terça-feira, 9 de outubro de 2012
Pequenos detalhes determinantes
Nunca tive uma única aula de espanhol, ou castelhano, em toda minha vida. Contudo, alguns poderão auferir q por mais roto q seja meu portunhol, me saio muito bem na comunicação com interlocutores fluentes apenas nesta língua, seja oralmente ou por escrito. Já li livros inteiros em castelhano.
A compreensão desta língua veio-me como uma espécie de bônus dum costume q cada vez mais progressivamente cairá em desuso: a telespectação passiva de programas de TV. Com os avanços da internet e dos novos gadgets, as novas gerações não mais assistirão, passivamente, a milhares de horas de programação televisiva, como ainda faço.
Muitos acham, com certa razão, q "na TV só passa lixo". Mas mesmo no "lixo" podemos encontrar materiais úteis e reaproveitáveis.
Como boa brasileira, sempre fui noveleira. Como adolescente romântica e boba, tb acompanhava as novelas mexicanas q passavam no Brasil. Até q, zapeando naqueles "canais lixo" da TV a cabo, encontrei uma pérola: "El Canal de las Estrellas", a rede internacional da Televisa mexicana. Fiquei exultante pois não mais precisaria esperar q as novelas envelhecessem para só então serem transmitidas no Brasil: eu poderia assisti-las fresquinhas, diretamente da fonte. Em espanhol.
No começo, "boiei" bastante, pouco entendia. Mais acompanhava as imagens, expressões e situações do q compreendia aos diálogos. Porém, como assistia diariamente, a umas 3 produções diferentes, com o passar dos meses a barreira da língua caiu. Passei a compreender as falas, as coisas escritas, a identificar os falsos cognatos, expressões q não tinham correspondente em português, adquirindo a "musicalidade", o ritmo diferente q se usa ao falar em espanhol.
Alguns capítulos gravava, e até decorava. Percebi q as pessoas q o estudavam eram péssimas em espanhol e tinham forte sotaque pois articulavam sua fala como "brasileiros tentando falar espanhol". Compreendi q assim ninguém se torna fluente. É necessário criar um novo "diretório raiz" e nele inserir a língua estrangeira. E não, como a maioria das pessoas fazem, no diretório de sua língua nativa "abrir novas pastas" com as equivalências entre a língua q já se sabe e a q se está aprendendo. Não devemos "pensar em português" e então traduzir pro espanhol, mas sim pensar diretamente em espanhol. Apenas assim se compreende e usa a língua em sua plenitude, se apropriando de sua "equação gramatical única" e sua musicalidade específica.
Ao me ver assistindo essas novelas, meus familiares reviravam os olhos de forma condescendente, vendo nisso apenas infantilidade e perda de tempo. Não poderiam estar mais errados. E outro costume meu era visto da mesma forma: minha verdadeira compulsão pelo jogo Sid Meier's Civilization II.
Joguei a versão I, II, II Multiplayer, Call to Power e IV. De todas, a II sempre foi minha favorita. Gastei milhares, seguramente milhares, de horas nesse jogo. Era comum passar um dia todo jogando, até 12 horas seguidas, e só parar quando a tendinite no indicador direito me obrigava, pelos sucessivos cliques no mouse.
Acredito q essas milhares de horas foram fundamentais para o desenvolvimento da minha capacidade de articular pensamentos complexos e minha ampla memória "RAM".
Para quem nunca o jogou: em Civ II começamos com uma unidade, fundamos uma cidade e essa cidade produz novas unidades, de guerreiros e fundadores de cidades. Vc vai aos poucos iniciando novas cidades, ampliando seu "império", elas vão crescendo de tamanho, é preciso administrá-las, optar entre diversas formas de governo, adquirir novas tecnologias, guerrear com outros povos e conquistar suas cidades para, no final vencer de 2 formas: ou dominando o mundo ou chegando a Alfa Centauro com uma nave espacial.
Acredito q este jogo foi determinante no meu desenvolvimento mental pois para ser bem sucedido nele é necessário agir e pensar como um maestro regendo uma complexa sinfonia. Articular, equilibrar, orçar, apaziguar, planejar, negociar diplomaticamente, saber o tempo certo de fazer paz e guerra. Tudo isso como um malabarista, com muitas "bolas" em jogo. Se cada uma dessas "bolas" a não se deixar cair for uma de nossas cidades, podemos chegar a ter dezenas, ou até centenas delas.
E a cada novo turno é necessário lembrar-se de sua posição geográfica (num planeta com continentes sempre diferentes), seus planos para ela, o q ela está produzindo, se está em zona de guerra, se está em revolta ou precisa ser pacificada, suas rotas de comércio, quais instalações já foram nela construídas e quais precisam ser erigidas, quais têm "Maravilhas do Mundo", quais são mais suscetíveis a espionagem e subversão, e como cada um desses paradigmas se comporta em cada forma de governo.
Cada jogo pode levar dias, ou semanas. E a cada vez q desligamos o computador e vamos jogar no dia seguinte, é necessário o reboot imediato de todas essas informações, muito detalhadas. Falhas de memória ou incapacidade em manejar tantas informações complexas simultaneamente resultam na incapacidade de vencer, mesmo no nível mais fácil. E eu triunfei dezenas de vezes no nível mais difícil, no qual a inteligência artificial do jogo é verdadeiramente desafiante.
Acredito q foi justamente o jogar Civ II q lapidou ou treinou meus neurônios para articular coerentemente e simultaneamente informações complexas e até conflitantes. É o q me possibilita, por exemplo, ler um texto e às vezes parar numa espécie de "tilt" ao atinar "peraí, há umas 50 páginas atrás afirmaram uma coisa q não casa com o q está escrito agora". Ou então estudando a Torah perceber "hum, acho q essa lei de Deuteronômio dialoga com aquela outra lei de Levítico" e assim inferir conexões e reflexões não-óbvias.
