sábado, 24 de setembro de 2016
Nome de personagem ecológico
sexta-feira, 8 de julho de 2016
Quatro motivos porque somos contra a compra e venda de filhotes de raça.
quinta-feira, 15 de maio de 2014
O canario Frank Sinatra
O dia 14 de maio de 2014 marca para mim a conclusão de uma das mais importantes incumbências que já recebi. Em seu leito de morte, meu avô me pediu que eu cuidasse "dos seus" com um sussurro. Padecendo de câncer terminal, saturado de morfina, em seu último momento de lucidez tivemos uma conversa física e metafísica de despedida. E, no seu último olhar, que foi de preocupação, percebi que ele, vendo-se partir, me repassava a responsabilidade de cuidar dos de sua casa. E assim foi.
Os que moravam "sob a asa" do meu avô até ele partir, eram uma pessoa, 2 cachorros e 2 pássaros. Os cachorros, Jade e Whiskey, morreram de velhos com mais de 14 anos e pude, com carinho, cuidá-los até o fim do decreto de seus dias. Minha avó, cuidei bem, alimentei, pensei suas feridas, fiz compania e até ensinei a mexer no celular. Mas para surpresa de todos, precocemente, faleceu em viagem ao Rio de Janeiro, para encontrar parentes, de derrame cerebral. Dentro das minhas forças, dela cuidei o melhor que pude, no que esteve ao meu alcance. O papagaio Chico foi doado pela minha vó Tula há muitos anos para o viveiro de um veterinário.
Restava o canário, o mais longevo de todos.
Criar canários do reino é um velho costume português que herdamos e sinceramente não me lembro de nenhuma ocasião em que a casa de meu avô não tivesse ao menos um canário. Às vezes alguns. Chegaram a dar cria. Além de singelos e de trato simples, os canários do reino cantam bonito, e interagem de forma até carinhosa com seu cuidador.
Desde o falecimento de meu avô assumi essa responsabilidade com certo pânico: nunca ninguém me instruíra a como cuidar de um passarinho tão frágil, mas pude fazer o backup das muitas memória do Major Vicente Novais da Silva, homem talhado em pedra, redobrando-se em carinhos e cuidados com seus pequenos. É simples. Basta água fresca, alpiste, vitamina uma vez por dia e de vez em quando um pedacinho de ovo, de fruta ou folha verde.
É simples, mas não era um "canário qualquer", era o canário do meu avô, que ele amava, e me pedira em seu leito de morte para cuidar. Portanto, eu não tinha "só" que cuidar dele. Para honrar ao meu avô, e a confiança que ele depositara em mim, eu tinha que cuidar MUITO BEM do agora "meu" canário, como não pude cuidar do meu avô.
Esse sentimento de responsabilidade, de cumprir a contento uma missão muito importante, não tive só a respeito do canário. Mas diferentemente dele, o papagaio, os cachorros, minha vó INTERAGIAM diretamente comigo. Depois da morte do Morzinho, minha relação com eles passou a ser DIRETAMENTE com eles. O Chico, que eu conhecia desde criança, mesmo esclerosado, ainda dançava às mesmas músicas de 20 anos antes. Os cachorros, até o problemático Uísque, me abanavam o rabinho e faziam festa. Minha vó conversava comigo, eu a levava ao shopping, almoçávamos juntas.
O canário não. Eu sabia que já era adulto, ninguém soube precisar o quanto, mas minha vó garantiu que estava com eles desde antes de eu entrar na faculdade, portanto há pelo menos 7 anos. Não me lembrava de ter ouvido meu avô chamá-lo pelo nome, e questionei Tula, mas ela não soube me dizer se tinha nome. Remexendo entre os discos de meu avô, encontrei um de Frank Sinatra, e como nosso canário era bom cantor, escolhi eu mesma este ser o nome pelo qual o chamaria.
Por pelo menos 2 anos ele me estranhou. Se assustava e entrava em rebuliço quando eu me aproximava da gaiola. Bichinho frágil e arisco, no qual nem se pode tocar, enquanto o papagaio Chico nos franqueava ainda coçar-lhe o cangote...
