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sábado, 22 de março de 2014

Solo un ratito



Era uma sexta-feira à noite, perto de uma e meia da manhã, eu estava sentada no sofá, na sala da minha casa, placidamente assistindo à TV quando um barulho chamou minha atenção. Olhei para o lado direito, onde estava porta aberta e vi, de relance, tentando entrar furtivamente, um rato. Na verdade um ratinho, um camundongo, pequeno e cinza. Dei um grito, ele se assustou e saiu correndo. Talvez com mais medo de mim do que eu dele.


Terror total! Havia um rato tentando entrar em minha casa!


Imediatamente tranquei todas as portas e janelas, lacrando as frestas com panos de chão. E pensei: "quando escolhi essa casa para alugar vi seu grande jardim como vantagem, se eu soubesse que ratos poderiam se instalar nele, teria ficado com aquele kitnet no terceiro andar..." Mas, contrato assinado, e aqui instalada há mais de 6 meses, a única opção era seguir em frente.


Não foi a primeira vez em que um rato apareceu numa casa na qual eu morava, mas nas 2 vezes anteriores, não era EU a responsável por dar cabo dele. Eu podia simplesmente aguardar que "os adultos responsáveis" pela casa, e por mim, resolvessem o problema. Agora a casa era minha, eu era a adulta, e o problema era meu para resolver.


Na manhã seguinte, decidida a fazer uma "operação de guerra", levei #AmyThePoodle para passar alguns dias na casa da minha mãe. Fui na pet shop, comprei ratoeiras de metal, ratoeiras de cola e veneno (dos que têm aroma artificial de queijo). Fiquei super alerta por uns 4 dias, checando cada sombra. Na segunda-feira, já estava "desencanada" de que o rato tinha ido embora pra rua e no dia seguinte iria desarmar as ratoeiras e buscar a Amy.


Acordei na terça cedo para ir ao trabalho, despreocupada. Fui para a cozinha. Ia preparar meu sanduíche para comer no intervalo das aulas. Abri o armário.


Na parte de baixo, vi um pequeno ser cinza pular, furtivamente, tentando se esconder entre meus pacotes de miojo e batata palha. Era um rato. Berrei e imediatamente tranquei de novo o armário. Com ele e todas as minha comidas dentro.


Para minha sorte, já tinha marcado hora na dentista na quarta seguinte e avisado que daria falta médica no trabalho. Pedi ajuda à minha mãe, pois tenho pânico de ratos, e não conseguiria lidar com isso sozinha.


Não é propriamente uma "fobia". Não tenho medo de ratos albinos de laboratório, do Mickey Mouse, de hamster limpinhos, criados em gaiola. Mas de ratos de rua, tenho absoluta aversão e ojeriza. Penso em leptospirose e febre tifóide como atributos indissociáveis de todo rato de rua, daí meu pânico total.


Minha mãe veio me ajudar. Abrimos juntas o armário. Começamos a tirar as coisas e de repente, no meio delas, ele pulou. Gritamos. Pegamos cada uma uma lata enorme de inseticida (ainda que ele seja um mamífero) e despejamos no armário. Já nós mesmas intoxicadas, trancamos tudo de novo e esperamos mais uma bela meia hora, na esperança de que o rato fosse alérgico, ou asmático, e morresse.


Reabrimos o armário. Tiramos o resto das coisas. Nada do rato. O esquadrinhamos, tombamos, e nada do rato. Teria fugido? Onde estaria? Armário esvaziado, comprei mais veneno e ratoeiras, colocados em locais estratégicos. Com tristeza, deixei a Amy mais alguns dias na casa da minha mãe. Senti muita falta de sua companhia nestes dias.


Quase não entrei na cozinha até o sábado, quando trouxe de novo minha mãe para verificar o rato e o armário. Abrimos. Nada. Tombamos. Eu segurando, ela olhou. Nada. Disse "peraí", cutucou com a vassoura:


- O rato!


Senti terror completo e gritei, segurando o armário pesado, com os olhos fechados:


- Vivo ou morto?!... VIVO OU MORTO?!


Os 2 segundos que ela levou pra responder estão entre os "top ten" momentos mais terríficos de minha existência (até agora). Depois do lapso temporal que me pareceu levar várias horas de completo terror, ela disse:


- Morto. Tá estufado, comeu o veneno, olha!


- Não quero ver, tira ele de casa!!!


Ela tirou, colocou num saco e jogou no lixo externo. Ufa! Aí sim fui inundada por uma sensação maravilhosa de alívio. Não só tinha de fato um rato mesmo e não era loucura da minha cabeça, como eu tinha conseguido prendê-lo, o veneno tinha funcionado, seu cadáver fôra localizado e devidamente descartado. Eu voltava a ser a dona de minha cozinha e área de serviço.


Muito prestativa, minha mãe se prontificou a me ajudar na limpeza completa desses ambientes que se seguiu. Faxinamos tudo com muito desinfetante. Passamos álcool em todas as frestinhas do armário de cozinha. Por termos despejado inseticida sobre as comidas guardadas nele, joguei fora tudo o que estava aberto, e lavei com água e sabão, esfregando bem, todo o resto. 


Pensando em tornar meu armário "à prova de ratos", comprei potes de vidro e plástico bem grosso, onde guardo agora todos os meus gêneros alimentícios. Meu pensamento: "se acontecer de outro rato entrar aqui, não vai conseguir comer nada e vai embora!" Também comprei daquelas "cobras de areia" que se coloca embaixo das portas, para impedir que outro rato entrasse. Desarmei as ratoeiras de metal e pude então ir buscar minha Amy, de quem já estava a morrer de saudades.


Era só um ratinho. Mas para mim foi uma marca, uma conquista. Dei conta. Resolvi o problema. Venci. Aprendi. Escolada, agora estou muito mais atenta. As ratoeiras de cola continuam escondidas em locais estratégicos, onde a Amy não alcança. Deixei veneno embaixo de alguns móveis e no vão das janelas. 


Continuo alerta, prestando atenção a ruídos, verificando o armário e se há "alguma  novidade" nas ratoeiras de cola. Essa é mais uma etapa superada na minha vida. Não que ratos de rua tenham cessado de me aterrorizar. Mas agora, depois de dar cabo do meu primeiro, me sinto mais pronta, segura, senhora de mim, para enfrentar outro, se aparecer.


Sinceramente espero nunca mais ter que passar por isso na minha vida, e essa experiência me fez repensar que quando eu for adquirir um imóvel, é bem provável que isso me faça optar por um novo, e não usado. Mas apesar de não desejar, jamais, ter que passar por isso de novo, por pior que tenha sido, foi uma experiência que me fez sentir poderosa, no controle, capaz. 


#girlpower #singlelady





sábado, 6 de abril de 2013

De Guedes

Spoil alert: não leia caso não queira se decepcionar com minhas pequenezes adolescentes.

Era 1998. Eu tinha 15 anos e acabara de entrar no Ensino Médio. Estudava na EE Prof. José Marques da Cruz, na Vila Formosa, zona Leste de São Paulo, capital.

Na oitava série, eu completara o Ensino Fundamental ao lado de meus até hoje muito amigos Maristela, Romeu, Gisele e Thaís. Na passagem para o Colegial, Thaís e Gisele se matricularam em outras escolas, mas Romeu e Maristela se matricularam no "Jomacruz" junto comigo, e caímos na mesma sala. Rapidamente nosso "trio parada dura" virou um "quarteto fantástico" com a adição de Francisco Eduardo, o "Chico" ou, para mim, "Chicote".

Em nossa sala de aula havia pelo menos outros 30 alunos, e um deles demonstrava profundo interesse em se tornar o "quinto elemento" do nosso quarteto: TGO, adiante denominado "Guedes", seu apelido, pelo qual já o chamávamos à época.

Os 2 membros masculinos de nosso grupitcho são homossexuais, e embora à época fossem um tanto "jovens demais" para fazer uma corajosa "saída do armário", já era perceptível, e nenhum dos dois disfarçava, que "aquela Coca era Fanta". Também o Guedes era homossexual, mas bem mais afetado que os dois: era, desculpem-me a expressão, uma "bichona", bem efeminada.

Mas, surpreendentemente, seu alvo de interesse em nosso grupo não era nem Chico nem Romeu, mas eu. Não fosse o Guedes gay, eu pensaria que ele estaria com alguma paixonite por mim. E até me perguntaram isso certa vez, ao que respondi:

- O Guedes não quer namorar comigo, ele quer SER EU.

Ele me imitava, adulava, babava meu ovo, ria de tudo o que eu falava, e também o levava tudo muito a sério, puxava meu saco, até um ponto que chegava a ser irritante. Essa sua subserviência me incomodava. Era chato falar as coisas sabendo que ele não as analisaria, simplesmente as aplaudiria, nunca discordaria de mim, nem me enfrentaria, em nada. Não era isso, definitivamente, o que eu procurava em um amigo. Eu procurava pessoas "firmeza", interessantes, com personalidade. E Guedes era um "Maria vai com a Fernanda", que nada me acrescentava.

Eu tinha 15 anos e a maturidade psicológica de uma ervilha, e não me orgulho hoje do que relatarei a seguir.

Percebi que eu poderia "me aproveitar" do "rabinho sempre abanando" deste candidato a amigo. Então lhe disse: "tá bom, se vc quer ser meu amigo, então de hoje em diante vc vai carregar minha mochila e meu material." E ele aquiesceu com um sorriso, como se tivesse sido promovido a minha "dama de companhia". E por várias semanas eu tive um courier, sempre a postos para carregar minhas coisas.

Até que o Guedes fez ou falou alguma coisa que eu não gostei, não lembro exatamente qual foi o motivo, e eu decidi que não queria mais amizade com ele. Mas ele continuou a insistir que queria ser "readmitido" no grupo. Conforme ele não cansava de apelar a Maty, Romeu e Chico, resolvi fazer o seguinte: estipular condições que ele não aceitaria pro prosseguimento de nossa amizade. À época já fumávamos, todos, e eu impus como condição: para falar comigo, ele teria que me entregar toda segunda feira um maço de cigarros, o que garantiria que eu falasse com ele durante a semana.

Eu achava que ele ia rir e falar "de jeito nenhum", finalizando a questão. Mas para minha grande surpresa ele topou, e por algumas semanas eu não precisei mais me preocupar em comprar cigarros, pois o Guedes mos dava, em troca do simples prazer de poder falar comigo.

Eu o destratava, era irascível com ele, na esperança que ele se posicionasse: "estou farto, chega!" Mas não, ele alegremente me entregava um maço de cigarros toda semana e ainda solicitamente se oferecia para carregar meu material, o que só aumentava minha exasperação.

Então resolvi endurecer ainda mais "as condições" para eu "me dignar a dirigir-lhe a palavra": um maço de cigarro não bastava, daquele dia em diante, eu queria semanalmente um maço de cigarro mais 10 reais. E em 1998 R$10,00 era muito mais do que "déis real" hoje...

Eu esperava que ele dissesse "No Way", mas mais uma vez, para meu assombro, ele aquiesceu. E eu simplesmente não acreditei quando na segunda feira seguinte, ele me entregou logo ao me ver à 6:55 da matina, o maço de Marlboro Lights mais uma nota novinha de "dez conto". Também disso desacreditaram Chico, Romeu e Maristela.

Nenhum deles comigo, por "minha amizade estar à venda", pois minha amizade nunca esteve à venda, mas com a absoluta falta de dignidade do Guedes em aceitar as condições absurdas que eu estipulava. Pois amizade, por definição, deve ser incondicional.

Provavelmente o Guedes achou que aqueles dez reais lhe garantiriam meus sorrisos e simpatia, o que não ocorreu: prossegui a desdenhá-lo. Ao final da terceira semana ele finalmente disse que estava farto, e não daria prosseguimento ao nosso "escambo" de afinidades. Fiz um "Ufa!" interno, pois se ele jamais tomasse uma posição, eu só prosseguiria em minha escalada de condições cada vez mais absurdas, e talvez na próxima semana eu passasse a lhe cobrar 20 reais mais o sagrado maço de cigarros.

