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quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Acreditar em um "falso messias" viola algum mandamento?


Este é um texto genérico, não se refere especificamente a nenhuma vertente religiosa.


A palavra "Massiach" (Messias) não consta da Torah. 


Há porém duas passagens um pouco contraditórias a respeito de "profetas como Moisés" a vir no futuro, vejamos. 


Dt 18:

15 O Eterno seu D'us fará surgir, dentre seus irmãos, um profeta como eu em seu meio, e vocês o ouvirão. 16 Foi o que você pediu aO Eterno seu D'us, no Horeb, no dia da assembléia: ‘Não quero continuar ouvindo a voz dO Eterno meu D'us, nem quero ver mais este fogo terrível, para não morrer’. 17 O Eterno me disse: ‘Eles têm razão. 18 Do meio dos irmãos deles, eu farei surgir para eles um profeta como você. Vou colocar minhas palavras em sua boca, e ele dirá para eles tudo o que eu lhe mandar. 19 Se alguém não ouvir as minhas palavras, que esse profeta pronunciar em meu nome, eu mesmo pedirei contas a essa pessoa. 20 Contudo, se o profeta tiver a ousadia de dizer em meu nome alguma coisa que eu não tenha mandado, ou se ele falar em nome de outros deuses, tal profeta deverá ser morto’.


21 Talvez você se pergunte: ‘Como vamos distinguir se uma palavra não é palavra dO Eterno?’ 22 Se o profeta fala em nome dO Eterno, mas a palavra não se cumpre e não se realiza, trata-se então de uma palavra que O Eterno não disse. Tal profeta falou com presunção. Não tenha medo dele.


Nesta passagem, Moshe Rabeinu afirma que O Eterno lhe disse que, no futuro, faria surgir no povo de Israel "um profeta como ele". Note: um profeta como Moisés, que não era o Messias. Porém outra passagem, que finaliza a Torah, afirma algo que aparentemente contradiz isso, vejam:


Dt 34:

10 Em Israel nunca mais surgiu outro profeta como Moisés, a quem O Eterno conhecia face a face. 11 Ninguém o igualou em todos os sinais e prodígios que O Eterno o mandou realizar no Egito contra o Faraó, contra toda a sua corte e contra sua terra. 12 Ninguém se igualou a Moisés na mão forte e em todos os feitos grandiosos e terríveis que ele realizou aos olhos de todo o Israel.


E sobre o advento de "novos profetas", a Torah também diz:


Dt 13:

2 Quando no meio de vocês aparecer algum profeta ou intérprete de sonhos e apresentar a você um sinal ou prodígio - 3 se esse sinal ou prodígio que ele anunciou se realiza e ele convida você: ‘Vamos seguir outros deuses (que você não conheceu) e vamos adorá-los’ - 4 não dê ouvidos a esse profeta ou intérprete de sonhos. Trata-se de uma prova com que O Eterno seu D'us experimenta vocês, para saber se vocês de fato amam aO Eterno seu D'us com todo o coração e com todo o ser. 5 Sigam ao Eterno seu D'us e a ele temam; observem seus mandamentos e lhe obedeçam; sirvam a ele, e a ele se apeguem. 6 Quanto ao profeta ou intérprete de sonhos, deverá ser morto, porque propôs uma revolta contra O Eterno seu D'us, que tirou vocês do Egito e os resgatou da casa da escravidão, e porque procurou afastar você do caminho pelo qual O Eterno seu D'us havia mandado seguir. Desse modo, você estará eliminando o mal do seu meio.


Dessas passagens podemos concluir:


1 - Se algum dia virá "um profeta como Moisés", há dúvidas. Pois tanto se afirma que um dia haverá (Dt 18:18), como também que "nunca mais em Israel houve um profeta como Moisés". (Dt 34:10).


2 - Se o profeta for verdadeiro e as pessoas não crerem nele, não há punição prescrita, apenas esta sentença:

Dt 18: 19 Se alguém não ouvir as minhas palavras, que esse profeta pronunciar em meu nome, eu mesmo pedirei contas a essa pessoa.


3 - Se o profeta for falso e as pessoas crerem nele, e ele incitar as pessoas à idolatria, a Torah não especifica nenhuma punição aos fiéis "desviados", apenas ao falso profeta, que incite os demais à idolatria (Dt 13:6).


Tudo isto posto, perguntamos:


1 - Acreditar em um "falso messias" que não incite as pessoas à idolatria viola qual mandamento?


2 - Há alguma punição para quem acreditar em um falso messias que incite as pessoas à idolatria?


3 - O Eterno diz em Dt 13:4 que coloca à prova seus fiéis com o advento de "falsos profetas" e afirma a seguir que o importante é se apegar a D'us e seguir seus mandamentos (Dt 13:5). Assim sendo "ficar procurando um Messias" ou "novos profetas" não seria perigoso, e a postura mais segura não é simplesmente se concentrar em seguir as Leis da Torah? 


4 - Precisamos mesmo ficar ansiosamente perscrutando, desesperadamente procurando indícios de última hora de "quando virá o Messias"? Afinal, quando ele chegar, não instaurará a Era Messiânica e todos saberemos então, sem sombra de dúvida, que ele veio?


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sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Dos Fenômenos Literários



Em conversas com pessoas similares a mim em muitas coisas, como idade, nível social e educacional é comum um "estranhamento cultural": apesar de eu ser uma leitora voraz, não ser adepta de nenhuma "saga literária" das várias que se consagraram como "fenômenos" da "cultura pop".


As mais populares nos anos 2000 são Harry Potter, The Lord of the Rings e The Twilight saga. Não li nenhum dos livros nem assisti a nenhum dos filmes. Quer dizer, cheguei a ser compelida a assistir ao primeiro filme do "Senhor dos Anéis" com um grupo de amigos. E enquanto eu bocejava, eles exultavam.


Os motivos de eu não participar dessa "onda cultural massificada" são vários, e como já fui muitas vezes confrontada pelo espanto dos meus interlocutores por eu não parecer muito empolgada a gastar um ingresso de cinema para assistir ao "Hobbit", vale o registro.


- Tudo isso foi lançado (ou virou viral) quando eu já tinha mais de 18 anos, já tendo lido vários clássicos qualitativamente superiores em enredo, linguagem, estética, como Kafka, Shakespeare, García Márques, Sartre.


- Sempre soube reconhecer o tipo de literatura ou música classificável como "guilty pleasure": algo do que até se gosta, mas se sabe que não tem muita "qualidade". Estava ciente disso já aos 14 anos, ao reconhecer que ler livros do Paulo Coelho e chorar com as músicas do Bon Jovi eram coisas das quais no futuro eu meio que me envergonharia...


- Tive meu próprio "Harry Potter" na figura da série de 14 livros de Anne e Serge Golon "Angélica, a Marquesa dos Anjos", cada um em média com 300 páginas. Aos 12 anos já tinha lido todos, e já tinha um "cenário fantástico" no qual fantasiar com as aventuras de Angélique de Peyrac no século XVI, entre o Poitou, O Languedoc, Versalhes, o Saara e o Novo Mundo.


- Conhecer mitologia grega. Quando criança minha família tinha uma coleção de livros de mitologia grega. Como "descer o nível" depois disso?


- Ter feito faculdade de História, percebendo assim com facilidade todo o humor involuntário dos acochambramentos que os "autores pop" cometem. Isso também me trouxe uma certa visão de que se determinado autor não atingiu o nível de "clássico", com tantos clássicos imortais na minha lista de ainda por ler, devo direcionar meus esforços primeiro ao que é um "dever" ler, antes de qualquer coisa "acessória".


- Estudar a Torah. Se comparada à mitologia grega o "Senhor dos Anéis" parece bobo, o que dizer de sua comparação à Torah? Ter estudado a Bíblia Hebraica em toda a sua riqueza e multiplicidade meio que "estragou minha tolerância" a literaturas fantásticas de banca de revista.


- Perceber claramente uma "mudança de gosto" conforme os anos passaram. Um "fenômeno literário" no qual embarquei foi o de Dan Brown. Li as 400 páginas de "The DaVinci Code" em um final de semana, assim que lançado. Devorei e adorei, com 20 anos. 8 anos depois comprei "The Lost Symbol". Li, com sofrimento, 35 páginas. Achei um lixo completo. Coloquei na prateleira e nunca mais senti vontade de retomar. Se eu fosse ler hj o "Código da Vinci" seguramente também abandonaria.


Em suma, sem querer me desfazer das paixões de ninguém, passo muito bem sem literatura-pop de vampiros, bruxinhos, elfos e gnomos.


Depois de ler Eclesiastes, Provérbios, Sabedoria de Salomão, como poderia apreciar "O Segredo", "A cabana", "Quem mexeu no meu queijo"?



quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Do Escapismo



Confesso que "escapei bastante" de finalmente sentar para escrever este texto. Há alguns meses elaborei esta idéia e inúmeras foram as noites nas quais planejei, enfim, colocá-la por escrito. Mas sempre fugia disso. Nem hoje o faria, apesar desta ser uma das ocasiões em que o planejei. Porém, sendo este um dia chuvoso, falham minhas 2 possibilidades de conexão (paga) à internet, e o desvendei como um "ultimato" para tornar o projeto realidade.

Sei porquê tanto disto fugi. É porque essa idéia não é, nem a mim, nem a ninguém, confortável ou reconfortante, mas seu exato oposto. Espero que cheguemos até lá. Incomoda sobre isso pensar, e plasmar em texto.

"Escapismo" é o nome de uma técnica através da qual os ilusionistas realizam o espetáculo do se livrar de amarras aparentemente impossíveis. Harry Houdini era um grande mestre nisso: ser enterrado ou submergido numa camisa de força cheia de cadeados, alarmando toda uma platéia com a possibilidade de morrer na frente deles, para poucos segundos depois reaparecer, magicamente, livre de todas as trancas, num feito aparentemente sobrehumano.

"Escapismo" também é o nome de um "fenômeno psicológico" marcado pela fuga, ou negação, da realidade imediata, que resulta num "projeto idealizado" numa "antevisão" de uma utopia "muito melhor que a própria realidade".

O movimento estético-literário conhecido como "Romantismo" se baseava grandemente nisso: na fuga da realidade através da idealização de um passado heróico. Ou, no caso brasileiro, da invenção de um passado grandioso, feito sobre o molde europeu (temos aí o "cavaleiro-índio" Peri de "O Guarani" de José de Alencar como melhor exemplo).

Vivemos, ainda, em um mundo Romântico. Embora a "moda literária" da "alta cultura" tenha passado pelo Realismo, Simbolismo, Parnasianismo, Modernismo e Pós-Modernismo, a "baixa cultura", do "povão" me parece ter meio que "estacionado" no "belo" paradigma romântico. 

Pois é muito confortável "escapar" da realidade que nos oprime. Que nos diz que somos pequenos, frágeis, desimportantes, vivendo um tempo passageiro insignificante, num lugar risível, sem nada de especial. Queremos ser grandiosos, protagonistas de uma heróica senda de descobrimento, queremos nos sentir herdeiros de antepassados gloriosos, portadores de uma herança superior a todas as demais. Enfim, gostamos de nos sentir especiais, únicos, expoentes de uma grande tradição.

E quando nada disso há, o inventamos. Simplesmente o inventamos. 

Nisso, vale a leitura do "A invenção das tradições" "Eric Hobsbawm", que basicamente explicita como todos os "símbolos da nacionalidade", muitas vezes venerados como sagrados e atemporais, foram fabricados em determinado contexto histórico, para cumprir objetivos políticos específicos, enumeráveis.