O canário hesitava em ter uma relação direta comigo, então minha relação sempre foi com a lembrança do meu avô, através dele. Até este dia do hoje, todas as manhãs, quando descobria Frank do seu pano de dormir azul e lhe dava vitamina, me lembrava logo cedo do meu avô. E todas as noites, quando olhava no relógio para não deixar passar da hora de pôr pra dormir o canarinho idoso, me lembrava de meu avô ao cuidadosamente cobri-lo com seu pano azul para dormir, dizendo "boa noite, Frank, durma bem."
E o mesmo terror de falhar na missão em relação a cada um destes seres que eram da responsabilidade de meu avô me assombrava em relação ao canário. Tinha medo de deixar faltar-lhe água ou comida e que morresse por minha irresponsabilidade. Tinha medo de pegá-lo para cortar suas unhas e quebrar um de seus delicados ossinhos, matando-o com minha brutalidade. Tinha medo de deixá-lo fugir da gaiola ou vê-lo atacado por um pardal e que ele morresse por minha inépcia. Tinha medo de esquecer de cobri-lo à noite, no frio, ou de esquecer de descobri-lo pela manhã, e ele sufocar, morrendo por meu descuido.
Enfim, tinha um profundo medo de não corresponder a contento à missão que meu avô me dera, e mesmo post-mortem, decepcioná-lo. Que um dia eu viesse a sonhar ou vivenciar ele me recriminando a dizer: "fui tão carinhoso sempre com você e você matou o meu canário!"
Com o tempo eu e Frank fomos construindo uma amizade. Afinal, foram quase 8 anos e após o estranhamento inicial, ele percebeu que eu era sua cuidadora agora e passou a me saudar, cantar para mim, quase a comer na minha mão. Posso dizer que enriqueci sua alimentação. Mudei o simples alpiste por um mix de cereais. Sempre lhe cozinhava ovos ao ponto de perceber que ele preferia a gema à clara. Sempre lhe oferecia diferentes tipos de vegetais até o ponto de constatar que seu prediletos eram o pepino, o brócolis e a alface. Em dia quentes, lhe colocava a banheirinha e ele se refestelava com uma alegria que com certeza valeu o registro em vídeo.
http://youtu.be/_KFV-qIZeZw
Até a véspera de morrer, sempre esteve muito bem, se alimentando de forma voraz, detonando as folhinhas, limpando o cocho de vitamina. Sua convalescença foi curta. Em 13 de maio acordou baqueado, passou todo o dia sonolento e desanimado, mas ainda comeu e bebeu um pouco. Não acordou no dia 14. Não morreu de surpresa, atacado, neglicenciado. Sua água e ração estavam cheias. Sua gaiola limpa. Ele, protegido, abrigado dentro de casa.
Morreu em paz. E assim trouxe paz para uma questão de honra para mim: fazer frente e cumprir o último desejo do meu avô. Neste dia morreu o último ser que estava sob a responsabilidade do meu avô quando ele se viu surpreendido pela morte, e cuja incumbência me repassara. Hoje, mais de 7 anos depois, todos estão mortos. E posso dormir tranquila, pois cuidei deles o melhor que pude. E a morte de nenhum deles foi causada por mim.
A partir de hoje, nem eu, nem meu falecido avô temos mais nada com o que nos preocupar. Tudo está bem, em paz, completo.
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sábado, 22 de março de 2014
Solo un ratito
Era uma sexta-feira à noite, perto de uma e meia da manhã, eu estava sentada no sofá, na sala da minha casa, placidamente assistindo à TV quando um barulho chamou minha atenção. Olhei para o lado direito, onde estava porta aberta e vi, de relance, tentando entrar furtivamente, um rato. Na verdade um ratinho, um camundongo, pequeno e cinza. Dei um grito, ele se assustou e saiu correndo. Talvez com mais medo de mim do que eu dele.
Terror total! Havia um rato tentando entrar em minha casa!
Imediatamente tranquei todas as portas e janelas, lacrando as frestas com panos de chão. E pensei: "quando escolhi essa casa para alugar vi seu grande jardim como vantagem, se eu soubesse que ratos poderiam se instalar nele, teria ficado com aquele kitnet no terceiro andar..." Mas, contrato assinado, e aqui instalada há mais de 6 meses, a única opção era seguir em frente.
Não foi a primeira vez em que um rato apareceu numa casa na qual eu morava, mas nas 2 vezes anteriores, não era EU a responsável por dar cabo dele. Eu podia simplesmente aguardar que "os adultos responsáveis" pela casa, e por mim, resolvessem o problema. Agora a casa era minha, eu era a adulta, e o problema era meu para resolver.