É curioso perceber como estes 2 detalhes, essas 2 coisas q fiz por puro prazer, resultaram em ganhos q não previ. Por isso jamais devemos subestimar as atividades nas quais nos envolvemos pois tudo, tudo mesmo, serve de aprendizado. Milhares de horas q, à vistas dos outros, eu desperdiçava, resultaram em muitos ganhos cognitivos.
Aos pais, e a todos, fica então o conselho: estimulem seus filhos e propiciem a si próprios experiências amplas, diversificadas. Não necessariamente "educativas". Não apenas o q se diz "pedagógico" serve ao nosso aprendizado. Se vc for criança ou adolescente, procure assistir a canais estrangeiros, vc pode de repente se descobrir fluente em outra língua, sem ter gasto um centavo e se divertindo no processo. Usem jogos complexos e estratégicos, não se limite aos joguinhos de corrida e luta.
O resultado de estimular-se de diversas formas pode ser a diferença entre vc se situar apenas "na média" ou se destacar entre os demais. Todas as habilidades q desenvolvemos, mesmo q pareçam não ter aplicação imediata, contribuirão para tudo q fizermos no futuro, mesmo q não tenha ligação com novelas mexicanas ou jogos de computador.
terça-feira, 8 de março de 2011
De como me perdi na praia quando criança
É triste como no Brasil é comum o desaparecimento de crianças. Lembro-me que fui conscientizada a respeito disso, quando criança, da forma comum aos brasileiros informarem-se sobre seus dramas sociais: através de uma novela. Ia ao ar Explode Coração, da ótima novelista Glória Peres, cujos temas principais eram a tradição cigana e os amores nascidos pela Internet (no triângulo amoroso Thereza Seiblitz, o “cigano Ígor” Ricardo Macchi e Edson Celulari), e tinha como alguns de seus temas secundários o cross dressing (na “drag queen” interpretada por Floriano Peixoto) e as crianças desaparecidas (na lindamente sofredora Isadora Ribeiro).
Em outros países, quando some uma criança, comum é pensar-se que foi seqüestrada, possivelmente por algum maníaco pedófilo. No Brasil, em que até há maníacos pedófilos, mas em menor quantidade, quando uma criança some-se, imediatamente pensa-se que ela está, simplesmente, perdida; talvez que foi roubada por uma louca querendo ser mãe, ou talvez tenha sido levada por uma quadrilha internacional que vende crianças para adoção ou tráfico de órgãos. Se rica, talvez pedirão resgate.
Casos notórios de crianças desaparecidas são o do menino Pedrinho, que inspirou outra novela, já citada, “Senhora do Destino”. Caso parecido foi retratado no filme “The Deep End of the Ocean”, cujo título em português expressa bem melhor o sentimento da meio rio-clarense Michelle Pfeiffer: “Nas Profundezas do Mar Sem Fim”. Temos também os tristes episódios das austríacas Natascha Kampusch e Elizabeth Fritzl. Coroados pelos casos ainda em aberto de Mddeleine McCann e da arquiduquesa Anastásia von Romanoff. Imagino que um dos maiores temores de qquer mãe é ter um filho, pior do que falecido, desaparecido. A incerteza é uma tortura incessante.
É reflexivo ver hoje em perspectiva que poderia eu tb ter engrossado estatísticas, sido vendida em adoção a algum casal europeu, dado ser eu branca, ou talvez sido mantida em cativeiro por algum pedófilo, pois lembro-me de quando vi-me indefesa, completamente sozinha, à mercê da sorte. E não azar, Deus seja louvado.
Contava eu 5 anos de idade. Toda a minha família estava em casa “de temporada” alugada em Santos, durante as férias de verão. Certo dia fomos à praia as mais jovens, e ficaram em casa meus avós. Estávamos, portanto, na praia: Regina, Patrícia, Cristhiane, Jaqueline e eu, com 5 anos de idade. Ora, a balzaquiana Regina provavelmente estava na praia para tomar cerveja e “chill out”. As 3 adolescentes provavelmente estavam na praia para “pegar um bronze” e “pagar de gatinhas”. Eu estava lá pelo único motivo que as pessoas deveriam ter para ir à praia: nadar no mar e fazer castelos de areia.
Já enfadada com meu castelo completo, disse que queria entrar na água. Nenhuma das demais estava interessada. Protestei, insisti. Regina então ordenou que Jaqueline fosse ao mar comigo. Levantou-se, algo reclamando, mas foi, e brincamos por algum tempo, que não sei precisar. Disse-me a certa altura que já era suficiente, que queria voltar à areia. Eu não estava satisfeita. Queria brincar mais no mar, com as ondas. Disse que continuaria ali. Atalhou-me Jaqueline:
- Vc é pequena e não pode ficar sozinha na água. Vc pode se afogar, ou se perder.
Regressamos ao grupo. Ela deitou-se e eu protestei para as demais que queria continuar a nadar, afinal, para que estávamos na praia?! Cristhiane e Patrícia disseram num muxoxo que não queriam se molhar. Regina olhou-me com a expressão de desdém que tantas vezes inferi em seu semblante e disse-me:
- Pode ir sozinha, mas fique no rasinho, e não se afaste de nós. Vou ficar de olho em vc.
Senti-me algo alegre de que ela tivesse confiança em mim de que não me suicidaria pelo simples fato de ser criança. Sempre soube nadar e considerei que a questão do possível afogamento não era um problema. Perder-se poderia ser um problema, por isso pus meus pensamentos a atinar e, enquanto ultrapassava a terceira onda, voltei meu olhar atrás para marcar bem nosso guarda-sol que era único: desenhos gráficos em laranja, típicos da modernidade da década de 1960. Numa palavra: psicodélico. Desconhecia eu então a palavra “psicodélico”. Conhecesse, talvez tivesse podido descrevê-lo melhor aos que me acharam, e tivesse sido mais rapidamente repatriada. Fixei o desenho amalucado do guarda-sol em minha mente e entrei, despreocupada no mar. Afinal: alguém responsável estava de olho, né?
