Mostrando postagens com marcador greve. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador greve. Mostrar todas as postagens

sábado, 5 de fevereiro de 2011

De meu biso e minha Nonna – imigrante e oriundi

Os noticiários locais brasileiros freqüentemente divulgam reportagens sobre estrangeiros que imigram para o Brasil e sua condição social. Não somente o Brasil mas todo o continente americano foi determinantemente colonizado por estrangeiros, dos 3 continente que compõem o Velho Mundo: Europa, Ásia e África.

É inegável a contribuição não só genética como cultural que os latino-americanos devem reputar a seus antepassados indígenas. No Brasil, especialmente, algo da indolência latente típica aos brasileiros remonta aos nossos avós autóctones. Certa vez um aluno me perguntou, claro que não nesses termos, mas nesse sentido: “Quando vemos aos demais povos latino-americanos, são expressas suas feições indígenas. Mas, e no Brasil, o que aconteceu com os índios brasileiros?”

Para além do genocídio, intencional pela guerra ou acidental pelas doenças, os índios brasileiros, mais que dizimados foram absorvidos. Portanto, respondi-lhe: “Os índios brasileiros somos nós. Embora não tenhamos olhos tão puxados, todos nós aqui nessa sala de aula seguramente temos sangue indígena.” O aluno, sabendo-se multi-mestiço, até deu um sorriso com minha resposta e talvez tenha depois reconhecido em seus olhos amendoados algo se seu sangue tupi.

Freqüentemente muitos não entendem pq a identidade nacional brasileira é mais difícil de ser compreendida, e muito crêem que no Brasil o patriotismo não existe no mesmo grau que na França, na Espanha, ou na Inglaterra. De fato. A identidade francesa, inglesa e espanhola remete-se não só a “nações” mais antigas, como tb mais uniformes, forjadas no sangue de uma Revolução Burguesa. Que poderia ser expressa pelo termo “etnia”. Um certo reconhecimento de que descendemos de um grupo que lutou e derramou seu sangue para garantir-nos nossas liberdades “democráticas”. O que não ocorreu no Brasil; que nunca passou por nenhuma Revolução verdadeira, popular. Isso, infelizmente, ainda sói fazer.

É muito mais fácil reconhecer um francês, espanhol ou inglês pelo seu fenótipo do que um brasileiro. Brasileiros podem ter qquer aparência exterior, de qquer etnia, pois o Brasil recebeu imigrantes dos 4 cantos do mundo. Por isso nosso passaporte é muito falsificado. Em “The Bourne Identity” grita o passaporte brasileiro de João do Carmo, assinado por Gilberto do Piento, só para ilustrar.

Creio que a única “etnia” reconhecível como exclusivamente brasileira refere-se ao que alguns chamariam pejorativamente como “nordestinos”. Os nordestinos são os únicos brasileiros que, pelo seu fenótipo, são imediatamente reconhecíveis como brasileiros. Pelo diâmetro ampliado do crânio, pela “cabeça chata”, pelo tronco reto, pela estatura baixa, pela pele morena, cabelo enrolado e feições mestiças de branco, índio e negro. Tenho eu também sangue nordestino via meu avô materno. Também meu amado avô era um reconhecível “nordestino” étnico, ainda que branco. Não havia boné que lhe coubesse.

Tenho eu portanto esse sangue etnicamente exclusivamente brasileiro, e dele tenho orgulho, pois quem mo legou foi um homem honrado. Porém minha identidade americana vai muito mais além. Sou também fruto da imigração. Pela via paterna sei que tenho sangue espanhol. Pela via materna sei que tenho sangue português e italiano.

