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sábado, 21 de janeiro de 2017

Dezessete e Trinta e Quatro, Trinta e Quatro e Cinquenta.


É um título cabalístico. O escrevo como homenagem, reminiscência.

Eu tinha dezessete anos quando iniciei o mais longo e marcante relacionamento da minha vida. E meu parceiro tinha 34, exatamente o dobro de minha idade. Hoje sou eu quem tem 34 anos, e ele está prestes a fazer 51. Seria motivo para eu divagar alguns instantes solitariamente, não tivesse ele, a quem chamarei simplesmente de "J", me mandado um e-mail exatamente no dia do meu aniversário, em 29 de dezembro último.

Eu nunca esqueceria igualmente seu aniversário, em 9 de fevereiro, a o que se soma o detalhe de que também é o aniversário de minha única sobrinha. Ela nasceu bem ao final de nosso relacionamento de 4 anos, e ele soube à época da "coincidência ". Este ano ela fará 13 anos.

Vendo de hoje e de fora, parece sim um despropósito um homem adulto se relacionar com uma adolescente com metade de sua idade. Hoje, eu com 34 anos, não consigo imaginar que conseguiria ter um relacionamento com um moleque de dezessete anos. Mas J não se relacionou com uma "adolescente com metade de sua idade", ele se relacionou COMIGO, que nem aos 17 tinha dezessete anos. Não foi ele quem "deu em cima de mim". Fui eu quem "deu em cima dele", insistiu, seduziu, e, apaixonada, fez de tudo para engatar e manter o relacionamento. E confesso que sim, me senti à época muito orgulhosa de mim mesma por conseguir despertar a atenção de um "homem feito", bem mais velho, admirado, respeitado e até disputado por outras colegas.

J é uma pessoa muito humana, cheia de consciência e escrúpulos. Ele mesmo não gostava do fato de eu ser tão jovem, o falou diversas vezes, que preferia que eu fosse alguns anos mais velha, para não sentir que estava "se aproveitando" de mim. Talvez ele soubesse, lá no fundo, que também eu "me aproveitava dele", não no sentido material (longe disso, ao longo do nosso relacionamento ele sempre esteve muito ruim financeiramente, não pensem que eu tinha qualquer interesse escuso em relação a J, era um sentimento verdadeiro). Eu me aproveitava dele, e de estar neste relacionamento, para amadurecer, crescer, evoluir. J sempre foi um ótimo professor.

Namoramos durante todo o tempo em que estive perdidamente apaixonada por ele, 4 anos e meio, e chegamos a morar juntos. Por isso, quando me perguntam, digo que tenho sim um "ex-marido", embora nunca tenha me casado. Passamos por experiências fundamentais juntos. Eu estava com ele quando entrei na faculdade, saí de casa, virei adulta. Ele estava comigo durante o processo de luto por seu pai, e a morte de sua segunda mãe. Estávamos juntos durante a construção da minha vida e a dissolução da sua. E, sabendo da constância dos meus sentimentos, ele me chamava de "seu porto seguro".

Mas, em determinado momento "a chama apagou". Não foi nenhuma briga, traição, decepção ou mentira em particular. Gradualmente , o sentimento de paixão foi arrefecendo em mim, e talvez também nele, o relacionamento foi se desgastando e resolvemos, de comum acordo, nos separar. A minha e a sua vida haviam mudado. Depois de 4 anos de relacionamento, eu não mais queria, como aos 17 anos, "me casar com meu grande amor" e começar a ter uma "vidinha doméstica". Não aos 21 anos, estudando História na USP.

Eu queria, assim como ele, ter a oportunidade de VIVER, experimentar, quebrar a cara, errar, me arrepender, FAZER E ACONTECER. Não queria "me assentar" tão cedo, ser uma pessoa "dependente e dominada" por um marido muito mais velho. Ele entendeu. Terminamos nosso relacionamento íntimo, mas continuamos amigos.  

Depois de terminar a faculdade, me mudei para o interior e continuamos a, esporadicamente, trocar mensagens. Certa vez em que precisei vir a São Paulo nos comunicamos e ele me ofereceu sua hospitalidade. Dormi em sua casa de homem solteiro só com cachorro, como "velhos e bons amigos". De outra feita, alguns anos depois, eu estava em São Paulo por ocasião das festas de fim de ano e lhe mandei um sms na noite de Natal, apenas saudando-o. Em poucos minutos sua nova parceira começou a me mandar mensagens furiosas enquanto eu só pensava "Que mulher louca e insegura, nem com 17 anos eu me rebaixaria a fazer isso, ainda mais na noite de Natal..." Enfim...

Muitos anos se passaram desde então, mas em nada diminuiu meu carinho e admiração por J, pelo papel tão importante que ele teve em minha vida e em minha evolução pessoal. Grande parte do que eu sou, sei que devo a ele, por todas as nossas conversas e experiências compartilhadas ao longo desses 4 anos em que estivemos juntos. Ele sempre será meu gigante com voz de trovão. Ainda sonho com ele, de tempos em tempos. Me traz o conforto de me sentir acolhida ao lado de um bom e velho amigo. Ele foi fundamental à formação da mulher adulta que sou hoje. Fez de mim uma pessoa mais humana, comedida, intelectualizada, engajada, assertiva, e com um gosto musical muito melhor. Foi J quem me apresentou a Chico Buarque, Eric Clapton, BB King e Billie Holliday. Se apenas isto tivesse feito por mim, já seria muito. Mas sua contribuição à formação do ser humano que sou hoje foi infinitamente maior.

Gostaria que ele soubesse o quanto sou grata por termos divido tantos momentos juntos. Que eu sei que sem ele eu não seria hoje boa parte do que sou. Que me lembro dele com carinho e admiração. Que não importa quantos anos passem ou o que aconteça, nada irá mudar tantas lembranças especiais que guardo dele comigo. Que torço sinceramente por sua felicidade. Que gostaria de sempre que for a São Paulo reencontrá-lo nos restaurantes em que gostávamos de ir.

Que estou bem, sou dona de mim mesma, no domínio do meu destino, independente, sem dever nada a ninguém. Que hoje sou uma pessoa adulta, tenho uma vida respeitável e sou admirada pelo meu conhecimento. E que grande parte da base sobre a qual essa "Fernanda adulta" se assenta, reputo a tudo o que aprendi ao seu lado. Muito obrigada por ter permitido que eu fosse seu porto seguro. De certa forma, você ainda é o meu.

Kings of Leon - Use Somebody https://www.youtube.com/watch?v=gnhXHvRoUd0

Eric Clapton & BB King - Ridding with the King https://www.youtube.com/watch?v=sJK78Y3zoQk

Dave Matthews Band - Where are you going https://g.co/kgs/PhsWHN



quinta-feira, 21 de julho de 2016

Dez conselhos que a Fernanda de 34 anos daria pra Fernanda de14 anos



1 - Não tenha pressa. Para nada. Para casar, ter filho, escolher profissão, para nada. A vida é longa e você tem que pensar muito bem antes de tomar decisões definitivas. Não se contente com o primeiro cara legal que aparecer no seu caminho. Outros melhores te aguardam.

2 - Não fume. Fumar na década de 1990 era legal, mas agora já não é tanto. Isso só vai prejudicar sua saúde e te fazer gastar muito dinheiro à toa.

3 - Cultive as boas amizades. Amigos de escola são inestimáveis e te trazem uma sensação de segurança. Amigos de faculdade te ajudarão a ter mais oportunidades de emprego. Cultive-os. Não perca o contato com eles.

4 - Jamais se deixe dominar por ninguém. Família, namorado, melhor amigo, patrão, por ninguém. Ouça com atenção os conselhos das pessoas, especialmente as mais velhas, mas jamais permita que outra pessoa te domine.

5 - Tenha a si mesma como prioridade, sempre. Você é a única pessoa preocupada com o seu próprio bem-estar. Se você mesma não se valorizar, ninguém o fará.

6 - Preste atenção nas aulas de Matemática. Na escola parece que não servem pra nada, mas a maioria das profissões que pagam bem são da área de Exatas.

7 - Não tire fotos comprometedoras, não exagere nas selfies, e nudes jamais! 

8 - Pense antes de falar. Nascemos com duas orelhas e uma boca pra ouvir muito mais do que falar. E em boca fechada não entra mosquito. Se abstenha de "tiradas engraçadinhas" em que só você vê graça. A Fernanda de 34 anos passou por incontáveis situações constrangedoras ao tentar fazer piadas.

9 - Não perca seu tempo comparando sua vida com a de outras pessoas. Cada um tem sua própria trajetória, seus percalços e merecimentos. Enquanto você perde o seu tempo se ressentindo que fulano fez algo que você gostaria, esse mesmo fulano se ressente que você alcançou algo que ele almejava.

10 - Não tenha medo. Você é jovem e tem a vida toda pela frente. Se joga! Tope, encare, vá, viaje, tente, pule e voe! Você só é jovem uma vez e a vida de adulto é muito chata!


sexta-feira, 8 de julho de 2016

Quatro motivos porque somos contra a compra e venda de filhotes de raça.


Você tem uma cachorrinha fêmea de raça. Ela é muito linda, fofa, meiga, uma gracinha. Aí você pensa "Ah, que mal tem? Vou cruzar minha cachorrinha, vender os filhotinhos, fazer algumas famílias felizes e de quebra ganhar uma graninha extra, que mal tem?" 

Aí você compartilha o anúncio da venda dos filhotinhos, tão lindinhos, e não entende porque aparecem uns malucos que se dizem "protetores de animais" te criticando. O que é que você está fazendo de errado, trazendo lindos filhotinhos de raça ao mundo? Que mal tem isso? 

Ou você leva os filhotinhos pra uma feira de pets e aparecem uns loucos protestando contra os maus-tratos aos animais, contra os canis de fundo de quintal, mas você não tem nada a ver com isso, né? Seus filhotinhos são "puro fruto do amor", ainda que vez por outra você saiba que alguns deles morrem logo depois de vendidos. Que pena, né? São tão pequenos e frágeis... Mas não dá pra devolver o dinheiro...

Os protetores de animais nada têm contra cachorros de raça. Amamos cachorros. E gatos. E todos os pets. Sem raça, com raça, de meia raça, de qualquer jeito. O que somos contra é a irresponsabilidade, a exploração e o abandono. Vamos, portanto, tentar explicar pra você, que nós acreditamos que goste de cachorros, porque você deveria parar de cruzar o seu e vender os filhotes.

1 - Você está arriscando a vida, e explorando biologicamente, seu próprio cachorro, a cada gestação. Cada gravidez traz inúmeros riscos de complicações e problemas, ainda mais em raças pequenas. Por melhores que sejam os cuidados que você dedica à fêmea matriz, cada gestação sacrifica o corpinho da sua fêmea.