Ledo engano. Passou-se algum tempo. Desconhecia eu então a existência das correntes marítimas e achei que seria fácil quando eu estivesse cansada, simplesmente andar reto de volta à praia e procurar pelo guarda-sol único. Cansei-me e retornei à areia. Procurei ao guarda-sol. Sem sucesso. Sem sucesso. Sem sucesso.
Desconhecia eu que havia sido deslocada lateralmente pelas correntes marítimas algumas centenas de metros. Não me lembro se simplesmente comecei a chorar e alguém me abordou ou se eu pedi ajuda a alguém. Recordo-me de explicar para um grupo que estava a procurar minha família. E que nosso guarda-sol era com desenhos da cor de laranja.
Procuraram por algum tempo. Disse-lhes então que poderiam-me levar, de carro, para nossa casa, pois lá estavam meus avós. Perguntaram-me se eu saberia levá-los até à casa. Claro que podia, e concluí:
- Nossa casa fica perto do mercadinho Tropical. Chegando no mercadinho, é bem pertinho.
De fato, a nossa casa ficava perto do mercado Tropical. Porém não a casa alugada em Santos, mas minha casa permanente em Rio Claro. Mas eu era criança e não tinha noção de que Rio Claro, na verdade, fica há mais de 200 quilômetros de Santos. Era logo ali, estava eu certa.
De alguma forma consideraram razoável levar-me, guiados por uma criança de 5 anos, de carro, para meus avós. Lembro-me que fui trazida pela mão por um homem algo idoso para seu carro. E lembro-me que entrei, voluntariamente, de bom grado, sem nenhuma preocupação de que eu estivesse a correr qquer risco, no carro de um estranho. Guiado por minhas indicações, aquele senhor rodou por algum tempo, obviamente sem encontrar ao mercadinho que eu estava segura de ser tão pertinho.
Para minha sorte, ou por Divina Proteção, ele não tinha nenhuma intenção escusa a meu respeito. Quando percebeu que eu era incapaz de indicar a localização da casa, perguntou-me se eu lembrava onde haviam estacionado o carro.
É claro que eu lembrava. Encontramos a Caravan dourada, estacionada ainda no mesmo lugar. Considerou o senhor meu protetor em deixar um bilhete escrito no pára-brisa do carro avisando que eu fora encontrada e que me deixaria no Corpo de Bombeiros. Levou-me ao grupamento, onde passei algum tempo que não posso precisar na companhia dos soldados de bermudinha quando de súbito apareceu Regina, com o bilhete deixado no carro entre as mãos. Não pareceu-me preocupada, mas simplesmente enervada e aborrecida pelo dissabor.
Curioso é que, mais do que ela ter me procurado e encontrado; eu, aos 5 anos, fui a secundária responsável por ter sido repatriada. E que a Divina Providência seja a principal responsável por eu não ter tido minha trajetória vulnerável interceptada por um maníaco pedófilo, ou ter-me perdido “para todo o sempre”...
O motivo da feitura deste texto não é apenas expurgar uma má e antiga memória, mas alertar ao pais para que não deixem seus filhos pequenos vulneráveis na praia, pois eles podem não ter a mesma sorte que eu tive de encontrar pessoas honestas em seu caminho.
Alertem a seus filhos para JAMAIS entrarem no carro de um estranho, por mais “amigável” que ele pareça. Ensinem-lhes a, sempre, procurar um “guarda”, policial, ou bombeiro. E que, na praia, deve-se tomar como ponto de referência algo maior que um guarda-sol, como um quiosque ou prédio particular da orla. Outras vezes em que, ainda criança, entrei no mar sozinha, fui mais esperta: guardei em minha memória à frente de qual prédio estava a entrar no mar. E não deu mais erro.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
Da polissemia dos termos – Benjamin e as jornalistas da Globo
Muitos dos leitores talvez não saibam ao que me refiro pelo objeto “benjamin”. Só me dei conta disto com largos 25 anos. Num final de ano, naquele triste e calendáricamente obrigatório apenas na FEBEM dezembro, como se não houvesse nada mais a ensinar no final do ano, após as provas e contagem dos vistos, preparei-me para passar um filme para os alunos.
Qual? Apollo 13. Banal? Talvez. Tarimbado? Com certeza. Mas para os expectadores “menores”, inédito. Metade talvez nem reconheceu em Tom Hanks quase um clichê cinematográfico. Disse um destes:
- Não é o cara das raquetadas?
Referia-se a Dan Stulbach, que agredia sua esposa às raquetadas numa novela de Manoel Carlos. Qual nome? Impossível lembrar dada a pouca criatividade deste autor em batizar obras e protagonistas. Talvez tenha sido “Páginas da vida” ou “Viver a vida” ou “Por amor”. Seguramente ambientada no Leblon. (E que fique claro que a-do-ro Manoel Carlos, suas novelas e suas Helenas). Para a maioria das pessoas é Dan Stulbach que assemelha-se a Tom Hanks. Para quem nunca foi ao cinema, é Tom Hanks que assemelha-se a Dan Stulbach.
Eu, e creio que meu leitor, já fomos mais de uma centena de vezes ao cinema. Muitos de meus alunos nunca. Este é o tipo de dado do qual se desconfia e se considera exagerado ou impossível. A alguém de classe média. Mas é constrangedor quando auferido in loco. Pode descrer-me com certeza o leitor que nunca pisou numa instituição prisional, e por isso o relevo, por ver-me consciente que eu mesma veria-me desconfiada desta afirmação antes de trabalhar na FEBEM – Fundação CASA.
Portanto, a quem duvidar de que muitos de meus alunos nunca pisaram num cinema, pergunto: “Vc já trabalhou na FEBEM?”
À negativa seguramente coletiva, prossigo. Para ligar a TV e o DVD, eu precisaria de um benjamin. Como não o encontrasse, dirigi-me à agente educacional terceirizada da ONG:
- Me traz um benjamin?
