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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O Brasil é um país cheio de boas intenções

Nascer no Brasil é uma verdadeira bênção, constantemente pouco reconhecida. Não é à toa q inúmeros estrangeiros escolhem aqui morar. Clima tropical, solo fértil, povo acolhedor, oportunidades múltiplas. Seguramente nem tudo é bom, como exemplos: a corrupção, péssimos serviços públicos, pobreza, criminalidade.

Creio q grande parte dos problemas brasileiros são resultado de um descompasso, uma falta de sintonia, entre a "alta cultura" dos eruditos e a "cultura popular" da "plebe", algo profundamente marcado pelas questões étnico-raciais entre "brancos" e "negros".

Tanto "brancos" como "negros" entre aspas pois os "brancos" muitas vezes não são propriamente brancos, mas o querem ser, e os "negros" muitas vezes não se vêm como negros, devido à grande miscigenação e racismo não-declarado; preferindo ver-se como "semi-brancos". Inúmeras vezes me vi diante de pessoas claramente negras q se declaravam brancas, e se ofendiam se alguém lhes dissesse q não eram brancas.

Como dizia um professor meu, "nos EUA uma gota de sangue negro faz de alguém aparentemente branco um negro. No Brasil, uma gota de sangue branco faz de alguém aparentemente negro um branco."

A elite branca brasileira parece posicionar-se sócio-culturalmente como se estivesse numa "missão civilizatória" visando "melhorar, instruir, ou educar" a "plebe inculta e mestiça". E isso pode ser demonstrado por esta elite tentar "iluminar o povo com a alta cultura (européia, é claro)". Neste texto explorarei 2 exemplos disto: nosso hino nacional e nossos parâmetros curriculares federais.

Numa avaliação internacional feita por músicos e maestros, o Hino Nacional Brasileiro foi eleito como o segundo mais belo do mundo, atrás apenas de "La Marseillaise", o célebre hino francês. Seguramente é belíssimo nosso hino. Porém, tem um "pequeno" problema: poucos brasileiros o sabem cantar.

Este hino é cheio de palavras belíssimas, como plácido, fúlgido, impávido, clave, flâmula, brado etcs. Termos eruditos completamente estranhos ao "povão". Sua melodia é riquíssima, mas não reflete nenhum ritmo brasileiro, popular. Não há nada em nosso hino nacional q faça "o povo brasileiro" se identificar com ele. O hino não foi feito pelo povo, nem para o povo. Mas sim pela elite, para a elite.

Muitos acham q o povo brasileiro não conhece nem canta o hino por falta de patriotismo. Creio q o problema é outro. O povo não o canta pois não se reconhece nele, não sente q este hino seja verdadeiramente "nacional", mas apenas representa aquela parcela "branca, educada, elitista" da população. Há um claro descompasso entre as aspirações, o folclore, a lírica e a musicalidade populares, em relação às representações "oficiais" da cultura brasileira. O hino não atende ao povo, por isso ele o rejeita.

Outra demonstração clara do desencontro entre as intenções da elite e as aspirações do povo são os Parâmetros Curriculares Nacionais para a educação pública. Sou professora de História e usarei esta disciplina como exemplo.

O Currículo educacional brasileiro é tão maravilhoso quanto nosso hino. Muito bem-estudado, elaboradíssimo, abarca todo o conhecimento da História Universal, do ponto de vista europeu. Lendo-o me perguntei: "provavelmente quem escreveu isso é PhD em Coimbra, Oxford ou Harvard". E produziu parâmetros visando colocar os alunos brasileiros em condições de disputar vagas nestas instituições.

De acordo com estes parâmetros, eu deveria formar alunos na oitava série, com 14 anos, na posse de todo o conhecimento da História Universal, desde a pré-História até o fim da Guerra Fria. Q maravilha! Quem lê este documento ACHA q isto é posto em prática, transformado em realidade. Vã ilusão.

Os alunos estão "se lixando" para a Grécia, Roma, o Feudalismo, a Revolução Francesa. Nada disso faz parte do seu cotidiano e seu horizonte cultural. Querem aprender coisas palpáveis, práticas, úteis. E essas coisas não fazem parte do currículo.

A disciplina de "História" tenta fazer do aluno um mini-historiador, e não ensinar-lhe sobre cidadania, Direitos Humanos, relações inter-raciais. Não procura, em nenhum momento, ensinar a instrumentalizar o conhecimento histórico para a compreensão do hoje. Não há nenhum conteúdo q me instrua a ensinar-lhes sobre documentos, imposto de renda, política, atualidades, as coisas q os estudantes realmente precisam e querem aprender.

Ao invés de educá-los para a vida e a cidadania, os PCN's me dizem q eu devo prepará-los para o vestibular da USP. O "pequeno" problema é, como todos sabem, q raramente um aluno egresso de escola pública entrará na USP. Seguramente, menos de 1 por sala. E em prol deste 1, q entraria na USP de qquer forma, eu sacrifico os outros 40, q deixam de aprender coisas úteis para "perder tempo" não aprendendo coisas q, para eles, seriam muito úteis.

Outro exemplo é a disciplina de Química, q tenta fazer dum aluno um mini-químico, calculando elétrons, ligações covalentes e mols. Em nenhum momento pretende prepará-los para usar estes conhecimentos no cotidiano. Nada lhes ensina sobre higiene pessoal, limpeza doméstica, farmacologia e interação medicamentosa, agricultura e pesticidas. Os alunos perdem tempo não aprendendo a ser mini-químicos, enquanto poderiam estar aprendendo química instrumental, para usar no dia-a-dia, beneficiando sua saúde.

Os burocratas, q ganham como juízes, e trabalham em Brasília no ar condicionado, representantes da "elite branca" não vêm a realidade pois nunca deram sequer uma aula na rede pública. Quem realmente sabe do q está falando, pois lida cotidianamente com a realidade existente e não imaginada, freqüentemente manifesta os problemas curriculares.

Apenas para obter como resposta q o currículo é ótimo, foi elaborado por um PhD pela Sorbonne, e q se ele não funciona é por incapacidade dos professores. Meio q dizem "quem são vcs, meros professorinhos da rede pública, para achar q podem dizem para nós, professores doutores, o q deve ser ensinado?"

Respondo: "nós somos aqueles q têm CONHECIMENTO DE CAUSA para falar disso, somos nós que ensinamos, somos nós q sabemos o q funciona e o q é ruim. Vcs, burocratas de terno italiano e sapatos Louboutin, não têm a menor idéia da realidade. Vcs criam leis para um país q não existe." Estes burocratas podem estar cheios de boas intenções, mas elas mais atrapalham do q ajudam quem de fato trabalha no dia a dia escolar.

É necessário romper com essa noção de q a elite deve "civilizar" a plebe inculta. O povo não precisa "ser civilizado na cultura européia", mas instrumentalizado para serem agentes interventores e conscientes na realidade brasileira.

Não é o povo q tem q "melhorar" para poder cantar nosso elaboradíssimo hino. É o hino q tem q ser mudado para refletir a cultura, e o povo brasileiro. Não são os estudantes, nem os professores, q têm q "melhorar" para cumprir o currículo. São os PCN's q têm q melhorar para atender as demandas dos alunos, para ensinar-lhes coisas úteis, cotidianas, e não abstratas, distantes, estranhas à cultura brasileira.

As "boas intenções" são ótimas até falharem no teste da realidade. Até percebermos q elas apenas aparentam ser boas. Na verdade são perniciosas, pois nos fazem desperdiçar anos e anos digressando sobre Roma enquanto os alunos não sabem a diferença entre o CPF e o RG, não têm a menor idéia do q é carga tributária, quais são seus direitos trabalhistas e pq são obrigados a votar a cada 2 anos.

Como diz o famoso ditado "de boas intenções o inferno está cheio", pois não basta ter "boas intenções"; é necessário q, no teste prático, elas sejam validadas como boas. Se o teste prático não as valida, estas intenções mais são uma camisa de força q limita as ações dos professores, q se vêm como um Napoleão de hospício, digressando longamente sobre assuntos q, para os alunos, são tresloucados, irreais e inúteis.


terça-feira, 15 de maio de 2012

O inferno das boas intencoes

"De boas intenções o inferno está cheio". Esse é um dito popular muito conhecido e q guarda uma ampla sabedoria experimental. Normalmente isso é dito quando alguém faz uma coisa cujo resultado ruim não foi previsto. Quando alguém faz algo pensando q está a fazer algo bom, mas os desdobramentos da ação são negativos.

Pela vida, fui me deparando com inúmeras situações em q o ditado se verificou. E creio q em muitas delas isso foi resultado do descompasso entre duas coisas essencialmente diferentes: a teoria e a prática. Na teoria, tudo e fácil, pois o papel aceita tudo. No papel, todos os projetos parecem ótimos e factíveis. Todas as novas idéias parecem ser capazes de iniciar uma revolução.

