terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Lista verificada com mais de 200 celebridades no Instagram
sexta-feira, 14 de dezembro de 2012
Do Instagram
Antes de 2004 a internet era muito "anônima". Era necessário individualmente procurar pelas coisas, imagens e assuntos q já eram de nosso interesse a priori. Era possível criar páginas gratuitas, blogs e fotologs, mas sua divulgação era muito precária, sendo necessário mandar os links para nossos amigos por e-mail, e contar com sua boa vontade para abrir um link sem nenhum gráfico anexo.
Com as recém-inventadas câmeras fotográficas digitais, registrávamos dezenas de fotos, e para compartilhá-las era necessário atachá-las a um e-mail, criar uma mailing list e torcer para os arquivos não excederem a capacidade de armazenamento de cada caixa de mensagem.
Quando o Orkut foi criado, em 2004, começaram as "redes sociais". Nesta época era possível dar upload a apenas 12 fotos. Com este pequeno limite trocávamos sempre as fotos, substituindo as antigas pelas novas. Com o tempo as condições de armazenamento melhoraram e possibilitaram a criação de vários álbuns, com número ilimitado de fotos.
Na transição para o Facebook, com o ocaso do Orkut, essas fotos foram transferidas. Mas ainda assim, publicar fotos de festas, amigos e familiares não supre toda a nossa necessidade de "mostrar a todos nossa visão de mundo", como se fazia num fotolog (blog composto de fotos e imagens).
Parecia meio bobo publicar no Facebook fotos aleatórias, de coisas q achávamos bonitinhas, curiosas ou interessantes. Exercitar nosso lado "fotógrafo amador".
Para preencher este vácuo surgiu o Instagram. Simples e fácil, integrado ao Facebook, Twitter, Foursquare e outras redes sociais. Oferecia um formato quadrado inovador, filtros e recursos "desencanados" para "dar uma mexidinha" nas fotos para q tivessem aparência "mais artística". Sucesso global imediato. Na sua esteira surgiram dezenas de apps complementares, q ofereciam outros filtros, distorções, sombras, molduras, colagens, adição de textos e geração de hashtags para maior número de "likes" e melhor publicidade para nossos instantâneos.
Agora, não somente era possível ver uma coisa legalzinha, tirar uma foto e mostrar pros amigos, mas tb divulgar isso globalmente, interagir com pessoas de todos os continentes, e tb criar uma certa forma de "narrativa pictórica" do nosso cotidiano.
Comecei a usar e logo caí na primeira tentação de um instagrammer, ou iger: fotos de comida. Um amigo querido já me perguntou pessoalmente, com toda a sinceridade e nenhuma maldade "pq as pessoas ficam tirando foto de comida???"
Respondi-lhe q há 2 "vertentes" nessas fotos culinárias. A primeira se a pessoa está num restaurante: é justamente se "exibir", mostrar para todo mundo q sai e paga por comidas caras e bonitas. A segunda, se foi a própria pessoa q cozinhou, tb é de se exibir, mas de outra forma: mostrar um saber, uma coisa legal q é capaz de fazer, dar uma opção de refeição q seus amigos serão capazes de reproduzir em casa. Mas em ambas as vertentes, fica subjacente à foto o pensamento "olha a coisa linda q estou prestes a destruir!". De certa forma imortalizando uma arte efêmera.
Mas não só de fotos de comida é feito o Instagram. Acompanho mais de 2 centenas de pessoas e aos poucos percebi q alguns temas gerais do usuário do Instagram vão se delineando. E como ao acompanhar esses feeds era possível ter uma idéia da "visão de mundo" de cada um, as coisas q enxerga diante de si, o q considera bonito, o q vale registrar, o q deseja imortalizar, do q tem orgulho e quer mostrar. Era possível, vendo o Instagram das pessoas, ter um certo "inside view" do q cada um enxerga no mundo, da leitura particular q cada um faz de seu cotidiano.
A seguir listarei alguns desses perfis gerais, a partir de minha observação particular do uso q as pessoas q sigo fazem do Instagram. Obviamente, como tudo q envolve humanos, essas classificações não são estanques. Nada impede alguém com o perfil "eu sou meu mundo inteiro" de postar uma causa caritativa, ou alguém com o perfil "tabacaria" postar uma foto no estilo "onde está Wally".
Divirtam-se!
1 - Diário virtual pictórico.
Me incluo nesse. As fotos são variadas e genéricas, de: comida, amigos, prédios, arte, causas, crianças, coisas engraçadinhas ou abstratas, flores. Não só "anônimos" têm este tipo de perfil. Muitas celebridades seguras o suficiente usam o Instagram para dar a seus fãs pequenos agrados na forma de fotos espontâneas, familiares, clicadas pelo próprio artista em sua intimidade e avidamente comentadas por seus admiradores. O IG é um espaço único para fotos q não teriam lugar na divulgação profissional destes artistas, mas q são muito preciosas para os fãs.
2 - Eu quero ser artista
As fotos têm certa pretensão de "densidade reflexiva", ou fotos de coisas banais descritas por frases "filosóficas", fotos do teto, desfocadas, com multiplicidade de ângulos inusitados dizendo "quero exibir meus talentos de fotógrafo adquiridos naquele curso online", de si próprio de viés e "cara de intelectual atormentado", de utensílios vazios, coisas sujas e usadas. O efeito às vezes é de hilaridade não-intencional. Depois q vc vê a enésima auto-foto da mesma pessoa fazendo "cara de conteúdo" não há como não achar tudo isso meio ridículo...
3 - Eu sou meu mundo inteiro
Narcisismo total. 90% do feed são auto-fotos obviamente, de si mesmo, muitas vezes exibindo a maçãzinha do iPhone. Muitas fotos tiradas pelo espelho, às vezes em banheiros públicos, frequentemente em baladas, com outras pessoas jogando o cabelo, fazendo pose e "biquinho". Muitas adolescentes extrapolam na sensualidade. Muitas pessoas tiram foto todo dia para exibir seu guarda-roupa, maquiagem e penteado. Diariamente, para mostrar q são fashionistas.
4 - Onde está Wally?