2 - Você está causando danos psicológicos à fêmea matriz e aos filhotinhos prematuramente desmamados. Imagine o que é uma mãe ser engravidada uma vez por ano, amamentar só até os três meses e ter seu bebê arrancado de si e vendido, como se fosse mercadoria. E para o bebê, ser separado da mãe tão cedo... Não parece legal, né? Se não é legal pra você, porque seria legal para aquela que você chama de "filha"?

3 - Cada filhote vendido é um cachorro de rua a mais que nunca encontrará um lar. Cada pessoa que compra um cachorro, se não fosse possível comprar, adotaria um, que seria retirado da rua. Portanto, cada lindo filhotinho que você traz à vida tira o lugar que poderia ser ocupado por um cachorro de rua.

4 - Cachorros não são mercadoria, e muitas vezes são comprados por pessoas irresponsáveis, que os abandonarão assim que derem "problema". Tome-se por exemplo o filhotinho presenteado no auge da paixão, num dia dos namorados. E depois que o namoro acaba? E o filhotinho lindo, que cresce demais para morar em apartamento? E aquele que late demais, e os vizinhos reclamam? Sim. Muitos desses acabam simplesmente abandonados na rua, pro dono "se livrar do problema". E, na rua, acabam se reproduzindo sem controle. Mas seus filhotes mestiços não serão adotados, porque  a "avó matriz" continua produzindo lindos filhotinhos, até morrer.

Nós, protetores de animais, acreditamos que você seja uma pessoa boa, que realmente ama seus cachorros, e pedimos que você reflita sobre esse texto e se questione se realmente é certo continuar cruzando seus filhinhos e vendendo seus netinhos.

Porque para nós o amor não tem preço. E filhos e netos não se compra nem se vende.





domingo, 24 de agosto de 2014

Pequeno guia com 12 dicas para os iniciantes na Internet



1 - Não aceite a amizade de estranhos. Tem gente que sai adicionando os outros "de bobo", outras que adicionam para passar vírus e dar golpes virtuais. E outras ainda que adicionam desconhecidos por motivos ainda mais escusos, criminosos mesmo. Simplesmente não aceite a amizade de ninguém que não seja previamente seu amigo na "vida real".


2 - Se você for menor de idade, não use uma foto de perfil (avatar) em que isso seja perceptível. Infelizmente, a internet está cheia de pedófilos e fotos que você acha normais e inocentes podem ser vistas de outra forma por esses tarados. Se você é menor, use como foto de perfil uma foto de um desenho, uma flor, uma paisagem, um personagem, de forma a que simplesmente pela foto o pedófilo não identifique que você é uma criança ou adolescente. Outra forma de evitar pedófilos é informar no seu perfil outro ano de nascimento, mais antigo, de forma a que os desconhecidos achem que você já é maior de idade. 


3 - Se algo é segredo, você deve ser o primeiro a guardá-lo. Não conte a NINGUÉM. Se você mesmo "espalha" o seu segredo, como pode achar que os outros vão guardá-lo? Procure, você mesmo, não espalhar fofocas nem publicar nada que ofenda a terceiros. Você poderá ser acionado judicialmente e processado no "mundo real" pelas coisas que publica na Internet.


4 - Nunca, jamais, em nenhuma circunstância, faça fotos "sensuais" ou nu. Nem com seu namorado, noivo ou marido. Pode parecer que "não tem nada de mais", mas tem sim. As pessoas são muito neuróticas com sexo e nudez. Uma única foto sem roupas poderá transformar sua vida num inferno, te tornar alvo de chacota e destruir sua reputação... para sempre. 


4 A - Pense: as pessoas cobram, muito caro, para posarem nuas... Por que você faria isso de graça... a menos que pretenda "divulgar seus serviços sexuais"? É justamente isso que as pessoas pensarão ao ver suas fotos nuas: que você é um profissional do sexo.


4 B - Pense nisso antes de tirar fotos com seu namorado ou marido na hora da "empolgação". Hoje vocês se amam de paixão, mas e quando esse relacionamento acabar? As pessoas são vingativas e aquele que você acha que é o "amor da sua vida" pode no futuro, por raiva, vazar na net suas fotos íntimas. Ele vai parecer um "garanhão conquistador", e você sairá dessa como uma "prostituta". Imagens que para você são de "amor", para os outros são pornografia.


4 C - Mesmo que você não seja vítima de um ex vingativo nem você mesma publicar as fotos "sensuais" que tira escondido de si mesmo, pense: e se você perder ou alguém roubar seu celular, tablet ou pen drive com essas fotos? E se um hacker invadir seu computador? Você acha que o ladrão terá algum escrúpulo em vender suas fotos para sites pornográficos ou de pedofilia? Com certeza, não. A única forma de se proteger disso é nunca, jamais, em nenhuma circunstância, tirar fotos sugestivas ou sem roupa. E até de biquíni.


5 - A internet é uma praça pública. Tudo o que você publicar será usado contra você, mesmo 50 anos depois. Tome muito cuidado com publicações polêmicas, brincadeiras "aparentemente inocentes" e "zoações" em geral. Se um dia, daqui a 30 anos, você for candidato a presidente, aquela sua foto entornando uma garrafa de vodka, ou com o "dedinho na boca" pode, e fará, você perder a credibilidade diante dos eleitores.


6 - Não faça postagens públicas, selecione "só para amigos". Proteja-se dos curiosos e dos haters (gente que te odeia). Seja cioso de sua intimidade, explore e se informe sobre as opções de configuração de privacidade com cuidado para que não "vazem" informações suas por aí sem o seu conhecimento.


7 - Se você for publicar algo e perceber que seus pais, ou seu chefe, não aprovariam, não publique. Nenhuma piada ou gracinha vale você "queimar seu filme" com aqueles que determinam o seu sustento.


8 - Pense se vale mesmo a pena atualizar seu "status de relacionamento" toda vez que trocar de namorado ou "ficante". Pense que no futuro quando você encontrar sua "cara metade" você pode até perdê-la se ela pesquisar e descobrir que você já teve 20 ou 30 outros parceiros. E também no que seu "grupo de amigos" vai pensar de você se você troca de parceiro engatando um novo relacionamento "sério" mês sim, mês não.


9 - Quando estiver namorando, não exagere nas "fotos românticas" e não publique fotos beijando. No futuro, se o relacionamento acabar, você vai odiar essas fotos, bem como seus futuros parceiros. Você poderá deletar as suas, mas e se houver várias dessa fotos, com dezenas de diferentes parceiros, nos perfis de outras pessoas? Nessas você não conseguirá "dar sumiço" e podem ser fruto de grande desconforto, dores de cabeça e crises de ciúme.


10 - Pense que um dia você terá filhos, netos e bisnetos. E talvez, se você não viver muito, eles só te conheçam a partir dos seus perfis nas redes sociais. Não publique coisas que poderiam envergonhar seus bisnetos daqui a 50 anos. Na internet tudo é eterno.


11 - Não perca o sono. É tentador "virar a madrugada". Não vale a pena. Não há nada que seja publicado depois da meia-noite que não possa esperar o dia seguinte para ser curtido, comentado e compartilhado. O sono é fundamental para nossa saúde e bem estar. Dormir poucas horas te fará se sentir mal e produzir pouco no dia seguinte. Durma pelo menos 8 horas por noite. E mais, se possível.


12 - Cadastre no seu perfil do Facebook todos os livros que ler e filmes que assistir. É uma forma legal de divulgar que você tem interesses culturais, de passar uma imagem positiva para todos. E, em nosso mundo, infelizmente, mais importante do que "ser" é "parecer" ou "divulgar". Cuide para que as informações que divulga sejam positivas, falem bem, e não mal, de você.


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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Acreditar em um "falso messias" viola algum mandamento?


Este é um texto genérico, não se refere especificamente a nenhuma vertente religiosa.


A palavra "Massiach" (Messias) não consta da Torah. 


Há porém duas passagens um pouco contraditórias a respeito de "profetas como Moisés" a vir no futuro, vejamos. 


Dt 18:

15 O Eterno seu D'us fará surgir, dentre seus irmãos, um profeta como eu em seu meio, e vocês o ouvirão. 16 Foi o que você pediu aO Eterno seu D'us, no Horeb, no dia da assembléia: ‘Não quero continuar ouvindo a voz dO Eterno meu D'us, nem quero ver mais este fogo terrível, para não morrer’. 17 O Eterno me disse: ‘Eles têm razão. 18 Do meio dos irmãos deles, eu farei surgir para eles um profeta como você. Vou colocar minhas palavras em sua boca, e ele dirá para eles tudo o que eu lhe mandar. 19 Se alguém não ouvir as minhas palavras, que esse profeta pronunciar em meu nome, eu mesmo pedirei contas a essa pessoa. 20 Contudo, se o profeta tiver a ousadia de dizer em meu nome alguma coisa que eu não tenha mandado, ou se ele falar em nome de outros deuses, tal profeta deverá ser morto’.


21 Talvez você se pergunte: ‘Como vamos distinguir se uma palavra não é palavra dO Eterno?’ 22 Se o profeta fala em nome dO Eterno, mas a palavra não se cumpre e não se realiza, trata-se então de uma palavra que O Eterno não disse. Tal profeta falou com presunção. Não tenha medo dele.


Nesta passagem, Moshe Rabeinu afirma que O Eterno lhe disse que, no futuro, faria surgir no povo de Israel "um profeta como ele". Note: um profeta como Moisés, que não era o Messias. Porém outra passagem, que finaliza a Torah, afirma algo que aparentemente contradiz isso, vejam:


Dt 34:

10 Em Israel nunca mais surgiu outro profeta como Moisés, a quem O Eterno conhecia face a face. 11 Ninguém o igualou em todos os sinais e prodígios que O Eterno o mandou realizar no Egito contra o Faraó, contra toda a sua corte e contra sua terra. 12 Ninguém se igualou a Moisés na mão forte e em todos os feitos grandiosos e terríveis que ele realizou aos olhos de todo o Israel.


E sobre o advento de "novos profetas", a Torah também diz:


Dt 13:

2 Quando no meio de vocês aparecer algum profeta ou intérprete de sonhos e apresentar a você um sinal ou prodígio - 3 se esse sinal ou prodígio que ele anunciou se realiza e ele convida você: ‘Vamos seguir outros deuses (que você não conheceu) e vamos adorá-los’ - 4 não dê ouvidos a esse profeta ou intérprete de sonhos. Trata-se de uma prova com que O Eterno seu D'us experimenta vocês, para saber se vocês de fato amam aO Eterno seu D'us com todo o coração e com todo o ser. 5 Sigam ao Eterno seu D'us e a ele temam; observem seus mandamentos e lhe obedeçam; sirvam a ele, e a ele se apeguem. 6 Quanto ao profeta ou intérprete de sonhos, deverá ser morto, porque propôs uma revolta contra O Eterno seu D'us, que tirou vocês do Egito e os resgatou da casa da escravidão, e porque procurou afastar você do caminho pelo qual O Eterno seu D'us havia mandado seguir. Desse modo, você estará eliminando o mal do seu meio.