Porém, quando saímos da bolha de papel acadêmica e nos deparamos com o dia a dia, rapidamente aprendemos q "na prática, a teoria é outra" e q todos aqueles lindos projetos elaborados em linguagem grandiloquente não servem para nada.

Quando alguém falha em perceber isso se verá lançado ao inferno das boas intenções. Como sou professora, da rede pública, usarei exemplos deste universo.

Cada vez mais o ambiente escolar tem sido contaminado pela cultura empresarial. Economistas, administradores e mesmo pedagogos q nunca pisaram numa sala de aula da rede básica, cheios de boas intenções e sem nenhuma noção do q é a "realidade" frequentemente acham q está ao seu alcance modificar radicalmente o ensino público.

Cada novo secretário de educação quer "mostrar serviço", deixar sua marca, declarando na imprensa q dará um "choque de gestão" q elevará o patamar de qualidade da rede de ensino... Um intenção ótima... E infernal. Infernal pq esses "choques de gestão", via de regra, servem apenas para desorganizar o q já existia e desorientar os verdadeiros gestores, q não estão sentados num escritório com ar condicionado, mas q ralam no dia-a-dia da escola.

A cada novo gestor, vêm novos decretos, novas regras, novas siglas, novo material didático. Muita novidade ao mesmo tempo. Tudo isso até poderia ser bom, não fosse o detalhe da inconstância política, pois quando dá-se o tempo de todas as "novidades bem-intencionadas" serem digeridas, o antigo secretário já "caiu" e outro assumiu seu posto.

E é claro q o novo secretário tb quer "mostrar serviço, deixar sua marca e fazer seu choque de gestão", o q envolve descartar todas as iniciativas do seu predecessor. Desfaz-se tudo, remudam-se os decretos, as siglas, o material didático, desnorteando mais uma vez todos os profissionais q efetivamente trabalham na sala de aula.

E a cada nova mudança, inventam mais relatórios e formulários, cuja intenção teórica é ótima, mas q na prática resultam em "roubar" tempo precioso, do qual professor faria muito melhor uso se nele trabalhasse em prol de seus alunos, e não preenchendo papéis inúteis, q nunca ninguém vai ler.

Não duvido q cada novo secretário ou ministro da Educação tenha a melhor das intenções ao iniciar seu "choque de gestão". O q duvido é q qualquer um destes "choques de gestão" resulte em qquer melhora na educação. A única pessoa capaz de fazer a Educação pública melhorar é o próprio professor. E enquanto houver a percepção pelo professor de q os políticos q nos gerenciam desconfiam de nossa capacidade, nos desrespeitam em nossos direitos trabalhistas, não nos valorizam, nenhuma iniciativa de mudança de gestão resultará na melhora do ensino.

Ademais, como a carreira do professor é longa, rapidamente descobrimos q, ano vai, ano vem, muda o secretário de educação, e com ele as políticas de educação; portanto, nenhuma delas é "realmente séria" e se simplesmente ignorarmos ou "fingirmos q estamos seguindo as novas diretrizes", o secretário mudará antes q alguém perceba q as "novas/antigas diretrizes" não foram efetivadas. E quando isso se dá, a gestão q era nova já é velha, e não precisa mais ser obedecida.

Além dessa balela de q seria possível de cima, com um decreto, melhorar a Educação, há o problema do próprio currículo. No Brasil, temos os PCN's, Parâmetros Curriculares Nacionais. Muito bem intencionados. No papel, a Educação brasileira é ótima. Na teoria, nossos alunos aprendem um currículo muito mais vasto e diversificado em relação mesmo ao q é ensinado nos países desenvolvidos. Partirei do exemplo q me é melhor conhecido: a disciplina de História.

De acordo com os PCN's, eu formo meus alunos de 14 anos no Ensino Fundamental com todo o conhecimento sobre a História Humana, desde a pré-História até o século XXI. Quer dizer, eu assino um papel q afirma isso. Um papel q não tem nenhuma correspondência prática. Por acaso acho q o currículo brasileiro do ensino de História seja ruim? Não, ele é ótimo. Na verdade, seria ótimo. Para a Suíça. Para a Suécia. Para a Finlândia. É um currículo vasto, profundo, completo... E infernal.

Infernal pois, para seguir este currículo, gasto centenas de horas digressando sobre a Revolução Francesa, o Feudalismo, a Cultura greco-romana. Conteúdos ótimos, mas com resultado pífio. Meus alunos decoram os fatos e datas para a prova, e após ela rapidamente esquecem tudo. O q ensino é abstrato, longínquo, impalpável e, portanto, desinteressante.

Os alunos deixam de aprender coisas realmente importantes para seu cotidiano, q não fazem parte do currículo, mas exige-se q aprendam conteúdos intrincados e vários patamares acima da sua real capacidade, ou interesse, de aprendizado. Para os burocratas, ministros e secretários, q nunca deram aula na rede básica, o currículo é ótimo. Para o professor, q lida com a realidade, o currículo é uma "jaula de ouro" q prende não uma Fênix, mas um pardal.

Já passou da hora dos políticos q têm a ilusão de serem capazes de dar um "choque de gestão" terem um "choque de realidade" e descobrirem q suas boas intenções podem até ser ótimas, porém q não será na canetada, com um decreto, q a realidade mudará. Não precisamos de novos paradigmas administrativos. Não precisamos de relatórios e de rankeamento. Precisamos de valorização. Q a voz dos q efetivamente conhecem como se dá o processo educativo seja ouvida, não q um economista venha dizer ao vigário como se reza a missa.

Nem sempre boas iniciativas são realmente boas. Raras teorias vencem o teste da prática, da realidade. E, se vc é político de carreira, economista, administrador ou mesmo pedagogo de escritório, pare de achar q os papéis q vc assina com novas diretrizes melhorarão a Educação, pois eles não irão: apenas desorganizarão o q já está aí, na verdade atrapalhando o real processo educativo.

Na prática aprendi q os secretários de Educação não têm em vista a melhora da Educação: objetivam usar essa pasta como um trampolim para suas ambições políticas pessoais. Intenção, convenhamos, nem tão boa assim. Achar q os professores irão simplesmente aquiescer como cordeiros a este propósito é ilusão. Secretários, ministros, vêm e vão. E com isso todas as suas "boas intenções" vão pro lixo. E a Educação enquanto isso segue girando em falso, sem saber aonde vai, qual é seu propósito, completamente sem norte nem melhora.

domingo, 22 de abril de 2012

Por uma Matematica util

Para começar preciso avisar q sofro de analfabetismo matemático, ou "anadigitismo" num neologismo inventado. E creio q grande parte disso é devido ao ensino escolar dessa disciplina, pelo menos da maneira como me foi administrado.

Desde a quinta série, quando o "X" foi inserido no meu universo matemático, nada do q aprendi fez nenhum sentido. Até fui capaz de passar nas provas, achando infinitas vezes o valor de um X cujo significado eu ignorava. Entre a quinta série do Ensino Fundamental e a terceira série do Ensino Médio encontrei inúmeros X, Y, Z e até Deltas q para mim nunca significaram nada, apenas uma gigantesca chatice e decoreba. Passada a prova, as fórmulas eram mais do q rapidamente esquecidas. O q aprendi na matéria escolar de "Matemática" nunca me pareceu nem pretendeu me ensinar nada q eu pudesse usar "na prática" em meu cotidiano. Tudo abstrato, impalpável, no "mundo das idéias".

Lembrei-me disso recentemente quando um colega professor relatou sua desolação com o aprendizado dos alunos. Disse q numa prova apresentara uma pergunta muito simples: "Se o médico prescreve um medicamento para ser tomado a cada 4 horas, quantos remédios serão tomados por dia?" E nenhum, absolutamente nenhum, aluno respondera corretamente à questão, numa oitava série.

Mais do q alarmante, isso é assustador, não apenas da falha aprendizagem dos alunos como também de como a Matemática escolar é vista como completamente inútil e sem propósito pelo corpo discente.

Uma conta tão simples como um 24 dividido por 4 não é feita pelos alunos pois a forma como a Matemática é ensinada não propõe q estes conhecimentos interfiram no cotidiano dos alunos. Não se ensina "Matemática para a Cidadania", mas "Matemática pela Matemática", como se todos os alunos almejassem uma graduação nesta área.

Nos 8 anos de estudo em q fui obrigada a atender a esta matéria nunca nenhum professor ensinou "regra de 3", nem a simples, muito menos a composta. Nunca me ensinaram a calcular juros, simples ou compostos. Nenhuma palavra sobre taxas, imposto de renda, carga tributária, partilha de herança.

