terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
De Milena
Antes da era das redes sociais, era comum perdermos contato, mesmo com nossos amigos mais queridos. Este texto se refere a uma grande amiga-irmã q tive nos tempos de adolescente, com quem perdi contato por 15 anos, e de como me surpreendi ao reencontrá-la.
Milena morava a menos de 100 metros da minha casa, estudamos juntas por 2 anos, quando tínhamos menos de 15 anos. Éramos muito parecidas, em vários aspectos. Na aparência externa, na personalidade, no gosto musical, nas atitudes. Sempre andávamos juntas. Ambas tínhamos irmãs e famílias problemáticas, e passávamos horas comparando nossos problemas.
Muitas lembranças desta época tenho ao lado de Milena. No Ensino Médio, nos matriculamos em escolas diferentes, e eu mudei de casa, para outro bairro. Nesta época, antes do celular e das redes sociais, nosso afastamento foi natural; até nos ligamos algumas vezes, mas como não convivíamos mais na escola, as coisas deixaram de ser como eram antes, e cada uma foi seguir seu caminho. Mas eu sempre guardei um lugar especial em meu coração para ela.
Os anos se passaram, eu me mudei mais meia dúzia de vezes de casa, fiz faculdade, comecei a trabalhar. De vez em quando a lembrança de Milena passava pela minha cabeça, e a curiosidade de descobrir que rumo ela tinha dado à própria vida. Me perguntava se continuávamos parecidas, e quais caminhos divergentes o destino teria colocado à nossa frente. De tempos em tempos eu fazia buscas por seu nome, sem q nenhum perfil dela surgisse. Até q, um dia, apareceu.
A adicionei e mandei mensagem no estilo "Oi, velha amiga! Como vc anda? Vamos nos ver na próxima visita q eu fizer a Sampa?" Ela me aceitou e respondeu prontamente q da mesma forma, queria me reencontrar. Marcamos.
Reencontrá-la foi uma das experiências mais esquisitas da minha vida. Bati à porta de sua casa, e quando ela atendeu, não a reconheci, absolutamente. A desconhecida diante de mim abriu um sorriso, disse "Oi, Fê! Vc está igualzinha!" E, apesar de eu não saber com quem estava falando, a saudei e entrei, afinal este era o endereço q Milena me dera.
Me sentei no sofá e começamos a conversar. Aos poucos, analisei o formato do seu nariz, dos olhos, seu furinho no queixo e só então "caiu a ficha" q aquela era Milena mesmo. Eu não a reconhecera pois agora ela estava uns 30 quilos mais gorda, mas não era só isso. Outros amigos haviam engordado até mais. Não eram apenas os quilos a mais q me impediram de reconhecê-la, mas o fato de q, 15 anos depois, não havia absolutamente NADA nela q fosse parecido comigo.
Ela foi me contando sobre sua vida, seus trabalhos de recepcionista, secretária, auxiliar de escritório. Perguntei-lhe se fizera faculdade. Não, nunca tinha tido vontade. Se fizera outros cursos. "De informática". Mais algum? Não. Quantos namorados tivera. Dois. Dois? Sim, 2. E com o último se casara.
Me contou do seu marido, do seu casamento. Que após se casar, como o marido tem bom emprego, pedira demissão na primeira oportunidade, e agora era dona-de-casa. Como ainda não tinha filhos, lhe perguntei se estava tentando engravidar. Não, não pretendia ter filhos tão cedo.
Nada tenho contra a mulher escolher ser dona de casa. Desde q sua casa e família exijam sua dedicação exclusiva. Ao me falar q era uma dona de casa q não tinha nem pretendia ter filhos tão cedo, comecei a sentir uma angústia indescritível. Percebi então que usava roupas com desenhos infantis, falava com a voz infantilizada das pessoas profundamente inseguras, seus cabelos estavam penteados como os de uma criança. Mostrou com orgulho seus bibelôs e itens de decoração, todos em motivos infantis. Sem q houvesse nenhuma criança, ou sequer bicho de estimação, na casa.
Prosseguiu contando dos seus eternos desarranjos familiares, como ainda brigava toda semana com sua mãe e irmãs. Suas brigas com a sogra e cunhados. E minha angústia foi crescendo ao perceber como ela nada tinha "de sua vida" para falar, mas apenas de seus problemas. Não tinha projetos, planos, não estudava nada, nem à distância. Seus únicos assuntos, q ela matraqueva em voz esganiçada denotando certo desespero eram: o marido, as irmãs, os cunhados, sua mãe e sua sogra. E todas as histórias eram de como todos estes, menos o marido, infernizavam sua vida e estavam, sempre, contra ela.
A cada historieta, q eu ouvia apenas balançando a cabeça, minha angústia crescia. Não senti "pena" dela, pois mulher bem casada, com casa própria, não merecia tanto. Mas comecei a me perguntar se a história dela não teria se desenrolado de forma diferente se tivéssemos continuado amigas, e eu a tivesse influenciado mais.
Se, caso eu tivesse insistido mais em manter contato com ela, não poderia tê-la estimulado a fazer faculdade, ou ao menos cursos profissionalizantes. Se a tivesse chamado para sair algumas vezes, ela não teria tido a oportunidade de ter mais namorados, e não teria casado com o segundo rapaz q cruzou seu caminho. Se eu não poderia tê-la ajudado a ter mais empregos, oportunidades, experiências, outros parâmetros para "ampliar seu horizonte" de possibilidades.
Eu havia reservado a tarde inteira pra ficar com ela, na esperança q batêssemos altos papos, tomássemos umas brejas, déssemos várias risadas. Mas conforme ela incessantemente desfiava seus rosários de reclamações e relatava como ela era a "vítima do Universo", percebi q, além de ela não estar interessada em saber de minha vida, mas apenas em falar de sua própria, o cenário no qual a minha vida se desenrolava lhe era completamente estranho. Se eu lhe contasse as histórias q eu ansiava dividir com aquela Milena q era tão eu, a Milena de 15 anos depois ficaria chocada e não compreenderia muitas delas.
Conforme os minutos demoravam a passar, começou a crescer um certo nó no meu pescoço. Me perguntava: "como eu puder permitir q a Milena ficasse assim?" Percebi nitidamente q tê-la "abandonado" fôra péssimo para ela. Éramos então tão idênticas, e hj tão diferentes. Eu construíra uma vida. Fizera curso de operadora de Telemarketing, cursinho, passara em 3 vestibulares, estudara na USP, fizera inúmeros outros cursos, tivera meia dúzia de empregos, muito diferentes, tivera vários namorados, muito diferentes. Eu tivera uma vida plural. Ela não.
Eu enfrentara a vida com certo grau de coragem, saíra de casa, rompera com os maus parentes. Eu havia "aberto meus horizontes", dissera "sim" às oportunidades da vida. Eu escolhera "escolher", arquitetar um "plano" para meu futuro. Milena fizera todo o oposto. Escolhera a segurança de "deixar a vida" escolher os caminhos, ou não-caminhos, q ela trilharia. Escolhera não ter planos. Como as mulheres de antes da Revolução Sexual, via o "casamento" como seu único projeto e tábua de salvação. E, agora q estava casada, dizia sentir q sua vida estava completa, e q era muito feliz sendo apenas dona de casa.
Para mim, q escolhi construir meu próprio caminho, e ter "vida própria", ver minha amiga outrora tão íntima se dizendo realizada com uma vida q ao meu ver era tão vazia, me trouxe uma enorme dor no peito, um sentimento de culpa, de falha, tão gigantesco q na primeira oportunidade em q ela fez uma breve pausa no relato de seus muitos problemas familiares, lhe disse q tinha outro compromisso e q precisava ir embora.
Neste dia eu não reencontrei Milena. Mas visitei o pouco q restou dela. Ao chegar no meu carro, demorei longos minutos congelada, sem reação, antes de dar a partida. Sentia uma adaga rasgando o sentimento q eu tivera nesses anos de q, assim como eu seguira meu caminho, Milena teria seguido o dela. Durante esses anos eu imaginara q ela teria estudado, trabalhado, crescido, vivido. Mas percebi q ela permanecera parada. Sua maturidade psicológica, opiniões e assuntos continuavam "na altura" de uma pessoa de 15 anos, enquanto eu havia evoluído, me instruído, aberto minha mente, mudado minhas formas de pensar.
Antes de dar a partida, num lance de frustração, estapeei meu volante e gritei em voz alta: "Como eu pude permitir q a Milena ficasse assim?!"
Vi nitidamente q tê-la "abandonado", negligenciado nossa amizade, ter permitido q as circunstâncias da vida nos afastassem, tinha-lhe feito muita falta. Eu a teria "puxado para a vida", a teria instigado a abrir seus horizontes, teria lhe proporcionado outras experiências, q talvez a encaminhassem a "construir sua própria vida" e não a se "abancar" assim q conseguisse realizar seu único projeto: se casar. E o pensamento "e no dia q o marido dela se cansar de todas as suas neuroses e as brigas q ela arranja com a família dele? Q 'vida' restará a Milena, sem filhos, sem marido, sem profissão?"
