sábado, 8 de junho de 2013

Meu primeiro amor

Era 1993. Eu tinha 10 anos e morava na pensão de Dona Rosa Ross, à rua João Migliari, número 13, Tatuapé. Cursava a quarta série do Ensino Fundamental na E.E. Jackson de Figueiredo.

Nesta mesma escola estudava, na série seguinte, o menino que foi minha primeira paixão. Seu nome era Francisco. Era um menino loiro com brilhantes olhos verdes, que não me dava nenhuma atenção especial. Além de vê-lo na escola, tb éramos amigos de vizinhança, com dezenas de coleguinhas em comum.

Nos encontrávamos nas mesmas festinhas de garagem. Éramos convidados às mesmas sessões de videogame e fliperama. Foi com ele que pela primeira vez joguei "Street Fighter" e também foi com ele que dancei minha primeira música lenta em uma festinha pré-adolescente. Daquelas dancinhas em que se seguram as mãos, e se aproximam as faces, mas sem se tocar, timidamente.

Muitos foram os aniversários, amigos secretos, brincadeiras de pique-esconde, passa anel, e beijo abraço ou aperto de mão que compartilhamos. E eu sempre suspirava escondida por seus belos olhos, muito temerosa de que ele descobrisse que eu estava "gamadinha" por ele e isso fosse usado para me zoar, o que muito me magoaria. Pelo temor de revelar meus sentimentos e ser rechaçada, preterida, e também por ser muito jovem e nem saber ao certo o que sentia, que nunca "me declarei" para ele, jamais lhe revelei meu interesse romântico. Eu o achava "muito gato" e era enorme meu medo que ele me achasse feia, e se eu revelasse minha paixão, dissesse: "vc não é BONITA O SUFICIENTE para eu me interessar por vc".

Francisco era muito mais pobre do que eu. O percebi quando fui brincar em sua casa, com vários coleguinhas, e me surpreendi primeiro que ele morasse "nos fundos" de um longo corredor cheio de casinhas na rua Padre Estêvão Pernet, num construto que poderia ser chamado de cortiço.

Entrando em sua casa, também estranhei que houvesse apenas 1 quarto, que ele dividia com a mãe e irmãos, e com as manchas de bolor em todas as paredes, que resultavam num ar pesado, insalubre. Mas isso em nada diminuía a beleza dos olhos verdes de Francisco.

Nossa trajetória escolar e meus interesses românticos por ele foram seriamente prejudicados por uma tragédia, dessas que deixam marcas eternas.

Certa feita Francisco e outro colega meu vizinho, C, iriam a um jogo de futebol. Tiveram a "genial" idéia de fabricar uma bomba caseira para levar ao estádio. Nenhum dos 2 meninos tinha mais que 12 anos, e em tempos pré-internet, não tiveram acesso a esquemas confiáveis para a fabricação de bombas caseiras.

Na cozinha da casa de número 31 da João Migliari, na ausência dos pais e irmãos de C, se puseram a fazer a bomba. Encheram de pólvora um cano de PVC. Taparam as extremidades e só depois se deram conta: esquecemos do pavio!

Meninos, inexperientes, que eram, tiveram a pior idéia de suas vidas: "vamos esquentar a ponta de uma faca no fogão, e com a faca quente vamos abrir um buraco no cano de PVC, e nele meter o pavio." 

Não creio que tenha-lhes passado pela cabeça que o cano já estava cheio de pólvora, e isso poderia ser perigoso. C segurou o cano enquanto Francisco lhe enfiava a faca em brasa.

Eu pude ouvir a explosão de minha casa. Não achei que fosse nada até que 5 minutos depois 2 ambulâncias chegaram gritando em nossa vila. Então fui à rua e percebi a comoção de dúzias de vizinhos chorosos na porta da casa 31. Alguns de meus coleguinhas também estavam no meio da muvuca, e fui lhes perguntar o que acontecera, enquanto sentia pela primeira vez o cheiro de pólvora queimada.

- Ah, parece que o C e o Francisco estava fabricando uma bomba caseira, e ela explodiu na cara deles!

Fiquei mais do que chocada, apreensiva. 

- Eles estão muito machucados?... Morreram?... 

Ninguém sabia responder, só que tinham sido levados de ambulância, sangrando, para o hospital. E que a cozinha da casa estava completamente destruída.

Um ou 2 dias depois soubemos: C perdera 3 dedos das mãos. E Francisco ficara cego de um olho. E muito me doeu imaginar um dos belos olhos verdes de Francisco inutilizado. E tudo o que isso lhe traria como consequência.

Conforme dito, a mãe de Francisco era muito pobre. Não me lembro se foi algo espontâneo das crianças suas amigas, ou algo coordenado por um adulto, mas logo começamos a nos mobilizar para arrecadar fundos para a sua recuperação. Nosso colega C não precisava disso, pois sua família era bem "remediada", podia arcar com os custos de sua reabilitação.

Todos os nossos coleguinhas começaram a bater de porta em porta pela vizinhança coletando jornais para vender no ferro velho a quilo, como lixo reciclável, e todos os fundos eram revertidos à mãe de Francisco, em colaboração ao seu tratamento, para que ela pudesse comprar todos os medicamentos e garantir sua máxima recuperação possível.

Por vários meses, em certo tom de aventura caritativa, percorremos dezenas de ruas da vizinhança pedindo doação de jornais velhos. Ao ponto de que pela enésima semana nem precisávamos anunciar o motivo pelo qual tínhamos apertado a campainha: ao ver meia dúzia das mesmas crianças de sempre à porta, os moradores do Tatuapé já sabiam:

- Vcs são coleguinhas do garoto da bomba, né? Já trago o jornal.

Poder "fazer alguma coisa", mesmo que pequena, pela recuperação de Francisco algo que aliviou meu pesar. Ele passou algumas semanas internado, mais tempo que C. E dele eu só recebia notícias quando íamos à casa de sua mãe entregar o dinheirinho que havíamos angariado com nossa iniciativa de coletar jornais. Tenho certeza de que não era muito, mas, apelando a um velho clichê, era "de coração".

Depois que Francisco recebeu alta, o vi 1 ou 2 vezes. Ele não mais parecia o mesmo. Um de seus olhos, agora cego, estava esbranquiçado. Seu rosto e braços estavam todos marcados por cicatrizes profundas, ainda vermelhas. Mas, mais impactante que isso foi a mudança em sua postura.

Antes desse acidente da bomba, era um garoto decidido, orgulhoso, cheio de charme espontâneo, vivaz. Depois, parecia baqueado, cabisbaixo, sem vida, algo traumatizado e introvertido. Não era mais o mesmo. E isso não era algo de aparência, mas uma condição psicológica, emocional. Ele não tinha mais o mesmo "topete" de antes. Então percebi que o real motivo de minha fascinação por ele não era bem seus "lindos olhos", mas sua atitude, "quem" ele havia sido, e não mais era, um garoto forte e decidido.