Cálculo de área? Só de figuras geométricas abstratas, nunca de um terreno, de uma casa ou cidade. Cálculo de volume? Só de sólidos abstratos, nunca de uma garrafa de refrigerante, do porta-malas de um carro ou uma geladeira. Na escola jamais aprendi nesta disciplina nada q se propusesse a me ajudar nos meus problemas cotidianos.

Se vc é professor de Matemática e acha q estou exagerando, faça o teste. Pergunte a seus alunos:
* Quantos dias tem um bimestre?
* Quantas horas tem uma semana?
* Se alguém trabalha 8 horas por dia, quantas horas trabalha num mês?

Todas essas perguntas são muito simples e deveriam ser respondidas sem problemas mesmo por quem só cursou até a quarta série. Contudo, posso afirmar com relativa segurança q menos de 50% dos alunos com diploma de ensino fundamental serão capazes de respondê-las.

Isso nada diz a respeito da capacidade intelectual desses alunos. Mas fala muito a respeito da forma vã, vazia e inócua como a Matemática tem sido ensinada no Brasil. Defendo uma Matemática útil. Q pare de calcular tantos X e Y completamente inúteis e ensine aos alunos habilidades q usarão no dia-a-dia. Q os faça compreender como é feito o cálculo das contribuições ao INSS, como funcionam os juros do "cheque especial", como é feita a partilha da herança num espólio, como calcular quantos ladrilhos preciso comprar para cobrir uma parede.

Professor de Matemática, saia do mundo das idéias e nos ensine coisas sobre o mundo real! Sei q os PCN's (Parâmetros Curriculares Nacionais) propõe esse tal "currículo". Mas mais importante q "seguir o currículo" é "ensinar". E o aluno só se aplica em aprender quando vê q esta aprendizagem será útil. O q a Matemática escolar não se propõe a fazer. Esqueça o q os burocratas de Brasília q nunca pisaram numa sala de aula te mandam fazer. Ensine o q seus alunos precisam aprender.

sábado, 24 de março de 2012

Aos meus caros alunos

Gostaria de iniciar esse texto dizendo: eu já fui um de vcs. Quando eu mesma era aluna, fazia as mesmas coisas q vcs: matava aula, pulava muro, desdenhava da escola e dos professores. Crescer não é fácil, e nossa infância e adolescência não nos preparam para sermos adultos. Mas a adultez, inadiavelmente, chega. E se não nos prepararmos para ela durante a adolescência pagaremos um alto preço durante toda a vida.

Muitas coisas essenciais para vida ninguém me disse, só aprendi dando muita cara na porta e murro em ponta de faca. A vida não tem manual nem atalhos, cada um constroi seu caminho. E é na adolescência que fazemos, sem nos darmos conta, escolhas q repercutirão pelo resto de nossas vidas.

Vocês tem a chance, agora, de construir para vcs um futuro melhor, próspero. Daqui a 5 anos pode ser tarde demais. Não percam o bonde da vida, não fiquem para trás.

Pergunto: vcs pretendem andar de bicicleta ou motinho 125 o resto de suas vidas? Vcs querem ter o mesmo nível de vida dos seus pais? Querem morar de favor ou pagar aluguel para sempre? Quem ter q abaixar a cabeça e obedecer ordens pelo resto de suas vidas?

Em caso negativo, devo alertá-los: vcs precisarão matar um leão por dia. Terão q se esforçar, fazer das tripas coração para viver. Mas agora q vcs são jovens, tem uma escolha: fazer isso apenas pelos próximos 5, 7 anos; ou pelo resto de suas vidas. Explico de forma simples: seu salário será diretamente proporcional aos seus anos de estudo, e à qualidade da faculdade q vc fizer.

Se pra vc ganhar salário mínimo pelo resto da vida está bom, pode parar de prestar atenção agora. Vc se arrependerá disso amargamente, depois de adulto. Se pra vc ganhar "mil reais" está bom, tb não precisa me escutar, faça qquer "UniEsquina" da vida e só depois de formado perceberá q seu diploma vale muito pouco.

Mas caso vc queira vencer na vida, preste atenção.

Quando eu estava prestando vestibular vi escrito numa camiseta de formandos: "Enquanto vc está aí brincando, tem um japonês estudando". Nunca esqueci disso, ainda mais ao atestar in loco q na Engenharia da USP quase só entra "japonês". Pq os japoneses sejam naturalmente mais inteligentes q os "brasileiros"? Não! Pq a cultura japonesa prioriza o estudo. Desde o berço os "japoneses" tem bem claro q o fazer uma boa faculdade é a chave para um futuro próspero.

Há um texto do Bill Gates q diz "Seja legal com os nerds. Existe uma grande probabilidade de você vir a trabalhar para um deles". E é verdade. Os "bonzões" da minha época do colegial hj estão lavando carros e assentando tijolos; no máximo dizendo "pois não, senhor?" atrás de um balcão. É isso q vc quer: uma vidinha medíocre?

Muitos de vcs pensam q a vida julgará vcs com os mesmos parâmetros da escola... Na escola, não pq eu queira, ma pq o governo quer economizar, todo mundo passa. A escola não julga ninguém. Quem julgará vcs será a vida, e o mercado de trabalho. Aí a coisa vai apertar, e se vc não tiver aproveitado esta oportunidade, mesmo com um diploma na mão, vc será reprovado. O conhecimento é uma riqueza q nunca ninguém tirará de vc, e é o grande diferencial da espécie humana. A competição no mercado de trabalho é feroz, e só os mais aptos se darão bem.

O mundo todo está aí para você o conquistar. O mundo é muito maior q a cidadezinha onde vc mora. Vc quer nascer, viver e morrer sem nunca ter saído da sua cidade, ou quer para vc um horizonte bem maior?

Eu sei q o conteúdo q eu ensino é chato e vcs não vêem propósito nele. Eu tb não via na idade de vcs. Foi só quando prestei, e bombei, em meu primeiro vestibular q percebi sua importância. Ainda hj, várias vezes percebo q conteúdos de Matemática, Química, Biologia, q não quis aprender, me fazem falta. O ser humano precisa ser completo, polivalente.

Comece agora a projetar e a construir seu futuro. Se vc deixar para depois pode ser tarde demais. Eu poderia fazer muito mais por vcs, poderia ensinar coisas muito mais profundas. Eu não estou aqui contra vcs, mas por e para vcs. A maior felicidade de um professor é encontrar um ex-aluno bem sucedido. Esse é minha intenção aqui: fazer o meu melhor para q vcs sejam o seu melhor.

Agora é com vc: vai ficar de brincadeirinha até se arrepender daqui a 10 anosou vai escolher acordar para a vida agora? Seu futuro só depende de vc. Espero q todos vcs tenham um futuro maravilhoso, q todos vcs vençam na vida!

Eu espero q um dia eu tenha q chamar vcs por "senhor", ou "doutor".

terça-feira, 6 de março de 2012

Está pensando em comprar um tablet? Leia

Sei que muitos devem estar pensando em comprar um tablet, e na dúvida se vale a pena e qual comprar. Eu também pensei longamente se era melhor comprar o iPad ou o Galaxy Tab e optei pelo primeiro. Gostaria de expor os motivos para que vcs possam fazer uma escolha mais esclarecida.

Antes gostaria de elencar alguns motivos para se comprar um tablet, independente da marca:

1 - Segurança. Com um tablet, vc não precisará se logar em lan houses e computadores de terceiros, suas senhas estarão bem mais seguras.

2 - Praticidade. Com um tablet com internet 3G vc fica com online aonde for, em outras cidades e até outros estados, sem roaming. O tablet faz o seu tempo render mais. Horas antes desperdiçadas no ônibus ou na fila do banco se tornam produtivas quando vc tem um tablet à mão. Sem contar o conforto de fazer (quase) tudo o que fazia sentado na frente do PC, mas agora confortavelmente esparramado no sofá ou deitado na sua cama.

3 - O tablet substitui outros gadgets "físicos": mp3 player, rádio, computador, lanterna, bloco de notas, pen drive, gravador de voz, televisão (sim, o iPad te fará desligar a TV), jornal, revista, livro, agenda, GPS, calendário, calculadora, videogame, câmera fotográfica e filmadora digitais, lista de compras, espelho, despertador, previsão do tempo, telefone (via Skype), guia da TV, qualquer instrumento musical, até os mais estranhos, dicionário em qualquer língua, Kindle, e muito mais. E, insuspeitamente, até animais de estimação. Esqueçam o famoso Tamagotchi (bichinho virtual); no tablet vc pode ter aquários, gatinhos, unicórnios... Eu tenho até um tigre de bengala de estimação! Nenhum deles morre nem faz sujeira...