Fizessem meu perfil genético, ao analisar meu DNA mitocondrial, diagnosticar-me-iam como oriundi. A mãe da mãe da mãe de minha ex-mãe era a signora Maria Bianchetti, italiana, que emigrou para o Brasil. Desta linhagem herdei meus seios fartos, minhas emoções passionais, meu gosto pelo drama e meu gesticular incontrolável, pois italianos, para além de com a boca, falam com as mãos. Minha trisavó oriundi Maria Bianchetti casou-se com o também italiano Geronimo Pilon originando minha nonna já brasileira Giselda Pilon, que casou-se com o português Agostinho José Alves, espírita kardecista, filho de Maria Cândida Gonçalves de Vila Pouca de Aguiar em Trás-os-Montes (Portugal), e originou minha avó já muito citada Shirleÿ Pilon Alves quando solteira, vulga “Tula”, que casou-se com meu avô mui citado, o nordestino Vicente Novais da Silva, originando Regina, que me pariu.

Posso pois traçar minha linhagem até a quinta geração, remontando-a à Itália, a Portugal e ao Ceará. Sei que tenho direito à cidadania européia por minha avó Tula, ainda viva, ser filha do já falecido português Agostinho José Alves. De minha linhagem portuguesa também tenho a única informação sobre os possíveis genes defeituosos que carrego pois o pai de meu bisavô Agostinho, Dom Augusto José Alves, era surdo. Para além dele, nunca tive notícia de nenhum parente ou antepassado portador de nenhuma deficiência. O que é até atípico.

Reconhecer ser descendente de imigrantes estrangeiros traz subjacente uma confissão de pobreza ancestral. Pessoas migram por motivos de opressão: religiosa, política, étnica ou econômica. Por este motivo final emigraram meus antepassados, e para o Brasil vieram iludidos talvez pelo sonho de “fazer a América” e aqui enriquecer.

Minha Nonna Giselda foi uma mulher cuja história é admirável e merece registro. Se eu não o fizer ninguém mais o fará e sua memória cairá no esquecimento. Portanto, para honrar à vovó, eternizo aqui, mais do que em tinta preta sobre papel, em pixels e bytes, que a traça não rói e o ladrão não rouba.

Minha Nonna foi registrada apenas aos 5 anos de idade, disseram-me pq precisava do papel para ingressar na escola, que freqüentou apenas 2 anos, para se alfabetizar. Portanto, ao morrer seu registro em papel marcava 5 anos a menos que seus 99 anos e 10 meses. Quase completou um século. Não, não viu o cometa Halley 2 vezes, pois na década de 1980 ele foi indivizável. E quando criança, tb não o viu. Contou que sua mãe, ao avistar o cometa mandou-a esconder-se no armário, por estar certa de que o cometa vinha para anunciar o Fim dos Tempos e o Juízo Final.

Consta igualmente que minha bisavó, paulistana como eu, quando criança fugiu com a família de uma fazenda de café em Serra Negra pois os capatazes dos cafeicultores queriam dispensar aos italianos o mesmo trato dado aos negros escravos. Chocados com tal selvageria, os Pilon fugiram de madrugada, com a roupa do corpo, para Rio Claro, onde o tecelão Geronimo conseguiu trabalho na fábrica da família dos também oriundi Matarazzo.

Foi tb trabalhando para os Matarazzo que minha bisavó ficou “meio surda” ainda criança, já de volta a São Paulo, capital. Fiquei sabendo disso com muita surpresa. Certa vez, assistindo com minha Nonna à televisão, ela pediu-me para subir o volume do áudio. Subi e comentei que era normal, dada sua avançada idade, ela ter problemas de audição. Ela sorriu. Eu não entendi. Ela explicou que sua surdez não era devida à idade. Contou-me então que percebera-se “meio surda” já aos 12 anos, pois trabalhava já há muito tempo entre as máquinas de tecelagem dos Matarazzo, muito antes de alguém pensar em “Leis Trabalhistas”.

Minha nonna era uma mulher de muita coragem, como eu. Ela casou-se com um rapaz 7 anos mais jovem. O que hoje é comum e então era anátema. Soube que quando ela era moça, na então “idade de casar” (creio que entre os 15 e 21 anos), foi noiva de um rapaz que, descobriu, a traía. Ora, comum era às mulheres dos 1930 engolirem caladas seu orgulho e agarrar-se à primeira oportunidade de se casar. Não a quem carregava os mesmos genes que me animam. Minha bisa mocinha rompeu orgulhosamente seu noivado. Solteira, viu os anos se passarem.