Muitas pessoas recorrem, portanto, ao Nacionalismo, para escapar da triste realidade diante dos seus olhos, num mecanismo psico-sociológico de negação, de fuga da realidade. É mais ou menos assim: "minha realidade é ruim, porém meu passado, o passado dos meus ancestrais, do meu povo, da minha nação, é grandioso, vejam nosso folclore, nossos herois, nossa tradição..."

E isso também pode se dar por adoção, por "adesão" a uma cultura vista como "melhor", ou "mais tradicional" (e portanto "mais verdadeira", supostamente). É nesse ponto que toco na conversão religiosa.

O Brasil é, ainda hoje, um país francamente católico. Mas não "Católico Apostólico Romano", mas "católico à brasileira". Vivenciamos um "Catolicismo folclórico", popular, poroso, osmótico, cheio de influências externas, reminiscências, marcado pela presença das tradições indígenas e africanas. Somos católicos por tradição, mas meio que "estranhamos" o Catolicismo "puro sangue", não nos identificamos com o latim do rito romano. Por ter sido uma religião que nos foi em grande parte imposta, muitas pessoas não a sentem como "verdadeira" e procuram uma alternativa "melhor".

E esse "melhor" necessariamente parece passar por um "mais antiga" ou "mais pura". 

Nisso, muitos enveredam pelo Protestantismo. Embora em "secos dados históricos" essas vertentes sejam muito mais jovens que o Catolicismo, todas elas alegam "reviver o Cristianismo primitivo" tal qual era praticado pelos primeiros cristãos, antes dos "desvios doutrinários" de viés pagão que teriam "manchado" a Igreja Católica. Portanto, embora mais jovens, as igrejas protestantes alegam representar um "resgate" de práticas primevas, "abandonadas" pelos desvios da Igreja de Roma.

Mas há muitos que não se satisfazem com uma tradição de "meros" 2 mil anos. Querem ir além, embora nem sempre "radicais" ou "fundamentalistas", conseguem perceber que todo o Cristianismo é uma derivação de algo mais antigo, e portanto, "idealmente" "mais verdadeiro": o Judaísmo.

E isso vai ao encontro de outra ponta histórica mal-amarrada: a ausência de uma "etnia brasileira". O "brasileiro" é, essencialmente, mestiço e bastardo. E isso nos traz grande desconforto. Como povo, somos o resultado de relações ilícitas, ou mesmo forçadas, entre brancos, negras e índias. Somos filhos do estupro, e não nos sentimos bem com isso. Somos filhos bastardos de mãe negra/índia pobre, não reconhecidos pelo pai branco, rico.

Para fugir ao enfrentamento dessa realidade que não nos agrada, INVENTAMOS (ou aderimos a) TRADIÇÕES GRANDILOQÜENTES que nos permitam, num claro mecanismo de fuga, ressignificar nossa identidade, avolumando-a, aprofundando-a, melhorando-a, tornando-a em todos os aspectos superior àquela diante dos nossos olhos, palpável, da qual queremos fugir, a qual nos é desagradável, posto que real.

Como se disséssemos:

"Eu achava que não tinha tradição, mas veja só, 'redescobri' ou 'adotei' uma tradição antiqüíssima, super verdadeira, a mais antiga do mundo!"

"Eu achava que não tinha identidade, mas veja só como é tradicional, antiga, a senda que estou percorrendo!"

Tão mais bonito que assumir-se "católico por imposição, mestiço a contragosto, bastardo sem herança" é o INVENTAR-SE judeu, budista, messiânico, hare krishna, muçulmano, por "resgate" ou "conversão". Psicologicamente para nós, muito mais fácil que encarar uma realidade "desonrosa" é escapar-se dela enveredando por sendas exóticas, idealizadas, distantes no tempo e no espaço, e por impalpáveis, idealizadas, teóricas, "qualitativamente superiores" a tudo o que nos é real, cheio de defeitos.

Foi, é, difícil para mim colocar essa elaboração de idéias por escrito por perceber-me também sua praticante. Também eu, em variadas fases da minha vida, procurei caminhos que me permitissem fugir de mim mesma, de encarar-me em profundidade: amores românticos, identificação com a tradição oriundi, paulista, como bat anussim, noachide. 

Por muito tempo considerei seriamente a possibilidade de me converter ao Judaísmo. Fosse mais fácil, o teria realizado e talvez essa reflexão nunca se realizasse: se eu ocupasse minha mente no aprofundamento numa "cultura mais verdadeira" que a minha própria "gastaria" minha "libido reflexiva" no apreender reflexões de veneráveis outréns. E não no aprofundamento reflexivo em mim mesma.

Muito mais fácil que encarar a mim mesma constatando a fraqueza de minha "parca filosofia" é adotar o escopo interpretativo de gigantes filosóficos testados pelos séculos como Maimônides, Buda, o profeta Muhammad, Jesus de Nazaré.

Como se desistíssemos de investir na meditação própria "terceirizando" essa reflexão, confiando em uma "revelação" feita a doutos terceiros. Por isso é tão confortável, e reconfortante, "abancar-se" numa doutrina religiosa. E quanto mais "tradicional", justificada em sólidos fatos históricos ela for, melhor para nos convencermos de que "esta sim" é a "filosofia de vida real" pela qual devemos nos pautar.

Muito mais simples que executar a árdua, e muitas vezes infrutífera, tarefa do encarar-se em profundidade é o escapar de si mesmo, dirigindo nossos esforços reflexivos para o "aprender o caminho dos outros", adotando uma religião que nos ilude com realizações que o "descobrir às cabeçadas o próprio caminho" pode jamais nos prometer.

Elis Regina (via Milton Nascimento) - Cais http://youtu.be/aHoBvW16q78 
Natiruts - Vamos Fugir http://www.youtube.com/watch?v=iQ2ddk4VOsc 
Vespas Mandarinas - Não sei o que fazer comigo http://www.youtube.com/watch?v=9f5ERVxbcZc 
O Teatro Mágico - Eu não sei na verdade quem eu sou http://www.youtube.com/watch?v=Hlj8EtVoRi8 

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sábado, 10 de agosto de 2013

Visita à Federação Espírita


O ano era 2004. Eu residia no condomínio Viadutos, à praça General Craveiro Lopes, na Bela Vista, ou Bixiga, centro de São Paulo, em frente à Câmara Municipal, entre os viadutos Jacareí e Maria Paula.

Cursava o terceiro ano de faculdade de História na USP. Embora enveredasse pelos estudos judaicos, ainda me considerava a quarta geração de espíritas kardecistas de minha família.

Estava "em crise": acabara de terminar um relacionamento de 4 anos, e tinha vários problemas familiares. A 200 metros de minha casa, ficava a Federação Espírita do Estado de São Paulo. Num dia ensolarado, resolvi fazer uma visita.

Não posso dizer que tenha sido despretensiosa. Foi a primeira vez em muitos anos que entrava em um centro espírita. Desde pequena, nunca gostei muito de ir "ao centro" (fosse outra a minha religião, diria "ao templo" ou "à igreja").

Acho que o que mais me incomodava era uma certa percepção de "hipocrisia", não contra a religião espírita, mas a respeito das pessoas em geral. Era algo plenamente perceptível na postura, no tom de voz. Fora do ambiente religioso, quotidianamente, as pessoas tinham uma voz e uma postura natural. "No centro" eu percebia que as mesmas pessoas se comportavam de outra forma, falavam de outra maneira, tentando "passar uma imagem" melhor de si mesmas do que aquela que era perceptível no seu dia-a-dia. Mesmo que isso seja natural, e compreensível, sempre me incomodou, e me afastou de "ir ao centro" pois sentia que lá as pessoas meio que "faziam pose de boazinhas, evoluídas", e fora deste ambiente, "relaxavam" e voltavam a seu "eu espontâneo", falho, "real".

Quando qualquer pessoa me perguntava se eu "ia na igreja", minha resposta-padrão era:

- Não vou a nenhum centro religioso. Religião, para mim, não é algo que se pratica uma vez por semana, "no culto", é algo que se transpira, que se VIVE no cotidiano.

Mas apesar de minha "aversão" à "religião institucionalizada", sempre respeitei o Espiritismo Kardecista, especialmente por não cobrar, nem aceitar, dízimo dos fiéis. Sociologicamente, os espíritas tendem a ser pessoas instruídas, estudadas, que se relacionam com sua religião a partir da leitura, não de experiências místicas, transcendentais, "miraculosas".

Vendo-me num momento complicado, apesar de minha postura algo cínica, vi que "não haveria mal algum" em ir à Federação Espírita, nem que fosse só para me decepcionar e "desencanar de vez".

A Federação Espírita do Estado de São Paulo ficava a 200 metros da minha casa, portanto não havia desculpa. Juntei coragem e fui. Subindo a pequena escadaria branca, percebi que havia uma fila de pessoas no hall. Brasileiros têm certo fascínio por filas. Se há uma fila de pessoas, algo de "interessante" elas devem estar aguardando. Fui ao fim da fila e perguntei à última pessoa para o que ela era. Me disse "esta é a fila da palestra".

Espíritas não têm "culto" nem "missa", mas sim palestras, estudos. Minha avó Tula era palestrante no Centro Espírita Fé e Caridade, em Rio Claro. Portanto, eu sabia o que esperar de uma "palestra espírita". Aguardei ao fim da fila, e quando as portas foram abertas, entrei num grande parlatório, com mezanino, parecido com aqueles que a gente vê de madrugada na TV nos cultos evangélicos. Acostumada que estava ao acanhado "Fé e Caridade", admirei-me com o tamanho do lugar e o número de assentos disponíveis.

Eram 3 os palestrantes, se apresentaram como profissionais liberais, passaram suas "mensagens do evangelho" com aquele típico tom de voz dos palestrantes espíritas que eu ouvi em minha própria avó tantas vezes. Só no centro, não em casa. Terminada a palestra, disseram:

- Quem estiver precisando de atendimento personalizado, a seguir teremos orientação doutrinária no subsolo.

Como não tinha mais nada fazer, e já estava por lá, fui ao subsolo e peguei mais uma fila. Quando chegou minha vez, entrei na sala de atendimento, com umas 5 mesas, nas quais espíritas experientes "atendiam" aos visitantes. Me indicaram a mesa de uma senhora de cabelos brancos, com a mesma aparência respeitável das "senhorinhas espíritas" amigas da minha avó no Fé e Caridade.

Apesar disso, minha postura era algo cínica, de dúvida, como se estivesse diante de uma cartomante. Desde antes de sentar, já tinha decidido que falaria o mínimo possível, meio que "testando" a autenticidade de quem me atendia.

Muito simpática, com aquele típico "tom de voz espírita", professoral, perguntou o que me levara até lá. Respondi simplesmente:

- Estou à procura de orientação.

Ela olhou bem fundo nos meus olhos, pegou minhas mãos nas suas, tremeu levemente, e disse suavemente:

- Você tem mediunidade...

Achei que tinha sido uma pergunta e disse que não, que na verdade "tinha medo de espíritos". Ela não chegou a sorrir, mas suas bochechas se retesaram evidenciando seus pés de galinha, e nesta expressão compreendi sem palavras seu pensamento:

"Eu não perguntei se vc tem mediunidade, eu constatei que vc tem mediunidade."