Me senti culpada, angustiada, frustrada, derrotada, em dívida com ela, em certo ponto "revoltada" com os descaminhos da vida. E, sobretudo, arrependida por tudo q poderia, e deveria, ter feito por ela, mas não fiz, por negligência. O carinho q por ela acalentara à distância era uma ilusão, a de q ela estaria bem, enquanto não estava, e precisava de minha ajuda, minha presença, q lhe fizeram muita falta. Percebi o grande erro q cometera, e como agora isso era completamente irremediável. A antiga Milena não mais existia, e a nova Milena não era em nenhum aspecto parecida comigo. As coisas q ela falava me desconcertavam. E as coisas q eu falaria se ela tivesse me dado oportunidade, a teriam desconcertado, por serem completamente alheias ao seu Universo.
Reencontrar Milena foi uma frustração profunda. Provavelmente em nenhum momento ela se deu conta de minha angústia, o q só fez aumentar o meu pesar: q ela não perceba como sua vida é vazia, sem planos, sem projetos, como sua vida não tem vida.
Foi deveras melancólico perceber tudo isso. E o sentimento de culpa por minha pequena parcela de responsabilidade na não-vida de Milena prossegue a me incomodar, profundamente.
A vida é cigana. http://www.youtube.com/watch?v=h-vD3uf7aLQ
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domingo, 3 de fevereiro de 2013
Bloggar ampliou os sentidos da minha vida
Uma das características definidoras do ser humano é nossa insaciável sede por "mais". Nunca nos consideramos felizes, realizados, completos. Nada nos basta. Diferentemente dos animais, contentes com a barriga cheia, "a gente não quer só comida", mas tb bebida, arte, diversão balé, cinema, um (ou vários) "grande amor", filhos, emprego estável, viagens, roupas bonitas, perfumes, carro do ano e a tão comentada "felicidade".
E sempre achamos q todos os outros são muito mais felizes q nós. Sentimos q se falharmos em apenas um item dos q aparentemente são necessários para uma "satisfatória" vida burguesa, somos completos fracassados. Nos comparamos aos outros. E a cada foto de nossos amigos sorridentes na Europa ou na Polinésia, nos sentimos um pouco pior, como se estivéssemos "ficando para trás" e deixando de "aproveitar a vida" q todos os outros parecem "curtir adoidado", menos nós.
A melancolia nascida do marasmo do cotidiano nos deixa a impressão de q não estamos "vivendo", mas apenas vendo o tempo passar, e perdendo inúmeras oportunidades q jamais voltarão.
Não percebemos q na mesma medida q "invejamos" as fotos de um amigo cercado por seus filhos, do outro lado da tela este mesmo amigo inveja nossas fotos sozinhas. Nós invejamos sua vida familiar enquanto ele inveja nossa vida despreocupada. E assim retroalimentamos nossa frustração coletiva...
Sábios são os versos de Renato Russo: "Digam o que disserem / O mal do século é a solidão", às vezes parece q nossas "vidas virtuais" apenas servem para aumentar nossa tristeza e depressão. Comparamos nossas vidas, e temos pena de nós mesmos, nos sentimos girando em falso enquanto os outros progridem, rumo ao sucesso q nunca teremos verve para pleitear. Vemos os outros tomando corajosamente posse da vida q gostaríamos de ter, mas q não tivemos coragem suficiente para correr atrás. Os outros recebendo medalhas na Olimpíada q arranjamos alguma desculpa para não ir.
E é neste momento q devemos fazer uma escolha. Se vamos deixar "os caminhos da vida" colocarem cabresto nos nossos sonhos. Se vamos escolher "não escolher", mas "deixar a vida nos levar" e permitir q as circunstâncias nos encaminhem pelas trilhas corriqueiras, fáceis e bem iluminadas, q não nos apresentam desafios, nem conquistas. Ou não.
Foi num desses momentos, em q sentia simplesmente "deixar-me levar" pelos acontecimentos, e vendo o quanto o simplesmente "trabalhar" me deprimia, percebi q eu PRECISAVA fazer "mais alguma coisa", algo q simplesmente me desse "prazer", alegria, "distração", algo q "ocupasse meu tempo" e me trouxesse a sensação de estar contribuindo, construindo alguma coisa. Realização q, sinto, nunca encontrarei em meus alunos...
Eu já tinha um blog, e vendo q ele me trazia essa "satisfação" q eu tanto procurava, perguntei-me pq não criar mais blogs. E assim, me perguntando qual seria o "mote" do meu novo blog, "inventei" um: tirar fotos de flores. Agora eu tinha um bom motivo pra sair de casa: registrar no meu "Inventário de Flores Urbanas" toda a belíssima flora gratuitamente posta diante de meus olhos. E, com isso, meu cotidiano ganhou toda uma nova cor, e minha existência ganhou mais um propósito. Link: http://inventariodefloresurbanas.blogspot.com.br/
Mas ainda me restavam centenas de horas vazias, q eu gastava sem propósito, assistindo inúteis e inúmeros programas de TV. Percebi q havia outro aspecto da minha vida sobre o qual poderia blogar: minhas habilidades artesanais. Desde criança sempre gostei de trabalhos manuais, e fazê-los sempre me trouxe satisfação. Já tinha dezenas de peças únicas, exclusivas, feitas com minhas próprias mãos, e percebi q valia, sim, a pena publicá-las.
E, ao indexar minhas artes prontas, me senti estimulava a fazer mais delas. Aprendi a tecer em tear e comecei a fazer cachecóis. Conforme eles foram se acumulando, percebi q poderia presenteá-los às pessoas de minha estima. Poderia, com minhas mãos, confeccionar coisas bonitas, únicas e exclusivas. E, ao dá-las de presente, não só me sentia útil, como entregava aos outros em forma de arte um pouco de meu carinho por eles. E essa sensação acrescida do "orgulho" de exibir minhas peças na internet, e vê-las elogiadas. Assim nasceu o blog "Tessituras de Penélope" e adicionei "artesã" à minha descrição pessoal. Link: http://tessiturasdepenelope.blogspot.com.br/
Recentemente, vendo outro aspecto em q eu era em algum grau "boa", e sobre o qual tb poderia bloggar, criei 2 blogs "espelho": um em inglês, outro idêntico em português, para divulgar minhas receitas. E assim nasceram os blogs "Easy Foodie" e seu gêmeo "Comidinha Simples". Eles apenas engatinham, ainda vou configurá-los e devidamente divulgá-los quando já tiverem um bom acervo de receitas para oferecer aos leitores. Links:
http://easyfoodie.blogspot.com.br/
http://comidinhasimples.blogspot.com.br/
Agora já tenho 5 blogs nos quais publico regularmente. Fazer isso me traz certa sensação de "eternidade", e de estar de alguma forma contribuindo para a indexação, organização e "upload" do analógico para o digital de coisas úteis, interessantes. Me sinto colaborando com a construção de um novo mundo de ideias, disseminando conhecimento, ajudando a "cultura" com o q tenho a contribuir: minhas reflexões, as lindas fotos da flora q me cerca, divulgar minhas peças de artesanato "oxigenando" a palheta de possibilidades de outros artesãos, dando receitas simples e deliciosas, muitas q eu mesma inventei, propiciando q outros tb possam degustá-las.
Bloggar não só ocupa as muitas horas vagas de minha vida, como adicionou propósitos a ela. Publicar as coisas q faço com prazer e esmero na internet me estimula a fazer artes ainda mais belas, inventar receitas ainda mais gostosas, procurar flores q nunca antes vi, elaborar textos sobre assuntos nunca antes publicados.
Bloggar torna minha vida muito mais rica, interessante e cheia de sentidos. Recomendo a todos ter ao menos 1 blog, um "domínio", seu pequeno "minifúndio virtual" no qual possam se expressar, se eternizar, elaborar seus pensamentos, sua visão de mundo, divulgar seus hobbies, paixões, e a beleza q vê em estar vivo.
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E sempre achamos q todos os outros são muito mais felizes q nós. Sentimos q se falharmos em apenas um item dos q aparentemente são necessários para uma "satisfatória" vida burguesa, somos completos fracassados. Nos comparamos aos outros. E a cada foto de nossos amigos sorridentes na Europa ou na Polinésia, nos sentimos um pouco pior, como se estivéssemos "ficando para trás" e deixando de "aproveitar a vida" q todos os outros parecem "curtir adoidado", menos nós.
A melancolia nascida do marasmo do cotidiano nos deixa a impressão de q não estamos "vivendo", mas apenas vendo o tempo passar, e perdendo inúmeras oportunidades q jamais voltarão.
Não percebemos q na mesma medida q "invejamos" as fotos de um amigo cercado por seus filhos, do outro lado da tela este mesmo amigo inveja nossas fotos sozinhas. Nós invejamos sua vida familiar enquanto ele inveja nossa vida despreocupada. E assim retroalimentamos nossa frustração coletiva...