Pontos turísticos, placas e meios de transporte são os temas principais. Muitas fotos de aeroporto, da janela do avião, de restaurantes e hotéis chiques, de dentro do carro, mostrando trânsito, faróis e túneis.
5 - Tabacaria
Fotos repetidas da mesma paisagem, frequentemente da janela do quarto, com comentários sobre as condições atmosféricas, as estrelas, o pôr do sol. O q salta aos olhos é a repetição: inúmeras fotos quase idênticas, com o boletim meteorológico do momento...
6 - Quero divulgar meu trabalho
Nem só de "bobagens" é feito o Instagram. Muitos profissionais o usam para ficar mais conhecidos, e pseudo-celebridades para tentar tirar o pseudo. Modelos, atores, estilistas, fotógrafos, culinaristas, artesãos, dançarinos, apresentadores, jornalistas já descobriram no "Insta" uma plataforma de trabalho. Sabem usar hashtags, tomam cuidado com a iluminação, postam fotos com certo cuidado profissional.
Gostaram? Concordam? Discordam? Qual é a leitura q vcs fazem do Instagram?
Quem ficou curioso para ver minhas fotos mas não usa o aplicativo, pode ver as fotos aqui: http://instagram.com/fernandazero Quem quiser me seguir, sou @fernandazero !
.
domingo, 27 de maio de 2012
Porque nao uso decote
As mulheres só começaram a ter certa liberdade após a Revolução Sexual da década de 1960. Creio q sou a primeira geração de mulheres livres, em minha família. Por "mulher livre" compreendo: alguém q foi criada para ser independente, não "para casar e ter filhos", q foi criada pra ter "vida própria" sem depender de marido, q fez faculdade, q manda no próprio nariz, se sustenta sozinha, não é escravizada por gravidezes sucessivas, jamais apanhou de um homem.
Enquanto criança eu achava q isso me colocaria no mesmo "patamar social" dos homens meus contemporâneos. Mas só depois descobri q não. Independentemente de sua instrução ou estado civil as mulheres são julgadas sobretudo por sua aparência. E, ainda hj, divididas em 2 categorias: as "mulheres honestas", q merecem respeito, e as "vadias", q podem ser flagrantemente desrespeitadas.
O adjetivo "vadio" se aplicado a um homem designa alguém desocupado, q não trabalha. O adjetivo "vagabundo" se aplicado a um homem designa alguém q não trabalha nem está a procura disso. O adjetivo "puto" se aplicado a um homem designa q ele está nervoso, irritado com algo. Se um homem "faz biscate" isso designa q ele é um autônomo sem ocupação fixa. Se um homem é "rodado", isso designa q ele já viajou muito. Se um homem é um "cortesão" isso designa q ele faz parte da corte de um rei. Se um homem "faz favores" isso designa q ele ajuda aos outros, de bom grado. Se um homem "faz programa" isso designa q ele é programador de informática, ou analista de sistemas. Se um homem é um "faz tudo", isso designa q ele ocupa o cargo de "auxiliar de serviços gerais".
Adversamente, se aplicados a uma mulher, os adjetivos vadia, vagabunda, cortesã, puta, biscate, rodada, "de programa", q "faz favores" ou "faz tudo" imediatamente remetem à sua moral, ao seu comportamento sexual, e insinuam q a mulher em questão é uma prostituta. O nome disso é "machismo" ou "misoginia": ódio ou aversão às mulheres.
Quando eu era criança reparei num detalhe interessante: meninos podem, e devem, sentar com as pernas o mais abertas possível. Quanto mais abertas, maior é a declaração de q eles teriam um órgão sexual "avantajado", portanto, quanto mais um homem ou menino abre as pernas ao se sentar, tanto mais ele se torna "másculo", e se cruzar as pernas pensarão q ele é gay, ou tem um pênis acanhado. Para o menino, exibir ou insinuar q ele possui um órgão sexual é motivo de orgulho.
Meninas devem sentar com as pernas o mais fechadas possível, e se cruzadas, tanto melhor. Quantas vezes ouvi: "Menina, fecha essas pernas!" e não entendia o pq. Até perceber q a postura feminina seria demonstrativo de sua "disponibilidade sexual": mulheres de pernas abertas indicariam q estão acessíveis, são "putas", e mulheres de pernas fechadas dizem q são recatadas e "não 'dão' para qquer um". Para a menina, exibir ou insinuar q ela possui um órgão sexual é motivo de vergonha.
Quando nasce um bebê do sexo masculino, rapidamente o pai se regozija e anuncia a todos os amigos q "ele tem o saco preto, ou roxo" e todos ficam felizes e lhes dão os parabéns. Quando nasce um bebê do sexo feminino jamais um pai irá declarar q ela tem o "clitóris rosa" e se um amigo fizer qquer referência às partes íntimas da neném, isso será uma gigantesca ofensa. Todos preferem "esquecer" q a menina tb nasce com órgãos sexuais, ou considerar q tê-los é motivo de constrangimento, e não de orgulho.
Desde q aos 12 anos começaram a crescer dois tumores adiposos no meu tórax comecei, literalmente, a sentir o "peso" de ser mulher. Por mais atrativos q eles sejam aos homens, para as mulheres q os carregam, especialmente se sofrerem de gigantomastia, como é o meu caso, os seios são profundamente incômodos. Limitam os movimentos dos membros superiores, pesam na coluna, balançam, doem, incham, dificultam encontrar posição para dormir, atrapalham a prática de esportes.
Mas o pior de tudo: chamam muita, muita atenção, tal qual o rabo de um pavão. Isso eu percebi rapidamente. Q quando eu usava roupas justas e ia cumprimentar alguém do sexo oposto, o cara olhava pra meu rosto, olhava pros seus seios, olhava pro meu rosto, olhava pros meus seios, até decidir q preferia conversar com os meus seios a conversar comigo. Quantas vezes, muito constrangida, tive "conversas sociais" desagradabilíssimas com homens q não olhavam para o meu rosto enquanto eu falava, mas para meus peitos. E q eu era tanto melhor tratada pelos homens quanto mais de seus seios eu expusesse, e se eles não fossem expostos ou insinuados eu era muito mais facilmente ignorada e descartada como alguém "interessante".
