quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Balanco de Yom Kipur 5773

A passagem do ano velho para o Ano Novo sempre é um tempo de reflexão sobre o passado e o futuro. No Ocidente celebra-se o Reveillon de acordo com o calendário Gregoriano, e muito dessa reflexão se perde entre preparações para a ceia, escolha de roupas, socialização com os amigos, bebedeiras e contagem regressiva.

Nunca senti q eu me encaixasse neste tipo de celebração. Desde muito jovem via com aversão coisas típicas desta época, como escolher a roupa de baixo de acordo com as energias "q se quer atrair", vestir-se de branco, guardar sementes de uva ou romã na carteira, pular 7ondas, jogar flores ao mar. É assim q, no Brazil, se comemora a passagem de ano na noite de 31 de dezembro.

Não sou judia, mas noachide. Os filhos de Noé, ou bnei Noach, são gentios q acatam a revelação do Sinai, são tementes a D'us, almejam um dia ser considerados "justos entre as nações".

Nesta busca religiosa, muitas são as dúvidas, os titubeios, hesitações, idas e vindas. E neste ano passado de 5772 grande foi o conhecimento q adquiri. Neste dia do Perdão (Yom Kipur) venho me debruçar sobre os avanços e melhoras e tive nestes últimos 12 meses.

Cresci, amadureci, melhorei, me fortaleci.

Nesta altura dos meses no ano passado eu tinha mais dúvidas e seguramente estava mais perdida do q hoje. Nunca devemos desdenhar, fazer pouco do presente da vida. Da oportunidade de viver um novo dia e nele aprender uma coisa nova.

Ano passado eu não tinha "emprego fixo". Neste novo ano me efetivei, concursada, como funcionária pública, como professora da rede estadual de SP. Muitos verão nisso pouca coisa. Mas para quem não tem "papai e mamãe" q o sustente, não é "de família rica", não tem "patrimônio" nem mesmo casa própria, ter um emprego efetivo é uma bênção. É a certeza q, ainda q eu ganhe pouco, não passarei fome, não me verei obrigada a morar "debaixo da ponte", nem terei q me degradar ou humilhar para ter o pão de cada dia. Portanto, agradeço a HaShem a bênção de ter dado tudo certo no curso de formação de professores, q eu tenha conseguido entregar todos os documentos em tempo hábil, e todas as burocracias e papeladas tenham dado certo.

Até o fim de 2011 eu era "categoria F" na rede estadual. A cada ano caía numa escola diferente, e muitas vezes ruim. Quando fui fazer a escolha de em qual escola me efetivaria, temi pois escolhi uma escola q não conhecia, não tinha a menor ideia de como seria. Tive uma boa surpresa ao optar pela E.E. Prof. José Cardoso. Primeiro pq tive a oportunidade de poder escolher uma escola na cidade em q eu já residia, sorte q poucos recém efetivados têm. Segundo pq a escola é bastante similar às q eu já conhecia, e não "terrificante" como outras das quais muito já ouvi falar. Terceiro, pq lá fiz novos amigos, boa gente, conheci colegas de trabalho dedicados, e superiores sem a "sanha burocrática de preencher papeis" q padeci em outras unidades escolares.

Neste 2012 comecei a cursar Libras, a linguagem brasileira de sinais. Embora seja muito difícil e eu esteja muito aquém de ser fluente, aprendi muito e me sinto agora mais preparada para lidar com alunos deficientes.

Sou uma pessoa bastante frugal, alguns diriam "mão de vaca" e não costumo "gastar dinheiro à toa". Cada centavo q ganho é suado e sofrido, portanto dispendê-los merece reflexão. Neste novo ano me dei um presente pródigo. Isso só foi possível pois para me efetivar fiz a "Escola de Formação de Professores", um curso online do Estado para os q passaram no concurso "provarem" q podiam lecionar. Os cursistas receberam como "bolsa de estudos" 4 parcelas de quase R$ 1.500,00. Eu recebia de bolsa mais do q ganhava para dar aulas. E não fosse essa bolsa, não poderia ter-me dado o presente citado. Comprei-me um iPad. Enquanto o fazia, com o coração na mão por gastar tanto dinheiro (quase R$ 2.500,00), pedia a HaShem q não me arrependesse. E em nenhum momento isso se deu. O iPad "revolucionou minha vida", me trouxe maior conexão com meus amigos, aumentou minha socialização, me abriu todo um novo universo de possibilidades, facilitou em muito meu cotidiano. Foi uma das melhores compras da minha vida, um dinheiro q não foi "gasto", mas "investido", pois me trouxe retorno.

