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sábado, 21 de janeiro de 2017

Dezessete e Trinta e Quatro, Trinta e Quatro e Cinquenta.


É um título cabalístico. O escrevo como homenagem, reminiscência.

Eu tinha dezessete anos quando iniciei o mais longo e marcante relacionamento da minha vida. E meu parceiro tinha 34, exatamente o dobro de minha idade. Hoje sou eu quem tem 34 anos, e ele está prestes a fazer 51. Seria motivo para eu divagar alguns instantes solitariamente, não tivesse ele, a quem chamarei simplesmente de "J", me mandado um e-mail exatamente no dia do meu aniversário, em 29 de dezembro último.

Eu nunca esqueceria igualmente seu aniversário, em 9 de fevereiro, a o que se soma o detalhe de que também é o aniversário de minha única sobrinha. Ela nasceu bem ao final de nosso relacionamento de 4 anos, e ele soube à época da "coincidência ". Este ano ela fará 13 anos.

Vendo de hoje e de fora, parece sim um despropósito um homem adulto se relacionar com uma adolescente com metade de sua idade. Hoje, eu com 34 anos, não consigo imaginar que conseguiria ter um relacionamento com um moleque de dezessete anos. Mas J não se relacionou com uma "adolescente com metade de sua idade", ele se relacionou COMIGO, que nem aos 17 tinha dezessete anos. Não foi ele quem "deu em cima de mim". Fui eu quem "deu em cima dele", insistiu, seduziu, e, apaixonada, fez de tudo para engatar e manter o relacionamento. E confesso que sim, me senti à época muito orgulhosa de mim mesma por conseguir despertar a atenção de um "homem feito", bem mais velho, admirado, respeitado e até disputado por outras colegas.

J é uma pessoa muito humana, cheia de consciência e escrúpulos. Ele mesmo não gostava do fato de eu ser tão jovem, o falou diversas vezes, que preferia que eu fosse alguns anos mais velha, para não sentir que estava "se aproveitando" de mim. Talvez ele soubesse, lá no fundo, que também eu "me aproveitava dele", não no sentido material (longe disso, ao longo do nosso relacionamento ele sempre esteve muito ruim financeiramente, não pensem que eu tinha qualquer interesse escuso em relação a J, era um sentimento verdadeiro). Eu me aproveitava dele, e de estar neste relacionamento, para amadurecer, crescer, evoluir. J sempre foi um ótimo professor.

Namoramos durante todo o tempo em que estive perdidamente apaixonada por ele, 4 anos e meio, e chegamos a morar juntos. Por isso, quando me perguntam, digo que tenho sim um "ex-marido", embora nunca tenha me casado. Passamos por experiências fundamentais juntos. Eu estava com ele quando entrei na faculdade, saí de casa, virei adulta. Ele estava comigo durante o processo de luto por seu pai, e a morte de sua segunda mãe. Estávamos juntos durante a construção da minha vida e a dissolução da sua. E, sabendo da constância dos meus sentimentos, ele me chamava de "seu porto seguro".

Mas, em determinado momento "a chama apagou". Não foi nenhuma briga, traição, decepção ou mentira em particular. Gradualmente , o sentimento de paixão foi arrefecendo em mim, e talvez também nele, o relacionamento foi se desgastando e resolvemos, de comum acordo, nos separar. A minha e a sua vida haviam mudado. Depois de 4 anos de relacionamento, eu não mais queria, como aos 17 anos, "me casar com meu grande amor" e começar a ter uma "vidinha doméstica". Não aos 21 anos, estudando História na USP.

Eu queria, assim como ele, ter a oportunidade de VIVER, experimentar, quebrar a cara, errar, me arrepender, FAZER E ACONTECER. Não queria "me assentar" tão cedo, ser uma pessoa "dependente e dominada" por um marido muito mais velho. Ele entendeu. Terminamos nosso relacionamento íntimo, mas continuamos amigos.  

Depois de terminar a faculdade, me mudei para o interior e continuamos a, esporadicamente, trocar mensagens. Certa vez em que precisei vir a São Paulo nos comunicamos e ele me ofereceu sua hospitalidade. Dormi em sua casa de homem solteiro só com cachorro, como "velhos e bons amigos". De outra feita, alguns anos depois, eu estava em São Paulo por ocasião das festas de fim de ano e lhe mandei um sms na noite de Natal, apenas saudando-o. Em poucos minutos sua nova parceira começou a me mandar mensagens furiosas enquanto eu só pensava "Que mulher louca e insegura, nem com 17 anos eu me rebaixaria a fazer isso, ainda mais na noite de Natal..." Enfim...

Muitos anos se passaram desde então, mas em nada diminuiu meu carinho e admiração por J, pelo papel tão importante que ele teve em minha vida e em minha evolução pessoal. Grande parte do que eu sou, sei que devo a ele, por todas as nossas conversas e experiências compartilhadas ao longo desses 4 anos em que estivemos juntos. Ele sempre será meu gigante com voz de trovão. Ainda sonho com ele, de tempos em tempos. Me traz o conforto de me sentir acolhida ao lado de um bom e velho amigo. Ele foi fundamental à formação da mulher adulta que sou hoje. Fez de mim uma pessoa mais humana, comedida, intelectualizada, engajada, assertiva, e com um gosto musical muito melhor. Foi J quem me apresentou a Chico Buarque, Eric Clapton, BB King e Billie Holliday. Se apenas isto tivesse feito por mim, já seria muito. Mas sua contribuição à formação do ser humano que sou hoje foi infinitamente maior.

Gostaria que ele soubesse o quanto sou grata por termos divido tantos momentos juntos. Que eu sei que sem ele eu não seria hoje boa parte do que sou. Que me lembro dele com carinho e admiração. Que não importa quantos anos passem ou o que aconteça, nada irá mudar tantas lembranças especiais que guardo dele comigo. Que torço sinceramente por sua felicidade. Que gostaria de sempre que for a São Paulo reencontrá-lo nos restaurantes em que gostávamos de ir.

Que estou bem, sou dona de mim mesma, no domínio do meu destino, independente, sem dever nada a ninguém. Que hoje sou uma pessoa adulta, tenho uma vida respeitável e sou admirada pelo meu conhecimento. E que grande parte da base sobre a qual essa "Fernanda adulta" se assenta, reputo a tudo o que aprendi ao seu lado. Muito obrigada por ter permitido que eu fosse seu porto seguro. De certa forma, você ainda é o meu.

Kings of Leon - Use Somebody https://www.youtube.com/watch?v=gnhXHvRoUd0

Eric Clapton & BB King - Ridding with the King https://www.youtube.com/watch?v=sJK78Y3zoQk

Dave Matthews Band - Where are you going https://g.co/kgs/PhsWHN



sábado, 24 de setembro de 2016

Nome de personagem ecológico

 

É comum as pessoas não gostarem de seu próprio nome. Afinal, com qual autoridade alguém pode escolher o nome de outro ser humano? É uma escolha muito importante e frequentemente os pais não dão a devida atenção a este processo tão importante.

Quando estudamos Literatura os professores nos ensinam que os autores dos livros, ao escolher escolher o nome de seus personagens, muitas vezes já colocam "inserido no nome" algo da personalidade que projetam sobre aquele ser. E daí em diante passamos a cada filme ou livro ver no nome dos personagens "pistas" sobre sua real essência.

Por toda a minha vida cri ter um nome banal, sem nenhum significado ou "duplo sentido". Desde os doze anos falo fluentemente inglês e tenho tido contato com francês, alemão, italiano, castelhano, hebraico e até japonês sem nenhuma indicação de que meu nome tivesse qualquer "subjacência"... Até que...

Soube da existência de um programa na TV americana chamado "Between Two Ferns", programa de entrevistas com o humorista Zach Galifianakis https://en.m.wikipedia.org/wiki/Between_Two_Ferns_with_Zach_Galifianakis e só então procurei por "Fern" num dicionário de língua inglesa e descobri que significa "SAMAMBAIA"!

Nada demais se meu sobrenome não fosse "Ramos", ou "Palmer" em seu correspondente em Inglês. Sim, meu nome equivale a "Ramos de Samambaia". Sim, eu sou um personagem ecológico de um romance água com açúcar nova era "BEM VERDE"... 

E não só quem escolheu o meu nome não tinha a menor ideia disso como eu mesma passei 30 anos de minha vida sem me dar conta de que meu nome é sim um clichê ecológico risível. Tal como "River", "Leaf" ou "Summer" Phoenix, só que acidentalmente!

Na faculdade eu tive uma colega cujo nome do meio era "Relva" e ela explicava aos outros "é por causa da 'grama' mesmo" e eu ria internamente. Pois é. Meu próprio nome é uma referência ecológica completa e eu nem sabia! 



sábado, 2 de novembro de 2013

Saudades Eternas



"Saudade" é um desses raros substantivos exclusivos da língua portuguesa. Análogo à melancolia, ao saudosismo, a sentir a falta, ausência, de algo, but not quite that. A saudade é muito mais amplo que tudo isso, pois podemos senti-la até do que não vivemos.

"Eterno" tem um significado universal, amplo, e fácil: é aquilo que não tem fim, não esmorece nem diminui conforme o tempo passa.

Dia 2 de novembro é Feriado de Finados, dia dos mortos, no Brasil. Estive hoje no cemitério, apesar de não gostar. Minha mãe me pediu que a levasse e não pude recusar, por mais desconfortável que isso seja para mim.

Eu não sinto que no túmulo no qual seus corpos jazem esteja também a "presença espiritual" dos meus amados já falecidos. Sei que a alma dos meus mortos não está mais presa ao seu corpo físico.

No túmulo da minha família jazem 2 mortos: meu avô Vicente e minha avó Tula. E ao visitá-lo hoje percebi que a saudade que sinto do meu avô é muito mais pungente que a da minha avó.

À Tula pude acarinhar, cuidar, cozinhar, conviver, acompanhar. Por 6 anos fui sua cuidadora e companheira.

O mesmo não tive a oportunidade de fazer por meu avô, meu amado Morzinho. Como gostaria de ter igualmente tido 6 anos para dele cuidar, acarinhar, em seu abraço me aninhar. Queria ter-lhe pensado as feridas. Ter-lhe feito mil comidas apetitosas. Ter assistidos várias novelas sentada ao seu lado.

Tula morreu há menos de um ano e a saudade que sinto dela me traz paz.

Morzinho morreu há quase 7 anos e a saudade que sinto dele ainda me rasga. Sinto que não gastamos até o fim a parafina de nossa vela. Sinto que havia ainda muito por fazer. Eu queria tê-lo conhecido muito mais profundamente. Queria, tanto, ter tido a oportunidade de cuidar dele, de conviver mais no dia-a-dia com ele, como fiz com a Tula, em seus últimos anos.

Ficou algo "no ar", algo incompleto, que ainda me faz sentir que há uma pendência entre nós. Não tivemos o tempo devido para, com ambos adultos, nos conhecer plenamente. Queria ter-lhe conhecido mais defeitos. Se tinha preconceitos. Se execrava a arte moderna. Se era contra a mini-saia. Se preferia cerveja lager ou pilsen.

Conheci meu avô como uma criança conhece a um pai protetor. Sinto que me faz falta tê-lo conhecido como adulta. Como dois adultos divagando sobre a vida. Queria ter-lhe mostrado minhas poesias. Queria ter-lhe exibido minhas fotos com amigos. Queria ter-lhe apresentado meus namorados. Ainda não tenho filhos, mas como queria que ele tivesse-os conhecido!

Restou muito "por fazer" entre eu e meu avô. Por isso ainda dói a saudade. Queria ter-lhe dito muito mais coisas, especialmente o quanto ele era importante, fundamental, basilar, para mim. 

Espero que talvez, de onde estiver, ele me escute, e saiba que a minha saudade dele é incomensurável.

quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Do Escapismo



Confesso que "escapei bastante" de finalmente sentar para escrever este texto. Há alguns meses elaborei esta idéia e inúmeras foram as noites nas quais planejei, enfim, colocá-la por escrito. Mas sempre fugia disso. Nem hoje o faria, apesar desta ser uma das ocasiões em que o planejei. Porém, sendo este um dia chuvoso, falham minhas 2 possibilidades de conexão (paga) à internet, e o desvendei como um "ultimato" para tornar o projeto realidade.

Sei porquê tanto disto fugi. É porque essa idéia não é, nem a mim, nem a ninguém, confortável ou reconfortante, mas seu exato oposto. Espero que cheguemos até lá. Incomoda sobre isso pensar, e plasmar em texto.

