivado ou não do tabaco, desde que essa condição esteja anunciada, de forma clara, na respectiva entrada.”

OK, então eu pergunto: e nas cadeias? Lá o índice de fumantes é maior que o da população “normal” e todos estão continuamente em ambientes fechados de uso coletivo, certo?

Se o sr. governador José Serra conseguir impor seu decreto anti-fumo no SAP – Sistema de Administração Penitenciária ou mesmo na Fundação CASA bato minhas palmas para ele. Então aceitarei ser proibida de fumar na balada.

Pq eu, uma pessoa livre, pagadora de impostos e seguidora das leis devo ser proibida de fumar em ambientes fechados de uso coletivo e os detentos do sistema prisional podem fumar livremente em suas celas, corredores e pátios?

Se José Serra conseguir isso e sobreviver ao PCC sacudindo o estado de São Paulo por causa de uma coisa tão banal quanto um cigarro dará uma demonstração de força.

Se não conseguir impor sua lei nem em suas próprias repartições públicas em pessoas com liberdade restrita, como pode querer impor a pessoas livres que fiquem confinadas à sarjeta ou ao domicílio?

Prestem atenção a José Serra, pois ele quer dominar o mundo e impor que todos sejamos mauricinhos bunda-mole de gel no cabelo! Ou talvez ele queira que todos os comunistas e seus charutos emigrem do estado de São Paulo!

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

De dois analfabetos

Já há algum tempo venho adiando este texto, que vem circulando nas minhas idéias, aos poucos tomando forma.

É difícil escrever a respeito dos meus alunos. Quem são eles?

Presos. Menores infratores condenados. Moleques que acham que roubar é “profissão”. No CRM, alguns presos aguardando julgamento, outros têm cara de malandro, suástica tatuada, cabelos brancos. Funcionários “de fora”, como eu, não ficam sabendo por qual crime os detentos estão condenados. Isso funciona tanto para o bem como para o mal. Às vezes vc se pergunta: o que fez esta pessoa parar aqui? E não tem autorização para perguntar, o que chega a ser angustiante. Às vezes eles falam espontaneamente, na maioria das vezes vc nunca fica sabendo.

Entre os muitos que eu vejo ir e vir, serem condenados e serem libertados, suas histórias sempre me fazem refletir. Suas personalidades sempre deixam em mim uma certa marca. Suas histórias me tocam, me engrandecem em experiências de vida, no conhecimento do ser humano.

O primeiro traço característico que se nota em quem está preso é a pobreza. Não defendo uso de clichês, mas pobreza que se nota, transparece através dos uniformes e sandálias havaianas. Pelo gestuário, pelo palavreado, pelos assuntos.

Na Fundação CASA (Centro de Atendimento Sócio-educativo ao Adolescente), novo nome da FEBEM (Fundação para o Bem-Estar do Menor), esse traço é marcante. Os meninos são, sobretudo, de periferia. Criados em famílias desestruturadas. Todos os clichês da “quebrada”: rua de terra, sem iluminação pública, escola deficiente, mães adolescentes, vários padrastos, parentes já presos etc. Cedo aprendem, em casa ou na rua, que roubar “os ricos” é normal, que traficar é apenas mais um ramo do comércio, que a justiça é feita pelos traficantes da “comunidade” e não pelo Estado Brasileiro. Que PM (policial militar) é inimigo e que todo político é ladrão.

Atualmente leciono para 45 alunos “menores infratores” com liberdade sancionada em regime de internação na CASA, divididos em 4 salas de aula. 20 na quinta e sexta. 20 divididos em duas sétimas e oitavas. 5 no ensino médio. Dá para perceber o gráfico em pirâmide que se forma? No CRM, leciono para 46 detentos, alguns em regime semi-aberto, outros em regime fechado, das mais variadas idades, condenados ou aguardando julgamento, em uma sala de ensino médio.

Como contar suas tristes histórias? Sinto tanta dificuldade em escrever sobre isso e parecer que os estou submetendo a algum tipo de “pesquisa de campo” sociológica... Não é esta a intenção, mas dou-lhes uma certa liberdade para conversar, que eles não desfrutam na presença dos seguranças. Gosto de nas minhas aulas ceder-lhes um raro respiro de uma relativa liberdade. E eles acabam se abrindo. Não há como ficar imune e não refletir sobre o que eles falam.

