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quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Balanco de Yom Kipur 5774

Como é difícil escrever este texto!  Muitas foram as coisas inesperadas que me surpreenderam neste último ciclo anual. Há 1 ano nem remotamente eu suspeitava que coisas tão determinantes me aconteceriam tão rápido.

Minha vida sofreu uma verdadeira guinada, uma reviravolta completa. Muita coisa mudou, à minha revelia. Me mudei de casa e desde que isso aconteceu, tenho tido bem menos inspiração para escrever, e até algum ponto isso é até bom.

A esta altura dos meses, ano passado, minha avó passou por uma cirurgia de catarata. Por 2 meses não pôde dirigir, cozinhar, tomar banho. Neste intervalo, aproveitou para vender seu velho carro, e ficamos apenas com o meu. Sua convalescença foi um período em que nos aproximamos bastante. Apesar de nossa proximidade nos últimos anos, sempre houve um certo "estranhamento" entre nós.

Quando eu era criança, ela foi obrigada a me criar, e sempre me deixara bem claro que isso era a seu contragosto. Diferentemente da Cristhiane e da Patrícia, que ela tratava como se fossem suas filhas, e a chamavam de mãe, sempre houve uma linha bem traçada, clivando que ela não me considerava da mesma forma, que eu era um estorvo em sua vida, uma "agregada indesejada". Nunca lhe joguei isso na cara, e até compreendia isso. De fato, não era obrigação da Tula me criar, eu morava em sua casa de favor, e isso sempre ficou bem claro de sua parte. 

Mas foi com um certo deleite que certo dia, após sua cirurgia, enquanto a pensava e lhe levava comida que lhe disse:

- Vc imaginava, Tula, que das suas 3 netas, seria EU a que cuidaria de vc quando vc estivesse idosa?

Ela fez uma expressão que dizia "se eu soubesse, teria te tratado com mais carinho", mas disse apenas:

- A vida nos ensina muitas coisas inesperadas.

Me sinto bem em poder dizer que dela tratei melhor quando ela precisou de mim do que ela me tratou quando eu era criança e precisei dela. Porém, tudo o que fiz por ela foi de boa vontade, não meramente para "cumprir uma obrigação". Independentemente de ter me cuidado quando criança, Tula era minha avó, eu a amava, e por ela fiz tudo o que podia, e mais até.

Muitas foram as comidinhas que preparei para sua e minha degustação. Posso dizer que cozinhava "para ela" pois desde seu falecimento, consigo morreu minha gana de preparar tais quitutes. Pouca graça tem cozinhar apenas para si própria. 

Recebi em Rio Claro, ainda na casa de minha avó,  a visita de amigos muito queridos, que vieram especialmente de Sampa. Romeu e Gisele, esta com marido e filhinho. Foi uma grande alegria que estes tenham se disposto a viajar quase 200 quilômetros para me visitar e conhecer minha então casa. Prova de profunda e duradoura amizade.

Também recebi a visita de Mainá, vinda de Piracicaba. Em 5773 estive em sua casa de Sampa 2 vezes. Uma quando fui prestar o frustrante concurso para professor na prefeitura de Sampa, outra para passar o Reveillon.

Meu Natal de 2012 foi um dos "top 5" de toda a minha vida. Tive a sorte de ser acolhida pelo Romeu em sua festa. A família do Romeu é simplesmente ma-ra-vi-lho-sa, tem uma ótima energia. São muitos os primos, os tios, os agregados, todos unidos numa "vibe" de amor, festa e comilança. Passei um Natal feliz, com uma família unida pelo amor. Adorei, e espero no futuro repetir a experiência. Aproveitei que estava na Vila Formosa para matar as saudades da tia Maria do Carmo, irmã do meu avô Morzinho, do tio Jaci e do falecido primo Mauro.

Passado o Natal, comemorei meu aniversário com 2 churrascos na beira da piscina na casa da Gisele. Todos os amigos antigos compareceram: Maty, Romeu, Aline, Thaís e até o Chico. Inesquecível.

O Reveillon passei com a Mainá e a Sandra. Fomos a uma festa super dez, dos amigos da Sandra. No dia seguinte, primeiro de janeiro, estava tão feliz, despreocupada, até receber uma ligação e "cair do céu". Era minha mãe Maria José Tomasella dizendo que justo na noite da virada a casa de minha avó tinha sido assaltada. 

Eu pretendia ficar mais um pouco em Sampa, mas tive que voltar imediatamente para Rio Claro. Minha avó Tula estava viajando, em Ubatuba, e cabia a mim tomar as providências práticas necessárias.

Foi triste chegar e ver a casa toda revirada. Meus objetos pessoais devassados. Itens de valor, bijuterias finas, jóias, barras de ouro, dólares, subtraídos. Só com o chaveiro gastamos mais de 500 reais. Tomei todas as providências necessárias, para poupar minha vó disso. Só no dia seguinte recebi uma ligação dela, bem menos nervosa do que eu esperava, comunicando que acabara de saber do ocorrido. Quando lhe disse que eu já tinha feito tudo o necessário e a casa já estava com novas trancas, percebi na calma expressa em sua voz que confiava em mim para cuidar e guardar sua casa.

No final de janeiro vieram nos visitar meu tio Renê e meu primo Renan. No retorno ao Rio de Janeiro, levaram a Tula, pois Cristhiane viria da Austrália com namorido e bebê Liam Novais Dermott. Foi numa sexta à noite, ao voltar do trabalho quase onze da noite, que vi minha avó pela última vez. Nos abraçamos e despedimos rapidamente. Na manhã do sábado seguinte foi para o Rio de Janeiro, saudável, alegre e saltitante, para me ser devolvida menos de 1 mês depois dentro de um caixão.

Não queria ir ao Rio. Queria voltar depois de 2 semanas, mas insistiram para que ficasse mais. No sábado 16 de fevereiro liguei no seu celular, estranhando que já fazia algum tempo que não me ligava. Quem me atendeu foi Regina. Fingiu não reconhecer minha voz e perguntou "quem está falando".

-É a neta dela.

Me disse que Tula estava hospitalizada com crise respiratória, o que sempre acontecia quando ia ao Rio. Lhe disse que a fizesse me ligar quando retornasse para casa. Neste sábado, quase pelas 23 horas, Tula me ligou para dizer que já estava em casa.

A última vez em que falei com minha avó Tula foi na noite de terça 19/02/2013. Era tarde da noite. Ela me ligou e enquanto desfiava o rosário de suas dores e mal-estares, os quais eu estava acostumada a pacientemente acompanhar, ouvi ao fundo a voz insensível de Cristhiane dizendo:

- Lá vai ela fazer o relatório das doenças...

Percebi que isso fez Tula resumir seu relato, sentindo-se criticada como uma "velha chata", e rapidamente se despediu. Ainda me machuca que a última vez em que pude falar com minha avó, nossa conversa foi diminuída, interceptada, por essa frase. Tenho certeza que, do além, Tula sabe extamente do que estou a falar.

2 dias depois Tula sofreu um derrame cerebral. O soube por Maria José. Perguntei aos do Rio se ela corria risco de vida, pois em caso positivo imediatamente pegaria estrada com Maria José para lá. Me asseguraram que não. No domingo 24 de fevereiro meu tio Renê ligou, perto do meio dia, para comunicar seu falecimento.

Eu tive apenas 2 horas para fazer uma malinha com os itens essenciais e sair de casa. Pois 2 horas é o tempo que leva a viagem de Sampa a Rio Claro, e já estavam a caminho Regina, Patrícia, Letícia e Alex. Era demais para mim ter que lidar concomitantemente com o falecimento de Tula e a presença deles e dos parentes que logo viriam do Rio de Janeiro.

Liguei para Maria José vir em casa, para "receber as visitas" depois de eu sair. A ela expus toda a minha dor. Sei que minhas cordas vocais jamais voltarão a ser as mesmas depois de lhe ter externado, em 200 decibéis, toda a dor que rasgava a minha alma. E ainda rasga. Eternamente lhe serei grata por ter ouvido toda a expressão do meu sofrimento. Lhe expus minha pior face, sem máscara. Vomitei grande parte de minha mágoa, e isso me fez bem. Especialmente ao saber que, mesmo lhe expondo meu "pior lado", ela continuava me apoiando.

Após fazer minha malinha e lhe entregar as chaves, fui me abrigar na Toka do Shrek, república estudantil dos meus amigos da Física da Unesp. O João Eduardo Fonseca nisso me fez um favor inestimável. Na segunda seguinte do velório, só compareci na última hora, completamente fora de mim.

Pedi que João me acompanhasse pois sinceramente não sabia se conseguiria me controlar, ou se voaria no pescoço de Regina, se faria um escândalo homérico, se lhe cuspiria na cara. Sei porque não o fiz. Foi por causa de Sofia.

Minha prima em segundo grau, Viviani, tinha 2 filhas que eu conhecia: Ivana e Amanda, e uma terceira, a mais nova, que eu nunca tinha tido oportunidade de ver, Sofia. Moravam em Brasília, e eu só conhecia Sofia do Facebook e do Instagram.

Cheguei no velório, recebi um abraço do meu tio Renê ao qual hj me arrependo de ter aquiescido, e me arrastou para ver Tula no caixão; lá fiquei um minuto, e sem suportar, saí para fumar um cigarro. Nisso vi chegar Viviani, com seu marido Miguel e a menina Sofia. Me abraçaram, deram os pêsames e falaram que tinham vindo de carro, direto de Brasília.

Olhei a bela Sofia e comigo pensei: "Eu não vou fazer essa menina ter se abalado de Brasília até aqui para voltar traumatizada, sabendo que essa família é tudo menos 'uma família'." Então foi por ela, para não violar sua inocência, que "fiquei na minha" e me contive.

Terminado o enterro, voltei à Toka, segura de que os parentes em menos de 1 semana iriam embora. Ledo engano. Cristhiane, marido, Liam e Regina ficaram por um mês, o que nem em meus piores pesadelos eu esperava...

Nisso soube que quase levaram embora o canário Frank. Dele cuido há 6 anos, desde o falecimento do meu avô. Me disse Maria José que ao chegar do velório, Patrícia já estava de saída, com a gaiola do Frank no carro. E que foi ela que, alarmada, impediu que o levassem embora. Foi triste perceber que sem me consultar, sem me fazer uma mera ligação no meu celular, iam simplesmente levar embora o MEU CANÁRIO, do qual eu cuidava há 6 anos e do qual Regina já tentara dar fim. Falta de respeito, da mais rasa consideração é apelido. Iam simplesmente subtrair meu pet sem sequer pensar "hum, será que a Fernanda, que cuida dele há 6 anos, não vai achar ruim?". Agradecerei eternamente a Maria José ter impedido que o roubassem de mim.