Aos 31 anos, já segura de que seu destino era “ficar para titia” conheceu um rapaz mais jovem. Meu biso Agostinho tinha então 24 anos e alguns “problemas com a Justiça”. Não era bandido, mas manifestava os genes da insubordinação, tal qual eu. Estava envolvido em questões sindicais, Anarquismo e greves operárias. Por ser estrangeiro, sabia que o governo já estava a adiantar os papéis para sua extradição como persona non grata, de volta para Portugal.

Imagino que tenham-se apaixonado. E que tenha sido algo escandaloso, em 1937, uma “solteirona” oriundi casar-se com um tipo português meio suspeito, envolvido com “arruaças” e, acima de tudo, mais jovem! Não tivesse minha nonna coragem de enfrentar as fofocas da vizinhança, não estaria eu aqui para o narrar. ;) Casaram-se em janeiro de 1937. Meu biso foi com sua certidão de casamento dar entrada nos papéis de sua naturalização e permanência no Brasil.

A burocracia disse-lhe que casar-se com uma brasileira não era suficiente para certificá-lo de sua estadia. Enquanto não tivesse ele, tal qual futuramente Ronald Biggs, um filho nascido no Brasil, não poderia estar seguro de não ser extraditado.

Creio que a situação de meu bisavô fosse frágil pois ele não pôde esperar que sua esposa engravidasse. Creio que nisto confesso um crime, mas já prescrito, e cometido por dois já falecidos. Meu biso então fez um falso registro em cartório. No dia 13 de fevereiro de 1937 registrou, menos de um mês após casado, o nascimento de uma filha deste matrimônio: Shirleÿ Pilon Alves, pois eram os tempos áureos da menina-prodígio Shirley Temple. Este registro foi de um bebê fantasma, inexistente. Mas da posse de sua certidão de casamento e do nascimento de uma filha-fantasma, o português Agostinho obteve sua permanência no Brasil.

Meses depois perceberam que minha Nonna estava grávida. Nascesse menino, fariam um novo registro. Nascesse menina, ficaria com o registro já feito, em fevereiro. Nasceu menina, e minha avó. É por conta disso que, embora 99,999% das pessoas que são registradas em data errada o são em data posterior, minha avó é um caso único de alguém que em seu registro é 9 meses mais velha do que de fato é, pois foi registrada em cartório quando ainda não existia.

Não tive tempo de explicá-lo aos para-médicos que, ao meu chamado, a socorreram em 2009. Na ambulância, pediram que eu lhes entregasse um documento dela.

Com ele em mãos, perguntaram-lhe:

- Qual é o nome da senhora?

Confusa, mas ainda lúcida, disse:

- Shirley Alves da Silva.

- E quando é o seu aniversário?

- Primeiro de novembro.

O bombeiro leu no registro 13 de fevereiro e concluiu que ela não estava tão lúcida assim.

Acudi em esclarecer, sem tempo para explicar:

- Seu bombeiro, ela falou a data certa, a data do documento é que é a errada.

Minha avó nasceu santista, filha de estivador líder sindical e de uma dona de casa. Como durante a II Guerra Mundial rarearam os navios cargueiros no porto de Santos, a família realocou-se na Vila Formosa, São Paulo, Capital, onde sua filha mais velha, minha avó, casou-se já aos 18 anos com seu vizinho de muro, meu avô Vicente, nordestino. Em São Paulo capital meu biso Agostinho assumiu a profissão de motorneiro, que eu própria desconhecia e que Tula explicou-me referir-se aos "motoristas e cobradores do bonde elétrico".

Não tivesse ocorrido a II Guerra Mundial talvez nunca Tula e Vicente teriam se conhecido e o amálgama que resultou em mim nunca teria-se realizado. Nunca saberemos do que não se passou, pois a II Guerra veio e Shirleÿ, já com 15 anos, noivou com seu vizinho Vicente. Muita falta de imaginação noivar aos 15 anos com seu vizinho de porta. Já o disse à Tula. Longe de criticá-la, pois meu avô sempre foi um homem que honrou a sua esposa e à sua família. Alguém que merece verdadeiramente por sua estatura moral ser reputado como patriarca de uma beit’av, tal qual Abraão.