No ano seguinte me mudei desta vila, e nunca mais depois disso vi ou tive notícias de Francisco. Sequer posso procurá-lo nas redes sociais, pois não guardei seu sobrenome. Mas de tudo isso restou muita coisa.

Meu primeiro amor, minha primeira paixonite platônica pré-adolescente, que jamais se materializou em beijo, nem selinho. Meu primeiro trauma de perda. Minha primeira aflição com a saúde de uma pessoa querida. A primeira vez em que temi que um ente querido viesse a morrer. Minha primeira "mobilização social", minha primeira "intervenção civil coletiva", minha primeira "ação caridosa" autônoma, voluntária, e aguerrida.

Mas também minha aversão, ojeriza, a explosivos. Meu horror ao cheiro de pólvora queimada. Meu profundo temor às coisas que podem fugir ao controle, como o fogo e químicos de essência forte.

Não fosse esse acidente da explosão da bomba, Francisco talvez teria sido meu primeiro beijo, meu primeiro namorado, minha primeira paixão pré-adolescente. Mas a pólvora naquele cano de PVC ao explodir embaralhou meus projetos, com todas as suas virtualidades, e tornou impossível a concretização de meus desejos românticos inocentes.

Francisco foi meu primeiro amor e minha primeira dor. Meu primeiro projeto e minha primeira frustração. Minha primeira beleza e minha primeira tristeza. Minha primeira admiração e minha primeira preocupação. Sinto não mais saber dele, se recuperou ao menos parcialmente a visão daquele belo olho verde, se tem alguma lembrança de mim. Se aqueles jornais arrecadados com tanta dedicação em algo ajudaram sua recuperação.

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domingo, 2 de junho de 2013

A mansão de bonecas


Quando criança ganhei um presente indizivelmente maravilhoso, com ele brinquei à exaustão, e dele ainda hoje lembro com muito carinho.

Filha caçula, de 3, estava mais do que acostumada a "herdar" os brinquedos velhos e empoeirados, já aposentados por minhas irmãs mais velhas. E os somava aos presentes novos que ganhava de Natal, não de aniversário (sendo meu aniversário 5 dias depois do Natal, eu ganhava um presente único, o que sempre me deixava frustrada...)

E eu dava ainda mais valor aos brinquedos que eram "meus", novos, vendo com certo "preconceito bobo" os velhos, herdados. E como eu amava minhas Moranguinhos, meus pequenos pôneis e meus Playmobils inéditos! Tinha até a "casinha da Moranguinho", um grande morango de plástico com 2 cômodos, nos quais mal cabiam uma Uvinha e uma Chocolatinho. Até que...

Até que ganhei o melhor presente de toda a minha infância: uma verdadeira mansão de bonecas.

Meu tio Renê, distante, pois sempre, para mim, morou no Rio de Janeiro, tinha como hobby, tal qual tio Jaci Ignácio, a marcenaria. E numa das vezes em que veio nos visitar em Rio Claro, me trouxe de presente uma obra de suas mãos, feita exclusivamente para mim. A mansão de bonecas.

Toda feita em madeira fina, mas forte. Com 2 andares mais um sótão. Telhado vermelho removível, pintado de vermelho, com "Fernanda" delicadamente pintado entre florzinhas na frente.

O primeiro andar tinha hall de entrada, mais 5 cômodos, mobiliados com pequenos e delicados sofazinhos, poltroninhas e mesinhas. Com uma pequena escada feita de palitos de sorvete, que dava acesso ao segundo pavimento.

O segundo andar, com 6 cômodos, que eu fazia de quartos, mobiliados com caminhas, pequenos e fofos armarinhos, mesinhas de cabeceira, tudo de madeira, feito artesanalmente, só para mim, e mais uma escadinha de palitos de sorvete, que levava ao sótão, que seria o terceiro andar.

Na frente, a casa tinha uma uma linda fachada com janelinhas, e a portinha de entrada, que abria e fechava. Atrás, não tinha "parede dos fundos", a casa era vazada, me permitindo amplo acesso a todos os cômodos.

Eu tinha o kit Playmobil do ônibus escolar, com professora, motorista e uns 20 aluninhos. E minha casa de bonecas era tão imensa que eu brincava de orfanato, separando os 6 quartos entre meninos e meninas, fazendo do sótão o "quartinho do castigo", e das salas do primeiro andar, quartos de brinquedo e salas de aula, além de cozinha e refeitório. 

Também minhas Moranguinhos cabiam muito bem na casinha, seus acessórios e móveis ficavam muito bem nela.

Eu sabia, desde que a ganhei, o quanto minha mansão de bonecas era única, e especial, pois tinha sido feita SÓ PARA MIM, personalizada com meu nome. E brinquei com ela à exaustão, horas a fio, anos seguidos.

Quando me mudei para São Paulo, aos 9 anos, foi com certo muxoxo que a deixei para trás, e dela senti muita saudade. Sem que eu fosse consultada, logo a deram, sem me dizer seu destino. E me senti muito triste quando voltei de visita e não mais a encontrei.

15 anos depois me mudei novamente para Rio Claro, já formada na faculdade, professora. Alguns meses depois separei roupas e objetos dos quais não mais fazia uso e me recomendaram que os levasse à "Casa das Meninas", uma espécie de "orfanato", mas não propriamente isso, pois abrigava crianças que não estavam disponíveis para adoção, mas também não podiam ser devolvidas à família biológica. Num certo "limbo" judicial.

Cheguei, fui à recepção e, colocando 3 sacolas sobre a mesa, disse:

- Vim fazer uma doação.

A funcionária sorriu, deu uma conferida no conteúdo e me perguntou:

- Não gostaria de conhecer nosso trabalho?

Olhei ao redor, e com certa curiosidade, aquiesci com a cabeça. Ela se levantou, e foi me mostrando os cômodos do prédio:

- Esse é nosso refeitório, essa nossa cozinha, essa nossa sala de estudos, essa é nossa brinquedoteca.

Entrei e imediatamente meus olhos resvalaram num telhado vermelho, com aquele mesmo "Fernanda" delicadamente pintado entre florzinhas. Me aproximei. Era ela mesma: minha mansão de bonecas, cercada por 4 meninas sorridentes, entretidas em sua brincadeira.

Já não tinha as escadinhas de palito de sorvete, e poucos dos móveis originais restavam. Estava já bem surrada, pichada de canetinha no exterior, mas ainda inteira. E para minha maior felicidade: em pleno uso, 15 anos depois! Ver aquelas 4 meninas, juntas, aproveitando minha velha mansão de bonecas me trouxe uma alegria incontível, ao ponto que virei para a recepcionista que me acompanhava na visita e disse:

- Está vendo esse "Fernanda" pintado no telhado? Essa "Fernanda" sou eu. Essa casinha de bonecas era minha quando eu era criança. E estou muito feliz que ela esteja aqui.

Ela sorriu.