Pegou uma folha de papel e começou a escrever o nome de uma série de cursos oferecidos pela Federação Espírita. Começou a falar comigo como se "soubesse do meu passado" de "espírita ancestral", ainda que nada eu tivesse lhe revelado.

Começou a me dar uma série de orientações: você deve fazer o curso tal, depois o curso tal, depois o curso tal... Enquanto eu me perguntava se ela "falava isso para todo mundo" ou era algo específico, personalizado, quando ela concluiu:

- Eu sei que você é uma pessoa intelectualizada, cheia de dúvidas sobre a espiritualidade. Mas estou te esclarecendo o caminho que eu vejo que você pode seguir no Espiritismo, pois tem todas as potencialidades. A sua intelectualidade pode ser usada em prol da espiritualidade, dentro do Espiritismo.

Percebeu minha postura reticente, questionadora, duvidosa. Mais uma vez pegou minhas mãos e disse:

- Mesmo que você ainda não se sinta pronta, pense. Guarde este papel. Um dia, quando chegar a hora, você compreenderá.

Não sei se já chegou esta hora. Na verdade, sei que ainda não veio. Ainda guardo o papel com suas orientações. Continuo a ter "medo de fantasmas" e de minhas capacidades mediúnicas. De certa forma, as renego, procuro ignorá-las, não alimentá-las. Nunca investi nisso, nunca me senti apta.

Mas sempre percebi uma série de intuições, insights, coisas "cinzas" inclassificáveis em minhas experiências pessoais cotidianas. Embora racionalmente eu ainda rejeite tudo isso, não posso deixar de percebê-las. Guardo certo medo de "ver além" e perder o controle das coisas que não compreendo, que sinto estarem "acima" ou "além" do eixo cartesiano, de tudo o que pode ser determinado, classificado, medido.

Acho que minha mente ainda está "fechada" e não quer ver as coisas que aquela senhora percebeu em mim.

Muito me surpreendeu que ela tenha me tratado como uma "espírita escolada", mesmo que eu não lhe tenha dito praticamente NADA sobre mim.  Parecia que ela "já sabia" de tudo que não lhe falei. Senti-me como uma aluna diante de uma professora que a constata "em nível avançado" e já na quinta série recebe orientações de como entrar em Harvard.

Talvez seja este o caso, talvez não. Nunca "rompi definitivamente" com o Kardecismo, pois nunca vi necessidade disto. Primeiro porque esta não é uma religião na qual exista "conversão" e "desconversão" dos "apóstatas". Segundo pois, embora já tenha percebido inconsistências e até falhas teológicas em sua doutrina, ainda considero o Espiritismo uma religião digna de respeito, que não se envolve em escândalos, que não cobra nada em dinheiro de seus adeptos. Terceiro, pois mesmo me aprofundando nos estudos judaicos, ainda não constatei nenhuma "falha fundamental" na doutrina espírita, fora a questão "de Jesus", que precisa ser relativizada, e compreendida culturalmente no Ocidente. 

Hoje, não sei sinceramente se continuo "espírita" ou não. Mas posso dizer que nunca me decepcionei com nada desta religião. E que esta visita apenas avolumou meu respeito pela doutrina. O fato de a senhora que me atendeu ter me encaminhado a "estudos superiores espíritas" mesmo sem saber de minha história de vida e meus estudos universitários, me surpreendeu bastante e reforçou minha admiração por seus praticantes graduados.

Ela sabia quem eu era, ainda que nada tivesse lhe dito. Não descarto a possibilidade de um dia fazer a série de cursos que me indicou. Mas ainda me sinto muito "racional, cartesiana", e pouco "intuitiva, metafísica".

Ainda não me sinto pronta. Nem sei se um dia estarei.

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sábado, 20 de abril de 2013

De Orlando Nunes

Nunca estive na presença de Orlando Nunes José, nem sei se este é seu nome de "pessoa física". Caso ele chegue a este texto e queira que seu nome seja suprimido, trocado pelas iniciais, basta deixar um comentário.

O conheci em 2005, na comunidade Perguntas Cristãs Complexas. Era uma comunidade do Orkut de debates religiosos que se distinguia por sua proposta democrática, variedade de participantes, pluralidade e pelo elevado nível dos debates. Mais do que tudo, era um espaço único, no qual pessoas de diferentes credos podiam interagir, comparar seus dogmas, ver os pontos fracos e fortes de cada vertente teológica.

Os debates eram muito variados. Desde temas do "dia a dia" como sexo, vestuário, alimentação, comportamento e política, até pequenas abstrações filosóficas impalpáveis, mas teologicamente essenciais.

Nessa época eu me classificava como "espírita kardecista". Ainda o digo quando perguntada por alunos. Foi no período de amadurecimento teológico durante o qual participei desta comunidade que me descobri Noachide. Na comunidade, ao assim começar a me dizer, os membros entendiam a o que eu me referia. Seu eu me declarar "filha de Noé" aos meus alunos, seria muito difícil fazê-los entender do que tal se trata. E o Noachidismo pode nem ser considerado uma "religião", mas uma derivação do Judaísmo.

Orlando Nunes era calvinista. Protestante histórico seguidor de João Calvino, o célebre reformador franco-suíço. Se destacava por ser, ou aparentar ser, uma pessoa madura, equilibrada, pluralista, e de profundo conhecimento teológico. Por sua postura sempre ilibada, todos os membros lhe dedicavam o mais alto respeito, eu inclusa. Até o admirava por sua seriedade e simpatia.

Ainda na PCComplexas tivemos alguns debates memoráveis. Um ponto que exploramos até a exaustão foi se, ao ser suspenso no madeiro (a cruz) o corpo de Jesus se tornou maldito, conforme:

Deuteronômio 21:
22 Se um homem sentenciado à pena de morte, for executado e suspenso a uma árvore, 23 seu cadáver não poderá permanecer na árvore durante a noite. Você deverá sepultá-lo no mesmo dia, pois quem é suspenso torna-se um maldito de HaShem. Desse modo, você não tornará impuro o solo que o eterno seu D'us lhe dará como herança.

Gálatas 3:
13 Cristo nos resgatou da maldição da Lei, tornando-se ele próprio maldição por nós, como diz a Escritura: «Maldito seja todo aquele que for suspenso no madeiro.»

Orlando simplesmente não podia conceber a idéia de seu deus e messias ter se tornado maldito ao morrer. E, tecnicamente, Jesus foi suspenso num madeiro ao ser crucificado, tornando-se, assim "maldito" de acordo com as Escrituras, o que para ele era uma interpretação herética. Podia ser blasfema para ele, mas essa acepção tem amplo respaldo, com duplo testemunho, na Bíblia que ele próprio considerava sagrada. Também debatemos, provavelmente por meses, a questão do livre arbítrio, que os calvinistas negam existir, e que é fundamental para 90% das outras vertentes cristãs.

Debatíamos, discordávamos, refutávamos um ao outro. E ambos tirávamos grande prazer disso. Tudo ia muito bem até que o "clima político" da PCCplex foi pesando por diversas efemérides, mas especialmente por a proposta de "Democracia plena" não se concretizar, e algumas atitudes questionáveis do grupo de moderadores.

A coisa foi crescendo a um ponto que muitos dos membros "chave" pensavam em debandar em protesto. Nesta circunstância, Orlando Nunes me mandou um e-mail com uma proposta muito interessante: a de fundarmos nosso próprio espaço, convidando os dissidentes, uma nova comunidade de Perguntas Cristãs, essa sim democrática, aberta, plural e transparente.

Incluímos nesta troca de e-mails tb ao grande amigo que fizemos na PCX Alex "Aleph" de Paula, cristão evangélico neopentecostal da Assembléia de Deus. E Aleph prontamente aderiu ao projeto. Detalhe bastante significativo é que tanto Orlando Nunes como Aleph são pastores evangélicos certificados, ainda que não o exerçam. E ambos me viam em nível de igualdade com eles para dar início a um projeto, para nós, tão importante. Nem posso dizer como me senti honrada, em minha pequenez cheia de defeitos, de que pessoas com tão alto prestígio no "meio religioso" tanto virtual como físico, me vendo como "no mesmo nível" deles!

Tb convidamos para ser membro fundador conosco ao biólogo, naturista, defensor dos Direitos Humanos, budista e jedi Arthur "Dogbert" Golgo Lucas, mas por uma série de desencontros virtuais, ele se tornou membro, mas não com tanta participação.

Nas conversas por e-mail entre mim, Orlando Nunes e Aleph foi decidido que "reciclaríamos" uma comunidade quase inativa do Orlando Nunes, a "Cristianismo Puro e Simples", a rebatizaríamos de "Religião & Vida", promulgaríamos regras democráticas (a parte de criar esta legislação ficou, com muito gosto, na minha responsabilidade), convidaríamos os membros da PCC-plex e de outras comunidades de debate religioso, fazendo da nossa comunidade o que a PCComplexas deveria ter sido.

No começo, foi tudo muito bem. A comunidade bombou. Muitos membros de outras comunidades além da PCComplexas aderiram e participavam ativamente da nossa. Nessa época, eu já trabalhava, e não podia mais, como antes, dar longos plantões nos debates de que tanto gostava. Mas diversos tópicos interessantes pululavam em comentários. Rapidamente a comunidade ultrapassou mil membros. Até moderadores que haviam motivado nossa saída da PCX "faziam as honras" de ir até nossa comunidade para debater conosco. Na nossa comunidade, as regras que eu elaborara e colocara em votação protegiam a liberdade de expressão de todos muito melhor que as regras da PCX que nos haviam feito sair de lá.

Ainda nessa época em que tudo eram flores, eu estive em São Paulo, e conversei com o Orlando para nos encontrarmos pessoalmente. Falei com ele ao telefone, combinamos de finalmente nos conhecer no Conjunto Nacional, na esquina da Avenida Paulista com a rua Augusta. Perto da hora acertada fui a um Cyber Café, só para "dar um tempo" e vi uma mensagem sua com alguma desculpa ou justificativa de que ele não poderia ir. Isso deveria ter levantado um sinal de alerta, mas não o percebi. O coloquei na conta dos "bolos comuns" que as pessoas nos dão por conta de algum "imprevisto", e não mais me preocupei a respeito. Deveria.

Tudo continuou a ir muito bem na comunidade... Até que... Começaram a surgir os problemas. Orlando começou a demonstrar incômodo com o teor e o rumo "liberal", "blasfemo" ou "não edificante" (no seu ver) dos debates. Começou a criticar os demais moderadores e a querer "mandar mais" que eu e o Aleph. Com nossos protestos, Orlando tirou da manga o trunfo que jamais pensei que tinha guardado: que ele era o "dono" anterior da comunidade, portanto, ela lhe pertencia mais do que a nós.

Debatemos isso num tópico. Sabendo que ele estava a usar um argumento falacioso, copiei e colei os trechos dos e-mails que trocamos combinando os termos da fundação da R&V. E ressaltei em negrito todas as vezes que ele colocou, por escrito, "NOSSA comunidade". E lhe disse: "se em cada vez que vc escreveu NOSSA COMUNIDADE vc tivesse escrito MINHA COMUNIDADE, eu não teria aderido ao seu projeto."

Ao invés de perceber seu erro, ele ficou "ofendidinho" por eu estar divulgando o teor dos e-mails que havíamos trocado. Logo o Aleph renunciou ao seu posto de moderador. Em solidariedade a ele e por já estar bem de saco cheio de tudo aquilo, muito frustrada e me sentindo lograda, tb renunciei, no mesmo dia. Orlando manifestou estar se sentindo traído.