Neste ano deixei para trás pessoas q me deixaram para trás. Parei de tanto remoer o passado. Desisti de algumas coisas e refoquei minhas energias em outras. Reorganizei todas as minhas músicas no PC. Mandei por correio um presente pro Jarson Brenner, uma das melhores surpresas q a Internet me trouxe. Redescobri o Romeu Marinho, vi o quanto sua amizade e sua família são especiais. Reencontrei o Henrique "Figura", sua esposa Jaque e suas filhas. Pude segurar em meus braços Benjamin, filho da minha grande amiga Gisele Bailer. Adicionei Aristein Woo como irmão, e Maria José Tomasella como mãe. Me aproximei dos meus primos Gisele e Renan. Tratei bem da minha avó, lhe fiz comida, pensei suas feridas e até lhe dei banho; e nada disso me pesou como obrigação, o fiz com gosto e carinho, pois como lhe disse com todas as letras "Vc é minha avó e eu te amo". Agradeço a oportunidade de ter podido lhe dizer isso e espero q no próximo ano eu diga a todas as pessoas de minha afeição o quanto as estimo.

Li poesias. Li a obra completa de Álvaro de Campos. Me deleitei com a Tabacaria. Reli "A Metamorfose" do Kafka. Li o Bhagavad Gita. Li a "História dos nossos gestos" dos Luís da Câmara Cascudo.

Sempre fui essencialmente acomodada e sedentária. Neste ano, para minha grande surpresa, abandonei isso. Comecei a fazer caminhadas, e apesar da descrença em mim própria, consegui levar isso a sério. Dei várias voltas no Lago Azul, fiz todas as trilhas do Horto Florestal de Rio Claro. Este contato com a natureza foi salutar. Toda vez q começava ia com a mente assestada em q não era capaz, até descobrir q era mais do q capaz de me superar, e de andar 10 kms. Q meu corpo, há tanto tempo dormente, é capaz de melhorar, se fortalecer. Hoje, quando apalpo minhas pernas, fico surpresa q não são mais molengas como antes. Agora consigo ver os músculos nas coxas e panturrilhas, o q muito me estimula a nesse novo ano investir ainda mais em minha saúde e forma física. Percebi q, se eu quiser ter o corpo duma Viviane Araújo ou Gracyanne Barbosa, eu posso. Quem sabe neste 5773 eu o atinja.

Estudei bastante a Torah. Publiquei ensaios teológicos no meu blog. Fiz dezenas de perguntas em comunidades no Face. Muitas originaram debates acalorados. Debati com rabinos, rabinos de verdade, deles recebi ensinamentos, e muito cresci com suas instruções e seus silêncios. Minha comunidade Bnei Noach se tornou ativa, cresceu, evoluiu, e está auxiliando muitos noachides em busca de instrução.

Meu blog está cada vez mais bem sucedido. Recebe dezenas de visitas diárias, ganhou novos seguidores, novos comentários. Há quem procure por mim na internet! Nunca achei q isso aconteceria!