Na manhã seguinte, decidida a fazer uma "operação de guerra", levei #AmyThePoodle para passar alguns dias na casa da minha mãe. Fui na pet shop, comprei ratoeiras de metal, ratoeiras de cola e veneno (dos que têm aroma artificial de queijo). Fiquei super alerta por uns 4 dias, checando cada sombra. Na segunda-feira, já estava "desencanada" de que o rato tinha ido embora pra rua e no dia seguinte iria desarmar as ratoeiras e buscar a Amy.
Acordei na terça cedo para ir ao trabalho, despreocupada. Fui para a cozinha. Ia preparar meu sanduíche para comer no intervalo das aulas. Abri o armário.
Na parte de baixo, vi um pequeno ser cinza pular, furtivamente, tentando se esconder entre meus pacotes de miojo e batata palha. Era um rato. Berrei e imediatamente tranquei de novo o armário. Com ele e todas as minha comidas dentro.
Para minha sorte, já tinha marcado hora na dentista na quarta seguinte e avisado que daria falta médica no trabalho. Pedi ajuda à minha mãe, pois tenho pânico de ratos, e não conseguiria lidar com isso sozinha.
Não é propriamente uma "fobia". Não tenho medo de ratos albinos de laboratório, do Mickey Mouse, de hamster limpinhos, criados em gaiola. Mas de ratos de rua, tenho absoluta aversão e ojeriza. Penso em leptospirose e febre tifóide como atributos indissociáveis de todo rato de rua, daí meu pânico total.
Minha mãe veio me ajudar. Abrimos juntas o armário. Começamos a tirar as coisas e de repente, no meio delas, ele pulou. Gritamos. Pegamos cada uma uma lata enorme de inseticida (ainda que ele seja um mamífero) e despejamos no armário. Já nós mesmas intoxicadas, trancamos tudo de novo e esperamos mais uma bela meia hora, na esperança de que o rato fosse alérgico, ou asmático, e morresse.
Reabrimos o armário. Tiramos o resto das coisas. Nada do rato. O esquadrinhamos, tombamos, e nada do rato. Teria fugido? Onde estaria? Armário esvaziado, comprei mais veneno e ratoeiras, colocados em locais estratégicos. Com tristeza, deixei a Amy mais alguns dias na casa da minha mãe. Senti muita falta de sua companhia nestes dias.
Quase não entrei na cozinha até o sábado, quando trouxe de novo minha mãe para verificar o rato e o armário. Abrimos. Nada. Tombamos. Eu segurando, ela olhou. Nada. Disse "peraí", cutucou com a vassoura:
- O rato!
Senti terror completo e gritei, segurando o armário pesado, com os olhos fechados:
- Vivo ou morto?!... VIVO OU MORTO?!
Os 2 segundos que ela levou pra responder estão entre os "top ten" momentos mais terríficos de minha existência (até agora). Depois do lapso temporal que me pareceu levar várias horas de completo terror, ela disse:
- Morto. Tá estufado, comeu o veneno, olha!
- Não quero ver, tira ele de casa!!!
Ela tirou, colocou num saco e jogou no lixo externo. Ufa! Aí sim fui inundada por uma sensação maravilhosa de alívio. Não só tinha de fato um rato mesmo e não era loucura da minha cabeça, como eu tinha conseguido prendê-lo, o veneno tinha funcionado, seu cadáver fôra localizado e devidamente descartado. Eu voltava a ser a dona de minha cozinha e área de serviço.
Muito prestativa, minha mãe se prontificou a me ajudar na limpeza completa desses ambientes que se seguiu. Faxinamos tudo com muito desinfetante. Passamos álcool em todas as frestinhas do armário de cozinha. Por termos despejado inseticida sobre as comidas guardadas nele, joguei fora tudo o que estava aberto, e lavei com água e sabão, esfregando bem, todo o resto.
Pensando em tornar meu armário "à prova de ratos", comprei potes de vidro e plástico bem grosso, onde guardo agora todos os meus gêneros alimentícios. Meu pensamento: "se acontecer de outro rato entrar aqui, não vai conseguir comer nada e vai embora!" Também comprei daquelas "cobras de areia" que se coloca embaixo das portas, para impedir que outro rato entrasse. Desarmei as ratoeiras de metal e pude então ir buscar minha Amy, de quem já estava a morrer de saudades.