Dessas passagens podemos concluir:


1 - Se algum dia virá "um profeta como Moisés", há dúvidas. Pois tanto se afirma que um dia haverá (Dt 18:18), como também que "nunca mais em Israel houve um profeta como Moisés". (Dt 34:10).


2 - Se o profeta for verdadeiro e as pessoas não crerem nele, não há punição prescrita, apenas esta sentença:

Dt 18: 19 Se alguém não ouvir as minhas palavras, que esse profeta pronunciar em meu nome, eu mesmo pedirei contas a essa pessoa.


3 - Se o profeta for falso e as pessoas crerem nele, e ele incitar as pessoas à idolatria, a Torah não especifica nenhuma punição aos fiéis "desviados", apenas ao falso profeta, que incite os demais à idolatria (Dt 13:6).


Tudo isto posto, perguntamos:


1 - Acreditar em um "falso messias" que não incite as pessoas à idolatria viola qual mandamento?


2 - Há alguma punição para quem acreditar em um falso messias que incite as pessoas à idolatria?


3 - O Eterno diz em Dt 13:4 que coloca à prova seus fiéis com o advento de "falsos profetas" e afirma a seguir que o importante é se apegar a D'us e seguir seus mandamentos (Dt 13:5). Assim sendo "ficar procurando um Messias" ou "novos profetas" não seria perigoso, e a postura mais segura não é simplesmente se concentrar em seguir as Leis da Torah? 


4 - Precisamos mesmo ficar ansiosamente perscrutando, desesperadamente procurando indícios de última hora de "quando virá o Messias"? Afinal, quando ele chegar, não instaurará a Era Messiânica e todos saberemos então, sem sombra de dúvida, que ele veio?


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quinta-feira, 15 de maio de 2014

O canario Frank Sinatra


O dia 14 de maio de 2014 marca para mim a conclusão de uma das mais importantes incumbências que já recebi. Em seu leito de morte, meu avô me pediu que eu cuidasse "dos seus" com um sussurro. Padecendo de câncer terminal, saturado de morfina, em seu último momento de lucidez tivemos uma conversa física e metafísica de despedida. E, no seu último olhar, que foi de preocupação, percebi que ele, vendo-se partir, me repassava a responsabilidade de cuidar dos de sua casa. E assim foi.


Os que moravam "sob a asa" do meu avô até ele partir, eram uma pessoa, 2 cachorros e 2 pássaros. Os cachorros, Jade e Whiskey, morreram de velhos com mais de 14 anos e pude, com carinho, cuidá-los até o fim do decreto de seus dias. Minha avó, cuidei bem, alimentei, pensei suas feridas, fiz compania e até ensinei a mexer no celular. Mas para surpresa de todos, precocemente, faleceu em viagem ao Rio de Janeiro, para encontrar parentes, de derrame cerebral. Dentro das minhas forças, dela cuidei o melhor que pude, no que esteve ao meu alcance. O papagaio Chico foi doado pela minha vó Tula há muitos anos para o viveiro de um veterinário.


Restava o canário, o mais longevo de todos.


Criar canários do reino é um velho costume português que herdamos e sinceramente não me lembro de nenhuma ocasião em que a casa de meu avô não tivesse ao menos um canário. Às vezes alguns. Chegaram a dar cria. Além de singelos e de trato simples, os canários do reino cantam bonito, e interagem de forma até carinhosa com seu cuidador.


Desde o falecimento de meu avô assumi essa responsabilidade com certo pânico: nunca ninguém me instruíra a como cuidar de um passarinho tão frágil, mas pude fazer o backup das muitas memória do Major Vicente Novais da Silva, homem talhado em pedra, redobrando-se em carinhos e cuidados com seus pequenos. É simples. Basta água fresca, alpiste, vitamina uma vez por dia e de vez em quando um pedacinho de ovo, de fruta ou folha verde.


É simples, mas não era um "canário qualquer", era o canário do meu avô, que ele amava, e me pedira em seu leito de morte para cuidar. Portanto, eu não tinha "só" que cuidar dele. Para honrar ao meu avô, e a confiança que ele depositara em mim, eu tinha que cuidar MUITO BEM do agora "meu" canário, como não pude cuidar do meu avô.


Esse sentimento de responsabilidade, de cumprir a contento uma missão muito importante, não tive só a respeito do canário. Mas diferentemente dele, o papagaio, os cachorros, minha vó INTERAGIAM diretamente comigo. Depois da morte do Morzinho, minha relação com eles passou a ser DIRETAMENTE com eles. O Chico, que eu conhecia desde criança, mesmo esclerosado, ainda dançava às mesmas músicas de 20 anos antes. Os cachorros, até o problemático Uísque, me abanavam o rabinho e faziam festa. Minha vó conversava comigo, eu a levava ao shopping, almoçávamos juntas.


O canário não. Eu sabia que já era adulto, ninguém soube precisar o quanto, mas minha vó garantiu que estava com eles desde antes de eu entrar na faculdade, portanto há pelo menos 7 anos. Não me lembrava de ter ouvido meu avô chamá-lo pelo nome, e questionei Tula, mas ela não soube me dizer se tinha nome. Remexendo entre os discos de meu avô, encontrei um de Frank Sinatra, e como nosso canário era bom cantor, escolhi eu mesma este ser o nome pelo qual o chamaria.


Por pelo menos 2 anos ele me estranhou. Se assustava e entrava em rebuliço quando eu me aproximava da gaiola. Bichinho frágil e arisco, no qual nem se pode tocar, enquanto o papagaio Chico nos franqueava ainda coçar-lhe o cangote...


O canário hesitava em ter uma relação direta comigo, então minha relação sempre foi com a lembrança do meu avô, através dele. Até este dia do hoje, todas as manhãs, quando descobria Frank do seu pano de dormir azul e lhe dava vitamina, me lembrava logo cedo do meu avô. E todas as noites, quando olhava no relógio para não deixar passar da hora de pôr pra dormir o canarinho idoso, me lembrava de meu avô ao cuidadosamente cobri-lo com seu pano azul para dormir, dizendo "boa noite, Frank, durma bem."


E o mesmo terror de falhar na missão em relação a cada um destes seres que eram da responsabilidade de meu avô me assombrava em relação ao canário. Tinha medo de deixar faltar-lhe água ou comida e que morresse por minha irresponsabilidade. Tinha medo de pegá-lo para cortar suas unhas e quebrar um de seus delicados ossinhos, matando-o com minha brutalidade. Tinha medo de deixá-lo fugir da gaiola ou vê-lo atacado por um pardal e que ele morresse por minha inépcia. Tinha medo de esquecer de cobri-lo à noite, no frio, ou de esquecer de descobri-lo pela manhã, e ele sufocar, morrendo por meu descuido.


Enfim, tinha um profundo medo de não corresponder a contento à missão que meu avô me dera, e mesmo post-mortem, decepcioná-lo. Que um dia eu viesse a sonhar ou vivenciar ele me recriminando a dizer: "fui tão carinhoso sempre com você e você matou o meu canário!"


Com o tempo eu e Frank fomos construindo uma amizade. Afinal, foram quase 8 anos e após o estranhamento inicial, ele percebeu que eu era sua cuidadora agora e passou a me saudar, cantar para mim, quase a comer na minha mão. Posso dizer que enriqueci sua alimentação. Mudei o simples alpiste por um mix de cereais. Sempre lhe cozinhava ovos ao ponto de perceber que ele preferia a gema à clara. Sempre lhe oferecia diferentes tipos de vegetais até o ponto de constatar que seu prediletos eram o pepino, o brócolis e a alface. Em dia quentes, lhe colocava a banheirinha e ele se refestelava com uma alegria que com certeza valeu o registro em vídeo.


http://youtu.be/_KFV-qIZeZw


Até a véspera de morrer, sempre esteve muito bem, se alimentando de forma voraz, detonando as folhinhas, limpando o cocho de vitamina. Sua convalescença foi curta. Em 13 de maio acordou baqueado, passou todo o dia sonolento e desanimado, mas ainda comeu e bebeu um pouco. Não acordou no dia 14. Não morreu de surpresa, atacado, neglicenciado. Sua água e ração estavam cheias. Sua gaiola limpa. Ele, protegido, abrigado dentro de casa.


Morreu em paz. E assim trouxe paz para uma questão de honra para mim: fazer frente e cumprir o último desejo do meu avô. Neste dia morreu o último ser que estava sob a responsabilidade do meu avô quando ele se viu surpreendido pela morte, e cuja incumbência me repassara. Hoje, mais de 7 anos depois, todos estão mortos. E posso dormir tranquila, pois cuidei deles o melhor que pude. E a morte de nenhum deles foi causada por mim.


A partir de hoje, nem eu, nem meu falecido avô temos mais nada com o que nos preocupar. Tudo está bem, em paz, completo.


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domingo, 16 de março de 2014

Cotidiano da vida adulta



Percebi que preciso manter minha vida num cabresto curto. Se não, tudo foge dos eixos.


Gosto de rotina, dum cotidiano sem surpresas, de ter dias previsíveis, bem cronometrados e planejados. Gosto de a cada noite, antes de dormir, construir uma imagem mental de como será o amanhã, projetando todas as idas e vindas, e ainda que sejam extenuantes, se foram previstas, não me cansam tanto.


Mas qualquer coisa que saia fora do meu "esqueminha" tem potencial para me abalar, me tirar do prumo, ou mesmo "acabar com meu dia". 


Uma visita inesperada. Uma indisposição. Um imprevisto. Um incidente. Um telefonema. Um e-mail que precisa ser respondido com urgência. Um prazo que só lhe é informado prestes a expirar. Algo que "precisa ser resolvido/entregue/protocolado pra 'ontem'." Ter que correr atrás de papéis. Ter que depender dos "favores" e da "boa vontade" dos outros para cumprir prazos apertados... Te cobrarem por coisas das quais você não recebeu aviso prévio...


A vida adulta parece consistir de só stress, cobrança e trabalho... Prazos, papéis, obrigações... Solidão, sono atrasado e conformismo... Eu achava que quando me tornasse "adulta" eu viveria a MINHA VIDA... 


Não sei se sou só eu, mas me sinto vivendo uma meia-vida. Meio-minha (nas cada vez mais raras horas de folga) e meio "cumprindo minha (extenuante) 'função social'." 


Me sinto feliz de cumprir uma "função social", mas achava que isso seria um complemento à MINHA VIDA. Não que isso seria como o sono, algo inescapável e inadiável, vampirizando a maior parte do meu tempo.