- Sério? Então muito obrigada, Fernanda, essa casinha de bonecas é o brinquedo preferido das meninas daqui. Elas brincam dia e noite, se deixarmos.

Não consigo pensar num destino melhor para ela. Sempre que me lembro de minha mansão de bonecas, a felicidade de a ter tido é exponencialmente multiplicada pelas dúzias de sorrisos que ela ainda dá às meninas do orfanato. E isso também me alegra.

Será que também brincam de orfanato, e na mansão de bonecas colocarem uma mini-casa de bonecas? E se eu fui uma boneca com a qual alguém brincou, e quando se cansou, simplesmente dispensou? E se todos fomos, somos, títeres?




sábado, 25 de maio de 2013

Para gostar de cinema


Do primeiro filme iraniano, a gente nunca esquece. Também de nossos primeiros clássicos do cinema, daqueles filmados muitos anos antes de a gente sonhar em nascer. Filmes que são "clássicos" pela mesma razão que os "grandes livros" o são: tocam em "nódoas" emocionais inefáveis, muito difíceis de explorar em palavras, que apenas podem ser expressas por "parábolas", histórias exemplares em sua peculiaridade, mas epistolares em sua generalidade, que extrapolamos a nossa vida particular.

Eu tive a sorte de crescer numa casa chefiada por uma cinéfila. E não daqueles cinéfilos "metidos a intelectuais" que selecionam filmes por sua exclusividade, erudição e aparente incompreensibilidade. Para essas pessoas, quanto mais "difícil" o filme, tanto melhor.

Minha avó Tula era uma verdadeira amante da sétima arte. Inúmeras vezes me relatou como se lembrava com saudade de suas idas ao cinema ainda mocinha, na época em que as pessoas ainda não tinham televisão em casa. Contava com muita alegria dos grandes musicais que assistia com sua mãe e avó. Alguns desses filmes, protagonizados pelo galã Nelson Edy, compramos em DVD poucos anos antes de sua morte, e ela adorava reassisti-los no domingo à tarde, cantarolando suas músicas e dizendo entre suspiros:

- Não se faz mais filmes românticos como esses!

Quando eu era criança, ainda não existia TV a cabo no Brasil, e não fosse a cinefilia de minha avó, só teríamos a "Tela Quente" e os filmes pasteurizados da "Sessão da Tarde" à disposição. Mas ela nunca se contentou com isso.

Éramos uns dos melhores clientes da videolocadora, e muitas são minhas memórias de ainda criança indo acompanhá-la na seleção dos filmes que veríamos.

E não apenas de blockbusters, grandes lançamentos do cinema, eram feitos nossos fins de semana. Tula tinha ótimo gosto. Alugava filmes bons, de diversas origens. Adorava os chineses, sendo o "Clube da Felicidade e da Sorte" seu chinês predileto, mas igualmente com espaço para o "Clã das Adagas Voadoras", "Lanternas Vermelhas", "Adeus, minha concubina", "Comer, beber, viver"...

Também apreciava filmes europeus, um em especial de que me lembro foi a "Festa de Babbette", acompanhado de "7 noivas para 7 irmãos". Filmes considerados "obscuros", em preto e branco, como "Hellen Keller", tb eram sempre uma boa pedida em nossa casa. Todos os filmes de Romy Schneider dedicados à Imperatriz Sissi da Áustria, assistimos. Na mesma senda, também tenho bem gravado na memória "Os jovens anos de uma rainha", sobre a juventude da rainha Victoria da Inglaterra.

Também filmes de Hollywood, mas com grande qualidade, sempre figuravam em casa, como "A volta ao mundo em 80 dias", " Passagem para a Índia", "Duelo ao Sol", "Pimpinella Escarlate", "Indochina"...

Surpreendentemente, gostava muito dos filmes de Oliver Stone, e tínhamos em casa toda a sua trilogia sobre o Vietnã: "Platoon", "Nascido em Quatro de Julho" e "Entre o Céu e a Terra".

Cedo adquirimos dois videocassetes, e sempre que alugávamos filmes, fazíamos uma cópia, para reassistir sempre. Desta época data minha paixão pelo maior dos clássicos do cinema "... E o vento levou". Assistir e reassistir a este e outros filmes maravilhosos foi uma experiência definidora de minha personalidade.

Nunca vou me esquecer de quando alugamos "Acusados", clássico com Jodie Foster muito jovem. E de como fui "pega no pulo" por meu avô Vicente ao ver esse filme, pois chegou na sala justamente na cena mais violenta, a do estupro. Eu tinha uns 7 ou 8 anos, mas já sabia que não devia estar a assistir um filme "tão pesado". Tentei disfarçar, parei o filme assim que o percebi me supervisionando, mas não foi o suficiente para impedi-lo de depois recriminar minhas irmãs mais velhas e até à Tula por me permitirem ver um filme com cenas tão "gráficas".

Igualmente nunca me esquecerei da experiência de ver "As duas vidas de Audrey Rose", com um jovem Anthony Hopkins, e de como me abalou o suplício de Ivy, morta em uma sessão de hipnose, comprovando a "verdade" da reencarnação.

Mas também nunca me esquecerei de meu primeiro filme islâmico "cabeça". Para quem nada entende da empoada cultura dos cinéfilos, não há nada mais hype, mais "chique" que assistir a um filme obscuro off-Hollywood. E várias foram as ocasiões nas quais, já adulta, fui convidada por intelectualóides que queriam reforçar sua "finesse" divulgando aos outros que "assistiam a filmes iranianos", turcos, indianos: quanto mais longínqua a origem, tanto mais "intelectual" era o expectador.

Mas minha vó não era do tipo de pessoa que "assistia a filmes iranianos só pq eram iranianos, e isso é très chic". Ela assistia a filmes que fossem bons, se não eram mainstream, era só detalhe, que ela nem levava em consideração.

E assim chegou à minha vista o maravilhoso filme turco "Berdel". Eu era criança, e só o fui compreender plenamente muitos anos depois. O filme retratava uma situação familiar islâmica: um homem casado há muitos anos tinha apenas filhas mulheres. Querendo muito ter um filho homem, faz uma troca: entrega uma de suas filhas em casamento a um colega, e em seu lugar recebe como esposa uma parente dele. A nova esposa é muito mimada, na esperança de que providencie o filho homem que ele tanto queria. Ela engravida, e é cumulada de presentes. Sentindo-se relegada, sua primeira esposa sai de casa, e só depois se descobre grávida. Ao nascer o bebê da segunda esposa, a "má" surpresa: mais uma menina. Meses depois nasce o bebê da primeira esposa, já separada: finalmente vem o varão tão esperado, e sua mãe morre no parto. O arrependimento do pai dessa família, ao perceber que havia "desancado" a primeira esposa, que morrera ao lhe dar o "filho homem" tão sonhado é uma daquelas coisas, daquelas experiências estéticas e emocionais, que não tem preço, e que aprofundam nossa alma em muitos centímetros.