4 - Muita coisa grátis. Centenas de apps que facilitam baixar música livre de copyrights. Milhares de livros (a maioria em inglês, mas a oferta em português está aumentando) de domínio público. Apps de jornais (a Folha de SP pode ser lida gratuitamente e na íntegra por quem tem iPad, cortesia de uma grande construtora paulista). Há milhares de apps pagos, mas quem tem paciência e sabe garimpar encontra quase tudo o que quer de graça. Milhares de joguinhos clássicos e novos; alguns que eu tenho: xadrez, forca, Wolfenstein, Pac Man, Bejeweled Blitz, The Sims free play, Angry Birds, Free Cell, jogos do Atari, etcs.

5 - Participar das novas redes sociais feitas para smartphones e tablets: Instagram, Foursquare, Pinterest, Social Cam etcs. Você ficará muito mais plugado às novidades que estão bombando!

6 - A tela grande, muito mais confortável para navegar do que a mirrada telinha dos smartphones.

7 - Geolocalização. Não são todos os tablets que tem, e vale a pena pagar mais caro por um com GPS. Com ele sempre ligado, especialmente se vc tiver 3G, se vc for sequestrado ou seu tablet for roubado, é relativamente fácil geolocalizá-lo e a polícia ir direto ao mocó de quem te roubou.

8 - Interface intuitiva com apps educativos. Mexer num tablet é tão fácil que até crianças analfabetas não terão dificuldades. Para quem tem filhos, o tablet é um investimento inestimável. Há milhares de livros infantis interativos, joguinhos de raciocínio, de memória, de conhecimentos. Fazer de seu filho alguém plugado desde cedo pode fazer uma baita diferença em seu desenvolvimento cognitivo.

9 - Facilidades para quem é deficiente. Não precisei baixar nenhum desses apps, mas há centenas de aplicativos adaptados para pessoas com as mais variadas deficiências. Vide

10 - Aplicativos para coisas que vc nunca imaginou, não sabia que precisava e não conseguirá mais viver sem. Alguns que eu tenho: para dormir, tem app que toca mantra budista, sons ambientes para relaxar, app que com infra-sons fazem os cachorros parar de latir, apps estilo "jardim japonês", apps religiosos (tenho uma menorah virtual pela qual é possível segyir toda a liturgia do shabbat), controle remoto virtual (depende da sua TV ser bem moderna, mas funciona!), contador de calorias, personal trainer virtual, e muitos mais que ainda não conheço, mas um dia encontrarei!

11 - Ficar online 24hs. Diferente do computador, que tem ventoinha/cooler e pode superaquecer, o iPad é como um celular que pode ficar ligado direto 24horas. Vc pode simplesmente NUNCA desligá-lo e toda vez que vc quiser dar uma checada na net, simplesmente pegá-lo e usá-lo, sem estabilizador, sem liga/desliga, sem desperdício de energia e... Sem medo que um raio o queime!

Escolhi o iPad por vários motivos:

1 - A variedade de apps (aplicativos, "programas"). A Apple tem uma atração magnética sobre os geeks, que adoram mostrar como podem fazer apps geniais e exibi-los aos outros "nerds". A Samsung, fabricante do Galaxy Tab nem de longe exerce o mesmo fascínio, e portanto tem uma variedade bem menor de apps, e apps menos "cool and trendy".

2 - A qualidade do produto, indiscutível no caso da Apple. É um produto "top de linha".

3 - Memória. O Galaxy só oferece a versão de 16 gigas. O iPad tem 3 configurações: 16, 32 ou 64 GB. Para vcs terem uma ideia, tenho meu tablet há apenas 2 meses e já ocupei 8 gigas de memória.

4 - Bateria. A da Apple dura muito mais!

Agora alguns motivos para vc não comprar um iPad (não podia faltar):

1 - Trabalho escravo. Muitas são as denúncias contra a exploração dos trabalhadores chineses nas fábricas da Apple/Foxconn

2 - Tornar-se escravo dos produtos da Apple. Uma vez que vc caiu na rede, vira peixe dessa empresa com conhecidas práticas monopolistas.

3 - Incompatibilidade. Não rodar "flash" é apenas o mais visível dos problemas. O iPad até vem com cabo USB, mas ao plugá-lo no seu PC Windows vc terá a má surpresa de que os aparelhos não se reconhecem nem se comunicam. É possível fazê-los "se entender" e até sincronizá-los, mas isso é meio difícil para quem é leigo em informática, exige alguns malabarismos operacionais.

4 - Não é multitasking. Vc só pode usar um app por vez. Até agora, apenas apps que tocam música funcionam em segundo plano enquanto vc mexe em outros apps. É chato toda vez que vc vai trocar de app ter que apertar o botão e ter que fechar um para abrir o outro.

5 - Não funciona como celular.

6 - Esqueça qualquer tipo de download ilegal. Produtos da Apple só baixam arquivos legalizados.

Recomendação final: não financie seu tablet associado a um plano de minutos da sua operadora de celular, sai mais caro. Compre o tablet numa loja física, para ter garantia e um lugar onde reclamar. Depois veja qual operadora tem o melhor sinal 3G perto da sua casa. Há planos de internet (hoje) a partir de R$ 30,00. Não escolha o mais caro. O plano mais barato será mais que suficiente.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Bill Gates - 11 Coisas que a escola não ensina

Bill Gates fala sobre a "Política educacional de vida fácil para as crianças", que tem criado uma geração sem conceito da realidade, e como esta política tem levado as pessoas a falharem em suas vidas após a escola.

Ele fez uma palestra em uma escola, dizendo aos estudantes 11 coisas que eles não aprenderiam na escola.

Todos esperavam que ele falasse mais de uma hora, ele falou cinco minutos e foi aplaudido durante 10 minutos. Agradeceu e foi embora em seu helicóptero.

Eis o discurso:

1 - A vida não é fácil, acostume-se com isso.

2 - O mundo não está preocupado com sua auto-estima. O mundo espera que você faça alguma coisa útil por ele, antes de sentir-se bem com você mesmo.

3 - Você não ganhará R$20.000 por mês assim que sair da escola. Você não será vice-presidente de uma empresa com carro e telefone à disposição, antes que você tenha conseguido comprar seu próprio carro e telefone.

4 - Se você acha seu professor rude, espere até ter um chefe. Ele não terá pena de você.

5 - Vender jornal velho ou trabalhar durante as férias não está abaixo de sua posição social, seus avós têm uma palavra diferente para isso: eles chamam de oportunidade.

6 - Se você fracassar, não é culpa de seus pais. Então não lamente seus erros, aprenda com eles.

7 - Antes de você nascer seus pais não eram tão críticos como agora. Eles só ficaram assim por pagar suas contas,l avar suas roupas, e ouvir você dizer que eles são ridículos. Então antes de salvar o planeta para a próxima geração querendo consertar os erros da geração de seus pais, tente limpar seu própio quarto.

8 - Sua escola pode ter eliminado a distinção entre vencedores e perdedores, mas a vida não é assim. Em algumas escolas você não repete mais de ano e tem quantas chances precisar até acertar. Isto não se parece com absolutamente nada na vida real. Se pisar na bola, está despedido, RUA!!! Faça certo da primeira vez.

9 - A vida não é dividida em semestres. Você não terá sempre os verões livres e é pouco provável que outros empregados o ajudem a cumprir suas tarefas no fim de cada período.

10 - Televisão não é vida real. Na vida real, as pessoas têm que deixar o barzinho ou a boate e ir trabalhar.

11 - Seja legal com os nerds. Existe uma grande probabilidade de você vir a trabalhar para um deles.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Eu, Analista de Sistemas?!

Quem entrar em meu perfil do Facebook verá uma informação curiosa e que parece fora de lugar em minha biografia: a de que eu estudei Análise de Sistemas no IFSP – Instituto Federal São Paulo, antes denominado CEFET.

Só para deixar claro: não cheguei a me formar, abandonei o curso logo no primeiro semestre, portanto que ninguém pense que sou “Analista de Sistemas” :P

Passar no vestibular, especialmente numa Universidade Pública é um sonho almejado por todos os vestibulandos e creio que alguns se sentirão mortificados de eu ter por vontade própria aberto mão de minha vaga “na Federal”. De fato, tal é lamentável. E sinto muitíssimo que como isso eu possa ter “roubado a vaga” de outro vestibulando. Esta seria minha segunda graduação, e como eu já me encontrava então empregada e razoavelmente bem-estabelecida em minha ocupação de professora, não me sentia tão estimulada a empreender todo um novo curso superior.

Mas comecemos do início desta história.

No final de 2009 meus caminhos estavam meio nebulosos, e eu me encontrava meio perdida em meus rumos. Nessas horas, dá vontade de jogar tudo para o alto, comprar uma bicicleta ou uma passagem só de ida para Alto Paraíso de Goiás. Mas meu estofo é outro. Preciso de segurança, portanto jamais abriria mão do caminho que já estou trilhando sem ter outro seguro para enveredar.