Fortaleci minha amizade com diversas pessoas. E percebi q outras não mereciam minha dedicação. Tive uma grande decepção, mas tb boas surpresas. Pessoas com as quais contava me viraram as costas. Outras, q eu mal conhecia, se revelaram bons amigos. Para isso, o Facebook é muito bom. Ele nos dá, em números, o quanto as outras pessoas estão atentas ou prestam atenção em nós. Diversas vezes me perguntei "putz, quase todo dia curto ou comento algo q a pessoa X publica, mas ela não curte nem comenta nada q eu publico" ou então "já mandei tantas mensagens e e-mails tentando encontrar a pessoa X e ela não responde, 'dá um migué' ou adia isso prum momento q nunca vem". Aprendi a não mais dar tanta atenção a quem me ignora, a não mais esperar nada dessas pessoas. Aprendi q, embora eu considere tão amigos hj as pessoas q eram minhas amigas há alguns anos, elas se esqueceram de mim. Percebi q eu as estimava hj tanto quanto da última vez q as vi, mas a recíproca não era verdadeira. E percebi q não deveria me mortificar por isso. Assim como amigos vão, novos amigos vêm. E q os amigos do passado q permaneceram constantes mereciam muito mais da minha dedicação.

Investi meu tempo ocioso nas Tessituras de Penelope, fiz dezenas de trabalhos q me trazem alegria e orgulho. Sim, orgulho, da minha capacidade de fazer coisas bonitas, exclusivas e úteis, com minhas próprias mãos. Muitas das peças q fiz presenteei a pessoas amadas. Me sinto feliz q algo feito com minhas mãos sirva para enfeitar, aquecer e preservar a saúde das pessoas de minha estima. Publicando estes trabalhos num blog, recebi muito feedback positivo. Não só eu acho bonitas as coisas q faço. E cada novo seguidor e comentário é um estímulo a mais para fazer artes ainda mais elaboradas. Espero q no futuro minha arte com linha e agulha venha a ser uma nova fonte de renda, e humildemente peço isso para o Novo Ano q se inicia.

Ganhei um sobrinho. Meu segundo. A primeira, Ana Letícia Santos, pouco vejo, mas tive algum contato, a presenteei com um cachecol e um bolsa. Na Austrália, nasceu meu segundo sobrinho, Liam Novais Dermott. Espero no futuro ter uma relação próxima com ele. E q ambos meus sobrinhos saibam q os amo como se meus filhos fossem. Q na tia Fernanda eles têm uma amiga, uma protetora, alguém com quem poderão contar a qquer hora, não importa a distância e o tempo q nos separam.

Nem tudo foi bom neste ano, e nem tudo fiz bem neste ano. Alguns projetos foram esquecidos, outros adiados. Fiz e pensei coisas das quais não me orgulho. Sei q poderia ter feito muito melhor, fosse mais tenaz, constante, paciente, comprometida, disciplinada, responsável, flexível, aberta, receptiva, prudente. Fosse menos ansiosa, neurótica, apegada ao passado, arrogante, egoísta, preguiçosa, desbocada, gulosa, pessimista, prolixa, pedante e muitas outras coisas.

Porém neste ano percebo q não girei em falso. Não sou a mesma pessoa q era no período anterior. Cresci, amadureci, melhorei, aprendi, me fortaleci, refleti, li, pensei, aprendi a calar, aprendi a ver as coisas de outra forma, observei, escrevi, fiz novos amigos.

Agradeço a D'us por todas as experiências q me proporcionou. Agradeço pela bênção de ter podido viver 5772. E humildemente suplico q neste 5773 eu possa ser inscrita no Livro da Vida. Q eu aprenda ainda mais. Q eu seja capaz de atender às expectativas. Q eu cumpra meu Destino. Q a tecnologia nos traga muitas mais facilidades, oportunidades e chances de crescimento. Q eu possa colaborar na retificação do mundo (Tikkum Olam), q meus esforços e atividades sejam para o bem. Que HaMassiach venha. Q ano q vem eu escreva o próximo texto de Jerusalém.

Shaná Tová we Chatimah Tová le kulam!

Elisheva bat Noach

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Poema de Sete Faces - Carlos Drummond de Andrade

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

sábado, 18 de agosto de 2012

Soneto Amar, de Florbela Espanca

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...

Soneto Lingua portuguesa, de Olavo Bilac

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Língua Portuguesa - Olavo Bilac

quinta-feira, 16 de agosto de 2012

Mar Português e Dactilografia, de Fernando Pessoa

Mar Português - do livro "Mensagem"

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.

——————

Dactilografia, via Álvaro de Campos

Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projeto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.
Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.