Sábios são os versos de Renato Russo: "Digam o que disserem / O mal do século é a solidão", às vezes parece q nossas "vidas virtuais" apenas servem para aumentar nossa tristeza e depressão. Comparamos nossas vidas, e temos pena de nós mesmos, nos sentimos girando em falso enquanto os outros progridem, rumo ao sucesso q nunca teremos verve para pleitear. Vemos os outros tomando corajosamente posse da vida q gostaríamos de ter, mas q não tivemos coragem suficiente para correr atrás. Os outros recebendo medalhas na Olimpíada q arranjamos alguma desculpa para não ir.
E é neste momento q devemos fazer uma escolha. Se vamos deixar "os caminhos da vida" colocarem cabresto nos nossos sonhos. Se vamos escolher "não escolher", mas "deixar a vida nos levar" e permitir q as circunstâncias nos encaminhem pelas trilhas corriqueiras, fáceis e bem iluminadas, q não nos apresentam desafios, nem conquistas. Ou não.
Foi num desses momentos, em q sentia simplesmente "deixar-me levar" pelos acontecimentos, e vendo o quanto o simplesmente "trabalhar" me deprimia, percebi q eu PRECISAVA fazer "mais alguma coisa", algo q simplesmente me desse "prazer", alegria, "distração", algo q "ocupasse meu tempo" e me trouxesse a sensação de estar contribuindo, construindo alguma coisa. Realização q, sinto, nunca encontrarei em meus alunos...
Eu já tinha um blog, e vendo q ele me trazia essa "satisfação" q eu tanto procurava, perguntei-me pq não criar mais blogs. E assim, me perguntando qual seria o "mote" do meu novo blog, "inventei" um: tirar fotos de flores. Agora eu tinha um bom motivo pra sair de casa: registrar no meu "Inventário de Flores Urbanas" toda a belíssima flora gratuitamente posta diante de meus olhos. E, com isso, meu cotidiano ganhou toda uma nova cor, e minha existência ganhou mais um propósito. Link: http://inventariodefloresurbanas.blogspot.com.br/
Mas ainda me restavam centenas de horas vazias, q eu gastava sem propósito, assistindo inúteis e inúmeros programas de TV. Percebi q havia outro aspecto da minha vida sobre o qual poderia blogar: minhas habilidades artesanais. Desde criança sempre gostei de trabalhos manuais, e fazê-los sempre me trouxe satisfação. Já tinha dezenas de peças únicas, exclusivas, feitas com minhas próprias mãos, e percebi q valia, sim, a pena publicá-las.
E, ao indexar minhas artes prontas, me senti estimulava a fazer mais delas. Aprendi a tecer em tear e comecei a fazer cachecóis. Conforme eles foram se acumulando, percebi q poderia presenteá-los às pessoas de minha estima. Poderia, com minhas mãos, confeccionar coisas bonitas, únicas e exclusivas. E, ao dá-las de presente, não só me sentia útil, como entregava aos outros em forma de arte um pouco de meu carinho por eles. E essa sensação acrescida do "orgulho" de exibir minhas peças na internet, e vê-las elogiadas. Assim nasceu o blog "Tessituras de Penélope" e adicionei "artesã" à minha descrição pessoal. Link: http://tessiturasdepenelope.blogspot.com.br/
Recentemente, vendo outro aspecto em q eu era em algum grau "boa", e sobre o qual tb poderia bloggar, criei 2 blogs "espelho": um em inglês, outro idêntico em português, para divulgar minhas receitas. E assim nasceram os blogs "Easy Foodie" e seu gêmeo "Comidinha Simples". Eles apenas engatinham, ainda vou configurá-los e devidamente divulgá-los quando já tiverem um bom acervo de receitas para oferecer aos leitores. Links:
http://easyfoodie.blogspot.com.br/
http://comidinhasimples.blogspot.com.br/
Agora já tenho 5 blogs nos quais publico regularmente. Fazer isso me traz certa sensação de "eternidade", e de estar de alguma forma contribuindo para a indexação, organização e "upload" do analógico para o digital de coisas úteis, interessantes. Me sinto colaborando com a construção de um novo mundo de ideias, disseminando conhecimento, ajudando a "cultura" com o q tenho a contribuir: minhas reflexões, as lindas fotos da flora q me cerca, divulgar minhas peças de artesanato "oxigenando" a palheta de possibilidades de outros artesãos, dando receitas simples e deliciosas, muitas q eu mesma inventei, propiciando q outros tb possam degustá-las.
Bloggar não só ocupa as muitas horas vagas de minha vida, como adicionou propósitos a ela. Publicar as coisas q faço com prazer e esmero na internet me estimula a fazer artes ainda mais belas, inventar receitas ainda mais gostosas, procurar flores q nunca antes vi, elaborar textos sobre assuntos nunca antes publicados.
Bloggar torna minha vida muito mais rica, interessante e cheia de sentidos. Recomendo a todos ter ao menos 1 blog, um "domínio", seu pequeno "minifúndio virtual" no qual possam se expressar, se eternizar, elaborar seus pensamentos, sua visão de mundo, divulgar seus hobbies, paixões, e a beleza q vê em estar vivo.
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sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
De Mainá
Ao longo da vida, temos nossa trajetória entremeada com a de muitas pessoas, de todos os tipos. Alguns serão apenas "colegas", amigos superficiais, com os quais partilhamos uma simpatia incidental, e com as voltas q o mundo dá, se afastam pelas circunstâncias, e muitas vezes vão embora sem deixar marcas.
Alguns, poucos, se tornam quase irmãos, amigos verdadeiros, pessoas estimadas, cuja afinidade é sincera e cuja ausência nos deixa saudades. E quando encontramos um desses, é bom saber reconhecê-lo e valorizá-lo, pois serão poucas as oportunidades de conhecer pessoas realmente especiais, q valem a pena.
Este texto é sobre uma dessas raras pessoas, q se contam nos dedos de uma só mão, a quem considero uma amiga-irmã.
Mainá era minha colega de faculdade. Entramos juntas no curso de História da FFLCH-USP em 2002. A cada vestibular, entravam 270 pessoas em nosso curso, e para mim ela era apenas "mais uma" colega q eu conhecia "de vista", mas com quem não conversava.
Durante meu primeiro ano de faculdade, tinha poucos amigos, mais estudava do q ia a festas, pois não era de nenhum "grupitcho", e namorava alguém de fora deste ambiente. Ao final do primeiro ano de faculdade, fazíamos o curso de "História do Brasil Colonial II" com o prof. Dr. István Jancsó. Ele nos deu um trabalho de pesquisa com tema livre e concluiu:
- Ano q vem formarei um novo grupo de iniciação científica. Quem estiver interessado em fazer parte, feche com 10 na minha disciplina e depois venha conversar comigo.
Era tudo o q eu queria: uma iniciação científica com um intelectual respeitado na Academia. Me esmerei, só para esse trabalho li uns 5 livros, dei o meu melhor, obedeci todas as normas ABNT, fiz dezenas de notas de rodapé, e minha pequena monografia "Medicina no Brasil Colonial" levou um belo e redondo 10.
Assim q soube da nota, procurei o prof. István. Ele me recebeu em sua sala, deu uma folheada no meu trabalho q já corrigira, e me aceitou. Fiquei simplesmente exultante. Ter um professor doutor q acreditava na minha capacidade era um sonho realizado. E, junto com a oportunidade de estudo, vinha uma bolsa do governo. Ao ser aceita na Iniciação Científica, eu passaria a receber dinheiro das agências de fomento, o q seria uma ajuda muito importante no meu limitadíssimo orçamento de estudante.
No encontro seguinte com István, ele me fez sentir ainda mais importante:
- Fernanda, vc já está dentro do grupo, foi a primeira selecionada. Eu já tenho um pouco de experiência em pesquisas coletivas, e sei como é importante ter um grupo harmonioso, em q todo mundo se dá bem e não fica de picuinha. Estou pensando em incluir mais uma colega da sua sala, então antes de falar com ela queria saber de vc se vcs têm alguma coisa uma contra a outra, alguma rivalidade, se vc acha melhor eu não incluir a Mainá no grupo.
Como dito acima, ela era apenas uma "conhecida de vista", e assim como eu não tinha nada particularmente a seu favor, tb não tinha nada "contra" ela. Então lhe disse q por mim tudo bem, q ele chamasse a Mainá. Satisfeito, István me pediu então para ir procurá-la, ver se ela estava no prédio da História e Geografia, alcunhado "rodoviária".
Fui, e a encontrei sentada numa mesa da biblioteca, ao lado de outras colegas q na época eram "meras conhecidas": Júlia, Marília, Alessandra, Luciana. Me aproximei da mesa delas, elas levantaram a cabeça estranhando o q eu estava fazendo ali, pedi licença, me abaixei ao lado de Mainá e disse:
- Oi, tudo bom? Então, eu estava agora com o István e ele pediu pra eu te procurar pois ele quer falar com vc sobre vc entrar no grupo de iniciação científica.