Percebi q os homens me julgavam pelo tamanho dos meus seios, a profundidade da minha clivagem, o fato de estar maquiada e de salto alto ou não. E q caso me considerassem, pela minha aparência, uma "parceira sexual viável" eu era bem tratada. Em caso negativo, eu era ignorada. Se eu não lhes era interessante sexualmente, eles não tinham nenhum outro interesse em mim.
Do meu ponto de vista, nunca fui pudica em relação a roupas, sempre procurei me vestir de maneira "normal", mas já fui alvo de diversos comentários jocosos a respeito do meu trajar. Em diferentes ambientes já me perguntaram pq "não me arrumo", pq me visto "como se fosse crente", pq não uso maquiagem nem faço escova no dia-a-dia, e um aluno até chegou a dizer q me visto "como uma mendiga", em contraste com as outras professoras mais "arrumadinhas"... E várias pessoas já vieram, com a melhor das intenções, me aconselhar q eu deveria ser mais vaidosa dizendo: "ah, se vc soltar o cabelo, trocar os óculos por lente de contato e passar um rímel, vai ficar muito bonita". Como se toda mulher tivesse "obrigação" de ser, ou ao menos tentar ficar, bonita.
Eu não "me arrumo" no meu dia-a-dia, especialmente no trabalho pq não quero passar a "mensagem errada" de q eu seria uma parceira sexual viável aos meus colegas de trabalho e alunos. Faço questão de usar avental ao dar aulas por já ter percebido q quando não o uso o tamanho dos meus seios e o formato dos meus glúteos sempre viram o "assunto do momento". Sem o guarda-pó os alunos me vêem como "mulher". Com o guarda-pó os alunos me vêem como "professora" e eu neutralizo 95% das insinuações sexuais a meu respeito em sala de aula.
Eu não me visto "como se fosse crente", apenas de forma "normal" sem ressaltar meus atributos físicos. Até uso maquiagem e faço escova, em ocasiões extra especiais, não em meu cotidiano. Não me visto como mendiga, apenas compro roupas em lojas de departamentos, e não em butiques. Não solto o cabelo pois ele incomoda e esquenta o cangote. Não uso lentes de contato pois gosto da mensagem de prezo pelo intelectualidade q os óculos auferem aos q os ostentam.
No fundo, tudo isso é meu "disfarce de mulher honesta", não pq eu não seja isso, mas pq sei q vestir-me de outra forma seria uma declaração sobre meu comportamento sexual e minha "disponibilidade" a todos os homens em redor. Eu gostaria de poder me vestir de outra forma, porém não quero me submeter ao desrespeito q seria resultado disso, pois mesmo me vestindo de forma conservadora, frequentemente sou vítima de desrespeito pelo simples fato de ser mulher.
Sou uma mulher relativamente jovem e relativamente magra num ambiente de trabalho cheio de mulheres relativamente "mais velhas" e "mais gordas" do q eu. Esse simples fato resulta em ver-me alvo de insinuações e convites de cunho sexual por meus colegas de trabalho, muitos deles casados, sem q eu dê nenhuma "abertura" para isso. Mesmo me esforçando ao máximo para desconstruir qquer imagem sexualizada, ainda assim, pelo simples fato de ser mulher, jovem, magra e solteira, os homens acham q têm o direito ou a liberdade de me abordar com convites escusos. Independentemente do seu estado civil. Ser mulher, e ter seios, é quase um passe livre para q ou outros me faltem ao respeito.
Não uso decote justamente pq os homens q se atraem por mim pelos meus atributos físicos não me interessam. Quero um homem q esteja comigo por mim, não pelo formato do meu corpo. Quero alguém q me respeite, q não me veja como um objeto ou um pedaço de carne. Procuro alguém q veja a Fernanda escondida atrás dos óculos, q me ache bonita com a cara lavada, gorda ou magra, com celulite, sem Wonderbra, com o cabelo ao natural.
Minha sensualidade não é para qualquer um, por isso não a exibo para todos. Não estou a procura de "parceiros sexuais", estou a procura de um "parceiro para a vida", q não deixe de ter atração por mim baseado na circunferência da minha cintura, no ângulo descrito por meus seios ou nas rugas em meu rosto.
Gostaria de poder andar livremente pela rua sem camisa, como fazem os homens. Quando um homem tira a camisa é pq está com calor. Se uma mulher tira a blusa, ou é imediatamente estuprada ou presa por "atentado violento ao pudor". A simples exposição do corpo feminino é um "atentado à moral e aos bons costumes", ou um oferecimento de favores sexuais, mesmo q involuntários, a qquer homem q a veja assim.
É justamente nessa ferida q a slutwalk, "marcha das putas" ou "marcha das vadias" toca. Objetiva quebrar o preconceito de q a mulher deve ser julgada pela quantidade de pele q expõe, pelo comprimento da sua saia, pela profundidade do seu decote. Levanta a bandeira de q a mulher pode, e deve, se vestir como bem entende, e q seu trajar jamais deve ser considerado um "convite" ao desrespeito e à violência. Nestas passeatas as manifestantes "se vestem como prostitutas" para escancarar q não existe isso de "se vestir como uma prostituta": q toda mulher é dona do seu corpo e tem o direito de exibi-lo, se quiser, sem ser mal-julgada por isso. Com muita alegria, se um dia tiver a oportunidade, me vestirei "como puta" para participar da marcha das vadias, para quem sabe um dia poder usar um decote sem ser imediatamente considerada uma "mulher fácil".
Respondendo ao mote do texto numa frase: não uso decote pq não posso. Pois se usar, os homens ao redor nisso lêem uma declaração de disponibilidade, e me julgam moralmente "dissoluta" por conta da falta de 4 centímetros de tecido ou um botão entreaberto. Não uso decote pq não estou interessada em atrair homens q procuram mulheres baseados em sua aparente sensualidade. Não uso decote pois quero ser considerada uma "pessoa séria" e, pelo menos para os homens, "mulheres sérias" não usam decote.
Por favor, me julguem pela minha inteligência, pela minha personalidade, pelas coisas q gosto e os assuntos sobre os quais falo, não pelo meu soutien 46, meu jeans 38 ou a altura do salto dos meus sapatos! Me julguem como "pessoa", não como um "pedaço de carne".
Recomendo o filme "Erin Brockovich".
quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Deus se preocupa com nossas roupas?