Eu achava que, quando adulta, teria tempo para viver. Mas tirando o dormir e o trabalhar, sobram raros momentos no dia para relaxar: ver TV, tomar uma cervejinha, navegar na net... E quase nenhum tempo, nenhuma brecha para "viver", investir em mim, passear, conhecer pessoas, espairecer, exercer meus hobbies...


http://www.youtube.com/watch?v=WBwo5MzB7io&feature=kp




quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Vou-me embora pra Pasárgada - Manuel Bandeira


Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

 

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d'água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

 

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

 

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.




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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Balanco de Yom Kipur 5774

Como é difícil escrever este texto!  Muitas foram as coisas inesperadas que me surpreenderam neste último ciclo anual. Há 1 ano nem remotamente eu suspeitava que coisas tão determinantes me aconteceriam tão rápido.

Minha vida sofreu uma verdadeira guinada, uma reviravolta completa. Muita coisa mudou, à minha revelia. Me mudei de casa e desde que isso aconteceu, tenho tido bem menos inspiração para escrever, e até algum ponto isso é até bom.

A esta altura dos meses, ano passado, minha avó passou por uma cirurgia de catarata. Por 2 meses não pôde dirigir, cozinhar, tomar banho. Neste intervalo, aproveitou para vender seu velho carro, e ficamos apenas com o meu. Sua convalescença foi um período em que nos aproximamos bastante. Apesar de nossa proximidade nos últimos anos, sempre houve um certo "estranhamento" entre nós.

Quando eu era criança, ela foi obrigada a me criar, e sempre me deixara bem claro que isso era a seu contragosto. Diferentemente da Cristhiane e da Patrícia, que ela tratava como se fossem suas filhas, e a chamavam de mãe, sempre houve uma linha bem traçada, clivando que ela não me considerava da mesma forma, que eu era um estorvo em sua vida, uma "agregada indesejada". Nunca lhe joguei isso na cara, e até compreendia isso. De fato, não era obrigação da Tula me criar, eu morava em sua casa de favor, e isso sempre ficou bem claro de sua parte. 

Mas foi com um certo deleite que certo dia, após sua cirurgia, enquanto a pensava e lhe levava comida que lhe disse:

- Vc imaginava, Tula, que das suas 3 netas, seria EU a que cuidaria de vc quando vc estivesse idosa?

Ela fez uma expressão que dizia "se eu soubesse, teria te tratado com mais carinho", mas disse apenas:

- A vida nos ensina muitas coisas inesperadas.

Me sinto bem em poder dizer que dela tratei melhor quando ela precisou de mim do que ela me tratou quando eu era criança e precisei dela. Porém, tudo o que fiz por ela foi de boa vontade, não meramente para "cumprir uma obrigação". Independentemente de ter me cuidado quando criança, Tula era minha avó, eu a amava, e por ela fiz tudo o que podia, e mais até.

Muitas foram as comidinhas que preparei para sua e minha degustação. Posso dizer que cozinhava "para ela" pois desde seu falecimento, consigo morreu minha gana de preparar tais quitutes. Pouca graça tem cozinhar apenas para si própria. 

Recebi em Rio Claro, ainda na casa de minha avó,  a visita de amigos muito queridos, que vieram especialmente de Sampa. Romeu e Gisele, esta com marido e filhinho. Foi uma grande alegria que estes tenham se disposto a viajar quase 200 quilômetros para me visitar e conhecer minha então casa. Prova de profunda e duradoura amizade.

Também recebi a visita de Mainá, vinda de Piracicaba. Em 5773 estive em sua casa de Sampa 2 vezes. Uma quando fui prestar o frustrante concurso para professor na prefeitura de Sampa, outra para passar o Reveillon.

Meu Natal de 2012 foi um dos "top 5" de toda a minha vida. Tive a sorte de ser acolhida pelo Romeu em sua festa. A família do Romeu é simplesmente ma-ra-vi-lho-sa, tem uma ótima energia. São muitos os primos, os tios, os agregados, todos unidos numa "vibe" de amor, festa e comilança. Passei um Natal feliz, com uma família unida pelo amor. Adorei, e espero no futuro repetir a experiência. Aproveitei que estava na Vila Formosa para matar as saudades da tia Maria do Carmo, irmã do meu avô Morzinho, do tio Jaci e do falecido primo Mauro.

Passado o Natal, comemorei meu aniversário com 2 churrascos na beira da piscina na casa da Gisele. Todos os amigos antigos compareceram: Maty, Romeu, Aline, Thaís e até o Chico. Inesquecível.

O Reveillon passei com a Mainá e a Sandra. Fomos a uma festa super dez, dos amigos da Sandra. No dia seguinte, primeiro de janeiro, estava tão feliz, despreocupada, até receber uma ligação e "cair do céu". Era minha mãe Maria José Tomasella dizendo que justo na noite da virada a casa de minha avó tinha sido assaltada. 

Eu pretendia ficar mais um pouco em Sampa, mas tive que voltar imediatamente para Rio Claro. Minha avó Tula estava viajando, em Ubatuba, e cabia a mim tomar as providências práticas necessárias.

Foi triste chegar e ver a casa toda revirada. Meus objetos pessoais devassados. Itens de valor, bijuterias finas, jóias, barras de ouro, dólares, subtraídos. Só com o chaveiro gastamos mais de 500 reais. Tomei todas as providências necessárias, para poupar minha vó disso. Só no dia seguinte recebi uma ligação dela, bem menos nervosa do que eu esperava, comunicando que acabara de saber do ocorrido. Quando lhe disse que eu já tinha feito tudo o necessário e a casa já estava com novas trancas, percebi na calma expressa em sua voz que confiava em mim para cuidar e guardar sua casa.

No final de janeiro vieram nos visitar meu tio Renê e meu primo Renan. No retorno ao Rio de Janeiro, levaram a Tula, pois Cristhiane viria da Austrália com namorido e bebê Liam Novais Dermott. Foi numa sexta à noite, ao voltar do trabalho quase onze da noite, que vi minha avó pela última vez. Nos abraçamos e despedimos rapidamente. Na manhã do sábado seguinte foi para o Rio de Janeiro, saudável, alegre e saltitante, para me ser devolvida menos de 1 mês depois dentro de um caixão.

Não queria ir ao Rio. Queria voltar depois de 2 semanas, mas insistiram para que ficasse mais. No sábado 16 de fevereiro liguei no seu celular, estranhando que já fazia algum tempo que não me ligava. Quem me atendeu foi Regina. Fingiu não reconhecer minha voz e perguntou "quem está falando".

-É a neta dela.

Me disse que Tula estava hospitalizada com crise respiratória, o que sempre acontecia quando ia ao Rio. Lhe disse que a fizesse me ligar quando retornasse para casa. Neste sábado, quase pelas 23 horas, Tula me ligou para dizer que já estava em casa.

A última vez em que falei com minha avó Tula foi na noite de terça 19/02/2013. Era tarde da noite. Ela me ligou e enquanto desfiava o rosário de suas dores e mal-estares, os quais eu estava acostumada a pacientemente acompanhar, ouvi ao fundo a voz insensível de Cristhiane dizendo:

- Lá vai ela fazer o relatório das doenças...

Percebi que isso fez Tula resumir seu relato, sentindo-se criticada como uma "velha chata", e rapidamente se despediu. Ainda me machuca que a última vez em que pude falar com minha avó, nossa conversa foi diminuída, interceptada, por essa frase. Tenho certeza que, do além, Tula sabe extamente do que estou a falar.

2 dias depois Tula sofreu um derrame cerebral. O soube por Maria José. Perguntei aos do Rio se ela corria risco de vida, pois em caso positivo imediatamente pegaria estrada com Maria José para lá. Me asseguraram que não. No domingo 24 de fevereiro meu tio Renê ligou, perto do meio dia, para comunicar seu falecimento.

Eu tive apenas 2 horas para fazer uma malinha com os itens essenciais e sair de casa. Pois 2 horas é o tempo que leva a viagem de Sampa a Rio Claro, e já estavam a caminho Regina, Patrícia, Letícia e Alex. Era demais para mim ter que lidar concomitantemente com o falecimento de Tula e a presença deles e dos parentes que logo viriam do Rio de Janeiro.

Liguei para Maria José vir em casa, para "receber as visitas" depois de eu sair. A ela expus toda a minha dor. Sei que minhas cordas vocais jamais voltarão a ser as mesmas depois de lhe ter externado, em 200 decibéis, toda a dor que rasgava a minha alma. E ainda rasga. Eternamente lhe serei grata por ter ouvido toda a expressão do meu sofrimento. Lhe expus minha pior face, sem máscara. Vomitei grande parte de minha mágoa, e isso me fez bem. Especialmente ao saber que, mesmo lhe expondo meu "pior lado", ela continuava me apoiando.

Após fazer minha malinha e lhe entregar as chaves, fui me abrigar na Toka do Shrek, república estudantil dos meus amigos da Física da Unesp. O João Eduardo Fonseca nisso me fez um favor inestimável. Na segunda seguinte do velório, só compareci na última hora, completamente fora de mim.

Pedi que João me acompanhasse pois sinceramente não sabia se conseguiria me controlar, ou se voaria no pescoço de Regina, se faria um escândalo homérico, se lhe cuspiria na cara. Sei porque não o fiz. Foi por causa de Sofia.

Minha prima em segundo grau, Viviani, tinha 2 filhas que eu conhecia: Ivana e Amanda, e uma terceira, a mais nova, que eu nunca tinha tido oportunidade de ver, Sofia. Moravam em Brasília, e eu só conhecia Sofia do Facebook e do Instagram.

Cheguei no velório, recebi um abraço do meu tio Renê ao qual hj me arrependo de ter aquiescido, e me arrastou para ver Tula no caixão; lá fiquei um minuto, e sem suportar, saí para fumar um cigarro. Nisso vi chegar Viviani, com seu marido Miguel e a menina Sofia. Me abraçaram, deram os pêsames e falaram que tinham vindo de carro, direto de Brasília.

Olhei a bela Sofia e comigo pensei: "Eu não vou fazer essa menina ter se abalado de Brasília até aqui para voltar traumatizada, sabendo que essa família é tudo menos 'uma família'." Então foi por ela, para não violar sua inocência, que "fiquei na minha" e me contive.

Terminado o enterro, voltei à Toka, segura de que os parentes em menos de 1 semana iriam embora. Ledo engano. Cristhiane, marido, Liam e Regina ficaram por um mês, o que nem em meus piores pesadelos eu esperava...

Nisso soube que quase levaram embora o canário Frank. Dele cuido há 6 anos, desde o falecimento do meu avô. Me disse Maria José que ao chegar do velório, Patrícia já estava de saída, com a gaiola do Frank no carro. E que foi ela que, alarmada, impediu que o levassem embora. Foi triste perceber que sem me consultar, sem me fazer uma mera ligação no meu celular, iam simplesmente levar embora o MEU CANÁRIO, do qual eu cuidava há 6 anos e do qual Regina já tentara dar fim. Falta de respeito, da mais rasa consideração é apelido. Iam simplesmente subtrair meu pet sem sequer pensar "hum, será que a Fernanda, que cuida dele há 6 anos, não vai achar ruim?". Agradecerei eternamente a Maria José ter impedido que o roubassem de mim.