Todas abriram sorrisos, algumas balançaram os punhos fechados em torcida e falaram: "Vai, Mainá". Ela se levantou e foi comigo à sala do István. Nesse trajeto trocamos nossas primeiras palavras, ela muito feliz e não acreditando q iria ser incluída no grupo de iniciação.
Muito mais q colegas de pesquisa, a partir daí nos tornamos amigas pessoais. Uma importante marca de Mainá é sua simpatia. Não daquelas "estudadas", surgidas da "esperteza social", mas espontânea, q exala de uma pessoa feliz, animada, receptiva, cheia de vida. De bom grado, Mainá me apresentou a todo o seu grupitcho, e me vi incluída no "Barrados no Baile".
Pra quem não sabe do q falo, este foi o nome q o seriado "Beverly Hills 90210" recebeu no Brasil. A gíria se refere a um grupo de amigos no estilo da poesia "Ciranda" de Carlos Drummond de Andrade, um grupo unido no qual várias pessoas estão romanticamente interessadas umas pelas outras. Além disso a maior parte era de pessoas muito "bem nascidas", só um ou outro trabalhava, e muitos tinham carro. Vários membros namoravam e ficavam com outros, todos do mesmo grupinho de colegas de faculdade. De forma bem menos promíscua q eu, como paulistana, imaginava q seria. Muitos eram "do interior", e até virgens, então a "putaria" foi bem menor do q eu até certo ponto esperava, ou ansiava, ou desejava, q tivesse sido.
Um exemplo. Um dos nossos colegas, um "moreno alto" barbudo caiu no meu radar de interesses. Em certa festa da Geologia pedi justamente a Mainá q "nos agitasse", ou seja, lhe comunicasse meu interesse e prospectasse se ele tb tinha algum por mim. Infelizmente, a recíproca não era verdadeira. Alguns meses depois a própria Mainá começou a namorar com ele, sabendo q eu tinha uma "queda" pelo rapaz em questão. Em nenhum momento isso abalou ou foi empecilho pro prosseguimento de nossa amizade. Saíamos os 3, eu Mainá e R, seu namorado por quem eu era "gamadinha", tudo na santa harmonia, sem nenhum tipo de rivalidade ou veneno. Ninguém escondia nada nem ficava "armando coisas" pelas costas de ninguém. Uma verdadeira lição de civilidade. Se Mainá fosse uma pessoa maldosa, com pé atrás, teria "me cortado" do seu círculo de amizades. Se me visse como "uma rival" de olho no seu namorado, capaz de fazer "guerrilha psicológica" e criar disse-me-disse, eu não teria tido nem metade das experiências universitárias pelas quais passei.
Tudo o q meu primeiro ano de faculdade teve de parado e solitário, os anos seguintes tiveram de agitados e cheios de amigos. Com o endosso de Mainá, um membro muito querido por todos, fui aceita e comecei a sair com eles para cervejadas no DCE, quinta-e-brejas na ECA, festas no Centro Acadêmico da Veterinária, idas ao boteco San Raphael, à Casa do Norte e ao Jardim Elétrico. E assim, pelo menos 50 pessoas q eram até então "meros conhecidos" se tornaram meus amigos.
Passei a frequentar tb as festas na casa da galera do Barrados no Baile, muitas de arromba, com gente diferente e interessante, algumas festas estranhas com gente esquisita, e tb infinitas idas a barzinhos em Pinheiros e na Vila Madalena, em inferninhos no Centro Velho e inúmeros outros lugares.
Tb fizemos muitas viagens, pela faculdade, como a ida a Brasília, e aos BIFES (uma espécie de Olimpíada universitária), e tb à casa de amigos à Jaborandi-SP, Poços de Caldas-MG e Cristina-MG, além da viagem de formatura a Pouso do Cajaíba, vila de pescadores na cidade de Parati-RJ. Ao lado de Mainá estive em 4 estados brasileiros, sem contar SP. E em várias dessas viagens ela, generosamente, aceitava dividir quarto comigo, sabendo q dentre todos os membros do nosso grupitcho, era com ela q eu tinha mais proximidade.
Não fosse eu ter ficado amiga de Mainá e dessa forma entrado no seu "grupo de amigos" tenho certeza q eu não teria gozado a maravilhosa e festeira vida universitária da qual lembro com tanta saudade. Se eu não tivesse sido aceita no "Barrados no Baile" a USP teria sido muito sem graça, só estudo, leitura, pesquisa e aulas.
Sendo do grupo, podia frequentar inúmeras festas em Fraternidades e Repúblicas estudantis, como a Casa Rosa e a Casa do Coqueiro, e ampliar radicalmente meu círculo de amizades. Mainá me franqueou acesso a todo um Universo da experiência universitária q, sem sua amizade, eu não teria desfrutado. Lastimo apenas q eu não tenha tido acesso mais cedo a uma máquina fotográfica digital, pois foram muitas as saídas memoráveis de nosso grupo q quedaram sem registro.
Ainda assim, só tendo uma câmera à mão da metade do curso em diante, mesmo tendo selecionado apenas as melhores fotos, tenho no meu perfil do Facebook 8 álbuns, todos com mais de 50 fotos, de minhas lembranças da FFLCH-USP. Registros inestimáveis de uma vida universitária agitada, festiva, cheia de amigos, de sorrisos, de cervejadas, barzinhos, viagens, brincadeiras, sonhos.
A maior parte dos nossos 270 colegas de curso não teve nem um terço de minha experiência universitária. Os "colegas de sala" meramente "conhecidos de vista", como eu era antes de me aproximar de Mainá, não eram convidados para essas saídas a barzinhos, festas em Repúblicas, amigos secretos, comemorações de aniversário, às quais tive oportunidade de comparecer, e q me proporcionaram tantas experiências interessantes, enriquecedoras e saudosas.
Antes q o leitor pense q gosto de Mainá só pq ela me apresentou a seus amigos, isso não contempla nem 20% da verdade. O q mais me fez ter consideração por ela é sua Humanidade. Ela ser "gente de verdade", autêntica, q não faz pose nem "tipo". Mainá, sendo frágil, é muito "firmeza", alguém com quem se pode contar. Alguém a quem se pode sem reservas confiar segredos, q não fica "maldando" as coisas, não tem aquele olhar de esguelha de quem está sempre com pensamentos subjacentes e "segundas intenções", nos julgando.
Mainá é desprovida de uma característica essencial à vida em sociedade, e cuja ausência é até certo ponto louvável: sangue-frio, o q tb poderia ser chamado de "cara de pau" ou auto-domínio. O constatei quando certa vez, no IEB, nosso grupo de Iniciação, completado por André Godinho, Bruno Garfield, Júlia Basso, Maria Inês de Carvalho, e Déia Placitte se reuniu para apresentar ao nosso orientador uma prévia dos resultados de nossa pesquisa, q divulgaríamos no SIICUSP.
Ao iniciar sua exposição, aos poucos sua voz foi ficando baixa e falhando. Nervosíssima, começou a gaguejar, a esmorecer, fraquejar. A certa altura, desesperada e timidamente inibida por estar falando em público, sendo avaliada por nosso respeitadíssimo orientador, se sentou e cabisbaixa disse q não conseguiria prosseguir. No silêncio constrangedor, enquanto os demais se entreolhavam, levantei, me posicionei onde Mainá estivera de pé e, estando familiarizada com sua pesquisa, dei prosseguimento à sua exposição, como se fosse ela, e concluí a apresentação q deixara pela metade. Ela era minha amiga muito estimada e, a vendo em apuros, me sabendo capaz de acudi-la, não tive dúvidas.
Como tive uma criação muito diferente e mais "hard core" q Mainá, sempre protegida pelos muros altos de escolas particulares e cercada de amigas patricinhas, eu sabia q tinha mais "jogo de cintura", era mais "safa" q ela. E da mesma forma q ela me ajudara num campo em q eu era falha, a socialização, de bom grado eu via a oportunidade de, reciprocamente, ajudá-la num campo em q ela era falha: não ter medo de se expor ao escrutínio público.
Sem dúvida, Mainá foi, é, uma das amizades fundamentais na minha vida. Alguém por quem tenho mais carinho do q pelas minhas próprias irmãs de sangue. Mainá é uma irmã q a vida me deu. Para mim sua amizade é fundamental, preciosa, sem prazo de validade, do tipo q nem o tempo nem a distância faz diminuir. Sou profundamente grata por tudo o q ela fez por mim, mesmo sem se dar conta.
Se eu não tivesse me tornado sua amiga, minha graduação em História na USP não teria tido metade da graça, eu teria ido a menos da metade das festas a q fui, e 70% das pessoas q se tornaram meus amigos de curso, eu não teria conhecido com mais profundidade. Mas, mais importante q isso, teria deixado passar "em branco" uma das melhores pessoas, daquelas profundamente humanas e raras q às vezes cruzam nosso caminho, cuja amizade é sincera, de cuja boca saem verdades, q não ficam fazendo pose nem fingindo ser o q não são.
