sábado, 21 de janeiro de 2017
Dezessete e Trinta e Quatro, Trinta e Quatro e Cinquenta.
quinta-feira, 10 de julho de 2014
Da Máfia chinesa
Em texto anterior, mencionei que minha segunda experiência profissional foi em uma firma de videokê comandada por chineses, e au passant que meu desligamento desta empresa não foi tão pacífico. Vamos aos detalhes.
Os japoneses, ao que me consta, criaram uma forma de entretenimento denominada "karaokê", termo que significaria "sem banda". Pelo mundo espalhou-se o hábito de, em bares e locais de entretenimento, haver uma máquina que, com o acionamento de moedas, tocava a trilha de uma música, possibilitando aos clientes o entretenimento de cantá-la.
Na passagem entre os 1990 e os anos 2000 o karaokê "evoluiu" para o videokê, com o avanço de que agora havia uma tela que mostrava a letra da música a ser cantada. Rapidamente começaram a pulular pelos bares as "jukebox de videokê". E justamente no fornecimento de "máquinas de videokê" a empresa King Star entrava no mercado.
Entrei em contato com ela através do meu então colega de cursinho, e para sempre grande amigo, Henrique "Figura". Ele morava no mesmo prédio do dono da empresa, e assim conseguiu o emprego. No curso pré-vestibular Figura verificou que meu domínio do português era muito bom, e me convidou, a princípio, para um trabalho freelance como revisora da grafia da letra das músicas. Me forneceu um equipamento e por alguns finais de semana gastei todas a minhas horas livres nisso, entregando o trabalho antes do prazo.
Meu trabalho causou boa impressão e me convidaram para um trabalho fixo na King Star. Adorei pois seria minha segunda experiência empregatícia, e o local de trabalho ficava a 300 metros da minha casa no Tatuapé. Sem registro em carteira, receberia, em 2001, 300 reais por mês, o que creio que fosse próximo ao salário mínimo da época.
O dono da empresa atendia pelo nome "brasileiro" de Fernando, meu xará. Era um taiwanês de 26 anos com esposa e filho pequeno, empreendedor arrojado que também empregava seus irmãos, que atendiam por Cris e Mário. Soube que antes de se dedicarem ao videokê trabalhavam com máquinas de caça-níquel, mas que haviam abandonado esse ramo por conta da proibição legal e subsequente fiscalização.
Figura rapidamente me ensinou seu métier, que era bem mais simples do que eu pensava. As máquinas, semelhantes a DVD players, vinham prontas da China. A nossa parte era desenvolver o software. Ou, mais precisamente, adicionar o máximo de músicas ao acervo do software do videokê. Baixávamos pela internet arquivos .mid com a melodia e também pesquisávamos a letra dessa canção. Nosso trabalho era simplesmente o de sincronizar letra e música, acertando compassos, timbres e tons.
Mesmo sem saber quase nada de música e sendo incapaz de tocar qualquer instrumento, era muito simples esse trabalho. E até o de multiplicar músicas, se gravadas por mais de um artista. Nosso trabalho frutificava, e as vendas iam bem até o ponto em que foi contratado um terceiro membro para nos ajudar. Após algumas entrevistas, selecionaram Roberto Mautone Jr., que frequentava minha sala do cursinho pré-vestibular.
Tudo ia muito bem... Até que... A China chamou.
Nosso chefe Fernando não nos explicou muito bem os pormenores, mas pelo que pude entender, o capital que havia usado para iniciar o negócio viera de Taiwan, de parceiros comerciais que, portanto, eram sócios no seu negocio na King Star. Aparentemente seu sócio em Taiwan estava passando por problemas, ou desconfiava de sua retidão na condução da empresa, e portanto enviaria "emissários" para um tipo de "auditoria"
Os chineses que vieram eram 2, um homem e uma mulher, esta aparentemente esposa do superior de Fernando, e aquele aparentemente seu "testa de ferro". Só falavam chinês e um pouco de inglês. Sendo nós contratados numa firma com 3 chineses e 3 subalternos brasileiros, ouvir chinês para nós era corriqueiro. Fernando, com seu sotaque pesado, veio me perguntar se eu "realmente falava inglês de verdade" e quando disse que sim, me pediu que fizesse um "meio de campo" com os visitantes, os levasse para passear no bairro, almoçar, etc, e assim fiz.