Ele parou de me adular e de insistentemente tentar entrar em nosso grupo, e jamais vi qualquer outro motivo para readmiti-lo. Eu não via nele nenhuma "substância", "desafio", "personalidade" ou "doçura" que me fizesse querer me aproximar. Eu não via nele nada de "interessante", ou diferente. Eu não via nada que ele pudesse "me acrescentar". Eu nunca quis um "puxa-saco" nem um séquito, uma entourage, de aduladores. E era justamente esse papel que Guedes queria ter, o que muito me irritava. Não me importava que ele fosse gay, queria que ele fosse "homem", uma pessoa com dignidade e auto-respeito.

Sempre fui cheia de "marra" e personalidade, e de certa forma eu sentia que o Guedes me vampirizava, imitava meus trejeitos e gírias, elogiava tudo meu, emulava minha postura, como que planejando ser uma "versão drag" de mim... Ele me achava "o máximo" e, para mim, isso era um pecado mortal, pois nisso eu percebia que ele não me elogiava "de verdade", pois não importava o que eu fizesse, para ele era tudo maravilhoso.

Depois de me formar no terceiro colegial, nunca mais vi o Guedes, mas soube por amigos que o encontraram vez ou outra "na noite" e pelos dark rooms da vida, que após eu já estar bem adentrada no curso de História na USP, também o Guedes estava a fazer o curso de História, mas na UNG (Universidade de Guarulhos). Nunca pude tirar a dúvida se era simples coincidência, mas sinceramente creio que não. Acho que ele se matriculou em História apenas depois de saber, e apenas porque soube, que eu estava a fazer esta graduação.

Não sei se ele se formou, nem se hoje é professor como eu. Hoje me sinto um pouco culpada pela forma como o tratei. Vendo de hoje, percebo como foi completamente absurdo estabelecer condições para ser sua amiga. E como foi surreal que ele tenha "topado" isso. Sinto que talvez ele fosse um garoto muito perdido, e visse em nosso grupo o único que o aceitaria sem levar em conta sua sexualidade.

E nunca foi sua condição sexual que me incomodou: mas sim sua subserviência. Provavelmente ela fosse fruto de uma baixa auto-estima, e se eu tivesse naquela época minha cabeça de hoje, teria procedido de forma muito diferente a respeito dele.

Às vezes me pergunto como estará o Guedes hoje, inclusive me questionando se ele está vivo. Quando estávamos no colegial, ele era obeso. E depois, quando já ambos na graduação, soube pelos que o encontraram na "cena gay" que ele estava assustadoramente anoréxico, e provavelmente envolvido com químicos pesados.

Gostaria de saber que rumo ele levou, se se tornou uma pessoa mais confiante e assertiva, qualidades minhas que eu creio que ele ambicionasse. Se concluiu a faculdade, no que ele trabalha, se continua a frequentar os "inferninhos", ou se transformou-se radicalmente, para um rumo inimaginado. Se ele encontrou pelas veredas da vida "outra Fernanda" na qual se espelhar, e se outras vezes se submeteu às coisas que o fiz passar, se de outras pessoas ouviu calado as "desancadas" que com tanto venenoso prazer eu lhe dispensava.

E qual tipo de desdobramento esses fatos tiveram em sua vida, no que tudo isso resultou, para o bem ou para o mal.

Chico Buarque - Sinal Fechado https://www.youtube.com/watch?v=949SuBskT2U

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quarta-feira, 27 de março de 2013

O Getsêmani, o cálice e o pêndulo

Era dezembro de 2005. Eu estava prestes a completar 23 anos, em meu penúltimo ano de faculdade. Recentemente eu descobrira um novo prazer intelectual: debater Teologia em comunidades virtuais. A mais agitada no Brasil à época era o Orkut. E eu era uma orkuteira de primeira!

Eu já lera boa parte da Bíblia, já concluíra diversas disciplinas de cultura e história judaicas na Letras da USP. Queria interagir com outras pessoas interessadas nestes mesmos assuntos. Queria "testar hipóteses", debater, tentar levar a exegese aos seus limites. Pesquisei por "perguntas cristãs" (à época eu me considerava cristã, hj sei que nunca fui) e o primeiro resultado, de uma comunidade à época com 30 mil membros, foi a "Perguntas Cristãs Complicadas".

Interessante. Entrei. Logo percebi que aquela era uma comunidade confessional direcionada a cristãos evangélicos. E que eles passavam boa parte do tempo tentando debater com diversos malabarismos de copiar e colar, enxertando Cântico dos Cânticos no meio da Torah, com umas pitadas de profetas, tudo temperado pelo Apocalipse. Uma salada mista, pra quem vinha da Academia e procurava debates refinados. E grande parte destes malabarismos era para tentar decidir qual dentre as milhares de vertentes evangélicas é a "única e verdadeira". Também apreciavam bastante menosprezar a Igreja Católica, como se o Papa fosse o anti-Cristo, e desrespeitar a Maria de Nazaré de todas as formas possíveis.

Logo ao começar a apresentar perguntas e oferecer respostas, percebi que minhas posições afrontavam diretamente as interpretações religiosas deles. E não apenas eu percebia esse mal-estar. Diversos outros membros "se estranhavam" com o moderador Shaylon, que sumariamente expulsava as pessoas que ele achava que não estavam lá para "edificar a fé". Devido às suas ações intransigentes, outros membros que estavam lá há mais tempo resolveram debandar e criar sua própria comunidade dissidente: a Perguntas Cristãs Complexas.

Recebi um scrap de Leandro Moreira com um convite, e migrei. Na PCComplexas a proposta era de um ambiente democrático, com moderadores eleitos pela comunidade, e com plena liberdade de expressão. Era uma comunidade muito ativa e diversa: com ateus, budistas, espíritas, evangélicos de todas as vertentes imagináveis, católicos e outros tipos de protestantes, inclusive os tais dos "judeus messiânicos". Tínhamos até um seguidor de Inri Cristo. Não era piada, o Unamundo era uma pessoa racional e esclarecida, que defendia que Inri Cristo de fato era uma reencarnação de Jesus.

Logo os tópicos pegaram fogo. A participação era tanta, que eu chegava a meio que "dar plantão" nos finais de semana, finalmente debatendo cada pequeno meandro do texto bíblico, com pessoas das mais diferentes formações, para meu grande deleite intelectual. Um tópico em especial foi um hit instantâneo, com o tema: "sexo antes do casamento é pecado mesmo? Onde isso está escrito?"

Um prato cheio pra mim, que sempre gostei de "esgarçar" as interpretações da Torah até o limite máximo de sua liberalidade. Construi uma argumentação amparada em diversas passagens, mas sobretudo nesta:

Ex:22
15 Se alguém seduzir uma virgem solteira e se deitar com ela, pagará o dote e se casará com ela. 16 Se o pai dela não quiser dá-la, o sedutor pagará em dinheiro, conforme o dote das virgens.

Essa passagem diz: se uma moça se entregar de boa vontade "seduzida" por seu namorado, não há obrigatoriedade de casamento, apenas uma indicação. Se o pai não concordar com o casamento, ele não se realizará. O pai deve ser indenizado por ter "sua propriedade avariada". Fora a "multa", NENHUMA punição é prescrita a nenhum dos enamorados, e não é dito que eles estejam a partir daí proibidos de contrair matrimônio com terceiros.

Há mais uma dezena de outras passagens bíblicas que me autorizam a defender que, pela Torah, essa "neurose" cristã com a virgindade não tem respaldo legal. Debate vai, debate vem, um membro em especial, Sílvio, que era mórmon, se demonstrava revoltado com, na sua forma de pensar, eu estar a "estimular a promiscuidade" e de eu estar usando a própria Bíblia para isso.

Ao longo de uns 400 comentários o debate foi cada vez pegando mais fogo até que... Até que certo dia o tal Sílvio foi ao perfil moderacional e deixou 2 ou 3 scraps lá reclamando de a comunidade dar espaço para, nas suas palavras textuais, "uma garota de programa enrustida".

Imediatamente o moderador Marcel Vasconcelos excluiu o membro, fez um screenshot e deletou os scraps. No dia seguinte a comunidade estava em polvorosa, sem que os membros soubessem exatamente o que tinha acontecido, e os amigos do Sílvio questionando sua retirada. A moderação da PCCplex explicou a todos que o conteúdo da postagem que resultara na expulsão do Sílvio era altamente ofensivo, e portanto não seria posto à vista de todos.

Me mandaram uma cópia do screenshot e ao ler que eu havia sido chamada de "garota de programa" (pra quem não sabe, isso se refere às prostitutas) meu sangue imediatamente gelou nas veias, e me senti profundamente ultrajada. Eu jamais tinha imaginado que por passar minhas noites e finais de semana pendurada na internet debatendo Teologia eu poderia ser acusada de fazer sexo a dinheiro.

Pois, obviamente, se eu fizesse sexo a dinheiro, primeiro que não debateria Teologia, segundo que se eu fosse deste métier, nas noites e feriados eu estaria ocupada demais para ficar em casa madrugadas a fio debatendo pequenos detalhes da Lei de Moisés. Então a pessoa que me ofendeu, e se dizia um mórmon muito dedicado à sua religião, sabia a princípio que estava levantando falso testemunho contra mim, o que sim é pecado claramente expresso no Decálogo (Cf. Ex 20:16).

Mas o Sílvio prosseguiu a reclamar, e a incitar os membros que lhe eram próximos contra a moderação da PCX. A Moderação então franqueou que ele nomeasse um "advogado", um membro da comunidade no qual ele confiasse para o representar. Ele escolheu Orlando Nunes José, que à época era amplamente respeitado por todos, até por mim (posteriormente ele se revelou uma das maiores decepções que eu já tive na Internet, mas isso fica para outro texto).

Mandaram a Orlando Nunes o screenshot. E, sabiamente, ele deu razão à Moderação. Concordou que a expulsão do Sílvio era sim justa. Mesmo tendo sido nomeado por Sílvio como defensor, não havia como ele defender seu amigo diante da forma como este me ofendera. Sílvio engoliu o sapo e não mais nos incomodou por alguns meses.

Tempos depois, ele pediu para voltar, e a Moderação me consultou. Minha posição foi: que ele volte, mas que se desculpe publicamente pelo que fez. Se a ofensa foi pública, igualmente deveria ser a retratação. E ele o fez, criou um tópico chamado "O Getsêmani, o cálice e o pêndulo", no qual se mortificava pelo que havia feito. Li, não me convenci de sua sinceridade, mas me dei por satisfeita. Posteriormente até cheguei a voltar a debater com ele outras questões.

Depois de muito tempo, sanadas todas as feridas, hoje este episódio me traz um certo "orgulho", como o que um soldado sente a respeito de suas cicatrizes de guerra. Foi algo, completamente inesperado, que me marcou muito. Tanto pela ofensa como pela proteção que o grupo de moderadores me deu. Foram rápidos, eficientes, e agiram da melhor forma possível à época. Depois tivemos nossos entreveros sobre a não realização da proposta de "democracia plena", mas isso tb fica para outro texto.

Muitas mulheres são acusadas de ter um comportamento sexual desregrado, ofendidas como "garotas de programas" e tratadas como prostitutas, sem o ser.

Mas poucas podem dizer que passaram por isso porque gastavam todas as suas horas livres, varando madrugadas e finais de semana, a debater Teologia.

Tópico do orkut - http://www.orkut.com/Main#CommMsgs?tid=2442448414765242414&cmm=6452454&hl=pt-BR

http://pccomplexas6452454.blogspot.com.br/2006/03/o-getsemani-o-clice-e-o-pendulo-annimo.html

Depeche Mode - Personal Jesus http://youtu.be/cNd4eocq2K0
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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

De Milena


Antes da era das redes sociais, era comum perdermos contato, mesmo com nossos amigos mais queridos. Este texto se refere a uma grande amiga-irmã q tive nos tempos de adolescente, com quem perdi contato por 15 anos, e de como me surpreendi ao reencontrá-la.