Num texto anterior, disse q há 2 ou 3 pessoas no mundo q podem dizer na minha cara uma verdade crua sem q eu enfie meu indicador em seu nariz, numa violenta reação de auto-preservação. Mainá é uma delas. Um dos 2 ou 3 amigos a quem sei q posso me abrir sem reservas e contar meus mais iníquos segredos, pois por tudo o sobrescrito e muito mais, além de minha amiga, é uma pessoa em quem tenho plena confiança. Para o q der e vier.
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quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
Do primeiro passo na obervacao
Resumo: é essencial aprender a calar a boca e observar os q nos cercam.
Sempre me disseram q eu era uma "pessoa difícil", de "personalidade forte", "desbocada" e me aconselhavam a ser "mais cordata", "mais flexível" e discreta. Até pouco tempo eu achava q proceder assim seria como renegar-me, deixar de ser "eu mesma".
Eu achava q "sinceridade" era qualidade, e quanto mais dela, melhor. A muito custo, percebi q é defeito, e muitas vezes crime capital. Percebi q "ser sincera", falar as coisas q pensava, era uma atitude antissocial. Q, ao invés de me valorizarem por falar a verdade, as pessoas pensavam mal de mim por ser "dura", "chata" e "desagradável".
Mesmo os meus melhores amigos não estavam interessados em ir ao fundo ou debater eticamente as questões q apareciam em nossas conversas. Apenas e tão-somente queriam q eu "os aceitasse", balançasse a cabeça, fizesse inúmeros "ahã", lhes desse atenção e lhes servisse de palco, de coadjuvante, aprovando e elogiando tudo q fizessem. Percebi q nas "relações sociais", muito mais valiosa q a verdade é o teatro das aparências.
Aos poucos, percebendo q numa conversa meus amigos não procuravam um interlocutor, um debatedor, mas uma platéia, comecei a colocar em prática o apenas ouvir. E nisso, ao invés de ficar elaborando qual seria minha frase seguinte, já sabendo q seu destinatário não estava interessado nela, passei a perceber melhor o q as pessoas falavam, pq o falavam, e os motivos q as levavam a assim proceder.
Muitas vezes achamos q as coisas q os outros nos dizem ou fazem têm a ver conosco, pois seguramente nosso umbigo é o centro em torno do qual o Universo gira. Ao deixarmos para trás essa postura reativa e adquirirmos uma postura contemplativa, perceberemos q para os outros somos apenas fantoches, formigas, e nada representamos.
Vou exemplificar como isso ficou claro para mim. Ao comprar um iPad imediatamente percebi q isso fazia os outros "virarem o nariz" para mim. Isso ficou muito palpável quando um dos meus colegas, q eu tinha certeza q me odiava, pois nunca respondia aos meus "bom dia", de repente apareceu com seu próprio iPad. E, como mágica, toda aquela antipatia acabou. Com seu iPad na mão, agora respondia aos meus "bom dia".
Ficou transparente: esse colega não "me odiava". Pra ele eu era "uma formiguinha", e uma formiguinha q possuía algo q ele gostaria de ter, mas não tinha. Ele não odiava a mim, odiava ao meu iPad. Não odiava meu iPad, amava meu iPad, mas invejava e EU tinha um iPad, e ele não. Quando ele comprou um iPad, o motivo q tinha para ser antipático cessou de existir. Ele passou a não me ver mais como "superior", mas como "igual". E mudou de atitude comigo, sem q minha atitude mudasse para com ele.
Percebi q esse colega não tinha nada contra mim. O problema era dele. Uma vez q ele resolveu o problema dele, parou de projetar seu problema em mim e pudemos "nos harmonizar".
Pensando muito sobre isso, parei um pouco de ter tanto medo, um instinto tão exacerbado de auto-preservação. Por exemplo, antes ao entrar numa sala onde andava animada uma conversa coletiva, o pensamento imediato era esquadrar se havia alguma possibilidade de o assunto ser "eu".
Hj percebi q a única pessoa interessada comigo sou eu mesma, portanto jamais o assunto das pessoas será "eu", o assunto das pessoas sempre é "elas próprias". 90% do q as pessoas falam é a respeito de si, suas opiniões, impressões, emoções. Para elas, eu sou uma formiguinha. E, ao menos q as pique, nem perceberão minha existência.
Parando de "picar" ou "alfinetar" as pessoas, aprendendo a guardar "minhas opiniões" para mim mesma, comecei a conseguir vislumbrar nas outras pessoas traços psicológicos e posturas parecidas com as q criticavam em mim.
Percebi q os outros tinham os mesmos defeitos q eu, e se eu identificava quando eles eram "desbocados", "difíceis" e "sincericidas", e via o quanto essas atitudes eram contra-producentes, isso me servia de lição para "domar" minha própria língua, disciplinar meus comichões, e agir melhor q eles: controlando-me.
Há um sábio ditado q professa: "da palavra dita és escravo, da não-dita, és senhor". Ou seja, uma vez q vc falou algo, isso ganha vida própria, e vc terá talvez q se explicar mil vezes desculpando-se por uma única frase mal-colocada. Já seus pensamentos são livres. Portanto, pense mil vezes antes de falar algo q pensou.
E, se vc quer um conselho: numa conversa, mesmo com um amigo, não fale o q vc pensa. Na verdade, não fale nada. Seu amigo provavelmente não está interessado no q vc tem a dizer. De vc ele apenas espera um palco, ahãs, e q vc arremate com um "que legal".
O q chamamos de "conversas" atenderiam melhor pelo nome de "monólogos paralelos compartilhados", cada um preocupado só em falar, se mostrar, tentar "iluminar aos outros" com seus sábios pontos de vista, opiniões, melhores conselhos possíveis e exibir suas altas capacidades (afinal, todo mundo se acha o supra-sumo da inteligência, da moderação, da esperteza, da sinceridade, do bom senso...),
É claro q cada um tem certeza de q a própria forma de fazer as coisas é a melhor de todas, se achasse ruim, faria de outra forma. Então, como cada um quer "ajudar" aos outros, ficará muito satisfeito enquanto estiver falando e sendo ouvido com atenção, desfiando cada pormenor das coisas maravilhosas, opiniões elaboradíssimas e informações muito relevantes q, num gesto de generosidade, compartilham com sua platéia.
Faça o teste. Na próxima vez q for conversar com quem quer q seja, ao invés de enquanto ouve já ficar elaborando sua réplica, desista da réplica. Apenas ouça, observe e vocalize alguns ahãs. Claro q algumas perguntas, sempre sobre o assunto, ajudam a demonstrar q vc está mesmo interessado, então intercale ahãs com uns "sério?!" e outros "continua, e então, o q aconteceu?". Arremate com uma frase dizendo o quanto tudo foi maravilhoso. Ao se fazer de palco para a pessoa, ela sairá muito satisfeita, jurando q esse foi o melhor encontro q vcs já tiveram. E, se o assunto for o preferido de cada um, o seu próprio eu, aí é possível q seu amigo até te abrace emocionado no fim da conversa, e seus ahãs te conquistem um amigo muito mais "próximo".
Para ele, vc é apenas uma formiga. Lhe será útil enquanto vc se conformar com a posição de coadjuvante na história em q ele tem certeza de ser protagonista. Não experimente revirar os papéis, pois ao "ser sincero" vc se tornará o antagonista a ser combatido e execrado.
Numa "conversa social" não há nada q vc falando, possa "ajudar" aos outros. Já na mesma situação, há muito q vc calando e observando, pode aprender com os outros.
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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
Legiao Urbana - Tempo Perdido
Todos os dias quando acordo
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo...
Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder...
Nosso suor sagrado
É bem mais belo
Que esse sangue amargo
E tão sério
E Selvagem! Selvagem!
Selvagem!...
Veja o sol
Dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega
É da cor dos teus olhos
Castanhos...
Então me abraça forte
E diz mais uma vez
Que já estamos
Distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo...
Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes
Acesas agora
O que foi escondido
É o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens...
Tão Jovens! Tão Jovens!...
.
Não tenho mais
O tempo que passou
Mas tenho muito tempo
Temos todo o tempo do mundo...
Todos os dias
Antes de dormir
Lembro e esqueço
Como foi o dia
Sempre em frente
Não temos tempo a perder...
Nosso suor sagrado
É bem mais belo
Que esse sangue amargo
E tão sério
E Selvagem! Selvagem!
Selvagem!...
Veja o sol
Dessa manhã tão cinza
A tempestade que chega
É da cor dos teus olhos
Castanhos...
Então me abraça forte
E diz mais uma vez
Que já estamos
Distantes de tudo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo
Temos nosso próprio tempo...
Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes
Acesas agora
O que foi escondido
É o que se escondeu
E o que foi prometido
Ninguém prometeu
Nem foi tempo perdido
Somos tão jovens...
Tão Jovens! Tão Jovens!...