Desde criança, eu sempre soube valorizar essa cultura cinematográfica ampla que a convivência com minha avó amante do bom cinema me proporcionou. Enquanto meus amigos apenas podiam citar e se lembrar dos "sucessos do cinema" do dia, eu era bem versada em todos os grandes clássicos. Antes dos 12 anos já categorizava os filmes por diretor, e dizia coisas como:

- Kubric é uma experiência pós-moderna. Woody Allen é irônico. Tim Burton é tétrico. Steven Spielberg, pega pela emoção. Já David Lynch é surreal.

Zefirelli, Antonioni, Bertolucci, Fellini, Costa-Gravas, Hitchcock, Scorsese, Tarantino, Polanski, Chaplin, Coppola, Buñuel, Bergman, Milos Forman, Akira Kurosawa, Kieslowski, Ridley Scott, George Lucas, Truffaut, Orson Wells, Billy Wilder, Win Wenders, Attenborough, Pollack, Tornattore, Herzog, Brian de Palma, Zemeckis, James Cameron, Almodóvar e Hector Babenco, eram meus "companheiros", minhas referências culturais, meus "amigos íntimos".

A todos esses conhecia mais que a meus vizinhos, e de sua "visão de mundo" já me sentia bem versada. "Ver a vida" pelos olhos, pelo escopo, desses grandes cineastas foi uma experiência determinante, transformadora, enriquecedora. Ampliou minha visão, minha interpretação, minhas possibilidades diante da vida.

Crescer exposta a essas experiências estéticas aumentou em centenas de matizes minhas possibilidades de expressão, compreensão, fruição. Meus tons de cinza que separam o "certo" do "errado" ganharam mil complicações, mil discursos, mil viezes, mil possibilidades.

Hoje, que se completam 3 meses do falecimento de minha avó Tula, venho mais uma vez prestar homenagem e dar graças por ter tido em minha vida uma pessoa que tão bem me influenciou, que tantas experiências diversificadas e enriquecedoras me proporcionou. Muchas, muchas gracias, mais uma vez, por tudo, Tula. Sua presença, sua influência, é fundamental para mim. E sempre será.

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sábado, 11 de maio de 2013

Da chupeta

Chupeta é um acessório de plástico que simula o bico do seio materno, e é usado como forma de "acalmar" aos bebês quando choram. A chupeta é o primeiro engodo que os pais fazem aos filhos. Ao enfiar esta peça plástica na boca da criança, ela instintivamente começa a sugar, na esperança, vã, que dela há de sair leite. E ainda que não saia leite algum, prossegue a sugar.

Alguns consideram que o uso de chupeta é o primeiro vício a que somos expostos. E alguns pais relutam, ou mesmo simplesmente se negam a fornecer este objeto ao bebê. Há inúmeras teorias a respeito.

Mas este não é um texto antropológico sobre este objeto, mas o relato de como eu, particularmente, a deixei para trás. Sim, mesmo já tendo 30 anos, ainda me lembro do exato dia em que deixei de usar chupeta.

Foi tardio. Eu contava 6 anos e já há muito tempo vinham me amolando para que eu não mais a usasse. Embora a chupeta seja um acessório para bebês, é comum que crianças passadas dos 3 anos tenham grande dificuldade em prescindir dela. Especialmente se foram precocemente desmamadas, e, como eu, tenham sofrido traumas de separação. 

Eu era bastante carente emocionalmente e a chupeta era uma muleta, que me trazia segurança e conforto. Não conseguia viver, nem dormir, sem ela. Conforme eu crescia a pressão familiar aumentava, e até eu percebia que chupeta era coisa de criança, e usá-la tornava-se mais e mais inadequado, conforme eu deixava de ser um bebê.

Mas já aos 5, 6 anos eu já era exatamente a mesma Fernanda que sou hoje, que não aceita ser comandada, não acata ordens, e não se conforma em ser manipulada para qquer direção que não a que eu queira seguir. Nenhuma chantagem, conversa ou ameaça infantilóide me faria abdicar da chupeta. Apenas uma pessoa seria capaz de me convencer disto: eu mesma.

E foi apenas quando eu mesma percebi o quanto seria cada vez mais ridículo prosseguir a usar chupeta que me decidi a abrir mão dela, e anunciei aos meus familiares: 

- Vou usar chupeta até meu aniversário de 7 anos, depois disso, vou parar.

Eu tinha 6 anos. Mas então, como hoje, meu dito já valia um escrito. Eu já era uma pessoa de palavra, e eu mesma tinha me convencido de que abdicar da chupeta era conveniente e necessário. Marquei uma data, estabeleci um compromisso.

E o cumpri. O dia 29 de dezembro de 1988 foi o último no qual me permiti aproveitar desse acalanto artificial, desse enganoso prazer do se sugar um bico de seio plástico, que nada nos traz além de ilusões vazias.

Demorou muito mais tempo para eu perceber outras ilusões vazias, feitas de sonhos e expectativas que jamais se realizariam. Demorou muito mais tempo para eu perceber que, assim como não importava o quanto eu sugasse, nenhum alimento sairia da chupeta, não importava o quanto eu exigisse, aos prantos ou aos gritos, amor de quem deveria, por "obrigação social" me dirigir este sentimento, eu nunca o receberia.

Demorou para eu perceber que se vc precisa EXIGIR amor de alguém que o deveria dar voluntariamente, vc está a esmurrar uma parede achando que ela é uma porta: não importa o quanto vc bata, ela jamais irá se abrir. O amor deve necessariamente ser voluntário. Se quem o deveria te dar não o dá, de nada adianta se revoltar, protestar, gritar aos quatro ventos. Ou a pessoa te ama pq ela quer ou ela nunca te amará.

Demorou, muito, para eu perceber que de nada servia eu reclamar do desamor, falta de cuidados e descaso de minha mãe biológica. Nenhum protesto meu faria Regina "cair em si" e virar uma "boa mãe", pois ela já era uma péssima mãe antes mesmo de eu nascer, já tendo abandonado 2 filhas. Aliás, ela não pode ser chamada de uma "mãe boa" ou "mãe ruim" pois ela sequer atinge ao patamar de "mãe" para então ser adjetivada como "boa ou ruim".

Neste dia das mães, data comercial mas significativa para muitos, é como um ato de superação pessoal que, assim como aos 6 anos de idade resolvi, para todo o sempre, deixar para trás o vício da chupeta, tb procurarei deixar para trás o vício de me lembrar de Regina. Colocarei uma pedra sobre ela, assim como coloquei sobre a chupeta. A deixarei para trás, no passado, na lixeira, no esquecimento. Ela foi demitida por justa causa.

Minha mãe, a partir de hoje e para todo o sempre é Maria José Tomasella. E será dela que eu falarei quando disser a palavra "mãe". Já explorei à exaustão diversos dos motivos que me levaram a desconsiderar Regina, a deletá-la de minha vida. De hoje em diante, procurarei NUNCA MAIS me lembrar dela. E sempre que, de hoje em diante, os leitores aqui lerem a palavra "mãe", é de Maria José Pereira da Silva Tomasella que estou a falar.