Foi numa dessas oportunidades que descobri que minha primeira tatuagem não era em japonês, mas em chinês. No dia de meu aniversário de 18 anos eu comparecera a um estúdio de tatuagem. Folheara o portfólio e selecionara duma folha onde se lia "Letras japonesas" o ideograma sob o qual estava escrito "verdade". Estava tranquila desse fato até que o "testa de ferro" do chinezão, ao vê-la, abriu um sorriso e disse: "nice, honesty!"
Eu disse "I beg your pardon, what did you say?" E ele disse "I just read your tattoo". Repliquei: "can you read it? Is it in chinese? I thought it was 'truth' in japanese". E ele disse meio que rindo da minha cara "well, it's chinese, and says 'honesty', wich also can be translated as 'truth'." Me senti meio tranquila e meio lograda. Pelo menos eu não havia tatuado "conteúdo 300 gramas" ou "sopa de cebola".
Após algumas semanas chegou da China, ou de Taiwan, pois para eles "era tudo a mesma coisa" o chefão cuja esposa eu estivera ciceroneando, mesmo com seu péssimo inglês. Aparentemente vinha para "tomar o negócio" do Fernando. Num sábado de janeiro de 2002, logo após eu fazer as provas da segunda fase da FUVEST o Fernando nos disse para ir ao trabalho "normalmente", mas para ficarmos alerta, pois algo de importante aconteceria. Eu, Figura e Beto permanecemos no andar de cima, em nossos computadores, enquanto "a chinesada" fez uma reunião no andar de baixo. No meio do expediente, ouvimos do andar de cima barulhos que pareciam de uma briga física entre eles.
Quando se aproximou a hora do fim de nosso expediente, Fernando subiu as escadas, foi à nossa sala, nos dispensou e me entregou, numa caixa, uma fita de vídeo VHS. Me pediu que a ocultasse em minha bolsa, a levasse para minha casa, e disse que mais tarde, ainda neste dia, a iria buscar. E que eu a guardasse enquanto isso como a minha vida. Ok. Enquanto íamos embora, o testa de ferro do chinesão chamou o Figura para uma conversa particular.
Beto me acompanhou no curto trajeto até minha casa e, lá chegando, não nos contivemos em colocar a fita no meu videocassete, rebobiná-la e assisti-la. Era uma gravação de uma câmera escondida colocada na luminária do teto da sala onde acontecera a reunião, no andar de baixo. A "chinesada" obviamente só falara em chinês, mas mesmo não compreendendo uma só palavra, assistimos tudo, vidrados.
A linguagem corporal não deixava dúvidas. Travavam nosso chefe Fernando, o chinesão seu superior e seu testa de ferro que reconhecera minha tatuagem uma discussão aguerrida, por conta de dinheiro ou da condução da empresa. Assistimos ao momento em que o "chinesão big boss" deu uma série de socos na mesa, e este fôra o barulho que nos alarmara, ouvido do andar de cima.
Ao fim da tarde nosso chefe Fernando veio bater à porta da minha casa, perguntando com ansiedade e insegurança de menino "onde estava a fita". A entreguei na mesma caixa, sem lhe informar que a assistira, e ele a abraçou como a uma joia preciosa.
Abriu um sorriso, me agradeceu pela discrição e disse:
"Essa fita vai salvar a minha vida".