Depois disso meio que "larguei mão" e não ia mais todo dia lá debater, apenas dava uma "conferida no fórum" esporádica, sem me engajar muito. Depois de um tempo, não sei bem como ou pq o próprio Orlando renunciou a prosseguir moderando "nosso/seu" grupo, repassando-o a outros moderadores. Por vários meses assim ficou a comunidade.

Até que... Sumiu!

Demorou para cair a ficha. Por algumas semanas, eu entrava no Orkut, acessava o link dos favoritos da R&V e ele simplesmente não abria. Eu tinha certeza que era algum erro temporário até que entrei em contato com Jarson Brenner e ele me disse o que havia acontecido. Inadvertidamente Orlando Nunes havia, não sei tecnicamente como, reativado sua condição de "dono" da R&V e simplesmente a DELETADO. Sem explicação, sem justificativa, sem saída, sem registro. Por debaixo dos panos, ele havia desaparecido sumariamente com uma comunidade muito ativa, deixando órfãos, perdidos e desnorteados seus mais de mil membros. Que nome se dá a isso?

Me falaram que o Orlando provavelmente tencionava se tornar um "líder religioso" e fazer da R&V "sua congregação virtual ", na qual ele arregimentaria adeptos para sua visão teológica. E quando viu falhar o projeto de fazer dessa comunidade seu "trampolim" para construir um bom nome no meio religioso, decidiu, sumariamente, deletá-la, sem nenhum respeito aos membros ativos e aos membros fundadores, que tantas horas e tanta dedicação haviam destinado a esta comunidade virtual.

Nem sei se consigo adjetivar de forma justa este ato, nem como ele me surpreendeu da pior forma possível. Por todos os anos de convivência com Orlando, pelo tanto que eu o respeitava e achava que o conhecia, e pelo próprio discurso que ele fizera quando da fundação da comunidade, nenhum de nós suspeitava que ele seria capaz de um ato tão baixo, tão vil. Eu não havia jamais visto nenhum "sinal de alerta" de que ele seria capaz de nos dar uma rasteira tão inesperada.

Orlando Nunes foi a pior decepção que já tive na Internet.

De certa forma, ter uma boa memória pode ser considerado uma maldição...

Lara Fabian - Love by Grace http://youtu.be/Kjqa_Csf29Q

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quarta-feira, 27 de março de 2013

O Getsêmani, o cálice e o pêndulo

Era dezembro de 2005. Eu estava prestes a completar 23 anos, em meu penúltimo ano de faculdade. Recentemente eu descobrira um novo prazer intelectual: debater Teologia em comunidades virtuais. A mais agitada no Brasil à época era o Orkut. E eu era uma orkuteira de primeira!

Eu já lera boa parte da Bíblia, já concluíra diversas disciplinas de cultura e história judaicas na Letras da USP. Queria interagir com outras pessoas interessadas nestes mesmos assuntos. Queria "testar hipóteses", debater, tentar levar a exegese aos seus limites. Pesquisei por "perguntas cristãs" (à época eu me considerava cristã, hj sei que nunca fui) e o primeiro resultado, de uma comunidade à época com 30 mil membros, foi a "Perguntas Cristãs Complicadas".

Interessante. Entrei. Logo percebi que aquela era uma comunidade confessional direcionada a cristãos evangélicos. E que eles passavam boa parte do tempo tentando debater com diversos malabarismos de copiar e colar, enxertando Cântico dos Cânticos no meio da Torah, com umas pitadas de profetas, tudo temperado pelo Apocalipse. Uma salada mista, pra quem vinha da Academia e procurava debates refinados. E grande parte destes malabarismos era para tentar decidir qual dentre as milhares de vertentes evangélicas é a "única e verdadeira". Também apreciavam bastante menosprezar a Igreja Católica, como se o Papa fosse o anti-Cristo, e desrespeitar a Maria de Nazaré de todas as formas possíveis.

Logo ao começar a apresentar perguntas e oferecer respostas, percebi que minhas posições afrontavam diretamente as interpretações religiosas deles. E não apenas eu percebia esse mal-estar. Diversos outros membros "se estranhavam" com o moderador Shaylon, que sumariamente expulsava as pessoas que ele achava que não estavam lá para "edificar a fé". Devido às suas ações intransigentes, outros membros que estavam lá há mais tempo resolveram debandar e criar sua própria comunidade dissidente: a Perguntas Cristãs Complexas.

Recebi um scrap de Leandro Moreira com um convite, e migrei. Na PCComplexas a proposta era de um ambiente democrático, com moderadores eleitos pela comunidade, e com plena liberdade de expressão. Era uma comunidade muito ativa e diversa: com ateus, budistas, espíritas, evangélicos de todas as vertentes imagináveis, católicos e outros tipos de protestantes, inclusive os tais dos "judeus messiânicos". Tínhamos até um seguidor de Inri Cristo. Não era piada, o Unamundo era uma pessoa racional e esclarecida, que defendia que Inri Cristo de fato era uma reencarnação de Jesus.

Logo os tópicos pegaram fogo. A participação era tanta, que eu chegava a meio que "dar plantão" nos finais de semana, finalmente debatendo cada pequeno meandro do texto bíblico, com pessoas das mais diferentes formações, para meu grande deleite intelectual. Um tópico em especial foi um hit instantâneo, com o tema: "sexo antes do casamento é pecado mesmo? Onde isso está escrito?"

Um prato cheio pra mim, que sempre gostei de "esgarçar" as interpretações da Torah até o limite máximo de sua liberalidade. Construi uma argumentação amparada em diversas passagens, mas sobretudo nesta:

Ex:22
15 Se alguém seduzir uma virgem solteira e se deitar com ela, pagará o dote e se casará com ela. 16 Se o pai dela não quiser dá-la, o sedutor pagará em dinheiro, conforme o dote das virgens.

Essa passagem diz: se uma moça se entregar de boa vontade "seduzida" por seu namorado, não há obrigatoriedade de casamento, apenas uma indicação. Se o pai não concordar com o casamento, ele não se realizará. O pai deve ser indenizado por ter "sua propriedade avariada". Fora a "multa", NENHUMA punição é prescrita a nenhum dos enamorados, e não é dito que eles estejam a partir daí proibidos de contrair matrimônio com terceiros.

Há mais uma dezena de outras passagens bíblicas que me autorizam a defender que, pela Torah, essa "neurose" cristã com a virgindade não tem respaldo legal. Debate vai, debate vem, um membro em especial, Sílvio, que era mórmon, se demonstrava revoltado com, na sua forma de pensar, eu estar a "estimular a promiscuidade" e de eu estar usando a própria Bíblia para isso.

Ao longo de uns 400 comentários o debate foi cada vez pegando mais fogo até que... Até que certo dia o tal Sílvio foi ao perfil moderacional e deixou 2 ou 3 scraps lá reclamando de a comunidade dar espaço para, nas suas palavras textuais, "uma garota de programa enrustida".

Imediatamente o moderador Marcel Vasconcelos excluiu o membro, fez um screenshot e deletou os scraps. No dia seguinte a comunidade estava em polvorosa, sem que os membros soubessem exatamente o que tinha acontecido, e os amigos do Sílvio questionando sua retirada. A moderação da PCCplex explicou a todos que o conteúdo da postagem que resultara na expulsão do Sílvio era altamente ofensivo, e portanto não seria posto à vista de todos.

Me mandaram uma cópia do screenshot e ao ler que eu havia sido chamada de "garota de programa" (pra quem não sabe, isso se refere às prostitutas) meu sangue imediatamente gelou nas veias, e me senti profundamente ultrajada. Eu jamais tinha imaginado que por passar minhas noites e finais de semana pendurada na internet debatendo Teologia eu poderia ser acusada de fazer sexo a dinheiro.

Pois, obviamente, se eu fizesse sexo a dinheiro, primeiro que não debateria Teologia, segundo que se eu fosse deste métier, nas noites e feriados eu estaria ocupada demais para ficar em casa madrugadas a fio debatendo pequenos detalhes da Lei de Moisés. Então a pessoa que me ofendeu, e se dizia um mórmon muito dedicado à sua religião, sabia a princípio que estava levantando falso testemunho contra mim, o que sim é pecado claramente expresso no Decálogo (Cf. Ex 20:16).

Mas o Sílvio prosseguiu a reclamar, e a incitar os membros que lhe eram próximos contra a moderação da PCX. A Moderação então franqueou que ele nomeasse um "advogado", um membro da comunidade no qual ele confiasse para o representar. Ele escolheu Orlando Nunes José, que à época era amplamente respeitado por todos, até por mim (posteriormente ele se revelou uma das maiores decepções que eu já tive na Internet, mas isso fica para outro texto).

Mandaram a Orlando Nunes o screenshot. E, sabiamente, ele deu razão à Moderação. Concordou que a expulsão do Sílvio era sim justa. Mesmo tendo sido nomeado por Sílvio como defensor, não havia como ele defender seu amigo diante da forma como este me ofendera. Sílvio engoliu o sapo e não mais nos incomodou por alguns meses.

Tempos depois, ele pediu para voltar, e a Moderação me consultou. Minha posição foi: que ele volte, mas que se desculpe publicamente pelo que fez. Se a ofensa foi pública, igualmente deveria ser a retratação. E ele o fez, criou um tópico chamado "O Getsêmani, o cálice e o pêndulo", no qual se mortificava pelo que havia feito. Li, não me convenci de sua sinceridade, mas me dei por satisfeita. Posteriormente até cheguei a voltar a debater com ele outras questões.

Depois de muito tempo, sanadas todas as feridas, hoje este episódio me traz um certo "orgulho", como o que um soldado sente a respeito de suas cicatrizes de guerra. Foi algo, completamente inesperado, que me marcou muito. Tanto pela ofensa como pela proteção que o grupo de moderadores me deu. Foram rápidos, eficientes, e agiram da melhor forma possível à época. Depois tivemos nossos entreveros sobre a não realização da proposta de "democracia plena", mas isso tb fica para outro texto.

Muitas mulheres são acusadas de ter um comportamento sexual desregrado, ofendidas como "garotas de programas" e tratadas como prostitutas, sem o ser.

Mas poucas podem dizer que passaram por isso porque gastavam todas as suas horas livres, varando madrugadas e finais de semana, a debater Teologia.

Tópico do orkut - http://www.orkut.com/Main#CommMsgs?tid=2442448414765242414&cmm=6452454&hl=pt-BR

http://pccomplexas6452454.blogspot.com.br/2006/03/o-getsemani-o-clice-e-o-pendulo-annimo.html

Depeche Mode - Personal Jesus http://youtu.be/cNd4eocq2K0
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sábado, 8 de dezembro de 2012

Porque escrevo este blog

É possível q grande parte das pessoas q leêm os textos do meu blog não compreendam o q me motiva a escrever. Os esclarecerei.

1 - Desabafar.

Quando comecei a escrever isso não estava lá muito claro. A princípio, queria divulgar textos legais, poesias, músicas, e até receitas q não queria perder. Depois comecei a escrever sobre minhas experiências como professora, refletindo sobre as coisas q me aconteciam, os problemas q enfrentava, as histórias de meus alunos.

Percebi q escrever me ajudava psicologicamente. Q ao colocar essas coisas "pra fora" eu ficava aliviada. O assunto meio q "parava de incomodar tanto". Ao escrever, fixando fatos e pensamentos, eu descarregava as emoções q esses assuntos me traziam, e passava a vê-los de forma mais "distanciada" ou "bem resolvida".