Se com 6 anos meu dito já valia um escrito, aos 30 anos, meu escrito vale um compromisso. Pétreo. De hoje em diante, "Regina" é um assunto superado para mim. Ficará num passado triste que procurarei nunca mais revisitar.

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sábado, 27 de abril de 2013

O carro perfumado

Era 1995. Eu contava 12 anos e passava pela parte mais difícil de minha vida. Não por ter 12 anos e estar em plena efervescência hormonal. Mas por viver num ambiente muito pouco propício a um saudável desenvolvimento psicológico, de qualquer pessoa.

Morava à rua Pedro Pires, 427, Vila Carrão. O pior endereço, de longe, no qual já tive a má sorte de residir. Não pela localização, não pela casa, mas pelas pessoas q comigo moravam. Eu residia com minha ex-mãe, Regina, e com seu amásio, R. 

Certo domingo eu havia combinado com minha amiga Luciana, que estudara comigo na quinta série, e que não mais era minha colega, de irmos ao cinema do Shopping Aricanduva. Vivendo na megalópole "Sampa", bastante intimidadora para qquer tipo de deslocamento de uma pessoa inexperiente que poderia com muita facilidade "se perder para todo o sempre". Eu avisara no dia anterior a Regina deste combinado, e estava tudo certo para ela me levar ao shopping, eu encontrar minha amiga e com ela ver o filme enquanto Regina dava umas voltas e fazia umas compras por lá mesmo a tempo de eu sair da sessão e voltar com ela para casa. Tudo muito certinho.

Mas na manhã de domingo, não lembro ao certo o motivo, Regina resolveu que iria "me punir" por alguma coisa que eu havia ou não havia feito não mais me levando ao shopping. Chocada e em protesto, lhe disse algo como:

- Mas já estava tudo combinado! Já confirmei com a minha amiga que eu vou! Ela vai ficar muito brava se eu não aparecer!

Ao que Regina deu de ombros, e disse:

- Vá de ônibus!

Com frescos 12 anos, eu não tinha a menor idéia de como chegar de ônibus ao Shopping Aricanduva. E em 1995 ainda não havia internet como hoje, em que num simples click podemos tirar esta dúvida, nem nada que se parecesse com o GPS, ou Foursquare...

A discussão foi crescendo a um ponto em que percebi que Regina "amava mais" seu carro do que a mim, e que valorizava por demais seu próprio descanso, em detrimento de qualquer aspecto de minha vida. Eu tinha 12 anos, mas já era bem a mesma Fernanda que sou hoje. Num rápido lapso, pensando o que a poderia "abalar" e fazer capitular, subi as escadas como um raio, entrei em seu quarto e, bufando, tranquei a porta. Pensando em que tipo de retaliação lhe poderia fazer, vi em cima do gaveteiro contraposto ao espelho seu único vidro de perfume, enquanto Regina esmurrava a porta.

O peguei, fui até a varanda que dava para a garagem no andar de baixo e comecei a gritar, com todo o destempero do peito aberto de uma adolescente:

- Você ama essa p***a deste carro muito mais do que a mim! Quer saber, já que vc ama tanto a p***a deste carro, vou encher ele de perfume!

Regina, vociferava a esta altura já da garagem, do andar de baixo. Lembro-me até hoje do exato tom de azul bebê daquele frasco de "Tathy" do Boticário enquanto eu percebia: "se eu tacar o perfume fechado no carro, vai espatifar o para-brisa, ou amassar o capô, e isso vai dar uma merda enorme!" Então, inteligentemente, não taquei o vidro fechado sobre o carro, desenrosquei a tampa e, com prazer venenoso, despejei todo o seu conteúdo sobre o capô, enquanto Regina assistia boquiaberta.

- Agora seu carro tá bem perfumadinho!

Enquanto Regina subia e descia as escadas maniacamente, esmurrando a porta de vez por outra enquanto berrava descontroladamente coisas absurdas de qualquer mãe dizer a uma filha, peguei o telefone de seu quarto e liguei para Luciana:

- Minha mãe tá dando chilique aqui em casa e não vai mais me levar pro cinema, não vou poder ir.

Luciana, que também tinha seus problemas, me compreendeu, e disse:

- Vou pedir pra minha mãe passar na esquina da sua casa 13:30. Se vc puder sair, esteja lá e minha mãe te leva!

Lhe dei mil agradecimentos e falei que faria o possível. Num dos intervalos em que percebi que Regina estava no andar de baixo, rapidamente destranquei a porta, corri pro meu quarto e tranquei a minha porta. Peguei minha mochilinha com minha carteira, dinheirinho e documentos e fiquei "de tocaia". Ela veio esmurrar minha porta mais uma ou 2 vezes enquanto gritava impropriedades. Uma hora depois, ainda em tempo de ir ao cinema, ouvi o barulho do chuveiro no andar de baixo. Como seu amásio não estava em casa, percebi que Regina estava momentaneamente "fora de combate", peguei minha mochilinha, minha chave, e saí.

Esperei por mais de uma hora na esquina até que o carro da mãe de Luciana parou para me pegar. Consegui controlar o choro e quando ela me perguntou o que tinha acontecido, disse:

- Prefiro não falar sobre isso. Vamos mudar de assunto.

Sua mãe nos deixou no shopping, lhe deu um beijo, 20 reais, e disse:

- Me liga quando terminar a sessão que em meia hora eu te pego aqui mesmo.

Muito sorridentes e independentes, fomos ao cinema e vimos à (péssima) fita Debi & Loyd. A final do filme, enquanto íamos ao banheiro, disse a Luciana:

- Eu não queria voltar ainda pra casa, podemos ver mais um filme?

Ela me deu um meio sorriso de comiseração, daqueles que a gente nunca gosta de receber, e disse que tudo bem, ainda eram 4 horas, cedo, mas que tinha que ligar para sua mãe para avisar, se não ela ficaria preocupada.

Depois de ligar, me disse se eu não devia também ligar para minha mãe, pois ela poderia se alarmar com minha "demora extra", ao que eu disse que não era necessário. Voltamos ao cinema e assistimos à (razoável) fita "Ninguém Segura Este Bebê".

Saímos, muito alegres, ela ligou para sua mãe vir nos buscar, comemos alguma coisa, e quando fomos ao lugar combinado, percebi que já era noite. Enquanto sua mãe tomava o caminho da minha casa, me passaram na cabeça mil cenários do que poderíamos encontrar, afinal, eu saíra antes do almoço sem avisar, eu tinha 12 anos, e já era noite. Teria Regina chamado a polícia para me reportar como desaparecida? Teria Regina "convocado" familiares ou psicólogos para uma intervenção? Estaria ela me esperando sentada no sofá, com o pezinho balançando, para uma "conversa séria e definitiva"?