Na semana seguinte recebi a notícia de havia sido aprovada no vestibular da USP para o curso vespertino de História e pedi meu desligamento da King Star. E soube que o "chinesão big boss" não era o "big boss" after all. Que havia, acima dele, lá na China, um "chefão" superior, e que essa fita da discussão em chinês lhe havia sido remetida por Fernando como uma forma de provar sua honestidade na condução do negócio, no intento de "queimar", lá na China, com o "verdadeiro chefão" aquele que socara a mesa da King Star.
Nesse meio tempo o Figura nos revelou o conteúdo de sua conversa com o chinês. Ele sofrera uma tentativa de suborno. O chinês lhe dissera que a King Star seria desfeita, e o convidou para "virar a casaca": abandonar o Fernando e passar a trabalhar diretamente para ele, o que lhe valeria um reajuste salarial de 50%. De 300 passaria a ganhar 450 reais. Só ele, eu e o Beto não. Não havia espaço para nós. Figura nos disse que por nenhum momento cogitou aceitar isso. Que conhecia o Fernando há anos e não colaboraria com essa "puxada de tapete". Que não aceitaria essa proposta, levando o know-how que aprendera com o Fernando, para seus agora "inimigos" e futuros concorrentes. Que não faria parte deste "golpe empresarial" que resultaria no fim do emprego meu e do Beto, seus "trutas". O Figura sempre foi muito "firmeza".
Depois disso, não mais soube que rumo levou essa contenda. Com o avanço da tecnologia, e o fim da moda, essas máquinas de videokê que vendíamos caíram no ostracismo. Não há mais quem as compre. Não sei que rumo tomaram Fernando e seus irmãos. Mas tenho certeza que estão enriquecendo, empreendendo, trabalhando diligentemente, como os chineses, ou taiwaneses, sabem fazer tão bem.
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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Dos Fenômenos Literários
Em conversas com pessoas similares a mim em muitas coisas, como idade, nível social e educacional é comum um "estranhamento cultural": apesar de eu ser uma leitora voraz, não ser adepta de nenhuma "saga literária" das várias que se consagraram como "fenômenos" da "cultura pop".
As mais populares nos anos 2000 são Harry Potter, The Lord of the Rings e The Twilight saga. Não li nenhum dos livros nem assisti a nenhum dos filmes. Quer dizer, cheguei a ser compelida a assistir ao primeiro filme do "Senhor dos Anéis" com um grupo de amigos. E enquanto eu bocejava, eles exultavam.
Os motivos de eu não participar dessa "onda cultural massificada" são vários, e como já fui muitas vezes confrontada pelo espanto dos meus interlocutores por eu não parecer muito empolgada a gastar um ingresso de cinema para assistir ao "Hobbit", vale o registro.
- Tudo isso foi lançado (ou virou viral) quando eu já tinha mais de 18 anos, já tendo lido vários clássicos qualitativamente superiores em enredo, linguagem, estética, como Kafka, Shakespeare, García Márques, Sartre.
- Sempre soube reconhecer o tipo de literatura ou música classificável como "guilty pleasure": algo do que até se gosta, mas se sabe que não tem muita "qualidade". Estava ciente disso já aos 14 anos, ao reconhecer que ler livros do Paulo Coelho e chorar com as músicas do Bon Jovi eram coisas das quais no futuro eu meio que me envergonharia...
- Tive meu próprio "Harry Potter" na figura da série de 14 livros de Anne e Serge Golon "Angélica, a Marquesa dos Anjos", cada um em média com 300 páginas. Aos 12 anos já tinha lido todos, e já tinha um "cenário fantástico" no qual fantasiar com as aventuras de Angélique de Peyrac no século XVI, entre o Poitou, O Languedoc, Versalhes, o Saara e o Novo Mundo.
- Conhecer mitologia grega. Quando criança minha família tinha uma coleção de livros de mitologia grega. Como "descer o nível" depois disso?
- Ter feito faculdade de História, percebendo assim com facilidade todo o humor involuntário dos acochambramentos que os "autores pop" cometem. Isso também me trouxe uma certa visão de que se determinado autor não atingiu o nível de "clássico", com tantos clássicos imortais na minha lista de ainda por ler, devo direcionar meus esforços primeiro ao que é um "dever" ler, antes de qualquer coisa "acessória".