Mas o que uma menina de 8 anos pode fazer para despertar a fúria de judeus ortodoxos? Ela cultua o demônio? Ela é Damien do filme "The Omen"? Ela é o "Bebê de Rosemary"? Não, nada disso. Margolese simplesmente "se veste diferente".
Devido a suas vestimentas,
"Margolis, que pertence a uma família religiosa moderada, diz ter medo de percorrer os 300 metros que separam sua casa da escola, por ser frequentemente agredida por grupos de ultraortodoxos que a acusam de se vestir de maneira "indecente".
Os supostos agressores já teriam xingado a menina de "prostituta", cuspido e a empurrado. A mãe de Naama diz que o trauma causado foi tão profundo que a garota treme quando tem de ir para a escola."
Fonte: http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/12/111227_israel_protestos_gf.shtml
Vocês podem se perguntar: "Mas uma menina de 8 anos pode se vestir 'como uma prostituta'?" Seguramente, não. E Naama jamais se vestiu assim, provocativamente. Ocorre que, para judeus ortodoxos, roupas consideradas "normais" e até "conservadoras" são classificadas como "pecaminosas" caso deixem braços e/ou pernas à mostra, ou mesmo sejam coloridas, ou com enfeites. Judeus ortodoxos vestem apenas uma cor: preto.
Na raiz do Chassidismo está a "alegria", o que de per si poderia ser suficiente para vetar a discriminação a respeito das roupas de Margolis, mas não. Faz-se necessário mostrar-lhes, por suas próprias leis, o absurdo do se cuspir numa criança. Mas é possível, pela própria Torah, demonstrar que não é Naama a errada, mas os que se julgam "muito melhores" que ela?
Claro! Vamos lá.
Primeiro de tudo: o uso de roupas não é uma determinação divina, muito pelo contrário. Não usamos roupas pq Deus assim queira. O projeto inicial de Deus era naturista.
Gn 2:
25 Ora, o homem e sua mulher estavam nus, porém, não sentiam vergonha.
Na ordem edênica, todos andavam nus, e não sentiam nenhuma vergonha pois não tinham maldade, como uma criança. Porém, essa harmonia é quebrada pela degustação do "fruto proibido"
Gn 3:
9 Javé Deus chamou o homem: «Onde está você?» 10 O homem respondeu: «Ouvi teus passos no jardim: tive medo, porque estou nu, e me escondi». 11 Javé Deus continuou: «E quem lhe disse que você estava nu? Por acaso você comeu da árvore da qual eu lhe tinha proibido comer?»
Deus não vê nossa nudez. Quem vê "nudez" é quem tem maldade no olhar. E assim Deus se transforma no primeiro estilista da História. Ele próprio confecciona roupas para Adão e Eva:
Gn 3:
21 Javé Deus fez túnicas de pele para o homem e sua mulher, e os vestiu.
Portanto, é a maldade no olhar do homem que faz necessário o uso de roupas, não uma determinação divina. Contudo, judeus ortodoxos têm um senso de moda que muitas vezes parece "excessivamente conservador". Por exemplo, consideram como mandamento que toda mulher casada deve cobrir seus cabelos, escondendo-os da apreciação pública. Para não serem confundidas com muçulmanas as judias ortodoxas ao costumam usar o véu, mas perucas. Não há nenhum mandamento explícito na Torah que assim o ordene. A origem dessa prática está aqui:
Gn 24:
64 Rebeca, erguendo os olhos, viu Isaac. Ela apeou do camelo, 65 e disse ao servo: «Quem é aquele homem lá no campo, que vem ao nosso encontro?» O servo respondeu: «É o meu senhor». Então ela pegou o véu e se cobriu.
Rebeca se cobre ao ver seu noivo. Ora, se ela se cobre, é pq estava descoberta. E descoberta diante de um homem, o servo de Isaac. E se ela estava descoberta diante d um homem, obviamente, moças solteiras não comprometidas não se cobriam com véus, nem na época dos Patriarcas. E não consta que Naama Margolis, aos 8 anos, seja noiva. Ver nessa passagem de Rebeca uma obrigação para que moças solteiras se cubram com véu é adicionar mandamentos inexistentes à Lei. O que é tão errado quanto violar um mandamento que existe.
Mas a Lei Mosaica diz algo sobre roupas, e moda? Sim, e bastante. Por exemplo, as vestimentas do sumo sacerdote, que devem ser coloridas e bordadas, são descritas em detalhes.
Ex 28:
2 Mande fazer para seu irmão Aarão vestes sagradas, bem ricas e enfeitadas. 3 Diga a todas as pessoas hábeis, a quem eu concedi espírito de sabedoria, que façam vestes para Aarão, a fim de consagrá-lo como meu sacerdote. 4 São estas as vestes que farão: um peitoral, um efod, um manto, uma túnica bordada, um turbante e um cinto. Farão vestes sagradas para seu irmão Aarão e para os filhos dele, a fim de que sejam meus sacerdotes. 5 Empregarão ouro e púrpura violeta, vermelha, escarlate, e linho fino. 6 Farão o efod bordado a ouro, de púrpura violeta, vermelha e escarlate, e de linho fino retorcido.
Daí extraímos, claramente, que Deus não se importa que usemos roupas coloridas, na verdade usar roupas coloridas, bordadas e enfeitadas, pelo Sumo-Sacerdote, é mandatário. Caso a Deus as cores chamativas fossem odiosas, seguramente Ele não ordenaria que seu Sumo-Sacerdote assim se ornasse.
Mas vcs podem estar se perguntando a respeito do conceito bíblico de "nudez": se mostrar braços, pernas, colo poderia ser considerado com "nudez", e a resposta é clara: não! A "nudez" se aplica apenas à exposição dos órgãos sexuais. Acompanhem:
Ex 20:
26 Não suba por escadas até o meu altar, para que a sua nudez não apareça.
Gn 9:
20 Noé, que era lavrador, plantou a primeira vinha. 21 Bebeu o vinho, embriagou-se e ficou nu dentro da tenda. 22 Cam, o antepassado de Canaã, viu seu pai nu e saiu para contar a seus dois irmãos. 23 Sem e Jafé, porém, tomaram o manto, puseram-no sobre seus próprios ombros e, andando de costas, cobriram a nudez do pai; como estavam de costas, não viram a nudez do pai.