Como o menino que esteve preso por roubar R$30 e cinco pacotes de Passatempo na padaria do bairro. Ou o que voltou em reincidência por roubar uma bicicleta. Ou o que roubou um tênis. Ou os que estão presos por torturar uma vítima de assalto, por haver esfaqueado e assassinado um idoso, ou mesmo por estupro.

Muitos de seus crimes são chocantes, mas suas histórias são tocantes. Como o menino que teve a prima de 8 anos estuprada em um terreno baldio. E que testemunhou a irmã de 16 anos ser vítima de uma tentativa de estupro; meninos cujo pai, ou mãe, ou tio, está preso já há muitos anos? Os irmãos, os primos, os vizinhos, que ficam presos juntos? Muitos são órfãos. Muitos nunca conheceram o pai. Muitos são os criados por parentes, e não pela mãe. Muitos chegam semi-alfabetizados, os famosos “analfabetos funcionais”. Outros completamente iletrados.

Dois meninos analfabetos me tocaram profundamente. Fernando. Rapaz negro, paranaense, atarracado, bastante forte. Disse certa vez que ganhava R$5.000,00 reais por mês no tráfico. Chegou sem saber escrever o próprio nome. Sem conseguir fazer operações simples de adição e subtração. Não sei se a história sobre o seu lucro é verdadeira, mas soube que ele havia fugido de casa no Paraná por conta de violência doméstica e tinha vindo para em SP pegando carona com caminhoneiros. Certa vez tivemos uma festa de confraternização em que foram servidos produtos produzidos pelos próprios meninos da oficina de panificação. Pão de queijo, panetone, pães em geral. Nesta ocasião Fernando comeu exatos 14 pedaços de panetone. Em meio a isso perguntei-lhe: Nossa, vc deve estar com fome?! Disse-me ele: Professora, nunca comi uma coisa tão gostosa na minha vida! Panetone de frutas secas, uma coisa tão banal, que sempre sobra na minha mesa de Natal... Fernando nunca tivera um Natal como os meus.

Outro é Geremias. Com G mesmo. Geremias faz aniversário no dia 29 de dezembro. Eu faço aniversário no dia 29 de dezembro. Ele consegue, com muita dificuldade, identificar letras de fôrma. Não, porém, letras de mão. Eu entendo um pouco de paleografia, a ciência de decifrar a escrita em documentos antigos. Um abismo nos separa. Deveríamos ter sortes muito parecidas, não?

Geremias é um rapaz branco, atarracado, dente da frente faltando, testa baixa, tem uma namorada em quem pretende fazer um filho assim que receber sua liberdade. Como ela é filha única, vê nisso uma possibilidade de se mudar para a casa dos sogros e começar uma vida nova Ao contrário de Fernando, que foi alfabetizado com sucesso, Geremias receberá sua liberdade ainda analfabeto. Fez alguns avanços na matemática. Já é capaz de somar números com 3 dígitos. Numa aula minha ele, ao invés de tentar copiar a lousa, fez um desenho e mo entregou ao final da aula. O guardo até hoje. São duas figuras humanas estilizadas. Têm olhos, boca, ouvido, cabelos, pernas, braços, roupas. Um desenho até bonito. Meio que estilo cartoon. Destaca-se que nenhuma das duas figuras humanas têm mãos. Têm pés, mas não têm mãos. Os traços se encerram no punho, num corte seco. Não sou formada em psicologia, mas não pude deixar de perceber que esse detalhe demonstra que Geremias se vê maneta, literalmente incapaz de lidar com o mundo. Que ele inconscientemente percebe que seu iletramento o torna incapacitado, deficiente. E isso infelizmente não foi alterado em seus 6 meses de FEBEM.

É muito difícil conviver com tais histórias. Ver o quanto tenho uma vida confortável e sou privilegiada perto deles. E saber que eles são “o inimigo”. É por causa de pessoas como Fernando e Geremias que passo o cadeado todos os dias no portão. São pessoas como eles as que assaltam, as que seqüestram, as que matam, as que mantém a “classe média” em estado de sítio. São eles que eventualmente aparecerão em reportagens no programa do Datena.

É muito difícil conviver com os dois lados dessa história. Conhecer tanto sua Humanidade quanto sua desumanidade, em vários sentidos.