Milena morava a menos de 100 metros da minha casa, estudamos juntas por 2 anos, quando tínhamos menos de 15 anos. Éramos muito parecidas, em vários aspectos. Na aparência externa, na personalidade, no gosto musical, nas atitudes. Sempre andávamos juntas. Ambas tínhamos irmãs e famílias problemáticas, e passávamos horas comparando nossos problemas.

Muitas lembranças desta época tenho ao lado de Milena. No Ensino Médio, nos matriculamos em escolas diferentes, e eu mudei de casa, para outro bairro. Nesta época, antes do celular e das redes sociais, nosso afastamento foi natural; até nos ligamos algumas vezes, mas como não convivíamos mais na escola, as coisas deixaram de ser como eram antes, e cada uma foi seguir seu caminho. Mas eu sempre guardei um lugar especial em meu coração para ela.

Os anos se passaram, eu me mudei mais meia dúzia de vezes de casa, fiz faculdade, comecei a trabalhar. De vez em quando a lembrança de Milena passava pela minha cabeça, e a curiosidade de descobrir que rumo ela tinha dado à própria vida. Me perguntava se continuávamos parecidas, e quais caminhos divergentes o destino teria colocado à nossa frente. De tempos em tempos eu fazia buscas por seu nome, sem q nenhum perfil dela surgisse. Até q, um dia, apareceu.

A adicionei e mandei mensagem no estilo "Oi, velha amiga! Como vc anda? Vamos nos ver na próxima visita q eu fizer a Sampa?" Ela me aceitou e respondeu prontamente q da mesma forma, queria me reencontrar. Marcamos.

Reencontrá-la foi uma das experiências mais esquisitas da minha vida. Bati à porta de sua casa, e quando ela atendeu, não a reconheci, absolutamente. A desconhecida diante de mim abriu um sorriso, disse "Oi, Fê! Vc está igualzinha!" E, apesar de eu não saber com quem estava falando, a saudei e entrei, afinal este era o endereço q Milena me dera.

Me sentei no sofá e começamos a conversar. Aos poucos, analisei o formato do seu nariz, dos olhos, seu furinho no queixo e só então "caiu a ficha" q aquela era Milena mesmo. Eu não a reconhecera pois agora ela estava uns 30 quilos mais gorda, mas não era só isso. Outros amigos haviam engordado até mais. Não eram apenas os quilos a mais q me impediram de reconhecê-la, mas o fato de q, 15 anos depois, não havia absolutamente NADA nela q fosse parecido comigo.

Ela foi me contando sobre sua vida, seus trabalhos de recepcionista, secretária, auxiliar de escritório. Perguntei-lhe se fizera faculdade. Não, nunca tinha tido vontade. Se fizera outros cursos. "De informática". Mais algum? Não. Quantos namorados tivera. Dois. Dois? Sim, 2. E com o último se casara.

Me contou do seu marido, do seu casamento. Que após se casar, como o marido tem bom emprego, pedira demissão na primeira oportunidade, e agora era dona-de-casa. Como ainda não tinha filhos, lhe perguntei se estava tentando engravidar. Não, não pretendia ter filhos tão cedo.

Nada tenho contra a mulher escolher ser dona de casa. Desde q sua casa e família exijam sua dedicação exclusiva. Ao me falar q era uma dona de casa q não tinha nem pretendia ter filhos tão cedo, comecei a sentir uma angústia indescritível. Percebi então que usava roupas com desenhos infantis, falava com a voz infantilizada das pessoas profundamente inseguras, seus cabelos estavam penteados como os de uma criança. Mostrou com orgulho seus bibelôs e itens de decoração, todos em motivos infantis. Sem q houvesse nenhuma criança, ou sequer bicho de estimação, na casa.

Prosseguiu contando dos seus eternos desarranjos familiares, como ainda brigava toda semana com sua mãe e irmãs. Suas brigas com a sogra e cunhados. E minha angústia foi crescendo ao perceber como ela nada tinha "de sua vida" para falar, mas apenas de seus problemas. Não tinha projetos, planos, não estudava nada, nem à distância. Seus únicos assuntos, q ela matraqueva em voz esganiçada denotando certo desespero eram: o marido, as irmãs, os cunhados, sua mãe e sua sogra. E todas as histórias eram de como todos estes, menos o marido, infernizavam sua vida e estavam, sempre, contra ela.

A cada historieta, q eu ouvia apenas balançando a cabeça, minha angústia crescia. Não senti "pena" dela, pois mulher bem casada, com casa própria, não merecia tanto. Mas comecei a me perguntar se a história dela não teria se desenrolado de forma diferente se tivéssemos continuado amigas, e eu a tivesse influenciado mais.

Se, caso eu tivesse insistido mais em manter contato com ela, não poderia tê-la estimulado a fazer faculdade, ou ao menos cursos profissionalizantes. Se a tivesse chamado para sair algumas vezes, ela não teria tido a oportunidade de ter mais namorados, e não teria casado com o segundo rapaz q cruzou seu caminho. Se eu não poderia tê-la ajudado a ter mais empregos, oportunidades, experiências, outros parâmetros para "ampliar seu horizonte" de possibilidades.

Eu havia reservado a tarde inteira pra ficar com ela, na esperança q batêssemos altos papos, tomássemos umas brejas, déssemos várias risadas. Mas conforme ela incessantemente desfiava seus rosários de reclamações e relatava como ela era a "vítima do Universo", percebi q, além de ela não estar interessada em saber de minha vida, mas apenas em falar de sua própria, o cenário no qual a minha vida se desenrolava lhe era completamente estranho. Se eu lhe contasse as histórias q eu ansiava dividir com aquela Milena q era tão eu, a Milena de 15 anos depois ficaria chocada e não compreenderia muitas delas.

Conforme os minutos demoravam a passar, começou a crescer um certo nó no meu pescoço. Me perguntava: "como eu puder permitir q a Milena ficasse assim?" Percebi nitidamente q tê-la "abandonado" fôra péssimo para ela. Éramos então tão idênticas, e hj tão diferentes. Eu construíra uma vida. Fizera curso de operadora de Telemarketing, cursinho, passara em 3 vestibulares, estudara na USP, fizera inúmeros outros cursos, tivera meia dúzia de empregos, muito diferentes, tivera vários namorados, muito diferentes. Eu tivera uma vida plural. Ela não.

Eu enfrentara a vida com certo grau de coragem, saíra de casa, rompera com os maus parentes. Eu havia "aberto meus horizontes", dissera "sim" às oportunidades da vida. Eu escolhera "escolher", arquitetar um "plano" para meu futuro. Milena fizera todo o oposto. Escolhera a segurança de "deixar a vida" escolher os caminhos, ou não-caminhos, q ela trilharia. Escolhera não ter planos. Como as mulheres de antes da Revolução Sexual, via o "casamento" como seu único projeto e tábua de salvação. E, agora q estava casada, dizia sentir q sua vida estava completa, e q era muito feliz sendo apenas dona de casa.

Para mim, q escolhi construir meu próprio caminho, e ter "vida própria", ver minha amiga outrora tão íntima se dizendo realizada com uma vida q ao meu ver era tão vazia, me trouxe uma enorme dor no peito, um sentimento de culpa, de falha, tão gigantesco q na primeira oportunidade em q ela fez uma breve pausa no relato de seus muitos problemas familiares, lhe disse q tinha outro compromisso e q precisava ir embora.

Neste dia eu não reencontrei Milena. Mas visitei o pouco q restou dela. Ao chegar no meu carro, demorei longos minutos congelada, sem reação, antes de dar a partida. Sentia uma adaga rasgando o sentimento q eu tivera nesses anos de q, assim como eu seguira meu caminho, Milena teria seguido o dela. Durante esses anos eu imaginara q ela teria estudado, trabalhado, crescido, vivido. Mas percebi q ela permanecera parada. Sua maturidade psicológica, opiniões e assuntos continuavam "na altura" de uma pessoa de 15 anos, enquanto eu havia evoluído, me instruído, aberto minha mente, mudado minhas formas de pensar.

Antes de dar a partida, num lance de frustração, estapeei meu volante e gritei em voz alta: "Como eu pude permitir q a Milena ficasse assim?!"

Vi nitidamente q tê-la "abandonado", negligenciado nossa amizade, ter permitido q as circunstâncias da vida nos afastassem, tinha-lhe feito muita falta. Eu a teria "puxado para a vida", a teria instigado a abrir seus horizontes, teria lhe proporcionado outras experiências, q talvez a encaminhassem a "construir sua própria vida" e não a se "abancar" assim q conseguisse realizar seu único projeto: se casar. E o pensamento "e no dia q o marido dela se cansar de todas as suas neuroses e as brigas q ela arranja com a família dele? Q 'vida' restará a Milena, sem filhos, sem marido, sem profissão?"

Me senti culpada, angustiada, frustrada, derrotada, em dívida com ela, em certo ponto "revoltada" com os descaminhos da vida. E, sobretudo, arrependida por tudo q poderia, e deveria, ter feito por ela, mas não fiz, por negligência. O carinho q por ela acalentara à distância era uma ilusão, a de q ela estaria bem, enquanto não estava, e precisava de minha ajuda, minha presença, q lhe fizeram muita falta. Percebi o grande erro q cometera, e como agora isso era completamente irremediável. A antiga Milena não mais existia, e a nova Milena não era em nenhum aspecto parecida comigo. As coisas q ela falava me desconcertavam. E as coisas q eu falaria se ela tivesse me dado oportunidade, a teriam desconcertado, por serem completamente alheias ao seu Universo.

Reencontrar Milena foi uma frustração profunda. Provavelmente em nenhum momento ela se deu conta de minha angústia, o q só fez aumentar o meu pesar: q ela não perceba como sua vida é vazia, sem planos, sem projetos, como sua vida não tem vida.

Foi deveras melancólico perceber tudo isso. E o sentimento de culpa por minha pequena parcela de responsabilidade na não-vida de Milena prossegue a me incomodar, profundamente.

A vida é cigana. http://www.youtube.com/watch?v=h-vD3uf7aLQ

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sábado, 12 de janeiro de 2013

De como comecei a fumar



O tabagismo futuramente será considerado uma das mais sui generis excentricidades da espécie humana. Me aventurando na insidiosa senda da futurologia, creio q o futuro será dominado pela ditadura de tudo q é saudável e politicamente correto, e não haverá mais fumantes.

Fumar era um vício meso-americano, rapidamente trasladado ao Velho Mundo, como coisa "sofisticada", de gentis-homens. Já no século XIX, tb as mulheres "da alta sociedade" começaram a fumar, munidas de longas piteiras cheias de charme. Ao fumar publicamente, uma mulher apresentava uma declaração de liberdade, auto-determinação, expunha sua verve avant-garde.

Já no século XX, aparentemente "todos" os homens eram fumantes. Poetas, escritores, nobres, jornalistas, artistas, políticos. Fumar era "chic", marca dos boêmios e bon-vivants. Não havia "área de fumantes" pois podia-se fumar em todos os lugares: corredores, elevadores, salas de reunião, aviões, restaurantes, hospitais (célebre é a imagem do pai, ao nascimento do filho, distribuir charutos a todos os amigos; e da mesma forma q é "falta de educação" ser servido numa taça e não beber, era receber um charuto e não fumá-lo).

Nas fotos de grandes eventos históricos, era freqüente vermos todos os "figurões" da política munidos de seus cigarros e charutos, posando alegremente. Àquela época, ostentar um charuto era símbolo de status e elegância, como tb eram a bengala, o monóculo e a cartola.