Quando finalmente Cristhiane, Regina & cia foram embora, vi que tinham espoliado a casa. Sem me consultar ou comunicar, deram embora móveis. Levaram inúmeros itens. Quadros, fotos, utensílios. Até coisas que já eram minhas, q Tula me tinha dado, como um belo vaso de vidro, transparente com azul. Raparam completamente os porta-joias. Levaram todos os soutiens. O aparelho de som, e muitas outras coisas. A casa foi espoliada, pilhada.

Encheram 2 carros, levaram tudo o que quiseram. Como se com sua saída a casa fosse ficar vazia, sem ninguém. Pois como a um "ninguém" me consideravam.

Uma semana depois tive uma das piores decepções de minha vida. Menos de 1 mês antes de falecer minha vó tinha comprado, por indicação de Renê, uma televisão nova. Quando foram embora, Regina deixou avisado a Maria José que logo Patrícia viria busca a TV nova.

Me senti tratada como uma "caseira", uma empregada da família, sem direito a absolutamente NADA. Que direito Patrícia tinha à TV nova se tinha sido EU a cuidar de Tula, e Patrícia não fizera jamais NADA por ela, além de lhe pedir dinheiro? Além disso, já estava há alguns anos combinado entre eu e a Tula que quando fosse a ocasião de a casa dela ser desfeita, eu ficar, nas palavras dela "com uma casa montada": todos os seus eletrodomésticos e móveis ficariam comigo. Foi triste perceber que no momento em que ela faleceu, tudo o que ela "deixou dito" passou a ser sumamente ignorado pelos parentes. Ela, e sua vontade, deixaram de ser respeitados no momento em que morreu.

Mandei um e-mail a Renê dizendo que pretendia ficar com a TV nova. Ele me ligou, tresloucado, completamente fora de si, me xingou, ofendeu, inventou que tinha "sustentado a mim e ao meu gigolô" (desconheço a o que se referia), ameaçou vir a Rio Claro me bater, desligou o telefone na minha cara.

Neste dia perdi um tio, o único que tinha. Eu jamais havia-lhe feito nada. Pelo contrário, até então sempre me tratara muito bem, com o respeito que eu mereço. No momento em que Tula faleceu, tudo isso sumiu. Eu passei a ser "um problema" em sua vida. Os 6 anos, e seis anos não são seis dias, durante os quais eu tinha cuidado da Tula eram simplesmente IRRELEVANTES. Me tratou como um lixo, insinuou que eu era uma prostituta, e que eu lhe devia dinheiro. Neste momento, morreu para mim. Não pretendo jamais voltar a vê-lo, constatado que por mim não tem nenhum respeito, nenhum agradecimento, nenhuma consideração. Nunca mais me ligou, nem nos falamos. Que assim fique.

Depois disso percebi que a minha simples existência era uma "pedra no sapato" dos 2 herdeiros da minha avó. Se me permitiram continuar na casa mais um tempo, não foi por eles. Foi por 2 coisas, que fugiam completamente a mim.

Quando eu soube do AVC da minha avó uma só coisa me veio imediatamente à cabeça: avisar aos seus amigos do Centro Espírita Fé e Caridade, pois sabia que Tula, muito dedicada ao Espiritismo, o queria, e estava necessitada de suas preces.

Imediatamente pensei em ligar para Dona Dirce Martins. Só não o fiz na hora pois já era tarde da noite. Na manhã seguinte, esperei soar 9 da manhã e liguei para Dona Dirce, pedindo que mobilizasse os amigos do centro em oração. Depois de Tula falecida, Renê me disse que pedira a dona Dirce orientações de como proceder e ela determinara: "tudo deve ficar como está por 6 meses", o tempo mínimo para o espírito de Tula se "desprender" de suas coisas materiais.

Isso Regina não respeitou, espoliando a casa em menos de 1 mês. Só não fez pior pois estava de viagem marcada para a Austrália. Não fosse essa viagem, previamente marcada, eu não teria podido permanecer mais na casa. Portanto, se fiquei 4 meses na casa após o falecimento da Tula não foi por "bondade" ou "favor" de ninguém, nem em respeito aos meus direitos ou sentimentos. 

Ao saber que Regina voltaria da Autrália no final de julho, estabeleci esta como a minha "deadline" para me mudar. Não queria jamais voltar a ver-lhe a cara.

Tive 4 meses para encaixotar tudo. Lavei TODAS, todas as minhas roupas. Selecionei e lavei, todos, os panos de prato, tapetes e toalhas da Tula que queria levar. Foram 4 meses melancólicos, cheios de fantasmas, reminiscências, lembranças, saudades, nos quais todo dia ia ao antigo quarto da Tula, montado como um diorama à sua memória, como se ela ainda estivesse presente, e em sua memória, eu fazia orações. Várias vezes, com o coração triste e pesado, lhe agradeci por tudo, e dela me despedi.

Minha tristeza só foi aplacada pela chegada da pequena Amy. Presente da minha mãe, já explorado em outro texto. Ganhei uma nova filha, uma poodlezinha branca, com mais personalidade do que eu gostaria, mas adorável justamente por ser cheia de "marra". Amy é única e não a trocaria por nada.

Em julho, de férias, fui a diversas imobiliárias escolher minha nova residência. Visitei mais de 15 e escolhi uma que, embora mais cara do que gostaria, é per-fei-ta pra mim e pra Amy, com um grande jardim, que aproveitamos ao máximo.

Quando eu era criança, Maria José morava numa chácara, na qual plantava diversos gêneros alimentícios. Estou de certa forma emulando em meu amplo jardim a chácara na qual cresci. Plantei canteiros com ervas (manjericão, orégano, hortelã, salsinha, cebolinha, menta, pimenta, boldo, babosa). Tenho um tomateiro, em produção, só para mim. Plantei sementes de mamão, e farei ainda canteiros de diversas verduras. Não quero "flores", mas coisas úteis, de comer.

Me sinto muito feliz na minha casa nova. Ao me mudar da casa da Tula, levei tudo o que considerava que justamente me cabia. Deixei muitas coisas de valor: metade de uma baixela, a batedeira, o filtro de água, a cafeiteira, o foot spa, o umidificador de ar, a lavadora a pressão, o microondas, uma mesa de jantar com aparador, várias camas, colchões, 3 televisões, 1 videocassete, enfim, deixei várias coisas que poderia ter levado, mas não o fiz. Não por quem os viria levar, mas pela Tula. Levei apenas o que eu sentia que ela aquiescia em eu levar.

Na casa nova, só minha, me sinto muito mais leve, pronta para começar "vida nova". Ao me mudar rompi definitivamente com meu tio, minha ex-mãe e irmãs. É triste saber que não deixei para trás boa coisa, ou grande coisa. O falecimento da minha avó Tula foi o fim da triste família que um dia tive.

Hoje me sinto livre. Livre do peso das lembranças, das obrigações, das cobranças, das mágoas. Coloquei uma pedra, um ponto final, no passado.

Agora, aos 30 anos, me sinto livre para começar vida nova. Espero sinceramente que o ano de 5774 me seja mais propício, me traga mais alegrias, pois 5773 foi "bem foda", difícil, com muita coisa ruim. Mas agora tudo passou e um novo futuro, limpo, se descortina.

Que venham coisas melhores!

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sábado, 10 de agosto de 2013

Visita à Federação Espírita


O ano era 2004. Eu residia no condomínio Viadutos, à praça General Craveiro Lopes, na Bela Vista, ou Bixiga, centro de São Paulo, em frente à Câmara Municipal, entre os viadutos Jacareí e Maria Paula.

Cursava o terceiro ano de faculdade de História na USP. Embora enveredasse pelos estudos judaicos, ainda me considerava a quarta geração de espíritas kardecistas de minha família.

Estava "em crise": acabara de terminar um relacionamento de 4 anos, e tinha vários problemas familiares. A 200 metros de minha casa, ficava a Federação Espírita do Estado de São Paulo. Num dia ensolarado, resolvi fazer uma visita.

Não posso dizer que tenha sido despretensiosa. Foi a primeira vez em muitos anos que entrava em um centro espírita. Desde pequena, nunca gostei muito de ir "ao centro" (fosse outra a minha religião, diria "ao templo" ou "à igreja").

Acho que o que mais me incomodava era uma certa percepção de "hipocrisia", não contra a religião espírita, mas a respeito das pessoas em geral. Era algo plenamente perceptível na postura, no tom de voz. Fora do ambiente religioso, quotidianamente, as pessoas tinham uma voz e uma postura natural. "No centro" eu percebia que as mesmas pessoas se comportavam de outra forma, falavam de outra maneira, tentando "passar uma imagem" melhor de si mesmas do que aquela que era perceptível no seu dia-a-dia. Mesmo que isso seja natural, e compreensível, sempre me incomodou, e me afastou de "ir ao centro" pois sentia que lá as pessoas meio que "faziam pose de boazinhas, evoluídas", e fora deste ambiente, "relaxavam" e voltavam a seu "eu espontâneo", falho, "real".

Quando qualquer pessoa me perguntava se eu "ia na igreja", minha resposta-padrão era:

- Não vou a nenhum centro religioso. Religião, para mim, não é algo que se pratica uma vez por semana, "no culto", é algo que se transpira, que se VIVE no cotidiano.

Mas apesar de minha "aversão" à "religião institucionalizada", sempre respeitei o Espiritismo Kardecista, especialmente por não cobrar, nem aceitar, dízimo dos fiéis. Sociologicamente, os espíritas tendem a ser pessoas instruídas, estudadas, que se relacionam com sua religião a partir da leitura, não de experiências místicas, transcendentais, "miraculosas".

Vendo-me num momento complicado, apesar de minha postura algo cínica, vi que "não haveria mal algum" em ir à Federação Espírita, nem que fosse só para me decepcionar e "desencanar de vez".

A Federação Espírita do Estado de São Paulo ficava a 200 metros da minha casa, portanto não havia desculpa. Juntei coragem e fui. Subindo a pequena escadaria branca, percebi que havia uma fila de pessoas no hall. Brasileiros têm certo fascínio por filas. Se há uma fila de pessoas, algo de "interessante" elas devem estar aguardando. Fui ao fim da fila e perguntei à última pessoa para o que ela era. Me disse "esta é a fila da palestra".