Seu sogro, meu biso português Agostinho, faleceu quando eu era nova demais para plasmar lembranças. Convivi com sua viúva, minha Nonna já octogenária durante a infância e dela guardo ternas memórias. Mulher digna, teimosa, ranzinza, discreta, mas sempre carinhosa com sua descendência. Mais calava do que dizia. Criava por estimação um pássaro preto (não me refiro à cor, mas esta é a designação de uma espécie) e uma tartaruga, presente de sua neta Viviani Alves da Cruz, mãe de Ivana Gabriela, Amanda e Sofia. Além de minha avó Tula, minha Nonna Giselda teve outros dois filhos, Waldomiro Pilon Alves “Leco”, casado com Clara Reiter, (pais de Viviani, Vânia e Alexandre) e Agostinho José Alves Filho “Chanchan”, casado com Áurea Massuella (pais de André, Andréia e Adriana).

Pois é, tal qual os mafiosos napolitanos da Cosa Nostra, meus antepassados e colaterais oriundi nascidos antes dos 1950 têm, ainda hoje, epítetos/alcunhas/apelidos familiares indissociáveis. Urge também registrar que o nome de minha prima carioca Gisele Rani Martins da Silva é uma homenagem à bisa que ela pouco conheceu, Giselda; da parte de meu tio Renê, que como eu anima genes nordestinos, ibéricos e romanos; e creio que procure honrar aos que o antecederam.

Tiveram ambos, meu biso Agostinho e minha Nonna Giselda vidas memoráveis, que merecem registro. Português e Oriundi, contribuíram, com seu trabalho, filhos, netos e bisnetos para a construção da Mérica, mérica, mérica... Não creio que seu sonho tenha sido frustrado. Sinto-me orgulhosa de ser brasileira miscigenada, nordestina, lusitana, oriundi. E espero honrar a meus antepassados e toda a Speranza que depositaram no futuro. Que sou eu.

E, para além de mim, também são fruto deste sonho todos os meus tios e primos em segundo, terceiro e infindáveis graus. Só o fato de existirmos já testemunha algo do sucesso de nossos antepassados e de como a terra brasílica lhes foi propícia.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

A bagunça de Serra na educação do estado de São Paulo

(originalmente postado no tópico do orkut)

"O que ele fez pra vc se referir a ele como ditador? É o tradicional descaso com a educação ou algo além? " O Serra não negocia, ele ordena. Ele não promulga leis, ele as decreta. Ele mexeu tantas vezes na legislação de professores contratados desde 2007 que ele criou diversas categorias de professores, com direitos diferentes, sempre reduzidos a cada novo decreto. Ele se recusa a negociar com os professores. Ele se recusa a ouvir as demandas.

Mesmo em relação ao conteúdo, ele quer mandar em tudo. Enquanto que o estatuto do magistério celebra a autonomia escolar ele quer uniformizar via decreto todo o ensino estadual. Ora, a realidade da capital é muito diferente de Cabobró do Judas. E com relação às "metas".

Como o Serra adora falar em metas, avaliações, diferenciação por um suposto "mérito"...

Para receber o tal "bônus" tão propagandeado a escola tem uma "meta" que é medida tanto pelo desempenho dos alunos no Saresp, uma avaliação unificada para todo o estado, como pelos índices de evasão e repetência. Resultado: cada aluno reprovado é descontado diretamente do "bônus" dos professores, portanto reprovar um aluno, que já era difícil, torna-se impossível pela pressão econômica do governo. O Serra quer números. Como se uma escola não reprovar ninguém fosse um dado positivo. Tb a respeito do bônus. A meta é calculada em cima do desempenho anterior. A escola que tirou 3 tem uma meta de 3,3, por exemplo. A escola que tirou 5 tem meta 5,5. A escola que atinge 3,3 recebe bônus enquanto que a escola que manteve seu 5 não ganha um centavo, embora seu ensino seja, presumivelmente, melhor que o da escola nota 3.