- Estudar a Torah. Se comparada à mitologia grega o "Senhor dos Anéis" parece bobo, o que dizer de sua comparação à Torah? Ter estudado a Bíblia Hebraica em toda a sua riqueza e multiplicidade meio que "estragou minha tolerância" a literaturas fantásticas de banca de revista.
- Perceber claramente uma "mudança de gosto" conforme os anos passaram. Um "fenômeno literário" no qual embarquei foi o de Dan Brown. Li as 400 páginas de "The DaVinci Code" em um final de semana, assim que lançado. Devorei e adorei, com 20 anos. 8 anos depois comprei "The Lost Symbol". Li, com sofrimento, 35 páginas. Achei um lixo completo. Coloquei na prateleira e nunca mais senti vontade de retomar. Se eu fosse ler hj o "Código da Vinci" seguramente também abandonaria.
Em suma, sem querer me desfazer das paixões de ninguém, passo muito bem sem literatura-pop de vampiros, bruxinhos, elfos e gnomos.
Depois de ler Eclesiastes, Provérbios, Sabedoria de Salomão, como poderia apreciar "O Segredo", "A cabana", "Quem mexeu no meu queijo"?
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
Balanco de Yom Kipur 5774
sábado, 6 de julho de 2013
Dos poodles brancos
terça-feira, 18 de junho de 2013
De Jarson Brenner
domingo, 9 de junho de 2013
Dos melhores presentes que já dei a namorados
sábado, 8 de junho de 2013
Meu primeiro amor
sábado, 27 de abril de 2013
O carro perfumado
Morava à rua Pedro Pires, 427, Vila Carrão. O pior endereço, de longe, no qual já tive a má sorte de residir. Não pela localização, não pela casa, mas pelas pessoas q comigo moravam. Eu residia com minha ex-mãe, Regina, e com seu amásio, R.
Certo domingo eu havia combinado com minha amiga Luciana, que estudara comigo na quinta série, e que não mais era minha colega, de irmos ao cinema do Shopping Aricanduva. Vivendo na megalópole "Sampa", bastante intimidadora para qquer tipo de deslocamento de uma pessoa inexperiente que poderia com muita facilidade "se perder para todo o sempre". Eu avisara no dia anterior a Regina deste combinado, e estava tudo certo para ela me levar ao shopping, eu encontrar minha amiga e com ela ver o filme enquanto Regina dava umas voltas e fazia umas compras por lá mesmo a tempo de eu sair da sessão e voltar com ela para casa. Tudo muito certinho.
Mas na manhã de domingo, não lembro ao certo o motivo, Regina resolveu que iria "me punir" por alguma coisa que eu havia ou não havia feito não mais me levando ao shopping. Chocada e em protesto, lhe disse algo como:
- Mas já estava tudo combinado! Já confirmei com a minha amiga que eu vou! Ela vai ficar muito brava se eu não aparecer!
Ao que Regina deu de ombros, e disse:
- Vá de ônibus!
Com frescos 12 anos, eu não tinha a menor idéia de como chegar de ônibus ao Shopping Aricanduva. E em 1995 ainda não havia internet como hoje, em que num simples click podemos tirar esta dúvida, nem nada que se parecesse com o GPS, ou Foursquare...
A discussão foi crescendo a um ponto em que percebi que Regina "amava mais" seu carro do que a mim, e que valorizava por demais seu próprio descanso, em detrimento de qualquer aspecto de minha vida. Eu tinha 12 anos, mas já era bem a mesma Fernanda que sou hoje. Num rápido lapso, pensando o que a poderia "abalar" e fazer capitular, subi as escadas como um raio, entrei em seu quarto e, bufando, tranquei a porta. Pensando em que tipo de retaliação lhe poderia fazer, vi em cima do gaveteiro contraposto ao espelho seu único vidro de perfume, enquanto Regina esmurrava a porta.