Ela olhou-me com um olhar perdido que não compreendi. Virou-se para um lado, outro, e respondeu-me como a me pedir desculpas:
- Professora, não tem nenhum Benjamin aqui, nem interno nem funcionário...
Contraí as sobrancelhas e conti o riso. Dei-me conta de que “benjamin” talvez fosse uma gíria paulistana, uma vez que o nome não remetia imediatamente ao objeto num outro ambiente. Tive então uma grande lição acerca da polissemia dos termos. Para mim um benjamin sempre fora um benjamin. Para outrém, seria o nome de alguém. Principiei a descrever: queria um adaptador de tomada, com várias saídas, etcs.
Aliviada, respondeu-me:
- Ah!... A senhora quer um “T”.
- Isso, um “T”.
Para mim a letra “T” assim, no maiúsculo, lembra pulsões primitivas e vulgares. Para a senhora que ganhava menos que eu pra dar expediente de muito mais largas horas, não. Era um singelo adaptador de tomada.
A lembrança deste fato acorreu-me ao ver a proeminente barriga de Rosana Jatobá ao anunciar o clima no “Jornal Nacional”. Esta postagem e tudo que escreverei depois desta frase constranger-me-ão no futuro, disto estou apercebida, mas o redijo para eternizar dois impulsos arquetípicos instintivamente machistas que tive hoje.
Acerca de Rosana Jatobá, grávida dos gêmeos Lara e Benjamin. Não sei pq, mas enquanto ela anuncia chuvas e secas, eu não conseguia olhar para o mapa, mas apenas para sua gigantesca barriga. Preconceituoso e neurótico? Com certeza, mas há algo de estranho em ver uma grávida expondo-se publicamente. Não sei como, mas Rosana Jatobá muito bem vestida no Jornal Nacional constrange, em 2010, quase tanto quanto Leila Diniz chocava de biquíni, na década de 70. E eu não sei por quê. E é animador que a grandiloqüente Rede Globo tenha já hoje a audácia de expor, e até comentar nacionalmente, a gravidez abençoada da “moça do tempo”. É quebrando paradigmas que uma empresa se coloca àfrente das demais.
Outro paradigma quebrado pela Rede Globo assisti hoje pela manhã. Este foi um dia típico, ou atípico, dependendo da localização geográfica de quem fala. Para uma interiorana caipira paulista, típico. Para um morador de um morro carioca atípico.
Para o leitor que desconhecer a que me refiro, uma anedota:
Como vc pode ter certeza de que a segurança púbica brasileira não existe?
– Quando o programa da Ana Maria Braga vira plantão policial.
Disse exatamente isso pra minha avó, acrescido dum:
- Será que ela não tem o programa dela pra apresentar? Dar receitas, dicas de decoração, falar sobre Princess Kate?
Pois é, diante da guerra urbana carioca, as receitas da globalmente engessada Ana Maria Braga são postergáveis: urge alertar sobre os ataques narco-terroristas, o que em outros tempos recairia à Record. Urge acrescentar aos da Globo que emasculam e tolhem à joaquinense Ana Maria: ninguém assiste ao “Mais Você”. Os telespectadores assistem ao programa da Ana Maria Braga, qual seja seu nome ou canal. E quanto mais “Mais Você” e menos o “programa da Ana Maria Braga” ele se torna, mais audiência perde.
O que isso tem a ver com meu machismo psíquico insuspeito? A repórter no Globocop. Enquanto a pesarosa Ana Maria Braga comentava os recentes ataques, passou a voz ao Globocop. Estranhei que fosse uma e não um a repórter a bordo. E eu não sei por quê. A feminilidade da jornalista de certa forma parecia fora de lugar num helicóptero, narrando o incêndio de um ônibus, às 8 e meia da manhã. E, mais uma vez, parabéns à Globo por colocar, achauvinisticamente, uma e não um repórter no Globocop. É transcendendo preconceitos que uma empresa de comunicação dita, e não acompanha, trending topics.
É curiosamente estranho quando uma mulher pretensamente libertária apercebe-se de seu próprio machismo insuspeitamente arraigado. E de como o frêmito verbal de expor isso pode nascer de um simples objeto empoeirado.
sábado, 6 de novembro de 2010
Prosaica elegia de Jade e Lucca.
Sei que um animal de estimação é especial apenas para os que o acalentam e são abençoados diretamente por seu amor, e sei que poucos se interessarão pela leitura das memórias de um cão, mas prossigo e o divulgo mesmo assim, visto que minha preciosa Jade o merece, e muito mais.
Jade apareceu em minha vida no ano de 2002. Linda e extremamente dócil poodle branquinha, foi encontrada, prenhe e faminta na rua da amargura por uma amiga de minha irmã Patrícia da Silva Ramos. Na casa desta moça cujo nome nunca soube, Jade deu à luz sua ninhada vira-lata e na totalidade nati-morta. Por conta disso desconfiamos que Jade haveria sido envenenada para abortar a cria indesejada e, ao não abortar, seus donos a teriam simplesmente posto na rua. Essa desconfiança foi avolumada por sua foto ter sido divulgada largamente na região sul de São Paulo, caso seus anteriores proprietários a estivessem a buscar. Nunca houve ninguém à sua procura.
Como a moça que a acolheu prenhe não podia permanecer com ela, minha irmã a trouxe à nossa casa, à rua João Migliari, número 4, no Tatuapé. O motivo disso seria ela servir como esposa ao nosso pet, Lucca, que nos foi entregue por meu ex-sogro Aparecido Donizete de Faria como poodle, mas que sempre desconfiamos ser Bichon Frisé, apesar de sua trufa rosada.
Lucca sempre foi o cachorrinho mais esperto, carismático e fofo que conheci. Encantava a vizinhança até com seus latidos. Sentado à janela observando o movimento, muitos transeuntes surpreendiam-se com seu ânimo por julgar, à sua estática, tratar-se de um bicho de pelúcia. Angelicamente alvo, com o pelo macio e liso, toda sua cútis era lindamente rosada e seus olhos castanho-claros rajados em verde, numa cor que poderia ser chamada de “hazel”. Pobrezinho, era “monoball”, tinha apenas um testículo, que parecia uma cerejinha, pequena, róseo-carnal, e pensávamos, infértil.