Foi no ocaso deste cenário histórico, ao fim da Guerra Fria, q principiei a fumar. O ano era 1997. Eu tinha 14 anos e começava a "sair de balada" com minhas amigas de escola. Queríamos ser "prafrentex", modernas, antenadas, transgressoras, rebeldes. E era necessário demonstrar isso exteriormente, através de nossas roupas, atitude, linguajar, penteado, postura.

Éramos adolescentes, e para provar a nós mesmas q não mais éramos crianças, queríamos degustar pequenos aperitivos da "vida adulta": salto alto, saia curta, decote, bebida alcoólica, beijar os rapazes, sair à noite e fumar. Queríamos deixar bem vincada a linha q nos separava de nossos pais "chatos e antiquados". E ter pequenos segredos entre nós era parte importante disso.

Diz-se q os adolescentes são altamente influenciáveis pelos "amigos", e é verdade. Quando a primeira de nós começou a fumar, o hábito se disseminou rapidamente em todo o grupo, como um vírus. Entramos "na onda" da galera. Do grupo de 5, 3 tornaram-se fumantes convictas, uma fuma bem de vez em quando, e a outra jamais pegou gosto pelo cigarro.

Dei meu primeiro trago num cigarro na boate Stravaganza, situada à rua Henrique Schaumann, em Pinheiros. Fui lá algumas vezes, na companhia de Thaís, Maristela, Gisele e Aline. Tínhamos todas a mesma idade, na plena efervescência hormonal de nossos 14 anos. Queríamos "pagar de gatinhas descoladas" e, como todos os "transgressores e rebeldes" fumavam, nós tb queríamos.

Naquela época fumávamos Gudang Garang, cigarro de cravo interminável com filtro adocicado. O maço era caro e o comprávamos coletivamente, fumando só para "fazer charme" para os garotos. Logo a diversão ocasional transformou-se em hábito quando entramos no Ensino Médio.

Àquela época só havia 2 tipos de Marlboro: o vermelho "estoura peito" e o "light", dourado. O maço custava algo como 1 real e sessenta centavos, o q naquela época era dinheiro, com o Real valorizado. E assim já aos 15 anos comecei a comprar meus próprios maços de cigarro.

Todo o meu quarteto do colegial, completado por Chico, Romeu e Maristela, era fumante. Apenas eu tinha dinheiro, ou coragem, pra comprar maços de cigarro. Em nossas muitas aulas vagas, ficávamos sentados num canto do pátio fumando, e eu vendia-lhes cada cigarro a dez centavos. Sob protestos de q eu seria algum tipo de mercenária por lucrar 2 ou 3 centavos em cada um, me repassavam a moedinha, e ríamos, fumando despreocupadamente, sem sermos incomodados pelos inspetores de alunos. Curioso perceber q no dia de hj, no mesmo "José Marques da Cruz", se um aluno acender um cigarro leva uma suspensão, e nós há 13 anos podíamos fumar livremente no mesmo ambiente... Outros tempos, nem tão longínqüos...

Ao entrar na faculdade de História na USP, foi reconfortante sentir-me acolhida numa sociedade de fumantes; na qual tal hábito, além de sinal de boemia e vanguardismo, era a marca da intelectualidade. Não só a maior parte de meus colegas eram fumantes, como até os professores fumavam, sem reservas, enquanto davam suas aulas. A certa altura do curso, afixaram nas salas de aula avisos de "por favor, não fume". Na primeira aula posterior à adição do aviso, o professor entrou, sentou, aproximou o lixo no qual costumava jogar as cinzas, mirou a placa, deu de ombros, nos fitou e falou em voz alta:

- Que me multem!

Outro professor, mais sensível, na mesma situação, começou a aula da seguinte forma:

- Há entre vcs pessoas q se incomodam com a fumaça do cigarro?

Uma meia dúzia levantou a mão, e ele concluiu:

- Então, por favor, sentem no fundo da sala, pois eu vou fumar.

Simples assim. Até 2005, 2006, "chato" era o não-fumante q reclamava do fumacê alheio. Todos fumavam em ambientes fechados, restaurantes, aviões, e até então todos encaravam a fumaça com naturalidade, como uma das "coisas da vida", q podemos não gostar, mas toleramos, como hj se faz com pessoas q falam em voz alta no celular, ouvem funk sem fone de ouvido e comentam sobre a tabela do campeonato brasileiro.

Hj, poucos anos depois, é um absurdo, e completo anátema, algum fumante exercer seu hábito em qualquer "ambiente público fechado" ou mesmo aberto. Não se fuma mais nos escritórios, boates, restaurantes, barzinhos. Se antes fumar era "chique" hoje virou algo q nos aliena, afasta, "quebra o clima", segrega.

Fumar antes era fator de integração social. Hj, os fumantes precisam se retirar da baladinha, ir pra fora, fumar na calçada, no frio e na chuva, enquanto o "agito rola solto" lá dentro. Se antes fumar era coisa de gente moderna, transgressora, sofisticada, hoje fumar virou coisa de gente antiquada, excêntrica, antissocial, segregada.

Hj em dia, em quase nenhum lugar mais se pode fumar, e nos q se pode, é comum q quando acendemos um cigarro os estranhos ao lado nos fulminem com um olhar de reprovação, torçam o nariz e se afastem como se fôssemos leprosos, deixando subjacente a frase: "vc é muito folgado e está contaminando o meu ar!"

A ditadura do politicamente correto está fazendo um ótimo trabalho em transformar todos nós em mauricinhos e patricinhas bunda-mole, garotos-propaganda da "geração saúde". Se hoje, quando assisto a filmes e seriados dos anos 1990 nos quais todo mundo fuma em todos os lugares, até eu estranho e acho graça, apenas posso imaginar a surpresa dos q viverem daqui a 50 anos diante da mesma situação. E a hilaridade q será no futuro assistir a "The X-Files" (Arquivo X, série protagonizada pelos agentes do FBI Fox Mulder e Dana Scully) com meus netos e responder à cândida dúvida:

- O q é esse bastão q solta fumaça q o Canceroso segura em todo lugar?

Estou certa q o tabagismo entrará para a História como uma "excentricidade" prescrita, e no futuro ninguém mais poderá fumar, em nenhum lugar... Este é o chato mundo q estamos a construir...

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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

A mais louca festa de 15 anos




Antigamente, era costume resguardar as filhas na privacidade do lar, preservando-as e à sua honra até o momento de elas finalmente serem apresentadas à sociedade, quando já fossem "moças na idade de casar". Na tradição hispano-americana essa apresentação se dava na "Festa de Debutante", ou "Quinceañera", quando a moça completava 15 anos e ganhava uma grande festa de gala, q marcava sua entrada na sociedade e de certa forma no "mercado do casamento".

Eu mesma não cheguei a ter uma festa de Debutante pois preferi substituí-la por uma viagem. Mas tive oportunidade de comparecer a alguns desses bailes de amigas. Mas a mais marcante comemoração de 15 anos a q compareci não foi um baile de Gala.

No primeiro colegial estudei com uma semi-xará, MFC. Tínhamos a mesma idade. Ela era uma moça magrinha, mignon, bonita, cheia de vida, alegre. Grande foi a surpresa minha e de meus colegas quando ela nos disse q já era mãe, de um bebê recém-nascido. Nada em seu jeito ou compleição denunciava q ela já tinha um filho.

Muito animada, eu diria baladeira, em pouco tempo me chamou pra comemorar seus 15 anos. Como seus pais estavam a gastar muito dinheiro com a neném q tivera aos 14 anos, e tb não fazia muito sentido promover um "baile de apresentação social" para uma moça q já era mãe, tinham lhe avisado q não lhe fariam um baile de Debutantes. Ela não se fez de rogada e resolveu comemorar numa danceteria, apenas com amigos.

Não me lembro pq Chico, Romeu e Maristela, q estudavam conosco, não foram. No dia da festa peguei minhas roupas de clubber, meti na mochila e fui de ônibus pra casa de MF. Lá conheci, enternecida, sua linda neném, P., com uns 3 meses, ainda em amamentação. Nos vestimos, maquiamos, perfumamos, ela deu um beijinho de despedida na filha e disse:

- Tchau, meu amor, mamãe vai pra balada!

De lá fomos a pé à casa de outras 2 amigas, A. e D., de cabelos coloridos e meio cybers. Pegamos o ônibus para a Moóca, já em clima de festa. Descemos na porta da Over Night, casa noturna célebre na época, cada uma em posse dos seus documentos "de maior" ;)

Como dentro da balada a bebida sempre é mais cara, começamos a fazer nosso "esquenta" num boteco lá perto, bebendo batidas de vodka e pinga com mel. Ao ver MF beber tive a preocupação de perguntar-lhe se ela ainda não estava "de resguardo", parida, pois seu bebê ainda era muito pequeno, ao q ela simplesmente respondeu: "Não! Relaxa, Fê!"

Ok. Entramos na Over Night. Dançamos na techneira ensurdecedora, mesmerizadas pelo jogo de luzes. A certa altura, MF chegou até mim bastante pálida, suada e desgrenhada, dizendo q estava passando mal. A. e D., entretidas com a música e os rapazes, meio q deram de ombros e falaram para eu levá-la ao banheiro. Escorei MF o melhor q pude e a carreguei até lá.

Abafado, sujo e lotado, ficamos uns 5 minutos na fila até q ela sussurrou q não aguentava mais tanto calor e me pediu para tirá-la de lá. Com muita dificuldade devido à lotação da casa noturna, meio q escoltei, meio q arrastei MF pra fora, já sabendo q não poderíamos retornar e q nossa balada acabaria por aí.

Sentamos na calçada, na frente dum bar. Ela meio q mais pra lá do q pra cá enquanto eu, ansiosa e preocupada, perguntava a cada minuto se ela estava melhor, sem q ela respondesse nada. Naquele momento, vendo uma adolescente magrinha recém-parida passando mal sob minha responsabilidade, o sangue gelou nas minhas veias no pensamento: "Putz, e se ela morrer agora? Com q cara vou falar pros pais dela como isso aconteceu? E a bebezinha dela, vai crescer sem mãe? Meu Deus, q q eu faço?!"

Vomitou a cântaros. Percebi q ela estava a um passo de desmaiar. Sem dinheiro para pegar um taxi, entrei no bar e perguntei se podiam nos ajudar, se alguém nos levaria ao hospital. A resposta veio na displicente frase: "O q não falta aqui é bêbado passando mal todo dia." Deixando claro q ninguém ali faria nada por nós.

Já desesperada, vi uma viatura da Polícia Militar passando em nossa frente, pois nessas baladas, além de bêbados passando mal, eram comuns as brigas. Não tive dúvidas. Me pus na rua e sinalizei pra viatura parar. Pensei q talvez não socorreriam minha amiga por estar simplesmente bêbada, então lhes disse:

- Por favor, me ajudem! Minha amiga teve um neném há 3 meses. Ela tomou só um copo de batida e está passando muito mal. Ela precisa ir pro hospital! Por favor, nos ajudem!

Os 2 policiais desceram, deram uma conferida em MF desfalecida na calçada, toda suja de vômito, e falaram q tudo bem, iam nos ajudar. Pegaram cada um num ombro de MF e a colocaram no banco de trás. Sentei ao seu lado, e esta foi a primeira vez em q entrei numa viatura da Polícia.

Não lembro a qual hospital nos levaram. Chegando, enquanto colocavam MF na maca, ela só teve forças para dizer:

- Não fala nada pros meus pais...

A puseram na enfermaria. Apesar de ser um hospital público, fomos atendidas rapidamente. Enquanto a examinavam me disseram para ir fazer a ficha dela. Pedi q ela me desse sua carteira, e ela não reagiu. Retirei a carteira do bolso de sua calça e fui à recepção. Encontrei seu RG falso "de maior" e o verdadeiro, "de menor". Com medo de q descobrissem a falsificação e isso trouxesse ainda maiores transtornos, entreguei o verdadeiro e quando a atendente pediu o telefone de seus responsáveis, pois ela era menor de idade, apesar de ter o número, disse q não o sabia, pois se o informasse talvez ligassem imediatamente.