Quando finalmente Cristhiane, Regina & cia foram embora, vi que tinham espoliado a casa. Sem me consultar ou comunicar, deram embora móveis. Levaram inúmeros itens. Quadros, fotos, utensílios. Até coisas que já eram minhas, q Tula me tinha dado, como um belo vaso de vidro, transparente com azul. Raparam completamente os porta-joias. Levaram todos os soutiens. O aparelho de som, e muitas outras coisas. A casa foi espoliada, pilhada.

Encheram 2 carros, levaram tudo o que quiseram. Como se com sua saída a casa fosse ficar vazia, sem ninguém. Pois como a um "ninguém" me consideravam.

Uma semana depois tive uma das piores decepções de minha vida. Menos de 1 mês antes de falecer minha vó tinha comprado, por indicação de Renê, uma televisão nova. Quando foram embora, Regina deixou avisado a Maria José que logo Patrícia viria busca a TV nova.

Me senti tratada como uma "caseira", uma empregada da família, sem direito a absolutamente NADA. Que direito Patrícia tinha à TV nova se tinha sido EU a cuidar de Tula, e Patrícia não fizera jamais NADA por ela, além de lhe pedir dinheiro? Além disso, já estava há alguns anos combinado entre eu e a Tula que quando fosse a ocasião de a casa dela ser desfeita, eu ficar, nas palavras dela "com uma casa montada": todos os seus eletrodomésticos e móveis ficariam comigo. Foi triste perceber que no momento em que ela faleceu, tudo o que ela "deixou dito" passou a ser sumamente ignorado pelos parentes. Ela, e sua vontade, deixaram de ser respeitados no momento em que morreu.

Mandei um e-mail a Renê dizendo que pretendia ficar com a TV nova. Ele me ligou, tresloucado, completamente fora de si, me xingou, ofendeu, inventou que tinha "sustentado a mim e ao meu gigolô" (desconheço a o que se referia), ameaçou vir a Rio Claro me bater, desligou o telefone na minha cara.

Neste dia perdi um tio, o único que tinha. Eu jamais havia-lhe feito nada. Pelo contrário, até então sempre me tratara muito bem, com o respeito que eu mereço. No momento em que Tula faleceu, tudo isso sumiu. Eu passei a ser "um problema" em sua vida. Os 6 anos, e seis anos não são seis dias, durante os quais eu tinha cuidado da Tula eram simplesmente IRRELEVANTES. Me tratou como um lixo, insinuou que eu era uma prostituta, e que eu lhe devia dinheiro. Neste momento, morreu para mim. Não pretendo jamais voltar a vê-lo, constatado que por mim não tem nenhum respeito, nenhum agradecimento, nenhuma consideração. Nunca mais me ligou, nem nos falamos. Que assim fique.

Depois disso percebi que a minha simples existência era uma "pedra no sapato" dos 2 herdeiros da minha avó. Se me permitiram continuar na casa mais um tempo, não foi por eles. Foi por 2 coisas, que fugiam completamente a mim.

Quando eu soube do AVC da minha avó uma só coisa me veio imediatamente à cabeça: avisar aos seus amigos do Centro Espírita Fé e Caridade, pois sabia que Tula, muito dedicada ao Espiritismo, o queria, e estava necessitada de suas preces.

Imediatamente pensei em ligar para Dona Dirce Martins. Só não o fiz na hora pois já era tarde da noite. Na manhã seguinte, esperei soar 9 da manhã e liguei para Dona Dirce, pedindo que mobilizasse os amigos do centro em oração. Depois de Tula falecida, Renê me disse que pedira a dona Dirce orientações de como proceder e ela determinara: "tudo deve ficar como está por 6 meses", o tempo mínimo para o espírito de Tula se "desprender" de suas coisas materiais.

Isso Regina não respeitou, espoliando a casa em menos de 1 mês. Só não fez pior pois estava de viagem marcada para a Austrália. Não fosse essa viagem, previamente marcada, eu não teria podido permanecer mais na casa. Portanto, se fiquei 4 meses na casa após o falecimento da Tula não foi por "bondade" ou "favor" de ninguém, nem em respeito aos meus direitos ou sentimentos. 

Ao saber que Regina voltaria da Autrália no final de julho, estabeleci esta como a minha "deadline" para me mudar. Não queria jamais voltar a ver-lhe a cara.

Tive 4 meses para encaixotar tudo. Lavei TODAS, todas as minhas roupas. Selecionei e lavei, todos, os panos de prato, tapetes e toalhas da Tula que queria levar. Foram 4 meses melancólicos, cheios de fantasmas, reminiscências, lembranças, saudades, nos quais todo dia ia ao antigo quarto da Tula, montado como um diorama à sua memória, como se ela ainda estivesse presente, e em sua memória, eu fazia orações. Várias vezes, com o coração triste e pesado, lhe agradeci por tudo, e dela me despedi.

Minha tristeza só foi aplacada pela chegada da pequena Amy. Presente da minha mãe, já explorado em outro texto. Ganhei uma nova filha, uma poodlezinha branca, com mais personalidade do que eu gostaria, mas adorável justamente por ser cheia de "marra". Amy é única e não a trocaria por nada.

Em julho, de férias, fui a diversas imobiliárias escolher minha nova residência. Visitei mais de 15 e escolhi uma que, embora mais cara do que gostaria, é per-fei-ta pra mim e pra Amy, com um grande jardim, que aproveitamos ao máximo.

Quando eu era criança, Maria José morava numa chácara, na qual plantava diversos gêneros alimentícios. Estou de certa forma emulando em meu amplo jardim a chácara na qual cresci. Plantei canteiros com ervas (manjericão, orégano, hortelã, salsinha, cebolinha, menta, pimenta, boldo, babosa). Tenho um tomateiro, em produção, só para mim. Plantei sementes de mamão, e farei ainda canteiros de diversas verduras. Não quero "flores", mas coisas úteis, de comer.

Me sinto muito feliz na minha casa nova. Ao me mudar da casa da Tula, levei tudo o que considerava que justamente me cabia. Deixei muitas coisas de valor: metade de uma baixela, a batedeira, o filtro de água, a cafeiteira, o foot spa, o umidificador de ar, a lavadora a pressão, o microondas, uma mesa de jantar com aparador, várias camas, colchões, 3 televisões, 1 videocassete, enfim, deixei várias coisas que poderia ter levado, mas não o fiz. Não por quem os viria levar, mas pela Tula. Levei apenas o que eu sentia que ela aquiescia em eu levar.

Na casa nova, só minha, me sinto muito mais leve, pronta para começar "vida nova". Ao me mudar rompi definitivamente com meu tio, minha ex-mãe e irmãs. É triste saber que não deixei para trás boa coisa, ou grande coisa. O falecimento da minha avó Tula foi o fim da triste família que um dia tive.

Hoje me sinto livre. Livre do peso das lembranças, das obrigações, das cobranças, das mágoas. Coloquei uma pedra, um ponto final, no passado.

Agora, aos 30 anos, me sinto livre para começar vida nova. Espero sinceramente que o ano de 5774 me seja mais propício, me traga mais alegrias, pois 5773 foi "bem foda", difícil, com muita coisa ruim. Mas agora tudo passou e um novo futuro, limpo, se descortina.

Que venham coisas melhores!

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sábado, 17 de agosto de 2013

Como melhorar a qualidade dos seus sonhos


Nesta sexta feira 16/08/2013 aconteceu-me algo incrível. Só precisaria dar aulas às 12:30, portanto na noite anterior coloquei meu celular para despertar às 10:00 e às 10:10.

Pontualmente às 8:06 minha cachorrinha Amy acordou-me gemendo aflita, olhei as horas, pensei "putz, tava num baita sonho legal", mas me levantei e abri a porta da casa para ela poder ter acesso ao jardim, caso tivesse vontade de ir ao banheiro. Estava frio. Voltei à cama para aproveitar o tempo que me restava de sono, e deitei com o pensamento "será que consigo retomar aquele sonho?"

Aquele sonho sei que não retomei. Mas tive outro, desta vez interrompido pelo sinal das 10:00, do qual guardo lembrança vívida.

O tema era "passarinhos".

Amy caçava passarinhos, e estava a brincar com um filhotinho de canário amarelo. Eu pegava o filhotinho, surpreendia-me de estar inteiro, e o adicionava à gaiola do meu canário Frank Sinatra. Anda no mesmo sonho, Amy caçava outro canário, desta vez adulto, e eu também o pegava nas mãos e o colocava na gaiola no Frank.

Então, mesmo no sonho, me passou pela cabeça que em inúmeras situações isso se repetira, e à esta altura, já devia estar lotada, com dúzias de pássaros oníricos a gaiola do pequeno Frank.

Então percebi que tenho tido inúmeros sonhos envolvendo pássaros. E, ainda deitada na cama, percebi que o "ruído de fundo" do meu sono era o piado de dezenas de pássaros, de variadas espécies, na jaqueira que faz sombra à minha casa. E que, da área de serviço, já cantava alto, reclamando de ainda estar coberto, o meu pequeno Frank.

Todos estes elementos - Amy caçadora de pássaros, o cantar do Frank, e os piados insistentes dos pássaros na jaqueira - resultavam-me num sonho leve, delicioso, propício e feliz: eu acompanhando a Amy caçando seus passarinhos, e tal qual num "pesque e solte", ao invés de ela os matar, eu os guardava, seguros, a fazer companhia ao já idoso e não tão mais solitário canário Frank, que herdei de meu avô.

Dreamgirl - Dave Matthews Band http://youtu.be/uoS_RYoDwNw

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sábado, 22 de junho de 2013

De minha primeira passeata


A História é um campo de eterna surpresa. Por mais que imaginemos que exista alguma teleologia, alguma "mão invisível" a guiar os fatos, eles sempre nos aturdem. São mais rápidos que todas as análises, previsões, planejamentos.

Desde 10 de junho de 2013 , há apenas 2 semanas, os acontecimentos têm atropelado os analistas. Ninguém poderá dizer : "eu avisei", "I saw it coming" porquê ninguém previa os rumos que as passeatas pela diminuição da tarifa de transportes em São Paulo, organizadas pelo movimento Passe Livre, tomariam. Parecemos, hj, à beira da Anarquia, de nossa primeira Revolução, seja popular ou burguesa. Pela primeira vez em nossa História nos vemos diante de mobilizações sociais que abalam governos e convulsionam a sociedade.