A forma responsável que eu conheço de “jogar tudo para o alto e começar de novo” é prestar o vestibular e começar uma nova trilha. Tentar um novo caminho, abrir uma nova picada. Dar uma “sacudida” no próprio status quo.

Prestar um vestibular tb é uma forma de testar-se. Verificar se tanta empáfia que nutrimos a respeito de nós próprios ainda é válida ou já expirou por caduquice. Como eu já havia passado, nos tempos do cursinho, tanto na USP como na Unicamp, eu sabia que teria reais chances de ser aprovada caso prestasse um desses vestibulares. Eu sabia que, caso passasse numa dessas Universidades, eu simplesmente não teria coragem de abrir mão da vaga, teria que fazer juz a ela. Para tanto, seria obrigada a me mudar de Rio Claro, deixando uma avó Tula na mão, e abandonar meus 2 empregos, sem nenhuma garantia de sustento após minha mudança.

Mudar de cidade ou “sair de casa” para fazer faculdade é uma aventura à qual apenas nos podemos lançar se temos alguém que nos dê back-up, que nos apóie e garanta nosso sustento durante os estudos. Com isso contei durante minha graduação em História na USP. Mas meu avô Vicente faleceu assim que me formei, e eu não teria nesse segundo curso quem “me garantisse” que eu não iria passar fome ou ter que me degradar, como infelizmente muitas universitárias fazem, o que para mim sempre esteve completamente fora de cogitação.

Voltemos portanto a 2009, comigo à procura de um novo rumo. Não tive coragem de me inscrever num “vestibular”, mas ainda assim pretendia “me testar” para ver se eu continuava tão afiada como à época em que passei em meu primeiro vestibular. O melhor jeito de “me testar sem compromisso” seria fazer o ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio.

Eu já havia prestado o ENEM em sua primeira edição, quando eu mesma estava encerrando o Ensino Secundário. Eram à época 63 perguntas, das quais acertei 52, o que me garantiu creio que 3 pontos a mais na FUVEST, vestibular da USP. Com os anos, o ENEM evoluiu. O número de perguntas subiu para 40 por área do conhecimento, mais uma enorme redação. Prova massacrante, em 2 dias. Na minha sala, sentei ao lado de um ex-aluno que se surpreendeu enormemente ao me ver ali, como um alienígena entre adolescentes. Talvez tenha temido que eu estivesse lá para o abduzir... rsrsrs...

A organização do ENEM fez o possível para que os testados não soubessem quais e quantas questões acertaram. Não foi disponibilizado o papel de gabarito que os alunos levam para casa a fim de conferir suas respostas. Ao perceber isso, antes das provas serem distribuídas, perguntei aos fiscais se podia deixar uma folha completamente em branco sobre a mesa para anotar e depois conferir minhas respostas.

- De jeito nenhum! Sobre a mesa, apenas lápis, caneta, borracha, RG e a ficha de inscrição.

Blz. Dei um “jeitinho milimétrico” e anotei todas as minhas respostas, dos 2 dias, em minha ficha de inscrição. E foi só por isso que fui uma das poucas que pôde conferir seus acertos. E isso foi curiosíssimo pois pude verificar que, mesmo sendo formada e professora de História, errei algumas perguntas dessa disciplina, enquanto que na área de “Linguagens e Códigos”, simplesmente, gabaritei.

Neste ENEM 2010, como creio que acontece em todas as edições, houve uma quebra de protocolo. Neste ano em particular, foi na impressão das provas amarelas, que vieram erradas, prejudicando milhões de estudantes. A minha foi a de cor azul e portanto não fui, por sorte, prejudicada pela desorganização dos assim chamados “organizadores” do ENEM.

2010 também foi o primeiro ano em que o ENEM foi utilizado como única prova de seleção para muitos Institutos e Universidade Federais, que aderiram ao SISU, Sistema de Seleção Unificado. Apurados todos os resultados, ao final de janeiro os que haviam prestado a prova deveriam se inscrever no SISU para ver se suas notas os haviam qualificado para alguma vaga em algum lugar do país.

Claro que tudo que parece tão lógico e bonitinho, no Brasil não funciona tão direito assim. Houve uma enxurrada de milhões de acessos simultâneos e, lógico, o sistema caiu. O SISU rapidamente se tornou o SIFU, bombando no Twitter. Milhões não conseguiam sequer se logar no sistema, quanto menos visualizar e selecionar suas opções.

Lá pelo terceiro dia, em hora madrigal bastante aversa, consegui me logar e verificar minha notas em cada habilidade. De cabeça, me lembro que em redação tirei creio que 821. Minha média global remontava a impressionantes 742 pontos num universo em que a “normalidade” estava estabelecida em 500.

Descobri que minha nota me habilitava para diversos cursos, em diversos estados da federação. Como não pretendia ir tão longe, verifiquei especificamente para o estado de SP. Me interessei pela vaga de “História da Arte” na recém-inaugurada Federal de Santos. Também tinha nota para diversos cursos na Federal do ABC. Mas eu não pretendia ir tão longe.

Próximo a Rio Claro, o único campus era o de São Carlos, a 1 hora de viagem. Este campus oferecia um único curso: Tecnólogo em Análise de Sistemas. Sinceramente, como sei de minhas graves deficiências em Exatas, eu jamais considerei a possibilidade de ser aprovada no vestibular de uma “Pública” para Exatas. No máximo, na Física ou Matemática, pouco concorridas. Mas não. Descobri que sim, meus 742 pontos me habilitavam como nona colocada no curso de Tecnólogo em Análise de Sistemas no Instituto Federal São Carlos, que funciona no Campus da UFSCAR.

Me inscrevi on line. :) Uma nova janela, uma nova possibilidade de um futuro radicalmente diferente, se abria diante de mim. Estudando em São Carlos, eu não precisaria me mudar de cidade. Poderia continuar morando com minha avó e todas as noites fazer a viagem de ida e volta.

Claro que os projetos imaginários sempre são mais brilhantes e têm cores mais belas que a realidade. Estudando à noite eu teria que abrir mão de trabalhar no turno que garantia a maior parte de meu sustento. Teria que empreender viagem a outra cidade 6 dias da semana, pois teria aula inclusive aos sábados pela manhã, e aula de uma disciplina tão temida quanto renomada “Lógica”... Teria que me esmerar em estudos numa área completamente estranha, com símbolos completamente desconhecidos, aprendendo linguagens completamente inauditas. Chegaria em casa depois da meia noite para ter que estar em sala de aula, a mil por hora, já às 7 da matina. Teria que abrir mão de qquer tipo de “vida social” presencial, não-virtual, que pretendesse ter. Teria que gastar os tubos com a mensalidade da van. Tudo isso elevado ao cubo, pois eram 3 anos de curso.

Mas em princípios de fevereiro não vi nada disso e tudo me pareceu translúcido quando fui, pela primeira vez na vida, à pujante cidade de São Carlos. Nem sabia o caminho. Pedi que minha amiga filósofa Rafaela me acompanhasse, pois ela já havia estado na cidade. Juntas fomos em meu carro até a UFSCAR, e com muita alegria tive companhia ao fazer minha matrícula. Só quem já passou no vestibular de uma Universidade Pública sabe a alegria que é, depois de todo um périplo, de tantos sonhos e projetos, finalmente poder entregar as cópias de seus documentos, oficializar sua matrícula e sentir-se parte de um mundo diferente, universitário. Passar no vestibular lava a alma. É uma realização que ninguém, jamais, poderá tirar de nós.

Feita a matrícula, “mexi meus pauzinhos” para possibilitar que, de fato, pudesse freqüentar o curso, realmente, a sério. Contratei a van, a R$270,00 por mês. Na atribuição de aulas, dolorosamente abri mão de pegar aulas à noite. Depois descobri que por conta disso, minha renda havia caído para menos de mil reais. Com um terço disso comprometido só pela van. Por mais sem ar que isso me deixasse, o real motivo para minha desistência não foi financeiro, mas a soma de cansaço e medo.

Cansaço pois de fato era extenuante viajar todos os dias a São Carlos. Medo pois percebi que teria, de fato, que me esforçar. Teria que quebrar minha cabeça, deglutir em poucos meses um volume inteiro de “Matemática para o Ensino Médio” só para sanar minhas deficiências escolares e poder então estar pari passu para poder me aventurar na Matemática de nível Superior.