"Escapismo" é o nome de uma técnica através da qual os ilusionistas realizam o espetáculo do se livrar de amarras aparentemente impossíveis. Harry Houdini era um grande mestre nisso: ser enterrado ou submergido numa camisa de força cheia de cadeados, alarmando toda uma platéia com a possibilidade de morrer na frente deles, para poucos segundos depois reaparecer, magicamente, livre de todas as trancas, num feito aparentemente sobrehumano.

"Escapismo" também é o nome de um "fenômeno psicológico" marcado pela fuga, ou negação, da realidade imediata, que resulta num "projeto idealizado" numa "antevisão" de uma utopia "muito melhor que a própria realidade".

O movimento estético-literário conhecido como "Romantismo" se baseava grandemente nisso: na fuga da realidade através da idealização de um passado heróico. Ou, no caso brasileiro, da invenção de um passado grandioso, feito sobre o molde europeu (temos aí o "cavaleiro-índio" Peri de "O Guarani" de José de Alencar como melhor exemplo).

Vivemos, ainda, em um mundo Romântico. Embora a "moda literária" da "alta cultura" tenha passado pelo Realismo, Simbolismo, Parnasianismo, Modernismo e Pós-Modernismo, a "baixa cultura", do "povão" me parece ter meio que "estacionado" no "belo" paradigma romântico. 

Pois é muito confortável "escapar" da realidade que nos oprime. Que nos diz que somos pequenos, frágeis, desimportantes, vivendo um tempo passageiro insignificante, num lugar risível, sem nada de especial. Queremos ser grandiosos, protagonistas de uma heróica senda de descobrimento, queremos nos sentir herdeiros de antepassados gloriosos, portadores de uma herança superior a todas as demais. Enfim, gostamos de nos sentir especiais, únicos, expoentes de uma grande tradição.

E quando nada disso há, o inventamos. Simplesmente o inventamos. 

Nisso, vale a leitura do "A invenção das tradições" "Eric Hobsbawm", que basicamente explicita como todos os "símbolos da nacionalidade", muitas vezes venerados como sagrados e atemporais, foram fabricados em determinado contexto histórico, para cumprir objetivos políticos específicos, enumeráveis.

Muitas pessoas recorrem, portanto, ao Nacionalismo, para escapar da triste realidade diante dos seus olhos, num mecanismo psico-sociológico de negação, de fuga da realidade. É mais ou menos assim: "minha realidade é ruim, porém meu passado, o passado dos meus ancestrais, do meu povo, da minha nação, é grandioso, vejam nosso folclore, nossos herois, nossa tradição..."

E isso também pode se dar por adoção, por "adesão" a uma cultura vista como "melhor", ou "mais tradicional" (e portanto "mais verdadeira", supostamente). É nesse ponto que toco na conversão religiosa.

O Brasil é, ainda hoje, um país francamente católico. Mas não "Católico Apostólico Romano", mas "católico à brasileira". Vivenciamos um "Catolicismo folclórico", popular, poroso, osmótico, cheio de influências externas, reminiscências, marcado pela presença das tradições indígenas e africanas. Somos católicos por tradição, mas meio que "estranhamos" o Catolicismo "puro sangue", não nos identificamos com o latim do rito romano. Por ter sido uma religião que nos foi em grande parte imposta, muitas pessoas não a sentem como "verdadeira" e procuram uma alternativa "melhor".

E esse "melhor" necessariamente parece passar por um "mais antiga" ou "mais pura". 

Nisso, muitos enveredam pelo Protestantismo. Embora em "secos dados históricos" essas vertentes sejam muito mais jovens que o Catolicismo, todas elas alegam "reviver o Cristianismo primitivo" tal qual era praticado pelos primeiros cristãos, antes dos "desvios doutrinários" de viés pagão que teriam "manchado" a Igreja Católica. Portanto, embora mais jovens, as igrejas protestantes alegam representar um "resgate" de práticas primevas, "abandonadas" pelos desvios da Igreja de Roma.

Mas há muitos que não se satisfazem com uma tradição de "meros" 2 mil anos. Querem ir além, embora nem sempre "radicais" ou "fundamentalistas", conseguem perceber que todo o Cristianismo é uma derivação de algo mais antigo, e portanto, "idealmente" "mais verdadeiro": o Judaísmo.

E isso vai ao encontro de outra ponta histórica mal-amarrada: a ausência de uma "etnia brasileira". O "brasileiro" é, essencialmente, mestiço e bastardo. E isso nos traz grande desconforto. Como povo, somos o resultado de relações ilícitas, ou mesmo forçadas, entre brancos, negras e índias. Somos filhos do estupro, e não nos sentimos bem com isso. Somos filhos bastardos de mãe negra/índia pobre, não reconhecidos pelo pai branco, rico.

Para fugir ao enfrentamento dessa realidade que não nos agrada, INVENTAMOS (ou aderimos a) TRADIÇÕES GRANDILOQÜENTES que nos permitam, num claro mecanismo de fuga, ressignificar nossa identidade, avolumando-a, aprofundando-a, melhorando-a, tornando-a em todos os aspectos superior àquela diante dos nossos olhos, palpável, da qual queremos fugir, a qual nos é desagradável, posto que real.

Como se disséssemos:

"Eu achava que não tinha tradição, mas veja só, 'redescobri' ou 'adotei' uma tradição antiqüíssima, super verdadeira, a mais antiga do mundo!"

"Eu achava que não tinha identidade, mas veja só como é tradicional, antiga, a senda que estou percorrendo!"

Tão mais bonito que assumir-se "católico por imposição, mestiço a contragosto, bastardo sem herança" é o INVENTAR-SE judeu, budista, messiânico, hare krishna, muçulmano, por "resgate" ou "conversão". Psicologicamente para nós, muito mais fácil que encarar uma realidade "desonrosa" é escapar-se dela enveredando por sendas exóticas, idealizadas, distantes no tempo e no espaço, e por impalpáveis, idealizadas, teóricas, "qualitativamente superiores" a tudo o que nos é real, cheio de defeitos.

Foi, é, difícil para mim colocar essa elaboração de idéias por escrito por perceber-me também sua praticante. Também eu, em variadas fases da minha vida, procurei caminhos que me permitissem fugir de mim mesma, de encarar-me em profundidade: amores românticos, identificação com a tradição oriundi, paulista, como bat anussim, noachide. 

Por muito tempo considerei seriamente a possibilidade de me converter ao Judaísmo. Fosse mais fácil, o teria realizado e talvez essa reflexão nunca se realizasse: se eu ocupasse minha mente no aprofundamento numa "cultura mais verdadeira" que a minha própria "gastaria" minha "libido reflexiva" no apreender reflexões de veneráveis outréns. E não no aprofundamento reflexivo em mim mesma.

Muito mais fácil que encarar a mim mesma constatando a fraqueza de minha "parca filosofia" é adotar o escopo interpretativo de gigantes filosóficos testados pelos séculos como Maimônides, Buda, o profeta Muhammad, Jesus de Nazaré.

Como se desistíssemos de investir na meditação própria "terceirizando" essa reflexão, confiando em uma "revelação" feita a doutos terceiros. Por isso é tão confortável, e reconfortante, "abancar-se" numa doutrina religiosa. E quanto mais "tradicional", justificada em sólidos fatos históricos ela for, melhor para nos convencermos de que "esta sim" é a "filosofia de vida real" pela qual devemos nos pautar.

Muito mais simples que executar a árdua, e muitas vezes infrutífera, tarefa do encarar-se em profundidade é o escapar de si mesmo, dirigindo nossos esforços reflexivos para o "aprender o caminho dos outros", adotando uma religião que nos ilude com realizações que o "descobrir às cabeçadas o próprio caminho" pode jamais nos prometer.

Elis Regina (via Milton Nascimento) - Cais http://youtu.be/aHoBvW16q78 
Natiruts - Vamos Fugir http://www.youtube.com/watch?v=iQ2ddk4VOsc 
Vespas Mandarinas - Não sei o que fazer comigo http://www.youtube.com/watch?v=9f5ERVxbcZc 
O Teatro Mágico - Eu não sei na verdade quem eu sou http://www.youtube.com/watch?v=Hlj8EtVoRi8 

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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

Vou-me embora pra Pasárgada - Manuel Bandeira


Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

 

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

 

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d'água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

 

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

 

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.




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sábado, 17 de agosto de 2013

Como melhorar a qualidade dos seus sonhos


Nesta sexta feira 16/08/2013 aconteceu-me algo incrível. Só precisaria dar aulas às 12:30, portanto na noite anterior coloquei meu celular para despertar às 10:00 e às 10:10.

Pontualmente às 8:06 minha cachorrinha Amy acordou-me gemendo aflita, olhei as horas, pensei "putz, tava num baita sonho legal", mas me levantei e abri a porta da casa para ela poder ter acesso ao jardim, caso tivesse vontade de ir ao banheiro. Estava frio. Voltei à cama para aproveitar o tempo que me restava de sono, e deitei com o pensamento "será que consigo retomar aquele sonho?"

Aquele sonho sei que não retomei. Mas tive outro, desta vez interrompido pelo sinal das 10:00, do qual guardo lembrança vívida.

O tema era "passarinhos".

Amy caçava passarinhos, e estava a brincar com um filhotinho de canário amarelo. Eu pegava o filhotinho, surpreendia-me de estar inteiro, e o adicionava à gaiola do meu canário Frank Sinatra. Anda no mesmo sonho, Amy caçava outro canário, desta vez adulto, e eu também o pegava nas mãos e o colocava na gaiola no Frank.

Então, mesmo no sonho, me passou pela cabeça que em inúmeras situações isso se repetira, e à esta altura, já devia estar lotada, com dúzias de pássaros oníricos a gaiola do pequeno Frank.

Então percebi que tenho tido inúmeros sonhos envolvendo pássaros. E, ainda deitada na cama, percebi que o "ruído de fundo" do meu sono era o piado de dezenas de pássaros, de variadas espécies, na jaqueira que faz sombra à minha casa. E que, da área de serviço, já cantava alto, reclamando de ainda estar coberto, o meu pequeno Frank.

Todos estes elementos - Amy caçadora de pássaros, o cantar do Frank, e os piados insistentes dos pássaros na jaqueira - resultavam-me num sonho leve, delicioso, propício e feliz: eu acompanhando a Amy caçando seus passarinhos, e tal qual num "pesque e solte", ao invés de ela os matar, eu os guardava, seguros, a fazer companhia ao já idoso e não tão mais solitário canário Frank, que herdei de meu avô.

Dreamgirl - Dave Matthews Band http://youtu.be/uoS_RYoDwNw

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sábado, 6 de julho de 2013

Dos poodles brancos

Em postagem anterior, relatei a "história de vida" de dois cachorrinhos que tive ( http://inadvertidamente.blogspot.com.br/2010/11/prosaica-elegia-de-jade-e-lucca-meus.html ), como viveram e, tristemente, morreram.

Mas a vida dá muitas voltas, e às vezes parece que torna a nos colocar diante das mesmas situações, como se o tempo fosse cíclico.

Desde o falecimento de Jade, em outubro de 2010, guardei-lhe um longo luto. E por um bom tempo ter outro cachorro pareceu-me fora de questão. Sentia como se ao pegar outro cachorro eu estivesse sendo infiel a Jade, como se ela fosse substituível. E não é, nunca foi.

O espaço que meus cachorros tiveram, têm, em meu coração, jamais poderá ser preenchido por outros, quais sejam. Cada um tem seu lugar em minhas memórias, em meu afeto, e sua falta jamais cessará de apertar meu coração.

Eu nunca comprei um cachorro a dinheiro e sou pessoalmente contra o se comprar filhotes. Lucca, ganhei de presente de meu ex-sogro. Jade foi encontrada perdida na rua. Nenhum deles foi comprado. E eu não compraria jamais um cão.

Quando minha avó Tula faleceu em fevereiro de 2013, me vi completamente sozinha numa casa enorme, que faz eco, cheia de 30 anos de lembranças e muita saudade não só dela, mas também de meu avô Vicente, falecido há 6 anos e meio.

Logo minha mãe Maria José Tomasella, que tem 5 cachorrinhas adotadas da rua, me disse que eu deveria ir atrás de um cachorro, para ajudar com a minha solidão, aplacar um pouco da minha tristeza. Fiquei meio na dúvida, temerosa. Mas aos poucos fui me acostumando à idéia e pensei comigo: "assim que minha situação se resolver e eu mudar de casa, então vou no Centro de Zoonoses e pego um cachorrinho abandonado".