Acontecia de um "causo" de determinado aluno, ou uma efeméride q me envolvia privar-me do sono, circulando continuamente em meus pensamentos, até q eu escrevia um texto sobre isso e a questão parava de me incomodar.

Quase como se ao "dar upload" a uma memória, eu a pudesse remanejar para meu "arquivo morto" mental e então "colocar uma pedra sobre o assunto", uma vez q sobre ele já escrevi, refleti; e quando o quiser revisitar, estará na ponta dos dedos.

Ao escrever sobre meu presente e perceber q isso me fazia bem, tive a idéia q nos leva ao segundo motivo q me faz escrever.

2 - Divulgar meu testemunho de época.

Como historiadora conheço o valor e a importância de documentos de época. E não apenas são documentos de época "textos oficiais", jornais, livros. Tb são matéria-prima da História diários, cartas pessoais, declarações, testamentos, depoimentos. São instrumentos fundamentais para o estudo da História das Idéias, da Mentalidade, do Cotidiano.

Ao relatar minhas impressões sobre a vida, elas podem até não ser relevantes ou "impressionantes" hoje. Mas daqui a 200 anos este blog pode ser um documento muito útil para pesquisadores estudarem a vida neste princípio do século XXI. Meu testemunho pode parecer enfadonho hoje, mas pode ser muito interessante conforme os séculos passam.

Outra questão subjacente é o fazer-me conhecer por meus descendentes: netos, trinetos, tataranetos, q não virei a conhecer. Isso visando procurei escrever também sobre meus antepassados, citando nomes e lugares, para q no futuro minha descendência saiba sua origem.

Busquei na memória e fiz pesquisa com minha avó para q ela me contasse mais detalhes sobre estes fatos pregressos q se passaram em sua infância, e os relatei o mais fielmente possível. Se não tivesse lhe perguntado esses fatos morreriam com ela. Se eu não tomasse a iniciativa de os eternizar por escrito, no futuro os descendentes dos Bianchetti, Pilon, Gonçalves, Alves, Reiter, Ignácio, Novais, Silva, Tomasella, Ramos, Alencar, Massuella, jamais saberiam de q forma essas famílias se uniram e aparentaram-se. Eu tenho a convivência com minha avó Tula q seus demais descendentes não têm, portanto apenas eu posso tomar o depoimento diretamente de sua testemunha ocular, e assim preservar a História Oral e as tradições da família. As quais "morreriam" se eu não as escrevesse.

3 - Publicar ensaios e reflexões.

Há pelo menos 9 anos participo ativamente de comunidades virtuais de debates teológicos. Comecei ainda nos tempos do Orkut com as comunidades Perguntas Cristãs Complicadas, Perguntas Cristãs Complexas, Religião & Vida (criminosamente deletada) e a Perguntas Cristãs Ridículas. Esta última, criei e moderava com muito prazer. Por sua causa dui excluída do Orkut, e passei a moderar a Bnei Noach - Filhos de Noé no Facebook.

Nenhum dinheiro no mundo seria capaz de pagar pelo treinamento q nessas comunidades tive sobre praticamente todos os aspectos da experiência humana. Como cheguei a participar de tudo isso vale o relato.

Sempre tive desde criança uma "sede" pelo transcendental. Apesar de nunca ter gostado de ir no centro espírita (o q vale outro texto), sentia um certo "comichão" q me levava a tentar me conectar e descobrir o q "havia além" deste mundo. Já na faculdade, ao aprender justamente sobre a importância dos documentos de época, me decidi a ler o mais fundamental deles. Também fui estimulada a isso pela presença no campus de missionários evangélicos americanos, do grupo "Alpha e Ômega". Queria com eles praticar e desenferrujar meu inglês. Mas o único assunto sobre o qual queriam conversar era "a Bíblia".

Não me fiz de rogada. Comprei uma boa tradução (a "Bíblia de Jerusalém") e li. Não li inteira, confesso. Pulei os profetas. Mas li todo o resto, Antigo e Novo Testamento. Acho q li uns 70% da Bíblia católica, mais extensa q a protestante e, obviamente, q o Tanach hebreu. Antes de começar a ler, dela tinha uma idéia superficial, preconceituosa. E talvez prosseguisse a ter essa visão não fosse minha formação como historiadora.

É um texto cru, sangrento, machista, xenófobo, violento. Retrata sacrifícios humanos, recomenda o genocídio completo dos cananeus, prescreve apedrejamentos, rituais sacrificiais, espalha o preconceito e afirma q a mulher é propriedade do marido. Completamente chocante.

Sim, chocante. Compreendido com os olhos de hoje. Porém, se analisado sob a perspectiva histórica, todos esses temas ganham outros matizes. O Antigo Testamento foi escrito na Idade do Bronze, por um povo de pastores nômades q tentava sobreviver no deserto, ameaçado por diversos poderosos impérios, e por eles escravizados.

Ao ler as Escrituras Hebraicas sob o prisma de sua historicidade, esses detalhes chocantes cessam de incomodar. Não há como exigir de um texto fixado há 2.500 anos conceitos como o respeito aos Direitos Humanos, Auto-determinação dos povos, liberdade de culto, igualdade entre os sexos. Seria um completo anacronismo, por exemplo, descartar a Bíblia por ser machista, uma vez q a Revolução Sexual, q tanto me beneficia, aconteceu há meros 50 anos.

Uma vez isso compreendido, outros temas do texto saltam aos olhos. O conceito de responsabilidade civil, de misericórdia, a prescrição de q o escravo deve ser libertado após 7 anos, ou q se for agredido ganha a liberdade, o respeito ao trabalhador, aos órfãos e viúvas, o respeito aos animais, a recomendação do perdão, a necessidade do devido processo legal, testemunhas e defesa num julgamento. O "amai ao próximo como a ti mesmo" (Levítico 19:18).

Assim analisado em todas as suas matizes, à luz da compreensão histórica, vemos q todos estes temas eram, em sua época, inéditos e revolucionários. Assim nos damos conta da profundidade da contribuição do povo hebreu para a construção do ethos e da práxis ocidentais. E pq nossa civilização não é "Ocidental", mas Judaico-Cristã-Ocidental.

E quanto mais eu lia, estudava, analisava, questionava esse texto, mais ele se engrandecia em significados e profundidade. Confesso: o q começou com a curiosidade de um passatempo ou oportunidade de agregar um "acessório intelectual" para poder debater teologia em grau profundo, tornou-se uma paixão quase obsessiva.

E quanto mais eu lia e debatia nessas comunidades virtuais, mais eu me interessava em saber mais. Foi assim q me direcionei aos estudos judaicos e comecei a ter algumas idéias, argumentos e mesmo "teses" teológicas próprias. Vi q os contendores de idéias católicos e evangélicos eram "fichinha". Q estudo realmente sério eu teria em sinagogas e yeshivás. E passei a investir nestes interlocutores, q realmente sabem do q estão falando, não espalham "achismos" nem "o q é loucura par os sábios" (1 Coríntios 1:23).

E assim comecei a produzir textos com meus modestos estudos, reflexões, questionamentos e afins sobre as Escrituras. Muitas vezes me surpreendi em pleno sábado à noite me deleitando em elaborar idéias entre o Mishnê Torah e o Moré HaNevuchim (Guia dos Perplexos)!

4 - Treinar a arte da escrita.

Ainda hoje não sei se levo muito jeito para professora. Também não sei muito ao certo se gostaria de trabalhar na iniciativa privada, tornar-me empreendedora, fazer uma conversão ortodoxa seguida de Aliyah, virar hippie e me mudar pra Alto Paraíso de Goiás, casar ou comprar ou comprar uma bicicleta.

Certa vez numa grave crise de identidade em plena noite insone passei horas me questionando sobre meu propósito nesta vida, e perguntei-me: "o q eu queria ser quando crescesse?". Só uma resposta me veio à lembrança. Sempre sonhei em um dia ser escritora. Lembrei-me das dúzias de cadernos q preenchia com fantasias quando era pré-adolescentes, dos lugares exóticos e nomes pitorescos q dava aos meus personagens. Das centenas de poemas q escrevi e mantenho bem guardadinhos, como trunfos na manga, para procurar uma editora num momento de desemprego.

Escrevendo neste blog não apenas eu atinjo todos os objetivos supracitados, como treino, refino, destilo, instilo, sofistico e lapido meu "chamamento literário". Percebo meus cacoetes. O uso do "q" e não "quê". Meus vícios de linguagem, pedantismos, auto-comiseração, auto-indulgência, omissões, senões e pontos fracos. Onde sou chata e onde pego direto no ponto. Treino a construção de imagens multi-sensoriais, com certa beleza poética.

Vou estudando a arte q nenhum mestre pode ensinar: como ser um observador arguto, perspicaz, e às vezes inclemente, de si mesmo, dos q me cercam, da sociedade e da cultura q nos produziu. E a reproduzir essas observações em apenas 27 caracteres, de forma bela e quiçá relevante.
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sábado, 17 de novembro de 2012

Porque sou Sionista

Muitas vezes é difícil, sendo informado pela mídia ocidental, saber se nossos pontos de vista estão sendo manipulados a serviço de interesses políticos aos quais estamos alheios.

Muitas vezes nem os próprios jornalistas vão fundo nas questões sobre as quais fazem reportagens. E frequentemente suas posições apenas ecoam um paradigma político q parece "bonzinho" à primeira vista, mas não resiste a uma análise mais profunda.

No meu curso de História na USP sempre via os alunos "politizados" metendo o pau em Israel, levantando a bandeira da causa palestina e chamando os sionistas de "nazistas judeus".

Nada mais superficial...

O principal motivo desses grupos serem pró-palestina não é simpatizarem com os palestinos, mas serem anti-yankees. Identificam os EUA como "o inimigo capitalista" e todos os seus aliados como inimigos. E quem é contra os EUA como aliados.

Se não se conformassem com uma visão simplista e maniqueísta, iriam mais fundo na questão, se informando sobre quais bandeiras os palestinos levantam. E elas nada têm de "progressistas". A causa palestina propugna a pura e simples destruição do Estado de Israel e, se possível, a morte de todos os judeus. Pleiteiam em Canaã erigir um estado islâmico, daqueles onde a mulher é obrigada a usar o véu e liberdade de expressão merece pena de morte, por apedrejamento.

O Estado de Israel é laico. É a única democracia de todo o Oriente Médio. Em Israel, cristãos e muçulmanos podem professar livremente sua religião, sem perseguições. Em Israel, as mulheres podem andar com a roupa q quiserem, são convocadas para o serviço militar, são livres, até para ser a chefe do poder, como a primeira-ministra Golda Meir está para o provar.

O Estado de Israel não tenciona extirpar os palestinos da face da Terra. Não faz ataques terroristas nem bombardeios aleatórios. Apenas responde, com ataques cirúrgicos, quando atacado pelo grupo terrorista Hamas.

Qualquer pessoa q estude com sinceridade a causa judaico-palestina saberá q, por justiça, Israel pertence aos judeus. Eles são os ocupantes originários daquela terra. Da mesma forma q os indígenas brasileiros, como ocupantes originais desta terra, são os verdadeiros donos e merecem ter suas aldeias demarcadas e respeitadas.

Em 79 d.C. os judeus foram expulsos de Israel pelo Império Romano. Desde então foram estrangeiros na terra alheia, sem cidadania, discriminados, violentados. O ápice do antissemitismo ocidental foi o Holocausto nazista. Este fato, tão recente em termos históricos, demonstra q não há lugar no mundo onde os judeus podem se sentir 100% seguros de poder viver e professar sua cultura em paz, fora Israel, criado em 1948 justamente para abrigar os sobreviventes da "Solução Final".