Ficha preenchida, retornei à enfermaria e sentei-me no cantinho da maca de MF, pois não havia cadeira. Deitada de lado com o soro na veia, o q saía de sua boca não era mais vômito, mas um líquido viscoso esverdeado. Eu jamais vira alguém vomitar algo verde e fiquei muito alarmada, achando q ela estava à beira da morte. E se ela morresse ali, como eu explicaria aos seus pais, q eu cumprimentara algumas horas antes, pq não dera seu telefone na recepção? Se ela morresse, com q cara no futuro eu explicaria a P, q eu acalentara algumas horas antes, em q circunstâncias ficara órfã?

Chamei a enfermeira:

- Acuda! Minha amiga tá vomitando verde!

Calmamente, a enfermeira veio, verificou o soro e o vômito esverdeado. Meio em tom jocoso me disse:

- Não precisa se preocupar, já administramos glicose pra sua amiga. Isso q ela está vomitando é bile. Não precisa se preocupar. Em algumas horas ela estará pronta pra outra! Só fica de olho pra ela ficar deitada de lado. Se ela virar de barriga pra cima pode se sufocar no próprio vômito...

Eu sabia da existência da bile, mas achava q ela apenas "descia" da vesícula biliar e do duodeno para os intestinos. Não tinha a menor idéia q o fluxo do trato intestinal poderia ser revertido e a bile "sair por cima". Eu mesma nunca bebi de passar mal ao ponto de ser hospitalizada e precisar tomar glicose na veia, e nunca cheguei ao ponto de vomitar bile. Aquela foi uma experiência inédita e, até hj, única.

As horas da madrugada passaram sem q nenhuma sombra de sono me acometesse. Como eu poderia dormir me vendo responsável por uma querida amiga, mãe recente, desmaiada num ambulatório de hospital público, tendo q me certificar q ela não morreria sufocada no vômito quase fluorescente q expelia?

Creio q já eram umas 10 da manhã quando ela acordou e ainda zonza me perguntou como tínhamos chegado ali. Lhe relatei o q ocorrera durante seu desmaio. Ao ir recobrando lentamente os sentidos, me agradeceu por não ter avisado seus pais pois eles "a matariam se soubessem".

Já era mais de meio dia quando ela se viu em condições de ficar em pé. Minha casa não era perto da dela, mas lhe perguntei se ela queria q eu fosse com ela de volta. Já quase "pronta pra outra" disse q era melhor não, pois isso só faria seus pais acharem q algo tinha dado errado. Combinamos q ela diria aos pais q depois da balada ela tinha ido dormir na minha casa, por isso estava voltando tão tarde. E q eu deveria dizer o mesmo na minha casa: q depois da balada eu teria dormido na casa de MF.

No fim das contas, deu tudo certo, ninguém desconfiou de nada, pois mesmo quando ainda tínhamos 15 anos, já era comum q voltássemos pra casa só na tarde do dia seguinte. MF hj é muito bem casada, com 4 filhos. P hj já é uma moça, linda e muito bem criada.

Infelizmente, devido à formação de turmas em nossa escola, em anos posteriores não estudei mais com MF e acabamos por nos afastar. Uma pena, pois teria sido muito legal ter ido a mais baladas com essa minha amiga "louquinha" e cheia de energia. Mas ficou essa lembrança, da mais curta e tresloucada festa de 15 anos a q já fui. Do medo e da surpresa. Da primeira vez q "peguei carona" numa "veraneio vascaína". Da primeira vez em q fui responsável por outra pessoa além de mim. Do alívio de ter conseguido socorrer minha amiga, levá-la ao hospital, ser "firmeza" com ela, e ter conseguido devolvê-la inteira à longa vida q a espera.

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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Vale realmente a pena ter filhos?

Como toda mulher, fui criada numa sociedade q, a despeito de sua pós-modernidade, sempre me disse q a "verdadeira felicidade" é obtida num enlace romântico q frutifique em filhos. Mesmo q as mulheres sejam estimuladas a estudar e ter uma profissão, isso ainda é encarado como um "plus a mais" a complementar a realização familiar. Fica subjacente q ser uma profissional é um "acessório" do qual a mulher pode prescindir. Já o tornar-se mãe e esposa seria condição sine qua non para ela se sentir "realizada".

Por muitos anos ecoei internamente essa forma de pensar, e também eu achava q minha mais importante missão na vida seria encontrar "o pai dos meus filhos", com ele casar e constituir família. O mais rápido possível. Por algumas vezes achei, quando mais jovem, ter encontrado "meu par ideal", e fosse menos responsável, poderia ter engravidado para já me adiantar, "segurar o namorado" e forçar um compromisso q assegurasse meu futuro.

Porém, se há algo q aprendi com Regina, q meu deu à luz, foi a não sair engravidando sem ter condições de manter meus filhos. Muito eu sofri por ter sido abandonada, criada por meus avós, sem pai nem mãe. Eu jamais faria um filho meu passar por isso, portanto sempre tive muito claro comigo q um filho não deve ser gerado "com um objetivo", seja ele sair da casa dos pais, amarrar um namorado ou mesmo "recomeçar". Para Regina engravidar era um instrumento para atingir um objetivo imediato. Como seria o futuro da criança, não vinha ao caso. Nunca pretendi reproduzir sua irresponsabilidade, q devastou não só sua vida, como a minha, de minhas irmãs e meus avós.

Mesmo assim segui sonhando em "cumprir meu papel de mulher", cuja realização final é ter ao menos 1 filho. Porém algumas coisas me fizeram repensar completamente meus planos.

Quando me mudei para Rio Claro vi q minha vizinha de muro, S, tinha essa vida aparente de comercial de margarina. Casada, com uma filha saudável e loirinha, e outra nasceu no intervalo no qual aqui estou morando. Quem observa essa família do portão pra fora acha q eles têm "a família perfeita e feliz" e q S provavelmente "realizou todos os seus sonhos".

Porém, devido ao muro baixo q separa minha casa da dela, eu sei q isso nada mais é q ilusão. S odeia sua vida. Maltrata suas filhas. Grita com seu marido por qquer motivo, às vezes madrugada adentro. Já a ouvi diversas vezes gritar, exasperada, deseducando suas meninas, destratando-as, já a ouvi chamá-las de retardadas, bater nelas mesmo ainda bem pequenas, ameaçar separar- se do marido aos berros mais de meia noite, sem nenhuma consideração ou reflexão de que seus barracos, mais do q incomodar aos vizinhos, traumatizam às pequenas.

Com essa experiência comecei a questionar-me se realmente valia a pena casar-me e ter filhos. Pois, não fosse o muro baixo e os altos decibéis da histeria de S, provavelmente eu acharia q ela tem uma vida idílica e uma família feliz. E, assim sendo, talvez as outras famílias e pessoas q eu acho q são felizes, talvez eu só o ache por não ser exposta às suas brigas e desabafos.

Tenho já a esta altura da minha vida vários amigos da minha idade q são casados e têm filhos. Vistos do portão pra fora, ou em datas marcadas e festivas, parecem todos tão felizes quanto a família de S parece ser aos demais vizinhos. Por mais intimidade q eu tenha com meus amigos, ela quase nunca chega ao ponto de eu poder diretamente perguntar se eles realmente são felizes ou se tal é só fachada.

Às vezes acontece de um casal q eu tinha certeza de ser sólido e "para toda a a vida" de repente se separar. Este ano mesmo vi como uma aparente harmonia pode ser dissolvida inadvertidamente. Um casal de amigos queridos, casados há 10 anos, com 2 filhas, que pareciam muito felizes e se entender muito bem, se separou. Há menos de 1 ano estive na casa deles, e pareciam estar muito bem, muito felizes, estáveis e com projetos para o futuro. Sua união de longa data era um dos motivos para eu ainda crer em "casamentos felizes" até q, recentemente, descobri q se separaram. Perceber q há menos de 1 anos eles não davam nenhuma mostra de o casamento estar "balançado" ou "por um fio" e q num intervalo tão curto sua união degringolou meio q minou minha esperança de um dia ter uma união realmente estável, na qual valha a pena receber filhos.

Outra variável a se considerar antes de ter um filho é a questão financeira. Criar um filho até o fim da faculdade custa em torno de 200 mil reais. A cifra assim crua parece exagerada. Mas não. A conta a seguir talvez os convença: se uma mãe despender ou um pai pagar "pensão alimentícia" de 1 salário mínimo mensal, no valor aproximado de 600 reais (o q apenas assegura a sobrevivência, sem "luxos" como viagens e escolas particulares), os gastos totalizarão 7.200,00 reais anuais. Esse valor ao longo de 24 anos totaliza 172.800,00 . Simples e assustador assim.

Durante toda minha vida jamais recebi pensão alimentícia do lado paterno, então aprendi a não contar com isso e q os homens, de forma geral, não são de confiança. Portanto sempre tive firme na cabeça a noção de q por melhor, mais amoroso, ou por mais "bom partido" q parecesse meu amantíssimo namorado da ocasião, seria grande a possibilidade de eu no futuro me ver sozinha com meus filhos para criar, sem poder contar com nenhum amparo material do pai das crianças. Como simplesmente deixar meus filhos para trás para serem criados por outros parentes sempre esteve fora de questão para mim, sempre tive fixa a noção q antes de ter filhos era necessário q eu fosse mulher suficiente, adulta o suficiente, ter dinheiro suficiente, para eu mesma ser capaz de, sozinha, prover um lar estável pra minha prole.

O problema é q ainda hj, q já sou licenciada e bacharel, efetiva e concursada, não me sobram 600 reais livres, q eu despenderia se já tivesse um filho. Portanto ainda hj, às vésperas de completar 30 anos, ainda não tenho condições de sustentar um filho a contento, sem q ele e eu tenhamos q passar "vontades" ou mesmo privações. E sinceramente não sei se ainda em minha idade fértil me verei financeiramente estável o suficiente para me permitir engravidar sem, já ao receber o resultado positivo, começar a me sentir em dívida e aquém do q deveria diante da vida em projeto, cuja realização desde o princípio me parecerá além do q sou capaz.

Pensando assim, vejo q se tivesse filhos, teria q trabalhar muito mais horas do q realmente gostaria ou estou disposta. Se eu não chegar a ter filhos, talvez nunca seja obrigada a cumprir a carga horária completa. Economizando este salário mínimo mensal eu poderia me manter trabalhando apenas meio período. Pois eu, sozinha, posso aceitar me privar de uma série de "luxos". Porém se tivesse filhos, não ficaria tranquila em privá-los de viagens, aulas de ballet, judô, inglês, violino, auto-escola, e tudo o mais q é de se esperar q um filho da classe média tenha acesso.

A última questão problemática q citarei, a se ponderar antes de trazer uma nova vida ao mundo, é o quanto a chegada de uma criança transforma, inegociavelmente, a vida de uma pessoa. Para uma mulher a primeira preocupação é a transformação q seu corpo sofre durante a gestação. Por mais q romantizemos a maternidade, todas temos ojeriza às estrias, quilos extras, à idéia assustadora do parto, aos seios caídos, e à quase certeza de q nosso corpo jamais voltará a ser como era antes.

A isso é necessário somar q a chegada de um bebê revoluciona a relação do casal, acaba com sua privacidade, as noites tranqüilas de sono, as saídas com os amigos, as viagens despreocupadas. É muito frequente q o pai/marido, se vendo relegado ou substituído pela relação mãe/bebê, não "aguente o tranco" e pule fora; ou ao perceber q a sílfide com a qual casou agora é uma matrona queira outras aventuras, mais leves, sem cobranças e q não envolvem cocô, leite nem choro em plena madrugada a fio.