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quinta-feira, 17 de janeiro de 2013
Legiao Urbana - Metal contra as nuvens
Letra: Renato Russo
Não sou escravo de ninguém
Ninguém é senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz
Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleais
Eu sou metal
Raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal
Eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal
Quem sabe o sopro do dragão
Reconheço meu pesar
Quando tudo é traição
O que venho encontrar
É a virtude em outras mãos
Minha terra é a terra que é minha
E sempre será
Minha terra
Tem a Lua, tem estrelas
E sempre terá
Quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa
Quase acreditei, quase acreditei
E, por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo
Mas vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo
Olha o sopro do dragão (4x)
É a verdade o que assombra
O descaso que condena
A estupidez o que destrói
Eu vejo tudo que se foi
E o que não existe mais
Tenho os sentidos já dormentes
O corpo quer, a alma entende
Esta é a terra-de-ninguém
Sei que devo resistir
Eu quero a espada em minhas mãos
Eu sou metal - raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal: eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal: me sabe o sopro do dragão
Não me entrego sem lutar
Tenho ainda coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então
Tudo passa
Tudo passará (3x)
E nossa história
Não estará
Pelo avesso assim
Sem final feliz
Teremos coisas bonitas pra contar
E até lá
Vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos
O mundo começa agora, ahh!
Apenas começamos
.
Não sou escravo de ninguém
Ninguém é senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz
Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleais
Eu sou metal
Raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal
Eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal
Quem sabe o sopro do dragão
Reconheço meu pesar
Quando tudo é traição
O que venho encontrar
É a virtude em outras mãos
Minha terra é a terra que é minha
E sempre será
Minha terra
Tem a Lua, tem estrelas
E sempre terá
Quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa
Quase acreditei, quase acreditei
E, por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo
Mas vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo
Olha o sopro do dragão (4x)
É a verdade o que assombra
O descaso que condena
A estupidez o que destrói
Eu vejo tudo que se foi
E o que não existe mais
Tenho os sentidos já dormentes
O corpo quer, a alma entende
Esta é a terra-de-ninguém
Sei que devo resistir
Eu quero a espada em minhas mãos
Eu sou metal - raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal: eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal: me sabe o sopro do dragão
Não me entrego sem lutar
Tenho ainda coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então
Tudo passa
Tudo passará (3x)
E nossa história
Não estará
Pelo avesso assim
Sem final feliz
Teremos coisas bonitas pra contar
E até lá
Vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos
O mundo começa agora, ahh!
Apenas começamos
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terça-feira, 15 de janeiro de 2013
Do afogamento
Morrer afogado é um medo ancestral, bem cimentado em nossos arquétipos mentais. Uma daquelas fobias comuns, ao lado da aracnofobia (medo de aranhas), agorafobia (medo da multidão), acrofobia (medo de altura), aicmofobia (medo de injeção), nictofobia (medo do escuro), catsadidafobia (medo de baratas), musofobia (medo de ratos).
O medo de morrer afogado, ou de submergir-se em água, chama-se hidrofobia. Além de designar um transtorno psiquiátrico (medo de água) este nome tb se aplica a uma doença transmitida por vírus, popularmente denominada "raiva", cf: http://pt.wikipedia.org/wiki/Raiva_(doença) . Por sua incidência entre mamíferos silvestres e de estimação, todos os anos o governo brasileiro disponibiliza a vacina anti-rábica aos nossos pets.
A primeira vez q experimentei a sensação de afogamento, contava uns 6 ou 7 anos, numa piscina de hotel, creio q no Guarujá. Lembro q, muito confiante, já sabia mergulhar, e a piscina tinha um fundo em declive. Já tendo explorado toda a parte q me dava pé sem nenhum revés, comecei a fazer minhas gracinhas, me aventurando no fundo até q numa dessas o fôlego faltou, o pé não encontrou o chão, a boca não encontrou ar, comecei a engolir água, me debater como uma lagartixa. Batendo as mãozinhas na superfície, pra meu grande alívio, alguém, creio q Regina, percebeu minha aflição e me puxou pra cima. Cuspindo água, me agarrei no deck e me dei conta q ainda era criança, indefesa, apesar de me sentir muito adulta. O tomei como lição e não restou disso nenhum temor de fazer futuros mergulhos.
Aprendi a boiar com uns 10 ou 11 anos, na praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Meu único tio, Renê, acabara de se casar com uma bela paranaense, minha tia Marilurdes, e para q todos se familiarizassem, fomos visitar os recém-casados em seu apartamento em Jacarepaguá: eu, Cristhiane, Patrícia, e meus avós Tula e Morzinho. Lembro q quando chegamos de carro ao Rio era aniversário de Cristhiane, 28 de dezembro, e justo nesta data o covarde Guilherme de Pádua assassinara Daniella Peres, filha da novelista Glória Peres.
Numa ida à praia da Barra, vi minha irmã do meio, Patrícia, magicamente suspensa na superfície da água. Perguntei-lhe como era capaz de fazer isso. Cheia de marra, me deu uma de suas comuns desancadas e me disse q estava boiando, e q para fazer isso não precisava saber nenhuma técnica ninja, bastava "relaxar o corpo e não ter medo, q o corpo bóia sozinho, pois 'bosta não afunda'." (palavras dela).
Tentei imitá-la 1, 2, 3 vezes, sem sucesso. Eu afundava. Tentava deitar na água, mas ao estirar os braços, sempre ia pra baixo, e lutava para voltar à tona. Virei pra Patrícia e disse: "eu não devo ser feita de bosta, pq eu afundo!". Ela riu e disse q todos somos feitos da mesma coisa, q o "macete" era "não ter medo de se afogar, não lutar contra a água".
Com dezenas de tentativas, aos poucos fui compreendendo o q ela queria dizer. Q eu não devia encarar a água como uma inimiga contra a qual lutar, mas como uma parceira da qual me aproveitar, ou uma companheira a saber controlar. Sim, a água era potencialmente fatal, se eu não soubesse corretamente me comportar nela. Mas podia ser fonte de diversão, relaxamento, se eu soubesse compreendê-la e decodificasse a "etiqueta" do bom nadador. Se antes eu a achava ameaçadora, quando a conheci e comecei a desvendar seus segredos, passei a amá-la. Me tornei ótima nadadora, e capaz de boiar tanto no mar como na piscina.
Muitos anos depois, assistindo a um programa da TV de "sobrevivência na selva" acompanhei o tutorial de Bear Grylls sobre o q fazer em situações de afogamento. Minhas sobrancelhas pularam quando ele, taciturno, decretou: (algo assim, estou transliterando de memória)
- O q mata as pessoas afogadas não é a água, mas o desespero. Quando se sente afogar, instintivamente a pessoa começa a se debater descontroladamente, o q só a faz afundar mais. Se vc se sentir afogando-se, o melhor é ficar calmo, não fazer nenhum movimento. O ar q ainda estiver nos seus pulmões te levará à superfície, e te fará boiar. Se vc vir outra pessoa se afogando, nunca vá pessoalmente salvá-la. A pessoa desesperada vai se agarrar em vc e continuar se debatendo até q os dois morram afogados. O melhor é jogar pra pessoa algum objeto q bóie na qual ela possa se agarrar: uma bóia, um pedaço de isopor, um galho de árvore.
Foi muito interessante meditar sobre este enunciado e verificar sua veracidade. Comuns são as tragédias em q um membro da família começa a se afogar, pula um parente e o resultado é um velório duplo.
É necessário compreender os perigos q nos cercam e não temê-los, mas respeitando-os, saber manipulá-los para q se tornem nossos aliados. Da mesma forma q a diferença entre o remédio e o veneno é a dose, a diferença entre a piscina q nos dá prazer e a água q nos traz o luto é apenas o auto-controle.
De forma análoga, a diferença entre a sociedade q nos aliena, atordoa, escraviza, deprime, limita, e o horizonte de possibilidades q nos estimula, desafia, realiza e enriquece é a forma como o encaramos. E nossa postura perante suas marés.
Há uma breve, mas significativa, cena no filme Amistad (1997, dirigido por Steven Spielberg) no qual o deus de ébano Djimon Hounsou, ao ser capturado pelos yankees, se lança ao mar, e tal qual Ícaro, começa a nadar em direção ao sol nascente, onde ele sabia estar a África, seu lar. É impossível atravessar o Oceano Atlântico a nado, e depois de poucas braçadas o ânimo lhe falta, ele afunda e num átimo deve tomar a decisão de sua vida: desistir perante a derrota momentânea de ter sido recapturado, prosseguir no intento q ele sabia inconquistável, além da força de seus braços, não baixar a crista, não aceitar ser reduzido à catividade mais uma vez; ou engolir o orgulho, parar de lutar, compreender q era necessário POSTERGAR a realização do sonho q, imediatamente, era impossível, e voltar ao barco onde grilhões o aguardavam.