Existem muitos outros menores e maiores cujas histórias valem o registro. Aos poucos falarei mais. Quem ler, por favor deixe registrado em comentário, mesmo que apenas um “eu li”.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

“O inssino no Brasiu è otimo”. Ou de Veja

Está escrito na capa dessa semana. Sim, confesso, eu leio Veja. Não pq eu queira, mas como sou professora do estado e não posso assinar revistas realmente críticas e profundas, me contento em ler a Veja que a minha vó assina.

Se eu acho a revista ruim? Não, não acho. O que sempre me incomoda é a postura de quem dá a “moral da história” de seus editores. Sempre dão um jeito de encerrar as matérias com alguma empoada (e lastimável) frase de efeito. Até aí, tudo bem, a Veja está no seu direito de defender a direita classe média brasileira. Pelo menos nela não encontro embaraçosos erros de português, como no jornal local.

À página 76 desta edição 2074 encontramos a pergunta “Educação ou doutrinação?” ao lado de uma curiosa imagem que só poderia sair da cabeça de um editor de Veja: uma caneta vira uma foice e um lápis vira um martelo. Morri de rir. Como professora de História e Geografia, é comigo mesmo que eles estão falando.

Fizeram uma pesquisa: “Qual é a principal missão da escola?”

78% dos professores responderam “formar cidadãos”, o que é criticado ao longo da matéria. Curiosamente, não está entre as alternativas as opções que seriam as mais votadas pelos editores de Veja: “Formar balconistas.”, ou “Formar vendedores” ou “Formar auxiliares de serviço geral”. Em suma, formar a mão de obra barata que a direita classe média brasileira precisa para extrair-lhe a mais-valia. Podendo, assim, mandar seus filhos bem nascidos para as melhores escolas, numa cena que me lembra algo do filme “O sorriso de Monalisa” quando Julia Roberts é criticada por sua diretora por apresentar Pollock às futuras donas de casa da classe alta e outra professora é demitida por distribuir contraceptivos.

Cuidado: Jackson Pollock e contraceptivos poderão vir para destruir o seu mundo, assim como para os editores de Veja vieram Paulo Freire e Che Guevara. (Ah, só Veja poderia tb escrever em outra capa “A farsa de Che”). Quantos neurônios são necessários para decodificar a agenda destes editores? Os meus não são tantos assim, mas bem-lapidados por “ideologias furadas e fadadas ao fracasso” como Veja as decreta, eles são capazes de alguns interessantes raciocínios.

Ao longo de toda a matéria fica clara a mensagem: pais, cuidado, pelo que os professores estão incutindo na cabeça de seus alunos, eles se tornarão um bando de terroristas ludistas. Cuidado, pais empresários! Seus filhos vão arruinar seu patrimônio amealhado com tanta dificuldade. As futuras gerações serão contaminadas por uma ideologia ultrapassada e espúria [sic] e isso é demasiadamente perigoso pois as crianças não serão preparadas para o mundo do séc. XXI. Seria a virtual universalização da educação a própria responsável pela eleição de Lula? Afinal, há uma massa de cerca de 50 milhões de alunos do ensino básico sendo doutrinados por uma minoria de 2 milhões de professores, que poderão virtualmente causar a perpetuação da esquerda no poder, numa retroalimentação moto-perpétua.

Ai, até eu estou com medo agora. Quem sabe então acontecerá o que me foi dito em 1994, quando eu contava 11 anos numa escola de freiras, a respeito do que aconteceria se Lula se elegesse: “Toda família bem de vida vai ter que adotar uma criança de rua”. Pensei logo: “Eu não quero dividir meu quarto com nenhuma criança de rua.” Hehehe, então eu tb não quis que o Lula ganhasse e achei bom que o FHC vencesse, afinal, o real acabara de chegar à cantina da escola e a lata de coca-cola tinha sempre o mesmo preço. Maravilhoso!” Agora, sem o Lula, eu poderia continuar comprando a minha latinha de coca-cola e meu salgado no intervalo pelo mesmo preço. De meus 11 anos pra cá, eu evoluí. A mentalidade de alguns editores de Veja, aparentemente, não. Não que eu pretenda voltar a votar no PT, é claro.

Veja considera que o maior problema da educação é o currículo ultrapassado. Concordo. Os livros didáticos são maçantes. Os exercícios, intermináveis e inúteis. Há excesso de decoreba e de coisas que não servirão para absolutamente nada. Sinceramente, a escola como hoje ela se apresenta é um gigantesco desperdício de tempo. O que se faz em 12 anos poderia ser feito com muito melhor proveito em 5 anos. Eu mesma só não fui “pulada de ano”, como solicitei diversas vezes a meus responsáveis, por questões burocráticas. Se eu tivesse pulado da quinta série pro segundo ou mesmo terceiro colegial, não teria perdido muita coisa. Tudo que não aprendi em 12 anos de escola, assimilei sem muita dificuldade no cursinho pré-vestibular.