Tenho muita vontade e gostaria de ter filhos. Se eu tivesse uma pródiga situação financeira, e me sobrasse muito dinheiro todo mês, talvez a esta altura eu já os tivesse. Sinto falta de cuidar de alguém e ser recebida ao chegar em casa com um abraço e um sorriso de uma pessoinha para quem eu sou o mundo inteiro. Mas eu jamais colocaria uma criança no mundo de forma irresponsável e egoísta, sem ter de antemão assegurado q serei capaz, ao fim e ao cabo, de sustê-la, amá-la e prover-lhe todo o necessário, e muito mais q o estritamente necessário.

Ainda não tenho filhos por já amá-los e pensar responsavelmente sobre qual seria seu futuro antes mesmo de eles nascerem. Ainda não tenho filhos pois eu jamais me perdoaria se os fizesse passar por todo o sofrimento e desarranjo q sofri.

Conforme o tempo vai passando e me vejo amadurecer, cada vez mais percebo a seriedade da responsabilidade de ter um filho, todas as variáveis complexas nisso envolvidas, toda a dedicação q para isso exigirei de mim mesma. E assim vou deixando a questão em suspenso. Como ainda sou jovem e a Medicina cada vez mais avança, acho q ainda tenho mais 20 anos para decidir. E, sinceramente, acho q para mim seria muito melhor engravidar à beira dos 50 do q hj, à beira dos 30.

Veremos!
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sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Maestro II

Por ti esperei horas vazias
Dias inteiros
E até mais eu esperaria.

Contigo faria
O que aos outros negaria
Me ensinaste a ver na vida
Outros ângulos e vieses
Me inspiraste
Me expiraste
Me exasperaste
Me desesperaste

Por ti me despiria de meu orgulho
Por ti faria juz ao meu nome
Ao teu nome.
Você é o dobro de mim
E eu tua metade
Ao menos de minha parte, em minhas delusões.

Me ensinaste
Que no amor há
Muito mais a se descobrir.
Não tenho receio de ti,
Mas te temo.

Por ti estremeço
E sei q isso não é recíproco
Mas não tenho medo de sofrer,
Pois mesmo com este pouco
Que me dás, ou emprestas,
Já saí ganhando
Já tive lições
Sobre o amor e sobre a vida
Já tenho o corpo
E o coração despertos.

És experiente e eu adolescente
És Homem e eu menina
És mestre e eu aprendiz,
Sedenta por lições
Sobre o amor, sobre a vida,
E sobre como ir além do amor e da vida,
Sobre como ser muito mais q mestre ou aprendiz.

A JPNSC, ano 2.000

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Quadrilha - Carlos Drummond de Andrade



João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Pequenos detalhes determinantes

Pensei dar a este texto o nome "Do espanhol, ou de Civilization II" mas o título ficaria por demais enigmático. Pretendo neste texto expor como pequenos detalhes q acontecem durante nosso desenvolvimento podem ser determinantes em nosso futuro.

Nunca tive uma única aula de espanhol, ou castelhano, em toda minha vida. Contudo, alguns poderão auferir q por mais roto q seja meu portunhol, me saio muito bem na comunicação com interlocutores fluentes apenas nesta língua, seja oralmente ou por escrito. Já li livros inteiros em castelhano.

A compreensão desta língua veio-me como uma espécie de bônus dum costume q cada vez mais progressivamente cairá em desuso: a telespectação passiva de programas de TV. Com os avanços da internet e dos novos gadgets, as novas gerações não mais assistirão, passivamente, a milhares de horas de programação televisiva, como ainda faço.

Muitos acham, com certa razão, q "na TV só passa lixo". Mas mesmo no "lixo" podemos encontrar materiais úteis e reaproveitáveis.

Como boa brasileira, sempre fui noveleira. Como adolescente romântica e boba, tb acompanhava as novelas mexicanas q passavam no Brasil. Até q, zapeando naqueles "canais lixo" da TV a cabo, encontrei uma pérola: "El Canal de las Estrellas", a rede internacional da Televisa mexicana. Fiquei exultante pois não mais precisaria esperar q as novelas envelhecessem para só então serem transmitidas no Brasil: eu poderia assisti-las fresquinhas, diretamente da fonte. Em espanhol.

No começo, "boiei" bastante, pouco entendia. Mais acompanhava as imagens, expressões e situações do q compreendia aos diálogos. Porém, como assistia diariamente, a umas 3 produções diferentes, com o passar dos meses a barreira da língua caiu. Passei a compreender as falas, as coisas escritas, a identificar os falsos cognatos, expressões q não tinham correspondente em português, adquirindo a "musicalidade", o ritmo diferente q se usa ao falar em espanhol.

Alguns capítulos gravava, e até decorava. Percebi q as pessoas q o estudavam eram péssimas em espanhol e tinham forte sotaque pois articulavam sua fala como "brasileiros tentando falar espanhol". Compreendi q assim ninguém se torna fluente. É necessário criar um novo "diretório raiz" e nele inserir a língua estrangeira. E não, como a maioria das pessoas fazem, no diretório de sua língua nativa "abrir novas pastas" com as equivalências entre a língua q já se sabe e a q se está aprendendo. Não devemos "pensar em português" e então traduzir pro espanhol, mas sim pensar diretamente em espanhol. Apenas assim se compreende e usa a língua em sua plenitude, se apropriando de sua "equação gramatical única" e sua musicalidade específica.

Ao me ver assistindo essas novelas, meus familiares reviravam os olhos de forma condescendente, vendo nisso apenas infantilidade e perda de tempo. Não poderiam estar mais errados. E outro costume meu era visto da mesma forma: minha verdadeira compulsão pelo jogo Sid Meier's Civilization II.

Joguei a versão I, II, II Multiplayer, Call to Power e IV. De todas, a II sempre foi minha favorita. Gastei milhares, seguramente milhares, de horas nesse jogo. Era comum passar um dia todo jogando, até 12 horas seguidas, e só parar quando a tendinite no indicador direito me obrigava, pelos sucessivos cliques no mouse.

Acredito q essas milhares de horas foram fundamentais para o desenvolvimento da minha capacidade de articular pensamentos complexos e minha ampla memória "RAM".

Para quem nunca o jogou: em Civ II começamos com uma unidade, fundamos uma cidade e essa cidade produz novas unidades, de guerreiros e fundadores de cidades. Vc vai aos poucos iniciando novas cidades, ampliando seu "império", elas vão crescendo de tamanho, é preciso administrá-las, optar entre diversas formas de governo, adquirir novas tecnologias, guerrear com outros povos e conquistar suas cidades para, no final vencer de 2 formas: ou dominando o mundo ou chegando a Alfa Centauro com uma nave espacial.

Acredito q este jogo foi determinante no meu desenvolvimento mental pois para ser bem sucedido nele é necessário agir e pensar como um maestro regendo uma complexa sinfonia. Articular, equilibrar, orçar, apaziguar, planejar, negociar diplomaticamente, saber o tempo certo de fazer paz e guerra. Tudo isso como um malabarista, com muitas "bolas" em jogo. Se cada uma dessas "bolas" a não se deixar cair for uma de nossas cidades, podemos chegar a ter dezenas, ou até centenas delas.

E a cada novo turno é necessário lembrar-se de sua posição geográfica (num planeta com continentes sempre diferentes), seus planos para ela, o q ela está produzindo, se está em zona de guerra, se está em revolta ou precisa ser pacificada, suas rotas de comércio, quais instalações já foram nela construídas e quais precisam ser erigidas, quais têm "Maravilhas do Mundo", quais são mais suscetíveis a espionagem e subversão, e como cada um desses paradigmas se comporta em cada forma de governo.

Cada jogo pode levar dias, ou semanas. E a cada vez q desligamos o computador e vamos jogar no dia seguinte, é necessário o reboot imediato de todas essas informações, muito detalhadas. Falhas de memória ou incapacidade em manejar tantas informações complexas simultaneamente resultam na incapacidade de vencer, mesmo no nível mais fácil. E eu triunfei dezenas de vezes no nível mais difícil, no qual a inteligência artificial do jogo é verdadeiramente desafiante.

Acredito q foi justamente o jogar Civ II q lapidou ou treinou meus neurônios para articular coerentemente e simultaneamente informações complexas e até conflitantes. É o q me possibilita, por exemplo, ler um texto e às vezes parar numa espécie de "tilt" ao atinar "peraí, há umas 50 páginas atrás afirmaram uma coisa q não casa com o q está escrito agora". Ou então estudando a Torah perceber "hum, acho q essa lei de Deuteronômio dialoga com aquela outra lei de Levítico" e assim inferir conexões e reflexões não-óbvias.

É curioso perceber como estes 2 detalhes, essas 2 coisas q fiz por puro prazer, resultaram em ganhos q não previ. Por isso jamais devemos subestimar as atividades nas quais nos envolvemos pois tudo, tudo mesmo, serve de aprendizado. Milhares de horas q, à vistas dos outros, eu desperdiçava, resultaram em muitos ganhos cognitivos.

Aos pais, e a todos, fica então o conselho: estimulem seus filhos e propiciem a si próprios experiências amplas, diversificadas. Não necessariamente "educativas". Não apenas o q se diz "pedagógico" serve ao nosso aprendizado. Se vc for criança ou adolescente, procure assistir a canais estrangeiros, vc pode de repente se descobrir fluente em outra língua, sem ter gasto um centavo e se divertindo no processo. Usem jogos complexos e estratégicos, não se limite aos joguinhos de corrida e luta.

O resultado de estimular-se de diversas formas pode ser a diferença entre vc se situar apenas "na média" ou se destacar entre os demais. Todas as habilidades q desenvolvemos, mesmo q pareçam não ter aplicação imediata, contribuirão para tudo q fizermos no futuro, mesmo q não tenha ligação com novelas mexicanas ou jogos de computador.

sábado, 18 de agosto de 2012

Soneto Amar, de Florbela Espanca

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Para Viver um Grande Amor - Vinicius de Moraes

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.


Texto extraído do livro "Para Viver Um Grande Amor", de Vinícius de Moraes, José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1984, pág. 130.

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Retrato - Cecilia Meireles

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.


Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração
que nem se mostra.


Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
- em que espelho ficou perdida a minha face?

Cecília Meireles

sábado, 30 de junho de 2012

Deus julga as mulheres com maior leveza?

Será que HaShem julga as mulheres com maior "benevolência" do q o faz em relação aos homens?

Vejamos algumas passagens sobre a condição feminina:

Lv 27:
1 Javé falou a Moisés: 2 «Diga aos filhos de Israel: Quando alguém quiser cumprir um voto a Javé, em relação ao valor de uma pessoa, o valor será o seguinte: 3 Se for um homem entre vinte e sessenta anos, a taxa será de quinhentos gramas de prata, conforme o peso padrão do santuário. 4 Se for uma mulher, a taxa será de trezentos gramas. 5 Se for um rapaz entre cinco e vinte anos, a taxa será de duzentos gramas. Se for uma jovem, a taxa será de cem gramas. 6 Se for um menino entre um mês e cinco anos, a taxa será de cinqüenta gramas. Se for uma menina, a taxa será de trinta gramas. 7 Se for um homem de sessenta anos para cima, a taxa será de cento e cinqüenta gramas. Se for uma mulher, será de cem gramas.

Nisto está claro q, ao menos em dinheiro, uma mulher vale menos q um homem. Ou, se visto de outra forma, q um pecado feminino pesa menos q um pecado masculino. Isso tb pode ser inferido daqui:

Gn 3:
16 Javé Deus disse então para a mulher: «Vou fazê-la sofrer muito em sua gravidez: entre dores, você dará à luz seus filhos; a paixão vai arrastar você para o marido, e ele a dominará».