Espíritas não têm "culto" nem "missa", mas sim palestras, estudos. Minha avó Tula era palestrante no Centro Espírita Fé e Caridade, em Rio Claro. Portanto, eu sabia o que esperar de uma "palestra espírita". Aguardei ao fim da fila, e quando as portas foram abertas, entrei num grande parlatório, com mezanino, parecido com aqueles que a gente vê de madrugada na TV nos cultos evangélicos. Acostumada que estava ao acanhado "Fé e Caridade", admirei-me com o tamanho do lugar e o número de assentos disponíveis.

Eram 3 os palestrantes, se apresentaram como profissionais liberais, passaram suas "mensagens do evangelho" com aquele típico tom de voz dos palestrantes espíritas que eu ouvi em minha própria avó tantas vezes. Só no centro, não em casa. Terminada a palestra, disseram:

- Quem estiver precisando de atendimento personalizado, a seguir teremos orientação doutrinária no subsolo.

Como não tinha mais nada fazer, e já estava por lá, fui ao subsolo e peguei mais uma fila. Quando chegou minha vez, entrei na sala de atendimento, com umas 5 mesas, nas quais espíritas experientes "atendiam" aos visitantes. Me indicaram a mesa de uma senhora de cabelos brancos, com a mesma aparência respeitável das "senhorinhas espíritas" amigas da minha avó no Fé e Caridade.

Apesar disso, minha postura era algo cínica, de dúvida, como se estivesse diante de uma cartomante. Desde antes de sentar, já tinha decidido que falaria o mínimo possível, meio que "testando" a autenticidade de quem me atendia.

Muito simpática, com aquele típico "tom de voz espírita", professoral, perguntou o que me levara até lá. Respondi simplesmente:

- Estou à procura de orientação.

Ela olhou bem fundo nos meus olhos, pegou minhas mãos nas suas, tremeu levemente, e disse suavemente:

- Você tem mediunidade...

Achei que tinha sido uma pergunta e disse que não, que na verdade "tinha medo de espíritos". Ela não chegou a sorrir, mas suas bochechas se retesaram evidenciando seus pés de galinha, e nesta expressão compreendi sem palavras seu pensamento:

"Eu não perguntei se vc tem mediunidade, eu constatei que vc tem mediunidade."

Pegou uma folha de papel e começou a escrever o nome de uma série de cursos oferecidos pela Federação Espírita. Começou a falar comigo como se "soubesse do meu passado" de "espírita ancestral", ainda que nada eu tivesse lhe revelado.

Começou a me dar uma série de orientações: você deve fazer o curso tal, depois o curso tal, depois o curso tal... Enquanto eu me perguntava se ela "falava isso para todo mundo" ou era algo específico, personalizado, quando ela concluiu:

- Eu sei que você é uma pessoa intelectualizada, cheia de dúvidas sobre a espiritualidade. Mas estou te esclarecendo o caminho que eu vejo que você pode seguir no Espiritismo, pois tem todas as potencialidades. A sua intelectualidade pode ser usada em prol da espiritualidade, dentro do Espiritismo.

Percebeu minha postura reticente, questionadora, duvidosa. Mais uma vez pegou minhas mãos e disse:

- Mesmo que você ainda não se sinta pronta, pense. Guarde este papel. Um dia, quando chegar a hora, você compreenderá.

Não sei se já chegou esta hora. Na verdade, sei que ainda não veio. Ainda guardo o papel com suas orientações. Continuo a ter "medo de fantasmas" e de minhas capacidades mediúnicas. De certa forma, as renego, procuro ignorá-las, não alimentá-las. Nunca investi nisso, nunca me senti apta.

Mas sempre percebi uma série de intuições, insights, coisas "cinzas" inclassificáveis em minhas experiências pessoais cotidianas. Embora racionalmente eu ainda rejeite tudo isso, não posso deixar de percebê-las. Guardo certo medo de "ver além" e perder o controle das coisas que não compreendo, que sinto estarem "acima" ou "além" do eixo cartesiano, de tudo o que pode ser determinado, classificado, medido.

Acho que minha mente ainda está "fechada" e não quer ver as coisas que aquela senhora percebeu em mim.

Muito me surpreendeu que ela tenha me tratado como uma "espírita escolada", mesmo que eu não lhe tenha dito praticamente NADA sobre mim.  Parecia que ela "já sabia" de tudo que não lhe falei. Senti-me como uma aluna diante de uma professora que a constata "em nível avançado" e já na quinta série recebe orientações de como entrar em Harvard.

Talvez seja este o caso, talvez não. Nunca "rompi definitivamente" com o Kardecismo, pois nunca vi necessidade disto. Primeiro porque esta não é uma religião na qual exista "conversão" e "desconversão" dos "apóstatas". Segundo pois, embora já tenha percebido inconsistências e até falhas teológicas em sua doutrina, ainda considero o Espiritismo uma religião digna de respeito, que não se envolve em escândalos, que não cobra nada em dinheiro de seus adeptos. Terceiro, pois mesmo me aprofundando nos estudos judaicos, ainda não constatei nenhuma "falha fundamental" na doutrina espírita, fora a questão "de Jesus", que precisa ser relativizada, e compreendida culturalmente no Ocidente. 

Hoje, não sei sinceramente se continuo "espírita" ou não. Mas posso dizer que nunca me decepcionei com nada desta religião. E que esta visita apenas avolumou meu respeito pela doutrina. O fato de a senhora que me atendeu ter me encaminhado a "estudos superiores espíritas" mesmo sem saber de minha história de vida e meus estudos universitários, me surpreendeu bastante e reforçou minha admiração por seus praticantes graduados.

Ela sabia quem eu era, ainda que nada tivesse lhe dito. Não descarto a possibilidade de um dia fazer a série de cursos que me indicou. Mas ainda me sinto muito "racional, cartesiana", e pouco "intuitiva, metafísica".

Ainda não me sinto pronta. Nem sei se um dia estarei.

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sábado, 20 de abril de 2013

De Orlando Nunes

Nunca estive na presença de Orlando Nunes José, nem sei se este é seu nome de "pessoa física". Caso ele chegue a este texto e queira que seu nome seja suprimido, trocado pelas iniciais, basta deixar um comentário.

O conheci em 2005, na comunidade Perguntas Cristãs Complexas. Era uma comunidade do Orkut de debates religiosos que se distinguia por sua proposta democrática, variedade de participantes, pluralidade e pelo elevado nível dos debates. Mais do que tudo, era um espaço único, no qual pessoas de diferentes credos podiam interagir, comparar seus dogmas, ver os pontos fracos e fortes de cada vertente teológica.

Os debates eram muito variados. Desde temas do "dia a dia" como sexo, vestuário, alimentação, comportamento e política, até pequenas abstrações filosóficas impalpáveis, mas teologicamente essenciais.

Nessa época eu me classificava como "espírita kardecista". Ainda o digo quando perguntada por alunos. Foi no período de amadurecimento teológico durante o qual participei desta comunidade que me descobri Noachide. Na comunidade, ao assim começar a me dizer, os membros entendiam a o que eu me referia. Seu eu me declarar "filha de Noé" aos meus alunos, seria muito difícil fazê-los entender do que tal se trata. E o Noachidismo pode nem ser considerado uma "religião", mas uma derivação do Judaísmo.

Orlando Nunes era calvinista. Protestante histórico seguidor de João Calvino, o célebre reformador franco-suíço. Se destacava por ser, ou aparentar ser, uma pessoa madura, equilibrada, pluralista, e de profundo conhecimento teológico. Por sua postura sempre ilibada, todos os membros lhe dedicavam o mais alto respeito, eu inclusa. Até o admirava por sua seriedade e simpatia.

Ainda na PCComplexas tivemos alguns debates memoráveis. Um ponto que exploramos até a exaustão foi se, ao ser suspenso no madeiro (a cruz) o corpo de Jesus se tornou maldito, conforme:

Deuteronômio 21:
22 Se um homem sentenciado à pena de morte, for executado e suspenso a uma árvore, 23 seu cadáver não poderá permanecer na árvore durante a noite. Você deverá sepultá-lo no mesmo dia, pois quem é suspenso torna-se um maldito de HaShem. Desse modo, você não tornará impuro o solo que o eterno seu D'us lhe dará como herança.

Gálatas 3:
13 Cristo nos resgatou da maldição da Lei, tornando-se ele próprio maldição por nós, como diz a Escritura: «Maldito seja todo aquele que for suspenso no madeiro.»

Orlando simplesmente não podia conceber a idéia de seu deus e messias ter se tornado maldito ao morrer. E, tecnicamente, Jesus foi suspenso num madeiro ao ser crucificado, tornando-se, assim "maldito" de acordo com as Escrituras, o que para ele era uma interpretação herética. Podia ser blasfema para ele, mas essa acepção tem amplo respaldo, com duplo testemunho, na Bíblia que ele próprio considerava sagrada. Também debatemos, provavelmente por meses, a questão do livre arbítrio, que os calvinistas negam existir, e que é fundamental para 90% das outras vertentes cristãs.

Debatíamos, discordávamos, refutávamos um ao outro. E ambos tirávamos grande prazer disso. Tudo ia muito bem até que o "clima político" da PCCplex foi pesando por diversas efemérides, mas especialmente por a proposta de "Democracia plena" não se concretizar, e algumas atitudes questionáveis do grupo de moderadores.

A coisa foi crescendo a um ponto que muitos dos membros "chave" pensavam em debandar em protesto. Nesta circunstância, Orlando Nunes me mandou um e-mail com uma proposta muito interessante: a de fundarmos nosso próprio espaço, convidando os dissidentes, uma nova comunidade de Perguntas Cristãs, essa sim democrática, aberta, plural e transparente.

Incluímos nesta troca de e-mails tb ao grande amigo que fizemos na PCX Alex "Aleph" de Paula, cristão evangélico neopentecostal da Assembléia de Deus. E Aleph prontamente aderiu ao projeto. Detalhe bastante significativo é que tanto Orlando Nunes como Aleph são pastores evangélicos certificados, ainda que não o exerçam. E ambos me viam em nível de igualdade com eles para dar início a um projeto, para nós, tão importante. Nem posso dizer como me senti honrada, em minha pequenez cheia de defeitos, de que pessoas com tão alto prestígio no "meio religioso" tanto virtual como físico, me vendo como "no mesmo nível" deles!

Tb convidamos para ser membro fundador conosco ao biólogo, naturista, defensor dos Direitos Humanos, budista e jedi Arthur "Dogbert" Golgo Lucas, mas por uma série de desencontros virtuais, ele se tornou membro, mas não com tanta participação.