Cálculo é algo que para mim se dá à manivela, à luz de velas, no máximo movido a vapor, carvão ou querosene. Tive medo de tentar, quebrar a cabeça, e ao final, não conseguir. Medo que nunca tive diante dos temidos professores da FFLCH, do Francisco Murari, da Márcia Berbel, da Zilda Iokoi. Por mais que suas avaliações fossem difíceis, eu sabia que poderia desenvolver meus raciocínios numa linguagem que domino e conseguiria, no mínimo, algum nível de meio certo.

Em Exatas, não há meio certo. Não há tanto espaço para análises, para outros pontos de vista. Por medo de me esforçar e, ainda assim, falhar, pipoquei, ou “amarelei”. Por 3 meses fui religiosamente às aulas, com relativo sucesso. Fazia participações e comentários que enriqueciam nossas sessões, colhendo em troca muitos olhares admirados de meus colegas, muitos já profissionais da área de informática e mais velhos que eu. Em nenhum momento me considerei “aquém dos demais”, nem nas disciplinas especificamente “exatas”. Mas ainda assim tive muito medo. No dia da primeira prova de “Matemática Básica”, para a qual eu realmente havia estudado bastante, mas não me sentia segura de dominar o conteúdo, ponderei se minha coragem era suficiente para ir e tentar, com a possibilidade real ou imaginária de recolher um retumbante fracasso.

Não me orgulho, mas admito que meu medo superou minha coragem e faltei a prova. Depois disso não tive mais coragem de voltar ao curso. Apesar desse amargor, o gosto que se sobressai ao final da degustação dessa experiência é doce. Fiz novos amigos. Aprendi coisas sobre computação que jamais sonhei saber. Conheci todo um novo mundo e as bases da linguagem da computação. Conhecimentos que já pus em prática em textos publicados neste blog.

Essa experiência também me ajudou a parar de reclamar um pouco de minha vida e parar de ver meus caminhos como fechados. Me trouxe a consciência de que, sim, eu ainda sou capaz de passar no vestibular de uma Universidade Pública, mesmo mais de 10 anos após egressa do Ensino Médio. Me mostrou que todo o mundo está aberto diante de mim, basta eu ter um foco, escolher um caminho e engendrar minhas forças. Qualquer mudança ou novo rumo que eu queira dar à minha vida está aberta diante de mim.

Basta ter coragem para decidir e força para perseverar.

sábado, 17 de setembro de 2011

A importância da delicadeza e da simpatia

Muitas habilidades essenciais à vida em sociedade não são explicitamente ensinadas aos mais jovens. E por conta disso muitos passam décadas dando murro em ponta de faca e se dando mal na vida sem ter a menor idéia do porquê.

Eu mesma só agora já adulta me dou conta do quanto girei em falso e agi contra mim mesma sem o perceber, por pouco entender quando mais jovem as “regras sociais” que regem a interação humana.

Talvez isso seja devido a eu ser portadora de algum espectro de autismo, talvez apenas pela falta de orientação em “inteligência emocional”. De toda forma, parte do erigirmo-nos como seres humanos é nos dar conta e superar nossas dificuldades.

Tenho certeza de que Deus não é cruel para nos manter presos por tempo além do estritamente necessário neste lacrimarum valle, portanto creio que Ele apenas nos mantenha aqui até adquirirmos os conhecimentos necessários e passarmos com sucesso pelas experiências que nos habilitam à candidatura a planos melhores.

Portanto, daquilo que vc tem mais dificuldade vc não deve fugir, mas encarar de frente. Só assim não precisará mais ver-se de novo diante da mesma situação, num eterno retorno na guigul nemashot ou “roda da vida”.

A “delicadeza” normalmente é uma qualidade associada às mulheres, o assim chamado “sexo frágil”. Mas ela é necessária a todos os seres humanos. Se pretendem se “dar bem” socialmente, pelo menos.

Especialmente no Brasil, é preciso aprender que tudo passa pela dinâmica da relação inter-pessoal. No Brasil a relação pessoa-pessoa (informal) sempre passa à frente das relações formais chefe-subordinado, atendente-cliente, professor-aluno, candidato-eleitor etcs.

Ou seja, antes de ser avaliado por seu chefe como “eficiente”, seu atendente como “bom cliente”, seu aluno como “bom professor” ou ao seu eleitor como “bom político”, vc será bem ou mal quisto pela sua impressão pessoal de proximidade e “amizade cativante”.

Portanto, aprendam e conformem-se: enquanto empregado, seu chefe não te avaliará pela sua capacidade de trabalho, enquanto cliente a vendedora não te atenderá “bem ou mal” pelo tanto que vc está disposto a gastar, seus alunos não te avaliarão pela quantidade de conhecimento que vc tem para lhes passar, se vc for político seus eleitores não te avaliarão pela sua honestidade e seu trabalho parlamentar: todos te avaliarão baseados em sua aparente “simpatia”. Se vc em cada ocasião em que esteve diante deles estava bem-alinhado, sorridente, de bom humor, se os saudou com entusiasmo, perguntou se “está tudo bem” e disse que, com você está tudo, sempre, ótimo.

Quando mais jovem eu não entendia absolutamente pq as pessoas perguntavam sempre ao me encontrar se “estava tudo bem” se elas, de fato, não estavam interessadas em se estava tudo bem ou tudo mal comigo. Depois de quebrar a cabeça por muitos anos compreendi que essa é uma saudação protocolar, que busca apenas confortar e reafirmar a “simpatia” das pessoas que se encontram.


Eu também não entendia a questão do “beijo de saudação”. Em países latinos, as pessoas se saúdam com um “Oi, tudo em?” arrematado por um, ou dois, ou três beijos no rosto. No Brasil, a quantidade de beijos depende do Estado da Federação. No estado de SP, um beijo basta. No RJ, são necessários 2 ou 3. E não foram poucas as vezes em que deixei cariocas com bico feito e o beijo “no ar” ao afastar meu rosto satisfeito após o primeiro beijo. Grande gafe...

Ao encontrar algum conhecido, eu sempre ficava com a dúvida se eu devia fazer o gesto do beijo ao cumprimentar ou não. Normalmente sempre optei por não o fazer, até perceber que as pessoas me julgavam antipática pelo simples fato de não haver cumprimentado-as com um ósculo.

Outra questão que sempre me foi difícil foi quando e quantas vezes eu deveria saudar meus conhecidos. Por exemplo, ao passar pelo corredor de me local de trabalho ou estudo, mesmo que só de passagem, ao ter meu trajeto cruzado com alguém que conhecia, sempre ficava na dúvida, já que não estava “de bobeira” se deveria parar para fazer um cumprimento e perguntar, mesmo sem querer saber se “estava tudo bem”. Normalmente sempre optava por seguir adiante em meu caminho.

Só me dei conta de que isso é um grande erro quando ouvi, inadvertidamente, uma colega de faculdade falar a meu respeito: “Eu não falo mais com ela, outro dia a gente se cruzou no corredor e ela fingiu que não me conhecia”. Eu não “fingi que não a conhecia”, simplesmente estava com pressa e não parei para a saudar.

Mas aprendi então que sim, toda vez que eu cruzasse por um conhecido, mesmo que eu não estivesse com vontade ou tempo para tal, sim, eu era obrigada a parar, abrir um sorriso, dar um beijinho no rosto e perguntar se “está tudo bem”, só para eu ouvir um “tudo bem” em troca e poder seguir o meu caminho sem ser julgada como “antipática”. Mesmo que eu encontrasse no trajeto 30 conhecidos, eu teria que parar, individualmente, diante de cada um deles e repetir o procedimento de interação social protocolar, ao menos se eu não quisesse me ver malquista.

Uma cena ocorrida na faculdade ilustra isso cristalinamente. Numa plenária no auditório “Fernand Braudel”, estavam meus colegas sentados em grupo, todos próximos. Quando eu cheguei, fiz um gesto coletivo saudando todos com a mão. Muitos nem responderam. Sentei-me no grupo. Um minuto depois chegou uma outra colega, bem mais popular que eu. Ela chegou e foi, de um em um, dando beijinhos individuais. Demorou uns 15 minutos, mas ela beijou individualmente a todos, inclusive eu, distribuindo sorrisos felizes. Então compreendi pq ela, mesmo sendo muito pouco brilhante, era disputada para os trabalhos em grupo, enquanto eu, que tinha contribuições intelectuais a fazer, muitas vezes era preterida. O que importava não era a capacidade de trabalho, mas a de cativar simpatia nos demais.

Ouro detalhe da interação social no Brasil é o uso de sufixos de tamanho e intensidade. E de locuções que “suavizam” ou “tucanam” o real sentido da frase. É impressionante como fazemos o uso do diminutivo e gostamos de um “inho”. Brasileiros tomam “cafezinho”, tomar “chazinho”, fazem “lanchinho” e “festinha”, na qual tomam “copinhos” de “choppinho” ou “cervejinha”.