Se vendo diante da escolha de perseverar, e morrer, ou capitular, e viver, Cinque escolheu a vida. Entre morrer "como um homem" ou sobreviver "como um rato", fez a única escolha possível: viver. Vendo-se derrotado por forças além das suas, escolheu racionalmente engolir sua vontade de partir como homem livre e submeter-se, ao menos imediatamente, às forças inimigas maiores q as suas. E posteriormente soube, ao conhecê-las, manipulá-las a seu favor. A mesma marinha americana q o capturou após a rebelião escrava no navio negreiro Amistad, foi a levá-lo de volta à África, depois dele inocentado na Suprema Corte americana.
Há 2 famosos ditos populares brasileiros q rezam: "não adianta dar murro em ponta de faca" e "não adianta chorar sobre o leite derramado". Essa sabedoria ancestral nos ensina justamente: se a situação está contra nós, se debater não ajudará em nada; e se a coisa está horrível, não tem volta e tudo deu errado, ficar se lamentando só vai fazer tudo piorar. Num nível superior, nos instruem: não importa o q acontece com vc, o q importa é como vc reage, qual é a sua atitude perante as situações ruins. E muitas vezes o melhor é não ter "atitude".
Acredito q até muito recentemente eu me debatia desesperadamente, e me afogava, no fluxo dos acontecimentos. Não compreendia a mecânica dos fatos, via as novidades, transformações e o passar dos anos me atingindo com medo, até das ondas calmas, da maré baixa. Encarava qquer maré alta como uma atemorizante ressaca, e os revezes como pequenos tsunamis pessoais, q me deixavam com fobia de voltar à praia da vida, mesmo na beira da arrebentação. Não queria mais fazer castelos de areia nem molhar os pés nas ondinhas.
Acho q estou começando a perceber q, da mesma forma q diante de uma onda alta, se soubermos ter sangue frio pra esperar o momento correto, nem vamos sentir sua marola e, mergulhando por baixo dela, podemos sobreviver incólumes, devemos ter postura parecida diante do fluxo dos acontecimentos.
Se no horizonte se forma um espectro q parece q vai nos derrubar, é melhor não se precipitar, não enfrentar a força descomunal de frente. Devemos nos posicionar de viés, manter o olhar fixo na ameaça, aguardar q a onda comece a vir em nossa direção e, só então, /tchibum/, mergulhar nos desviando do perigo. A onda continua seu caminho e nós, usando nossa inteligência, fomos obrigados a fazer uma capitulação temporária, mas vencemos no final.
Quando entramos num mar q não nos dá pé, não servirá de nada nos debater, pensando "eu não acredito q isso tá acontecendo, eu não mereço isso, sou inocente, sou uma boa pessoa, isso é injusto, q q eu fiz pra merecer isso? etcs, etcs, etcs..." Em suma, ter uma "atitude", mesmo de defesa duma honra merecida, diante dum revés, nada mais é q BURRICE. É preciso ter "jogo de cintura" e ser capaz de ter estômago para "dançar conforme a música" e sobreviver, ao menos imediatamente, quando a situação está manifestamente contra nós.
Não podemos ser simplistas, inocentes, de peito aberto, sem reservas, duelando quixotescamente contra o mundo inteiro. Devemos ser capazes de apreender nossa própria pequenez, como muitas vezes somos coadjuvantes elencados nas farsas alheias, e q muitas vezes é preciso fingir q nos conformamos com nosso papel secundário.
É preciso ao menos 3 décadas de experiência em natação no fluxo da realidade para começar a saber boiar no marasmo confortável do cotidiano pequeno-burguês, e então ganhar confiança para se lançar na arrebentação da infindas possibilidades q podemos lutar para conquistar, sabendo do risco de morrer na praia.
Até pouco tempo atrás, eu me debatia desesperadamente contra tudo q me acontecia e contra todos q conhecia. Tinha muito medo de soltar do deck seguro das minhas lembranças e projetos passados. Acho q já compreendi q devo perder o medo, relaxar meus músculos, reaprender a boiar na maré calma e reaprender a nadar no mar agitado. Acho q decidi "mudar de estratégia". Acho q percebi o valor, ou a necessidade social, de "fazer cara de paisagem", "se fazer de sonsa" e do "me engana q eu gosto".
A partir de hj vou passar a observar melhor o fluxo das marés. Um pouco mais cinicamente, vou aprender a calar meu orgulho e capitular, não pq eu queira, não pq vacile minha convicção, não pq não tenha gana para lutar até o fim de minhas forças, mas pq compreendi q é MAIS INTELIGENTE saber manejar as ondas a meu favor, e q enfrentar as adversidades muitas vezes é suicídio puro e simples.
Muitas vezes, melhor q enfrentar diretamente alguém, é "dar corda" para q a própria pessoa se enforque. Antes eu achava q, ao ver algo errado, eu devia ser "intransigente", era minha obrigação "exortar" cada um. Achava q ao alertar alguém sobre um erro a pessoa o veria e quiçá me agradeceria pela ajuda, pelo alerta. Ledo, crasso, engano. Percebi q, tentando ajudar, em troca ganhava um adversário ofendido, um ex-amigo ultrajado. Já calejada, hj percebo q da mesma forma q eu sou "cheia de boas intenções", todas as outras pessoas tb o são, cheias de SUAS PRÓPRIAS boas intenções, do seu próprio metro do q é "bom senso". E q ao tentar "ajudar" as pessoas eu apenas estava-lhes impingindo o meu conceito de retidão, q elas não queriam aceitar. Portanto, a partir de hj, quando ver alguém cavando a própria sepultura, tentarei a muito custo permanecer calada, por saber a priori q, se eu falar algo isso não ajudará a outra pessoa em nada, apenas me fará ganhar uma antipatia.
É sem orgulho q percebo q não será "o mundo" a se curvar para aprazer a forma q eu acho q as coisas deveriam acontecer. Sou eu q devo ter sangue-frio para saber capitular quando tudo está contra mim, e saber vir a tona, apresentando a atitude correta de lutar ou relaxar quando a calmaria vier.
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O medo de morrer afogado, ou de submergir-se em água, chama-se hidrofobia. Além de designar um transtorno psiquiátrico (medo de água) este nome tb se aplica a uma doença transmitida por vírus, popularmente denominada "raiva", cf: http://pt.wikipedia.org/wiki/Raiva_(doença) . Por sua incidência entre mamíferos silvestres e de estimação, todos os anos o governo brasileiro disponibiliza a vacina anti-rábica aos nossos pets.
A primeira vez q experimentei a sensação de afogamento, contava uns 6 ou 7 anos, numa piscina de hotel, creio q no Guarujá. Lembro q, muito confiante, já sabia mergulhar, e a piscina tinha um fundo em declive. Já tendo explorado toda a parte q me dava pé sem nenhum revés, comecei a fazer minhas gracinhas, me aventurando no fundo até q numa dessas o fôlego faltou, o pé não encontrou o chão, a boca não encontrou ar, comecei a engolir água, me debater como uma lagartixa. Batendo as mãozinhas na superfície, pra meu grande alívio, alguém, creio q Regina, percebeu minha aflição e me puxou pra cima. Cuspindo água, me agarrei no deck e me dei conta q ainda era criança, indefesa, apesar de me sentir muito adulta. O tomei como lição e não restou disso nenhum temor de fazer futuros mergulhos.
Aprendi a boiar com uns 10 ou 11 anos, na praia da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Meu único tio, Renê, acabara de se casar com uma bela paranaense, minha tia Marilurdes, e para q todos se familiarizassem, fomos visitar os recém-casados em seu apartamento em Jacarepaguá: eu, Cristhiane, Patrícia, e meus avós Tula e Morzinho. Lembro q quando chegamos de carro ao Rio era aniversário de Cristhiane, 28 de dezembro, e justo nesta data o covarde Guilherme de Pádua assassinara Daniella Peres, filha da novelista Glória Peres.
Numa ida à praia da Barra, vi minha irmã do meio, Patrícia, magicamente suspensa na superfície da água. Perguntei-lhe como era capaz de fazer isso. Cheia de marra, me deu uma de suas comuns desancadas e me disse q estava boiando, e q para fazer isso não precisava saber nenhuma técnica ninja, bastava "relaxar o corpo e não ter medo, q o corpo bóia sozinho, pois 'bosta não afunda'." (palavras dela).
Tentei imitá-la 1, 2, 3 vezes, sem sucesso. Eu afundava. Tentava deitar na água, mas ao estirar os braços, sempre ia pra baixo, e lutava para voltar à tona. Virei pra Patrícia e disse: "eu não devo ser feita de bosta, pq eu afundo!". Ela riu e disse q todos somos feitos da mesma coisa, q o "macete" era "não ter medo de se afogar, não lutar contra a água".