A mãe de Luciana me deixou na esquina e dei um suspiro de alívio ao perceber que não havia nenhuma viatura na porta de casa. O carro de Regina continuava na garagem, exalando um cheiro nauseante de Thaty. Girei minha chave na porta de entrada com um calafrio, de se daria de cara com ela na sala. Ufa! Não! Ninguém na sala.

Rapidamente corri pelas escadas, e enquanto passei pela frente de seu quarto com a porta fechada, ouvi que sua TV estava ligava. Corri e me tranquei no meu quarto, o sangue gelando nas veias: se daria tempo de trancar a porta antes que ela invadisse o recinto e me batesse. Tranquei e sentei no chão, contra a porta, com a certeza de que logo ela viria me dar um sermão de como ela tinha ficado preocupada e desesperada com o meu sumiço. Um, 2, 3 minutos, nada.

Fui para a cama, repassando os acontecimentos do dia. Meia hora, uma hora, 2 horas, nada!

Depois foi 1 dia, 2 dias, uma semana, nada! Ela simplesmente nunca mais tocou no assunto.

Eu tinha 12 anos mas já sabia que a pessoa responsável por ter "conversas sérias" comigo estava pouco se lixando em ter "conversas sérias" comigo e me dar orientações para a vida. E que a pessoa que mais deveria "se preocupar comigo" e cuidar de mim estava pouco se lixando para qualquer coisa minha.

Este foi o pior endereço em que morei e as pessoas que comigo lá moravam as que tive a maior infelicidade em conhecer. Esse foi o período mais triste de minha vida.

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sábado, 20 de abril de 2013

De Orlando Nunes

Nunca estive na presença de Orlando Nunes José, nem sei se este é seu nome de "pessoa física". Caso ele chegue a este texto e queira que seu nome seja suprimido, trocado pelas iniciais, basta deixar um comentário.

O conheci em 2005, na comunidade Perguntas Cristãs Complexas. Era uma comunidade do Orkut de debates religiosos que se distinguia por sua proposta democrática, variedade de participantes, pluralidade e pelo elevado nível dos debates. Mais do que tudo, era um espaço único, no qual pessoas de diferentes credos podiam interagir, comparar seus dogmas, ver os pontos fracos e fortes de cada vertente teológica.

Os debates eram muito variados. Desde temas do "dia a dia" como sexo, vestuário, alimentação, comportamento e política, até pequenas abstrações filosóficas impalpáveis, mas teologicamente essenciais.

Nessa época eu me classificava como "espírita kardecista". Ainda o digo quando perguntada por alunos. Foi no período de amadurecimento teológico durante o qual participei desta comunidade que me descobri Noachide. Na comunidade, ao assim começar a me dizer, os membros entendiam a o que eu me referia. Seu eu me declarar "filha de Noé" aos meus alunos, seria muito difícil fazê-los entender do que tal se trata. E o Noachidismo pode nem ser considerado uma "religião", mas uma derivação do Judaísmo.

Orlando Nunes era calvinista. Protestante histórico seguidor de João Calvino, o célebre reformador franco-suíço. Se destacava por ser, ou aparentar ser, uma pessoa madura, equilibrada, pluralista, e de profundo conhecimento teológico. Por sua postura sempre ilibada, todos os membros lhe dedicavam o mais alto respeito, eu inclusa. Até o admirava por sua seriedade e simpatia.

Ainda na PCComplexas tivemos alguns debates memoráveis. Um ponto que exploramos até a exaustão foi se, ao ser suspenso no madeiro (a cruz) o corpo de Jesus se tornou maldito, conforme:

Deuteronômio 21:
22 Se um homem sentenciado à pena de morte, for executado e suspenso a uma árvore, 23 seu cadáver não poderá permanecer na árvore durante a noite. Você deverá sepultá-lo no mesmo dia, pois quem é suspenso torna-se um maldito de HaShem. Desse modo, você não tornará impuro o solo que o eterno seu D'us lhe dará como herança.

Gálatas 3:
13 Cristo nos resgatou da maldição da Lei, tornando-se ele próprio maldição por nós, como diz a Escritura: «Maldito seja todo aquele que for suspenso no madeiro.»

Orlando simplesmente não podia conceber a idéia de seu deus e messias ter se tornado maldito ao morrer. E, tecnicamente, Jesus foi suspenso num madeiro ao ser crucificado, tornando-se, assim "maldito" de acordo com as Escrituras, o que para ele era uma interpretação herética. Podia ser blasfema para ele, mas essa acepção tem amplo respaldo, com duplo testemunho, na Bíblia que ele próprio considerava sagrada. Também debatemos, provavelmente por meses, a questão do livre arbítrio, que os calvinistas negam existir, e que é fundamental para 90% das outras vertentes cristãs.

Debatíamos, discordávamos, refutávamos um ao outro. E ambos tirávamos grande prazer disso. Tudo ia muito bem até que o "clima político" da PCCplex foi pesando por diversas efemérides, mas especialmente por a proposta de "Democracia plena" não se concretizar, e algumas atitudes questionáveis do grupo de moderadores.

A coisa foi crescendo a um ponto que muitos dos membros "chave" pensavam em debandar em protesto. Nesta circunstância, Orlando Nunes me mandou um e-mail com uma proposta muito interessante: a de fundarmos nosso próprio espaço, convidando os dissidentes, uma nova comunidade de Perguntas Cristãs, essa sim democrática, aberta, plural e transparente.

Incluímos nesta troca de e-mails tb ao grande amigo que fizemos na PCX Alex "Aleph" de Paula, cristão evangélico neopentecostal da Assembléia de Deus. E Aleph prontamente aderiu ao projeto. Detalhe bastante significativo é que tanto Orlando Nunes como Aleph são pastores evangélicos certificados, ainda que não o exerçam. E ambos me viam em nível de igualdade com eles para dar início a um projeto, para nós, tão importante. Nem posso dizer como me senti honrada, em minha pequenez cheia de defeitos, de que pessoas com tão alto prestígio no "meio religioso" tanto virtual como físico, me vendo como "no mesmo nível" deles!

Tb convidamos para ser membro fundador conosco ao biólogo, naturista, defensor dos Direitos Humanos, budista e jedi Arthur "Dogbert" Golgo Lucas, mas por uma série de desencontros virtuais, ele se tornou membro, mas não com tanta participação.

Nas conversas por e-mail entre mim, Orlando Nunes e Aleph foi decidido que "reciclaríamos" uma comunidade quase inativa do Orlando Nunes, a "Cristianismo Puro e Simples", a rebatizaríamos de "Religião & Vida", promulgaríamos regras democráticas (a parte de criar esta legislação ficou, com muito gosto, na minha responsabilidade), convidaríamos os membros da PCC-plex e de outras comunidades de debate religioso, fazendo da nossa comunidade o que a PCComplexas deveria ter sido.