Outrora. Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.

Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra ...

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Para Viver um Grande Amor - Vinicius de Moraes

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.


Texto extraído do livro "Para Viver Um Grande Amor", de Vinícius de Moraes, José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1984, pág. 130.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Do sedentarismo a atividade

É sem orgulho q confesso: durante toda a minha vida até agora fui uma pessoa essencialmente sedentária, avessa a toda atividade q me fizesse suar, e pouco afeita a qualquer tipo de esporte. Sempre fui bastante preguiçosa e acomodada, e até tinha certo orgulho secreto nisso. Me considerava uma pessoa intelectualizada, q ambicionava o desenvolvimento mental. E via com certa arrogância as pessoas engajadas em atividades físicas, considerando essa uma atividade "pouco digna" às pessoas dotadas de um intelecto desenvolvido. Eu tinha certo orgulho de minha ociosidade, como se ela fosse um "apanágio" dos inteligentes.

Levou 29 anos para eu perceber o grande erro nessa forma de pensar.

Para mim, atividades físicas estavam intimamente ligadas à vaidade. E, como procuro não cultivar a aparência, mas a essência, achava q estava certa em recusar-me a participar disso. Nunca fui "gorda", meu IMC sempre esteve na faixa "saudável", mas meu condicionamento físico sempre foi péssimo, e eu era incapaz de correr 100 metros sem ficar completamente "esbaforida", quase desmaiando por falta de ar. Mas nunca achei q isso fosse um problema.

O q finalmente me "intimou" a mudar minha atitude foi quando percebi q, a despeito de minha aparente magreza, meu corpo estava se transformando com a idade. Não foi o surgimento de estrias nem celulites, os quais conheço desde os 12 anos, mas o apercebimento de q, a despeito da minha vontade, ao se aproximarem os 30 anos começaram a crescer 2 tumores adiposos na parte lateral superior de minhas coxas, bem no encontro com o quadril, região conhecida como "ancas".

Fiquei "desesperada" por um causo de minha infância. Quando tinha cerca de 6 anos minha avó foi submetida a uma cirurgia plástica. Não pq fosse uma mulher vaidosa, mas por necessidade. Minha avó Tula tinha as ancas lateralmente mt proeminentes, e por isso passara por diversos constrangimentos ao não caber em assentos "normais". Ela não podia, por exemplo, ir ao cinema, pois suas ancas impediam q ela se sentasse confortavelmente. Devido à proeminência lateral de seus quadris, minha avó submeteu-se a uma lipoaspiração, e lembro-me até hj q ao ir para o hospital ela despediu-se de mim como se pudesse nunca mais me ver.

Percebi então q "cirurgia" não era brincadeira e q eu deveria, o máximo possível, fazer com q eu não precisasse passar por coisa semelhante. E foi disso q me lembrei quando os mesmos tumores adiposos q minha avó um dia extirpara estavam agora surgindo nas minhas próprias ancas. Então pensei seriamente se eu assistiria sem reação ao meu corpo ser progressivamente deformado por meu sedentarismo, ou se eu faria alguma coisa a respeito.

E decidi fazer algo a respeito. Pensei em me matricular numa academia. Mas a seguir veio a reflexão: meu orçamento é bastante apertado, e sem muito dinheiro sobrando, dada minha célebre preguiça, havia a possibilidade de eu me matricular, pagar as mensalidades e não fazer juz à despesa, pagando por um serviço do qual não desfrutaria.

Então percebi q matricular-me numa academia de ginástica deveria ser um segundo passo, não o primeiro. Para começar, eu deveria provar para mim mesma q queria ser mais saudável, não impingida por "estar pagando", mas por meu próprio desejo e iniciativa.

Então decidi começar a fazer caminhadas, e q só se eu provasse a mim mesma q estava realmente engajada, por mim, em praticar exercícios, só então me permitiria matricular-me numa academia. Não queria gastar dinheiro, então fui com roupas e tênis velhos, meio descrente de mim, achando q logo desistiria, q caminhar 2 ou 3 quilômetros seria tão extenuante q logo eu me conformaria em retornar ao sedentarismo.