Nas conversas por e-mail entre mim, Orlando Nunes e Aleph foi decidido que "reciclaríamos" uma comunidade quase inativa do Orlando Nunes, a "Cristianismo Puro e Simples", a rebatizaríamos de "Religião & Vida", promulgaríamos regras democráticas (a parte de criar esta legislação ficou, com muito gosto, na minha responsabilidade), convidaríamos os membros da PCC-plex e de outras comunidades de debate religioso, fazendo da nossa comunidade o que a PCComplexas deveria ter sido.

No começo, foi tudo muito bem. A comunidade bombou. Muitos membros de outras comunidades além da PCComplexas aderiram e participavam ativamente da nossa. Nessa época, eu já trabalhava, e não podia mais, como antes, dar longos plantões nos debates de que tanto gostava. Mas diversos tópicos interessantes pululavam em comentários. Rapidamente a comunidade ultrapassou mil membros. Até moderadores que haviam motivado nossa saída da PCX "faziam as honras" de ir até nossa comunidade para debater conosco. Na nossa comunidade, as regras que eu elaborara e colocara em votação protegiam a liberdade de expressão de todos muito melhor que as regras da PCX que nos haviam feito sair de lá.

Ainda nessa época em que tudo eram flores, eu estive em São Paulo, e conversei com o Orlando para nos encontrarmos pessoalmente. Falei com ele ao telefone, combinamos de finalmente nos conhecer no Conjunto Nacional, na esquina da Avenida Paulista com a rua Augusta. Perto da hora acertada fui a um Cyber Café, só para "dar um tempo" e vi uma mensagem sua com alguma desculpa ou justificativa de que ele não poderia ir. Isso deveria ter levantado um sinal de alerta, mas não o percebi. O coloquei na conta dos "bolos comuns" que as pessoas nos dão por conta de algum "imprevisto", e não mais me preocupei a respeito. Deveria.

Tudo continuou a ir muito bem na comunidade... Até que... Começaram a surgir os problemas. Orlando começou a demonstrar incômodo com o teor e o rumo "liberal", "blasfemo" ou "não edificante" (no seu ver) dos debates. Começou a criticar os demais moderadores e a querer "mandar mais" que eu e o Aleph. Com nossos protestos, Orlando tirou da manga o trunfo que jamais pensei que tinha guardado: que ele era o "dono" anterior da comunidade, portanto, ela lhe pertencia mais do que a nós.

Debatemos isso num tópico. Sabendo que ele estava a usar um argumento falacioso, copiei e colei os trechos dos e-mails que trocamos combinando os termos da fundação da R&V. E ressaltei em negrito todas as vezes que ele colocou, por escrito, "NOSSA comunidade". E lhe disse: "se em cada vez que vc escreveu NOSSA COMUNIDADE vc tivesse escrito MINHA COMUNIDADE, eu não teria aderido ao seu projeto."

Ao invés de perceber seu erro, ele ficou "ofendidinho" por eu estar divulgando o teor dos e-mails que havíamos trocado. Logo o Aleph renunciou ao seu posto de moderador. Em solidariedade a ele e por já estar bem de saco cheio de tudo aquilo, muito frustrada e me sentindo lograda, tb renunciei, no mesmo dia. Orlando manifestou estar se sentindo traído.

Depois disso meio que "larguei mão" e não ia mais todo dia lá debater, apenas dava uma "conferida no fórum" esporádica, sem me engajar muito. Depois de um tempo, não sei bem como ou pq o próprio Orlando renunciou a prosseguir moderando "nosso/seu" grupo, repassando-o a outros moderadores. Por vários meses assim ficou a comunidade.

Até que... Sumiu!

Demorou para cair a ficha. Por algumas semanas, eu entrava no Orkut, acessava o link dos favoritos da R&V e ele simplesmente não abria. Eu tinha certeza que era algum erro temporário até que entrei em contato com Jarson Brenner e ele me disse o que havia acontecido. Inadvertidamente Orlando Nunes havia, não sei tecnicamente como, reativado sua condição de "dono" da R&V e simplesmente a DELETADO. Sem explicação, sem justificativa, sem saída, sem registro. Por debaixo dos panos, ele havia desaparecido sumariamente com uma comunidade muito ativa, deixando órfãos, perdidos e desnorteados seus mais de mil membros. Que nome se dá a isso?

Me falaram que o Orlando provavelmente tencionava se tornar um "líder religioso" e fazer da R&V "sua congregação virtual ", na qual ele arregimentaria adeptos para sua visão teológica. E quando viu falhar o projeto de fazer dessa comunidade seu "trampolim" para construir um bom nome no meio religioso, decidiu, sumariamente, deletá-la, sem nenhum respeito aos membros ativos e aos membros fundadores, que tantas horas e tanta dedicação haviam destinado a esta comunidade virtual.

Nem sei se consigo adjetivar de forma justa este ato, nem como ele me surpreendeu da pior forma possível. Por todos os anos de convivência com Orlando, pelo tanto que eu o respeitava e achava que o conhecia, e pelo próprio discurso que ele fizera quando da fundação da comunidade, nenhum de nós suspeitava que ele seria capaz de um ato tão baixo, tão vil. Eu não havia jamais visto nenhum "sinal de alerta" de que ele seria capaz de nos dar uma rasteira tão inesperada.

Orlando Nunes foi a pior decepção que já tive na Internet.

De certa forma, ter uma boa memória pode ser considerado uma maldição...

Lara Fabian - Love by Grace http://youtu.be/Kjqa_Csf29Q

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sábado, 12 de maio de 2012

Do meu paradigma teológico

Desde q comecei a me envolver em debates teológicos pela internet percebi q a meus interlocutores surpreendia a maneira como interpreto a Lei Judaica: de forma extremamente "libertária" e iconoclasta. Nesses percalços me questionaram moralmente, me acusaram de estar a desviar as pessoas do "caminho correto", de dar maus conselhos e de estimular a promiscuidade.

Tendo isso em vista, sinto ser necessário esclarecer o paradigma, a "fôrma mental" q amolda minha interpretação da Torah.

Em Teologia, não existe "ponto final", tudo está aberto a discussão, e é comum q divergentes pontos de vista se justifiquem com as mesmas citações. Acontece q frequentemente as pessoas q se dedicam aos estudos teológicos expressam visões ortodoxas, tradicionalistas. Cujo paradigma demonstra a tentativa de restringir ao máximo a margem da liberdade humana.

Certa vez, quando era adolescente estava a comparar minha religião familiar (Espiritismo kardecista) com a de uma colega, q era protestante. Comparávamos as restrições q nossas religiões nos impunham e a conclusão se deu na seguinte frase de minha amiga: "Ah, essa sua religião não é religião de verdade, não proíbe nada, vc não precisa casar virgem, pode beber, pode fumar. Q religião é essa q não proíbe coisa nenhuma?"

É claro q o Espiritismo "proíbe" muitas coisas como roubar, matar, cometer adultério, mentir etcs. Porém, comparado a outras religiões, é muito mais liberal em seus "usos e costumes".

Muitas denominações protestantes históricas são conhecidas por suas pesadas restrições aos fiéis: mulheres não podem usar calça, cortar o cabelo, se depilar, se maquiar etcs. Provavelmente nem esta interpretação excessivamente restritiva nem a acepção espírita excessivamente liberal estejam certas, porém ambas são válidas. E necessárias para q o conjunto dos interessados na compreensão das Leis Bíblicas sejam cada vez mais, progressivamente, melhor esclarecidos.

Creio q há intérpretes pelo viés ortodoxo por demais, e intérpretes pelo viés liberal em falta, e q isto afaste muitas pessoas q poderiam ser incluídas. Muitas pessoas se afastam da "Religião " por pensar q é " difícil demais" seguir seus preceitos. Pois, normalmente, quando procuram orientação é-lhes dito q "quase tudo" é proibido.

Meu propósito é justamente demolir essa visão. E minha metodolgia é pegar o texto limpo da Torah e verificar se de fato ela proíbe tudo o q os líderes religiosos dizem. E na maioria das vezes atesto q conceitos seculares não têm apoio na Lei de Moisés: ecoam apenas a tradição consagrada por analistas antigos, q interpretavam a Lei para um mundo muito diferente do nosso.

Não q suas lições sejam caducas: são preciosas. Porém devemos ter em mente q, acima da deferência q devemos a estes grandes mestres deve estar a compreensão da imensa clivagem q separa a "palavra de Deus" das digressões de seus intérpretes humanos. Devemos, como Abraão, ser iconoclastas. Devemos questionar se ao ecoar um interpretação humana, não estamos na verdade a nos desviar do propósito "limpo, puro e seco" presente na Lei mosaica.

Na Lei há estas basilares passagens:

Dt 4: 1 Agora, Israel, ouça os estatutos e normas que eu hoje lhes ensino a praticar, a fim de que vocês vivam e entrem para possuir a terra que Javé, o Deus de seus antepassados, vai dar a vocês. 2 Não acrescentem nada ao que eu lhes ordeno, nem retirem coisa nenhuma. Observem os mandamentos de Javé seu Deus do modo como eu lhes ordeno.

Dt 5: 32 Portanto, procurem agir de acordo com todas as coisas que Javé seu Deus lhes manda. Não se desviem nem para a direita nem para a esquerda. 33 Sigam o caminho que Javé seu Deus lhes ordenou, para que vivam, sejam felizes e prolonguem a vida na terra que irão ocupar.

Dt 13: 1 Cuidem de colocar em prática tudo o que eu ordeno a vocês. Não acrescentem e não tirem nada.

Creio q a tradição teológica peque por "acrescentar" mandamentos na verdade ausentes da Bíblia. E q se faz necessária uma reinterpretação de conceitos q achamos q são divinos, mas são humanos. Igualmente creio q tanto quanto a tradição ortodoxa esteja "equivocada", igualmente estarão muitas das minhas conclusões, nascidas de minha mente humana.

Contudo, creio ser relevante "oxigenar" e, de certa forma, "atualizar" a forma como os mandamentos bíblicos são interpretados. Precisamos estudar o q a Torah, escrita há 3 mil anos, tem a dizer sobre nossas dúvidas do hoje, q sequer poderiam ser cogitadas àquela época. Pois, se a Lei é divina, não pode ser anacrônica. Nela devemos encontrar princípios q nos norteiem nesse mundo pós-moderno.