17 Javé Deus disse para o homem: «Já que você deu ouvidos à sua mulher e comeu da árvore cujo fruto eu lhe tinha proibido comer, maldita seja a terra por sua causa. Enquanto você viver, você dela se alimentará com fadiga. 18 A terra produzirá para você espinhos e ervas daninhas, e você comerá a erva dos campos. 19 Você comerá seu pão com o suor do seu rosto, até que volte para a terra, pois dela foi tirado. Você é pó, e ao pó voltará».

Na expulsão do Éden a punição às mulheres é passageira, se dá apenas quando está grávida e vai dar a luz. A punição ao homem é permanente: ele é punido com o trabalho extenuante em todos os dias de sua vida. A punição pesa mais sobre o homem do q sobre a mulher.

Nesta outra passagem é relativizado o adultério. Diz q se uma mulher é levada a isso sem ser livre (e quase nenhuma mulher era "livre") ela não deve ser penalizada.

Lv 19:
20 O homem que se unir a uma mulher que é escrava concubina de outro homem, sem que ela tenha sido resgatada nem alforriada, pagará uma multa. Eles não serão mortos, pois a mulher não era livre.

Outra Lei da qual podemos inferir este princípio é esta

Ex 22:
15 Se alguém seduzir uma virgem solteira e se deitar com ela, pagará o dote e se casará com ela. 16 Se o pai dela não quiser dá-la, o sedutor pagará em dinheiro, conforme o dote das virgens.

Nessa passagem o interessante é: nenhuma punição é prescrita à moça solteira seduzida q se entregou voluntariamente. Apenas o "sedutor" é punido. E não com o apedrejamento, mas com uma simples multa pecuniária.

Creio q isso resulte dessa outra passagem

Nm 30:
2 Moisés falou aos chefes das tribos de Israel: «Assim ordena Javé: 3 Quando um homem fizer um voto a Javé ou se comprometer com alguma coisa sob juramento, não deverá faltar à palavra. Cumpra o que prometeu.

4 Quando uma mulher, ainda solteira e morando com o pai, fizer um voto ou se obrigar a uma promessa, 5 se o pai, conhecendo o voto ou a promessa que ela fez, nada lhe disser, então os votos dela são válidos e a promessa ficará de pé. 6 Contudo, se o pai, no dia em que tomou conhecimento, fez oposição à promessa, nenhum dos votos e promessas que ela fez serão válidos. Javé a dispensa, porque o pai dela desaprovou.

7 Se ela se casar comprometida pelo voto ou pela promessa que fez sem pensar, 8 e se o marido, ao tomar conhecimento, nada lhe disser no dia em que for informado, os votos e promessas que ela fez serão válidos. 9 Contudo, no dia em que o marido tomar conhecimento, se ele fizer oposição, o voto que ela fez ficará nulo, e a promessa que fez sem pensar não terá efeito. Javé os dispensará.

10 O voto de uma viúva ou repudiada e todas as promessas que fizer serão válidos.

11 Quando uma mulher faz um voto na casa do seu marido, ou se compromete com alguma coisa sob juramento, 12 se o marido, ao saber do fato, nada lhe diz e não lhe faz oposição, então os votos dela são válidos e a promessa que fez ficará de pé. 13 Contudo, se o marido, ao ser informado, os anula, então os votos e promessas dela ficam inválidos. Seu marido os desaprovou e Javé a dispensa.

14 O marido pode confirmar ou anular qualquer voto ou juramento de penitência feito pela sua mulher. 15 Contudo, se o marido nada lhe diz até o dia seguinte, então confirma todos os votos e promessas que a obrigam: ele os confirma com o silêncio que guardou ao ser informado. 16 Todavia, se foi informado e os anula mais tarde, ele próprio levará o peso da culpa de sua mulher».

17 São essas as ordens que Javé deu a Moisés para o marido e a mulher, e para o pai e a filha, quando esta ainda vive com seu pai.

A moça solteira, q ainda mora com seu pai, não é dona de si própria e não pode assumir sozinha nenhum compromisso. E caso o faça, seu pai pode livremente anular qualquer compromisso q sua filha dependente assuma, sem que o Criador impute nada negativo a ela. A moça solteira era propriedade do pai, q inclusive podia vender a própria filha como escrava (cf Ex 21:7). A mulher casada era propriedade do marido (cf Nm 5:19 e Gn 2:16), estava sob seu domínio e a ele devia obediência.

A Torah possui 613 mitzvot. Porém as mulheres não são obrigadas a segui-las todas, vejamos:

"As mulheres têm menos obrigações porque são conectadas de maneira diferente dos homens; possuem um progresso espiritual embutido. Os homens precisam usar kipá sobre a cabeça para lembrarem que D’us está acima deles. As mulheres não, porque elas têm a presença de D’us já incorporada em seu projeto espiritual." fonte: http://www.chabad.org.br/interativo/faq/mulher_mitsvot.html

"Apesar da mulher judia estar igualmente obrigada, como o homem, a cumprir todas as proibições da Torá, os mandamentos proibitivos (e estes são a maioria - 365 "não faças"para 248 "faça").
"Entretanto, no que se refere aos mandamentos positivos, a mulher judia está isenta do cumprimento de alguns deles (de modo algum, não todos), principalmente os que têm um fator tempo ou limite, em consideração aos seus importantes deveres conjugais e maternais, aos quais a Torá dá precedência. Neste aspecto, portanto, a mulher judia é antes "privilegiada". (...)
"Sob o ângulo feminino, toda mulher judia deve estar consciente de ter sido dotada de uma maior sensibilidade que permite estabelecer uma conexão com D’us de forma direta e profunda. Sob este prisma, sua natureza é mais uma vantagem, um ponto a seu favor. O fato de D’us tê-la isentado de certas tarefas mostra todo apreço que Ele dedica ao seu papel essencial dentro do povo judeu e na garantia de sua continuidade." fonte: http://www.chabad.org.br/biblioteca/artigos/mulher_fez/home.html

Uma vez q as mulheres são obrigadas a seguir menos leis q os homens e o preço do resgate de uma mulher é inferior ao de um homem, podemos considerar que o Criador é mais benevolente com as mulheres do q com os homens? Que HaShem exige menos das mulheres, as julga com menor rigor do q o faz em relação aos homens?

Nascer mulher é uma bênção e dá um campo de liberdade maior ao ente feminino do q seus equivalentes masculinos têm? Isto posto, posso agradecer pela manhã a Deus ter nascido mulher, e não homem?

domingo, 3 de junho de 2012

Causos escolares: aborto e covardia

Recentemente ouvi um relato de uma aluna q me tocou profundamente por sua sinceridade e delicadeza. Foi numa sétima série da EJA, a aluna é uma mulher negra de mais de 40 anos, com o semblante sofrido das pessoas q trabalham desde sempre por um salário miserável. Durante a aula eu havia comentado algo sobre o reconhecimento de paternidade e naqueles 5 minutos finais ela espontaneamente começou a contar essa história. Espero ser capaz de reproduzí-la dignamente. Apenas para fins didáticos, a relatarei do ponto de vista da aluna.

- Sabe, professora, eu tenho uma filha q não tem o nome do pai da certidão. Eu nem vou atrás disso nem de pensão, hj sou casada e meu marido é um verdadeiro pai pra minha filha.

- Mas vc deve ir atrás disso. O dinheiro da pensão não é para vc, é para a menina. Mesmo q vc não precise ou não queira tocar no dinheiro, entre na Justiça e exija a pensão a q sua filha tem direito. Se vc quiser, pode deixar esse dinheiro no banco e ela pode sacar quando ficar maior de idade, assim ela vai ter um dinheiro pra fazer faculdade, ou até comprar um carro.

- Mas é q me disseram q se o pai pagar pensão vai ter direito de levar ela nos finais de semana.

- Sim, é um direito. Quando a pensão alimentícia é acertada, o juiz também determina os dias de visitação. Se o pai estiver pagando pensão, tem direito a passar alguns finais de semana com a menina.

- Professora, é justamente isso q eu não quero. A senhora não sabe o quanto esse homem me fez sofrer. Quando eu engravidei, ele falou q não queria o bebê, q eu já tinha 2 filhos, do meu ex-marido q tb nunca pagou pensão, q ele estava desempregado, q eu era faxineira e ganhava salário mínimo. Um dia ele chegou com uma cartela de remédio na mão, me mandou tomar e disse q isso ia "resolver o problema". Nem sei dizer como eu me senti.

Eu olhava pros meus filhos e sentia uma dor, nem sei onde, pensando se eu tivesse abortado eles, matado eles e eles não estivessem naquela hora sorrindo pra mim. Não sou religiosa nem nada, nunca tinha pensado em fazer um aborto, mas vendo meus filhos, mesmo naquela situação, não tive coragem. Sabe, se um homem tivesse me pegado à força talvez eu tivesse coragem, mas tinha feito aquele bebê apaixonada. O bebê não tinha culpa se agora eu descobria q o pai dela não era um homem de verdade.

Não tive coragem, professora. O meu namorado largou de mim quando eu disse q não ia abortar. Nunca mais olhou na minha cara nem quis saber da criança. Eu chorei a gravidez inteira, sem saber o q seria de mim, sozinha e com 3 filhos pequenos pra criar, sem marido pra me ajudar. Quando fui contar pros meus patrões, tive medo de ser demitida, mas eles me deram força, ainda mais quando contei o q o pai da criança tinha sugerido. Mesmo levando a gravidez adiante, não estava feliz, não fazia planos, não conseguia pensar num nome, o bebê era mais motivo de preocupação do q de alegria, e assim foi os 9 meses.

Mas sabe, professora, quando a gente tá no fundo do poço a gente vê como Deus não nos abandona e nos dá força quando a gente mais precisa. Entrei em trabalho de parto justamente na festa de Reveillon. Q apuros! Comecei a sentir as contrações e meu pensamento foi "Agora para melhorar tudo não vou conseguir q ninguém me socorra, ninguém vai trocar a festa de Reveillon por uma noite no hospital, talvez nem tenha médico pra fazer o parto!"

Mas um vizinho me ajudou na hora, me levou pra Santa Casa e minha filha nasceu assim q o ano virou, perfeita e saudável. Minha filha foi o primeiro bebê a nascer em Rio Claro em 20**. Todas as enfermeiras e médicos ficaram emocionados, veio todo mundo me dar os parabéns. Até um jornalista tirou foto da gente e perguntou o nome da bebê. Eu ainda não tinha decidido, mas naquela hora o nome dela veio direto na minha cabeça e não tive nenhuma dúvida: "O nome dela é Vitória".

Minha filha foi a minha vitória na vida, e percebi q ela tinha nascido naquele momento pra me trazer de volta a esperança. Senti um pouco de vergonha de ter passado a gravidez tão triste, preocupada e sem esperanças, pois segurando minha filhinha no colo vi q ela era um presente de Deus e q me traria muitas alegrias no futuro. E como ela saiu no jornal, virou o xodó da vizinhança e ganhei um monte de roupinhas e fraldas q eu não teria condições de comprar.

O pai dela nem quis saber. Ele mora perto de mim até hoje, e quando a gente se cruza na rua ele vira a cara, muda de calçada, dá um jeito de fingir q não nos conhece. Alguns anos depois me casei de novo, e meu atual marido é um verdadeiro pai para a Vitória.

Se eu for pedir pensão pra minha filha, ela vai me perguntar pq me separei do pai dela, pq ele nunca quis saber dela. E eu não quero contar pra ela. Eu não quero q ela saiba q o pai quis q ela fosse abortada. Acho melhor ela não saber, pois se ela souber q o pai dela existe e quis q ela não existisse ela pode ficar revoltada, e com razão.

Às vezes quando ela está brincando, percebo q ela fantasia com o pai imaginário, q seria um grande herói. Quando ela me perguntou quem é o seu pai disse q ele mora em outra cidade, e a gente não tem mais contato. Não sei o q vou dizer quando ela crescer, ou se alguém apontar o pai dela na rua, pois eles são muito parecidos. Não quero q ela saiba q um dia não foi desejada, pois ela, junto com meus outros filhos, é a maior alegria q eu tenho, e meu motivo de viver. Nem sei como eu me sentiria hoje se tivesse sido covarde e matado minha filhinha. Não quero q ela jamais venha a saber disso.