Defendo a diminuição do número de anos escolares? Não. Defendo que se ensine coisas úteis, e não que se tente fazer com que os alunos decorem intermináveis fórmulas de hidrocarbonetos, ou fórmulas físicas. O que era o Delta mesmo? Era de física ou de matemática? Sei lá eu! Algumas matérias simplesmente foram deletadas do meu hardware.

E o que eu estou fazendo pra mudar isso? Apesar de trabalhar com o público carcerário, principalmente na FEBEM lido com adolescentes em idade escolar. Selecionados entre os piores elementos de suas respectivas escolas, muitos há vários anos afastados das salas de aula, a maioria maciça com histórico de mau-comportamento, vandalismo ou mesmo agressão a professores. Aboli o único livro didático em quantidade disponível, o Encceja e fiz por conta própria um resumo do que era interessante em vários livros didáticos que ganhei (livro didático é como água, sempre vão te dar uma pilha dos que “estão sobrando” por falta de uso). Adicionei a isso aulas muito interessantes, como uma explicação das diferenças entre as religiões, orientação sobre os poderes do Estado brasileiros, os cargos eletivos e o que fazer para ter um voto consciente (coloco ambas as coisas no mesmo nível de neutralidade), tb ensino sobre os diversos documentos e a finalidade de cada um, sobre o que é o imposto de renda, enfim, uma certa “educação para a burocracia”, que embora essencial, não consta do currículo oficial. Pretendo ler em breve a Constituição para ensinar a eles as bases fundamentais das leis que nos regem. Para que eles saibam, afinal, pq estão presos e com que autoridade o Estado dispõe sobre as liberdades do cidadão.

Eu tento formar cidadãos. Cidadãos que saibam dos seus direitos e deveres essenciais. Que saibam que pagam com seus impostos os salários do políticos. Que saibam que atendimento de qualidade no posto de saúde da “quebrada” não é favor, mas dever do prefeito. E que este não pode interferir em questões de segurança, de âmbito estadual, como vejo a desinformação invadir minha televisão durante o horário eleitoral. Alunos que saibam que reclamar para o vizinho que a rua não foi asfaltada não adianta, mas que uma carta ao jornal local pode ser muito eficiente. Muito mais coisas úteis não são ensinadas aos nossos alunos, e deveriam. Eu estou aos poucos tentando fazer a minha parte.

Se a editora Abril deseja fazer realmente uma boa ação no sentido de melhorar a educação no Brasil, solicito que envie gratuitamente e em quantidade suficiente a cada escola pública assinaturas não apenas de Veja, mas tb da Superinteressante, Nova Escola e assim por diante. Que pare de se colocar em cima de um pedestal para criticar e passe a agir um pouquinho. Sempre levo revistas Veja para meus alunos lerem. Essa semana, levei a da “farsa do Che”. Como ele é uma das imagens mais emblemáticas do séc. XX, facilmente identificável, alguns que o conheciam apenas pela foto de Korda e pelo nome me perguntaram: “Professora, quem foi Che?”. A resposta curta: “Che foi um revolucionário socialista”. Neutra? Talvez não para Veja. A resposta semi-curta: “Ernesto Guevara, o ‘Che’, era um médico argentino que numa viagem pela América Latina ficou chocado com a miséria e exploração das pessoas pobres, aderiu à ideologia do socialismo, fez a Revolução Cubana e ao tentar fazer o mesmo na Bolívia, acabou derrotado e executado.” Eu poderia dizer muito mais, mas mais que isso estaria além do que meus alunos compreenderiam. Não há muito espaço para doutrinação em minha sala de aula.

“Fernanda, vc tenta implantar idéias subversivas nos seus alunos?”

Certa vez uma amiga que fez faculdade comigo perguntou isso. Respondi-lhe com certa propriedade: “Nem que eu quisesse conseguiria. Primeiro eu tenho que fazer com que eles não tenham vergonha de sua cor, que não achem que bater em mulher é normal, que saibam pq eles são obrigados a cada dois anos a comparecer diante de uma urna.”