Ver a tudo isso, até agora à distância, pela TV e Internet, além de um pouco de frustração por não poder ir à rua, me lembra meu primeiro ano na faculdade de História, na USP. Com frescos 19 anos, cheia de gana, iniciativa, vontade de "mudar tudo".

Assim que comecei a faculdade, pegava todos os panfletos que encontrava, me informando sobre os diversos movimentos sociais nos quais os estudantes se engajavam. Logo no primeiro mês anunciaram uma passeata na avenida Paulista e é claro que eu não podia perder.

Poderia ter sido qualquer o motivo, eu teria ido, tão empolgada que estava. O mote nesta ocasião era a oposição à ALCA, Área de Livre Comércio entre as Américas, uma proposta estadunidense de baixar, ou anular tarifas alfandegárias e impostos de importação.

O pessoal da faculdade, com muita razão, colocou no panfleto de convocação que a ALCA seria uma sentença de morte à indústria nacional, que faliria com a concorrência desleal dos norte-americanos. Me juntei a eles à luta, na rua.

Foi num domingo. Concentração no vão livre do MASP. Fui de metrô. Sozinha, no começo me senti um pouco deslocada. A polícia, avisada, não estava lá para reprimir a passeata, apenas para escoltar, supervisionar e impedir que o trânsito fosse completamente bloqueado. Fizeram um cordão de isolamento nos permitindo ocupar 2 pistas da Avenida Paulista.

Logo encontrei alguns colegas de faculdade, cumprimentados com sorrisos e surpresa: "Vc aqui tb, que legal!". Um deles, não me lembro sinceramente qual, fazia parte da coordenação da passeata e de sopetão, ao trocar meia dúzia de palavras comigo, perguntou todo animado:

- Você não quer subir no carro de som?

Mas é claro!

Me levou até a escada, trocou três palavras ao pé do ouvido com quem a guardava, que logo deu passagem, me permitindo subir a escada metálica, com um certo arrepio da espera do novo.

Lá em cima, além do "puxador" ao microfone, umas 30 pessoas, cheias de ânimo, empunhando cartazes e exibindo faixas, gritando palavras de ordem, agitando os braços ao alto, chamando a multidão. 

E era grande. Só lá de cima vi. Milhares de pessoas ao nosso redor, todas no mesmo compasso: alegria, cidadania, democracia, protesto, luta por melhorias e contra as desigualdades sociais. Ondas de adrenalina coletiva nos estimulavam.

Me senti "no olho do furacão", participando de algo muito especial, transformador, em cima daquele trio elétrico. Me juntei aos demais, cantando com a multidão e ajudando a segurar um longo cartaz de tecido, pintado com os dizeres "Fora ALCA".

Não sei dizer quanto tempo fiquei lá em cima, menos de 1 hora. Quando comecei a sentir minha voz enrouquecer, vitimada pela empolgação, cedi meu lugar a outro manifestante e vi que já era hora de descer. Já estávamos na rua da Consolação.

Prossegui em passeata, procurando outros colegas lá no meio. Encontrei alguns outros, calouros como eu, se sentindo "revolucionários autênticos" ao participar de seu primeiro protesto, como eu.

Vestida com uma blusa branca, nada demais. Ao constatar-me em meio a um mar vermelho, me senti algo deslocada, e como começava a esfriar um pouco, fui até um vendedor ambulante que acompanhava a manifestação com um varal de roupas para vender.

Dei uma repassada nas camisetas e achei uma que preenchia meus anseios: vermelha, com dezenas de pequenos Che Guevaras estampados com a frase "Viva Che". Perfeita. Vesti por cima da blusa branca e comecei a partir de então a me sentir "mais adequada", identificada com a onda coletiva.

Prosseguimos até a praça Roosevelt e na praça da República nos dispersamos. Essa manifestação não foi histórica, não repercutiu, não mudou nada (até hoje a ALCA não chegou ao Brasil, e não parece que vá tão cedo...). Mas me deixou uma marca profunda. Foi a minha primeira.

Na volta, peguei o metrô e, em segurança, voltei para casa. Conseguindo assento no trem, sentei-me com um sorriso no rosto, que coroava a sensação de estar participando de algo maior do que eu mesma. De ser um agente social transformador, que não apenas assiste, mas toma parte nos acontecimentos. Alguém que grita, e faz sua voz ser ouvida, contra o silêncio e a apatia geral.

No dia de hoje, parece, essa apatia do "gigante adormecido" acabou. Há 2 semanas milhares, milhões, de brasileiros saem às ruas, em protestos facilitados pelas redes sociais, azeitados pelas hashtags

#ogiganteacordou #obrasilacordou #vinagre #vdevinagre #passelivre #primaverabrasileira #vemprarua #protesto #manifestasp #changebrazil 

E algo mudou. Todos percebemos. Não sabemos ao certo o teor e a direção da mudança, mas ela está acontecendo. Centenas de cidades se levantam contra a alta no custo de vida, o peso dos impostos, a ineficiência dos serviços públicos, a corrupção institucionalizada, a impunidade à violência, os gastos exorbitantes nas obras da Copa do Mundo de futebol de 2014 e das Olimpíadas de 2016.

Parece que acordamos. 

Me sinto privilegiada em testemunhar acontecimentos Históricos como este.

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quarta-feira, 27 de março de 2013

O Getsêmani, o cálice e o pêndulo

Era dezembro de 2005. Eu estava prestes a completar 23 anos, em meu penúltimo ano de faculdade. Recentemente eu descobrira um novo prazer intelectual: debater Teologia em comunidades virtuais. A mais agitada no Brasil à época era o Orkut. E eu era uma orkuteira de primeira!

Eu já lera boa parte da Bíblia, já concluíra diversas disciplinas de cultura e história judaicas na Letras da USP. Queria interagir com outras pessoas interessadas nestes mesmos assuntos. Queria "testar hipóteses", debater, tentar levar a exegese aos seus limites. Pesquisei por "perguntas cristãs" (à época eu me considerava cristã, hj sei que nunca fui) e o primeiro resultado, de uma comunidade à época com 30 mil membros, foi a "Perguntas Cristãs Complicadas".

Interessante. Entrei. Logo percebi que aquela era uma comunidade confessional direcionada a cristãos evangélicos. E que eles passavam boa parte do tempo tentando debater com diversos malabarismos de copiar e colar, enxertando Cântico dos Cânticos no meio da Torah, com umas pitadas de profetas, tudo temperado pelo Apocalipse. Uma salada mista, pra quem vinha da Academia e procurava debates refinados. E grande parte destes malabarismos era para tentar decidir qual dentre as milhares de vertentes evangélicas é a "única e verdadeira". Também apreciavam bastante menosprezar a Igreja Católica, como se o Papa fosse o anti-Cristo, e desrespeitar a Maria de Nazaré de todas as formas possíveis.

Logo ao começar a apresentar perguntas e oferecer respostas, percebi que minhas posições afrontavam diretamente as interpretações religiosas deles. E não apenas eu percebia esse mal-estar. Diversos outros membros "se estranhavam" com o moderador Shaylon, que sumariamente expulsava as pessoas que ele achava que não estavam lá para "edificar a fé". Devido às suas ações intransigentes, outros membros que estavam lá há mais tempo resolveram debandar e criar sua própria comunidade dissidente: a Perguntas Cristãs Complexas.

Recebi um scrap de Leandro Moreira com um convite, e migrei. Na PCComplexas a proposta era de um ambiente democrático, com moderadores eleitos pela comunidade, e com plena liberdade de expressão. Era uma comunidade muito ativa e diversa: com ateus, budistas, espíritas, evangélicos de todas as vertentes imagináveis, católicos e outros tipos de protestantes, inclusive os tais dos "judeus messiânicos". Tínhamos até um seguidor de Inri Cristo. Não era piada, o Unamundo era uma pessoa racional e esclarecida, que defendia que Inri Cristo de fato era uma reencarnação de Jesus.

Logo os tópicos pegaram fogo. A participação era tanta, que eu chegava a meio que "dar plantão" nos finais de semana, finalmente debatendo cada pequeno meandro do texto bíblico, com pessoas das mais diferentes formações, para meu grande deleite intelectual. Um tópico em especial foi um hit instantâneo, com o tema: "sexo antes do casamento é pecado mesmo? Onde isso está escrito?"

Um prato cheio pra mim, que sempre gostei de "esgarçar" as interpretações da Torah até o limite máximo de sua liberalidade. Construi uma argumentação amparada em diversas passagens, mas sobretudo nesta:

Ex:22
15 Se alguém seduzir uma virgem solteira e se deitar com ela, pagará o dote e se casará com ela. 16 Se o pai dela não quiser dá-la, o sedutor pagará em dinheiro, conforme o dote das virgens.

Essa passagem diz: se uma moça se entregar de boa vontade "seduzida" por seu namorado, não há obrigatoriedade de casamento, apenas uma indicação. Se o pai não concordar com o casamento, ele não se realizará. O pai deve ser indenizado por ter "sua propriedade avariada". Fora a "multa", NENHUMA punição é prescrita a nenhum dos enamorados, e não é dito que eles estejam a partir daí proibidos de contrair matrimônio com terceiros.

Há mais uma dezena de outras passagens bíblicas que me autorizam a defender que, pela Torah, essa "neurose" cristã com a virgindade não tem respaldo legal. Debate vai, debate vem, um membro em especial, Sílvio, que era mórmon, se demonstrava revoltado com, na sua forma de pensar, eu estar a "estimular a promiscuidade" e de eu estar usando a própria Bíblia para isso.

Ao longo de uns 400 comentários o debate foi cada vez pegando mais fogo até que... Até que certo dia o tal Sílvio foi ao perfil moderacional e deixou 2 ou 3 scraps lá reclamando de a comunidade dar espaço para, nas suas palavras textuais, "uma garota de programa enrustida".

Imediatamente o moderador Marcel Vasconcelos excluiu o membro, fez um screenshot e deletou os scraps. No dia seguinte a comunidade estava em polvorosa, sem que os membros soubessem exatamente o que tinha acontecido, e os amigos do Sílvio questionando sua retirada. A moderação da PCCplex explicou a todos que o conteúdo da postagem que resultara na expulsão do Sílvio era altamente ofensivo, e portanto não seria posto à vista de todos.

Me mandaram uma cópia do screenshot e ao ler que eu havia sido chamada de "garota de programa" (pra quem não sabe, isso se refere às prostitutas) meu sangue imediatamente gelou nas veias, e me senti profundamente ultrajada. Eu jamais tinha imaginado que por passar minhas noites e finais de semana pendurada na internet debatendo Teologia eu poderia ser acusada de fazer sexo a dinheiro.

Pois, obviamente, se eu fizesse sexo a dinheiro, primeiro que não debateria Teologia, segundo que se eu fosse deste métier, nas noites e feriados eu estaria ocupada demais para ficar em casa madrugadas a fio debatendo pequenos detalhes da Lei de Moisés. Então a pessoa que me ofendeu, e se dizia um mórmon muito dedicado à sua religião, sabia a princípio que estava levantando falso testemunho contra mim, o que sim é pecado claramente expresso no Decálogo (Cf. Ex 20:16).