Nós sempre achamos que podemos programar, planejar, "nossa vida". Mas a vida, ah, a vida, sempre nos surpreende, nos atropela, ignora completamente e passa por cima dos nossos projetos. O "nosso tempo" nem sempre é simultâneo, sincronizado, com "o tempo" e os fatos que a vida nos oferece, possibilita. 

Eu não planejava pegar um novo cachorro tão logo, mas a vida me atropelou, com a amorosa intervenção de minha mãe.

Me disse que já há algum tempo ela observava que um casal seu vizinho tinha uma cachorrinha que não era bem tratada. Certa feita, conforme me relatou, estava na porta, quando viu os vizinhos saindo de casa, e a cachorrinha deles fugiu. A esposa, displicentemente, disse ao marido apenas:

- Não corre atrás não, deixa fugir...

Maria José não teve dúvida, correu atrás da cachorra, foi até eles e disse:

- Se vocês não querem a cachorrinha, eu quero! Eu fico com ela.

A o que sua "dona" disse simplesmente:

- Então pode ficar!

Um dia depois o marido dela veio à porta dela e disse que "tinha pensado melhor" e que a queria de volta. Devolveu, mas continuou "de olho". Alguns dias depois, num feriado prolongado, foram viajar, e deixaram a cachorrinha, sozinha, trancada do lado de fora, no quintal. Enquanto estavam fora, a cachorrinha tanto que fez que conseguiu fugir mais uma vez, mas providencialmente Maria José viu, correu atrás e a resgatou, de novo.

Me ligou. Disse que tinha resgatado uma cachorrinha pequenininha, e me perguntou se a queria. Sem titubear, eu disse que sim. Passei no supermercado, comprei ração, latinhas de "patê" para cães, um ossinho de couro, e fui à sua casa pegar minha nova filha.

Maria José me esperava no portão, com um cãozinho branco no colo, em péssimo estado. Me aproximei, ela me passou o cãozinho ao colo e a primeira coisa que pensei foi: "que bom, ele não rosnou, é bem dócil". Ao senti-la nos meus braços, percebi "como está magra, devia estar passando fome". Seus ossinhos saltados cutucavam. Estava emaciada, esquálida.

Lhe dei uma boa olhada então e pensei: "ora bolas, parece ser poodle, será que é mesmo ou vira-lata mista com poodle?" Não tinha como saber, dado seu estado lastimável. Estava muito feia. Tinha o pelo bem longo, todo emaranhado, cheio de nós e bolotas. Em seus olhos, 2 enormes pedras pretas de ramelas de meses, que ninguém limpava. Fedia. 

A meti no carro e levei para casa. No trajeto, pensava em qual nome lhe daria. Após cogitar vários, veio-me um à mente: vendo como era pequenina, cabia-lhe também um nome pequenino, cheio de charme, delicado. Lhe disse em voz alta, como se a estivesse a chamar:

-Amy!

E imediatamente ela atendeu, virou a cabeça e me olhou. O vi como um sinal de que gostou e aceitou este nome, e depois disso nenhum outro poderia ser cogitado. O reputo como homenagem à falecida cantora Amy Winehouse e à personagem do seriado "The Big Bang Theory" Amy Farrah Fowler (Mayim Bialik).

Chegando em casa, como estava suja, não a pude acarinhar como queria. Era feriado, primeiro de maio, e só por isso não a mandei imediatamente ao banho e tosa. Lhe ofereci água e ração. Comeu e bebeu como se não comesse e bebesse há vários dias. Senti meu coração se apertar por isso.

Já estando farta e parecendo mais alegre, lhe disse, mesmo sabendo que ela nada entenderia:

- Olha, agora vc é minha filhinha. Eu te prometo que vc nunca mais vai passar fome nem nenhuma necessidade. Vou cuidar bem de vc, mas em troca vc tem que prometer que vai "durar" pelo menos 10 anos. Vc está PROIBIDA de morrer antes que eu complete 40 anos, viu?!

Como eu ainda não a conhecia bem, nem como seria sua rotina de xixis e cocôs, a mantive a princípio apenas no quintal. Em sua primeira noite, peguei um travesseiro velho para lhe servir de cutcho. "Cutcho" e "cutchar" é uma das poucas expressões italianas que persistiram em nossa família. Equivalem ao "dormir" ou "deitar". Nos primeiros dias, antes de ganhar minha confiança, dormiu no quintal, e não lhe permiti acesso à cozinha.

No dia seguinte de sua chegada, já dia útil, a levei ao pet shop, para banho e tosa. Ao ir buscá-la, era outra! Eu deixara lá uma cachorra bege que eu suspeitava ser mista de poodle. E de lá retirei uma poodle branco-gelo, perfeitinha.

A moça do pet shop, que se lembrou ao me ver da época em que lá mesmo eu deixava o casalzinho Jade e Whiskey, disse:

- Eu acho que essa cachorrinha nunca tinha sido tosada, teve medo da maquininha, do secador. E ela estava cheia de carrapatos. Tiramos, mas vc deve ver isso.

Fui direto ao melhor pet shop da cidade, com a pequena Amy no colo. Por primeiro, comprei-lhe um carrapaticida. Depois, como ela não aparentara simpatizar muito com o travesseiro velho, talvez por estar cheio do cheiro do suor de várias pessoas que ela jamais irá conhecer, me pus a selecionar-lhe caminhas.

Como minha idéia a princípio era de que ela dormisse do lado de fora, no quintal, mas não queria que passasse frio, fui ver as em formato de iglu. Não queria uma "caminha", mas uma "casinha". As de madeira não me pareceram suficientemente confortáveis e fui ver as de tecido, todas acima dos 100 reais. A vendedora disse que os cachorros costumam "não gostar muito de casinhas fechadas", preferindo caminhas, mas atalhei: "é que ela vai dormir no quintal, quero protegê-la do frio".

Com sua ajuda, escolhi uma grande, bonita, bem quentinha. Na seção de coleiras, experimentamos algumas até nos decidir por uma bem "gracinha", lilás. Eu já estava no caixa quando a vendedora que me ajudara a escolher o tamanho certo da casinha, me abordou:

- Ela assim tosadinha não vai passar frio dormindo no quintal? Pq vc não leva também uma roupinha?

Normalmente eu não aceito nenhuma dica de "vendedores", sempre na sanha por vender mais e mais. Mas na inflexão de sua voz percebi uma preocupação genuína de um "dog lover"; e aquiesci. Com sua ajuda, experimentamos na pequena Amy algumas roupinhas até chegar a uma rosa-choque, xadrez, que levei.

De volta em casa, ela agora limpinha e bem tosada, a pude abraçar, pegar no colo e acarinhar. Em alguns dias, auferi que ela tinha algum nível de "consciência" sobre higiene, fazendo suas necessidades no ponto extremo do quintal, onde deveria, mesmo que eu não a tivesse instruído a isso.

Quando percebi que ela não faria suas necessidades no meu quarto, passei a permitir que dormisse comigo, no quentinho, na intimidade do "quarto da mamãe". Apesar da preocupação da vendedora, Amy a-do-rou sua casinha em formato de iglu, nela se sente muito confortável e segura. É com certa alegria que quando ralho com ela por algo que não gostei, a vejo correr e se refugiar na casinha, pois lá se sente segura de todos os "perigos".

Percebi nela alguns traumas, como o de vassouras. Logo da primeira vez que peguei vassoura e pá para recolher suas necessidades, ela fugiu, com medo. Meu coração apertou. Também, ao trocar de sapatos, quando ela me viu com o chinelo na mão, imediatamente fugiu, se refugiando na casinha, tremendo de medo. Hoje, que ela já está comigo há 2 meses, isso não mais acontece. Ela já sabe que eu não usarei nem a vassoura nem o chinelo para lhe bater, e não mais fica com medo quando me vê com eles na mão. 

Foi com muita dor no coração que então constatei o quanto ela era terrivelmente maltratada em seu antigo lar. Não só passava fome, mas também era agredida, e abandonada à ação livre de parasitas, sem os devidos cuidados de saúde e higiene. Como tinham coragem de tratar tão mal a uma cachorrinha tão boazinha e delicada, com menos de 3 quilos?

Maria José me disse que quando finalmente voltaram de viagem seus vizinhos, foi lhes perguntar da cachorrinha, a o que a antiga dona disse com displicência:

- Ah, fomos viajar e ela fugiu. Achei até bom, uma preocupação a menos, ela tava cheia de carrapatos, dava muito trabalho.

Trabalho?!... Depois disso, vi que seus antigos donos não sentiam nenhuma falta dela, e que a partir de então podia ficar descansada de que não a queriam de volta. Isso somado aos maus tratos de que era anteriormente vítima, por parte deles.

Desde a chegada da pequena Amy, percebi nela apenas 2 "defeitos":

1 - Ela é fujona MESMO. No começo, acostumada que sempre estive a cachorros "tranquilos", que jamais tentaram fugir, abria o portão e a deixava livremente "dar uma conferida" na rua. No primeiro mês, ainda insegura e temerosa, nem saía da frente de casa.

Mas logo aprendi que não devia "dormir no ponto" com ela. Ao receber amigos de visita, enquanto eles entravam com as malas, Amy se afastou na rua. A chamei "Amy!" E ela prosseguiu a se afastar. Chamei de novo e de novo. Minhas chamadas apenas pareciam fazer ela ir mais longe. Quando a vi 5 casas adiante, fui atrás. Ela correu mais longe, em direção à Avenida Perimetral. E quanto mais eu ia em sua direção e a chamava, mais longe ela corria.

Cruzou a avenida, para meu desespero. Corri atrás dela, deixando atrás meus visitantes desconcertados. Vendo-a ir em direção ao Rheder Netto, vendo que gritar "Amy!" em tom de desespero apenas a fazia correr mais longe, disse bem alto, em tom doce:

- Vem colinho!!!

Como mágica, ela deu meia volta e veio em direção aos meus braços. Ufa!

Semanas depois, recebi a visita de outra amiga. Resolvemos sair, à pé, até a rotisserie da esquina, pegar um marmitex. Enquanto saíamos, decidi deixar a pequena Amy na garagem, pois voltaríamos em coisa de 10 minutos. Saímos. Enquanto escolhíamos dentre as opções, Amy entrou no estabelecimento e meu sangue gelou:

- Como vc chegou aqui?!

Achei que tinha deixado o portão aberto. A peguei no colo. O segurança da rotisserie disse:

- Ela é sua? Foi por sorte que não foi atropelada. Cruzou a avenida 3 vezes antes de entrar no restaurante.

A trazendo de volta pra casa, encontrei uma vizinha, com quem pouco converso:

- Ela te achou? Graças a Deus! Vi ela passando pelo portão, e não consegui pegar, pois ela correu!

Chegando à porta, vi que o portão permanecia trancado. Perguntei à vizinha:

- Mas ela passou por entre as frestas do portão? Mas como?!

- Não sei como, mas vi ela se espremer, se retorcer, até passar!

Então vi que não poderei, jamais "dormir no ponto" com a pequena Amy. E minha amiga falou:

- Vc escolheu o nome certo! Ela é loki, maluquete tal qual a Amy Winehouse!

2 - Amy tem instinto caçador. Especialmente a respeito de passarinhos. Desde o primeiro dia deixou claro que acha apetitoso e tem muita vontade de comer o canário do meu vô, Frank Sinatra. Ela lambe os beiços quando o vê e fica pulando, tentando alcançar sua gaiola. Também aos pardais e pombas da rua quer comer.

Quando saímos para passear, fica en-lou-que-ci-da com todos os pássaros que vê. Quer correr em sua direção e devorá-los. Talvez pq em sua casa anterior passasse fome e "complementasse sua alimentação" caçando passarinhos. É com muito esforço e cuidado que tenho mantido o pequeno Frank longe do seu alcance, tentando em vão convencê-la de que ele é "irmãozinho" e não comida.

Fora ela ser fujona e querer comer meu canário, só tem qualidades. É dócil, amorosa, carente, obediente, higiênica, linda e carismática. Mas, sobretudo, me ama. Incondicionalmente.

Chegar em casa e ter "alguém" que se alegra, efusivamente, em me ver, trouxe um novo colorido à minha vida. Eu já tinha meio que esquecido o quanto isso é bom. E de como é doce o som de um cachorrinho se sacudindo, fazendo aquele barulho típico das orelhinhas batendo.