No começo, foi tudo muito bem. A comunidade bombou. Muitos membros de outras comunidades além da PCComplexas aderiram e participavam ativamente da nossa. Nessa época, eu já trabalhava, e não podia mais, como antes, dar longos plantões nos debates de que tanto gostava. Mas diversos tópicos interessantes pululavam em comentários. Rapidamente a comunidade ultrapassou mil membros. Até moderadores que haviam motivado nossa saída da PCX "faziam as honras" de ir até nossa comunidade para debater conosco. Na nossa comunidade, as regras que eu elaborara e colocara em votação protegiam a liberdade de expressão de todos muito melhor que as regras da PCX que nos haviam feito sair de lá.

Ainda nessa época em que tudo eram flores, eu estive em São Paulo, e conversei com o Orlando para nos encontrarmos pessoalmente. Falei com ele ao telefone, combinamos de finalmente nos conhecer no Conjunto Nacional, na esquina da Avenida Paulista com a rua Augusta. Perto da hora acertada fui a um Cyber Café, só para "dar um tempo" e vi uma mensagem sua com alguma desculpa ou justificativa de que ele não poderia ir. Isso deveria ter levantado um sinal de alerta, mas não o percebi. O coloquei na conta dos "bolos comuns" que as pessoas nos dão por conta de algum "imprevisto", e não mais me preocupei a respeito. Deveria.

Tudo continuou a ir muito bem na comunidade... Até que... Começaram a surgir os problemas. Orlando começou a demonstrar incômodo com o teor e o rumo "liberal", "blasfemo" ou "não edificante" (no seu ver) dos debates. Começou a criticar os demais moderadores e a querer "mandar mais" que eu e o Aleph. Com nossos protestos, Orlando tirou da manga o trunfo que jamais pensei que tinha guardado: que ele era o "dono" anterior da comunidade, portanto, ela lhe pertencia mais do que a nós.

Debatemos isso num tópico. Sabendo que ele estava a usar um argumento falacioso, copiei e colei os trechos dos e-mails que trocamos combinando os termos da fundação da R&V. E ressaltei em negrito todas as vezes que ele colocou, por escrito, "NOSSA comunidade". E lhe disse: "se em cada vez que vc escreveu NOSSA COMUNIDADE vc tivesse escrito MINHA COMUNIDADE, eu não teria aderido ao seu projeto."

Ao invés de perceber seu erro, ele ficou "ofendidinho" por eu estar divulgando o teor dos e-mails que havíamos trocado. Logo o Aleph renunciou ao seu posto de moderador. Em solidariedade a ele e por já estar bem de saco cheio de tudo aquilo, muito frustrada e me sentindo lograda, tb renunciei, no mesmo dia. Orlando manifestou estar se sentindo traído.

Depois disso meio que "larguei mão" e não ia mais todo dia lá debater, apenas dava uma "conferida no fórum" esporádica, sem me engajar muito. Depois de um tempo, não sei bem como ou pq o próprio Orlando renunciou a prosseguir moderando "nosso/seu" grupo, repassando-o a outros moderadores. Por vários meses assim ficou a comunidade.

Até que... Sumiu!

Demorou para cair a ficha. Por algumas semanas, eu entrava no Orkut, acessava o link dos favoritos da R&V e ele simplesmente não abria. Eu tinha certeza que era algum erro temporário até que entrei em contato com Jarson Brenner e ele me disse o que havia acontecido. Inadvertidamente Orlando Nunes havia, não sei tecnicamente como, reativado sua condição de "dono" da R&V e simplesmente a DELETADO. Sem explicação, sem justificativa, sem saída, sem registro. Por debaixo dos panos, ele havia desaparecido sumariamente com uma comunidade muito ativa, deixando órfãos, perdidos e desnorteados seus mais de mil membros. Que nome se dá a isso?

Me falaram que o Orlando provavelmente tencionava se tornar um "líder religioso" e fazer da R&V "sua congregação virtual ", na qual ele arregimentaria adeptos para sua visão teológica. E quando viu falhar o projeto de fazer dessa comunidade seu "trampolim" para construir um bom nome no meio religioso, decidiu, sumariamente, deletá-la, sem nenhum respeito aos membros ativos e aos membros fundadores, que tantas horas e tanta dedicação haviam destinado a esta comunidade virtual.

Nem sei se consigo adjetivar de forma justa este ato, nem como ele me surpreendeu da pior forma possível. Por todos os anos de convivência com Orlando, pelo tanto que eu o respeitava e achava que o conhecia, e pelo próprio discurso que ele fizera quando da fundação da comunidade, nenhum de nós suspeitava que ele seria capaz de um ato tão baixo, tão vil. Eu não havia jamais visto nenhum "sinal de alerta" de que ele seria capaz de nos dar uma rasteira tão inesperada.

Orlando Nunes foi a pior decepção que já tive na Internet.

De certa forma, ter uma boa memória pode ser considerado uma maldição...

Lara Fabian - Love by Grace http://youtu.be/Kjqa_Csf29Q

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sábado, 6 de abril de 2013

De Guedes

Spoil alert: não leia caso não queira se decepcionar com minhas pequenezes adolescentes.

Era 1998. Eu tinha 15 anos e acabara de entrar no Ensino Médio. Estudava na EE Prof. José Marques da Cruz, na Vila Formosa, zona Leste de São Paulo, capital.

Na oitava série, eu completara o Ensino Fundamental ao lado de meus até hoje muito amigos Maristela, Romeu, Gisele e Thaís. Na passagem para o Colegial, Thaís e Gisele se matricularam em outras escolas, mas Romeu e Maristela se matricularam no "Jomacruz" junto comigo, e caímos na mesma sala. Rapidamente nosso "trio parada dura" virou um "quarteto fantástico" com a adição de Francisco Eduardo, o "Chico" ou, para mim, "Chicote".

Em nossa sala de aula havia pelo menos outros 30 alunos, e um deles demonstrava profundo interesse em se tornar o "quinto elemento" do nosso quarteto: TGO, adiante denominado "Guedes", seu apelido, pelo qual já o chamávamos à época.

Os 2 membros masculinos de nosso grupitcho são homossexuais, e embora à época fossem um tanto "jovens demais" para fazer uma corajosa "saída do armário", já era perceptível, e nenhum dos dois disfarçava, que "aquela Coca era Fanta". Também o Guedes era homossexual, mas bem mais afetado que os dois: era, desculpem-me a expressão, uma "bichona", bem efeminada.

Mas, surpreendentemente, seu alvo de interesse em nosso grupo não era nem Chico nem Romeu, mas eu. Não fosse o Guedes gay, eu pensaria que ele estaria com alguma paixonite por mim. E até me perguntaram isso certa vez, ao que respondi:

- O Guedes não quer namorar comigo, ele quer SER EU.