O peguei, fui até a varanda que dava para a garagem no andar de baixo e comecei a gritar, com todo o destempero do peito aberto de uma adolescente:
- Você ama essa p***a deste carro muito mais do que a mim! Quer saber, já que vc ama tanto a p***a deste carro, vou encher ele de perfume!
Regina, vociferava a esta altura já da garagem, do andar de baixo. Lembro-me até hoje do exato tom de azul bebê daquele frasco de "Tathy" do Boticário enquanto eu percebia: "se eu tacar o perfume fechado no carro, vai espatifar o para-brisa, ou amassar o capô, e isso vai dar uma merda enorme!" Então, inteligentemente, não taquei o vidro fechado sobre o carro, desenrosquei a tampa e, com prazer venenoso, despejei todo o seu conteúdo sobre o capô, enquanto Regina assistia boquiaberta.
- Agora seu carro tá bem perfumadinho!
Enquanto Regina subia e descia as escadas maniacamente, esmurrando a porta de vez por outra enquanto berrava descontroladamente coisas absurdas de qualquer mãe dizer a uma filha, peguei o telefone de seu quarto e liguei para Luciana:
- Minha mãe tá dando chilique aqui em casa e não vai mais me levar pro cinema, não vou poder ir.
Luciana, que também tinha seus problemas, me compreendeu, e disse:
- Vou pedir pra minha mãe passar na esquina da sua casa 13:30. Se vc puder sair, esteja lá e minha mãe te leva!
Lhe dei mil agradecimentos e falei que faria o possível. Num dos intervalos em que percebi que Regina estava no andar de baixo, rapidamente destranquei a porta, corri pro meu quarto e tranquei a minha porta. Peguei minha mochilinha com minha carteira, dinheirinho e documentos e fiquei "de tocaia". Ela veio esmurrar minha porta mais uma ou 2 vezes enquanto gritava impropriedades. Uma hora depois, ainda em tempo de ir ao cinema, ouvi o barulho do chuveiro no andar de baixo. Como seu amásio não estava em casa, percebi que Regina estava momentaneamente "fora de combate", peguei minha mochilinha, minha chave, e saí.
Esperei por mais de uma hora na esquina até que o carro da mãe de Luciana parou para me pegar. Consegui controlar o choro e quando ela me perguntou o que tinha acontecido, disse:
- Prefiro não falar sobre isso. Vamos mudar de assunto.
Sua mãe nos deixou no shopping, lhe deu um beijo, 20 reais, e disse:
- Me liga quando terminar a sessão que em meia hora eu te pego aqui mesmo.
Muito sorridentes e independentes, fomos ao cinema e vimos à (péssima) fita Debi & Loyd. A final do filme, enquanto íamos ao banheiro, disse a Luciana:
- Eu não queria voltar ainda pra casa, podemos ver mais um filme?
Ela me deu um meio sorriso de comiseração, daqueles que a gente nunca gosta de receber, e disse que tudo bem, ainda eram 4 horas, cedo, mas que tinha que ligar para sua mãe para avisar, se não ela ficaria preocupada.
Depois de ligar, me disse se eu não devia também ligar para minha mãe, pois ela poderia se alarmar com minha "demora extra", ao que eu disse que não era necessário. Voltamos ao cinema e assistimos à (razoável) fita "Ninguém Segura Este Bebê".
Saímos, muito alegres, ela ligou para sua mãe vir nos buscar, comemos alguma coisa, e quando fomos ao lugar combinado, percebi que já era noite. Enquanto sua mãe tomava o caminho da minha casa, me passaram na cabeça mil cenários do que poderíamos encontrar, afinal, eu saíra antes do almoço sem avisar, eu tinha 12 anos, e já era noite. Teria Regina chamado a polícia para me reportar como desaparecida? Teria Regina "convocado" familiares ou psicólogos para uma intervenção? Estaria ela me esperando sentada no sofá, com o pezinho balançando, para uma "conversa séria e definitiva"?