Era só um ratinho. Mas para mim foi uma marca, uma conquista. Dei conta. Resolvi o problema. Venci. Aprendi. Escolada, agora estou muito mais atenta. As ratoeiras de cola continuam escondidas em locais estratégicos, onde a Amy não alcança. Deixei veneno embaixo de alguns móveis e no vão das janelas.
Continuo alerta, prestando atenção a ruídos, verificando o armário e se há "alguma novidade" nas ratoeiras de cola. Essa é mais uma etapa superada na minha vida. Não que ratos de rua tenham cessado de me aterrorizar. Mas agora, depois de dar cabo do meu primeiro, me sinto mais pronta, segura, senhora de mim, para enfrentar outro, se aparecer.
Sinceramente espero nunca mais ter que passar por isso na minha vida, e essa experiência me fez repensar que quando eu for adquirir um imóvel, é bem provável que isso me faça optar por um novo, e não usado. Mas apesar de não desejar, jamais, ter que passar por isso de novo, por pior que tenha sido, foi uma experiência que me fez sentir poderosa, no controle, capaz.
#girlpower #singlelady
sexta-feira, 29 de novembro de 2013
15 curiosidades a meu respeito
sábado, 2 de novembro de 2013
Saudades Eternas
quarta-feira, 11 de setembro de 2013
Balanco de Yom Kipur 5774
sábado, 6 de julho de 2013
Dos poodles brancos
domingo, 2 de junho de 2013
A mansão de bonecas
sábado, 11 de maio de 2013
Da chupeta
sábado, 27 de abril de 2013
O carro perfumado
Morava à rua Pedro Pires, 427, Vila Carrão. O pior endereço, de longe, no qual já tive a má sorte de residir. Não pela localização, não pela casa, mas pelas pessoas q comigo moravam. Eu residia com minha ex-mãe, Regina, e com seu amásio, R.
Certo domingo eu havia combinado com minha amiga Luciana, que estudara comigo na quinta série, e que não mais era minha colega, de irmos ao cinema do Shopping Aricanduva. Vivendo na megalópole "Sampa", bastante intimidadora para qquer tipo de deslocamento de uma pessoa inexperiente que poderia com muita facilidade "se perder para todo o sempre". Eu avisara no dia anterior a Regina deste combinado, e estava tudo certo para ela me levar ao shopping, eu encontrar minha amiga e com ela ver o filme enquanto Regina dava umas voltas e fazia umas compras por lá mesmo a tempo de eu sair da sessão e voltar com ela para casa. Tudo muito certinho.
Mas na manhã de domingo, não lembro ao certo o motivo, Regina resolveu que iria "me punir" por alguma coisa que eu havia ou não havia feito não mais me levando ao shopping. Chocada e em protesto, lhe disse algo como:
- Mas já estava tudo combinado! Já confirmei com a minha amiga que eu vou! Ela vai ficar muito brava se eu não aparecer!
Ao que Regina deu de ombros, e disse:
- Vá de ônibus!
Com frescos 12 anos, eu não tinha a menor idéia de como chegar de ônibus ao Shopping Aricanduva. E em 1995 ainda não havia internet como hoje, em que num simples click podemos tirar esta dúvida, nem nada que se parecesse com o GPS, ou Foursquare...
A discussão foi crescendo a um ponto em que percebi que Regina "amava mais" seu carro do que a mim, e que valorizava por demais seu próprio descanso, em detrimento de qualquer aspecto de minha vida. Eu tinha 12 anos, mas já era bem a mesma Fernanda que sou hoje. Num rápido lapso, pensando o que a poderia "abalar" e fazer capitular, subi as escadas como um raio, entrei em seu quarto e, bufando, tranquei a porta. Pensando em que tipo de retaliação lhe poderia fazer, vi em cima do gaveteiro contraposto ao espelho seu único vidro de perfume, enquanto Regina esmurrava a porta.
O peguei, fui até a varanda que dava para a garagem no andar de baixo e comecei a gritar, com todo o destempero do peito aberto de uma adolescente:
- Você ama essa p***a deste carro muito mais do que a mim! Quer saber, já que vc ama tanto a p***a deste carro, vou encher ele de perfume!