São tantas as distorções numéricas... Outro exemplo: teve prova para ter aumento "por mérito". Ora, o teórico que se dá bem na prova não necessariaente dá uma boa aula ou ensina direito aos alunos. O Serra quer pasteurizar a educação, pressionar os professores com metas empresarias e plantar a desunião entre eles ao fazer uns ganharem x e outros ganharem y apenas baseado em uma prova arbitrária.

Sobre o descaso tradicional, bem, dou aulas há apenas 3 anos mas ouço de colegas mais experientes que desde que o PSDB subiu ao poder em SP (isso ainda na época de Mário Covas) ele apenas tem sucateado cada vez mais a educação. Tanto Covas como Alckmin e agora o lastimável Serra têm desmontado nosso sistema educacional, e cada vez parece mais claro que a real "meta" é chegar na terceirização da educação no estado de SP.

Muito triste.

Sobre as várias categorias de professores, só para vcs terem uma ideia. Não sou expert no assunto, mas por estar no olho do turbilhão passei a entender um pouco sobre a complicação das categorias.

Em 2 de junho de 2007 o Serra baixou um decreto mudando os contratos dos novos professores (estou falando apenas dos não-concursados chamados de OFAS ou ACT's). Quem já era OFA (Ocupante Função atividade) ficava na categoria F. Os contratados a partir de então viravam categoria L. Diferenças? Na época ninguém sabia, depois descobrimos que os L não contribuíam para a SPPrevi, mas para o INSS. A Apeoesp (sindicato dos professores) obteve na Justiça que os F ganhassem estabilidade sobre 10 horas/aula. Ou seja: o Estado era obrigado a assegurar pelo menos 10 horas/aula semanais para a categoria F. Até aí isso não teve nenhuma aplicação prática.

Em 2008-2009 o Serra inventou uma nova categoria: a O. Agora os novos contratados não seriam mais da categoria L, mas da O. Principal diferença? Menos direito a abono (os F tem 6 por ano, os O 2), menor direito a férias (na verdade sem direito a férias remuneradas), menor licença saúde etcs, mas principalmente a cláusula dos 200 dias. Exemplo: alguém que se formou agora tem 0,000 pontos no Estado. Que aulas sobram? As licenças temporárias, por exemplo, por saúde e maternidade. Este recém-formado que assume uma licença saúde de 3 meses é contratado na categoria O. Quando acaba a licença a cláusula dos 200 dias impede que este professor tenha um novo contrato de aulas estaduais por pelo menos 200 dias. Pq 200 dias? Pq esta é a duração, em dias úteis, de 1 ano letivo. Resultado: os categoria O trabalham ano sim, ano não. Num ano comem, no outro passam fome. Num ano moram, no outro vão pra debiaxo da ponte. Fiquei sabendo de um professor que ficou meses indo todo dia como eventual (substituto) pq se fosse contratado não poderia trabalhar agora em 2010.

Mas o negócio ficou ainda pior: em julho de 2009 o Serra decretou que simplesmente não contrataria novos OFAS. Simples assim. Resultado: milhares de alunos ficaram sem professores pois não havia quem substituísse os professores que se afastavam ou faltavam. O que o Serra fez? Resolveu ativar a "estabilidade" dos categoria F. Em novembro ele decretou de novo: todo F que não tivesse pelo menos 10 aulas semanais era OBRIGADO a pegar mais aulas até completar pelo menos 10. Uns 3 dias depois alguém alertou que ainda não seria suficiente e o Serra não titubeou: agora todos os F eram OBRIGADOS a pegar mais aulas pelo menos até completar 20.Quem não pegasse as aulas era intimado a assinar sua demissão. Pode parecer uma coisa boa, o Serra oferecedo trabalho a professores com pouca carga horária, mas a parte do OBRIGADO é que causa o problema.