Israel é o único país judeu do mundo. Quantos países islâmicos há, ou onde os muçulmanos são maioria? 30 ou 40, se não mais. Os palestinos poderiam tranquilamente viver no Egito, na Jordânia, no Líbano, sem serem incomodados. E os judeus, caso não houvesse Israel, poderiam viver tranquilamente nesses países? Seguramente q não, pois mesmo na Alemanha tão avançada, eis o fim q tiveram...

O Sionismo moderno nasceu com o sonho de Theodor Hertzel. Materializou-se com Oswaldo Aranha e ben Gurion. E este sonho, fragilmente concretizado, continua ameaçado. Israel sabe da fragilidade de sua condição, da inimizade de todos os seus vizinhos, do antissemitismo arraigado dos terroristas muçulmanos q manipulam a causa palestina.

É preciso coragem para declarar-se sionista, e pró-Israel. Mas por questão de honestidade intelectual, como historiadora q foi ao fundo da questão, não há como honestamente ter outra posição.

Israel tem o direito de existir!

domingo, 21 de outubro de 2012

Aprendendo com a diplomacia de Oswaldo Aranha

Poucos conhecem a importância da ação deste diplomata brasileiro na criação do Estado de Israel. Todos os anos é realizada a Assembléia Geral da ONU, q sempre é inaugurada com o discurso do presidente do Brasil. Isso não ocorre por a ONU considerar q o Brasil seja "importante", mas por tradição, em honra à ação de Oswaldo Aranha, q foi a primeira pessoa a discursar na Assembléia Geral, quando de sua fundação.

Sem a ação positiva de Oswaldo Aranha, a resolução da criação do Estado de Israel talvez nunca tivesse sido aprovada pela ONU, e hj não haveria Aliyah (retorno dos judeus a Eretz Israel). O protagonismo de Oswaldo Aranha é relatado neste texto, q cito em parte.

"Tão logo abriu a sessão, Oswaldo Aranha percebeu que com aquela presença no plenário, a proposta da UNSCOP não iria alcançar o elevando quórum necessário para sua aprovação. Estava se desenhando no horizonte a tão temida quarta-feira negra: a rejeição da partilha. Os judeus depois de uma vivencia de 1.812 anos sem-Estado teriam perdido a primeira grande chance de soerguerem-no na Palestina britânica, anos depois de poderem recriar o seu país na terra bíblica. Momento sumamente sombrio, depois tantas perseguições, tanto sofrimento. Pesado silencio dos judeus se contratava com a exaltada alegria dos inimigos da Partilha.

"Mas numa faísca de iluminada lucidez, Oswaldo Aranha encontrou uma saída legitima para impedir a implosão do direito de autodeterminação dos povos. Aconselhou aos membros da Agência Judaica sair em busca do aumento do número de oradores inscritos na sessão. Assim, quando os inimigos de Israel começaram a exigir em coro a imediata votação, Oswaldo Aranha declarou solenemente: “Senhores, temos uma lista de oradores”. E exatamente no horário marcado para encerramento da sessão, Aranha solenemente se levantou e disse: “Senhores, nós tivemos um longo e dramático dia sobre as demandas históricas sobre o que foi proposto. Suspendo a sessão até a manhã de sexta-feira (no dia seguinte, quinta, era feriado nacional, Dia de Ação de Graças...).

"Com o singelo e simples conselho, Oswaldo Aranha conseguiu evitar que ocorresse a quarta-feira negra para os judeus. Destarte, no dia de 29, sábado de quando veio a ocorrer a votação, resultou a aprovação da proposta da Partilha, com 33 votos a favor, 13 contra, 10 abstenções. Nahum Goldman, membro da delegação, declarou que Aranha salvara a Partilha. Posteriormente, seria outorgado a ele, post-mortem, em sinal de agradecimento de Israel, a medalha Ben Gurion." fonte: http://www.visaojudaica.com.br/Novembro2007/artigos/19.html

Reflexão:

Não são apenas pessoas com cargos de destaque q carregam a responsabilidade de fazer a coisa certa na hora exata. Cada um de nós tem capacidade e somos apresentados à possibilidade de ajudar aos outros, quando a oportunidade se apresenta. Da mesma forma q Oswaldo Aranha teve lucidez e paciência para esperar o momento correto de agir para ter o melhor resultado possível, devemos ter sua perspicácia e inteligência para saber o momento e a forma correta de fazer as coisas.

Para quem não sabe, a definição de "política" é: "a arte de conviver com os diferentes" ou "a capacidade de conciliar interesses divergentes". Não são só "os políticos" q fazem política, todos nós a praticamos, ou deveríamos, em prol da harmonia, da convivência, do "bem geral". Se Oswaldo Aranha não tivesse a inteligência e o senso de oportunidade de adiar a votação sob sua responsabilidade, ou se tivesse dito "na verdade, não quero votar hj pois hj a resolução seria pró-Palestina e eu sou pró-Israel", não haveria Israel.

Diplomata experiente ele sabia, como um toureiro, q enfrentar o problema de frente, em desigualdade de forças, teria um mal resultado. Da mesma forma q o toureiro usa sua capa para direcionar o ataque do touro para longe de si, por saber-se mais fraco fisicamente, Oswaldo Aranha "deu uma volta" nos anti-sionistas. Sabia q não poderia enfretá-los de "peito aberto", mas poderia usar sua diplomacia e senso político para esperar a melhor oportunidade para agir. E assim, vencer.

Quando cada um de nós se vê diante de um touro raivoso, mais forte e violento q nós, partindo para o ataque, enfrentá-lo diretamente numa batalha física não é a melhor estratégia. Devemos ter paciência, inteligência, saber o momento correto de dar um passo atrás e o de dar um passo à frente. Um touro pesa mais de meia tonelada, tem chifres de 1 metro e a testosterona de 30 homens. Um toureiro pesa 70 quilos. Porém tem algo q o touro é incapaz: a capacidade de controlar seu medo, sua raiva, de "prever" o comportamento dos outros, e agir não movido pelo instinto, pela emoção, mas pela razão, estudo e técnica.

Muitas vezes, quando "os outros nos atacam" ou falam mal de nós sentimos um ímpeto imediato de "colocar os pingos nos is", de "lavar nossa honra", movidos pelo instinto de auto-preservação, pela raiva, pelo medo. Ora, isso é enfrentar "o touro" de frente, em desvantagem de forças.

Ao perceber q a votação na quarta-feira negra seria contrária à criação do Estado de Israel, Oswaldo Aranha não manifestou sua discordância, não teve medo, não se precipitou. Sabia q naquele momento ele estava em desvantagem, respirou fundo, agiu de maneira política, adiou a resposta, e a decisão.

Quando nos vemos em uma discussão, tal como os debates q temos na comunidade Bnei Noach ( https://www.facebook.com/groups/246079458738548/ )e alguém publica algo q não gostamos, não devemos reagir movidos por nossos instintos. Devemos respirar fundo, agir politicamente, ter senso de oportunidade, paciência, diplomacia.

Numa frase: se qquer pessoa escrever algo q vc não gostou, espere pelo menos 24 horas antes de responder.

Isso fará a adrenalina baixar, vc pensar bem, ponderar as palavras, agir com inteligência, "manobrando o touro" disposto a usar da violência e, no caso humano, do desrespeito e falta de efucação. Como diz uma frase famosa "nunca devemos discutir com um ignorante, pq ele te arrasta ao nível dele e ganha por experiência".

Oswaldo Aranha não discutiu com os ignorantes. Teve "jogo de cintura", maturidade, temperança, para lidar com a situação.Contemporizou, esperou, e munido das armas corretas, racionais e lícitas, agiu num momento mais favorável e ponderado. O resultado de sua diplomacia é inestimável.

Q todos possamos aprender com o exemplo deste grande homem! Q saibamos ser diplomáticos, esperar o momento correto de agir e escolher as palavras corretas para atingir nossos objetivos. E q eles sejam bons!

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Da Humildade, ou da Modestia

Humildade é um conceito complexo, e muitas vezes difícil de compreender. Muitas pessoas confundem humildade com fraqueza, auto-desvalorização, falta de confiança em si próprio.

Muitos acham q a humildade é uma espécie de "máscara social" q as pessoas aprendem a usar de acordo com a conveniência, para "se sair bem" e não parecerem arrogantes quando elogiados.

Por exemplo, quando uma pessoa é muito bonita, ou inteligente, ao ser elogiada por essas características "pega mal" ela concordar com quem a elogiou dizendo "é verdade, eu sou um gato; ou eu sou um gênio". E fica muito melhor, socialmente, ela dizer "imagina, é q hj me arrumei um pouquinho" ou então "ah, eu sou burra em diversas coisas".

Mas a verdadeira humildade não existe "para ficar bem com os outros", não parte de uma preocupação consigo próprio. A verdadeira modéstia nasce da percepção do mundo q nos cerca. Uma pessoa bonita não deve dizer o supracitado para evitar parecer arrogante, mas pelo apercebimento objetivo de q existem milhões de pessoas mais belas q ela. Uma pessoa inteligente não deve dizer o supracitado para evitar q seus amigos invejem suas capacidades intelectuais, mas por saber q na verdade, comparada ao verdadeiros gênios, tem uma capacidade cognitiva quase mediana.

Uma pessoa extremamente bonita e inteligente se achará o ápice da espécie humana até amadurecer, ganhar experiência, e pela vida encontrar dezenas de pessoas melhores q ela. E mais humildes, modestas, a este respeito do q ela. Apenas quando saímos do nosso casulo da segurança individual, ganhamos experiência de vida, sucessivamente quebramos a cara e nos decepcionamos, passamos a ser mais observadores, aprendemos mais a ouvir do q falar, percebemos nossa pequenez, nossos limites, nossa visão parcial e limitada ao que queremos ver.

Para ilustrar o q pretendo expor vou usar um exemplo. O exemplo do maior profeta q o povo de Israel já teve, Moshe (Moisés). Há várias formas de responder pq, dentre todos os israelitas, justamente foi ele o escolhido para ter uma intimidade tão grande com HaShem. Há quem diga q foi por sua linhagem, há quem diga q foi por seu zelo e coragem.

Eu acredito q foi por sua humildade. Q ele foi escolhido por "não se achar grande coisa". Pois, se ele fosse cheio de si, não obedeceria cegamente, se acharia no direito de fazer "a sua Lei" e não estaria propenso a obedecer em tudo, cegamente, o q lhe era ordenado. Vejamos algumas passagens de sua vida.

Ex 3:
11 Então Moisés disse a D'us: «Quem sou eu para ir até o Faraó e tirar os filhos de Israel lá do Egito?»

Ex 4:
10 Moisés insistiu com D'us: «Meu Senhor, eu não tenho facilidade para falar, nem ontem, nem anteontem, nem depois que falaste ao teu servo; minha boca e minha língua são pesadas». 11 D'us replicou: «Quem dá a boca para o homem? Quem o torna mudo ou surdo, capaz de ver ou cego? Não sou eu, HaShem? 12 Agora vá, e eu estarei em sua boca e lhe ensinarei o que você há de falar».

13 Moisés, porém, insistiu: «Não, meu Senhor, envia o intermediário que quiseres». 14 D'us ficou irritado com Moisés e lhe disse: «Você não tem o seu irmão Aarão, o levita? Sei que ele sabe falar bem. Ele está vindo ao seu encontro e ficará alegre em ver você.