Regina, vociferava a esta altura já da garagem, do andar de baixo. Lembro-me até hoje do exato tom de azul bebê daquele frasco de "Tathy" do Boticário enquanto eu percebia: "se eu tacar o perfume fechado no carro, vai espatifar o para-brisa, ou amassar o capô, e isso vai dar uma merda enorme!" Então, inteligentemente, não taquei o vidro fechado sobre o carro, desenrosquei a tampa e, com prazer venenoso, despejei todo o seu conteúdo sobre o capô, enquanto Regina assistia boquiaberta.
- Agora seu carro tá bem perfumadinho!
Enquanto Regina subia e descia as escadas maniacamente, esmurrando a porta de vez por outra enquanto berrava descontroladamente coisas absurdas de qualquer mãe dizer a uma filha, peguei o telefone de seu quarto e liguei para Luciana:
- Minha mãe tá dando chilique aqui em casa e não vai mais me levar pro cinema, não vou poder ir.
Luciana, que também tinha seus problemas, me compreendeu, e disse:
- Vou pedir pra minha mãe passar na esquina da sua casa 13:30. Se vc puder sair, esteja lá e minha mãe te leva!
Lhe dei mil agradecimentos e falei que faria o possível. Num dos intervalos em que percebi que Regina estava no andar de baixo, rapidamente destranquei a porta, corri pro meu quarto e tranquei a minha porta. Peguei minha mochilinha com minha carteira, dinheirinho e documentos e fiquei "de tocaia". Ela veio esmurrar minha porta mais uma ou 2 vezes enquanto gritava impropriedades. Uma hora depois, ainda em tempo de ir ao cinema, ouvi o barulho do chuveiro no andar de baixo. Como seu amásio não estava em casa, percebi que Regina estava momentaneamente "fora de combate", peguei minha mochilinha, minha chave, e saí.
Esperei por mais de uma hora na esquina até que o carro da mãe de Luciana parou para me pegar. Consegui controlar o choro e quando ela me perguntou o que tinha acontecido, disse:
- Prefiro não falar sobre isso. Vamos mudar de assunto.
Sua mãe nos deixou no shopping, lhe deu um beijo, 20 reais, e disse:
- Me liga quando terminar a sessão que em meia hora eu te pego aqui mesmo.
Muito sorridentes e independentes, fomos ao cinema e vimos à (péssima) fita Debi & Loyd. A final do filme, enquanto íamos ao banheiro, disse a Luciana:
- Eu não queria voltar ainda pra casa, podemos ver mais um filme?
Ela me deu um meio sorriso de comiseração, daqueles que a gente nunca gosta de receber, e disse que tudo bem, ainda eram 4 horas, cedo, mas que tinha que ligar para sua mãe para avisar, se não ela ficaria preocupada.
Depois de ligar, me disse se eu não devia também ligar para minha mãe, pois ela poderia se alarmar com minha "demora extra", ao que eu disse que não era necessário. Voltamos ao cinema e assistimos à (razoável) fita "Ninguém Segura Este Bebê".
Saímos, muito alegres, ela ligou para sua mãe vir nos buscar, comemos alguma coisa, e quando fomos ao lugar combinado, percebi que já era noite. Enquanto sua mãe tomava o caminho da minha casa, me passaram na cabeça mil cenários do que poderíamos encontrar, afinal, eu saíra antes do almoço sem avisar, eu tinha 12 anos, e já era noite. Teria Regina chamado a polícia para me reportar como desaparecida? Teria Regina "convocado" familiares ou psicólogos para uma intervenção? Estaria ela me esperando sentada no sofá, com o pezinho balançando, para uma "conversa séria e definitiva"?
A mãe de Luciana me deixou na esquina e dei um suspiro de alívio ao perceber que não havia nenhuma viatura na porta de casa. O carro de Regina continuava na garagem, exalando um cheiro nauseante de Thaty. Girei minha chave na porta de entrada com um calafrio, de se daria de cara com ela na sala. Ufa! Não! Ninguém na sala.