Primeiro: já era NOVEMBRO! Que que esses professores iam ensinar? Nada! O Serra só precisava de alguém pra assinar a papelada como se os alunos não tivessem ficado um dia sem aulas. Segundo: já era NOVEMBRO! Todo mundo já estava com seu final de ano esquematizado, e muitos professores dão poucas aulas no Estado pq desempenham outras atividades profissionais, ou dão aulas em escolas particulares. Terceiro: a escolha de aulas é regionalizada. Vou dar o meu exemplo: dou aulas em Rio Claro, cidade subordinada à Diretoria de ensino de Limeira, junto com várias cidades da região. A mim só interessa dar aulas em Rio Claro, pois o salário é baixo e não compensa pegar estrada todo dia para ganhar merreca. Se chega a minha vez e não tem aula em Rio Claro eu simplesmente não pego essas auals. Mas com a parte do OBRIGADO a pessoa era OBRIGADA a escolher aulas, nem que isso fosse anti-econômico. Eu vi sair gente da diretoria de ensino que, sem ter carro, foi obrigado a pegar aula em 4 cidades diferentes. A pessoa ia dar essas aulas? Claro que não! Mas como era OBRIGADA, teve que asisnar o papel. Ouvi dos funcionários neste horrível novembro: vc tem que pegar as aulas, agora se vc vai poder comparecer e dar as aulas é outra questão, o problema é seu.

Este ano descobri que foi inventada uma nova categoria, a I. Diferenças? Ainda não descobri e tenho medo de quais serão. As diferentes categorias de OFAS são apenas um aspecto da insegurança jurídica que José Serra implementou na educação do estado de São Paulo. Existem muitos outros aspectos da batalha entre professores e governo tucano de SP. Auxiliado por seus asseclas Maria Helena Guimarães e Paulo Renato, José Serra conseguiu em sua gestão deixar a educação ainda mais confusa e instável. Como se não bastassem os problemas da sala de aulas, agora o professorado tem que se haver com as mudanças de humor do governador do estado de SP a cada novo decreto.

sábado, 7 de março de 2009

Nota de uma professora temporária

Há algum tempo vinha testemunhando na condição de OFA (Ocupante Função Atividade) o desenrolar da batalha a respeito dos professores temporários, e ao ler o artigo de J. R. Guzzo “Nota Zero” na edição de 04/03/2009, senti que posso contribuir com meu relato para a melhor compreensão das questões atuais envolvendo o professorado paulista.

Primeiro, não tirei nota zero. Das 25 questões acertei 24, nota quase máxima. Mas isso é só para ilustrar que o que me motiva a escrever não é a defesa de minha honra, mas a elucidação de questões que só são percebidas por aqueles que vivem no dia a dia a escola pública.

Como bem apontado pela secretária Maria Helena Guimarães Castro nas páginas amarelas ano passado, as licenciaturas não formam professores, mas teóricos especialistas em Vygotsky ou Piaget. Sou bacharel pela FFLCH e licenciada pela FE da Universidade de São Paulo, o que creio que me coloca entre os estudantes que tiveram acesso à melhor educação superior e devo confessar: a Universidade não me ensinou a ser professora. Não me preparou para dar aulas. Campo proximal? LDB? Projeto envolvendo arqueologia da metrópole? Tudo isso é muito bonito, mas completamente inútil quando fui jogada numa sala com 40 crianças baderneiras as quais eu me senti completamente incapaz de controlar.

A USP não me ensinou a dar aulas. Se a USP não me ensinou a dar aulas, imagino que seja ainda pior a situação dos formados nas Unis que pipocam em cada esquina no vácuo da inação governamental.

A pedagogia, de acordo com a minha experiência, é como a Constituição: muito bonita no papel, linda de ser discutida. Mas contraposta à realidade, cria uma situação de riso involuntário. Se você pega o projeto político pedagógico de uma escola, você pensa que essa escola está alocada em alguma Jerusalém celeste perdida por aí. Mas se você se der ao trabalho de ir à escola e entrar nas salas de aula, verá que tanto blá-blá-blá não passa de palavreado vazio e que na sala de aula o que o professor menos faz é ensinar. Não sobra tempo. Eu tenho muito a ensinar. Meu bacharelado foi muito bom, aprendi muitas coisas que sinto prazer em transmitir aos alunos. O problema é que eles não deixam. Eles não querem aprender.