Moisés é tão modesto, "acha" tão pouco de si q isso até irrita a D'us. Mesmo diretamente recrutado, pessoalmente, pelo Criador, Moisés não se acha digno da tarefa. Pede q HaShem escolha outro em seu lugar, não se acha capaz, expõe seus defeitos.

Caso Moisés fosse o tipo de pessoa q nessa situação dissesse "realmente, eu sou muito santo, um líder nato, o Senhor não poderia ter escolhido melhor" ele não teria sido escolhido para tarefa tão importante. Pois se fosse esse tipo de pessoa tão "convencida e cheia de si" colocaria o próprio ego, os próprios interesses e conveniências, acima das ordens q recebia.

Na Torah há diversos alertas para o povo não ficar "convencido" e cheio de si, vejam 2:

Dt 8:
17 Portanto, não vá pensar: ‘Foi a minha força e o poder de minhas mãos que me conquistaram essas riquezas’.

Dt 9:
4 Quando Javé seu D'us os tiver expulsado da sua frente, não vá pensar: ‘Foi por causa da minha justiça que D'us me fez entrar e tomar posse desta terra’. Não. É por causa da injustiça dessas nações que D'us as expulsará da sua frente. 5 Se você vai conquistar essas terras, não é por causa da sua justiça e honradez, e sim porque HaShem seu D'us vai expulsá-las da sua frente por causa da injustiça delas, e também para cumprir a promessa que ele havia jurado a seus antepassados Abraão, Isaac e Jacó. 6 Saiba, portanto: não é por causa da justiça de você que HaShem seu D'us lhe concede possuir esta terra boa, pois você é um povo de cabeça dura.

Muitas vezes, quando nos deparamos com pessoas q têm um conhecimento menor q o nosso, é comum sermos arrogantes, "superiores" e professorais no sentido "percebi q vc não sabe nada, só fala bobagem; agora cale-se e aprenda com quem realmente sabe". Tudo o q for dito depois disso pode ser até bom e elaborado, mas já nasce com um vício original. Foi plantado de forma adversa, diz muito mais sobre o quanto quem o expõe "se acha o máximo e gosta de usar seu conhecimento para se exibir, diminuir e humilhar os outros." O q demonstra q essa pessoa pode até entender muito de teoria, mas seus conhecimentos não são usados na prática.

Ao explicar, ou argumentar com pessoas q achamos ter menor conhecimento, devemos ter o cuidado de nos expressar de forma q a mensagem seja recebida de forma propícia, não como uma crítica, não de forma a "diminuir" o outro. Não devemos agir como se estivéssemos encastelados numa imaculada torre de marfim, devemos "ficar no mesmo nível", explicar de forma q a outra pessoa compreenda.

Exemplo fácil. Vc vê uma criança pequena colocando o dedo na tomada. De nada adianta falar-lhe "vc é muito burra, assim vc vai morrer" ou então dar uma explicação técnica sobre elétrons e correntes alternadas. É necessário ser maduro, não agir com a mesma infantilidade da criança, explicar-lhe de forma q ela entenda "assim vc vai fazer dodói, da tomada sai um 'raio' q machuca se vc colocar o dedo".

É preciso explicar cada coisa da forma mais calorosa, paciente, e apropriada à compreensão do destinatário, de forma q essa explicação lhe acrescente, faça com q ele cresça. Devemos perceber q explicar uma coisa para alguém não é uma oportunidade de exibirmos nossa erudição, nossos "grandes conhecimentos", mas sim é uma chance de contribuir com a evolução dos q nos cercam.

Devemos ter consciência de q, por mais q saibamos (ou achamos q sabemos) há pelo menos 5 mil pessoas no mundo q sabem sobre isso muito mais q nós, com maior profundidade, e q elas não se gabam disso. E não se gabam justamente pq elas próprias sabem q existem outras mil pessoas q sabem mais q elas próprias. E mesmo a mais sábia dentre essas mil pessoas, se perguntada, agirá justamente como Moisés; dirá "quem sou eu para tão grande responsabilidade? Há outros muito melhores q eu!"

Concluindo, acredito q HaShem escolheu Moisés, q passou a ser referido por "Moshe Rabenu" (Moisés, nosso pai), justamente por saber q ele teria a maturidade, a experiência, a compreensão "psicológica" do outro, para orientar de forma adequada, com as palavras corretas, pacientemente, ao povo de Israel. Por saber q ele não se colocaria àfrente do povo, mas sim o povo àfrente se si (cf Ex 32:32; Dt 9: 8, 14, 26).

Moisés não foi escolhido por ser o q melhor guardava a Lei, por saber todas as regras de cashrut, por sua eloquência, por nunca ter se contaminado com a idolatria (afinal, ele era um príncipe do Egito), por nunca ter pecado (vcs lembram do egípcio q ele matou? Cf Ex 2:12), por ser um "líder nato", por ter sido "preparado" para isso.

Acredito q o motivo fundamental q fez HaShem escolher Moisés foi justamente este:

Nm 12:
3 Moisés era o homem mais humilde entre todos os homens da terra.

E este foi o grande diferencial deste grande homem: sendo grande, achava-se pequeno. Mesmo quando HaShem o convocou pessoalmente, achou-se pouco digno, pouco preparado, aquém, incapaz de cumprir tão importante tarefa.

E é por isso que

Dt 34:
10 Em Israel nunca mais surgiu outro profeta como Moisés, a quem Javé conhecia face a face.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Diferencas entre os bnei Noach e os bnei anussim

A Teologia judaica é uma filosofia riquíssima q serviu de base para a cultura ocidental. A religião judaica tem uma raiz racial, ou seja, os praticantes do Judaísmo se identificam, mais do q como um grupo religioso, uma comunidade com uma origem étnica q remonta às 12 tribos de Israel.

A história dos hebreus foi cheia de percalços, incluindo 2 expulsões de sua terra e a submissão a diferentes poderes imperiais. A primeira expulsão, ordenadas pelos Assírios, levou à dispersão das tribos e "sumiço" de 10 delas, restando as de Judá e Benjamin, e poucos remanescentes da tribo de Levi.

A Diáspora ordenada pelos romanos resultou numa dispersão prolongada dos judeus; q foram assim divididos, a grosso modo, em 2 grupos "étnicos": os askhenazim (alemães) da Europa central e os sefaradim (espanhóis) da Península Ibérica e norte da África.

Diferentemente da maioria da religiões, o Judaísmo não é proselitista: não procura converter à sua fé adeptos de outras religiões. Embora qualquer um possa se converter ao Judaísmo (embora esse processo seja difícil), ninguém nunca verá judeus fazerem propaganda de sua religião aos não-judeus tendo em vista convertê-los ao Judaísmo.

Muitos gentios (não-judeus) nisso vêem q o Judaísmo não contempla nem tem nenhuma preocupação com quem não é judeu, como se os gentios estivessem excluídos de sua concepção religiosa do mundo, o q é um erro.

A Teologia judaica professa q Deus fez 2 alianças, sucessivas e diferentes com os homens. Uma ampla, com todos os homens. Outra específica, exclusiva, com os descendentes de Jacó/Israel. A aliança com todos os humanos foi firmada com Noé. A aliança com a nação de Israel, apenas com os q estiveram presentes na revelação do Sinai e seus descendentes, é a aliança de Moisés.

Talvez falte aos gentios o conhecimento de q, de acordo com o Judaísmo, não são só os judeus q "vão para o Céu" (o termo correto seria "terão parte no mundo vindouro"), e q isso significa q Deus "pega mais leva" ou "cobra menos" dos gentios do q dos judeus. Dos gentios, os bnei Noach (noachides, noahides ou "filhos de Noé") Deus exige o seguimento de apenas 7 leis, enquanto q aos judeus é exigido o seguimento de 613 leis.

O movimento bnei Noach não se destina a converter ninguém ao Judaísmo. Busca divulgar as 7 leis da aliança noética para a elevação ou retificação de toda a Humanidade. Busca divulgar q os "tementes a Deus" e os "justos entre as nações" também têm seu espaço na concepção de mundo judaica.

Este texto não ficaria completo sem citar quais são estas leis.
1) Creia em D'us. Não sirva a ídolos.
2) Não blasfemar.
3) Não roubar.
4) Não matar.
5) Não cometer adultério
6) Cumpra as leis do país
7) Não coma um membro de um animal vivo e não seja cruel com animais.

Para saber mais: http://www.chabad.org.br/interativo/FAQ/sete.html

O movimento bnei anussim (filhos dos forçados) é muito diferente do bnei Noach. Enquanto todo ser humano sobre a terra é um filho de Noé, os bnei anussim são um grupo étnico-cultural específico, e muito diversificado. Existem bnei anussim de todas as cores: brancos, negros, asiáticos e até indígenas.

Também chamados de criptojudeus, a depender do lugar os bnei anussim também são chamados de marranos, neofiti, xuetes, cristãos-novos, ladinos, conversos, daggatuns, dönmeh, falash mura, lemba, judeus de Paradesi, Cochin, Malabar ou Kaifeng, entre outras denominações. Embora haja variações particulares, podemos afirmar q, embora os grupos referidos por estas denominações não pratiquem o Judaísmo como ele é configurado nos dias de hoje, fazem parte do grupo étnico hebreu.

São judeus, mas não são judeus. Fazem parte da etnia q descende dos hebreus, porém não praticam o Judaísmo rabínico, haláchico. E não deixaram de praticar o Judaísmo por sua livre escolha, mas pq desde a Diáspora e a disseminação do Cristianismo, ser judeu era perigoso. Especialmente na Europa, praticar abertamente o Judaísmo equivalia a uma sentença de morte nas mãos do Tribunal do Santo Ofício, a famosa Inquisição católica. Para salvar a própria vida, muitas comunidades judaicas se converteram à religião q lhes era imposta.

Contudo, em suas tradições culturais estes grupos de forçados (anusim) carregam diversos "marcadores" cuja origem é a prática do Judaísmo. Tradições como acender velas na sexta-feira, recusa em ingerir carne de porco, métodos de abate de animais, jeitos específicos de limpar a casa e lidar com os mortos, casamentos endogâmicos, diversas tradições familiares seguidas por séculos sem q muitas vezes seus descendentes saibam q estes costumes na verdade revelam uma herança calada.

O Brasil é um lugar especialmente rico em tradições criptojudaicas. Inconscientemente, muitos brasileiros eternizam em seus costumes populares reminiscências q revelam nossa origem insuspeita. Elementos folclóricos q muitas vezes consideramos oriundos dos portugueses na verdade revelam a origem cristã-nova de nossos antepassados.

Expressões e tradições tais como "chorar a morte da bezerra", "fazer mesura", dizer "que massada", "a carapuça serviu", "pedir bênção, ou 'bença' dos pais" antes de sair de casa, dizer "Deus te crie" quando alguém espirra, dizer q "apontar as estrelas dá verruga", antes de beber derramar um pouco da bebida "para o santo", todos estes costumes "brasileiros" são de origem cripto-judaica.