Biblicamente, "descobrir a nudez" ou "os pés" é um eufemismo para a relação sexual. Naama não incorreu em nada disso. Alguns tipos de roupas são proibidos. Mas quais?
Dt 22:
5 A mulher não deverá usar artigo masculino, nem o homem se vestirá com roupa de mulher, pois quem assim age é abominável para Javé seu Deus. (...) 11 Não vista roupa mesclada de lã e linho. 12 Faça borlas nas quatro pontas do manto com que você se cobrir.
Se Naama não vestia roupas masculinas nem mescladas de lã e linho, o que haveria para se criticar em seu trajar? Nada! Especialmente quando estamos cientes de outros mandamentos, que não tratam sobre roupas, mas de como devemos tratar às crianças e, como é seu caso, imigrantes. Leiam:
Ex 22:
20 Não explore o imigrante nem o oprima, porque vocês foram imigrantes no Egito.
21 Não maltrate a viúva nem o órfão, 22 porque, se você os maltratar e eles clamarem a mim, eu escutarei o clamor deles. 23 Minha ira então se inflamará, e eu farei vocês perecerem pela espada: as mulheres de vocês ficarão viúvas e seus filhos ficarão órfãos.
Dt 24:
17 Não distorça o direito do estrangeiro e do órfão, nem tome como penhor a roupa da viúva. 18 Lembre-se: você foi escravo no Egito e daí Javé seu Deus o resgatou. É por isso que eu lhe ordeno agir desse modo.
O trajar de uma moça solteira, qquer que seja, não é pecaminoso (desde q não exponha suas partes íntimas, é claro). Porém, o perseguir, constranger e oprimir ao imigrante o é. Assim como o levantar infâmia sobre uma virgem de Israel:
Dt 22:
16 Então o pai da jovem dirá aos anciãos: ‘Dei minha filha como esposa a este homem, mas ele a detesta, 17 e a está acusando de atos vergonhosos, dizendo que minha filha não era virgem. Mas aqui está a prova da virgindade da minha filha!’ E estenderá o lençol diante dos anciãos da cidade. 18 Os anciãos da cidade pegarão o homem, mandarão castigá-lo 19 e o multarão em cem moedas de prata, que serão entregues ao pai da jovem, por ter sido difamada publicamente uma virgem de Israel. Além disso, ela continuará sendo mulher dele, e o marido não poderá mandá-la embora durante toda a sua vida.
Não se trata como prostituta a uma virgem do Israel (como creio que seja o caso de Naama). Acredito, sinceramente, que os ortodoxos que cuspiram em Margolese achavam estar agradando a Deus e zelando por sua Lei. Porém parem e pensem: vcs acham que cuspir sobre uma menina agrada a Deus? Caso essa simples frase não seja suficiente, vão alguns mandamentos:
Lv 19:
5 Quando oferecerem sacrifícios de comunhão a Javé, façam de tal modo que sejam aceitos.
13 Não oprima o seu próximo, nem o explore, e que o salário do operário não fique com você até o dia seguinte. 14 Não amaldiçoe o mudo, nem coloque obstáculos diante do cego: tema o seu Deus. Eu sou Javé.
15 Não cometam injustiças no julgamento. Não seja parcial para favorecer o pobre ou para agradar ao rico: julgue com justiça os seus concidadãos. 16 Não espalhe boatos, nem levante falso testemunho contra a vida do seu próximo. Eu sou Javé.
Será que Deus aceitará uma miztvot cumprida com uma cusparada numa virgem? Hum... acho que não. Será que Deus gosta de quem amaldiçoa quem não é dono de sua própria voz, como uma criança? Hum... acho que não. Será que Deus gosta de quem levanta falso testemunho ao chamar de "prostituta" alguém que, na verdade, é virgem? Hum... Acho que não.
Portanto, que fique muito claro: Naama Margolis pode se vestir como quiser. Sendo moça solteira, deve satisfações apenas a seu pai. Não há absolutamente nenhum mandamento que recomende "recato" ou mesmo que ela cubra sua cabeça (como há no Alcorão). Os que a oprimem e criticam suas roupas estão adicionando mandamentos que não existem na Lei.
Vejam: Ai se eu te pego: http://m.youtube.com/#/watch?desktop_uri=%2Fwatch%3Fv%3Dsa4XBA75Jtg%26feature%3Dautoshare&feature=autoshare&v=sa4XBA75Jtg&gl=BR
sábado, 16 de julho de 2011
Das Relatividades
Até o Renascimento o Ocidente compreendia o Universo como uma cebola, cujo miolo seria a Terra, e em cujas esferas superiores circulariam as estrelas e o “Céu”. O nome científico para isso seria o Geocentrismo, a noção de que a Terra seria o centro do Universo.
Então veio Nicolau Copérnico e apresentou o Heliocentrismo, a noção de que não a Terra, mas o Sol seria o centro do Universo. Como tudo, ambas as noções são historicamente determinadas. O Geocentrismo pelo paradigma teológico de sua época. E o Heliocentrismo pelas possibilidades científico-tecnológicas de então.
Albert Einstein foi capaz de transcender os limites tecnológicos de sua época. Propôs teoricamente algo que, em seu tempo, não fôra até então observado. Inclusive, após a proposição de sua teoria, houve uma corrida de astrônomos atrás de um bom registro fotográfico de um eclipse solar, que poderia confirmar, ou cabalmente descartar, a proposição até então estritamente teórica de Einstein, de que a gravidade deforma o tecido do tempo-espaço. Que não são separados, mas manifestações de um mesmo continuum, percebido de 2 formas diferentes em nosso Universo tridimensional.