Se prosseguirmos apenas a ecoar com deferência aquilo q os q nos precederam "acharam" corremos o risco de q as novas gerações não se identifiquem em nada com o q a Bíblia ensina. Corremos o risco de nos encontrar um dia numa falha crítica sem saída, e q as futuras gerações considerem a Torah ultrapassada e caduca.

Sejamos iconoclastas! Quebremos todos os ídolos. Questionemos tudo o q parece velho e empoeirado. Assim cresceremos na compreensão da verdadeira essência dos mandamentos, estatutos e normas q o Criador nos legou.

Não pretendo com meus textos desviar ninguém do caminho correto, e peço a todos q discordem das teses q afirmo q deixem um comentário refutando minhas alegações, com base na Lei. Ficarei muito grata e me proponho a reescrever qualquer texto se me for comprovado q ele propaga idéias contrárias ao q a Lei ensina.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Visita à "Tabacaria" de Fernando Pessoa

Antes de mais nada, quem escreveu "Tabacaria" foi Fernando Pessoa?

Essa pergunta traz muitos mais questionamentos do que os comuns. Normalmente esta dúvida seria acerca de uma questão envolvendo plágio, porém esta palavra não pode ser jamais aplicada ao genial, único e autêntico Pessoa. Este poeta lirou não apenas em si mesmo, mas em outras vidas, com outros nomes.

Fernando Pessoa é o poeta (que se utiliza) dos heterônimos. Essa palavra significa simplesmente "outros nomes", mas esse recurso estilístico não deve ser confundido com o pseudônimo (falso nome). O pseudônimo é uma espécie de "nome fantasia" que muitos autores usam para deixar resguardada sua identidade.

Fernando Pessoa não usa pseudônimos. Ele assina suas próprias poesias, não busca o anonimato. E além da lírica que assina com seu próprio nome, produziu lírica que assinou com outros nomes, sem resguardar seu próprio. Fernando Pessoa não é apenas Fernando Pessoa. É também Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Ricardo Reis e muitos outros. E esses nomes não são seus pseudônimos, mas seus heterônimos.

São também Fernando Pessoa seus heterônimos? Por muitas décadas não se soube. O próprio Pessoa não ajudou muito a esclarecer a dúvida. E por conta disso o Espiritismo Kardecista viu nele um psicógrafo, um médium tal qual Chico Xavier que escrevia obras que não eram suas, mas "sopradas" por espíritos desencarnados. Pessoa jamais autorizou ou desautorizou tal alegação. Talvez ele mesmo não soubesse se era médium. Consta que, por exemplo, escrevia como Álvaro de Campos quando "sentia um impulso indefinível para escrever". Seria esse impulso interno ou oriundo de algum tipo de influência externa, espiritual, de outra personalidade? Ou seria a própria personalidade de Pessoa a fragmentar-se, espalhar-se por outros nomes, e vida virtuais inventadas pelo poeta?

Pessoa não sabia, e nem nós seus leitores o sabíamos. Até que a crítica e a análise literária contemporâneas comprovaram por análises estilísticas e estatísticas que, sim, era Pessoa que falava, com seu estilo indisfarçável, através de seus outros eus.

E é apenas por conta dos recentes trabalhos de análise literária que escrevi "Fernando Pessoa via Álvaro de Campos" e não "Álvaro de Campos via Fernando Pessoa" pois tal ordenamento diria que o autor do poema é o Álvaro e não o Fernando. Na sentença "Fernando Pessoa via Álvaro de Campos" está dito que o autor é, ao fim e ao cabo, Fernando Pessoa.

Fernando foi Pessoas, no plural. Poeta de vida corriqueira, sem grandes aventuras novelísticas, inventou para si outros nomes, personalidades e vidas. O poeta não cabia dentro de si. Seu lirismo transborda a aparência e personalidade corriqueira das coisas, e pessoas. Transcende sua própria pessoa, virando pessoas. Muito já ponderei sobre os prós e contras de haver nascido no Brasil. Dentre os benefícios que aos poucos vou-me dando conta devo adicionar o compreender Fernando Pessoa em sua plenitude, em minha língua materna. O português é intrincadíssimo. Uma das mais belas, ricas e complexas línguas do mundo.

Uma vez estabelecido que foi o próprio Fernando Pessoa que escreveu "Tabacaria", o analisemos.

Este poema mudou minha visão sobre a vida. Hoje, depois de lê-lo, não sei como consegui trilhar meu caminho até aqui sem o conhecer. Ou melhor, sei. O trilhava trôpega (não que agora tropece menos, mas estou algo mais lúcida). Nesta poesia está tudo. Tudo o que pecisamos saber. O apanágio para a dor da existência. Uma chave interpretativa que abre as portas da compreensão. Até então eu não achava que nenhuma arte, poesia ou texto sagrado pudesse exprimir a ingrafável questão existencial básica: a dúvida primordial do sentido e propósito da vida. Pessoa não nos dá nenhuma resposta. Mas como é bela sua expressão do inefável!

"Não sou nada.(...)À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo." "Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada." "Mas penso ser tanta coisa! E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos! Gênio? Neste momento Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu, E a história não marcará, quem sabe?, nem um,"

Consciência única e vária do "Eu". Pessoa é sublime pq percebe em sua individualidade a alteridade, a multiplicidade do mundo. Percebe o si nos outros. Vê a si mesmo em outréns. Ato impossível aos medíocres, e aos absortos na vida. É uma questão de perspectiva. Apenas quem apeia-se de si mesmo adquire a consciência da transpessoalidade. Eu não sou apenas eu. Sou apenas uma figura emblemática similar a outros "cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu". Minha humanidade, meus sonhos, minhas dúvidas existenciais não são só minhas: afligem toda Humanidade.

Pessoa externa sua consciência transpessoal de que não apenas ele se faz essas perguntas, que não apenas ele é inteligente e "genial". Reconhece-se apenas mais um dentre uma miríade de humanos que se consideram "Gênios", como ele. E a dúvida/certeza de que não basta ser gênio para se destacar.

"Não, não creio em mim. Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas! Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?"(...) "O mundo é para quem nasce para o conquistar E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão. Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez."

"Tabacaria" é uma poesia sobre um "deitar de olhar novo" que ressignifica o que é comum. A mais trivial das banalidades: a vista que o poeta tem da rua defronte a sua janela. E desta rua Pessoa extrai o sentimento do mundo. Percebe ao mesmo tempo a realdiade e a irrealidade da existência, talvez falsa, da Tabacaria defronte. Do lado de dentro, a Tabacaria não é real, apenas sonho. Uma virtualidade que pode nunca se realizar.

Sonho de um gênio banal, que por mais genial que seja ou se considere, não há de "ganhar o mundo", em nenhum sentido. O mundo não é para os gênios. O mundo é de quem nasce com o ímpeto de o conquistar. Essência adversa (exterior) em relação ao poeta, cuja luz é interna, rouca e tão louca quanto a dos Napoleões nos manicômios.

"Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.) Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei A caligrafia rápida destes versos, Pórtico partido para o Impossível. Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas"

Pessoa sabe que sua ânsia por reconhecimento é tão vã quanto o esperar ao alpendre de uma porta inexistente. Sabe que, tenha ou não gênio, o julgamento recairá para depois de sua morte. Morreu sem saber sua real estatura. Talvez. Diz ter falhado em tudo. Diz não ser nada.

"E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo."

Pessoa ecoa a multitude e vacuidade concomitantes no ser desperto. E que é apenas no vazio de dar-se um passo fora, ou atrás, de si que se pode ver "com nitidez absoluta" e que se fica lúcido "como se estivesse para morrer" e "não tivesse mais irmandade com as coisas" ao invocar-se como espírito alheio "a mim mesmo e não encontro nada". O poeta é um degredado, a quem tudo é estrangeiro. algo onírico, e irreal.

A poesia não nos oferece respostas. Pessoa não se encontra nesses versos. Vê-se num átimo além de si, e percebe-se preso. Ao quarto, à janela, ao vício da Tabacaria. Tudo se esvairá, até o planeta. E até a lírica será reescrita, reciclada, daqui a milhares de anos, numa outra língua, por outros seres, num outro planeta. Sempre igual, estúpido, inútil e real.

O cigarro, comprado na Tabacaria, onde não se compra só tabaco, é um símbolo, uma imagem, desta vida que se nos apresenta como real, que fumamos tão rapidamente e que some tão sem propósito nem finalidade quanto a fumaça, no ar. Inexistente, mas ainda real.

Para Fernando Pessoa a vida é como um vício, e ele se vê entre a lealdade ao "viver" (o ir à Tabacaria) e seu medo da vida (de sair do quarto), ou sua constatação de que o "viver" é irreal, e tudo é sonho. Mas a vida o puxa pra fora de si. Esteves sem metafísica e o dono da Tabacaria o chamam ao banal. Mas ao real?

A vida se esvai como fumaça enquanto o poeta pondera as virtualidades confortáveis e burguesas pelas quais nunca optará. O poeta não quer e sabe que não pode "ser feliz". Sabe que não pode comer chocolates com a mesma verdade que a pequena se refestela. Fosse "feliz" estaria mergulhado na banalidade das sensações, não poderia dar o perspectivo "passo atrás", não sentiria a necessidade de desermanar-se das coisas e não as veria como são: sonho.

Nesse poema Fernando Pessoa expressa sua compreensão de que a Tabacaria não existe: ela é Metafísica.


The Verve - Bitter sweet symphony

R.E.M - Imitation of life


Chico Buarque - Futuros amantes

Adriana Calcanhoto - Esquadros

Los Hermanos - O Vento

The Matrix

sábado, 5 de março de 2011

De como minha avó foi declarada morta ainda bebê

Não, este não é o relato de um milagre; mas de como nós, humanos, somos pretensiosos ao tentar, como nossa vã ciência, prever o futuro. A Futurologia é uma “ciência” duvidosa e, sempre, invariavelmente, desacreditada pelos fatos.

Certa ocasião estava eu escutando o cordel das dores e reclamações, compreensivamente comuns entre todos os idosos, que minha avó estava a me fazer. Porém de súbito, um sorriso iluminou jocosamente o semblante de Tula e numa inspiração espirituosa arrematou:

- Mas eu não tenho motivo pra reclamar, estou na prorrogação já há 72 anos!...

Perguntei-lhe o pq e ela relatou-me o que se segue, a história de uma previsão que sua mãe recebeu e que, para o bem de minha simples existência, não se confirmou.

Ano de 1938. Pré-antibióticos. Pré-antialérgicos. Pré-antidepressivos. Quando ainda eram doenças fatais a Sífilis, a Tuberculose, a Varíola, o Sarampo. Quando ainda não afligiam à Humanidade a AIDS, a Síndrome do Pânico, a Anorexia, as LER’s.