Rapidamente corri pelas escadas, e enquanto passei pela frente de seu quarto com a porta fechada, ouvi que sua TV estava ligava. Corri e me tranquei no meu quarto, o sangue gelando nas veias: se daria tempo de trancar a porta antes que ela invadisse o recinto e me batesse. Tranquei e sentei no chão, contra a porta, com a certeza de que logo ela viria me dar um sermão de como ela tinha ficado preocupada e desesperada com o meu sumiço. Um, 2, 3 minutos, nada.
Fui para a cama, repassando os acontecimentos do dia. Meia hora, uma hora, 2 horas, nada!
Depois foi 1 dia, 2 dias, uma semana, nada! Ela simplesmente nunca mais tocou no assunto.
Eu tinha 12 anos mas já sabia que a pessoa responsável por ter "conversas sérias" comigo estava pouco se lixando em ter "conversas sérias" comigo e me dar orientações para a vida. E que a pessoa que mais deveria "se preocupar comigo" e cuidar de mim estava pouco se lixando para qualquer coisa minha.
Este foi o pior endereço em que morei e as pessoas que comigo lá moravam as que tive a maior infelicidade em conhecer. Esse foi o período mais triste de minha vida.
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terça-feira, 19 de março de 2013
De quando salvei a vida da minha avó
Era uma segunda feira. Na semana anterior a professora Bruna, de português, avisara que faltaria na segunda. Contudo, mesmo tendo avisado, a escola não conseguiu um professor substituto. E isso salvou a vida da minha avó.
Naquela segunda feira eu deveria dar aulas até 22:30, porém como a professora de português faltara, eu dei aulas "paralelas": ao mesmo tempo em 2 turmas. Se o diretor fosse "linha dura", me teria feito permanecer na escola até as 22:30 "cumprindo o horário", o que teria resultado em eu chegar em casa e encontrar minha avó já morta. Mas como o diretor dessa escola (E.M. Armando Grisi) era legal, me deixou ir embora às 20h40.
Eu poderia ter ido passear, comer alguma coisa, tomar uma cerveja. Mas voltei diretamente para casa, sem saber o quanto essa pequena cadeia de coincidências seria importante.
Às segundas à noite, minha avó Tula ia ao Centro Espírita "Fé e Caridade", e chegava em casa por volta de 20:50. O trajeto entre a escola "Armando Grisi" e a minha casa é de 10 minutos. Portanto, eu cheguei em casa imediatamente, ou poucos minutos depois dela.
Um dia muito normal. Cheguei, o carro dela já estava na garagem, estacionei o meu ao lado. Abri a porta da sala. A TV estava ligada. Tínhamos 2 cachorros, que sempre vinham me fazer festa quando eu chegava. Neste dia foi estranho. Eu abri a porta. Só Jade veio me fazer festa. Onde estava Whiskey? A TV da sala estava ligada, mas Tula não estava na sala. Enquanto terminava de abrir a porta, vi a cena mais arrepiante de minha vida.
Olhei o fundo do longo corredor que liga a sala aos quartos. No fim do corredor, na porta do quarto da minha avó, vi 2 pezinhos.
2 pezinhos apenas, saindo do quarto da minha avó, cuja luz estava acesa. 2 pezinhos de uma pessoa caída no chão, desfalecida. A cena mais assustadora que já vi. Um com sapato, outro sem sapato, caído ao lado. Meu primeiro pensamento foi: "Meu Deus, ela morreu!"
Corri até o quarto. Uma enorme poça de sangue aureolava a cabeça da minha vó, toda pisada pelas marcas das patinhas de Whiskey, aflito ao seu lado. Para meu alívio, Tula não estava desmaiada, mas semi-consciente, tentando descoordenadamente se levantar. Pela profusão de sangue, temi que ela tivesse tido traumatismo craniano. Peguei suas mãos e disse:
-Tula, não tente se levantar. Deita, relaxa. Vou chamar a ambulância.
Ela se acalmou e parou de se mexer. Numa vã tentativa de estancar o sangue e prevenir maiores danos cerebrais, peguei seu travesseiro na cama e coloquei sob sua cabeça ferida.
-Tula, fique deitada, aguente firme, preciso chamar o resgate. Não se mexa.
Embora minha vontade fosse ficar ao seu lado para ela não se sentir sozinha, corri para a cozinha para pegar o telefone. No fogão, uma chaleira fervia furiosamente. Apaguei o fogo. Liguei para o 193. Descrevi a situação e pedi uma ambulância. Ao desligar, veio o medo "e se pensarem que foi trote e não vierem???"