Mas a capacidade do meu organismo me surpreendeu. Vi q 3 quilômetros não eram "nada". Q 5 quilômetros não eram nada. Q 8 quilômetros não eram nada. Eu achava q depois de caminhar 3,5 ou 8 kms eu ficaria completamente extenuada, "morta de cansaço". Mas não. Após cada sessão de exercícios eu não me sentia cansada, mas fortalecida. Caminhar não me cansava, mas me energizava. E q o "cansaço perene" ou "preguiça constante" q eu sentia antes eram provavelmente advindos de minha falta de atividade.

Faz alguns meses q comecei a largar o sedentarismo e neste curto período já comecei a sentir benefícios. Já percebi q os tumores adiposos nas ancas diminuíram, minhas coxas estão mais rijas, e agora só fico esbaforida após correr pelo menos 300 metros. Os músculos do meu pescoço e ombros ficaram menos tensos. Acordada, me sinto mais disposta. Na hora de deitar, ficou mais fácil conciliar o sono. Globalmente, comecei a me sentir "melhor", mais forte, com mais energia, mais relaxada.

Gostaria de deixar a seguir um "breve manual" dos primeiros passos q pessoas tão sedentárias como eu era devem observar quando começarem a dar os primeiros passos na "arte" da caminhada.

1 - Consulte um ortopedista e um cardiologista. É fundamental saber se os exercícios vão te ajudar a ser mais saudável ou piorar sua saúde, caso ela seja frágil.

2 - Compre um bom par de tênis. Não economize. Quando eu comecei, usava um tênis velho q causou dor nos meus pés. Fui à loja na ilusão de q poderia comprar um bom tênis para exercícios com uns R$ 150,00 ; mas os tênis bons estão todos acima da faixa dos R$ 300,00. Invista no seu bem-estar, compre um tênis com tecnologia anti-impacto, de uma marca respeitada. O q são 300 reais perto dum tendão rompido ou dum joelho desgastado? Seguramente sai mt mais caro "consertar" uma lesão do q preveni-la comprando um bom tênis com amortecimento.

3 - Se exercite perto de casa. Isso evita criar desculpas para não ir caminhar. Veja na sua vizinhança se há pessoas q caminham, e qual o trajeto q ela fazem. Imite-as.

4 - Se exercite com amigos. Muitas pessoas se sentem mais estimuladas se têm "hora marcada" ou compromisso com alguém. Se esse for o seu caso, procure um colega q já faz caminhada ou pretenda começar a fazer e combine de caminharem juntos.

5 - Aproxime-se da natureza. Esse pode ser um segundo passo após o exercitar-se perto de casa. Se pegar o carro e ir a um lugar para caminhar não for problema para vc, procure fazer trilhas na zona rural, num parque ou reserva florestal. Há vários benefícios nisso: numa trilha arborizada vc não vai se exercitar sob o sol forte, mas na sombra; a terra é mais macia q o concreto amortecendo suas pisadas, o ar é menos poluído, e o contato com a natureza é relaxante, vc caminhará avistando borboletas, ouvindo o canto de pássaros e sentindo aroma de flores, e não de fuligem.

6 - Use aplicativos de smartphones q acompanham seus exercícios. Há vários. O RunKeeper, q eu uso, traça minha trajetória por GPS, calcula minha velocidade média, o tempo do exercício, as calorias gastas, e além de guardar esses históricos, divulga os exercícios no Facebook. Esse último detalhe pode parecer vão, mas não é. Divulgar aos seus amigos q vc está fazendo exercícios cumpre uma dupla função: te estimula a continuar no seu propósito agora q vc está "exibindo" suas conquistas, e também faz com q seus amigos tenham vontade de tb começar a se exercitar. Se vc pode, eles tb podem.

7 - Cubra-se. Não use shorts nem regata, mas calças e blusas de manga longa, além de boné. Isso impede q sua pele seja queimada pelo sol e q insetos te piquem, especialmente se vc estiver fazendo uma trilha próxima à natureza. Além de te proteger do vento e do frio. Procure tecidos "dryfit" ou sem costura.