Minha bisavó Giselda Pilon Alves residia com seu marido Agostinho José Alves na cidade portuária de Santos, sudeste do Brasil. Na condição de estivador Agostinho com certeza era diariamente exposto a variados agentes patogênicos portados pelos marujos estrangeiros. Nessa época, ainda não existiam exames laboratoriais do tipo que hoje dispomos, os quais com alguns mililitros de sangue conseguem precisar qual agente é o responsável pela doença.

Tinham meus bisavós então apenas uma filha pequena, ainda bebê, com menos de um ano de idade, Shirleÿ, carinhosamente alcunhada “Tula”. A jovem mãe Giselda percebeu que sua filhinha estava doente, com febre alta e, preocupada, levou-a ao médico.

O Doutor, após examinar a bebê disse, sem precisar sua enfermidade, que o caso era grave, e que não poderia receitar nenhum remédio. Que a saúde da bebê era frágil e que ela “não ia vingar”.

Apenas posso imaginar o punhal que foi então cravado no coração da jovem mãe Giselda, ao ouvir o “Doutor” dizer que sua filha saíra “solada” tal qual um bolo sem suficiente fermento, que sua constituição não era suficientemente saudável, que ela era “mirrada”, frágil, enfermiça e que “não ia vingar”.

Como era uma pessoa muito prática, o médico disse que o falecimento da bebê era questão de horas. Ou, no máximo, de dias. E, para agilizar, ele poderia já fornecer à mãe o atestado de óbito da então bebê Shirleÿ Pilon Alves, para adiantar os procedimentos quando brevemente, infalivelmente, ela morresse.

Contou-me minha avó que sua mãe, muito ofendida e magoada, recusou-se a receber o atestado de óbito adiantado de sua filhinha. E que o “Doutor” não era Deus para prever o futuro e decretar quem ia vingar ou não ia.

Imagino que o médico, tão presunçoso, tenha desdenhado da esperança daquela mãe na recuperação de sua bebê. Ciente talvez das então altíssimas taxas de mortalidade infantil. Cauterizado talvez por ter atestado a morte de centenas de bebês iguais a ela. De fato, ele não tinha remédios para curar ou sequer aliviar a doença indistinta. Mas igualmente de fato não estava em seu poder prever o futuro, pois a bebê Shirley, mesmo mirrada e enfermiça, não só vingou como frutificou em 2 filhos, 5 netos, e até agora 1 bisneta, todos bastante saudáveis.

Ao regressar de tão devastadora consulta médica a católica Giselda pediu que seu marido espírita kardecista permitisse que ela batizasse na Igreja Católica Apostólica Romana à bebê, pois não queria que ela morresse pagã e padecesse o Limbo eterno. Condoído e talvez atemorizado com a possibilidade da morte de sua filhinha, Agostinho permitiu que Tula fosse então batizada. Sem conseqüências, pois sua filha posteriormente tornou-se uma praticante ativa do Espiritismo de Allan Kardec, religião muito popular, curiosamente, no Brasil. A mim de certa forma gera certo orgulho ser parte de uma minoria religiosa, da qual sou herdeira familiar, embora não freqüentadora entusiasmada como Tula, que comparece 3 vezes por semana ao “serviço religioso” (algo na verdade ausente do Espiritismo).

Não tivesse ela seu longo Destino a cumprir, de fato, não teria vingado. Mas Deus tinha um plano para ela. Não só vingou como continua cada dia a exceder a expectativa de vida comum a todos os brasileiros nascidos em 1937.

Talvez, não tivesse a Medicina avançado exponencialmente ao longo do século XX minha avó não estaria hoje aqui. Por 3 cirurgias passou, e sem o avanços modernos da Medicina tais talvez teriam sido impossíveis e ela não estaria mais entre nós. Extirpou um rim e sofreu uma histerectomia, além de uma lipoaspiração nos culotes.

É curioso como a previsão do Doutor foi negada não só pela surpreendente capacidade do organismo da bebê Tula em debelar a enfermidade que fora-lhe decretada fatal, mas pelo próprio avanço da Medicina que permite, progressivamente, a todos nós, viver muitos anos mais e aos mais jovens conviver longamente com seus antepassados idosos numa experiência reflexivamente transformadora, especialmente para uma historiadora que gosta de, pela janela, observar as idiossincrasias da Condição Humana.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

De como Deus me provou sua existência

É curioso como nós humanos temos quase implementado um certo defeito de processamento que nos faz, instintivamente, procurar algum nexo, mesmo que irracional, entre as coisas. Somos neurologicamente viciados em achar causas para as conseqüências e ligações entre os eventos e fenômenos, e frequentemente associamos a causas sobrenaturais aquilo que nossa mente pretensamente racional não consegue explicar.

Para ilustrar isso recorrerei a uma pergunta que li em certa revista “Superinteressante”, que inquiria pq nós, humanos, nos “ouriçamos” quando ouvimos alguns sons, como os oriundos da microfonia ou do barulho agudo que um giz longo faz ao ser riscado contra a lousa. Ciente estou que “ouriço” é um animal marinho e creio que talvez seja curioso para alguns tentar imaginar de que forma uma entidade que não um espinhento e, para alguns comestível, ouriço-do-mar pode transmutar-se em verbo referente a uma ação humana.

Eu, como professora, sempre tomo o cuidado de partir o giz antes de escrever, por saber como é desagradável ouvir o ruído agudo dele inteiro atritando à lousa. É um som, literalmente, “de arrepiar”.

A resposta na revista era um chocante para alguns: “Nossos pêlos ficam ouriçados pois somos, antes de tudo, animais”. Quem já observou o comportamento de gatos e cachorros sabe que eles tb “ficam ouriçados” e seus pêlos, sobretudo os sobre sua Coluna Vertebral, ficam em pé diante de situações “de perigo” ou “medo”. Por exemplo: quando os pêlos das costas de um cão ou gato ficam “em pé” este é um sinal inequívoco de um ataque imediato.

Nossos pêlos podem, portanto, “ficar arrepiados” em virtude do ato-reflexo neurológico, reptiliano, a sons agudos de certa freqüência pois fomos evolutivamente selecionados por associar tais sons ao perigo e à ameaça. Como nos pretendemos racionais, ficamos “de cabelo em pé” até diante de sons que escapam a essa freqüência, como quando ouvimos ruídos noturnos que nossa mente racional não consegue explicar e nosso vício em procurar nexos chega à conclusão ilógica: “Deve ser um fantasma, ou até um ladrão”. À essa conclusão, qquer que seja a freqüência do som, nos sentimos ameaçados e nos arrepiamos, ou até nos mijamos de medo.

Outras situações em que os pêlos humanos retesam-se é quando sentimos frio, ou quando corre-nos pelo cangote um certo arrepio que, como se diz em minha terra, depois dos 12 anos não é mais “cosquinha”, e sim “tesão”: o prenúncio do ato sexual.

Humanos ficam de “pêlos arrepiados”, portanto, diante das seguintes situações: ao ouvir sons agudos em determinadas freqüências, ao testemunhar fatos que associam ao sobrenatural, ao testemunhar ou ouvir situações de perigo ou ameaça, ao sentirem frio, e ao sentirem cócegas ou libido.

Nunca tive problemas em assumir minha condição simiesca. Inclusive choca aos que me conhecem e aos meus alunos a naturalidade com que classifico-me, inapropriadamente, como “uma macaca que não tem vergonha de sua macaquice”. É claro que ao dizer isso lembro-me de Helena Bonham-Carter dizendo a Mark Wahlberg em “The Planet os Apes” que ela não era uma macaca, mas uma símia. Para o leigo, a diferença básica entre macacos e símios é que macacos têm rabos, e símios não. Além dos humanos, também são símios nossos primos: gorila, orangotango e chimpanzé. Taslvez também o pé grande, o abominável homem das neves, os coneheads, os psicopatas e os especuladores. Para quem não suspeita no que consiste a profissão de “especulador”, adianto que não é alguém que trabalha com espelhos nem com espéculos.

Aposto e ganho: dos leitores não que não suspeitam o que seja um espéculo, 85% são homens e 15% são meninas menores de idade. Mulheres maiores de idade sabem exatamente do que estou a falar.

Profunda crente no Deus de Abraão que sou, de forma nenhum sinto-me diminuída ou menos divina em reconhecer que, mesmo que eu seja ou pretenda-me depositária de uma alma imortal e de certa racionalidade sou, especialmente, naturalmente, intrinsecamente, fisicamente, antes de tudo, uma símia.

Admito ademais que minha condição terráquea e simiesca é determinada biológica, geográfica, psicológica e historicamente e que todo e qualquer pensamento ou sentimento que possa nascer de meu aparelho biológico homo sapiens sapiens é titereado por eu ser, além disso, fêmea, brasileira, latino-americana à paulista, uspiana da FFLCH, e viver no Ocidente a virada do segundo Milênio.

Todos os meus pensamentos, e portanto, tudo o que sou capaz de escrever são regidos pela minha condição humana, que circunscreve-se dentro do campo proximal vygostkyano que me é possível divisar.

É curioso como os humanos que consideram-se “iluminados” ou agraciados por uma inteligência superior freqüentemente associam a religiosidade ao obscurantismo e o ceticismo ao esclarecimento. O próprio “ateísmo” é filho da Ilustração, e muitos são os “crentes” acometidos por certa perplexidade diante do apercebimento das reflexões filosóficas e certezas científicas contemporâneas.

E reconheço que não é fácil absorver e aplicar o escopo interpretativo que desenvolvi e que permite pôr em perspectiva e, mais do que entender ou explicar, compreender como é possível conciliar a certeza com a fé. Reconheço que a muitos isso não será possível pois a fé não é algo que eu ou qquer pessoa possa despertar no seu próximo, ou racionalmente explicando, convencê-lo.

A fé é, de certa forma, como a sede, a fome. Mas não é física. Talvez alguns o chamem de carência, ou fragilidade, ou mesmo síndrome de Estocolmo, mas a fé, ao menos para mim é quase como uma ato-reflexo análogo ao ouriçar dos pêlos.

Se é fé, deve sempre deixar espaço para dúvida, senão não seria fé, mas “certeza”. A “fé” é a crença inexplicável, enigmática, intangível, intransferível, a espera, a ânsia, de haver algum sentido, algum objetivo; mesmo, diria, alguma Justiça, Equilíbrio, Propósito, no Universo.