A mãe de Luciana me deixou na esquina e dei um suspiro de alívio ao perceber que não havia nenhuma viatura na porta de casa. O carro de Regina continuava na garagem, exalando um cheiro nauseante de Thaty. Girei minha chave na porta de entrada com um calafrio, de se daria de cara com ela na sala. Ufa! Não! Ninguém na sala.
Rapidamente corri pelas escadas, e enquanto passei pela frente de seu quarto com a porta fechada, ouvi que sua TV estava ligava. Corri e me tranquei no meu quarto, o sangue gelando nas veias: se daria tempo de trancar a porta antes que ela invadisse o recinto e me batesse. Tranquei e sentei no chão, contra a porta, com a certeza de que logo ela viria me dar um sermão de como ela tinha ficado preocupada e desesperada com o meu sumiço. Um, 2, 3 minutos, nada.
Fui para a cama, repassando os acontecimentos do dia. Meia hora, uma hora, 2 horas, nada!
Depois foi 1 dia, 2 dias, uma semana, nada! Ela simplesmente nunca mais tocou no assunto.
Eu tinha 12 anos mas já sabia que a pessoa responsável por ter "conversas sérias" comigo estava pouco se lixando em ter "conversas sérias" comigo e me dar orientações para a vida. E que a pessoa que mais deveria "se preocupar comigo" e cuidar de mim estava pouco se lixando para qualquer coisa minha.
Este foi o pior endereço em que morei e as pessoas que comigo lá moravam as que tive a maior infelicidade em conhecer. Esse foi o período mais triste de minha vida.
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sábado, 20 de abril de 2013
De Orlando Nunes
O conheci em 2005, na comunidade Perguntas Cristãs Complexas. Era uma comunidade do Orkut de debates religiosos que se distinguia por sua proposta democrática, variedade de participantes, pluralidade e pelo elevado nível dos debates. Mais do que tudo, era um espaço único, no qual pessoas de diferentes credos podiam interagir, comparar seus dogmas, ver os pontos fracos e fortes de cada vertente teológica.
Os debates eram muito variados. Desde temas do "dia a dia" como sexo, vestuário, alimentação, comportamento e política, até pequenas abstrações filosóficas impalpáveis, mas teologicamente essenciais.
Nessa época eu me classificava como "espírita kardecista". Ainda o digo quando perguntada por alunos. Foi no período de amadurecimento teológico durante o qual participei desta comunidade que me descobri Noachide. Na comunidade, ao assim começar a me dizer, os membros entendiam a o que eu me referia. Seu eu me declarar "filha de Noé" aos meus alunos, seria muito difícil fazê-los entender do que tal se trata. E o Noachidismo pode nem ser considerado uma "religião", mas uma derivação do Judaísmo.
Orlando Nunes era calvinista. Protestante histórico seguidor de João Calvino, o célebre reformador franco-suíço. Se destacava por ser, ou aparentar ser, uma pessoa madura, equilibrada, pluralista, e de profundo conhecimento teológico. Por sua postura sempre ilibada, todos os membros lhe dedicavam o mais alto respeito, eu inclusa. Até o admirava por sua seriedade e simpatia.
Ainda na PCComplexas tivemos alguns debates memoráveis. Um ponto que exploramos até a exaustão foi se, ao ser suspenso no madeiro (a cruz) o corpo de Jesus se tornou maldito, conforme:
Deuteronômio 21:
22 Se um homem sentenciado à pena de morte, for executado e suspenso a uma árvore, 23 seu cadáver não poderá permanecer na árvore durante a noite. Você deverá sepultá-lo no mesmo dia, pois quem é suspenso torna-se um maldito de HaShem. Desse modo, você não tornará impuro o solo que o eterno seu D'us lhe dará como herança.
Gálatas 3:
13 Cristo nos resgatou da maldição da Lei, tornando-se ele próprio maldição por nós, como diz a Escritura: «Maldito seja todo aquele que for suspenso no madeiro.»