8 - Se exercite com fones de ouvido, ouvindo músicas "energéticas". Serve o estilo q vc gostar, desde q seja uma música "agitada". Não adianta querer se exercitar ouvindo Bossa Nova. Coloque techno, trance, axé, funk, o q for, mas escolhas músicas com batida forte. A música nos dá um "gás" a mais.

9 - Acredite em vc. Caminhar é um compromisso consigo próprio. Não se deixe derrotar na primeira chuva, na primeira dor, na primeira gripe. Cumpra as metas q estabeleceu para si. E, caso não o faça, não fique remoendo suas falhas. "Delete" de sua cabeça as suas derrotas. Ao raiar do novo dia, deixe para trás o q vc não fez e se concentre no q vc ainda pode fazer.

10 - Persista. A primeira meia hora é a mais difícil e dolorosa. Superada essa fase, depois q seu corpo já está aquecido, a dor e o cansaço passam. Quando seu corpo já estiver acostumado e seu condicionamento físico melhorar, os exercícios serão cada vez mais fáceis.

11 - Supere-se. Se na vez anterior vc caminhou 2 km, na próxima caminhe 3. Se na vez anterior vc caminhou 5 kms, na próxima caminhe 6. Desafie-se, saia de sua zona de conforto. A menos q vc tenha algum problema de saúde, seu corpo irá progressivamente responder cada vez melhor.

12 - Alongue-se. De forma criteriosa, a cada parte do corpo. Se vc não puder contratar um personal trainer, procure tutoriais na internet de como fazer alongamentos. Jamais se exercite sem se alongar. Isso protege seus músculos, tendões e articulações de lesões desnecessárias.

13 - Se vc já fez pelo menos uma dezena de sessões sérias de caminhada, comece a pensar em correr. No começo, vc pode se frustrar. Há mts textos na internet q ensinam a fazer essa transição. Após ler diversos, o básico é correr distâncias curtas intercaladas com caminhada, e (embora isso pareça um contrassenso) correr com "calma". Não tente correr como se estivesse fugindo de um ladrão, no máximo de suas forças. Tente correr numa velocidade baixa e confortável, aos poucos vc melhorará seu desempenho. Comece caminhando 500 metros, e a seguir corra 100 metros. Quando isso já for confortável, caminhe 500 metros e corra 200, e assim sucessivamente. Vá aos poucos, em etapas, preparando seu corpo progressivamente para desafios cada vez mais difíceis.

14 - Não tenha como objetivo inicial a perda de peso, mas sua forma física global. Se vc for completamente sedentário, é bem possível q depois de algumas sessões de caminhada seu peso aumente, ao invés de diminuir. Isso não significa q vc "engordou", mas q vc ganhou músculos, "massa magra". Depois q vc tonificar seus músculos (ganhando peso no processo) vc começará a "torrar" suas reservas de gordura, e então emagrecerá.

15 - Não tente ir além dos seus limites. Não se exercite se estiver com dor. Não tente começar caminhando logo 10 kms. Vá aos poucos, um quilômetro por vez. Observe seu corpo, e os sinais q ele dá. A atividade física deve ser um prazer, e não uma tortura. Caso vc não se adapte às caminhadas, procure outra atividade aeróbica, como o ciclismo ou a dança.

Seja "dono" do seu corpo, invista na sua saúde, acredite em vc, supere-se. Nunca é tarde demais para deixar para trás os maus hábitos. Mesmo q vc não chegue a se tornar um maratonista, vc pode com certeza melhorar sua saúde, prolongar sua expectativa de vida e tornar-se capaz de atingir metas q antes considerava impossíveis. A cada conquista vc se sentirá melhor e mais estimulado a melhorar-se.

Hj isso pode parecer penoso. Mas quando vc atingir os 90 anos ainda ativo e puder conhecer, e brincar, com seus tataranetos, verá q vc só pôde viver para conhecê-los pois quando mais jovem investiu na sua saúde. Então perceberá q se cada sessão de caminhada lhe garantiu apenas mais uma semana a mais de vida, já terá valido a pena.
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