Eu havia me esquecido de como é boa a sensação de acarinhar um cachorrinho entre os braços. De como é gostoso ver um cachorrinho se espreguiçar, bocejar e se abandonar, bem leso e molinho, entre seus braços, seguro de que está "no colinho da mamãe". De como é bom virar e revirar um cachorrinho no colo enquanto ele te lambe a abana o rabinho.

Mas, além disso, de como é bom, ao fazer tudo isso com minha pequena Amy, lembrar-me que também o fazia, de igual forma, com Jade e Lucca. De certa forma, ao abraçar Amy, me sinto também abraçando aos dois poodles brancos que tive antes dela.

Ao ter essa sensação nostálgica, a cada vez, agradeço o belo gesto de minha mãe ao reservá-la para mim. Ela poderia ter pego a Amy para ela. Mas, ao vê-la poodle branquinha, sabendo que eu já tivera 2 poodles branquinhos, soube que ela seria perfeita para mim.

E é. Racionalmente, eu teria preferido pegar um vira-latas, sem raça definida. "Cai melhor" a uma pessoa com meu discurso e postura ter um vira-lata. Pois quem me ver ao lado de Amy jamais pensará que ela foi resgatada, mas sim comprada, e como disse acima, sou contra o se pagar dinheiro, comprando, um cão, como se fosse mercadoria.

Meus 2 poodles anteriores, não os peguei por serem "de raça". Lucca ganhei. Ser "de raça" (duvidosa) foi surpresa. Jade fôra resgatada, prenhe. Ser "de raça" também foi surpresa. Igualmente, Amy não "escolhi por ser de raça". Ganhei de presente da minha mãe. Ser "de raça", poodle toy, branquinha, foi uma feliz e bem-vinda, "coincidência".

Sei que tê-la me fará ser obrigada a alugar casas um pouco maiores e mais caras, e isso custará alguns milhares de reais a mais por ano. Mas já não consigo imaginar minha vida sem ela, que já considero minha filhinha. É com prazer que trabalharei dezenas de horas a mais, para sustentá-la.

Amy me traz alegria, sorrisos, paz, tranquilidade. Aplacou minha solidão. Desde sua chegada, comecei a ver a vida de outra forma, vislumbrando um futuro. Agora tenho um compromisso ao qual não pretendo faltar, jamais. Tenho uma obrigação com ela. Assumi um compromisso de lhe proporcionar um lar confortável, seguro, comidinha da melhor, e muito carinho.

Ao menos pelos próximos 10 anos, enquanto minha pequena Amy viver, tenho um bom, um ótimo, motivo para continuar na luta. Antes dela, voltar pra casa era melancólico. Tudo o que me esperava era o vazio, a saudade, a tristeza, o luto, os fantasmas do passado.

Hoje, quando volto pra casa cansada do trabalho, já chego com um sorriso. Antes de terminar de estacionar o carro ouço os latidos de Amy, alegre de que a "mamãe" voltou. E me sinto feliz em voltar e ter "alguém" que está a me esperar e me recebe com felicidade. E ela é contagiosa!

Obrigada, mãe, obrigada, Amy, por tornarem minha vida muito mais feliz!

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sábado, 25 de maio de 2013

Para gostar de cinema


Do primeiro filme iraniano, a gente nunca esquece. Também de nossos primeiros clássicos do cinema, daqueles filmados muitos anos antes de a gente sonhar em nascer. Filmes que são "clássicos" pela mesma razão que os "grandes livros" o são: tocam em "nódoas" emocionais inefáveis, muito difíceis de explorar em palavras, que apenas podem ser expressas por "parábolas", histórias exemplares em sua peculiaridade, mas epistolares em sua generalidade, que extrapolamos a nossa vida particular.

Eu tive a sorte de crescer numa casa chefiada por uma cinéfila. E não daqueles cinéfilos "metidos a intelectuais" que selecionam filmes por sua exclusividade, erudição e aparente incompreensibilidade. Para essas pessoas, quanto mais "difícil" o filme, tanto melhor.

Minha avó Tula era uma verdadeira amante da sétima arte. Inúmeras vezes me relatou como se lembrava com saudade de suas idas ao cinema ainda mocinha, na época em que as pessoas ainda não tinham televisão em casa. Contava com muita alegria dos grandes musicais que assistia com sua mãe e avó. Alguns desses filmes, protagonizados pelo galã Nelson Edy, compramos em DVD poucos anos antes de sua morte, e ela adorava reassisti-los no domingo à tarde, cantarolando suas músicas e dizendo entre suspiros:

- Não se faz mais filmes românticos como esses!

Quando eu era criança, ainda não existia TV a cabo no Brasil, e não fosse a cinefilia de minha avó, só teríamos a "Tela Quente" e os filmes pasteurizados da "Sessão da Tarde" à disposição. Mas ela nunca se contentou com isso.

Éramos uns dos melhores clientes da videolocadora, e muitas são minhas memórias de ainda criança indo acompanhá-la na seleção dos filmes que veríamos.

E não apenas de blockbusters, grandes lançamentos do cinema, eram feitos nossos fins de semana. Tula tinha ótimo gosto. Alugava filmes bons, de diversas origens. Adorava os chineses, sendo o "Clube da Felicidade e da Sorte" seu chinês predileto, mas igualmente com espaço para o "Clã das Adagas Voadoras", "Lanternas Vermelhas", "Adeus, minha concubina", "Comer, beber, viver"...

Também apreciava filmes europeus, um em especial de que me lembro foi a "Festa de Babbette", acompanhado de "7 noivas para 7 irmãos". Filmes considerados "obscuros", em preto e branco, como "Hellen Keller", tb eram sempre uma boa pedida em nossa casa. Todos os filmes de Romy Schneider dedicados à Imperatriz Sissi da Áustria, assistimos. Na mesma senda, também tenho bem gravado na memória "Os jovens anos de uma rainha", sobre a juventude da rainha Victoria da Inglaterra.

Também filmes de Hollywood, mas com grande qualidade, sempre figuravam em casa, como "A volta ao mundo em 80 dias", " Passagem para a Índia", "Duelo ao Sol", "Pimpinella Escarlate", "Indochina"...

Surpreendentemente, gostava muito dos filmes de Oliver Stone, e tínhamos em casa toda a sua trilogia sobre o Vietnã: "Platoon", "Nascido em Quatro de Julho" e "Entre o Céu e a Terra".

Cedo adquirimos dois videocassetes, e sempre que alugávamos filmes, fazíamos uma cópia, para reassistir sempre. Desta época data minha paixão pelo maior dos clássicos do cinema "... E o vento levou". Assistir e reassistir a este e outros filmes maravilhosos foi uma experiência definidora de minha personalidade.

Nunca vou me esquecer de quando alugamos "Acusados", clássico com Jodie Foster muito jovem. E de como fui "pega no pulo" por meu avô Vicente ao ver esse filme, pois chegou na sala justamente na cena mais violenta, a do estupro. Eu tinha uns 7 ou 8 anos, mas já sabia que não devia estar a assistir um filme "tão pesado". Tentei disfarçar, parei o filme assim que o percebi me supervisionando, mas não foi o suficiente para impedi-lo de depois recriminar minhas irmãs mais velhas e até à Tula por me permitirem ver um filme com cenas tão "gráficas".

Igualmente nunca me esquecerei da experiência de ver "As duas vidas de Audrey Rose", com um jovem Anthony Hopkins, e de como me abalou o suplício de Ivy, morta em uma sessão de hipnose, comprovando a "verdade" da reencarnação.

Mas também nunca me esquecerei de meu primeiro filme islâmico "cabeça". Para quem nada entende da empoada cultura dos cinéfilos, não há nada mais hype, mais "chique" que assistir a um filme obscuro off-Hollywood. E várias foram as ocasiões nas quais, já adulta, fui convidada por intelectualóides que queriam reforçar sua "finesse" divulgando aos outros que "assistiam a filmes iranianos", turcos, indianos: quanto mais longínqua a origem, tanto mais "intelectual" era o expectador.

Mas minha vó não era do tipo de pessoa que "assistia a filmes iranianos só pq eram iranianos, e isso é très chic". Ela assistia a filmes que fossem bons, se não eram mainstream, era só detalhe, que ela nem levava em consideração.

E assim chegou à minha vista o maravilhoso filme turco "Berdel". Eu era criança, e só o fui compreender plenamente muitos anos depois. O filme retratava uma situação familiar islâmica: um homem casado há muitos anos tinha apenas filhas mulheres. Querendo muito ter um filho homem, faz uma troca: entrega uma de suas filhas em casamento a um colega, e em seu lugar recebe como esposa uma parente dele. A nova esposa é muito mimada, na esperança de que providencie o filho homem que ele tanto queria. Ela engravida, e é cumulada de presentes. Sentindo-se relegada, sua primeira esposa sai de casa, e só depois se descobre grávida. Ao nascer o bebê da segunda esposa, a "má" surpresa: mais uma menina. Meses depois nasce o bebê da primeira esposa, já separada: finalmente vem o varão tão esperado, e sua mãe morre no parto. O arrependimento do pai dessa família, ao perceber que havia "desancado" a primeira esposa, que morrera ao lhe dar o "filho homem" tão sonhado é uma daquelas coisas, daquelas experiências estéticas e emocionais, que não tem preço, e que aprofundam nossa alma em muitos centímetros.

Desde criança, eu sempre soube valorizar essa cultura cinematográfica ampla que a convivência com minha avó amante do bom cinema me proporcionou. Enquanto meus amigos apenas podiam citar e se lembrar dos "sucessos do cinema" do dia, eu era bem versada em todos os grandes clássicos. Antes dos 12 anos já categorizava os filmes por diretor, e dizia coisas como:

- Kubric é uma experiência pós-moderna. Woody Allen é irônico. Tim Burton é tétrico. Steven Spielberg, pega pela emoção. Já David Lynch é surreal.

Zefirelli, Antonioni, Bertolucci, Fellini, Costa-Gravas, Hitchcock, Scorsese, Tarantino, Polanski, Chaplin, Coppola, Buñuel, Bergman, Milos Forman, Akira Kurosawa, Kieslowski, Ridley Scott, George Lucas, Truffaut, Orson Wells, Billy Wilder, Win Wenders, Attenborough, Pollack, Tornattore, Herzog, Brian de Palma, Zemeckis, James Cameron, Almodóvar e Hector Babenco, eram meus "companheiros", minhas referências culturais, meus "amigos íntimos".

A todos esses conhecia mais que a meus vizinhos, e de sua "visão de mundo" já me sentia bem versada. "Ver a vida" pelos olhos, pelo escopo, desses grandes cineastas foi uma experiência determinante, transformadora, enriquecedora. Ampliou minha visão, minha interpretação, minhas possibilidades diante da vida.

Crescer exposta a essas experiências estéticas aumentou em centenas de matizes minhas possibilidades de expressão, compreensão, fruição. Meus tons de cinza que separam o "certo" do "errado" ganharam mil complicações, mil discursos, mil viezes, mil possibilidades.

Hoje, que se completam 3 meses do falecimento de minha avó Tula, venho mais uma vez prestar homenagem e dar graças por ter tido em minha vida uma pessoa que tão bem me influenciou, que tantas experiências diversificadas e enriquecedoras me proporcionou. Muchas, muchas gracias, mais uma vez, por tudo, Tula. Sua presença, sua influência, é fundamental para mim. E sempre será.

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sábado, 11 de maio de 2013

Da chupeta

Chupeta é um acessório de plástico que simula o bico do seio materno, e é usado como forma de "acalmar" aos bebês quando choram. A chupeta é o primeiro engodo que os pais fazem aos filhos. Ao enfiar esta peça plástica na boca da criança, ela instintivamente começa a sugar, na esperança, vã, que dela há de sair leite. E ainda que não saia leite algum, prossegue a sugar.

Alguns consideram que o uso de chupeta é o primeiro vício a que somos expostos. E alguns pais relutam, ou mesmo simplesmente se negam a fornecer este objeto ao bebê. Há inúmeras teorias a respeito.

Mas este não é um texto antropológico sobre este objeto, mas o relato de como eu, particularmente, a deixei para trás. Sim, mesmo já tendo 30 anos, ainda me lembro do exato dia em que deixei de usar chupeta.

Foi tardio. Eu contava 6 anos e já há muito tempo vinham me amolando para que eu não mais a usasse. Embora a chupeta seja um acessório para bebês, é comum que crianças passadas dos 3 anos tenham grande dificuldade em prescindir dela. Especialmente se foram precocemente desmamadas, e, como eu, tenham sofrido traumas de separação. 