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Do medo, da FEBEM e do “cadeião”

Qual foi a situação mais periculosa de sua vida? Estar num carro com um motorista bêbado dirigindo perigosamente? Perder-se numa “quebrada”? Andar sozinho à noite no centro de São Paulo? Engolir seco diante de um policial mal-preparado?

Quando vc teve mais medo em sua vida? Indeciso diante da inscrição do vestibular? Perder o emprego e achar que não vai conseguir outro tão cedo? Ser assaltado e se ver sem dinheiro sequer para pegar um ônibus? Sendo “peitado” por uma pessoa que vc sabe que está disposta a te agredir fisicamente?

Nesta quarta-feira passei por uma situação incrivelmente periculosa e amedrontadora e surpreendentemente, o que senti não pode ser classificado como “medo”, mas como “receio”. Estava receosa de que algo poderia acontecer, e não com medo que alguma coisa estivesse prestes a acontecer.

Engraçado como o destino vai aos poucos nos encaminhando. Depois de formada, distribui alguns currículos, e como tenho licenciatura, me inscrevi para dar aulas no Estado. As aulas são escolhidas de acordo com um ranking de pontuação, por títulos e especializações, mas especialmente pelo tempo de trabalho na rede estadual. Minha pontuação? 0,000. Às vezes os números falam mais do que palavras.

Na escolha oficial das aulas “normais”, não sobrou nada pra mim... Resolvi ir a uma atribuição específica para a Fundação CASA (FEBEM) de Rio Claro, recém-inaugurada. Mais uma vez, não peguei aulas L . 2 semanas depois, já meio desanimada de não estar conseguindo nada, recebi uma ligação, me chamando para uma nova atribuição da FEBEM. Compareci eu e um outro professor, mais experiente, com maior pontuação. Ele era um cara musculoso, grandão, e logo que o vi tive certeza que escolheriam a ele. Como a FEBEM é “diferenciada”, fomos entrevistados. Surpreendentemente, me chamaram de volta e dispensaram o outro candidato. Me disseram que era pq eu já conhecia o material didático a ser utilizado, o método Encceja, com assinatura do Gabriel Chalita. Às vezes um só nome fala mais do que muitas palavras...

Eu conhecia mesmo, tenho uma cópia do material que veio às minhas mãos por acaso (?), quando no começo do segundo ano de faculdade houve uma grande distribuição gratuita de livros numa calourada. Levei pra casa a caixa pesada do material, que estava sobrando e ninguém mais queria. Isso me valeu meu atual emprego. J Depois soube que eu havia pegado as aulas da FEBEM depois de 3 desistências.

A primeira sala de aula que encarei assim que me formei foi uma turma de ensino médio com 12 “menores infratores” dentro da FEBEM. Assustador o suficiente pra vc? Vesti a personagem da “senhora Fernanda” (os alunos são obrigados a chamar a todas as funcionárias mulheres por “senhora”, não importa a idade) e fui adiante. Aos poucos aprendi as gírias, macetes e valores de quem vive na criminalidade, e passei a entender, e a deixar de temer para apenas recear seu mundo.

Quem trabalha numa detenção logo aprende que se vc não se impõe, não se “faz de macho”, não levanta a voz e coloca eles no seu lugar, eles “montam em cima de vc” e vc perde seu emprego. Vi umas 2 dezenas de funcionários serem demitidos pq “não tinham perfil” para trabalhar com esse “público”. E como “mente vazia é a oficina do demônio”, o mais divertido passatempo dos menores é testar e tentar “entrar na mente” dos funcionários, especialmente os que parecem mais frágeis, como uma menina magrinha (agora já não tanto) de 24 anos recém-formada. Que havia aprendido muito sobre Braudel, Caio Prado, Vygotsky e Rousseau, mas absolutamente nada sobre como dar uma aula.

No começo usei o Encceja, mas depois descobri que eu poderia ter total autonomia sobre o conteúdo a ser ensinado. Maravilha. Desenvolvi um conteúdo baseado em diversos livros didáticos e no que eu acho que realmente merece ser ensinado, descartando as discussões sobre remanescentes de quilombo pra quem nem sabe o que é a escravidão ou sobre a fundação de Roma pra quem não sabe o que a.C. e d.C. significam.