Se traduz-se melhor por “” ou “fidelidade” o termo “emunah”; “fides” ou “pistis”, é uma discussão para uma livre-docência que poderia demolir toda a teologia cristã derivada de Paulo de Tarso. Para não me alongar, e apenas ilustrar essa questão vai uma curiosidade. Se um homem diz, em português: “minha mulher é muito fiel”, não fica em nada claro se ele está se referindo ao fato de sua mulher não cometer adultério corneando-o ou se ele está a dizer que sua mulher é muito devota à sua fé religiosa.

Sei que, no fundo, falta-me “fé” pois em Deus não tenho “fé”, mas da existência de Deus tenho certeza. E de certa forma não compreendo como alguém pode não crer nisso e ainda, teimosamente, prosseguir em qquer humano intento.

Melodramaticamente como sóe às símias superiores latino-americanas alcoolizadas e carentes de auto-afirmação, declarei desafiadoramente a um interlocutor humano solteiro, em pleno décimo-quinto andar, durante uma festa:

- Tenho tanta certeza que Deus existe que, se vc me provar, agora, que Deus não existe, eu pulo pela varanda. Se Deus não existe não vale a pena viver, e não há sentido em todo o sofrimento que testemunhamos. Se eu sofro à toa, sem motivo ou explicação, não há pq prosseguir num “jogo da vida” vazio, sem propósito.

E, de fato, ao menos para mim, se Deus não existisse, não haveria sentido nem valeria a pena viver. Não que, necessariamente, tenha que ser verdadeira a minha fé. Mesmo que errada esteja toda a minha Teologia, há de haver algum tipo de propósito em tudo isso, mesmo que esteja além de minhas capacidades “racionais” viciadas perscrutá-Lo.

Creio, ou melhor, tenho certeza, da existência de Deus por dois fatos. Não pretendo com este relato convencer a ninguém de que Deus existe. A cada um cabe a fé, ou a certeza, que lhe é possível em seu presente estado evolutivo.

Antes dos fatos inconclusivos, outra observação. Somos a cada segundo acometidos pelas mais neuróticas dúvidas Não sei se todos, mas eu ao menos, quando deparo-me com um momento definitivo, determinante, quase que o percebo pelo arrepiar de meus pêlos sobre meu sistema nervoso periférico. No meu agora do digitar este texto, pressinto que além de hoje este texto reverberará pela Eternidade E que talvez os futuros escafandristas o adicionem como certa nota de rodapé à desimportante dissertação de mestrado “Apreensões do sagrado em princípios do século XXI – uma análise dialógica”.

Seja meu cadáver futuramente dissecado ou não, tudo o que posso fazer para vencer à inexorabilidade do percorrermos e sermos devorados pelo espaço-tempo é, de certa forma, “eternizar-me” ao “dar upload” para a “nuvem cibernética” do meu testemunho, pessoal e intransferível do que é, em minha perspectiva, ser humano.

Tenha eu alma ou não, exista ou não um Deus, é inquestionável e todos os futuros escafandristas deverão comigo testemunhar em verdade que jamais haverá outra acepção idêntica à minha da condição humana. Estamos nessa com Demócrito. Portanto não ambiciono que futuros escafandristas tenham neste texto qquer perspectiva além da pura e simples curiosidade de época, tal qual a que eu teria por um missário do séc. XVI.

Eu não vislumbro atingir à Iluminação ao ler um Livro das Horas medieval tal qual não vislumbro ou intento a qquer leitor convencer espiritualmente de nada pelo que se segue.

Vamos então ao não-relato das provas subjetivas e inconclusivas.

Desde criança eu sentia essa sede que me levava a recorrer a uma força sobrenatural. De certa forma, sempre soube que eu deveria “rezar” e recorrer ao um “Pai” imaterial transcendental. De certa forma as crianças sentem necessidade de um Deus, talvez tal qual de uma fada do dente, um Papai Noel e um Coelhinho da Páscoa. Fui criada num lar no qual a religião sempre esteve presente, em particular pelo fato de minha avó ser uma “militante” espírita kardecista. Mas mesmo que meu lar não fosse particularmente religioso, toda a cultura brasileira é permeada pelo franco “catolicismo não praticante”.

Desde sempre, portanto, cri em Deus, e a ele recorri através de preces. Quando estamos em princípios de nossa adolescência, o que hoje se chama por “tween” é quando transcorrem as experiências que mais profundamente marcam nossa conformação racional futura. E para mim este ponto de inflexão deu-se ao que seria a idade de meu bat mitzvah, fosse eu judia.

Contava eu 12 anos quando Deus agraciou-me com dois eventos e jamais futuramente permitiram-me ter a dúvida teológica fundamental. A essa altura minha vida não era propriamente “um mar de rosas” nem era eu uma figurante num comercial de margarina. Certa noite, aos prantos sentindo-me pior do que um animal de rabo por diversos motivos, deitei-me para dormir, fiz minha prece e o tom de minha oração nesta ocasião foi outro. Apresentei a Deus meu então cria insuportável sofrimento e passei a questionar meu Criador. Dado eu ser até então, julgava-me, uma pessoa correta, que tentava sempre que possível fazer o que era certo, o que não justificaria eu ser, bem mais que meus amigos de escola, vítima de uma “família”, no mínimo, “disfuncional”. Apresentadas minhas queixas, desafiei ao próprio Deus:

- Deus, juro, se Vc não me provar que Vc existe, NUNCA MAIS acreditarei em Deus.

Comumente meus interlocutores subestimam-me quando falo. Desconhecem eles que eu sou, fundamentalmente, uma pessoa séria, e que fala sério. Eu mantenho a minha palavra. Meu dito vale um escrito. E quando eu digo algo, realmente, literalmente, farei de minhas palavras a Lei pela qual pautarei meus atos. As pessoas até podem duvidar de que eu colocarei em prática o que eu proclamo. Não meu Pai, que me conhece de uma forma que até mesmo eu não me conheço. Deus sabia que ao ouvir desta ainda, impúbere, incapaz, tutelada, com aparelho ortodôntico, que eu nunca mais creria nele se ele não me provasse, objetivamente, tangivelmente, sua existência eu, de fato, futuramente até poderia ter dúvidas, mas, talvez apenas para ser fiel ao meu compromisso, NUNCA MAIS acreditaria em Deus.

Talvez meu Criador tenha pensado com seus quasares: “Hum..., eu tenho planos para os desdobramentos futuros da crença desta minha filha em Mim e sabendo como ela é teimosa, tenho que fazer alguma coisa, senão ela se tornará uma atéia de cerviz dura”. E Ele fez. Na manhã subseqüente acordei com os olhos inchados e, ao ir ao banheiro, percebi que passara-se naquela noite um evento objetivo, determinante, irreversível: a minha menarca. Naquela noite, em que duvidei de Deus pela primeira vez, tive minha primeira menstruação. Não é nada sobrenatural, mas o li como uma mensagem muito clara. Deus agira, dentro da natureza, de forma a sinalizar-me que, sim, Ele me ouvia. Que sim, existia. Que sim, tinha em vista para mim um futuro, que minha agora condição de não mais “menina” e sim “mulher” prenunciava. Uma mensagem de esperança que deixou impressa uma ânsia de futuro.

Nunca mais duvidei de Deus, mas continuei, de certa forma, a sentir-me inferiorizada, relegada, passada para trás, injustiçada, levando rasteiras da vida, como fazem todos os humanos desde Caim. Longe estou de afirmar que eu tenha superado este sentimento. Mas talvez apenas para me dar um duplo testemunho, ainda em meus 12 anos Deus concedeu-me outra benemese. Só, talvez, para que fosse duplo o testemunho e eu nunca mais me permitisse duvidar.

Neste mesmo ano fui com minha avó a um bingo beneficente da Sociedade Espírita de Rio Claro. Na época em que os espíritas rio-clarenses ainda organizavam bingos. Eram vários os prêmios. Televisores, videocassetes, aparelhos de som, videogames, bicicletas, patins, prendas variadas. Fiquei interessada em ganhar apenas um dentre todos os itens: o aparelho de som, pois tinha leitor de CD, e eu estava sedenta por ter um deles e poder comprar os recém-lançados CD’s que vinham substituir à fitas cassete e aos LP’s. Pedi, com profunda fé, a Deus, que era apenas e tão-somente ao aparelho de som que eu tanto ansiava.

Não sei se eu pedi de alguma forma especial, ou se talvez Deus pensou com suas hipernovas: “Hum... Talvez seja interessante que a Fernanda tenha um leitor de CD, pois assim ela poderá ouvir músicas que contribuirão para sua evolução intelectual, e eu tenho planos para isto...”. E, naquela noite, no bingo, ganhei com alegria efusiva ao único item que eu almejava: O aparelho de som. Creio que nunca meu sorriso foi tão largo como ao trazê-lo entre meus braços para o carro e, naquela mesma noite, colocar meu primeiro CD para tocar.

Descreiam os que estejam cogitando que Deus me conceda tudo o que peço, rsrsrs. Inúmeras foram as vezes subseqüentes em que pedi para ganhar em variados sorteios e, 2 vezes por semana, suplico tolamente a Mega-Sena. Talvez hj eu o faça com menor ou menos inocente fé; ou talvez eu ganhar a Mega-Sena simplesmente não esteja contido no meu Destino futuro.

Depois destes dois eventos, embora muitas vezes tenha fraquejado minha fé, nunca permiti-me duvidar da certeza objetivamente estabelecida, com duplo testemunho, aos meus 12 anos, de que meu Criador não só existe, como me ouve e está atento a mim.

Não pretendo estimular que ninguém, especialmente já adulto, duvide desafiadoramente de Deus de forma a encurralar ao próprio Criador obrigando-o a agir. Isso apenas resultaria numa cena patética. Com 12 anos eu o fiz com o coração puro e a vontade inquebrantável. Eu falava sério. Quem tentar replicar essa cena não o fará tão espontaneamente, com tanta convicção. E Deus conhece nossas terceiras e quartas intenções.

Não apresento com este texto nenhum “método científico” para a verificação objetiva de que Deus existe, apenas apresento meu relato pessoal e intransferível de como isso se passou individualmente para mim.


Leia também: A prova anatômica da inexistência de Deus


A Prova da Existência de D’us, por Rabi Nissan David Dubov

domingo, 5 de dezembro de 2010

De como dei a extrema-unção ao meu avô

Creio que nunca tão dolorosamente parirei outro texto. Esta memória, a que preferi tanto tempo me furtar, flutua longamente em meu subconsciente tal qual o coacervado primevo da sopa nutritiva nas nunca publicadas “memórias de um átomo” de João da Ega.