Peguei na bolsa da minha avó seu cartão do convênio médico. Liguei para o hospital do convênio, desesperada, avisando do que acontecera, e perguntando se o resgate público nos deixaria no hospital particular. Responderam que sim. Atalhei: "então se preparem para receber um paciente idoso com traumatismo craniano, em 5 minutos."
Eu queria então voltar a segurar a mão da minha vó, mas havia mais providências práticas a tomar. Whiskey era um cachorro problemático. Se eu o deixasse ao lado da Tula, ele atacaria os socorristas, então o peguei e tranquei no quintal, junto com a Jade. Ele latiu em protesto, e prosseguiu a latir incessantemente.
Com os 2 carros na garagem, os socorristas não conseguiriam entrar nem sair com uma maca. Então, mesmo sabendo que minha avó agonizava sangrando no chão, eu sabia que muito mais proficiente que ficar segurando suas mãos no aguardo da ambulância, seria tirar meu carro da garagem antes que o resgate chegasse, para agilizar seu trabalho. E foi isso o que fiz. Apenas depois de tirar meu carro da garagem, deixando todas as luzes acesas para quando o resgate chegasse, agilizar seu trabalho, tornei a atendê-la.
Peguei o telefone sem fio, e voltei ao quarto. Enquanto segurava as mãos de Tula e a tentava deixar tranquila, ambas sujas pelo mais de 1 litro de sangue espalhado pelo chão, liguei para Maria José Tomasella, pedindo ajuda.
Não sei quantos, se 5 ou 10, mas a ambulância demorou intermináveis, excruciantes, minutos para chegar. Buzinaram na frente de casa. Corri. Abri o portão "é aqui mesmo, corram!". 3 bombeiros entraram com uma maca e itens para imobilização: "vc moveu a paciente?"
- Não, não mexi nela, e pedi que ela não se movesse. Só coloquei um travesseiro para estancar o sangue.
Eles a suspenderam e pediram minha ajuda para colocar a maca embaixo dela. Sobre a maca, lhe colocaram o colar cervical, e amarraram seus braços e pernas. Devido a eu ter tirado o carro da garagem, rapidamente a puderam colocar na ambulância. Agarrei sua bolsa, com seus documentos, e fui com eles na ambulância, na parte da frente, ao lado do motorista.
Muita aflita, lhe disse algumas vezes em voz alta:
-Tula, eu estou aqui, vc vai ser levada pro hospital, fique tranquila.
E a ouvi dizer aos bombeiros, para meu grande alívio:
-Eu sou viúva de um policial. Meu marido era major.
Eles sorriram. Pediram que eu lhes desse um documento dela. Lhes entreguei sua habilitação. Tentando checar seu nível de consciência, perguntaram seu nome completo. Resposta certa. Perguntaram a data de seu aniversário:
- Primeiro de novembro
O bombeiro fez um tsc, tsc, meneando a cabeça negativamente, pois o documento marcava 13 de fevereiro. Com muita felicidade, expliquei ao bombeiro:
-Ela disse a data certa, ela nasceu dia primeiro de novembro, mas foi registrada em 13 de fevereiro.
Menos de meio minuto depois chegamos à emergência do hospital particular. Como eu havia ligado, eles já estavam de sobreaviso, esquematizados para recebê-la com um neurologista. Foi imediatamente levada ao aparelho de ressonância magnética, enquanto fui encaminhada à recepção sem nem poder agradecer aos bombeiros pelo resgate.
Comecei a responder às perguntas da recepcionista, e percebi que estava a deixar impressões digitais marcadas em sangue por todo o setor de atendimento. Pedi para ir ao banheiro para lavar as mãos. Na volta, ela me informou que, como havia possibilidade de morte, a Guarda Civil precisava ser acionada.
Uns 5 minutos depois, sem que chegasse nenhuma notícia sobre o atendimento, chegou o Guarda Civil e a recepcionista me chamou. Ele começou a fazer perguntas sobre o ocorrido, e mesmo tentando ser o "mais sensível possível", pude detectar que uma das suas preocupações era se não teria sido EU a agredir minha avó na cabeça... Apesar de me sentir ofendida por esta simples insinuação, compreendi que era necessário ele descartar essa possibilidade.