Orlando simplesmente não podia conceber a idéia de seu deus e messias ter se tornado maldito ao morrer. E, tecnicamente, Jesus foi suspenso num madeiro ao ser crucificado, tornando-se, assim "maldito" de acordo com as Escrituras, o que para ele era uma interpretação herética. Podia ser blasfema para ele, mas essa acepção tem amplo respaldo, com duplo testemunho, na Bíblia que ele próprio considerava sagrada. Também debatemos, provavelmente por meses, a questão do livre arbítrio, que os calvinistas negam existir, e que é fundamental para 90% das outras vertentes cristãs.
Debatíamos, discordávamos, refutávamos um ao outro. E ambos tirávamos grande prazer disso. Tudo ia muito bem até que o "clima político" da PCCplex foi pesando por diversas efemérides, mas especialmente por a proposta de "Democracia plena" não se concretizar, e algumas atitudes questionáveis do grupo de moderadores.
A coisa foi crescendo a um ponto que muitos dos membros "chave" pensavam em debandar em protesto. Nesta circunstância, Orlando Nunes me mandou um e-mail com uma proposta muito interessante: a de fundarmos nosso próprio espaço, convidando os dissidentes, uma nova comunidade de Perguntas Cristãs, essa sim democrática, aberta, plural e transparente.
Incluímos nesta troca de e-mails tb ao grande amigo que fizemos na PCX Alex "Aleph" de Paula, cristão evangélico neopentecostal da Assembléia de Deus. E Aleph prontamente aderiu ao projeto. Detalhe bastante significativo é que tanto Orlando Nunes como Aleph são pastores evangélicos certificados, ainda que não o exerçam. E ambos me viam em nível de igualdade com eles para dar início a um projeto, para nós, tão importante. Nem posso dizer como me senti honrada, em minha pequenez cheia de defeitos, de que pessoas com tão alto prestígio no "meio religioso" tanto virtual como físico, me vendo como "no mesmo nível" deles!
Tb convidamos para ser membro fundador conosco ao biólogo, naturista, defensor dos Direitos Humanos, budista e jedi Arthur "Dogbert" Golgo Lucas, mas por uma série de desencontros virtuais, ele se tornou membro, mas não com tanta participação.
Nas conversas por e-mail entre mim, Orlando Nunes e Aleph foi decidido que "reciclaríamos" uma comunidade quase inativa do Orlando Nunes, a "Cristianismo Puro e Simples", a rebatizaríamos de "Religião & Vida", promulgaríamos regras democráticas (a parte de criar esta legislação ficou, com muito gosto, na minha responsabilidade), convidaríamos os membros da PCC-plex e de outras comunidades de debate religioso, fazendo da nossa comunidade o que a PCComplexas deveria ter sido.
No começo, foi tudo muito bem. A comunidade bombou. Muitos membros de outras comunidades além da PCComplexas aderiram e participavam ativamente da nossa. Nessa época, eu já trabalhava, e não podia mais, como antes, dar longos plantões nos debates de que tanto gostava. Mas diversos tópicos interessantes pululavam em comentários. Rapidamente a comunidade ultrapassou mil membros. Até moderadores que haviam motivado nossa saída da PCX "faziam as honras" de ir até nossa comunidade para debater conosco. Na nossa comunidade, as regras que eu elaborara e colocara em votação protegiam a liberdade de expressão de todos muito melhor que as regras da PCX que nos haviam feito sair de lá.
Ainda nessa época em que tudo eram flores, eu estive em São Paulo, e conversei com o Orlando para nos encontrarmos pessoalmente. Falei com ele ao telefone, combinamos de finalmente nos conhecer no Conjunto Nacional, na esquina da Avenida Paulista com a rua Augusta. Perto da hora acertada fui a um Cyber Café, só para "dar um tempo" e vi uma mensagem sua com alguma desculpa ou justificativa de que ele não poderia ir. Isso deveria ter levantado um sinal de alerta, mas não o percebi. O coloquei na conta dos "bolos comuns" que as pessoas nos dão por conta de algum "imprevisto", e não mais me preocupei a respeito. Deveria.