Mas o Sílvio prosseguiu a reclamar, e a incitar os membros que lhe eram próximos contra a moderação da PCX. A Moderação então franqueou que ele nomeasse um "advogado", um membro da comunidade no qual ele confiasse para o representar. Ele escolheu Orlando Nunes José, que à época era amplamente respeitado por todos, até por mim (posteriormente ele se revelou uma das maiores decepções que eu já tive na Internet, mas isso fica para outro texto).

Mandaram a Orlando Nunes o screenshot. E, sabiamente, ele deu razão à Moderação. Concordou que a expulsão do Sílvio era sim justa. Mesmo tendo sido nomeado por Sílvio como defensor, não havia como ele defender seu amigo diante da forma como este me ofendera. Sílvio engoliu o sapo e não mais nos incomodou por alguns meses.

Tempos depois, ele pediu para voltar, e a Moderação me consultou. Minha posição foi: que ele volte, mas que se desculpe publicamente pelo que fez. Se a ofensa foi pública, igualmente deveria ser a retratação. E ele o fez, criou um tópico chamado "O Getsêmani, o cálice e o pêndulo", no qual se mortificava pelo que havia feito. Li, não me convenci de sua sinceridade, mas me dei por satisfeita. Posteriormente até cheguei a voltar a debater com ele outras questões.

Depois de muito tempo, sanadas todas as feridas, hoje este episódio me traz um certo "orgulho", como o que um soldado sente a respeito de suas cicatrizes de guerra. Foi algo, completamente inesperado, que me marcou muito. Tanto pela ofensa como pela proteção que o grupo de moderadores me deu. Foram rápidos, eficientes, e agiram da melhor forma possível à época. Depois tivemos nossos entreveros sobre a não realização da proposta de "democracia plena", mas isso tb fica para outro texto.

Muitas mulheres são acusadas de ter um comportamento sexual desregrado, ofendidas como "garotas de programas" e tratadas como prostitutas, sem o ser.

Mas poucas podem dizer que passaram por isso porque gastavam todas as suas horas livres, varando madrugadas e finais de semana, a debater Teologia.

Tópico do orkut - http://www.orkut.com/Main#CommMsgs?tid=2442448414765242414&cmm=6452454&hl=pt-BR

http://pccomplexas6452454.blogspot.com.br/2006/03/o-getsemani-o-clice-e-o-pendulo-annimo.html

Depeche Mode - Personal Jesus http://youtu.be/cNd4eocq2K0
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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Legiao Urbana - Tempo Perdido

Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo...

Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder...

Nosso suor sagrado
É bem mais belo
Que esse sangue amargo
E tão sério
E Selvagem! Selvagem!
Selvagem!...

Veja o sol
Dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega
É da cor dos teus olhos
Castanhos...

Então me abraça forte
E diz mais uma vez
Que já estamos
Distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo...

Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes
Acesas agora
O que foi escondido
É o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens...

Tão Jovens! Tão Jovens!...
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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Legiao Urbana - Metal contra as nuvens

Letra: Renato Russo

Não sou escravo de ninguém
Ninguém é senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz

Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleais

Eu sou metal
Raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal
Eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal
Quem sabe o sopro do dragão

Reconheço meu pesar
Quando tudo é traição
O que venho encontrar
É a virtude em outras mãos

Minha terra é a terra que é minha
E sempre será
Minha terra
Tem a Lua, tem estrelas
E sempre terá

Quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa

Quase acreditei, quase acreditei
E, por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo
Mas vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo

Olha o sopro do dragão (4x)

É a verdade o que assombra
O descaso que condena
A estupidez o que destrói
Eu vejo tudo que se foi
E o que não existe mais

Tenho os sentidos já dormentes
O corpo quer, a alma entende
Esta é a terra-de-ninguém
Sei que devo resistir
Eu quero a espada em minhas mãos

Eu sou metal - raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal: eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal: me sabe o sopro do dragão

Não me entrego sem lutar
Tenho ainda coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então

Tudo passa
Tudo passará (3x)

E nossa história
Não estará
Pelo avesso assim
Sem final feliz
Teremos coisas bonitas pra contar
E até lá
Vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos
O mundo começa agora, ahh!
Apenas começamos

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sábado, 12 de janeiro de 2013

De como comecei a fumar



O tabagismo futuramente será considerado uma das mais sui generis excentricidades da espécie humana. Me aventurando na insidiosa senda da futurologia, creio q o futuro será dominado pela ditadura de tudo q é saudável e politicamente correto, e não haverá mais fumantes.

Fumar era um vício meso-americano, rapidamente trasladado ao Velho Mundo, como coisa "sofisticada", de gentis-homens. Já no século XIX, tb as mulheres "da alta sociedade" começaram a fumar, munidas de longas piteiras cheias de charme. Ao fumar publicamente, uma mulher apresentava uma declaração de liberdade, auto-determinação, expunha sua verve avant-garde.

Já no século XX, aparentemente "todos" os homens eram fumantes. Poetas, escritores, nobres, jornalistas, artistas, políticos. Fumar era "chic", marca dos boêmios e bon-vivants. Não havia "área de fumantes" pois podia-se fumar em todos os lugares: corredores, elevadores, salas de reunião, aviões, restaurantes, hospitais (célebre é a imagem do pai, ao nascimento do filho, distribuir charutos a todos os amigos; e da mesma forma q é "falta de educação" ser servido numa taça e não beber, era receber um charuto e não fumá-lo).

Nas fotos de grandes eventos históricos, era freqüente vermos todos os "figurões" da política munidos de seus cigarros e charutos, posando alegremente. Àquela época, ostentar um charuto era símbolo de status e elegância, como tb eram a bengala, o monóculo e a cartola.

Foi no ocaso deste cenário histórico, ao fim da Guerra Fria, q principiei a fumar. O ano era 1997. Eu tinha 14 anos e começava a "sair de balada" com minhas amigas de escola. Queríamos ser "prafrentex", modernas, antenadas, transgressoras, rebeldes. E era necessário demonstrar isso exteriormente, através de nossas roupas, atitude, linguajar, penteado, postura.

Éramos adolescentes, e para provar a nós mesmas q não mais éramos crianças, queríamos degustar pequenos aperitivos da "vida adulta": salto alto, saia curta, decote, bebida alcoólica, beijar os rapazes, sair à noite e fumar. Queríamos deixar bem vincada a linha q nos separava de nossos pais "chatos e antiquados". E ter pequenos segredos entre nós era parte importante disso.

Diz-se q os adolescentes são altamente influenciáveis pelos "amigos", e é verdade. Quando a primeira de nós começou a fumar, o hábito se disseminou rapidamente em todo o grupo, como um vírus. Entramos "na onda" da galera. Do grupo de 5, 3 tornaram-se fumantes convictas, uma fuma bem de vez em quando, e a outra jamais pegou gosto pelo cigarro.

Dei meu primeiro trago num cigarro na boate Stravaganza, situada à rua Henrique Schaumann, em Pinheiros. Fui lá algumas vezes, na companhia de Thaís, Maristela, Gisele e Aline. Tínhamos todas a mesma idade, na plena efervescência hormonal de nossos 14 anos. Queríamos "pagar de gatinhas descoladas" e, como todos os "transgressores e rebeldes" fumavam, nós tb queríamos.

Naquela época fumávamos Gudang Garang, cigarro de cravo interminável com filtro adocicado. O maço era caro e o comprávamos coletivamente, fumando só para "fazer charme" para os garotos. Logo a diversão ocasional transformou-se em hábito quando entramos no Ensino Médio.

Àquela época só havia 2 tipos de Marlboro: o vermelho "estoura peito" e o "light", dourado. O maço custava algo como 1 real e sessenta centavos, o q naquela época era dinheiro, com o Real valorizado. E assim já aos 15 anos comecei a comprar meus próprios maços de cigarro.

Todo o meu quarteto do colegial, completado por Chico, Romeu e Maristela, era fumante. Apenas eu tinha dinheiro, ou coragem, pra comprar maços de cigarro. Em nossas muitas aulas vagas, ficávamos sentados num canto do pátio fumando, e eu vendia-lhes cada cigarro a dez centavos. Sob protestos de q eu seria algum tipo de mercenária por lucrar 2 ou 3 centavos em cada um, me repassavam a moedinha, e ríamos, fumando despreocupadamente, sem sermos incomodados pelos inspetores de alunos. Curioso perceber q no dia de hj, no mesmo "José Marques da Cruz", se um aluno acender um cigarro leva uma suspensão, e nós há 13 anos podíamos fumar livremente no mesmo ambiente... Outros tempos, nem tão longínqüos...

Ao entrar na faculdade de História na USP, foi reconfortante sentir-me acolhida numa sociedade de fumantes; na qual tal hábito, além de sinal de boemia e vanguardismo, era a marca da intelectualidade. Não só a maior parte de meus colegas eram fumantes, como até os professores fumavam, sem reservas, enquanto davam suas aulas. A certa altura do curso, afixaram nas salas de aula avisos de "por favor, não fume". Na primeira aula posterior à adição do aviso, o professor entrou, sentou, aproximou o lixo no qual costumava jogar as cinzas, mirou a placa, deu de ombros, nos fitou e falou em voz alta:

- Que me multem!

Outro professor, mais sensível, na mesma situação, começou a aula da seguinte forma:

- Há entre vcs pessoas q se incomodam com a fumaça do cigarro?

Uma meia dúzia levantou a mão, e ele concluiu:

- Então, por favor, sentem no fundo da sala, pois eu vou fumar.

Simples assim. Até 2005, 2006, "chato" era o não-fumante q reclamava do fumacê alheio. Todos fumavam em ambientes fechados, restaurantes, aviões, e até então todos encaravam a fumaça com naturalidade, como uma das "coisas da vida", q podemos não gostar, mas toleramos, como hj se faz com pessoas q falam em voz alta no celular, ouvem funk sem fone de ouvido e comentam sobre a tabela do campeonato brasileiro.

Hj, poucos anos depois, é um absurdo, e completo anátema, algum fumante exercer seu hábito em qualquer "ambiente público fechado" ou mesmo aberto. Não se fuma mais nos escritórios, boates, restaurantes, barzinhos. Se antes fumar era "chique" hoje virou algo q nos aliena, afasta, "quebra o clima", segrega.

Fumar antes era fator de integração social. Hj, os fumantes precisam se retirar da baladinha, ir pra fora, fumar na calçada, no frio e na chuva, enquanto o "agito rola solto" lá dentro. Se antes fumar era coisa de gente moderna, transgressora, sofisticada, hoje fumar virou coisa de gente antiquada, excêntrica, antissocial, segregada.