A respeito do uso de locuções, sempre tento ser econômica e exata. Se há um verbo exato, pq usar um verbo genérico acrescido dum substantivo? Aprendi que isso se faz pelo menos motivo do emprego dos diminutos: suavizar, dar delicadeza e maior simpatia à frase.

Lembro-me ainda hoje vividamente do dia em que me ensinaram a importância da delicadeza na expressão humana. Eu tinha cerca de 13 anos. Estava no banco de trás do carro de Dona M, mãe de minha amiga T. Estávamos voltando de algum lugar em direção às nossas casa, e dona M me deixaria à porta, como sempre fazia com as amigas da filha, boa mãe que era, e ainda é.

Minha bexiga estava apertada, quase estourando, e eu profundamente incomodada disse:

- Pára no banheiro que eu preciso mijar!

Dona M fez uma cara estranha, que eu absolutamente não compreendi o sentido. Estávamos numa avenida, no meio do caminho, não dava para ela parar imediatamente, mas como eu pouco estava ligando pra isso, continuei a repetir que “precisava mijar” o mais rápido possível. Dona M não se irritou, mas com uma expressão de experiência me disse:

- Fernanda, tudo bem, já entendi, vou parar assim que der, mas deixa eu te dizer: vc é mocinha e não fica bem vc falar que precisa “mijar”. Fala que vc precisa “fazer xixi” que fica mais bonitinho.

Emborquei meu crânio 35 graus à direita em minha comum expressão de tilt diante de uma linha que não fecha e repliquei:

- Mas “mijar” e “fazer xixi” não é a mesma coisa?

Dona M. sorriu e explicou pacientemente:

- No fundo, é a mesma coisa, mas falar “fazer xixi” é melhor para uma mocinha. Quem “mija” é quem não tem educação. Sua mãe nunca te ensinou isso?

Naquele momento, sentada no banco de trás do carro de Dona M, comecei a suspeitar que eu era uma coadjuvante elencada a contragosto numa grande farsa. Demorei mais 15 anos para ter certeza absoluta disso. De que quem deveria zelar pela minha educação e pelo meu bem-estar estava pouco se lixando em me ensinar as coisas mais importantes que precisamos aprender na vida. Demorei décadas para perceber que quem deveria me promover e ajudar estava a me sabotar e prejudicar. Então dei um sorriso búdico e entendi pq sempre me ornei de ícones que afastam a inveja: joaninhas, pimentas, espadas de são-jorge, olhos gregos. Eu sabia inconscientemente que o inimigo estava muito próximo.

Pelo menos agora posso ver claramente, e talvez ajudar a orientar outros que como eu não puderam contar com uma boa educação emocional.

Portanto, fica a dica. Na próxima vez que vc se ver diante de uma copeira, se vc virar e dizer simplesmente “me traz um café”, a chance de beber um bom café é de 35%. Já se vc se aproximar com um sorriso, perguntar o nome dela, disser “Oi, tudo bem?” e pedir por um “cafezinho” assim, no diminutivo, as chances de beber um bom café saltam para 85%. E isso se replica em todas as situações de interação humana.

É preciso, sempre, delicadeza e simpatia. Mesmo que vc não esteja com saco para isso. Mesmo naqueles bad hair days, em que tudo dá errado e vc está se sentindo péssimo, vc deve saudar entusiasmicamente a todos com sorrisos efusivos, perguntar como eles estão e dizer que com vc está tudo, sempre, ótimo. Se agir de outra forma, vc corre o risco de os outros acharem que vc está "virando a cara" e sendo provocativamente mal-educado em relação a eles.


Dave Matthews Band – Mother Father


Danuza Leão


Alanis Morissette – You learn


Christina Crawford – Mamãezinha querida


William Shakespeare – Hamlet


“Miss Congeniality” – Miss Simpatia


sábado, 20 de agosto de 2011

Da força histérica. Ou da última vez que entrei em luta corporal


Quando, leitor, foi a última vez que vc entrou em luta corporal?

Arrisco-me que a dizer que a ser homem o leitor ele pensará “Há alguns meses” e a ser mulher, pensará “Há alguns anos”. De certa forma a disputa é injusta, pois o organismo masculino bomba testosterona em quantidades muito superiores ao organismo feminino, propiciando-os a reações violentas. Agradeço a Deus por ser mulher e não ter minha disposição psicológica viciada por hormônios que me tornem propensa à violência. Inclusive, em meu último hemograma, o nível de testosterona estava abaixo da média até para as mulheres, e creio que isso seja parcialmente responsável por algo de minha “placidez”. Será que somos apenas títeres de nossos hormônios? Talvez, e não somente.

Um chimpanzé de 50 kgs tem 5 vezes a força de um humano de 50 quilos. Para além das diferenças musculares entres as espécies, soube recentemente por um documentário na TV a cabo que seres humanos têm latente e inexplorada força muscular semelhante a de nossos primos-irmãos símios. Porém humanos têm mais desenvolvido que os chimpanzés o córtex frontal, a sede da razão, que nos humanos limita o acionamento das fibras musculares. Somos mais fortes do que nos achamos.

Essa capacidade muscular latente não pode ser acessada intencionalmente, apenas em situações em que a atividade do córtex frontal é cerceada por estímulos mais poderosos que os da razão. Como o instinto de preservação da espécie. Portanto esta força “extra” dorminhoca é colocada em ação em situações que fogem à “normalidade”. O nome disso é “força histérica”, acionada quando a razão é suprimida e o instinto aflora.

Leitor, vc é capaz de, sozinho, suspender e mover um carro que pesa mais de 1 tonelada? Creio que mesmo os halterofilistas dirão que não. Pois é, leitor, vc é capaz. Dependendo de quem é vc e de quem está debaixo do carro. Se vc estiver completamente histérico, vc conseguirá. Se vc como transeunte ver um desconhecido ser atropelado e gemer embaixo de um carro, vc não conseguirá fazer nada por ele. Já se a pessoa embaixo do carro for seu filho, aposto e ganho, mesmo a mais mignonzinha das mães, é capaz de levantar mais de uma tonelada ao acionar plenamente sua força histérica, que ela nem sabe que tem. No programa televisivo citado mostraram 3 casos de parentes e amigos que diante de acidentes moveram, sozinhos, veículos automotores para livrar pessoas de sua estima de um perigo iminente de vida.

Assistir ao programa fez-me pensar sobre se algum dia eu acionei minha força histérica. E cheguei à conclusão de que sim, há 20 anos. Na última vez em que entrei em luta corporal com alguém. Esta não foi a derradeira vez em que fui ameaçada de ser agredida fisicamente, mas foi a última situação de perigo físico a qual não pude me furtar de levar ao cabo.

Eu tinha 9 anos.

(Creio que o número é auto-evidente...)

Estava na terceira série na Escola Estadual Jackson de Figueiredo, na rua Itapura, a menos de 100 metros da vila operária do Tatuapé na qual eu residia, à pensão de Dona Rosa Ross da Silva. Naquele dia eu fui à escola com a tiara mais linda que eu tinha, branca, com rendinhas e uma bonequinha em cima. Eu amava a minha tiara. Durante o intervalo um menino da minha sala, sob pretexto de estar brincando, arrancou a tiara da minha cabeça e começou a me gozar.

Eu tinha 9 anos e meus brios virginais se exaltaram como só alguém que não tem o rabo preso com nada nem com ninguém pode se pavonear. Já com a cara vermelha, corri atrás dele pelo pátio berrando:

- Devolve meu arquinho AGORA!!!!

Demos algumas voltas, ele rindo-se, eu urrando de raiva. Era minha tiara mais preciosa. Num canto ele parou, e eu em frente a ele. Disse num tom de deboche pelo fato de eu ser menina:

- Vc quer seu arquinho? Vem pegar! Quero ver conseguir!

Aí ele me ofendeu. Para além de desdenhar de mim como sua colega, ele estava a tripudiar de minha condição feminina! Avancei um passo em sua direção e ele, achando que com isso romperia meu intento e me poria a chorar, segurou o arquinho entre as duas mãos e Ták!, o quebrou ao meio. Tanto ele quanto eu desconhecíamos a existência da força histérica. Ele a descobriu dolorosamente, e eu com espanto.

Arquinho quebrado, no átimo seguinte lhe dei um soco no peito com uma força que eu não sabia ser capaz e meio instante depois apliquei-lhe uma rasteira nas pernas com uma destreza que eu não sabia ter. Ele caiu pra trás e sua cabeça fez um barulho seco ao atingir o chão. Por meio segundo temi tê-lo matado. Mas rapidamente ele começou a chorar como uma menina. Como eu, sendo menina, jamais chorei em público. Portanto, retifico: ele não chorou como uma menina, chorou como uma bichinha. Com todo o respeito aos homossexuais. :)

Lembro-me ainda hoje com prazer da sensação de arrancar meu arquinho, mesmo quebrado, de suas mãos, enquanto ele se debulhava em lágrimas. E de como caminhei altiva para o grupo de minhas amigas e de como elas passaram a me respeitar muito mais depois de eu demonstrar ser capaz de fisicamente me impor contra um menino, tê-lo posto para chorar e dado-lhe uma bela lição.