Eu era bastante carente emocionalmente e a chupeta era uma muleta, que me trazia segurança e conforto. Não conseguia viver, nem dormir, sem ela. Conforme eu crescia a pressão familiar aumentava, e até eu percebia que chupeta era coisa de criança, e usá-la tornava-se mais e mais inadequado, conforme eu deixava de ser um bebê.

Mas já aos 5, 6 anos eu já era exatamente a mesma Fernanda que sou hoje, que não aceita ser comandada, não acata ordens, e não se conforma em ser manipulada para qquer direção que não a que eu queira seguir. Nenhuma chantagem, conversa ou ameaça infantilóide me faria abdicar da chupeta. Apenas uma pessoa seria capaz de me convencer disto: eu mesma.

E foi apenas quando eu mesma percebi o quanto seria cada vez mais ridículo prosseguir a usar chupeta que me decidi a abrir mão dela, e anunciei aos meus familiares: 

- Vou usar chupeta até meu aniversário de 7 anos, depois disso, vou parar.

Eu tinha 6 anos. Mas então, como hoje, meu dito já valia um escrito. Eu já era uma pessoa de palavra, e eu mesma tinha me convencido de que abdicar da chupeta era conveniente e necessário. Marquei uma data, estabeleci um compromisso.

E o cumpri. O dia 29 de dezembro de 1988 foi o último no qual me permiti aproveitar desse acalanto artificial, desse enganoso prazer do se sugar um bico de seio plástico, que nada nos traz além de ilusões vazias.

Demorou muito mais tempo para eu perceber outras ilusões vazias, feitas de sonhos e expectativas que jamais se realizariam. Demorou muito mais tempo para eu perceber que, assim como não importava o quanto eu sugasse, nenhum alimento sairia da chupeta, não importava o quanto eu exigisse, aos prantos ou aos gritos, amor de quem deveria, por "obrigação social" me dirigir este sentimento, eu nunca o receberia.

Demorou para eu perceber que se vc precisa EXIGIR amor de alguém que o deveria dar voluntariamente, vc está a esmurrar uma parede achando que ela é uma porta: não importa o quanto vc bata, ela jamais irá se abrir. O amor deve necessariamente ser voluntário. Se quem o deveria te dar não o dá, de nada adianta se revoltar, protestar, gritar aos quatro ventos. Ou a pessoa te ama pq ela quer ou ela nunca te amará.

Demorou, muito, para eu perceber que de nada servia eu reclamar do desamor, falta de cuidados e descaso de minha mãe biológica. Nenhum protesto meu faria Regina "cair em si" e virar uma "boa mãe", pois ela já era uma péssima mãe antes mesmo de eu nascer, já tendo abandonado 2 filhas. Aliás, ela não pode ser chamada de uma "mãe boa" ou "mãe ruim" pois ela sequer atinge ao patamar de "mãe" para então ser adjetivada como "boa ou ruim".

Neste dia das mães, data comercial mas significativa para muitos, é como um ato de superação pessoal que, assim como aos 6 anos de idade resolvi, para todo o sempre, deixar para trás o vício da chupeta, tb procurarei deixar para trás o vício de me lembrar de Regina. Colocarei uma pedra sobre ela, assim como coloquei sobre a chupeta. A deixarei para trás, no passado, na lixeira, no esquecimento. Ela foi demitida por justa causa.

Minha mãe, a partir de hoje e para todo o sempre é Maria José Tomasella. E será dela que eu falarei quando disser a palavra "mãe". Já explorei à exaustão diversos dos motivos que me levaram a desconsiderar Regina, a deletá-la de minha vida. De hoje em diante, procurarei NUNCA MAIS me lembrar dela. E sempre que, de hoje em diante, os leitores aqui lerem a palavra "mãe", é de Maria José Pereira da Silva Tomasella que estou a falar.

Se com 6 anos meu dito já valia um escrito, aos 30 anos, meu escrito vale um compromisso. Pétreo. De hoje em diante, "Regina" é um assunto superado para mim. Ficará num passado triste que procurarei nunca mais revisitar.

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sábado, 27 de abril de 2013

O carro perfumado

Era 1995. Eu contava 12 anos e passava pela parte mais difícil de minha vida. Não por ter 12 anos e estar em plena efervescência hormonal. Mas por viver num ambiente muito pouco propício a um saudável desenvolvimento psicológico, de qualquer pessoa.

Morava à rua Pedro Pires, 427, Vila Carrão. O pior endereço, de longe, no qual já tive a má sorte de residir. Não pela localização, não pela casa, mas pelas pessoas q comigo moravam. Eu residia com minha ex-mãe, Regina, e com seu amásio, R. 

Certo domingo eu havia combinado com minha amiga Luciana, que estudara comigo na quinta série, e que não mais era minha colega, de irmos ao cinema do Shopping Aricanduva. Vivendo na megalópole "Sampa", bastante intimidadora para qquer tipo de deslocamento de uma pessoa inexperiente que poderia com muita facilidade "se perder para todo o sempre". Eu avisara no dia anterior a Regina deste combinado, e estava tudo certo para ela me levar ao shopping, eu encontrar minha amiga e com ela ver o filme enquanto Regina dava umas voltas e fazia umas compras por lá mesmo a tempo de eu sair da sessão e voltar com ela para casa. Tudo muito certinho.

Mas na manhã de domingo, não lembro ao certo o motivo, Regina resolveu que iria "me punir" por alguma coisa que eu havia ou não havia feito não mais me levando ao shopping. Chocada e em protesto, lhe disse algo como:

- Mas já estava tudo combinado! Já confirmei com a minha amiga que eu vou! Ela vai ficar muito brava se eu não aparecer!

Ao que Regina deu de ombros, e disse:

- Vá de ônibus!

Com frescos 12 anos, eu não tinha a menor idéia de como chegar de ônibus ao Shopping Aricanduva. E em 1995 ainda não havia internet como hoje, em que num simples click podemos tirar esta dúvida, nem nada que se parecesse com o GPS, ou Foursquare...

A discussão foi crescendo a um ponto em que percebi que Regina "amava mais" seu carro do que a mim, e que valorizava por demais seu próprio descanso, em detrimento de qualquer aspecto de minha vida. Eu tinha 12 anos, mas já era bem a mesma Fernanda que sou hoje. Num rápido lapso, pensando o que a poderia "abalar" e fazer capitular, subi as escadas como um raio, entrei em seu quarto e, bufando, tranquei a porta. Pensando em que tipo de retaliação lhe poderia fazer, vi em cima do gaveteiro contraposto ao espelho seu único vidro de perfume, enquanto Regina esmurrava a porta.

O peguei, fui até a varanda que dava para a garagem no andar de baixo e comecei a gritar, com todo o destempero do peito aberto de uma adolescente:

- Você ama essa p***a deste carro muito mais do que a mim! Quer saber, já que vc ama tanto a p***a deste carro, vou encher ele de perfume!

Regina, vociferava a esta altura já da garagem, do andar de baixo. Lembro-me até hoje do exato tom de azul bebê daquele frasco de "Tathy" do Boticário enquanto eu percebia: "se eu tacar o perfume fechado no carro, vai espatifar o para-brisa, ou amassar o capô, e isso vai dar uma merda enorme!" Então, inteligentemente, não taquei o vidro fechado sobre o carro, desenrosquei a tampa e, com prazer venenoso, despejei todo o seu conteúdo sobre o capô, enquanto Regina assistia boquiaberta.

- Agora seu carro tá bem perfumadinho!

Enquanto Regina subia e descia as escadas maniacamente, esmurrando a porta de vez por outra enquanto berrava descontroladamente coisas absurdas de qualquer mãe dizer a uma filha, peguei o telefone de seu quarto e liguei para Luciana:

- Minha mãe tá dando chilique aqui em casa e não vai mais me levar pro cinema, não vou poder ir.

Luciana, que também tinha seus problemas, me compreendeu, e disse:

- Vou pedir pra minha mãe passar na esquina da sua casa 13:30. Se vc puder sair, esteja lá e minha mãe te leva!

Lhe dei mil agradecimentos e falei que faria o possível. Num dos intervalos em que percebi que Regina estava no andar de baixo, rapidamente destranquei a porta, corri pro meu quarto e tranquei a minha porta. Peguei minha mochilinha com minha carteira, dinheirinho e documentos e fiquei "de tocaia". Ela veio esmurrar minha porta mais uma ou 2 vezes enquanto gritava impropriedades. Uma hora depois, ainda em tempo de ir ao cinema, ouvi o barulho do chuveiro no andar de baixo. Como seu amásio não estava em casa, percebi que Regina estava momentaneamente "fora de combate", peguei minha mochilinha, minha chave, e saí.

Esperei por mais de uma hora na esquina até que o carro da mãe de Luciana parou para me pegar. Consegui controlar o choro e quando ela me perguntou o que tinha acontecido, disse:

- Prefiro não falar sobre isso. Vamos mudar de assunto.

Sua mãe nos deixou no shopping, lhe deu um beijo, 20 reais, e disse:

- Me liga quando terminar a sessão que em meia hora eu te pego aqui mesmo.

Muito sorridentes e independentes, fomos ao cinema e vimos à (péssima) fita Debi & Loyd. A final do filme, enquanto íamos ao banheiro, disse a Luciana:

- Eu não queria voltar ainda pra casa, podemos ver mais um filme?

Ela me deu um meio sorriso de comiseração, daqueles que a gente nunca gosta de receber, e disse que tudo bem, ainda eram 4 horas, cedo, mas que tinha que ligar para sua mãe para avisar, se não ela ficaria preocupada.

Depois de ligar, me disse se eu não devia também ligar para minha mãe, pois ela poderia se alarmar com minha "demora extra", ao que eu disse que não era necessário. Voltamos ao cinema e assistimos à (razoável) fita "Ninguém Segura Este Bebê".

Saímos, muito alegres, ela ligou para sua mãe vir nos buscar, comemos alguma coisa, e quando fomos ao lugar combinado, percebi que já era noite. Enquanto sua mãe tomava o caminho da minha casa, me passaram na cabeça mil cenários do que poderíamos encontrar, afinal, eu saíra antes do almoço sem avisar, eu tinha 12 anos, e já era noite. Teria Regina chamado a polícia para me reportar como desaparecida? Teria Regina "convocado" familiares ou psicólogos para uma intervenção? Estaria ela me esperando sentada no sofá, com o pezinho balançando, para uma "conversa séria e definitiva"?

A mãe de Luciana me deixou na esquina e dei um suspiro de alívio ao perceber que não havia nenhuma viatura na porta de casa. O carro de Regina continuava na garagem, exalando um cheiro nauseante de Thaty. Girei minha chave na porta de entrada com um calafrio, de se daria de cara com ela na sala. Ufa! Não! Ninguém na sala.

Rapidamente corri pelas escadas, e enquanto passei pela frente de seu quarto com a porta fechada, ouvi que sua TV estava ligava. Corri e me tranquei no meu quarto, o sangue gelando nas veias: se daria tempo de trancar a porta antes que ela invadisse o recinto e me batesse. Tranquei e sentei no chão, contra a porta, com a certeza de que logo ela viria me dar um sermão de como ela tinha ficado preocupada e desesperada com o meu sumiço. Um, 2, 3 minutos, nada.

Fui para a cama, repassando os acontecimentos do dia. Meia hora, uma hora, 2 horas, nada!

Depois foi 1 dia, 2 dias, uma semana, nada! Ela simplesmente nunca mais tocou no assunto.

Eu tinha 12 anos mas já sabia que a pessoa responsável por ter "conversas sérias" comigo estava pouco se lixando em ter "conversas sérias" comigo e me dar orientações para a vida. E que a pessoa que mais deveria "se preocupar comigo" e cuidar de mim estava pouco se lixando para qualquer coisa minha.

Este foi o pior endereço em que morei e as pessoas que comigo lá moravam as que tive a maior infelicidade em conhecer. Esse foi o período mais triste de minha vida.

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sábado, 6 de abril de 2013

De Guedes

Spoil alert: não leia caso não queira se decepcionar com minhas pequenezes adolescentes.

Era 1998. Eu tinha 15 anos e acabara de entrar no Ensino Médio. Estudava na EE Prof. José Marques da Cruz, na Vila Formosa, zona Leste de São Paulo, capital.

Na oitava série, eu completara o Ensino Fundamental ao lado de meus até hoje muito amigos Maristela, Romeu, Gisele e Thaís. Na passagem para o Colegial, Thaís e Gisele se matricularam em outras escolas, mas Romeu e Maristela se matricularam no "Jomacruz" junto comigo, e caímos na mesma sala. Rapidamente nosso "trio parada dura" virou um "quarteto fantástico" com a adição de Francisco Eduardo, o "Chico" ou, para mim, "Chicote".