Hj em dia, em quase nenhum lugar mais se pode fumar, e nos q se pode, é comum q quando acendemos um cigarro os estranhos ao lado nos fulminem com um olhar de reprovação, torçam o nariz e se afastem como se fôssemos leprosos, deixando subjacente a frase: "vc é muito folgado e está contaminando o meu ar!"

A ditadura do politicamente correto está fazendo um ótimo trabalho em transformar todos nós em mauricinhos e patricinhas bunda-mole, garotos-propaganda da "geração saúde". Se hoje, quando assisto a filmes e seriados dos anos 1990 nos quais todo mundo fuma em todos os lugares, até eu estranho e acho graça, apenas posso imaginar a surpresa dos q viverem daqui a 50 anos diante da mesma situação. E a hilaridade q será no futuro assistir a "The X-Files" (Arquivo X, série protagonizada pelos agentes do FBI Fox Mulder e Dana Scully) com meus netos e responder à cândida dúvida:

- O q é esse bastão q solta fumaça q o Canceroso segura em todo lugar?

Estou certa q o tabagismo entrará para a História como uma "excentricidade" prescrita, e no futuro ninguém mais poderá fumar, em nenhum lugar... Este é o chato mundo q estamos a construir...

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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A mais louca festa de 15 anos




Antigamente, era costume resguardar as filhas na privacidade do lar, preservando-as e à sua honra até o momento de elas finalmente serem apresentadas à sociedade, quando já fossem "moças na idade de casar". Na tradição hispano-americana essa apresentação se dava na "Festa de Debutante", ou "Quinceañera", quando a moça completava 15 anos e ganhava uma grande festa de gala, q marcava sua entrada na sociedade e de certa forma no "mercado do casamento".

Eu mesma não cheguei a ter uma festa de Debutante pois preferi substituí-la por uma viagem. Mas tive oportunidade de comparecer a alguns desses bailes de amigas. Mas a mais marcante comemoração de 15 anos a q compareci não foi um baile de Gala.

No primeiro colegial estudei com uma semi-xará, MFC. Tínhamos a mesma idade. Ela era uma moça magrinha, mignon, bonita, cheia de vida, alegre. Grande foi a surpresa minha e de meus colegas quando ela nos disse q já era mãe, de um bebê recém-nascido. Nada em seu jeito ou compleição denunciava q ela já tinha um filho.

Muito animada, eu diria baladeira, em pouco tempo me chamou pra comemorar seus 15 anos. Como seus pais estavam a gastar muito dinheiro com a neném q tivera aos 14 anos, e tb não fazia muito sentido promover um "baile de apresentação social" para uma moça q já era mãe, tinham lhe avisado q não lhe fariam um baile de Debutantes. Ela não se fez de rogada e resolveu comemorar numa danceteria, apenas com amigos.

Não me lembro pq Chico, Romeu e Maristela, q estudavam conosco, não foram. No dia da festa peguei minhas roupas de clubber, meti na mochila e fui de ônibus pra casa de MF. Lá conheci, enternecida, sua linda neném, P., com uns 3 meses, ainda em amamentação. Nos vestimos, maquiamos, perfumamos, ela deu um beijinho de despedida na filha e disse:

- Tchau, meu amor, mamãe vai pra balada!

De lá fomos a pé à casa de outras 2 amigas, A. e D., de cabelos coloridos e meio cybers. Pegamos o ônibus para a Moóca, já em clima de festa. Descemos na porta da Over Night, casa noturna célebre na época, cada uma em posse dos seus documentos "de maior" ;)

Como dentro da balada a bebida sempre é mais cara, começamos a fazer nosso "esquenta" num boteco lá perto, bebendo batidas de vodka e pinga com mel. Ao ver MF beber tive a preocupação de perguntar-lhe se ela ainda não estava "de resguardo", parida, pois seu bebê ainda era muito pequeno, ao q ela simplesmente respondeu: "Não! Relaxa, Fê!"

Ok. Entramos na Over Night. Dançamos na techneira ensurdecedora, mesmerizadas pelo jogo de luzes. A certa altura, MF chegou até mim bastante pálida, suada e desgrenhada, dizendo q estava passando mal. A. e D., entretidas com a música e os rapazes, meio q deram de ombros e falaram para eu levá-la ao banheiro. Escorei MF o melhor q pude e a carreguei até lá.

Abafado, sujo e lotado, ficamos uns 5 minutos na fila até q ela sussurrou q não aguentava mais tanto calor e me pediu para tirá-la de lá. Com muita dificuldade devido à lotação da casa noturna, meio q escoltei, meio q arrastei MF pra fora, já sabendo q não poderíamos retornar e q nossa balada acabaria por aí.

Sentamos na calçada, na frente dum bar. Ela meio q mais pra lá do q pra cá enquanto eu, ansiosa e preocupada, perguntava a cada minuto se ela estava melhor, sem q ela respondesse nada. Naquele momento, vendo uma adolescente magrinha recém-parida passando mal sob minha responsabilidade, o sangue gelou nas minhas veias no pensamento: "Putz, e se ela morrer agora? Com q cara vou falar pros pais dela como isso aconteceu? E a bebezinha dela, vai crescer sem mãe? Meu Deus, q q eu faço?!"

Vomitou a cântaros. Percebi q ela estava a um passo de desmaiar. Sem dinheiro para pegar um taxi, entrei no bar e perguntei se podiam nos ajudar, se alguém nos levaria ao hospital. A resposta veio na displicente frase: "O q não falta aqui é bêbado passando mal todo dia." Deixando claro q ninguém ali faria nada por nós.

Já desesperada, vi uma viatura da Polícia Militar passando em nossa frente, pois nessas baladas, além de bêbados passando mal, eram comuns as brigas. Não tive dúvidas. Me pus na rua e sinalizei pra viatura parar. Pensei q talvez não socorreriam minha amiga por estar simplesmente bêbada, então lhes disse:

- Por favor, me ajudem! Minha amiga teve um neném há 3 meses. Ela tomou só um copo de batida e está passando muito mal. Ela precisa ir pro hospital! Por favor, nos ajudem!

Os 2 policiais desceram, deram uma conferida em MF desfalecida na calçada, toda suja de vômito, e falaram q tudo bem, iam nos ajudar. Pegaram cada um num ombro de MF e a colocaram no banco de trás. Sentei ao seu lado, e esta foi a primeira vez em q entrei numa viatura da Polícia.

Não lembro a qual hospital nos levaram. Chegando, enquanto colocavam MF na maca, ela só teve forças para dizer:

- Não fala nada pros meus pais...

A puseram na enfermaria. Apesar de ser um hospital público, fomos atendidas rapidamente. Enquanto a examinavam me disseram para ir fazer a ficha dela. Pedi q ela me desse sua carteira, e ela não reagiu. Retirei a carteira do bolso de sua calça e fui à recepção. Encontrei seu RG falso "de maior" e o verdadeiro, "de menor". Com medo de q descobrissem a falsificação e isso trouxesse ainda maiores transtornos, entreguei o verdadeiro e quando a atendente pediu o telefone de seus responsáveis, pois ela era menor de idade, apesar de ter o número, disse q não o sabia, pois se o informasse talvez ligassem imediatamente.

Ficha preenchida, retornei à enfermaria e sentei-me no cantinho da maca de MF, pois não havia cadeira. Deitada de lado com o soro na veia, o q saía de sua boca não era mais vômito, mas um líquido viscoso esverdeado. Eu jamais vira alguém vomitar algo verde e fiquei muito alarmada, achando q ela estava à beira da morte. E se ela morresse ali, como eu explicaria aos seus pais, q eu cumprimentara algumas horas antes, pq não dera seu telefone na recepção? Se ela morresse, com q cara no futuro eu explicaria a P, q eu acalentara algumas horas antes, em q circunstâncias ficara órfã?

Chamei a enfermeira:

- Acuda! Minha amiga tá vomitando verde!

Calmamente, a enfermeira veio, verificou o soro e o vômito esverdeado. Meio em tom jocoso me disse:

- Não precisa se preocupar, já administramos glicose pra sua amiga. Isso q ela está vomitando é bile. Não precisa se preocupar. Em algumas horas ela estará pronta pra outra! Só fica de olho pra ela ficar deitada de lado. Se ela virar de barriga pra cima pode se sufocar no próprio vômito...

Eu sabia da existência da bile, mas achava q ela apenas "descia" da vesícula biliar e do duodeno para os intestinos. Não tinha a menor idéia q o fluxo do trato intestinal poderia ser revertido e a bile "sair por cima". Eu mesma nunca bebi de passar mal ao ponto de ser hospitalizada e precisar tomar glicose na veia, e nunca cheguei ao ponto de vomitar bile. Aquela foi uma experiência inédita e, até hj, única.

As horas da madrugada passaram sem q nenhuma sombra de sono me acometesse. Como eu poderia dormir me vendo responsável por uma querida amiga, mãe recente, desmaiada num ambulatório de hospital público, tendo q me certificar q ela não morreria sufocada no vômito quase fluorescente q expelia?

Creio q já eram umas 10 da manhã quando ela acordou e ainda zonza me perguntou como tínhamos chegado ali. Lhe relatei o q ocorrera durante seu desmaio. Ao ir recobrando lentamente os sentidos, me agradeceu por não ter avisado seus pais pois eles "a matariam se soubessem".

Já era mais de meio dia quando ela se viu em condições de ficar em pé. Minha casa não era perto da dela, mas lhe perguntei se ela queria q eu fosse com ela de volta. Já quase "pronta pra outra" disse q era melhor não, pois isso só faria seus pais acharem q algo tinha dado errado. Combinamos q ela diria aos pais q depois da balada ela tinha ido dormir na minha casa, por isso estava voltando tão tarde. E q eu deveria dizer o mesmo na minha casa: q depois da balada eu teria dormido na casa de MF.

No fim das contas, deu tudo certo, ninguém desconfiou de nada, pois mesmo quando ainda tínhamos 15 anos, já era comum q voltássemos pra casa só na tarde do dia seguinte. MF hj é muito bem casada, com 4 filhos. P hj já é uma moça, linda e muito bem criada.

Infelizmente, devido à formação de turmas em nossa escola, em anos posteriores não estudei mais com MF e acabamos por nos afastar. Uma pena, pois teria sido muito legal ter ido a mais baladas com essa minha amiga "louquinha" e cheia de energia. Mas ficou essa lembrança, da mais curta e tresloucada festa de 15 anos a q já fui. Do medo e da surpresa. Da primeira vez q "peguei carona" numa "veraneio vascaína". Da primeira vez em q fui responsável por outra pessoa além de mim. Do alívio de ter conseguido socorrer minha amiga, levá-la ao hospital, ser "firmeza" com ela, e ter conseguido devolvê-la inteira à longa vida q a espera.

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