Se eu sou capaz de criar uma imagem que ilustre rapidamente uma implicação prática e observável da Relatividade Geral de Einstein, aqui vai: ela professa que o transcorrer com compasso espaço-temporal é relativo à velocidade e às forças gravitacionais à qual o observador está submetido. Tomemos como exemplo um astronauta que orbita a Terra. Em relação a nós, ele está acelerado a uma velocidade superior, portanto, o tempo para ele transcorre num compasso mais lento. Se antes de ir ao espaço ele sincronizou seu relógio de pulso com alguém que permaneceu na Terra em seu retorno, necessariamente, o relógio do astronauta marcará alguns segundos ou minutos a menos que o de quem permaneceu preso à Terra. E quanto maior foi o tempo da viagem espacial, maior será a discrepância entre os mostradores. Para fins práticos, todo astronauta viaja algumas frações de segundo para o Futuro ao (pelo menos parcialmente) desprender-se das amarras da gravidade terrestre.
Porém a Relatividade não é uma Lei apenas Física, mas verdadeiramente Universal, em todos os níveis da experiência observável humana. Pretendo explorar alguns exemplos variados a seguir.
1 – Luminosidade.
O que é o “claro” e o “escuro”? Depende da abertura de nosso diafragma ocular. Se vc esta num ambiente à plena luz e entra num quarto escuro, imediatamente vc nada vê, fica completamente cego. Porém, alguns segundos depois seus olhos calibram melhor o diafragma e vc começa a enxergar, mesmo que a ausência de luminosidade não se altere.
2 – Do paladar.
Numa festa de aniversário, já te serviram bolo com refrigerante? Isso não é horrível?!
Isso é horrível pela Lei Universal da Relatividade. Refrigerante, doce, é bom para acompanhar comidas salgadas pois há um contraste atraente entre ambos os sabores. Porém o bolo é mais doce que o refrigerante. E ao beber um gole de refrigerante depois de mastigar um pedaço de doce, o refrigerante não nos parece mais doce, e sim amargo. Pois comparadas as duas “doçuras”, o refrigerante perde.
Venho por meio desta confessar um “guilty pleasure” do qual me arrependerei. “Guilty pleasure” é um “prazer culposo”, algo do que vc gosta mais sabe que é ruim. Confesso. Não me orgulho, não recomendo, mas confesso: assisto ao programa “Keeping up with the Kardashians” e a seus desdobramentos “Kourtney & Khloe take Miami”, “Khloe and Lamar” e “Kourtey & Kim take New York” no E!, Entertainment Television. São reality shows que mostram o cotidiano dessa família, famosa por conta da exposição de Kim.
Para quem não faz parte do meu Universo, um breve resumo. Os anos 2.000 viram florescer a tendência dos “Reality Shows”. Começamos com o Big Brother, e de repente o voyerismo assumiu o controle da TV. Figuras secundárias deste fenômeno são os paparazzi. Paparazzo em italiano significa “mosquito”. Este termo foi aplicado, creio que por Fellini, para referir-se aos fotógrafos de celebridades que incomodam como mosquitos aos famosos, ou não, que perseguem.
Não foi apenas nos anos 2000 que soubemos deles. Em 1997 muito foi alardeada a possibilidade de ter sido um paparazzo, num Fiat azul, o causador do acidente que matou Lady Diana Spencer.
Dentre várias celebridades incessantemente perseguidas, um dos melhores exemplos é o de Britney Spears. Enquanto adolescente, ela foi a “princesinha do Pop”. Ao atingir a maturidade, casar-se e tornar-se mãe, foi sucessiva e impiedosamente flagrada nas piores situações possíveis. Magra. Gorda. Com calcinha. Sem calcinha. Careca e cabeluda. Até agrediu com um guarda-chuvas um fotógrafo. Namorou outro. Chegou a ser flagrada dentro de uma ambulância, na Emergência do Hospital.
Em diversas ocasiões festivas, Britney foi fotografada ao lado de “It Girls” de Los Angeles, mas desconhecidas pelos “simples mortais” ao redor do mundo. Duas delas começaram a ser famosas apenas após flagradas na companhia festiva de Britney Spears: Paris Hilton e Kim Kardashian. E se transformaram imediatamente em duas “famosas” por serem “famosas”. Britney ao menos cantava (ainda que mal). Mas e Paris e Kim?
Pelo sobrenome pode-se fazer a ligação de Paris à cadeia de hotéis Hilton, da qual é herdeira. Kim é filha do famoso advogado de O. J. Simpson Robert Kardashian, e é enteada do atleta olímpico Bruce Jenner.
Para quem nunca viu Kim Kardashian, uma forma de imaginá-la é lembrar-se da princesa Jasmine do desenho “Alladin” da Disney. Porém Kimberly Kardashian é, fisicamente, o que a princesa Jasmine não é, em beleza, à décima potência. Nem um desenhista da Disney seria capaz de projetar, idealmente, uma beleza tão perfeita quanto a que Kim Kardashian tem, tangilmente. Nas palavras de Kelly Osbourne, comentarista do “Fasion Police on E!”: Kim Kardashian é a mais bela mulher que já pisou a face da Terra.
Sua beleza é simplesmente perfeita. Não apenas seu rosto é maravilhosamente bem calculado por algum sumo matemático, como seu corpo é maravilhosamente bem-torneado, com um derriére que de tão avantajado parece até artificialmente turbinado.
Pq qquer uma dessas observações é pertinente à Relatividade? Por conta de Kourtney Kardashian. Kourtney também é uma mulher maravilhosamente bela, com um corpo bem-feito. Quando apenas Kourtney aparece na tela, sua beleza nos atinge maravilhosamente.
Até que Kim apareça.
Embora Kourtney seja uma mulher belíssima, quando contraposta no mesmo frame a Kim, não há como, visualmente, perceber que na presença da irmã perfeita a beleza de Kourtney se apaga tanto quanto a doçura do refrigerante contraposta ao sabor do bolo.
Houvesse Kourtney nascido em qquer outra família, seria “a mais bonita das irmãs”. Porém teve
a má sorte de receber como sua caçulinha “a mais bela mulher que já pisou a face da Terra” e diante disso, relativamente, jamais poderá considerar-se realmente bonita. Muito mais corpos gravitarão ao redor de Kim do que ao redor dela.
4 – Do progresso tecnológico.
Sinceramente, qquer ser humano que reclame da existência hj é um grande bunda-mole. O avanço tecnológico da Humanidade facilitou nossa existência de tantas maneiras que um viajante do tempo que chegasse hj vindo de 2 mil anos atrás ficaria rapidamente convencido que grande parte do que ele almejava por uma “vida paradisíaca”, nós já desfrutamos.