A sala de aula, especialmente entre a 5ª e 8ª séries é um campo de batalha em que eu passo 80% do meu tempo apartando brigas e tapas entre alunos, tentando impedi-los de gritar, de correr, jogar bolinhas de papel, de depredar o material público, tentando mantê-los sentados, sem mexer no celular, sem passar maquiagem, sem ouvir o mp3. De que serve tanta pedagogia? A impressão que muitas vezes eu tenho é que a grande “onda” dos alunos na escola é se divertir fazendo o professor passar nervoso, deixando-o completamente fora de si. Algumas vezes os alunos já me deixaram em tal situação de nervos que confesso que disse e fiz coisas horríveis, que se alguém me contasse que eu faria eu diria que isso seria impossível. Só quem já entrou numa sala de aula de escola pública entende o que digo. Esses grandes burocratas da pedagogia de escritório não têm nem idéia ao que me refiro. Na prática, professor bom é o professor que não leva problemas à direção da escola. O professor que põe o aluno para fora da sala de aula, que chama a coordenadora, que comunica os abusos dos alunos é o mau professor. A mensagem é que temos que “nos virar” o melhor que der para tentar sair mentalmente sãos, e com a voz íntegra, de cada sala de aula em que entramos.

Para lecionar? Não, para tentar domar 40 leões ao mesmo tempo. Já me disseram que para vencer na vida é preciso enfrentar um leão por dia. Ok. Um leão por dia ainda dá. 40 leões a cada 50 minutos, não.

Devo sentar e rezar para que Vygotsky controle as crianças para que eu possa então tentar passar-lhes algum conhecimento?

Várias matérias da revista Veja têm abordado a educação, e um dos pontos explorados é que se têm que investir na formação dos professores. Está certo. Como política de longo prazo. Não resolve o problema de hoje. Foi criticada a postura tradicional de pleito por aumento nos salários. Essa é uma questão fulcral. Eu ganho cerca de R$8,00 (a gente nunca sabe ao certo) por aula na rede estadual de ensino. Quantas vezes não me chamaram para substituir algum professor que faltara e eu recusei-me a ir por pensar: vou lá para ser desrespeitada, passar nervoso e sair com a garganta doendo para ganhar essa miséria? Não obrigada, eu pago oito reais para não ter que passar por isso. Sem contar outro detalhe: o professor não é pago para preparar aulas. Existem os 2 ou 3 HTPC’s mais outros tanto HTPI’s que não são suficientes para fazer frente a 20 ou 30 aulas semanais. Nem de longe eu sou remunerada pelo número de horas que (ainda, pois estou nessa vida há apenas 3 anos) passo preparando aulas para os alunos. E, como brinde, ao entrar na sala de aula, eu não consigo transmitir os conteúdos programados.

Eu considero que a intenção da secretária Maria Helena até pode ser boa, mas ela deve estar atenta (e essa não tem sido a postura do governo Serra) de que ela tem que dialogar com os professores. E cumprir o que promete. A Secretária, do alto do seu gabinete, cercada pelos burocratas acima referidos, não pode achar que vai determinar unilateralmente como as coisas vão funcionar. Secretários vêm e vão. A carreira do professor dura 25 anos. O tempo joga ao lado do professor, porque ano que vem tem eleição e a secretária Maria Helena pode perfeitamente não estar mais lá em 1º de janeiro de 2011, ou mesmo antes. E todas as suas decisões unilaterais não aceitas pelo professorado podem ser simplesmente cassadas em pouquíssimo tempo, mesmo com ela ainda no cargo, como ficou claro neste início de fevereiro.