Ele me imitava, adulava, babava meu ovo, ria de tudo o que eu falava, e também o levava tudo muito a sério, puxava meu saco, até um ponto que chegava a ser irritante. Essa sua subserviência me incomodava. Era chato falar as coisas sabendo que ele não as analisaria, simplesmente as aplaudiria, nunca discordaria de mim, nem me enfrentaria, em nada. Não era isso, definitivamente, o que eu procurava em um amigo. Eu procurava pessoas "firmeza", interessantes, com personalidade. E Guedes era um "Maria vai com a Fernanda", que nada me acrescentava.

Eu tinha 15 anos e a maturidade psicológica de uma ervilha, e não me orgulho hoje do que relatarei a seguir.

Percebi que eu poderia "me aproveitar" do "rabinho sempre abanando" deste candidato a amigo. Então lhe disse: "tá bom, se vc quer ser meu amigo, então de hoje em diante vc vai carregar minha mochila e meu material." E ele aquiesceu com um sorriso, como se tivesse sido promovido a minha "dama de companhia". E por várias semanas eu tive um courier, sempre a postos para carregar minhas coisas.

Até que o Guedes fez ou falou alguma coisa que eu não gostei, não lembro exatamente qual foi o motivo, e eu decidi que não queria mais amizade com ele. Mas ele continuou a insistir que queria ser "readmitido" no grupo. Conforme ele não cansava de apelar a Maty, Romeu e Chico, resolvi fazer o seguinte: estipular condições que ele não aceitaria pro prosseguimento de nossa amizade. À época já fumávamos, todos, e eu impus como condição: para falar comigo, ele teria que me entregar toda segunda feira um maço de cigarros, o que garantiria que eu falasse com ele durante a semana.

Eu achava que ele ia rir e falar "de jeito nenhum", finalizando a questão. Mas para minha grande surpresa ele topou, e por algumas semanas eu não precisei mais me preocupar em comprar cigarros, pois o Guedes mos dava, em troca do simples prazer de poder falar comigo.

Eu o destratava, era irascível com ele, na esperança que ele se posicionasse: "estou farto, chega!" Mas não, ele alegremente me entregava um maço de cigarros toda semana e ainda solicitamente se oferecia para carregar meu material, o que só aumentava minha exasperação.

Então resolvi endurecer ainda mais "as condições" para eu "me dignar a dirigir-lhe a palavra": um maço de cigarro não bastava, daquele dia em diante, eu queria semanalmente um maço de cigarro mais 10 reais. E em 1998 R$10,00 era muito mais do que "déis real" hoje...

Eu esperava que ele dissesse "No Way", mas mais uma vez, para meu assombro, ele aquiesceu. E eu simplesmente não acreditei quando na segunda feira seguinte, ele me entregou logo ao me ver à 6:55 da matina, o maço de Marlboro Lights mais uma nota novinha de "dez conto". Também disso desacreditaram Chico, Romeu e Maristela.

Nenhum deles comigo, por "minha amizade estar à venda", pois minha amizade nunca esteve à venda, mas com a absoluta falta de dignidade do Guedes em aceitar as condições absurdas que eu estipulava. Pois amizade, por definição, deve ser incondicional.

Provavelmente o Guedes achou que aqueles dez reais lhe garantiriam meus sorrisos e simpatia, o que não ocorreu: prossegui a desdenhá-lo. Ao final da terceira semana ele finalmente disse que estava farto, e não daria prosseguimento ao nosso "escambo" de afinidades. Fiz um "Ufa!" interno, pois se ele jamais tomasse uma posição, eu só prosseguiria em minha escalada de condições cada vez mais absurdas, e talvez na próxima semana eu passasse a lhe cobrar 20 reais mais o sagrado maço de cigarros.

Ele parou de me adular e de insistentemente tentar entrar em nosso grupo, e jamais vi qualquer outro motivo para readmiti-lo. Eu não via nele nenhuma "substância", "desafio", "personalidade" ou "doçura" que me fizesse querer me aproximar. Eu não via nele nada de "interessante", ou diferente. Eu não via nada que ele pudesse "me acrescentar". Eu nunca quis um "puxa-saco" nem um séquito, uma entourage, de aduladores. E era justamente esse papel que Guedes queria ter, o que muito me irritava. Não me importava que ele fosse gay, queria que ele fosse "homem", uma pessoa com dignidade e auto-respeito.

Sempre fui cheia de "marra" e personalidade, e de certa forma eu sentia que o Guedes me vampirizava, imitava meus trejeitos e gírias, elogiava tudo meu, emulava minha postura, como que planejando ser uma "versão drag" de mim... Ele me achava "o máximo" e, para mim, isso era um pecado mortal, pois nisso eu percebia que ele não me elogiava "de verdade", pois não importava o que eu fizesse, para ele era tudo maravilhoso.

Depois de me formar no terceiro colegial, nunca mais vi o Guedes, mas soube por amigos que o encontraram vez ou outra "na noite" e pelos dark rooms da vida, que após eu já estar bem adentrada no curso de História na USP, também o Guedes estava a fazer o curso de História, mas na UNG (Universidade de Guarulhos). Nunca pude tirar a dúvida se era simples coincidência, mas sinceramente creio que não. Acho que ele se matriculou em História apenas depois de saber, e apenas porque soube, que eu estava a fazer esta graduação.

Não sei se ele se formou, nem se hoje é professor como eu. Hoje me sinto um pouco culpada pela forma como o tratei. Vendo de hoje, percebo como foi completamente absurdo estabelecer condições para ser sua amiga. E como foi surreal que ele tenha "topado" isso. Sinto que talvez ele fosse um garoto muito perdido, e visse em nosso grupo o único que o aceitaria sem levar em conta sua sexualidade.

E nunca foi sua condição sexual que me incomodou: mas sim sua subserviência. Provavelmente ela fosse fruto de uma baixa auto-estima, e se eu tivesse naquela época minha cabeça de hoje, teria procedido de forma muito diferente a respeito dele.

Às vezes me pergunto como estará o Guedes hoje, inclusive me questionando se ele está vivo. Quando estávamos no colegial, ele era obeso. E depois, quando já ambos na graduação, soube pelos que o encontraram na "cena gay" que ele estava assustadoramente anoréxico, e provavelmente envolvido com químicos pesados.

Gostaria de saber que rumo ele levou, se se tornou uma pessoa mais confiante e assertiva, qualidades minhas que eu creio que ele ambicionasse. Se concluiu a faculdade, no que ele trabalha, se continua a frequentar os "inferninhos", ou se transformou-se radicalmente, para um rumo inimaginado. Se ele encontrou pelas veredas da vida "outra Fernanda" na qual se espelhar, e se outras vezes se submeteu às coisas que o fiz passar, se de outras pessoas ouviu calado as "desancadas" que com tanto venenoso prazer eu lhe dispensava.

E qual tipo de desdobramento esses fatos tiveram em sua vida, no que tudo isso resultou, para o bem ou para o mal.

Chico Buarque - Sinal Fechado https://www.youtube.com/watch?v=949SuBskT2U

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