Em nossa sala de aula havia pelo menos outros 30 alunos, e um deles demonstrava profundo interesse em se tornar o "quinto elemento" do nosso quarteto: TGO, adiante denominado "Guedes", seu apelido, pelo qual já o chamávamos à época.

Os 2 membros masculinos de nosso grupitcho são homossexuais, e embora à época fossem um tanto "jovens demais" para fazer uma corajosa "saída do armário", já era perceptível, e nenhum dos dois disfarçava, que "aquela Coca era Fanta". Também o Guedes era homossexual, mas bem mais afetado que os dois: era, desculpem-me a expressão, uma "bichona", bem efeminada.

Mas, surpreendentemente, seu alvo de interesse em nosso grupo não era nem Chico nem Romeu, mas eu. Não fosse o Guedes gay, eu pensaria que ele estaria com alguma paixonite por mim. E até me perguntaram isso certa vez, ao que respondi:

- O Guedes não quer namorar comigo, ele quer SER EU.

Ele me imitava, adulava, babava meu ovo, ria de tudo o que eu falava, e também o levava tudo muito a sério, puxava meu saco, até um ponto que chegava a ser irritante. Essa sua subserviência me incomodava. Era chato falar as coisas sabendo que ele não as analisaria, simplesmente as aplaudiria, nunca discordaria de mim, nem me enfrentaria, em nada. Não era isso, definitivamente, o que eu procurava em um amigo. Eu procurava pessoas "firmeza", interessantes, com personalidade. E Guedes era um "Maria vai com a Fernanda", que nada me acrescentava.

Eu tinha 15 anos e a maturidade psicológica de uma ervilha, e não me orgulho hoje do que relatarei a seguir.

Percebi que eu poderia "me aproveitar" do "rabinho sempre abanando" deste candidato a amigo. Então lhe disse: "tá bom, se vc quer ser meu amigo, então de hoje em diante vc vai carregar minha mochila e meu material." E ele aquiesceu com um sorriso, como se tivesse sido promovido a minha "dama de companhia". E por várias semanas eu tive um courier, sempre a postos para carregar minhas coisas.

Até que o Guedes fez ou falou alguma coisa que eu não gostei, não lembro exatamente qual foi o motivo, e eu decidi que não queria mais amizade com ele. Mas ele continuou a insistir que queria ser "readmitido" no grupo. Conforme ele não cansava de apelar a Maty, Romeu e Chico, resolvi fazer o seguinte: estipular condições que ele não aceitaria pro prosseguimento de nossa amizade. À época já fumávamos, todos, e eu impus como condição: para falar comigo, ele teria que me entregar toda segunda feira um maço de cigarros, o que garantiria que eu falasse com ele durante a semana.

Eu achava que ele ia rir e falar "de jeito nenhum", finalizando a questão. Mas para minha grande surpresa ele topou, e por algumas semanas eu não precisei mais me preocupar em comprar cigarros, pois o Guedes mos dava, em troca do simples prazer de poder falar comigo.

Eu o destratava, era irascível com ele, na esperança que ele se posicionasse: "estou farto, chega!" Mas não, ele alegremente me entregava um maço de cigarros toda semana e ainda solicitamente se oferecia para carregar meu material, o que só aumentava minha exasperação.

Então resolvi endurecer ainda mais "as condições" para eu "me dignar a dirigir-lhe a palavra": um maço de cigarro não bastava, daquele dia em diante, eu queria semanalmente um maço de cigarro mais 10 reais. E em 1998 R$10,00 era muito mais do que "déis real" hoje...

Eu esperava que ele dissesse "No Way", mas mais uma vez, para meu assombro, ele aquiesceu. E eu simplesmente não acreditei quando na segunda feira seguinte, ele me entregou logo ao me ver à 6:55 da matina, o maço de Marlboro Lights mais uma nota novinha de "dez conto". Também disso desacreditaram Chico, Romeu e Maristela.

Nenhum deles comigo, por "minha amizade estar à venda", pois minha amizade nunca esteve à venda, mas com a absoluta falta de dignidade do Guedes em aceitar as condições absurdas que eu estipulava. Pois amizade, por definição, deve ser incondicional.

Provavelmente o Guedes achou que aqueles dez reais lhe garantiriam meus sorrisos e simpatia, o que não ocorreu: prossegui a desdenhá-lo. Ao final da terceira semana ele finalmente disse que estava farto, e não daria prosseguimento ao nosso "escambo" de afinidades. Fiz um "Ufa!" interno, pois se ele jamais tomasse uma posição, eu só prosseguiria em minha escalada de condições cada vez mais absurdas, e talvez na próxima semana eu passasse a lhe cobrar 20 reais mais o sagrado maço de cigarros.

Ele parou de me adular e de insistentemente tentar entrar em nosso grupo, e jamais vi qualquer outro motivo para readmiti-lo. Eu não via nele nenhuma "substância", "desafio", "personalidade" ou "doçura" que me fizesse querer me aproximar. Eu não via nele nada de "interessante", ou diferente. Eu não via nada que ele pudesse "me acrescentar". Eu nunca quis um "puxa-saco" nem um séquito, uma entourage, de aduladores. E era justamente esse papel que Guedes queria ter, o que muito me irritava. Não me importava que ele fosse gay, queria que ele fosse "homem", uma pessoa com dignidade e auto-respeito.

Sempre fui cheia de "marra" e personalidade, e de certa forma eu sentia que o Guedes me vampirizava, imitava meus trejeitos e gírias, elogiava tudo meu, emulava minha postura, como que planejando ser uma "versão drag" de mim... Ele me achava "o máximo" e, para mim, isso era um pecado mortal, pois nisso eu percebia que ele não me elogiava "de verdade", pois não importava o que eu fizesse, para ele era tudo maravilhoso.

Depois de me formar no terceiro colegial, nunca mais vi o Guedes, mas soube por amigos que o encontraram vez ou outra "na noite" e pelos dark rooms da vida, que após eu já estar bem adentrada no curso de História na USP, também o Guedes estava a fazer o curso de História, mas na UNG (Universidade de Guarulhos). Nunca pude tirar a dúvida se era simples coincidência, mas sinceramente creio que não. Acho que ele se matriculou em História apenas depois de saber, e apenas porque soube, que eu estava a fazer esta graduação.

Não sei se ele se formou, nem se hoje é professor como eu. Hoje me sinto um pouco culpada pela forma como o tratei. Vendo de hoje, percebo como foi completamente absurdo estabelecer condições para ser sua amiga. E como foi surreal que ele tenha "topado" isso. Sinto que talvez ele fosse um garoto muito perdido, e visse em nosso grupo o único que o aceitaria sem levar em conta sua sexualidade.

E nunca foi sua condição sexual que me incomodou: mas sim sua subserviência. Provavelmente ela fosse fruto de uma baixa auto-estima, e se eu tivesse naquela época minha cabeça de hoje, teria procedido de forma muito diferente a respeito dele.

Às vezes me pergunto como estará o Guedes hoje, inclusive me questionando se ele está vivo. Quando estávamos no colegial, ele era obeso. E depois, quando já ambos na graduação, soube pelos que o encontraram na "cena gay" que ele estava assustadoramente anoréxico, e provavelmente envolvido com químicos pesados.

Gostaria de saber que rumo ele levou, se se tornou uma pessoa mais confiante e assertiva, qualidades minhas que eu creio que ele ambicionasse. Se concluiu a faculdade, no que ele trabalha, se continua a frequentar os "inferninhos", ou se transformou-se radicalmente, para um rumo inimaginado. Se ele encontrou pelas veredas da vida "outra Fernanda" na qual se espelhar, e se outras vezes se submeteu às coisas que o fiz passar, se de outras pessoas ouviu calado as "desancadas" que com tanto venenoso prazer eu lhe dispensava.

E qual tipo de desdobramento esses fatos tiveram em sua vida, no que tudo isso resultou, para o bem ou para o mal.

Chico Buarque - Sinal Fechado https://www.youtube.com/watch?v=949SuBskT2U

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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

De Milena


Antes da era das redes sociais, era comum perdermos contato, mesmo com nossos amigos mais queridos. Este texto se refere a uma grande amiga-irmã q tive nos tempos de adolescente, com quem perdi contato por 15 anos, e de como me surpreendi ao reencontrá-la.

Milena morava a menos de 100 metros da minha casa, estudamos juntas por 2 anos, quando tínhamos menos de 15 anos. Éramos muito parecidas, em vários aspectos. Na aparência externa, na personalidade, no gosto musical, nas atitudes. Sempre andávamos juntas. Ambas tínhamos irmãs e famílias problemáticas, e passávamos horas comparando nossos problemas.

Muitas lembranças desta época tenho ao lado de Milena. No Ensino Médio, nos matriculamos em escolas diferentes, e eu mudei de casa, para outro bairro. Nesta época, antes do celular e das redes sociais, nosso afastamento foi natural; até nos ligamos algumas vezes, mas como não convivíamos mais na escola, as coisas deixaram de ser como eram antes, e cada uma foi seguir seu caminho. Mas eu sempre guardei um lugar especial em meu coração para ela.

Os anos se passaram, eu me mudei mais meia dúzia de vezes de casa, fiz faculdade, comecei a trabalhar. De vez em quando a lembrança de Milena passava pela minha cabeça, e a curiosidade de descobrir que rumo ela tinha dado à própria vida. Me perguntava se continuávamos parecidas, e quais caminhos divergentes o destino teria colocado à nossa frente. De tempos em tempos eu fazia buscas por seu nome, sem q nenhum perfil dela surgisse. Até q, um dia, apareceu.

A adicionei e mandei mensagem no estilo "Oi, velha amiga! Como vc anda? Vamos nos ver na próxima visita q eu fizer a Sampa?" Ela me aceitou e respondeu prontamente q da mesma forma, queria me reencontrar. Marcamos.

Reencontrá-la foi uma das experiências mais esquisitas da minha vida. Bati à porta de sua casa, e quando ela atendeu, não a reconheci, absolutamente. A desconhecida diante de mim abriu um sorriso, disse "Oi, Fê! Vc está igualzinha!" E, apesar de eu não saber com quem estava falando, a saudei e entrei, afinal este era o endereço q Milena me dera.

Me sentei no sofá e começamos a conversar. Aos poucos, analisei o formato do seu nariz, dos olhos, seu furinho no queixo e só então "caiu a ficha" q aquela era Milena mesmo. Eu não a reconhecera pois agora ela estava uns 30 quilos mais gorda, mas não era só isso. Outros amigos haviam engordado até mais. Não eram apenas os quilos a mais q me impediram de reconhecê-la, mas o fato de q, 15 anos depois, não havia absolutamente NADA nela q fosse parecido comigo.

Ela foi me contando sobre sua vida, seus trabalhos de recepcionista, secretária, auxiliar de escritório. Perguntei-lhe se fizera faculdade. Não, nunca tinha tido vontade. Se fizera outros cursos. "De informática". Mais algum? Não. Quantos namorados tivera. Dois. Dois? Sim, 2. E com o último se casara.

Me contou do seu marido, do seu casamento. Que após se casar, como o marido tem bom emprego, pedira demissão na primeira oportunidade, e agora era dona-de-casa. Como ainda não tinha filhos, lhe perguntei se estava tentando engravidar. Não, não pretendia ter filhos tão cedo.

Nada tenho contra a mulher escolher ser dona de casa. Desde q sua casa e família exijam sua dedicação exclusiva. Ao me falar q era uma dona de casa q não tinha nem pretendia ter filhos tão cedo, comecei a sentir uma angústia indescritível. Percebi então que usava roupas com desenhos infantis, falava com a voz infantilizada das pessoas profundamente inseguras, seus cabelos estavam penteados como os de uma criança. Mostrou com orgulho seus bibelôs e itens de decoração, todos em motivos infantis. Sem q houvesse nenhuma criança, ou sequer bicho de estimação, na casa.

Prosseguiu contando dos seus eternos desarranjos familiares, como ainda brigava toda semana com sua mãe e irmãs. Suas brigas com a sogra e cunhados. E minha angústia foi crescendo ao perceber como ela nada tinha "de sua vida" para falar, mas apenas de seus problemas. Não tinha projetos, planos, não estudava nada, nem à distância. Seus únicos assuntos, q ela matraqueva em voz esganiçada denotando certo desespero eram: o marido, as irmãs, os cunhados, sua mãe e sua sogra. E todas as histórias eram de como todos estes, menos o marido, infernizavam sua vida e estavam, sempre, contra ela.