Neste dia voltei pra casa com meu mais lindo arquinho de cabelo quebrado. Mas com a sensação triunfante de saber que menino nenhum era páreo para mim. E com a certeza de que eu jamais me deixaria subjugar fisicamente por um homem.

Este coleguinha foi o último homem a se impor fisicamente contra mim. Nunca fui atrás de namorados que se dessem ao desplante de cogitar me agredir. Talvez isso seja devido à auto-confiança que este episódio infantil me garantiu. Ou à minha falta de vocação para mulher de malandro, daquelas que saem engravidando em seqüência.

Este episódio demonstrou-me que eu, com a minha coragem, sou páreo para qualquer desafio. Mesmo que num primeiro momento tal pareça fisicamente impossível. E de como era delicioso o gosto de ser respeitada, e até temida, pelos demais.

sábado, 28 de maio de 2011

Da Matemática não calculada

A “Matemática” é uma das disciplinas mais temidas da grade curricular escolar. Excessivamente teórica e abstrata, esta matéria sempre foi para mim um tormento com cálculos sem nenhum sentido, envolvendo encontrar infinitas vezes um X sem nenhum propósito real.

A Matemática, a Física e a Química nos atemorizam, assustam e intimidam com suas intrincadas fórmulas. As incógnitas quase nos dizem: “Decifra-me ou te devoro”. Nunca me dei bem nem em Matemática nem nas demais Ciências Exatas: Física e Química. Destas três disciplinas, sinceramente, pouco me lembro e muito as temi na hora do Vestibular. Lembro-me inclusive de na sétima série ser interpelada por uma professora de Matemática inconformada:

- Fernanda, vc é tão inteligente, como que vc não consegue ir bem em Matemática?

Nunca soube o pq. Mas apesar de não “ir bem” nunca foi problema conseguir o 5 mínimo para passar de ano, nem em Matemática, nem em Física, nem em Química. Se serve mais uma ilustração cristalina, fiz cursinho pré-vestibular por 2 anos consecutivos. No primeiro, sendo pagante, simplesmente prescindi de participar das aulas de Física e Matemática após o segundo mês de aula. Tendo já feito amizades com os colegas de sala, minhas aulas de Exatas se transformavam em sessões de boteco e videokê ao lado de Aline, Thiago, Thales e Henrique. No meu segundo ano de cursinho, no qual era bolsista integral, eu era obrigada a ter freqüência exemplar, de mais de 90%, e portanto assisti, integralmente, uma a uma, todas as aulas de Exatas. Pq isso é relevante? Pq ao final destes 2 anos prestei o vestibular da USP obtendo exatamente a mesma pontuação na primeira fase. Em poucas palavras: um ano inteiro de aulas de Física e Matemática no Cursinho não fizeram absolutamente nenhuma diferença em meu desempenho no vestibular. Essas matérias simplesmente não entram na minha cabeça, ao menos da forma excessivamente teórica e abstrata como são ensinadas atualmente.

Contudo sempre me fascinou como algumas pessoas têm um talento natural, instintivo até, para os cálculos. Os realizam quase sem pensar, automaticamente. Um filme que mostra isso de forma ilustrativa é “Little Man Tate” no qual Jodie Foster interpreta a mãe de um menino superdotado, com talentos matemáticos que é descoberto por uma professora universitária interpretada por Diane Keaton. Numa competição de Matemágicos ele dá imediatamente as respostas a cálculos complicadíssimos, sem nem pensar, num piscar de olhos. Há também o ótimo livro infanto-juvenil “O homem que calculava” de Malba Tahan que conta a história das mil e uma noites de um prodígio dos cálculos sem números nem fórmulas.

Longe de mim situar-me em nível de qquer tipo de prodígio matemático, uma vez que esta linguagem me é mais indecifrável que o próprio grego. Creio que seria-me mais fácil aprender Mandarim do que tornar-me fluente em Matemática. Contudo, apesar deste meu analfabetismo, ou anadigitismo, de alguma forma consegui passar em dois dos mais disputados vestibulares do país (USP e UNICAMP – nesta segunda caíram “Exatas” até na segunda fase) e me saí muito bem nas duas vezes que fiz o ENEM inclusive em habilidades matemáticas pois, apesar de ser incapaz de colocar os dados nas fórmulas, calculá-las e chegar numericamente a algum X, sempre fui capaz de “ponderar” os dados e, intuitivamente, de alguma forma, chegar em um resultado, às vezes correto.

O causo pessoal curioso que ilustra esta questão se passou recentemente, não em ambiente escolar. Eu estava participando de um almoço familiar ao qual estava presente um engenheiro civil, também graduado pela USP. Ele contava-nos feliz que ia instalar uma “Tirolesa” e seu sítio, para se divertir.

Quem não sabe ao que me refiro: “Tirolesa” é o nome de um “esporte radical”, ou técnica de arborismo. É quando um cabo de metal é suspenso e preso pelas pontas em dois apoios altos. O “esportista” se pendura de um lado do cabo apoiado em uma roldana. O “esporte” consiste na pessoa deslizar aceleradamente de um ponto a outro da corda, finalizando a “diversão” ao pular no riacho abaixo do ponto mais baixo do trajeto. Coloquei as aspas pois minha própria natureza algo preguiçosa é aversa a qquer tipo de esporte que envolva risco de se esfolar, se molhar, quebrar algum osso ou afins. Ainda mais num equipamento que não foi instalado por profissionais da área.

Por exemplo, eu até poderia ser convencida a “me jogar” numa Tirolesa instalada num parque de diversões com alvará do Corpo de Bombeiros. Jamais numa Tirolesa improvisada. Por conta disso perguntei ao autor do projeto que, afinal, era engenheiro:

- Na faculdade vc fez ao menos teoricamente alguma coisa parecida com isso?

Respondeu-me que não.

A conversa prosseguiu a respeito de como seria instalada a Tirolesa até que alguém levantou o ponto da aceleração que a pessoa poderia atingir, e se fosse muito alta, se a pessoa poderia machucar-se ao cair no riacho. O engenheiro disse que a velocidade não seria alta, chegaria a algo em torno de 15 kms/hora. Estranhei, meneei a cabeça e discordei:

- Imagina! 15 kms/hora é a velocidade na qual eu caminho. Uma pessoa alcançaria 50 kms/hora.

O engenheiro discordou, achou ser excessiva a minha cifra. Pediu papel e caneta e pôs-se a fazer cálculos com fórmulas desconhecidas e, para mim, herméticas. Orçou a resistência da roldana, o comprimento e a inclinação do cabo. Após vários minutos e cálculos depois chegou a um número em metros por segundo. O qual, sinceramente, eu era incapaz de orçar em kms/hora. Ele próprio fez a conversão e após escrever o número no papel olhou-me com expressão atônita e mostrou-me o resultado final: 50 kms/hora.

Sinceramente eu não tinha a menor idéia de que eu chegara intuitivamente, com minha Matemática não calculada, ao resultado correto, mesmo a desconhecer os dados e fórmulas de cálculo. Apenas ponderei algo no qual eu mesma não acredito existir (bom senso), lembrei-me das Tirolesas que já vira, lembrei-me que o mostrador dos elevadores orçam o peso médio das pessoas em 70 kgs. E uma outra informação da qual creio que o engenheiro não dispunha. Na virada do século XIX para o XX muitos engenheiros temiam sobremaneira colocar motores potentes nos carros pois havia certa crença “científica” de que se o corpo de um ser humano fosse acelerado acima de 60 kms/hora ele se desintegraria. Isso é muito ilógico hoje, mas em épocas pré-traquitanas mecânicas parecia perigoso e antinatural acelerar de forma tão exacerbada o frágil organismo humano.

Claro que não me conti em minha arrogância e não perdi a oportunidade de me auto-afirmar:

- Viu? Pra que tanto cálculo, tantas fórmulas, tantos X e tantos Y? Eu, sem saber de nada disso, ponderei o resultado correto.

P. S.: Hoje, assistindo aos Mithbusters, o episódio quebrou um mito envolvendo o escorregar sobre uma rampa molhada e jogar-se sobre um lago. E curiosamente a velocidade que calcularam cientificamente repetidas vezes para os corpos lançados nesta espécie de trampolim foi... Vcs conseguem adivinhar?... De 50 kms/hora. Curioso, não?

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