Quando conheci Jade, a primeira coisa que notei foi sua eloqüente magreza. Via-se-lhe as costelas. No momento seguinte surpreendeu-me sua docilidade. Eu nunca havia conhecido cachorrinha mais afável, humilde e à margem do pedantismo carinhosa. Exsudava agradecimento por termos acolhido-a. Não tinha nome. Aprazer-me-ia chamá-la Marcela, o que foi execrado. Por fim, foi decidido que seu nome seria Jade, para fazer par com o Lucas, pois vivíamos a época da novela “O Clone” de Glória Peres, na qual o casal principal era o emasculado Lucas (Murilo Benício) e a sofrida Jade (Giovanna Antonelli). E Jade tornou-se. Igualmente desconhecíamos sua idade. Uma veterinário orçou-a em 4 anos, que era a idade de nosso Lucca. Passei então a considerá-los como da mesma ninhada, e a celebrar o aniversário de ambos no natalício de Lucca, 24 de novembro de 1998.
Ao chegar, Jade tinha uma fedorenta infecção auricular que fazia brotar em seus ouvidos uma cera marrom, terrosa. Jade não me conhecia. Tomei-a em meus braços e disse-lhe:
- Sou tua mamãe-sogrinha. E apesar de ser tua sogra, me comportarei com você como uma verdadeira mãe.
Ela confiou em mim e sinto-me grata a Deus por ter me facultado honrar essa promessa, sustê-la, acarinhá-la e pensar suas feridas, até seu último suspiro, como se minha filha carnal fosse. Ou até melhor. Sem me conhecer, Jade permitiu, mesmo aos ganidos, que eu tratasse e limpasse suas doloridas orelhas, sem em nenhum momento sequer cogitar rosnar-me ou morder-me. À essa época percebi uma das poucas coisas que foi possível apreender de sua vida pregressa: Jade seguramente ao longo de toda a sua vida havia sido banhada apenas em pet shops, pois ao contrário de nosso Lucca comumente higienizado no tanque, Jade era incapaz de secar-se sozinha. Ao colocar Lucca molhado sobre a toalha, ele se esfregava quase institivamente secando-se por si só. Jade permanecia parada, nos fitando como quem diz, sem nenhuma arrogância:
- Pode vir terminar o serviço. Vou ficar quietinha.
Quando Jade entrou em seu primeiro cio em nossa casa Lucca era virgem, pobrezinho. Conheceu então o amor. Jade era uma cachorra que, brinquei à época, era meio piranha. Parecia apreciar muito o coito. Enquanto Lucca descansava extenuado, com seu pequeno pipi escoriado, inchado e avermelhado, Jade esfregava-lhe ao focinho sua “pitrica” insaciável. Fartaram-se livremente no amor canino que, surpreendentemente, resultou numa linda ninhada de 5 filhotes: 3 machos e 2 fêmeas; 2 de pêlo liso, 3 de pêlo enrolado; todos de trufa negra, como Jade.
Fomos tomados pelo maravilhoso encanto que é ter uma ninhada de filhotinhos em casa. Jade ficou meio enervada com a presença de Lucca perto dos filhotes, e o tomei para passar uma temporada em meu apartamento do outro lado da rua do famoso bar “Rei das Batidas", próximo à Cidade Universitária da USP, bairro do Butantã, São Paulo, SP, Brasil. Esses dias foram os mais ternos que tive com meu filho Lucca, que me teve então como única provedora.
Minha melhor lembrança com Lucca data desta época. Num final de semana coloquei-o na mochila, peguei minha bicicleta e pedalamos até à USP, Lucca mesmerizado pelo vento suave em seu focinho, complexamente recendendo à Marginal Pinheiros. Telepaticamente transparecia um inefável êxtase olfativo, da forma que apenas um criador-canicultor-pedagogo-adestrador-pigmaleão que sabe-se demiurgo do desenvolvimento cognitivo “humanizado” de um animal de estimação sabe compreender e interpretar. Na Praça do Relógio, Lucca correu à toda, rolou na grama, sentiu aromas inéditos, pulou e sentiu-se completamente livre. Desfrutou a plenitude de saber-se um cão realizado e feliz, belo, maduro, casado, amado, protegido e até mimado, com filhos pequenos e prosseguimento biológico garantido, no auge do que poderia chamar de “vida”.
Lucca era muito inteligente. Compreendia uma ampla gama de palavras, sons e entonações. Jade não. Saltava aos olhos a diferença de “inteligência” entre ambos. Jade era meio “burrinha”. Mas seu coração e boa disposição animal eram gritantemente melhores que os de Lucca, ou de Whiskey (ou Uísque), outro poodle da família estendida. Intratável e intragável, pois fôra redundantemente mal-criado por minha outra irmã, Cristhiane da Silva Ramos e minha avó Shirleÿ Alves da Silva. Ao contrário de Lucca, que pude trabalhar e desenvolver desde a mais tenra infância (chegou-me minúsculo, com menos de 1 mês). Com Jade, que chegou-me adulta, nunca pude desenvolver uma comunicação quase que intuitiva, como tinha com Lucca. Talvez apenas em seus últimos meses, quando ela se viu completamente dependente de meus cuidados gerontológicos paliativos, rendida ao decreto inexorável do passar do tempo.
Seus filhotes foram doados. À época foi cobrado de seus adotantes, indicados por nossos conhecidos, apenas R$ 80,00, referentes à excisão do rabo e à vermifugação. O último a permanecer em nossa posse, de personalidade cativante e encantadoramente irrascível e impertinente, foi alcunhado de “Marrudinho”.