Tudo continuou a ir muito bem na comunidade... Até que... Começaram a surgir os problemas. Orlando começou a demonstrar incômodo com o teor e o rumo "liberal", "blasfemo" ou "não edificante" (no seu ver) dos debates. Começou a criticar os demais moderadores e a querer "mandar mais" que eu e o Aleph. Com nossos protestos, Orlando tirou da manga o trunfo que jamais pensei que tinha guardado: que ele era o "dono" anterior da comunidade, portanto, ela lhe pertencia mais do que a nós.
Debatemos isso num tópico. Sabendo que ele estava a usar um argumento falacioso, copiei e colei os trechos dos e-mails que trocamos combinando os termos da fundação da R&V. E ressaltei em negrito todas as vezes que ele colocou, por escrito, "NOSSA comunidade". E lhe disse: "se em cada vez que vc escreveu NOSSA COMUNIDADE vc tivesse escrito MINHA COMUNIDADE, eu não teria aderido ao seu projeto."
Ao invés de perceber seu erro, ele ficou "ofendidinho" por eu estar divulgando o teor dos e-mails que havíamos trocado. Logo o Aleph renunciou ao seu posto de moderador. Em solidariedade a ele e por já estar bem de saco cheio de tudo aquilo, muito frustrada e me sentindo lograda, tb renunciei, no mesmo dia. Orlando manifestou estar se sentindo traído.
Depois disso meio que "larguei mão" e não ia mais todo dia lá debater, apenas dava uma "conferida no fórum" esporádica, sem me engajar muito. Depois de um tempo, não sei bem como ou pq o próprio Orlando renunciou a prosseguir moderando "nosso/seu" grupo, repassando-o a outros moderadores. Por vários meses assim ficou a comunidade.
Até que... Sumiu!
Demorou para cair a ficha. Por algumas semanas, eu entrava no Orkut, acessava o link dos favoritos da R&V e ele simplesmente não abria. Eu tinha certeza que era algum erro temporário até que entrei em contato com Jarson Brenner e ele me disse o que havia acontecido. Inadvertidamente Orlando Nunes havia, não sei tecnicamente como, reativado sua condição de "dono" da R&V e simplesmente a DELETADO. Sem explicação, sem justificativa, sem saída, sem registro. Por debaixo dos panos, ele havia desaparecido sumariamente com uma comunidade muito ativa, deixando órfãos, perdidos e desnorteados seus mais de mil membros. Que nome se dá a isso?
Me falaram que o Orlando provavelmente tencionava se tornar um "líder religioso" e fazer da R&V "sua congregação virtual ", na qual ele arregimentaria adeptos para sua visão teológica. E quando viu falhar o projeto de fazer dessa comunidade seu "trampolim" para construir um bom nome no meio religioso, decidiu, sumariamente, deletá-la, sem nenhum respeito aos membros ativos e aos membros fundadores, que tantas horas e tanta dedicação haviam destinado a esta comunidade virtual.
Nem sei se consigo adjetivar de forma justa este ato, nem como ele me surpreendeu da pior forma possível. Por todos os anos de convivência com Orlando, pelo tanto que eu o respeitava e achava que o conhecia, e pelo próprio discurso que ele fizera quando da fundação da comunidade, nenhum de nós suspeitava que ele seria capaz de um ato tão baixo, tão vil. Eu não havia jamais visto nenhum "sinal de alerta" de que ele seria capaz de nos dar uma rasteira tão inesperada.
Orlando Nunes foi a pior decepção que já tive na Internet.
De certa forma, ter uma boa memória pode ser considerado uma maldição...
Lara Fabian - Love by Grace http://youtu.be/Kjqa_Csf29Q
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