Alguns exemplos brasileiros.
Os pioneiros paulistas precisaram, por séculos, escalar manualmente a “Muralha”, a Serra do Mar que divide a Baixada Santista do Planalto Paulista. A árdua escalada durava dias ou até semanas. Hoje, num dia sem trânsito, chega-se de São Paulo a Santos em menos de meia hora, de carro, pela Rodovia dos Imigrantes. Também por séculos, para transportar a produção do planalto paulista ao porto de Santos, eram necessárias tropas de mulas e semanas de viagem. (Por isso foi escrito o livro “Rio Claro” de Warren Dean). Já adiantado o século XIX, algumas horas de viagem de trem. Hoje, de carro, da minha casa no coração do interior paulista, eu dobro apenas 4 esquinas e levo 2h15 para chegar à Marginal.
Duas palavras que transformaram o mundo: energia elétrica. Quantos poetas forçaram seus olhos para ler preciosos e raros livros à luz de velas? Hj todos nós temos à plena luz e à ponta dos dedos via Internet qquer livro que queiramos.
E ainda assim reclamamos.
Nunca nos daremos por satisfeitos pois todas as nossas noções de comparações são historicamente determinadas pelo que nos cerca. Um viajante do passado ficaria maravilhado com todas as nossas facilidades modernas. Nós, porém, acostumados a elas, não lhes damos valor, nem nos sentimos presenteados por termos a nossa vida tornada infinitamente mais fácil pela tecnologia.
Tenho a consciência de testemunhar um momento de transição histórica propiciado pelo avanço da tecnologia. A informática transformará completamente as relações humanas, e apenas engatinhamos nesse sentido.
Estamos saindo da vida analógica para a digital. Testemunhamos a transição para a realidade 2.0, para a Grande Revolução do Admirável Novo Mundo.
Valerá a pena a espera.
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Dos atos públicos em pijamas
O uso de trajes não é universal a todas as culturas, tenhamos em perspectiva o choque indumentário-cultural dos Conquistadores espanhóis e portugueses ao desbravar as terras americanas; e a clássica observação da carta de Pero Vaz de Caminha de que os índios, de corpos e narizes bem-feitos, “não cobriam suas vergonhas”. Esse detalhe avolumou a noção da América como o jardim do Éden redescoberto, onde “não existe pecado ao sul do Equador”.
Essa noção da ausência de roupas ligada à inocência remete ao relato edênico, no qual igualmente Adão e Eva “andavam nus e não se envergonhavam” e o fato de eles imediatamente cobrirem-se após terem seus olhos abertos pela degustação da árvore do conhecimento. Portanto, desde o mito fundador da civilização judaico-cristã ocidental, as roupas são um detalhe sempre presente.
Atualmente não percebemos outro detalhe histórico fundamental para a compreensão deste tópico. Vivendo a, creio, quarta Revolução Industrial, e muitas vezes esquecemos o mote da primeira, que transformou o mundo: o tear mecânico. E o que fazem teares mecânicos? Tecidos, para fazer roupas. Mais especificamente, roupas baratas, acessíveis a virtualmente “todos”.
Qualquer um de nós, mesmo que de classe C, ou média baixa, tem um guarda-roupa tão vasto que seu número de peças equivale-ir-se-ia ao guarda-roupa inteiro de 10 famílias de mesma classe social da época pré-industrial. Antes dos teares mecânicos, a produção de roupas era tão onerosa quanto a dos livros pré imprensa de Gutemberg.
Antes do tear mecânico, os tecidos eram entremeados artesanalmente, à mão. Um processo lento e caro. As pessoas tinham poucas, e preciosas, peças de roupa. Talvez agora vcs compreendam pq em alguns filmes medievais os defuntos eram despidos, e sepultados sem roupas. Não faz sentido sepultar um morto com algo valioso, que ainda pode ser usado.
É fácil perceber essa penúria fashion nas pinturas de pessoas com sua mudança. Se pré-industrial, uma simples trouxinha. Se pós-industrial, algumas malas. Se pós-Globalização, volumosas malas.
Só para adicionar um toque de pimenta: eu mesma já fiz piada a respeito de Jesus usar “vestido”. Rsrsrsrs. Jesus nunca usou um vestido, ele usava túnicas. Mas se uma peça usada por Jesus fosse hoje posta à venda seria etiquetada como um “vestido hipponga”. E se Jesus fosse teletransportado ao hoje, os transeuntes desavisados teriam certeza pelo seu senso fashion que ele seria algum tipo de hippie, ou vegan, ou os dois. E ele encontraria irmãos com igual trajar apenas, talvez, em Alto Paraíso de Goiás.
À época de Jesus as próprias calças não existiam pois os modelistas não haviam ainda desvendado como fazer uma cava entre as pernas que não resultasse na roupa rasgar-se quando seu trajante se sentasse. Podemos ter um instantâneo das tentativas e erros da moda pelo figurino do filme clássico de Franco Zefirelli Romeo and Juliet, adaptação da peça de William Shakespeare. Até a era industrial, sequer os sapateiros haviam tido a brilhante idéia de fazer os pés dos calçados complementares e assimétricos. Sim, isso significa que Louis XIV, apesar de seus saltos altos, não tinha em seus sapatos o “pé direito” e o “pé esquerdo”: ambos os pés eram idênticos.
Hoje, que os tecidos são baratos, e adicionalmente as roupas e sapatos são costurados por semi-escravos asiáticos, e podemos ter dezenas de peças de roupas. E mais do que isso, diferentes tipos de roupas para diferentes ocasiões, não só para atos públicos como para a intimidade do lar.
Tecer mais um comentário sobre os maravilhosos vestidos da haute couture desfilados nos red carpets do jet set internacional seria chover no molhado, e está longe do que pretendo. A questão fashion que ora abordo é do como ou pq choca e desperta muita atenção o fato de algumas pessoas, eventualmente, apresentarem uma bandeira política através do trajar pijamas: roupas exclusivas para o ambiente privado.
Foi curioso pesquisar a trajetória dos pijamas para embasar este texto. Descobri que “pijama” ou pajama vem do persa payjama (ايجامه ), e que originalmente refere-se ao que chamaríamos no Brasil por ceroulas: uma peça acima da cueca ou calcinha, e usada abaixo da calça exterior. Quase uma “combinação” feminina, como a que faltou a Lady Diana Spencer usar em suas famosas fotos de ainda noiva.