O próximo ato destas duas ilustres trajetórias domésticas é o triste interregno que resultou no falecimento de Lucca, aos 5 anos, em 12 de dezembro de 2003. No final de semana anterior eu havia viajado para Campos do Jordão. Ao voltar, no domingo, Lucas estava baqueado; e urinava sangue. Na segunda foi levado ao veterinário do bairro. Não melhorou. Na mesma semana, não me lembro se na própria terça ou na quarta foi levado ao Hospital Veterinário da Universidade de São Paulo, da qual eu era aluna na FFLCH.
Primeira suspeita: leptospirose hemorrágica. Ao olhar para a proeminente barriga de grávida de Patrícia, a veterinária murmurou em tom assustadoramente soturno:
- Essa doença é contagiosa e se contraída por humanos pode ser abortiva.
A resposta de Patrícia foi afagar Lucca mais uma vez, com seus olhos profundos e coração cauterizado. O HV funcionava apenas em “horário comercial”, não havia internação, portanto a cada dia tínhamos que levá-lo de volta para a Zona Leste, mesmo que não tivesse melhorado. Num dia seguinte dessa semana, após fazer ultrassons e exames de sangue, o pequeno Lucca foi diagnosticado com anemia hemolítica auto-imune. Seu sistema imunológico estava atacando seus glóbulos vermelhos. Entrou em falência renal e, percebam, em 2003, numa das maiores metrópoles do mundo, não havia um único estabelecimento que oferecesse hemodiálise veterinária (Hoje até o há, cobrando milhares a sessão). Em seguida, Lucca entrou em falência hepática. Sua suave pele rósea passou a exibir um matiz sepulcral, num doentio amarelo-esverdeado, quase que neón.
Na tarde daquela sexta-feira eu tinha prova do professor Doutor István Jancsó, que foi meu orientador na Iniciação Científica. Naquela noite o meu grupo de amigos da faculdade celebraria o final do semestre numa festa à beira da piscina no prédio da Bela, nossa amiga também jornalista Gabriela Zini Megale. Por conta disso eu saíra de meu kitnet trajando sob a roupa meu biquíni verde-água, pois esperava que Lucca permanecesse estável e eu pudesse comparecer ao evento.
Terminando afoitamente a avaliação, peguei o ônibus circular e acorri à Veterinária. Lucca, com o soro na veia, repousava tranqüilamente na maca. Patrícia, cabisbaixa, sentada à sua cabeceira. Aproximei-me dele e, acariciando-o, dirigi-lhe palavras doces, familiares entre nós. Para meu horror ele começou a contorcer-se estranhamente, de uma forma que eu nunca vira, nem sabia ser possível. Os veterinários vieram prontamente socorrê-lo. Patrícia principiou a chorar. Eu, chocada, surpresa e atordoada, não sabia o que se passava e murmurei algo neste sentido. A pingar lágrimas em olhos cor de vinho, Patrícia exclamou:
- Você não está vendo que ele está tendo uma convulsão?!
Eu não estava vendo pois eu mal sabia o que era uma convulsão. Para mim isso era coisa exclusiva de epilépticos. Patrícia é fisioterapeuta e compreendia muito melhor do que eu a fragilidade da saúde de Lucca àquela altura e a evidentemente manifesta premência de sua morte. Deixei então de lado o projeto de comparecer à festa supostamente imperdível pois marcaria o “encerramento do semestre”. Perdeu imediatamente diante da cena que eu testemunhava qualquer relevância ou atraência. E neste instante o biquíni incógnito que eu trajava principiou a constranger-me maculando, como a insistente nota dissonante de um instrumento mal afinado, aquele momento que desvelava-se o começo de um drama definitivo.
Findou a tarde e Lucca estava como que em coma. Precisaria de uma urgente transfusão de sangue. Não havia, sub-desenvolvidamente, banco de sangue canino na mais populosa metrópole da América do Sul. Patrícia havia arranjado para o dia seguinte um cão grande para servir de doador, por parte de seu namorado, pai de minha sobrinha Ana Letícia Santos, então em gestação. Ao nos aprontarmos para levar Lucca para casa testemunhei parcialmente quando a veterinária entregou a Patrícia uma injeção, creio hoje eu que de morfina ou similar. Elas conversavam em tom baixo, em um canto, e depreendi que estavam a fazer algo “off the record”, if you know what I mean, pois a veterinária tinha diante de si uma interlocutora que era uma profissional da área médica.
Entramos no carro, Patrícia dirigindo e eu no banco de trás com Lucca no colo, em posição quase rígida de descerebração. Ele não estava em condições de passar a noite em casa e o levaríamos a uma clínica veterinária 24 horas no Tatuapé para ser assistido durante a noite. Naquele longo poente sofri excruciantes excedentes a 3 horas de congestionamento quelônio na Marginal Tietê. Lucca pungia em meus braços, num certo limbo entre o vivo e o moribundo. Defenecia. Seu ânimo parecia vazar-lhe e desvanecer a cada respiração.
Após algumas horas de deixado na clínica, ligaram para informar que Lucca falecera. Chorei desesperadamente, de forma quase pietàica. Jade agora viúva e castrada permaneceu morando naquela casa até que sob algum pretexto de inconveniência material foi remetida para morar em Rio Claro, onde faria companhia ao egocêntrico e neurótico Uísque.
Conheceu então o amargor do abandono pela segunda vez. Foi com hospitalidade veterotestamentária acolhida por meu avô major Vicente Novais da Silva, a exemplo de todos que tenham algum dia recorrido ao seu generoso coração. Quando eu vinha a Rio Claro percebia que Jade, que conheci emaciada, estava agora, de forma até preocupante, obesa. Fartava-se na atenciosa e apetitosa alimentação que meu avô, Morzinho, devotada e diligentemente praticamente deglutia, bem picadinha, em sua gamela e na de Uísque, que estava mais para anoréxico em sua neurose idiossincrática e indelével, apesar de meu esforço posterior. Muitos há interessados no legado material de meu Papica. Já no legado de sua estima, apenas eu. Triste perceber como a poucos engaja honrar a memória de seus mortos.