A cada historieta, q eu ouvia apenas balançando a cabeça, minha angústia crescia. Não senti "pena" dela, pois mulher bem casada, com casa própria, não merecia tanto. Mas comecei a me perguntar se a história dela não teria se desenrolado de forma diferente se tivéssemos continuado amigas, e eu a tivesse influenciado mais.

Se, caso eu tivesse insistido mais em manter contato com ela, não poderia tê-la estimulado a fazer faculdade, ou ao menos cursos profissionalizantes. Se a tivesse chamado para sair algumas vezes, ela não teria tido a oportunidade de ter mais namorados, e não teria casado com o segundo rapaz q cruzou seu caminho. Se eu não poderia tê-la ajudado a ter mais empregos, oportunidades, experiências, outros parâmetros para "ampliar seu horizonte" de possibilidades.

Eu havia reservado a tarde inteira pra ficar com ela, na esperança q batêssemos altos papos, tomássemos umas brejas, déssemos várias risadas. Mas conforme ela incessantemente desfiava seus rosários de reclamações e relatava como ela era a "vítima do Universo", percebi q, além de ela não estar interessada em saber de minha vida, mas apenas em falar de sua própria, o cenário no qual a minha vida se desenrolava lhe era completamente estranho. Se eu lhe contasse as histórias q eu ansiava dividir com aquela Milena q era tão eu, a Milena de 15 anos depois ficaria chocada e não compreenderia muitas delas.

Conforme os minutos demoravam a passar, começou a crescer um certo nó no meu pescoço. Me perguntava: "como eu puder permitir q a Milena ficasse assim?" Percebi nitidamente q tê-la "abandonado" fôra péssimo para ela. Éramos então tão idênticas, e hj tão diferentes. Eu construíra uma vida. Fizera curso de operadora de Telemarketing, cursinho, passara em 3 vestibulares, estudara na USP, fizera inúmeros outros cursos, tivera meia dúzia de empregos, muito diferentes, tivera vários namorados, muito diferentes. Eu tivera uma vida plural. Ela não.

Eu enfrentara a vida com certo grau de coragem, saíra de casa, rompera com os maus parentes. Eu havia "aberto meus horizontes", dissera "sim" às oportunidades da vida. Eu escolhera "escolher", arquitetar um "plano" para meu futuro. Milena fizera todo o oposto. Escolhera a segurança de "deixar a vida" escolher os caminhos, ou não-caminhos, q ela trilharia. Escolhera não ter planos. Como as mulheres de antes da Revolução Sexual, via o "casamento" como seu único projeto e tábua de salvação. E, agora q estava casada, dizia sentir q sua vida estava completa, e q era muito feliz sendo apenas dona de casa.

Para mim, q escolhi construir meu próprio caminho, e ter "vida própria", ver minha amiga outrora tão íntima se dizendo realizada com uma vida q ao meu ver era tão vazia, me trouxe uma enorme dor no peito, um sentimento de culpa, de falha, tão gigantesco q na primeira oportunidade em q ela fez uma breve pausa no relato de seus muitos problemas familiares, lhe disse q tinha outro compromisso e q precisava ir embora.

Neste dia eu não reencontrei Milena. Mas visitei o pouco q restou dela. Ao chegar no meu carro, demorei longos minutos congelada, sem reação, antes de dar a partida. Sentia uma adaga rasgando o sentimento q eu tivera nesses anos de q, assim como eu seguira meu caminho, Milena teria seguido o dela. Durante esses anos eu imaginara q ela teria estudado, trabalhado, crescido, vivido. Mas percebi q ela permanecera parada. Sua maturidade psicológica, opiniões e assuntos continuavam "na altura" de uma pessoa de 15 anos, enquanto eu havia evoluído, me instruído, aberto minha mente, mudado minhas formas de pensar.

Antes de dar a partida, num lance de frustração, estapeei meu volante e gritei em voz alta: "Como eu pude permitir q a Milena ficasse assim?!"

Vi nitidamente q tê-la "abandonado", negligenciado nossa amizade, ter permitido q as circunstâncias da vida nos afastassem, tinha-lhe feito muita falta. Eu a teria "puxado para a vida", a teria instigado a abrir seus horizontes, teria lhe proporcionado outras experiências, q talvez a encaminhassem a "construir sua própria vida" e não a se "abancar" assim q conseguisse realizar seu único projeto: se casar. E o pensamento "e no dia q o marido dela se cansar de todas as suas neuroses e as brigas q ela arranja com a família dele? Q 'vida' restará a Milena, sem filhos, sem marido, sem profissão?"

Me senti culpada, angustiada, frustrada, derrotada, em dívida com ela, em certo ponto "revoltada" com os descaminhos da vida. E, sobretudo, arrependida por tudo q poderia, e deveria, ter feito por ela, mas não fiz, por negligência. O carinho q por ela acalentara à distância era uma ilusão, a de q ela estaria bem, enquanto não estava, e precisava de minha ajuda, minha presença, q lhe fizeram muita falta. Percebi o grande erro q cometera, e como agora isso era completamente irremediável. A antiga Milena não mais existia, e a nova Milena não era em nenhum aspecto parecida comigo. As coisas q ela falava me desconcertavam. E as coisas q eu falaria se ela tivesse me dado oportunidade, a teriam desconcertado, por serem completamente alheias ao seu Universo.

Reencontrar Milena foi uma frustração profunda. Provavelmente em nenhum momento ela se deu conta de minha angústia, o q só fez aumentar o meu pesar: q ela não perceba como sua vida é vazia, sem planos, sem projetos, como sua vida não tem vida.

Foi deveras melancólico perceber tudo isso. E o sentimento de culpa por minha pequena parcela de responsabilidade na não-vida de Milena prossegue a me incomodar, profundamente.

A vida é cigana. http://www.youtube.com/watch?v=h-vD3uf7aLQ

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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Do primeiro passo na obervacao


Resumo: é essencial aprender a calar a boca e observar os q nos cercam.

Sempre me disseram q eu era uma "pessoa difícil", de "personalidade forte", "desbocada" e me aconselhavam a ser "mais cordata", "mais flexível" e discreta. Até pouco tempo eu achava q proceder assim seria como renegar-me, deixar de ser "eu mesma".

Eu achava q "sinceridade" era qualidade, e quanto mais dela, melhor. A muito custo, percebi q é defeito, e muitas vezes crime capital. Percebi q "ser sincera", falar as coisas q pensava, era uma atitude antissocial. Q, ao invés de me valorizarem por falar a verdade, as pessoas pensavam mal de mim por ser "dura", "chata" e "desagradável".

Mesmo os meus melhores amigos não estavam interessados em ir ao fundo ou debater eticamente as questões q apareciam em nossas conversas. Apenas e tão-somente queriam q eu "os aceitasse", balançasse a cabeça, fizesse inúmeros "ahã", lhes desse atenção e lhes servisse de palco, de coadjuvante, aprovando e elogiando tudo q fizessem. Percebi q nas "relações sociais", muito mais valiosa q a verdade é o teatro das aparências.

Aos poucos, percebendo q numa conversa meus amigos não procuravam um interlocutor, um debatedor, mas uma platéia, comecei a colocar em prática o apenas ouvir. E nisso, ao invés de ficar elaborando qual seria minha frase seguinte, já sabendo q seu destinatário não estava interessado nela, passei a perceber melhor o q as pessoas falavam, pq o falavam, e os motivos q as levavam a assim proceder.

Muitas vezes achamos q as coisas q os outros nos dizem ou fazem têm a ver conosco, pois seguramente nosso umbigo é o centro em torno do qual o Universo gira. Ao deixarmos para trás essa postura reativa e adquirirmos uma postura contemplativa, perceberemos q para os outros somos apenas fantoches, formigas, e nada representamos.

Vou exemplificar como isso ficou claro para mim. Ao comprar um iPad imediatamente percebi q isso fazia os outros "virarem o nariz" para mim. Isso ficou muito palpável quando um dos meus colegas, q eu tinha certeza q me odiava, pois nunca respondia aos meus "bom dia", de repente apareceu com seu próprio iPad. E, como mágica, toda aquela antipatia acabou. Com seu iPad na mão, agora respondia aos meus "bom dia".

Ficou transparente: esse colega não "me odiava". Pra ele eu era "uma formiguinha", e uma formiguinha q possuía algo q ele gostaria de ter, mas não tinha. Ele não odiava a mim, odiava ao meu iPad. Não odiava meu iPad, amava meu iPad, mas invejava e EU tinha um iPad, e ele não. Quando ele comprou um iPad, o motivo q tinha para ser antipático cessou de existir. Ele passou a não me ver mais como "superior", mas como "igual". E mudou de atitude comigo, sem q minha atitude mudasse para com ele.

Percebi q esse colega não tinha nada contra mim. O problema era dele. Uma vez q ele resolveu o problema dele, parou de projetar seu problema em mim e pudemos "nos harmonizar".

Pensando muito sobre isso, parei um pouco de ter tanto medo, um instinto tão exacerbado de auto-preservação. Por exemplo, antes ao entrar numa sala onde andava animada uma conversa coletiva, o pensamento imediato era esquadrar se havia alguma possibilidade de o assunto ser "eu".

Hj percebi q a única pessoa interessada comigo sou eu mesma, portanto jamais o assunto das pessoas será "eu", o assunto das pessoas sempre é "elas próprias". 90% do q as pessoas falam é a respeito de si, suas opiniões, impressões, emoções. Para elas, eu sou uma formiguinha. E, ao menos q as pique, nem perceberão minha existência.

Parando de "picar" ou "alfinetar" as pessoas, aprendendo a guardar "minhas opiniões" para mim mesma, comecei a conseguir vislumbrar nas outras pessoas traços psicológicos e posturas parecidas com as q criticavam em mim.

Percebi q os outros tinham os mesmos defeitos q eu, e se eu identificava quando eles eram "desbocados", "difíceis" e "sincericidas", e via o quanto essas atitudes eram contra-producentes, isso me servia de lição para "domar" minha própria língua, disciplinar meus comichões, e agir melhor q eles: controlando-me.

Há um sábio ditado q professa: "da palavra dita és escravo, da não-dita, és senhor". Ou seja, uma vez q vc falou algo, isso ganha vida própria, e vc terá talvez q se explicar mil vezes desculpando-se por uma única frase mal-colocada. Já seus pensamentos são livres. Portanto, pense mil vezes antes de falar algo q pensou.

E, se vc quer um conselho: numa conversa, mesmo com um amigo, não fale o q vc pensa. Na verdade, não fale nada. Seu amigo provavelmente não está interessado no q vc tem a dizer. De vc ele apenas espera um palco, ahãs, e q vc arremate com um "que legal".

O q chamamos de "conversas" atenderiam melhor pelo nome de "monólogos paralelos compartilhados", cada um preocupado só em falar, se mostrar, tentar "iluminar aos outros" com seus sábios pontos de vista, opiniões, melhores conselhos possíveis e exibir suas altas capacidades (afinal, todo mundo se acha o supra-sumo da inteligência, da moderação, da esperteza, da sinceridade, do bom senso...),

É claro q cada um tem certeza de q a própria forma de fazer as coisas é a melhor de todas, se achasse ruim, faria de outra forma. Então, como cada um quer "ajudar" aos outros, ficará muito satisfeito enquanto estiver falando e sendo ouvido com atenção, desfiando cada pormenor das coisas maravilhosas, opiniões elaboradíssimas e informações muito relevantes q, num gesto de generosidade, compartilham com sua platéia.

Faça o teste. Na próxima vez q for conversar com quem quer q seja, ao invés de enquanto ouve já ficar elaborando sua réplica, desista da réplica. Apenas ouça, observe e vocalize alguns ahãs. Claro q algumas perguntas, sempre sobre o assunto, ajudam a demonstrar q vc está mesmo interessado, então intercale ahãs com uns "sério?!" e outros "continua, e então, o q aconteceu?". Arremate com uma frase dizendo o quanto tudo foi maravilhoso. Ao se fazer de palco para a pessoa, ela sairá muito satisfeita, jurando q esse foi o melhor encontro q vcs já tiveram. E, se o assunto for o preferido de cada um, o seu próprio eu, aí é possível q seu amigo até te abrace emocionado no fim da conversa, e seus ahãs te conquistem um amigo muito mais "próximo".

Para ele, vc é apenas uma formiga. Lhe será útil enquanto vc se conformar com a posição de coadjuvante na história em q ele tem certeza de ser protagonista. Não experimente revirar os papéis, pois ao "ser sincero" vc se tornará o antagonista a ser combatido e execrado.