Quando ele percebeu que não era este o caso, perguntou se eu verificara a casa toda, se não teria sido um invasor, um ladrão, a agredir minha avó. Sinceramente, isso nem passara pela minha cabeça. Lhe disse que a casa estava toda trancada, tudo no lugar, que com certeza tinha sido um acidente, com a dúvida subjacente de q eu nem tivera cabeça para verificar a casa, as jóias, os dólares, o quintal... Sim, era possível que enquanto eu socorria minha avó um ladrão tivesse ficado escondido no quintal e enquanto eu respondi a esta pergunta, a casa vazia poderia estar sendo saqueada... Mas isso era o de menos. Eu não sabia se minha avó sobreviveria, e isso era tudo o que me importava.
Logo Maria José chegou ao hospital, e então liguei para Renê e Regina, avisando do ocorrido. Sim, até para Regina liguei, e lhe disse: "se eu tivesse mãe e ela estivesse em risco de vida, gostaria que me avisassem. Por isso estou te avisando." Eu esperava q ela dissesse: "estou pegando o carro, em 2 horas estou aí", pois é o que eu teria dito nessa situação. Mas, com um suspiro de enfado, respondeu: "amanhã vou ver se dá pra ir..." Sem mais comentários...
Na recepção do hospital, algum tempo depois vieram chamar "a responsável pela paciente Shirley". Fui levada até sua maca. Ela estava consciente. Cheguei ao seu lado, e ao me ver ela me dirigiu um olhar eloquente, absolutamente indescritível, de alívio e confiança. Agarrou minha mão como quem dizia: "Estou viva!"
Não falei nada, virei minha cabeça para o médico e ele logo explicou:
- Fique tranquila, ela não teve traumatismo craniano. Ela sofreu um corte profundo na nuca, por isso sangrou tanto. Demos 4 pontos. Mas amanhã mesmo ela deve ter alta, sem nenhuma sequela, sem nenhum problema.
Uma lágrima rolou do canto do meu olho e eu sequer pude articular-lhe uma frase. Lhe dirigi um olhar pungente e tornei a olhar o rosto de minha avó, que a esta altura já sorria.
É verdadeiramente indescritível a sensação de ter salvo a vida da minha vó. E mais ainda, de que se todas a felizes coincidências que me levaram a poder fazer isso não tivessem se concatenado (a outra professora ter faltado e o diretor me dispensado mais cedo), e eu tivesse chegado às 22:40, eu a teria encontrado já morta, não com 1, mas com 3 litros de sangue derramados no chão.
Deus proveu. Eu a pude acudir. E ela pôde viver mais 3 anos. 3 anos nos quais viajou à Argentina, ao Sul e ao Nordeste, recebeu parentes, visitou parentes, foi alegre, seguiu a vida "de casa para o supermercado para o centro espírita" de que tanto gostava, viu mais umas 15 novelas, costurou várias dezenas de conjuntos de travesseiro e lençol para bebês doados a mães carentes. E pudemos conviver.
Nesse meio tempo operou-se das pedras na vesícula e da catarata, sem poder dirigir nem cozinhar por vários meses, nos quais fui suas pernas, sua motorista, seus olhos e sua cozinheira. Numa das vezes em que estava-lhe servindo de motorista devido à operação da catarata, reclamei que o trânsito me atrasaria e ela falou, como uma criança emburrada com os braços cruzados sobre o peito:
-Eu sei que eu sou um peso...
E eu pude lhe dizer, com todas as letras:
- Você não é um peso, você é minha avó e eu te amo, só estou reclamando do trânsito.
Ela não sorriu, nem falou nada, Tula era "dura na queda", e não era afeita a "demonstrações públicas de afeto", apenas colocou sua mão sobre a minha, que estava no câmbio trocando marchas e deu uma leve apertadinha.
Esse pequeno gesto, de ela apertando levemente minha mão foi mais eloquente que qualquer declaração de amor. Foi um gesto de confiança, que ela sentia na mão que ora lhe servia de motorista a mesma firmeza da mão que naquele dia, ensopada no seu sangue, a salvara. Foi como se ela tivesse dito : "obrigada por você estar aqui para me dar a mão, para me acudir, para dirigir e cozinhar para mim. Obrigada, simplesmente por você estar aqui e eu ter a sua mão para apertar, seus ouvidos para reclamar e sua voz para dizer que me ama."
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