Em 15 de dezembro de 2006, ao concluir meu bacharelado e licenciatura em História na USP, realoquei-me em Rio Claro, para morar com meus avós maternos, os únicos que reconheço. Meu avô, acometido por câncer na próstata, vivia seus últimos dias. Faleceu no primeiro de fevereiro próximo. Vi-me então moralmente incumbida de cuidar dos seres que meu querido Moreco estimava. Além de sua viúva, minha avó Tula, passei a cuidar de duas samambaias decenárias, um papagaio que me vira nascer, um canário alaranjado que batizei “Frank Sinatra” (que permanece entre nós), Jade e Uísque.
O papagaio Chico, já meio esclerosado e decibéricamente inconveniente, irritante, obstinado e constrangedor perante a vizinhança, foi encaminhado ao viveiro/santuário de um veterinário da região, sem minha interferência ou conivência. Uísque idoso faleceu suavemente após uma curta convalescença de 3 dias. Após 3 anos de convivência comigo, observando a confiança e o bom trato que eu dispensava à sua obsessivamente idolatrada Jade, ele já permitia-me há muito tempo banhá-lo com a água fria da mangueira e até ensaboá-lo, com certa precaução às “áreas nobres” tão preciosas a uma macho inseguro como ele. Uísque em sua terceira idade permitiu-me manipulá-lo, para fins de higiene ou simples carícia, de uma forma que jamais permitira à sua pretensa pseudo-mãe, a anti-fraterna e atavicamente mal-resolvida Cristhiane, que o comprara por alto preço, com pedigree, filho de pai inglês. E que o deixara rapidamente para trás à primeira inconveniência material.
Jade permaneceu entre nós por mais um ano excedido, quase cega e quase surda, pele assustadoramente manchada por seu hábito de tomar longamente o sol matinal. Olhos secos e irremediavelmente inflamados, secretando uma gosma lipídica algo amarela. Cresciam-lhe reiteradamente verrugas, que ela feria ao roçar nos móveis, estando habitualmente manchada de sangue em algum ponto de seu corpo. Desde sempre tinha o hábito de coçar-se constantemente, a ponto de supliciar-se.
Dog spins to itch bottom - Cachorra gira para coçar a bunda
A respeito da coceira, sempre foi dito por veterinários que seriam pulgas ou irritações cutâneas e ela foi algumas vezes tratada com inseticidas veterinários, sabonetes e xampus terapêuticos. Nada fez efeito. Sua coceira inclusive incomodava o sono, não só dela, mas de minha avó, com quem repousava. 3 meses antes de ela morrer, ao ir buscá-la após o banho e tosa no pet shop que freqüentava há muitos e muitos anos, a dona do estabelecimento me interpelou a respeito da coceira compulsiva de Jade. Pronunciou experimentadamente segura, entre hesitante e indignada:
- O veterinário não prescreveu Meticorten? Em casos de alergia como esse, é o que resolve.
Furtei-me ao prosseguimento da conversa, constrangida que estava por sentir-me criticada como uma mãe desmazelada. Nenhum veterinário nunca havia mencionado a possibilidade de tratar-se de uma alergia. No mesmo dia comprei o remédio e o administrei conforme o peso calculado de Jade, 10 kg. Magicamente, ao final do segundo dia de ingestão do antialérgico Jade, simplesmente, parou de se coçar. Senti um misto de alívio e frustração por perceber que teríamos podido, há muitos anos, aliviar o persistente incômodo que a afligia, com uma coisa tão simples quanto administrar-lhe um medicamento acessível a poucas quadras de nossa casa, onde quer que ela fosse. No Brasil existem mais farmácias do que padarias. E por que aquela senhora nunca havia me alertado antes?! Resignei-me depois em não mais me torturar de forma vã a vazia a respeito disso, e de tantos outros pesarosos fardos. Às vezes as coisas se passam exatamente do jeito que têm que ser, apesar de qualquer esforço que esteja a nosso alcance. Assim foi a passagem de Lucca, jovem; e de Jade, idosa.
Não pretendo levantar a bandeira anti-alopática, mas após começar a administração deste remédio que tanto a aliviou, sua saúde rapidamente se deteriorou. Entre agosto e setembro, numa temo inescapavelmente fatídica sexta-feira à noite percebi que Jade estava caminhando de maneira “engraçada”, meio que “rebolando”. Na manhã do sábado banhei-a e até então aquilo era só uma leve suspeita de um problema. Naquela noite Jade já não conseguia andar. Tentava, insistentemente. Orei e pedi ajuda por si, pois um cão que não consegue suster-se em pé não faz suas necessidades fisiológicas, o que não é coisa que possa ser ignorada ou relevada. De alguma forma tive uma súbita epifania ou insight. Possuo eu um cinto largo. Passeio-a sob o ventre de Jade, segurando-o de forma a sustê-la quase como um títere ou um bebê em seu andador. Após perceber-me sustendo-a, Jade abandonou-se à confiança de que eu não a deixaria cair e, apoiada na tipóia improvisada, aliviou-se do inadiável chamado da natureza. Também eu aliviei-me. Não fisiológica, mas emocionalmente, ao menos por aquela noite.
No domingo levei-a ao veterinário. Ao examiná-la percebi mesmo em seu enigmático semblante nipônico a imediata suspeita de que Jade não andava pois poderia ter sido agredida e sua coluna partida. Doutor Márcio Kayano apalpou longamente sua coluna vertebral e abriu um meio sorriso ao perceber sua integridade ortopédica. Solicitou exames de raio-X, que realizei na segunda imediata, ao final da qual retornei a seu consultório. Dos exames, depreendeu que Jade padecia de “bico de papagaio” e hérnia de disco. Para tal até existe cirurgia, mas que não recomendava a Jade, aos 13 anos. Receitou um suplemento ósseo-cartilaginoso e um anti-inflamatório. Acupuntura, caso ela não voltasse a andar com a medicação.