Numa "conversa social" não há nada q vc falando, possa "ajudar" aos outros. Já na mesma situação, há muito q vc calando e observando, pode aprender com os outros.

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terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Do afogamento

Morrer afogado é um medo ancestral, bem cimentado em nossos arquétipos mentais. Uma daquelas fobias comuns, ao lado da aracnofobia (medo de aranhas), agorafobia (medo da multidão), acrofobia (medo de altura), aicmofobia (medo de injeção), nictofobia (medo do escuro), catsadidafobia (medo de baratas), musofobia (medo de ratos).

O medo de morrer afogado, ou de submergir-se em água, chama-se hidrofobia. Além de designar um transtorno psiquiátrico (medo de água) este nome tb se aplica a uma doença transmitida por vírus, popularmente denominada "raiva", cf: http://pt.wikipedia.org/wiki/Raiva_(doença) . Por sua incidência entre mamíferos silvestres e de estimação, todos os anos o governo brasileiro disponibiliza a vacina anti-rábica aos nossos pets.

A primeira vez q experimentei a sensação de afogamento, contava uns 6 ou 7 anos, numa piscina de hotel, creio q no Guarujá. Lembro q, muito confiante, já sabia mergulhar, e a piscina tinha um fundo em declive. Já tendo explorado toda a parte q me dava pé sem nenhum revés, comecei a fazer minhas gracinhas, me aventurando no fundo até q numa dessas o fôlego faltou, o pé não encontrou o chão, a boca não encontrou ar, comecei a engolir água, me debater como uma lagartixa. Batendo as mãozinhas na superfície, pra meu grande alívio, alguém, creio q Regina, percebeu minha aflição e me puxou pra cima. Cuspindo água, me agarrei no deck e me dei conta q ainda era criança, indefesa, apesar de me sentir muito adulta. O tomei como lição e não restou disso nenhum temor de fazer futuros mergulhos.

Aprendi a boiar com uns 10 ou 11 anos, na praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Meu único tio, Renê, acabara de se casar com uma bela paranaense, minha tia Marilurdes, e para q todos se familiarizassem, fomos visitar os recém-casados em seu apartamento em Jacarepaguá: eu, Cristhiane, Patrícia, e meus avós Tula e Morzinho. Lembro q quando chegamos de carro ao Rio era aniversário de Cristhiane, 28 de dezembro, e justo nesta data o covarde Guilherme de Pádua assassinara Daniella Peres, filha da novelista Glória Peres.

Numa ida à praia da Barra, vi minha irmã do meio, Patrícia, magicamente suspensa na superfície da água. Perguntei-lhe como era capaz de fazer isso. Cheia de marra, me deu uma de suas comuns desancadas e me disse q estava boiando, e q para fazer isso não precisava saber nenhuma técnica ninja, bastava "relaxar o corpo e não ter medo, q o corpo bóia sozinho, pois 'bosta não afunda'." (palavras dela).

Tentei imitá-la 1, 2, 3 vezes, sem sucesso. Eu afundava. Tentava deitar na água, mas ao estirar os braços, sempre ia pra baixo, e lutava para voltar à tona. Virei pra Patrícia e disse: "eu não devo ser feita de bosta, pq eu afundo!". Ela riu e disse q todos somos feitos da mesma coisa, q o "macete" era "não ter medo de se afogar, não lutar contra a água".

Com dezenas de tentativas, aos poucos fui compreendendo o q ela queria dizer. Q eu não devia encarar a água como uma inimiga contra a qual lutar, mas como uma parceira da qual me aproveitar, ou uma companheira a saber controlar. Sim, a água era potencialmente fatal, se eu não soubesse corretamente me comportar nela. Mas podia ser fonte de diversão, relaxamento, se eu soubesse compreendê-la e decodificasse a "etiqueta" do bom nadador. Se antes eu a achava ameaçadora, quando a conheci e comecei a desvendar seus segredos, passei a amá-la. Me tornei ótima nadadora, e capaz de boiar tanto no mar como na piscina.

Muitos anos depois, assistindo a um programa da TV de "sobrevivência na selva" acompanhei o tutorial de Bear Grylls sobre o q fazer em situações de afogamento. Minhas sobrancelhas pularam quando ele, taciturno, decretou: (algo assim, estou transliterando de memória)

- O q mata as pessoas afogadas não é a água, mas o desespero. Quando se sente afogar, instintivamente a pessoa começa a se debater descontroladamente, o q só a faz afundar mais. Se vc se sentir afogando-se, o melhor é ficar calmo, não fazer nenhum movimento. O ar q ainda estiver nos seus pulmões te levará à superfície, e te fará boiar. Se vc vir outra pessoa se afogando, nunca vá pessoalmente salvá-la. A pessoa desesperada vai se agarrar em vc e continuar se debatendo até q os dois morram afogados. O melhor é jogar pra pessoa algum objeto q bóie na qual ela possa se agarrar: uma bóia, um pedaço de isopor, um galho de árvore.

Foi muito interessante meditar sobre este enunciado e verificar sua veracidade. Comuns são as tragédias em q um membro da família começa a se afogar, pula um parente e o resultado é um velório duplo.

É necessário compreender os perigos q nos cercam e não temê-los, mas respeitando-os, saber manipulá-los para q se tornem nossos aliados. Da mesma forma q a diferença entre o remédio e o veneno é a dose, a diferença entre a piscina q nos dá prazer e a água q nos traz o luto é apenas o auto-controle.

De forma análoga, a diferença entre a sociedade q nos aliena, atordoa, escraviza, deprime, limita, e o horizonte de possibilidades q nos estimula, desafia, realiza e enriquece é a forma como o encaramos. E nossa postura perante suas marés.

Há uma breve, mas significativa, cena no filme Amistad (1997, dirigido por Steven Spielberg) no qual o deus de ébano Djimon Hounsou, ao ser capturado pelos yankees, se lança ao mar, e tal qual Ícaro, começa a nadar em direção ao sol nascente, onde ele sabia estar a África, seu lar. É impossível atravessar o Oceano Atlântico a nado, e depois de poucas braçadas o ânimo lhe falta, ele afunda e num átimo deve tomar a decisão de sua vida: desistir perante a derrota momentânea de ter sido recapturado, prosseguir no intento q ele sabia inconquistável, além da força de seus braços, não baixar a crista, não aceitar ser reduzido à catividade mais uma vez; ou engolir o orgulho, parar de lutar, compreender q era necessário POSTERGAR a realização do sonho q, imediatamente, era impossível, e voltar ao barco onde grilhões o aguardavam.

Se vendo diante da escolha de perseverar, e morrer, ou capitular, e viver, Cinque escolheu a vida. Entre morrer "como um homem" ou sobreviver "como um rato", fez a única escolha possível: viver. Vendo-se derrotado por forças além das suas, escolheu racionalmente engolir sua vontade de partir como homem livre e submeter-se, ao menos imediatamente, às forças inimigas maiores q as suas. E posteriormente soube, ao conhecê-las, manipulá-las a seu favor. A mesma marinha americana q o capturou após a rebelião escrava no navio negreiro Amistad, foi a levá-lo de volta à África, depois dele inocentado na Suprema Corte americana.

Há 2 famosos ditos populares brasileiros q rezam: "não adianta dar murro em ponta de faca" e "não adianta chorar sobre o leite derramado". Essa sabedoria ancestral nos ensina justamente: se a situação está contra nós, se debater não ajudará em nada; e se a coisa está horrível, não tem volta e tudo deu errado, ficar se lamentando só vai fazer tudo piorar. Num nível superior, nos instruem: não importa o q acontece com vc, o q importa é como vc reage, qual é a sua atitude perante as situações ruins. E muitas vezes o melhor é não ter "atitude".

Acredito q até muito recentemente eu me debatia desesperadamente, e me afogava, no fluxo dos acontecimentos. Não compreendia a mecânica dos fatos, via as novidades, transformações e o passar dos anos me atingindo com medo, até das ondas calmas, da maré baixa. Encarava qquer maré alta como uma atemorizante ressaca, e os revezes como pequenos tsunamis pessoais, q me deixavam com fobia de voltar à praia da vida, mesmo na beira da arrebentação. Não queria mais fazer castelos de areia nem molhar os pés nas ondinhas.

Acho q estou começando a perceber q, da mesma forma q diante de uma onda alta, se soubermos ter sangue frio pra esperar o momento correto, nem vamos sentir sua marola e, mergulhando por baixo dela, podemos sobreviver incólumes, devemos ter postura parecida diante do fluxo dos acontecimentos.

Se no horizonte se forma um espectro q parece q vai nos derrubar, é melhor não se precipitar, não enfrentar a força descomunal de frente. Devemos nos posicionar de viés, manter o olhar fixo na ameaça, aguardar q a onda comece a vir em nossa direção e, só então, /tchibum/, mergulhar nos desviando do perigo. A onda continua seu caminho e nós, usando nossa inteligência, fomos obrigados a fazer uma capitulação temporária, mas vencemos no final.

Quando entramos num mar q não nos dá pé, não servirá de nada nos debater, pensando "eu não acredito q isso tá acontecendo, eu não mereço isso, sou inocente, sou uma boa pessoa, isso é injusto, q q eu fiz pra merecer isso? etcs, etcs, etcs..." Em suma, ter uma "atitude", mesmo de defesa duma honra merecida, diante dum revés, nada mais é q BURRICE. É preciso ter "jogo de cintura" e ser capaz de ter estômago para "dançar conforme a música" e sobreviver, ao menos imediatamente, quando a situação está manifestamente contra nós.

Não podemos ser simplistas, inocentes, de peito aberto, sem reservas, duelando quixotescamente contra o mundo inteiro. Devemos ser capazes de apreender nossa própria pequenez, como muitas vezes somos coadjuvantes elencados nas farsas alheias, e q muitas vezes é preciso fingir q nos conformamos com nosso papel secundário.

É preciso ao menos 3 décadas de experiência em natação no fluxo da realidade para começar a saber boiar no marasmo confortável do cotidiano pequeno-burguês, e então ganhar confiança para se lançar na arrebentação da infindas possibilidades q podemos lutar para conquistar, sabendo do risco de morrer na praia.

Até pouco tempo atrás, eu me debatia desesperadamente contra tudo q me acontecia e contra todos q conhecia. Tinha muito medo de soltar do deck seguro das minhas lembranças e projetos passados. Acho q já compreendi q devo perder o medo, relaxar meus músculos, reaprender a boiar na maré calma e reaprender a nadar no mar agitado. Acho q decidi "mudar de estratégia". Acho q percebi o valor, ou a necessidade social, de "fazer cara de paisagem", "se fazer de sonsa" e do "me engana q eu gosto".

A partir de hj vou passar a observar melhor o fluxo das marés. Um pouco mais cinicamente, vou aprender a calar meu orgulho e capitular, não pq eu queira, não pq vacile minha convicção, não pq não tenha gana para lutar até o fim de minhas forças, mas pq compreendi q é MAIS INTELIGENTE saber manejar as ondas a meu favor, e q enfrentar as adversidades muitas vezes é suicídio puro e simples.

Muitas vezes, melhor q enfrentar diretamente alguém, é "dar corda" para q a própria pessoa se enforque. Antes eu achava q, ao ver algo errado, eu devia ser "intransigente", era minha obrigação "exortar" cada um. Achava q ao alertar alguém sobre um erro a pessoa o veria e quiçá me agradeceria pela ajuda, pelo alerta. Ledo, crasso, engano. Percebi q, tentando ajudar, em troca ganhava um adversário ofendido, um ex-amigo ultrajado. Já calejada, hj percebo q da mesma forma q eu sou "cheia de boas intenções", todas as outras pessoas tb o são, cheias de SUAS PRÓPRIAS boas intenções, do seu próprio metro do q é "bom senso". E q ao tentar "ajudar" as pessoas eu apenas estava-lhes impingindo o meu conceito de retidão, q elas não queriam aceitar. Portanto, a partir de hj, quando ver alguém cavando a própria sepultura, tentarei a muito custo permanecer calada, por saber a priori q, se eu falar algo isso não ajudará a outra pessoa em nada, apenas me fará ganhar uma antipatia.

É sem orgulho q percebo q não será "o mundo" a se curvar para aprazer a forma q eu acho q as coisas deveriam acontecer. Sou eu q devo ter sangue-frio para saber capitular quando tudo está contra mim, e saber vir a tona, apresentando a atitude correta de lutar ou relaxar quando a calmaria vier.

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