Com dezenas de tentativas, aos poucos fui compreendendo o q ela queria dizer. Q eu não devia encarar a água como uma inimiga contra a qual lutar, mas como uma parceira da qual me aproveitar, ou uma companheira a saber controlar. Sim, a água era potencialmente fatal, se eu não soubesse corretamente me comportar nela. Mas podia ser fonte de diversão, relaxamento, se eu soubesse compreendê-la e decodificasse a "etiqueta" do bom nadador. Se antes eu a achava ameaçadora, quando a conheci e comecei a desvendar seus segredos, passei a amá-la. Me tornei ótima nadadora, e capaz de boiar tanto no mar como na piscina.
Muitos anos depois, assistindo a um programa da TV de "sobrevivência na selva" acompanhei o tutorial de Bear Grylls sobre o q fazer em situações de afogamento. Minhas sobrancelhas pularam quando ele, taciturno, decretou: (algo assim, estou transliterando de memória)
- O q mata as pessoas afogadas não é a água, mas o desespero. Quando se sente afogar, instintivamente a pessoa começa a se debater descontroladamente, o q só a faz afundar mais. Se vc se sentir afogando-se, o melhor é ficar calmo, não fazer nenhum movimento. O ar q ainda estiver nos seus pulmões te levará à superfície, e te fará boiar. Se vc vir outra pessoa se afogando, nunca vá pessoalmente salvá-la. A pessoa desesperada vai se agarrar em vc e continuar se debatendo até q os dois morram afogados. O melhor é jogar pra pessoa algum objeto q bóie na qual ela possa se agarrar: uma bóia, um pedaço de isopor, um galho de árvore.
Foi muito interessante meditar sobre este enunciado e verificar sua veracidade. Comuns são as tragédias em q um membro da família começa a se afogar, pula um parente e o resultado é um velório duplo.
É necessário compreender os perigos q nos cercam e não temê-los, mas respeitando-os, saber manipulá-los para q se tornem nossos aliados. Da mesma forma q a diferença entre o remédio e o veneno é a dose, a diferença entre a piscina q nos dá prazer e a água q nos traz o luto é apenas o auto-controle.
De forma análoga, a diferença entre a sociedade q nos aliena, atordoa, escraviza, deprime, limita, e o horizonte de possibilidades q nos estimula, desafia, realiza e enriquece é a forma como o encaramos. E nossa postura perante suas marés.
Há uma breve, mas significativa, cena no filme Amistad (1997, dirigido por Steven Spielberg) no qual o deus de ébano Djimon Hounsou, ao ser capturado pelos yankees, se lança ao mar, e tal qual Ícaro, começa a nadar em direção ao sol nascente, onde ele sabia estar a África, seu lar. É impossível atravessar o Oceano Atlântico a nado, e depois de poucas braçadas o ânimo lhe falta, ele afunda e num átimo deve tomar a decisão de sua vida: desistir perante a derrota momentânea de ter sido recapturado, prosseguir no intento q ele sabia inconquistável, além da força de seus braços, não baixar a crista, não aceitar ser reduzido à catividade mais uma vez; ou engolir o orgulho, parar de lutar, compreender q era necessário POSTERGAR a realização do sonho q, imediatamente, era impossível, e voltar ao barco onde grilhões o aguardavam.
Se vendo diante da escolha de perseverar, e morrer, ou capitular, e viver, Cinque escolheu a vida. Entre morrer "como um homem" ou sobreviver "como um rato", fez a única escolha possível: viver. Vendo-se derrotado por forças além das suas, escolheu racionalmente engolir sua vontade de partir como homem livre e submeter-se, ao menos imediatamente, às forças inimigas maiores q as suas. E posteriormente soube, ao conhecê-las, manipulá-las a seu favor. A mesma marinha americana q o capturou após a rebelião escrava no navio negreiro Amistad, foi a levá-lo de volta à África, depois dele inocentado na Suprema Corte americana.
Há 2 famosos ditos populares brasileiros q rezam: "não adianta dar murro em ponta de faca" e "não adianta chorar sobre o leite derramado". Essa sabedoria ancestral nos ensina justamente: se a situação está contra nós, se debater não ajudará em nada; e se a coisa está horrível, não tem volta e tudo deu errado, ficar se lamentando só vai fazer tudo piorar. Num nível superior, nos instruem: não importa o q acontece com vc, o q importa é como vc reage, qual é a sua atitude perante as situações ruins. E muitas vezes o melhor é não ter "atitude".
Acredito q até muito recentemente eu me debatia desesperadamente, e me afogava, no fluxo dos acontecimentos. Não compreendia a mecânica dos fatos, via as novidades, transformações e o passar dos anos me atingindo com medo, até das ondas calmas, da maré baixa. Encarava qquer maré alta como uma atemorizante ressaca, e os revezes como pequenos tsunamis pessoais, q me deixavam com fobia de voltar à praia da vida, mesmo na beira da arrebentação. Não queria mais fazer castelos de areia nem molhar os pés nas ondinhas.
Acho q estou começando a perceber q, da mesma forma q diante de uma onda alta, se soubermos ter sangue frio pra esperar o momento correto, nem vamos sentir sua marola e, mergulhando por baixo dela, podemos sobreviver incólumes, devemos ter postura parecida diante do fluxo dos acontecimentos.
Se no horizonte se forma um espectro q parece q vai nos derrubar, é melhor não se precipitar, não enfrentar a força descomunal de frente. Devemos nos posicionar de viés, manter o olhar fixo na ameaça, aguardar q a onda comece a vir em nossa direção e, só então, /tchibum/, mergulhar nos desviando do perigo. A onda continua seu caminho e nós, usando nossa inteligência, fomos obrigados a fazer uma capitulação temporária, mas vencemos no final.
Quando entramos num mar q não nos dá pé, não servirá de nada nos debater, pensando "eu não acredito q isso tá acontecendo, eu não mereço isso, sou inocente, sou uma boa pessoa, isso é injusto, q q eu fiz pra merecer isso? etcs, etcs, etcs..." Em suma, ter uma "atitude", mesmo de defesa duma honra merecida, diante dum revés, nada mais é q BURRICE. É preciso ter "jogo de cintura" e ser capaz de ter estômago para "dançar conforme a música" e sobreviver, ao menos imediatamente, quando a situação está manifestamente contra nós.
Não podemos ser simplistas, inocentes, de peito aberto, sem reservas, duelando quixotescamente contra o mundo inteiro. Devemos ser capazes de apreender nossa própria pequenez, como muitas vezes somos coadjuvantes elencados nas farsas alheias, e q muitas vezes é preciso fingir q nos conformamos com nosso papel secundário.
É preciso ao menos 3 décadas de experiência em natação no fluxo da realidade para começar a saber boiar no marasmo confortável do cotidiano pequeno-burguês, e então ganhar confiança para se lançar na arrebentação da infindas possibilidades q podemos lutar para conquistar, sabendo do risco de morrer na praia.
Até pouco tempo atrás, eu me debatia desesperadamente contra tudo q me acontecia e contra todos q conhecia. Tinha muito medo de soltar do deck seguro das minhas lembranças e projetos passados. Acho q já compreendi q devo perder o medo, relaxar meus músculos, reaprender a boiar na maré calma e reaprender a nadar no mar agitado. Acho q decidi "mudar de estratégia". Acho q percebi o valor, ou a necessidade social, de "fazer cara de paisagem", "se fazer de sonsa" e do "me engana q eu gosto".
A partir de hj vou passar a observar melhor o fluxo das marés. Um pouco mais cinicamente, vou aprender a calar meu orgulho e capitular, não pq eu queira, não pq vacile minha convicção, não pq não tenha gana para lutar até o fim de minhas forças, mas pq compreendi q é MAIS INTELIGENTE saber manejar as ondas a meu favor, e q enfrentar as adversidades muitas vezes é suicídio puro e simples.
Muitas vezes, melhor q enfrentar diretamente alguém, é "dar corda" para q a própria pessoa se enforque. Antes eu achava q, ao ver algo errado, eu devia ser "intransigente", era minha obrigação "exortar" cada um. Achava q ao alertar alguém sobre um erro a pessoa o veria e quiçá me agradeceria pela ajuda, pelo alerta. Ledo, crasso, engano. Percebi q, tentando ajudar, em troca ganhava um adversário ofendido, um ex-amigo ultrajado. Já calejada, hj percebo q da mesma forma q eu sou "cheia de boas intenções", todas as outras pessoas tb o são, cheias de SUAS PRÓPRIAS boas intenções, do seu próprio metro do q é "bom senso". E q ao tentar "ajudar" as pessoas eu apenas estava-lhes impingindo o meu conceito de retidão, q elas não queriam aceitar. Portanto, a partir de hj, quando ver alguém cavando a própria sepultura, tentarei a muito custo permanecer calada, por saber a priori q, se eu falar algo isso não ajudará a outra pessoa em nada, apenas me fará ganhar uma antipatia.
É sem orgulho q percebo q não será "o mundo" a se curvar para aprazer a forma q eu acho q as coisas deveriam acontecer. Sou eu q devo ter sangue-frio para saber capitular quando tudo está contra mim, e saber vir a tona, apresentando a atitude correta de lutar ou relaxar quando a calmaria vier.
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