Eu estava desesperançosa de sua restauração mas para minha alegria Jade ao cabo de 2 dias voltou a andar, quase que normalmente. Continuou a ser medicada até seus últimos dias. Porém, com o andar célere do tempo, percebi-a progressivamente fragilizada e envelhecida. Viver principiava a pesar-lhe. Na derradeira semana de outubro deste 2010 Jade começou a vomitar, mesmo a melhor ração disponível, e a recusar-se a comer, mesmo à papinha elaborada e nutritiva que diligente e devotadamente cozinhei-lhe. Ela recusava. Fiz outra e mais outra. Ofereci-lhe carne moída e peito de frango desfiado puros, e até isso recusou. No intervalo de uma semana, tal qual Lucca, Jade rapidamente definhou. Emagreceu, recusando-se a comer. Nos últimos dias entuxei-lhe diretamente na boca com seringa leites vitamínicos. Ela não tinha opção. Era sorvê-los ou afogar-se.
Com o coração na boca, ao longo de toda a semana, toda vez que a olhava checava sua respiração. Até o ocaso da sexta ela era longa, pausada, abdominal, tranqüila. Naquele princípio de Shabbat do que viria a ser o 30 de outubro véspero-eleitoral este compasso alterou-se. Percebi que Jade, já incapaz de suster-se com qualquer macete que eu pudesse cogitar, respirava torácica e ofegantemente. Não parecia mais tranqüila. Telecomunicava incômodo e dor. Só então cogitei, com muita dor, a possibilidade da eutanásia, que não me é absolutamente justificada.
Ao retornar do quase centenário Centro Espírita Fé e Caridade, do qual é decenária freqüentadora, minha avó exclamou entre orgulhosa e humildemente agradecida:
- Se eu te contar, você não vai acreditar! Aconteceu hoje uma coisa que nunca se tinha passado: o veterinário espiritual Rui de Castro pronunciou-se diretamente a mim, a respeito da Jade, e disse para nos acalmarmos pois ela está sendo atendida e socorrida espiritualmente. Que ela não sentirá dor e falecerá suavemente. Foi um acontecimento realmente único e especial! Doutor Ruy de Castro nunca havia se manifestado para nós!
Senti-me presenteada e agradecida pela alta deferência exclusivamente disponibilizada a minha honrada e meritória filhinha. E meu coração algo que acalmou-se. Naquela madrugada, já shabbat, Jade faleceu durante o sono, em hora incerta, a menos de um metro de mim.
Naquele dia, levei-a com a ajuda de minha verdadeira mãe Maria José Pereira da Silva Tomazella ao sítio de seu enteado, o generoso Anthony Secco Tomazella, que franqueou sua hospitalidade para enterrarmos minha filhinha em Itapé, ao som de passarinhos livres. Sepultamo-a no pomar, à beira do riacho, enquanto o céu vertia gotas atemorizantemente pesadas, exibindo-se profético e argênteo, ibericamente melancólico e fatídico. Enquanto eu prestava a última homenagem à inscrita no livro da vida como Chaya bat Noach, umectavam nossa dor solenes lágrimas celestes, e isso, apesar da inconveniência prática, me consolou. Sobre seu túmulo cultivei uma roseira branca e assinalei-a com uma singela joaninha de cerâmica com a inscrição “Jade 30/10/10”. Não é só Jade que jaz ali. Sepultei consigo uma boa parte de minha vida e minhas memórias. E arrepio-me ao digitar isso.
Counting Crows - A Long December
Dave Matthews - Gravedigger
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
Da melhor novela que a TV brasileira já produziu
Maria do Carmo Ferreira da Silva, a protagonista vivida por Suzana Vieira encarna toda uma geração de brasileiras. Traz pungentemente a melhor condição de uma mulher, a de mãe. Contra tudo o que nossos preconceitos poderiam esperar, essa retirante nordestina com quatro filhos agarrando-se à barra de sua saia vence na vida. Encaminha seus filhos e cria para si além de prosperidade, respeitabilidade.
Mas o grande trunfo de Aguinaldo Silva não é a eloqüente crônica do valor humano, mas tornar Maria do Carmo tão mais cativante lhe trazendo o mais dilacerante drama humano, misturando ficção e realidade mais uma vez. Romanceia a história do menino Pedrinho: o maior pesadelo que qualquer mãe pode passar.
A jovem e inocente Maria do Carmo, apesar de já mãe de 5 filhos, tem sua recém-nascida Lindalva roubada pela grande vilã magnética da novela: Nazaré Tedesco, magistralmente vivida por Renata Sorrah. Assim como Mara do Carmo, Nazaré vence na vida. Porém, vence à base de mentiras, vampirizando os bens e pessoas alheias. A realidade trouxe consigo cores fortes. Vilma, a sequetradora de pedrinho, negou tudo até o último minuto, levou muito tempo até Pedrinho livrar-se emocionalmente da falsa mãe, e de forma mais novelística que a própria ficção, depois foi descoberto que pelo mais uma filha de Vilma na verdade tb havia sido roubada dos braços da mãe em condições semelhantes. Vilma Martins era uma ladra serial de bebês. Um mulher que construiu uma vida baseada
Nazaré Tedesco, com seus lapsos de loucura, sua risada alucinante e seu gosto por rodar bolsinha nas partes mais decadentes do Rio de Janeiro tem em sua língua afiada e em sua máscara de “mãe” perfeita alguns dos ingredientes que explicam pq Isabel é tão reticente
Sinto que não chegou a ser explorado em sua plenitude o conflito de consciência de Isabel, vivida por Carolina Dieckmann, a filha roubada. De toda forma, A fase da reaproximação mãe e filha, com seus desandos através dos arremates das tramas de seus demais filhos, é das mais emocionantes.
Uma grande trama, uma grande história de uma grande família, tudo girando em torno da matriarca de coração partido pois sempre lhe faltava um de seus filhos sob seu teto. Como não chorar nas cenas