- Acho q vc está mais q certa. Parabéns pela sua coragem. - disse eu, percebendo q naquela aula ela havia ensinado a mim mais do q eu poderia ensinar a ela. Não sobre História, mas sobre Vida, Coragem, Ética e Amor.

domingo, 27 de maio de 2012

Porque nao uso decote

Ser mulher é uma forma bastante peculiar de ser humano. E muitas expectativas sociais cercam todo membro do gênero feminino, sem q sejamos avisadas a respeito. Enquanto crescemos, ser menina é uma forma menor de "ser princesa". E algumas acham q ser chamada por princesa resultará em serem tratadas como princesas ad aeternum, o q é ledo engano.

As mulheres só começaram a ter certa liberdade após a Revolução Sexual da década de 1960. Creio q sou a primeira geração de mulheres livres, em minha família. Por "mulher livre" compreendo: alguém q foi criada para ser independente, não "para casar e ter filhos", q foi criada pra ter "vida própria" sem depender de marido, q fez faculdade, q manda no próprio nariz, se sustenta sozinha, não é escravizada por gravidezes sucessivas, jamais apanhou de um homem.

Enquanto criança eu achava q isso me colocaria no mesmo "patamar social" dos homens meus contemporâneos. Mas só depois descobri q não. Independentemente de sua instrução ou estado civil as mulheres são julgadas sobretudo por sua aparência. E, ainda hj, divididas em 2 categorias: as "mulheres honestas", q merecem respeito, e as "vadias", q podem ser flagrantemente desrespeitadas.

O adjetivo "vadio" se aplicado a um homem designa alguém desocupado, q não trabalha. O adjetivo "vagabundo" se aplicado a um homem designa alguém q não trabalha nem está a procura disso. O adjetivo "puto" se aplicado a um homem designa q ele está nervoso, irritado com algo. Se um homem "faz biscate" isso designa q ele é um autônomo sem ocupação fixa. Se um homem é "rodado", isso designa q ele já viajou muito. Se um homem é um "cortesão" isso designa q ele faz parte da corte de um rei. Se um homem "faz favores" isso designa q ele ajuda aos outros, de bom grado. Se um homem "faz programa" isso designa q ele é programador de informática, ou analista de sistemas. Se um homem é um "faz tudo", isso designa q ele ocupa o cargo de "auxiliar de serviços gerais".

Adversamente, se aplicados a uma mulher, os adjetivos vadia, vagabunda, cortesã, puta, biscate, rodada, "de programa", q "faz favores" ou "faz tudo" imediatamente remetem à sua moral, ao seu comportamento sexual, e insinuam q a mulher em questão é uma prostituta. O nome disso é "machismo" ou "misoginia": ódio ou aversão às mulheres.

Quando eu era criança reparei num detalhe interessante: meninos podem, e devem, sentar com as pernas o mais abertas possível. Quanto mais abertas, maior é a declaração de q eles teriam um órgão sexual "avantajado", portanto, quanto mais um homem ou menino abre as pernas ao se sentar, tanto mais ele se torna "másculo", e se cruzar as pernas pensarão q ele é gay, ou tem um pênis acanhado. Para o menino, exibir ou insinuar q ele possui um órgão sexual é motivo de orgulho.

Meninas devem sentar com as pernas o mais fechadas possível, e se cruzadas, tanto melhor. Quantas vezes ouvi: "Menina, fecha essas pernas!" e não entendia o pq. Até perceber q a postura feminina seria demonstrativo de sua "disponibilidade sexual": mulheres de pernas abertas indicariam q estão acessíveis, são "putas", e mulheres de pernas fechadas dizem q são recatadas e "não 'dão' para qquer um". Para a menina, exibir ou insinuar q ela possui um órgão sexual é motivo de vergonha.

Quando nasce um bebê do sexo masculino, rapidamente o pai se regozija e anuncia a todos os amigos q "ele tem o saco preto, ou roxo" e todos ficam felizes e lhes dão os parabéns. Quando nasce um bebê do sexo feminino jamais um pai irá declarar q ela tem o "clitóris rosa" e se um amigo fizer qquer referência às partes íntimas da neném, isso será uma gigantesca ofensa. Todos preferem "esquecer" q a menina tb nasce com órgãos sexuais, ou considerar q tê-los é motivo de constrangimento, e não de orgulho.

Desde q aos 12 anos começaram a crescer dois tumores adiposos no meu tórax comecei, literalmente, a sentir o "peso" de ser mulher. Por mais atrativos q eles sejam aos homens, para as mulheres q os carregam, especialmente se sofrerem de gigantomastia, como é o meu caso, os seios são profundamente incômodos. Limitam os movimentos dos membros superiores, pesam na coluna, balançam, doem, incham, dificultam encontrar posição para dormir, atrapalham a prática de esportes.

Mas o pior de tudo: chamam muita, muita atenção, tal qual o rabo de um pavão. Isso eu percebi rapidamente. Q quando eu usava roupas justas e ia cumprimentar alguém do sexo oposto, o cara olhava pra meu rosto, olhava pros seus seios, olhava pro meu rosto, olhava pros meus seios, até decidir q preferia conversar com os meus seios a conversar comigo. Quantas vezes, muito constrangida, tive "conversas sociais" desagradabilíssimas com homens q não olhavam para o meu rosto enquanto eu falava, mas para meus peitos. E q eu era tanto melhor tratada pelos homens quanto mais de seus seios eu expusesse, e se eles não fossem expostos ou insinuados eu era muito mais facilmente ignorada e descartada como alguém "interessante".

Percebi q os homens me julgavam pelo tamanho dos meus seios, a profundidade da minha clivagem, o fato de estar maquiada e de salto alto ou não. E q caso me considerassem, pela minha aparência, uma "parceira sexual viável" eu era bem tratada. Em caso negativo, eu era ignorada. Se eu não lhes era interessante sexualmente, eles não tinham nenhum outro interesse em mim.

Do meu ponto de vista, nunca fui pudica em relação a roupas, sempre procurei me vestir de maneira "normal", mas já fui alvo de diversos comentários jocosos a respeito do meu trajar. Em diferentes ambientes já me perguntaram pq "não me arrumo", pq me visto "como se fosse crente", pq não uso maquiagem nem faço escova no dia-a-dia, e um aluno até chegou a dizer q me visto "como uma mendiga", em contraste com as outras professoras mais "arrumadinhas"... E várias pessoas já vieram, com a melhor das intenções, me aconselhar q eu deveria ser mais vaidosa dizendo: "ah, se vc soltar o cabelo, trocar os óculos por lente de contato e passar um rímel, vai ficar muito bonita". Como se toda mulher tivesse "obrigação" de ser, ou ao menos tentar ficar, bonita.

Eu não "me arrumo" no meu dia-a-dia, especialmente no trabalho pq não quero passar a "mensagem errada" de q eu seria uma parceira sexual viável aos meus colegas de trabalho e alunos. Faço questão de usar avental ao dar aulas por já ter percebido q quando não o uso o tamanho dos meus seios e o formato dos meus glúteos sempre viram o "assunto do momento". Sem o guarda-pó os alunos me vêem como "mulher". Com o guarda-pó os alunos me vêem como "professora" e eu neutralizo 95% das insinuações sexuais a meu respeito em sala de aula.

Eu não me visto "como se fosse crente", apenas de forma "normal" sem ressaltar meus atributos físicos. Até uso maquiagem e faço escova, em ocasiões extra especiais, não em meu cotidiano. Não me visto como mendiga, apenas compro roupas em lojas de departamentos, e não em butiques. Não solto o cabelo pois ele incomoda e esquenta o cangote. Não uso lentes de contato pois gosto da mensagem de prezo pelo intelectualidade q os óculos auferem aos q os ostentam.

No fundo, tudo isso é meu "disfarce de mulher honesta", não pq eu não seja isso, mas pq sei q vestir-me de outra forma seria uma declaração sobre meu comportamento sexual e minha "disponibilidade" a todos os homens em redor. Eu gostaria de poder me vestir de outra forma, porém não quero me submeter ao desrespeito q seria resultado disso, pois mesmo me vestindo de forma conservadora, frequentemente sou vítima de desrespeito pelo simples fato de ser mulher.

Sou uma mulher relativamente jovem e relativamente magra num ambiente de trabalho cheio de mulheres relativamente "mais velhas" e "mais gordas" do q eu. Esse simples fato resulta em ver-me alvo de insinuações e convites de cunho sexual por meus colegas de trabalho, muitos deles casados, sem q eu dê nenhuma "abertura" para isso. Mesmo me esforçando ao máximo para desconstruir qquer imagem sexualizada, ainda assim, pelo simples fato de ser mulher, jovem, magra e solteira, os homens acham q têm o direito ou a liberdade de me abordar com convites escusos. Independentemente do seu estado civil. Ser mulher, e ter seios, é quase um passe livre para q ou outros me faltem ao respeito.

Não uso decote justamente pq os homens q se atraem por mim pelos meus atributos físicos não me interessam. Quero um homem q esteja comigo por mim, não pelo formato do meu corpo. Quero alguém q me respeite, q não me veja como um objeto ou um pedaço de carne. Procuro alguém q veja a Fernanda escondida atrás dos óculos, q me ache bonita com a cara lavada, gorda ou magra, com celulite, sem Wonderbra, com o cabelo ao natural.

Minha sensualidade não é para qualquer um, por isso não a exibo para todos. Não estou a procura de "parceiros sexuais", estou a procura de um "parceiro para a vida", q não deixe de ter atração por mim baseado na circunferência da minha cintura, no ângulo descrito por meus seios ou nas rugas em meu rosto.

Gostaria de poder andar livremente pela rua sem camisa, como fazem os homens. Quando um homem tira a camisa é pq está com calor. Se uma mulher tira a blusa, ou é imediatamente estuprada ou presa por "atentado violento ao pudor". A simples exposição do corpo feminino é um "atentado à moral e aos bons costumes", ou um oferecimento de favores sexuais, mesmo q involuntários, a qquer homem q a veja assim.

É justamente nessa ferida q a slutwalk, "marcha das putas" ou "marcha das vadias" toca. Objetiva quebrar o preconceito de q a mulher deve ser julgada pela quantidade de pele q expõe, pelo comprimento da sua saia, pela profundidade do seu decote. Levanta a bandeira de q a mulher pode, e deve, se vestir como bem entende, e q seu trajar jamais deve ser considerado um "convite" ao desrespeito e à violência. Nestas passeatas as manifestantes "se vestem como prostitutas" para escancarar q não existe isso de "se vestir como uma prostituta": q toda mulher é dona do seu corpo e tem o direito de exibi-lo, se quiser, sem ser mal-julgada por isso. Com muita alegria, se um dia tiver a oportunidade, me vestirei "como puta" para participar da marcha das vadias, para quem sabe um dia poder usar um decote sem ser imediatamente considerada uma "mulher fácil".

Respondendo ao mote do texto numa frase: não uso decote pq não posso. Pois se usar, os homens ao redor nisso lêem uma declaração de disponibilidade, e me julgam moralmente "dissoluta" por conta da falta de 4 centímetros de tecido ou um botão entreaberto. Não uso decote pq não estou interessada em atrair homens q procuram mulheres baseados em sua aparente sensualidade. Não uso decote pois quero ser considerada uma "pessoa séria" e, pelo menos para os homens, "mulheres sérias" não usam decote.

Por favor, me julguem pela minha inteligência, pela minha personalidade, pelas coisas q gosto e os assuntos sobre os quais falo, não pelo meu soutien 46, meu jeans 38 ou a altura do salto dos meus sapatos! Me julguem como "pessoa", não como um "pedaço de carne".


Recomendo o filme "Erin Brockovich".
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