Minha bisavó, mesmo nos anos 2000, quase centenária, fazia questão de usar, abaixo do vestido, uma combinação de tecido fino. Resquício das épocas em que os trajes eram como cebolas, com várias camadas de pano.
O “pijama”, portanto, seria referente à parte de baixo, calça ou ceroula, da roupa. Já a parte de cima da sleepwear, descobri, é todo um capítulo aparte, com diversas denominações, formatos ou mesmo origens.
Para as damas: peignoir, robe de chambre, miss Elaine, “baby doll”, nightgown, camisole, kimono, négligé.
Para os cavalheiros: pijama, robe de chambre, smoking jacket, nightgown, roupão, e, surpreendentemente, banian. Desconhecia eu o termo português, e o descobri por sua derivação inglesa banyan, referente ao pijama típico dos Iluministas.
Ampla e variada é, portanto, mesmo a moda das roupas destinadas a quase ninguém ver: criadas para o uso privado do quarto de dormir. Por isso é que trajar publicamente tais gowns desperta a atenção pública e, em mim, particularmente, esta reflexão.
Muito refleti e cheguei à conclusão que são dois os motivos essenciais que levam às pessoas exibir-se publicamente de pijamas: o desprezo e arrogância; e o passar a mensagem de certa fragilidade e inocência.
O sentido de fragilidade e inocência extraí dos casos públicos de Michael Jackson e Getúlio Vargas. O Rei do Pop pois compareceu a uma sessão do Tribunal do Júri californiano em que era acusado de pedofilia rajando pijamas e smoking jacket. Do grandiloqüente pai dos pobres brasileiros pois suicidou-se trajando um listradinho, deixando o bolso da lapela transfixado e manchado de pólvora, sangue e uma torrente de lágrimas da Nação. Especialmente Getúlio, que deu-se ao trabalho de deixar como “Suicidal Note” o longo texto em que afirma “Deixo a vida para entrar na História”, poderia ter escolhido quaisquer trajes para seu último ato.
Seria, talvez, mais melodramático, se o fizesse de black-tie, com a faixa presidencial que carregou por quase 20 anos. Mas não. Trajava, em seu último ato, ao entrar para a História, um pijama. Quis, como Michael Jackson, apresentar uma declaração de inocência, afirmando com seu pijama ser era uma vítima surpreendida em “calças curtas” ou “mangas de camisa”.
Os sentidos de arrogância ou desprezo depreendi das aparições de John Lennon, Hugh Hefner e Mark Zuckerberg. Não tacho a John Lennon de arrogante, longe de mim, mas seu episódio “Bed”, protestando, de pijama listrado, ao lado de Yoko Ono, pela paz, traz subjacente certo desprezo pela própria, desculpem-me, “Nova Ordem Mundial”. Já o octogenário Hugh Hefner, sempre em seu indefectível Smoking Jacket de veludo com seu monograma bordado, transmite uma certa superioridade que só alguém que viveu, e ainda vive, uma longa e mui realizada vida pode ostentar.
Hugh Hefner traja continuamente pijamas pois está acima de críticas. Sabe que, por sua idade e realizações, pode zombar de suas próprias, e várias, namoradas. Enquanto cada uma delas gasta por dia algo como 3 horas entre depilação, maquiagem, cabelo e escolha de trajes, ele sequer se preocupa: comparece às próprias festas “de arromba” em pijamas e, no fundo, ri-se que todos pareçam ignorar completamente tal fato. E que, não importa quais sejam suas roupas ele pode “traçar” qquer mulher presente.
Mark Zuckerberg é um capítulo àparte. A cena de “The Social Network” em que ele comparece de chinelo Adidas e um pijama quase roupão (de banho) a uma reunião de negócios em que seriam negociados milhões de dólares é uma sacada ESTUPENDA de David Fincher, se não for mesmo real. A “declaração”, ou statement de Zuckerberg em tal situação para seus interlocutores era:
- Vc, que gastou 5 mil dólares neste terno, 200 dólares nessa camisa, 150 dólares nessa gravata e 700 dólares neste par de sapatos de couro italiano, sabe de uma coisa?: eu venho aqui com pijamas de 30 dólares do K-Mart só pra deixar claro pra vc, mauricinho, que eu sou tão genial que estou acima de críticas. Vc tem que se arrumar para MIM. EU, não preciso me arrumar para vc.
Essa moda-pijama derivada de John Lennon, Michael Jackson e, principalmente, Mark Zuckerberg é a epítome de um processo de começou com a abolição dos espartilhos, das anquinhas, das cartolas, combinações, coletes, paletós, gravatas e até, atualmente, dos soutiens.
Traduzido para os pés: passamos dos sapatos de couro e salto alto para os tênis, e dos tênis para as sandálias, e das sandálias para os chinelos, e dos chinelos para as pantufas. E creio que isto é bom.
Creio que é ótimo que progressivamente o conforto e o despojamento sobrepujem-se à aparência, à pose, às cuidadosas e caríssimas toillettes.
Creio que a moda-pijama veio para ficar com os filhos dos yuppies e que cada vez mais as pessoas passarão mais horas no conforto de seu lar e de seus robes de chambre. Cada vez mais veremos menos sapatos e mais tênis. Menos gravatas e mais pólos. Menos renda, menos cetim. Mais cotton e mais fleece. Talvez a aparência esteja, progressivamente, cedendo lugar à essência; ou o invólucro esteja sendo relegado pelo conteúdo. Estamos ficando mais informais e próximos.
Qualquer um (não, talvez os semi-escravos asiáticos), pode comprar os trajes usados por Mark Zuckerberg em sua reunião de negócios supracitada. Já, apenas 10 pessoas poderiam igualar-se em trajes aos emissários dos reis de Portugal e Espanha ao assinar o Tratado de Tordesilhas. Creio que isso diz algo de bom sobre a evolução da civilização judaico-cristã Ocidental. E ainda mais positivas são as presenças dos Sefarad Eduardo Saverin e do Ashkenaz Mark Zuckerberg.