Agora voltamos ao “mote” deste texto. De alguma forma consegui me manter na FEBEM, agora já na quarta atribuição de aulas. Daí, surgiu um novo telefonema nesta terça-feira. Estavam me ligando do CRM, perguntando se eu estava disposta a dar aulas no período noturno. Claro! CRM? É alguma escola particular? Não, e conforme a funcionária muito simpática e aliviada por finalmente encontrar um professor foi me explicando, a sigla se referia ao “cadeião” de Rio Claro.

Topei. Chegar lá à noite sozinha numa estrada de terra no meio de uma “quebrada”? No primeiro dia, com medo de me perder, pedi pra minha avó ir me levar e depois me buscar. Entrei. Me deram a lista de chamada. 50 alunos. Engoli seco. A “sala de aula”? Um pátio, com um tapume de madeira no meio e duas lousas nas extremidades. Do lado do fundamental, com uma segunda professora, 70 presidiários. Do meu lado, no ensino médio, 50 presidiários. Tatuagens, cabeças brancas, uniformes em diferentes cores, dentes faltando. Duas mulheres num saguão com 120 presidiários? A distância do agente de segurança mais próximo? Dois portões gradeados de metal trancados e uns 150 metros. Assustador o suficiente pra vc? Para fins de comparação, na FEBEM cada professor fica em média com uns 12 alunos, e a uns 5 metros, sem portas trancadas, de pelos menos 3 agentes de segurança e dois agentes educacionais. São 4 salas de aula, totalizado em torno de 46 “internos”, com 4 professores. “Outro esquema”.

Blz, já aprendi a me “fazer de macho” e a falar alto esculachando “bandido” folgado (odeio isso e me sinto mal toda vez que o faço, mas é necessário). Logo no primeiro dia, a outra professora, novata no sistema carcerário, estava sendo desrespeitada pelos “alunos”. Como eu sabia que se ninguém fizesse nada aquilo adquiriria sempre maiores proporções, não tive dúvida, fui pro lado dela do tapume, pedi licença e fiz um discurso moralista pros alunos dela. 70 presidiários contra uma desconhecida “patricinha metida” curiosamente usando um jaleco de médico do hospital Albert Einstein (essa é outra história...)? Sem problemas, falei usando todos os chavões do “respeito”: “ela é uma senhora que está aqui fazendo um trabalho honesto”, “ela merece o mesmo respeito que as esposas e mães de vcs” e assim por diante. Quem tá preso adora dizer que não é bandido e tem altos valores morais, o que inclui respeitar quem é trabalhador, especialmente as mulheres, especialmente as senhoras com jeito de mãe, como a outra professora.

Para minha sorte, a maioria ficou quieta, alguns concordaram, e meus alunos até falaram “é isso mesmo!” e pude arrematar com um “Se não tiver respeito aqui dentro, ninguém vai poder dormir, pq não sabe se vai acordar.” Muito bom. Mas nada disso me prepararia pra o que ocorreu logo no segundo dia.

Nove e quinze da noite. Meio da aula. Todas as luzes de repente se apagam. Duas mulheres sozinhas num pátio com 120 presidiários, a 150 metros e duas portas trancadas de distância de um solitário agente de segurança? Breu completo, de repente se ouve alguns gritos, como os que ocorreriam em qualquer escola estadual com alunos arruaceiros. Cenário perfeito para uma rebelião com duas ótimas reféns para servir como moeda de troca. Assustador o suficiente pra vc? Nem tanto pra mim, que senti receio, mas não medo. No breu, rapidamente criei um plano: se eu me sentisse ameaçada, me esconderia atrás da lousa esperando que eles não cometessem nenhuma violência comigo e a outra professora. Senti um certo receio, mas não medo. O gerador começou a funcionar, dando um certo alívio. Todos continuavam sentados. Em alguns segundos, o gerador falhou, e um novo breu se apresentou, agora à meia-luz de alguns isqueiros.

O gerador voltou e o agente de segurança solitário veio e disse para encerrarmos as aulas e irmos embora, mandando os alunos para suas celas. Ufa! Saímos sem nenhum arranhão.

Depois descobri que a luz havia faltado em toda a cidade, e pela manhã de hoje pude fazer piada. Perguntava pra todo mundo: “Onde vc estava quando faltou luz?” Alguns, no banheiro, outros vendo a novela, alguns ao telefone. Pude dizer me gabando: “Eu e uma outra professora estávamos num pátio com 120 presidiários, a 150 metros e 2 portões trancados de distância de um solitário agente de segurança.

E eu não senti medo.

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