Teve greve ano passado. Eu não participei do movimento pois estava a dar aula na Fundação CASA [a “extinta” (lembram do riso involuntário?) FEBEM], cujas aulas integram as da rede estadual. Se não tivessem aulas, os internos ficariam “na tranca” durante o período de aulas, portanto, os professores da FEBEM não participaram da paralisação. Bom, a greve foi encerrada com a promessa de um concurso e de aumento salarial de 12%. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir que esses 12%, em alguma mágica manobra do RH e da Contabilidade, se tornaram um aumento real de menos da metade disso. Sou da área de História, se fosse da Matemática talvez soubesse explicar melhor. E até agora, nada do concurso para 10 horas/aula. 10 horas/aula? Eu não fiz faculdade para ganhar R$500,00 reais por mês. E será algo próximo a isso a remuneração dos que forem aprovados neste concurso.

Agora, a respeito da prova. Como professora iniciante “sem pontos no Estado”, adorei a idéia. Ao ver minha nota, ainda mais: minha colocação era a de número 50 na área de ciências humanas na diretoria de ensino de Limeira. Eu me dei ao trabalho de ver, na lista de classificação, as datas de nascimento dos que estavam tanto antes como depois de mim. Não havia nenhuma pessoa antes de mim que não fosse pelo menos 15 anos mais velha do que eu. Havia dezenas e dezenas de pessoas classificadas abaixo de mim com idades para serem meus pais ou mesmo avós. Eu escolheria aulas na frente de muitos pais e mães de família, que vivem essa batalha há 20 anos e que, de repente, se veriam relegados a pegar as aulas que sobrassem depois da escolha dos recém-formados, correndo o risco de não sobrar nada. Esses professores não são meus inimigos. Eles são meus colegas de trabalho. São eles que aos poucos vão me dando dicas de como tentar controlar os alunos para aí sim, se der, ensinar-lhes História.

Entre idas e vindas em princípios de fevereiro, a prova vale, a prova não vale, a prova vale, a prova não vale, a atribuição é hoje, é, amanhã, é no sábado, ninguém sabe quando, me sentindo governada por um bando de amadores, ouvi muitos boatos a respeito da prova: que o gabarito e a própria prova vazaram na capital, que professores já falecidos tiraram nota, que professores que fizeram a prova acertando diversas questões tiveram a nota zerada, que eram muitas as liminares e mandatos de segurança circulando nos tribunais. Uma bagunça.

Por fim, pressionada pelo calendário a e própria desorganização, a Secretaria abriu mão da prova e as aulas foram atribuídas como eram antes. Minha nova classificação, sem a prova? Número 178. Uma amiga que com a prova era a de número 63 caiu para depois da casa da terceira centena. É tamanha a desorganização da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo que até agora ninguém sabe quando, e se, vai ser pago o “bônus atrelado ao mérito”, com até “2,9 salários de prêmio”, mais uma iniciativa da Secretária Maria Helena que parece muito boa a princípio. O bônus sempre era pago em fevereiro. Agora, como ainda não foi finalizada a classificação das escolas no Idesp, e ninguém sabe quando vai ser, professores que sempre puderam contar com esse dinheirinho para fazer face aos gastos de começo de ano, estão completamente sem saber o que fazer ou a quem recorrer.

Boas são as idéias que funcionam. Com seriedade por parte do governo. Não as idéias utópicas lindas e as promessas vazias. Disso não precisamos. Eu não estou preocupada com os alunos que serão ensinados por professores que tiraram nota zero, pois, na prática, esses professores podem ser considerados “bons” por seus diretores por saberem controlar seus alunos (se é que isso é possível) e eu seria considerada “ruim”, por minha falta de experiência e habilidades circenses. Nem J. R. Guzzo deveria se preocupar. Deveríamos ambos estar preocupados em que o governo crie políticas reais e sólidas, que funcionem, que não serão derrubadas pelo poder judiciário, para melhorar o processo de atribuição e formação dos professores. Que crie reais políticas de valorização, preparo, e acesso ao conhecimento. Eu sequer ganho o suficiente para assinar Veja, ou Superinteressante, ou um grande jornal diário. Se o governo quer melhorar o ensino, precisa investir, e pesado, no professor. E respeitá-lo. Pois somos nós os operários da Educação. Sem a minha anuência dentro da minha sala de aula, as iniciativas da secretária Maria Helena não surtem efeito algum.

(e-mail enviado à Revista Veja)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...