Além destas tradições orais, outro tipo de "marcador" pode ser usado para auferir se uma pessoa descende de judeus: o sobrenome. Sobrenomes referentes à religião cristã, referentes à flora, referentes a profissões e lugares. Muitos apelidos familiares q achamos ser de origem portuguesa revelam essa herança insuspeita. Citarei apenas alguns sefaraditas. Se vc tem qualquer um dos sobrenomes citados a seguir, é quase certo q vc é um bnei anussim:

Amorim; Azevedo; Álvares; Avelar; Almeida; Barros; Campos; Carneiro; Carvalho; Cruz; Dias; Duarte; Ferreira; Franco; Gonçalves; Lemos; Lopes; Machado; Martins; Mattos; Meira; Mello; Mendes; Miranda; Mota; Nunes; Oliveira; Paiva; Pardo; Pilão; Pina; Pinto; Pessoa; Ribeiro; Rodrigues; Rosa; Salvador; Souza; Torres; Vaz; Viana; Vargas; Andrade; Brandão; Brito; Bueno; Cardoso; Carvalho; Castro; Costa; Coutinho; Dourado; Fonseca; Furtado; Gomes; Gouveia; Marques; Prado; Mesquita; Mendes; Pereira; Pinheiro; Silva; Soares; Teixeira; Teles, Ramos, Oliveira; Pereira; Ferreira; Pimentel; Abraão.

Esta lista deve surpreender a muitos, pois a maioria desses sobrenomes (retirei os menos conhecidos) é muito comum entre os brasileiros, a maioria dos quais os carrega sem saber sua origem. Todos são citados em autos-de-fé inquisitórios como pertencentes a judeus ou são ainda hj ostentados como sobrenomes tipicamente judeus, fora do Brasil.

Para os q acham q estou exagerando, existem estimativas de q, durante o Brasil Colonial, cerca de 1 terço dos habitantes da colônia de origem portuguesa eram além disso, cristãos-novos. Q emigraram de Portugal para sua colônia americana por perseguição religiosa. Em Portugal eram discriminados e perseguidos por serem cristãos-novos e viram na emigração para a colônia uma forma de escapar à perseguição do Tribunal da Santa Inquisição. Na mesma medida em q os puritanos ingleses emigravam para as colônias britânicas na América para fugir à perseguição religiosa no Velho Mundo, cristãos-novos portugueses se mudavam para o Brasil; para fugir à perseguição religiosa.

Durante a colonização da América portuguesa, seus residentes tiverem um breve suspiro de "liberdade de culto" durante a ocupação holandesa do Nordeste, e neste período de liberdade estes criptojudeus puderam "sair do armário" e reviver suas tradições, chegando a erigir a primeira sinagoga em solo americano, a lendária Kahal Zur Israel, na "rua dos judeus", em Recife, Pernambuco. Finda a ocupação holandesa, os q não emigraram para fundar Nova Amsterdã (New York city, a "big apple", Nova York) retornaram à sua condição de judeus ocultos.

O movimento bnei Anussim procura divulgar entre os descendentes destes judeus forçados a se converter sua origem judaica, objetivando reintegrá-los à comunidade judaica, bem como reconduzi-los à prática do Judaísmo como religião.

Detalhe nem tão pequeno assim é q ser descendente de judeus, mesmo q comprovadamente pela tradição familiar, pelo sobrenome ou mesmo por um teste genético não torna ninguém imediatamente um judeu, na religião. Todos os filhos dos forçados são muito bem-vindos em se reintegrar à comunidade dos seus antepassados. Porém uma etapa essencial faz-se necessária: a conversão. Ou melhor, a "conversão de dúvida".

Mas muitos estranharão pq alguém q comprove ser descendente de judeus ainda assim precise passar por uma rígida, criteriosa e economicamente proibitiva conversão (impossível em território brasileiro atualmente) para poder ser plenamente aceito em sua comunidade ancestral. Isso acontece pois no processo de assimilação às comunidades geográficas nas quais residiam, perderam-se os registros genealógicos e a maioria dos anussim "se misturou" às comunidades locais, trazendo elementos étnico-culturais variados, comumente considerados idólatras. Não há como comprovar sua descendência matrilinear direta. Portanto, mesmo nas comunidades criptojudaicas fechadas, não há como ter 100% de certeza de q sua descendência judaica pela linha materna é ininterrupta. Por isso os filhos dos judeus forçados precisam se converter pela Halachá para retornar à comunidade judaica.

Espero com este texto ter contribuído para esclarecer q os bnei Noach são todos os seres humanos sobre a terra, e q desta forma todos os gentios são contemplados pela religião judaica e não precisam "virar judeus" para terem seu lugar no mundo vindouro. Apenas precisam observar as 7 leis transcritas acima.

Adversamente, os bnei anussim são um grupo étnico composto por todos os descendentes de judeus q, por diversos motivos, foram obrigados a "deixar de ser judeus", ao menos na "casca externa". Existem bnei anussim loiros, ruivos, negros, indianos, chineses, latinos: de todas as cores do espectro humano. Porém, abaixo das diferenças aparentes em seu fenótipo, todos integram a etnia judaica. E por serem descendentes das tribos de Israel, estão sendo, progressivamente, trazidos à lembrança de suas raízes. E, caso os descendentes destes forçados sintam q no fundo de sua alma bate um coração judeu, encontram nos seus primos distantes um convite: retornar às suas tradições, reviver a herança dos seus antepassados, fazer o caminho de volta: retornar à nação judaica e à prática do seu Judaísmo ancestral.

Portanto, embora o Judaísmo não procure, de nenhuma forma, converter gentios em judeus, no caso dos bnei anussim é diferente. Converter um filho dos forçados em judeu não é converter um gentio em judeu: é reconverter um hebreu, um israelita, em judeu: reintegrar à comunidade judaica pessoas q pertencem a essa ancestralidade mas foram obrigados a abdicar de sua religião para salvar sua vida, na época q "Judaísmo" era crime. O movimento bnei anussim busca resgatar judeus, q muitas vezes nem sabem q são judeus, trazê-los ao conhecimento de sua herança e reintegrá-los à sua comunidade étnico-religiosa.

sábado, 12 de maio de 2012

Do meu paradigma teológico

Desde q comecei a me envolver em debates teológicos pela internet percebi q a meus interlocutores surpreendia a maneira como interpreto a Lei Judaica: de forma extremamente "libertária" e iconoclasta. Nesses percalços me questionaram moralmente, me acusaram de estar a desviar as pessoas do "caminho correto", de dar maus conselhos e de estimular a promiscuidade.

Tendo isso em vista, sinto ser necessário esclarecer o paradigma, a "fôrma mental" q amolda minha interpretação da Torah.

Em Teologia, não existe "ponto final", tudo está aberto a discussão, e é comum q divergentes pontos de vista se justifiquem com as mesmas citações. Acontece q frequentemente as pessoas q se dedicam aos estudos teológicos expressam visões ortodoxas, tradicionalistas. Cujo paradigma demonstra a tentativa de restringir ao máximo a margem da liberdade humana.

Certa vez, quando era adolescente estava a comparar minha religião familiar (Espiritismo kardecista) com a de uma colega, q era protestante. Comparávamos as restrições q nossas religiões nos impunham e a conclusão se deu na seguinte frase de minha amiga: "Ah, essa sua religião não é religião de verdade, não proíbe nada, vc não precisa casar virgem, pode beber, pode fumar. Q religião é essa q não proíbe coisa nenhuma?"

É claro q o Espiritismo "proíbe" muitas coisas como roubar, matar, cometer adultério, mentir etcs. Porém, comparado a outras religiões, é muito mais liberal em seus "usos e costumes".

Muitas denominações protestantes históricas são conhecidas por suas pesadas restrições aos fiéis: mulheres não podem usar calça, cortar o cabelo, se depilar, se maquiar etcs. Provavelmente nem esta interpretação excessivamente restritiva nem a acepção espírita excessivamente liberal estejam certas, porém ambas são válidas. E necessárias para q o conjunto dos interessados na compreensão das Leis Bíblicas sejam cada vez mais, progressivamente, melhor esclarecidos.

Creio q há intérpretes pelo viés ortodoxo por demais, e intérpretes pelo viés liberal em falta, e q isto afaste muitas pessoas q poderiam ser incluídas. Muitas pessoas se afastam da "Religião " por pensar q é " difícil demais" seguir seus preceitos. Pois, normalmente, quando procuram orientação é-lhes dito q "quase tudo" é proibido.

Meu propósito é justamente demolir essa visão. E minha metodolgia é pegar o texto limpo da Torah e verificar se de fato ela proíbe tudo o q os líderes religiosos dizem. E na maioria das vezes atesto q conceitos seculares não têm apoio na Lei de Moisés: ecoam apenas a tradição consagrada por analistas antigos, q interpretavam a Lei para um mundo muito diferente do nosso.

Não q suas lições sejam caducas: são preciosas. Porém devemos ter em mente q, acima da deferência q devemos a estes grandes mestres deve estar a compreensão da imensa clivagem q separa a "palavra de Deus" das digressões de seus intérpretes humanos. Devemos, como Abraão, ser iconoclastas. Devemos questionar se ao ecoar um interpretação humana, não estamos na verdade a nos desviar do propósito "limpo, puro e seco" presente na Lei mosaica.

Na Lei há estas basilares passagens:

Dt 4: 1 Agora, Israel, ouça os estatutos e normas que eu hoje lhes ensino a praticar, a fim de que vocês vivam e entrem para possuir a terra que Javé, o Deus de seus antepassados, vai dar a vocês. 2 Não acrescentem nada ao que eu lhes ordeno, nem retirem coisa nenhuma. Observem os mandamentos de Javé seu Deus do modo como eu lhes ordeno.

Dt 5: 32 Portanto, procurem agir de acordo com todas as coisas que Javé seu Deus lhes manda. Não se desviem nem para a direita nem para a esquerda. 33 Sigam o caminho que Javé seu Deus lhes ordenou, para que vivam, sejam felizes e prolonguem a vida na terra que irão ocupar.

Dt 13: 1 Cuidem de colocar em prática tudo o que eu ordeno a vocês. Não acrescentem e não tirem nada.

Creio q a tradição teológica peque por "acrescentar" mandamentos na verdade ausentes da Bíblia. E q se faz necessária uma reinterpretação de conceitos q achamos q são divinos, mas são humanos. Igualmente creio q tanto quanto a tradição ortodoxa esteja "equivocada", igualmente estarão muitas das minhas conclusões, nascidas de minha mente humana.

Contudo, creio ser relevante "oxigenar" e, de certa forma, "atualizar" a forma como os mandamentos bíblicos são interpretados. Precisamos estudar o q a Torah, escrita há 3 mil anos, tem a dizer sobre nossas dúvidas do hoje, q sequer poderiam ser cogitadas àquela época. Pois, se a Lei é divina, não pode ser anacrônica. Nela devemos encontrar princípios q nos norteiem nesse mundo pós-moderno.

Se prosseguirmos apenas a ecoar com deferência aquilo q os q nos precederam "acharam" corremos o risco de q as novas gerações não se identifiquem em nada com o q a Bíblia ensina. Corremos o risco de nos encontrar um dia numa falha crítica sem saída, e q as futuras gerações considerem a Torah ultrapassada e caduca.

Sejamos iconoclastas! Quebremos todos os ídolos. Questionemos tudo o q parece velho e empoeirado. Assim cresceremos na compreensão da verdadeira essência dos mandamentos, estatutos e normas q o Criador nos legou.

Não pretendo com meus textos desviar ninguém do caminho correto, e peço a todos q discordem das teses q afirmo q deixem um comentário refutando minhas alegações, com base na Lei. Ficarei muito grata e me proponho a reescrever qualquer texto se me for comprovado q ele propaga idéias contrárias ao q a Lei ensina.
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