Ao reassistir aos “Maias” recentemente, finalmente desvendei o motivo de minha fascinação por esta história trágica familiar: a pungente presença do sábio Afonso da Maia, dignamente interpretado por Walmor Chagas. O personagem do patriarca do Ramalhete ombreia-se ficcionalmente com Rei Lear. O notável que, agora idoso, vê-se diante do dilema de não ter ninguém à altura que o suceda, pois os tempos são outros. Talvez mais diversos ou adversos no século XIX que no XXI.

A pungente memória que pretendo aqui expurgar refere-se aos últimos momentos de lucidez de meu adorado avô Vicente. Mais que um pai, o capitão e depois major da Polícia Rodoviária Estadual Vicente Novais da Silva, foi todo o meu mundo. O demiurgo de meus parâmetros de honradez, responsabilidade, hombridade, retidão. Muitos outros textos merece e receberá meu Morzinho, como o chamava, nunca por “avô”. Ele não era meu “avô”, ele era meu Moreco, assim mesmo, denotando um relacionamento muito íntimo, mas que seja enfaticamente esclarecido, em nenhum aspecto margeando qualquer mancha de sexualidade. Eu e meu Papica, que nesta vida foi meu avô, temos uma ligação amorosa espiritual, que transcende ligações sangüíneas ou carnais.

Mais certeza disso tenho pelo fato de que por uma dessas felizes “coincidências” da vida, eu e ele, nesta encarnação, nascemos no mesmo dia. Quando eu nasci, ele passou seu aniversário daquele ano na maternidade e recebeu, ao final do dia, entre seus braços, empacotadinha e com cara de joelho, a esta que agora escreve este texto de tristes lembranças. Em 1982, eu fui seu presente de aniversário.


Poucos são os justos entre as nações que recebem a dádiva de uma descendência nascida exatamente no dia de seu aniversário. E apenas posso imaginar a emoção imprescritível de alguém que recebe simbolicamente alguém de seu sangue a título de presente de aniversário. Lembro de um caso célebre: John Lennon recebeu seu precioso Sean e dedicou-se integralmente a ele tal qual meu... foge-me qualquer adjetivo que faça-lhe Justiça..., avô dedicou-se não só a mim, mas às 3 netas filhas de sua tresloucada filha. E além de mim, minha irmã mais velha Cristhiane também nasceu um dia antes de nosso aniversário. Meu avô foi duplamente presenteado com dois "coincidentes" presentes de aniversário. Ele o merecia. Merece.

Talvez por nosso natalício comum, sempre desfrutamos de uma afinidade intuitiva, que transcendia palavras, e mais do que isso, a possibilidade de uma efetiva amizade entre uma criança e um aposentado. Meu avô sempre foi, mais do que meu porto seguro, que a ressaca pode levar, meu alicerce em arco romano, que resiste ao teste dos milênios.

O derradeiro momento em que isso aflorou foi quando percebi que, nesta vida, eu seria a agraciada com seu último momento de lucidez. Há muitos anos meu avô lutava contra um câncer na próstata. Metástico, no início de 2007 já sabíamos que era incurável. Submeteu-se meu avô a longas e dolorosas sessões de hemodiálise. Ao final de janeiro, o médico foi sincero conosco e disse que dado o avançado estado de seu câncer, a hemodiálise era um paliativo que apenas prolongaria o sofrimento físico dele e nossa tortura psicológica. Nos apresentava a ortotanásia, a forma adeqüada, kasher, de se morrer.

Consternado, apresentou a possibilidade de suspendermos a hemodiálise e levá-lo para casa, para que ele pudesse passar seus últimos momentos de lucidez na intimidade familiar. Foi decidido pelos “adultos” (aos 24 anos eu não estava incluída entre eles) que suspenderíamos os paliativos. Sabíamos que, sem a hemodiálise, lentamente a uréia não expelida envenenaria seu corpo e ele desfaleceria, lentamente, num coma progressivo.

Esquematizamo-nos para dar plantões à sua cabeceira. Na noite de um certo domingo, era meu o turno. Estávamos assistindo à TV, ele na cama adaptada, eu no catre ao lado. Saturado de morfina, era de se esperar que ele nada fizesse além de ver TV, comer e dormir. Não naquela derradeira noite.

Principiou a agitar-se e a emitir ruídos aflitos. Pulei, agarrei suas mãos e fitei os amados olhos em seu rosto profeticamente inchado e sem cor. Piscava convulsivamente e murmurava coisas indistintas, demonstrando desconforto.

Segurando firmemente suas mãos, pondo meu rosto a poucos centímetros do seu, disse-lhe:

- O senhor está com dor ou com medo?

Queria saber se sua dor era do corpo ou da alma.

Balbuciou, mas o compreendi: “Com medo”.

Senti a primeira lágrima cair-me do lábio superior. Percebi que encontrava-me diante de um daqueles momentos-chave da vida, irrepetíveis, inadiáveis, implanejáveis. Antes que rolasse pelo meu rosto a segunda lágrima, que já se prenunciava, espocou-me na mente a lembrança de uma frase daquelas que nunca se espera escutar:

- Foi aqui que eu morri.

Ouvira isso da boca de uma amiga de faculdade, ao apontar a piscina de sua casa. Explicou a seguir: “Quando eu tinha 3 anos, caí na piscina. Quando me acharam, eu já estava roxa, sem sinais vitais. Meu pai, que é gastroenterologista, me ressuscitou após vários minutos. Tenho certeza de que se meu pai não fosse médico eu não estaria viva.”

Eu não sou médica, e sabia que aos males físicos de meu avô eu nada poderia fazer. Mas às aflições de sua alma eu poderia dar algum bálsamo, embalsamando-as. Naquele momento, enquanto desenhava-se, pendente, a segunda lágrima no canto de meu olho direito, compreendi o motivo de toda a minha Teologia. Formei-me em História, e sempre me interessei por Religião, meus estudos superiores e todo o meu hebraico foram paitrocinados por este que agora encontrava-se moribundo diante de mim.

E eu quase ouvia o Narrador Onisciente decretando a respeito desta cena: “Foi ali que ele morreu”. Eu não O ouvia tal qual não divisava a chuva de neutrinos nem tangia a matéria escura a nos trespassar. Mas mesmo não sendo palpável, nada disso é menos real. Algumas coisas são intuídas, ou mesmo teoricamente postuladas, e não precisam de nenhuma comprovação mensurável para serem dignas de crédito. Agradeço a Deus esta certeza, que faz vibrar minh'alma.

Enquanto a lágrima principiou a rolar sobre a minha face, repassei todo o meu Latim, que só agora eu compreendia porquê aprendera: para saber exatamente o que dizer naquele momento crucial. E mais do que isso, enquanto escolhia as palavras exatas, lembrei-me que tinha diante de mim um ex-seminarista, que reconheceria imediatamente o que eu estava a fazer ao dizer aquela sentença que hesitantemente articulava. Não cabia dirigir-me, naquela circunstância, a meu avô por senhor, e sim, intimamente, por “você”.

Um leigo teria dito: "eu te amo", começado a rezar um Pai Nosso, afagado-lhe ou apenas chorado. Mas minha Teologia nos servia para dizer algo muito melhor, eficiente e próprio para este momento para o qual nunca jamais alguém estará suficientemente preparado: despedir-se de um espírito-irmão. O que vc diria, leitor, nesta circunstância?

Quando decidi-me pela exata formulação da frase, questionei-me se tal sentença cabia, pois para mim meu avô sempre fora um santo, de comportamento irretocável, digno dos mais altos elogios e honrarias. Diante de mim, meu avô jamais fizera absolutamente nada que eu pudesse criticar. De minha perspectiva ele era tamin, imaculado, dele apenas posso dar testemunhos exemplares. Mas lembrei-me de que a vida de meu avô excedia ao breve recorte final que eu testemunhara, e que ao longo de sua juventude e imaturidade ele poderia, tal qual eu, ter feito coisas pouco recomendáveis. Lembrei-me ainda, embora isso pareça impossível neste curto lapso temporal que ora narro, que já haviam-me dito que antes de eu nascer meu avô fumava e tinha “amigos do bar”. E que eu gostava de nutrir o acalanto inverídico de que, tocado por minha simples existência, ele cessara de conceder-se estes deslizes. Por fim, decidi-me de que a frase, em sua integralidade, apesar de minha perspectiva hagiográfica, cabia.


Enquanto escorria derradeiramente a segunda lágrima pelo canto de meu lábio superior, eu disse segurando ainda mais fortemente suas mãos, com a voz profundamente embargada, mas ainda assim dilacerantemente resoluta:

- Você se arrepende de todos os seus pecados?

Ele imediatamente reconheceu que nesta frase eu, nesta vida sua neta, estava a dispensar-lhe a extrema-unção, o derradeiro sacramento, e tentando, dentro das minhas capacidades, expurgá-lo de erros e pecados, possibilitando-lhe, quiçá, seu green card para alguma “área VIP” celestial, que ele com certeza merecia.

Esse é o tipo de frase que não pode ser dita duas vezes, e que nunca deve ser pronunciada antes da hora, sua função é proporcionar um alívio instantâneo, e não uma agonia prolongada de devoto, mas naquele átimo percebi que meu avô testemunhava seus últimos momentos de compreensão, e que este era o instante fatídico para o qual toda a minha e toda a sua Teologia nos haviam encaminhado.

Meu avô olhou para o alto e murmurou algo que não pude compreender, mas que me aliviou enormemente (pela cadência creio que o disse num latim que excedia ao meu parco estudo). Em poucos segundos começou a ter uma convulsão, e gritei por ajuda dos demais familiares. Lembro-me do semblante desesperado de meu tio Renê ao acorrer, escorregando, devido à urgência, no quarto, e de como as veias saltavam em seus braços enquanto acudíamos com toda a nossa firmeza ao nosso pai. A seguir meu avô foi levado, de ambulância, para o hospital, de onde nunca retornaria. Recitei-lhe e ainda recito-lhe o Kaddish, a Vicente ben Euclides, da parte de Fernanda bat Noach.

Foi assim, com o coração mais-do-que partido, embora eu não seja sacerdote, que dei, creio que corretamente, a extrema-unção e despedi-me de meu tudo nesta vida. Sinto ainda hoje, todos os dias, sua ausência. Mais do que meu pai, meu avô nesta minha vida foi toda a minha pátria.


O Teatro Mágico - O Anjo Mais Velho

The Beatles – Help

Jota Quest - Mais Uma Vez

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