quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Legiao Urbana - Indios

Quem me dera ao menos uma vez
Ter de volta todo o ouro que entreguei a quem
Conseguiu me convencer que era prova de amizade
Se alguém levasse embora até o que eu não tinha.

Quem me dera ao menos uma vez
Esquecer que acreditei que era por brincadeira
Que se cortava sempre um pano-de-chão
De linho nobre e pura seda.

Quem me dera ao menos uma vez
Explicar o que ninguém consegue entender
Que o que aconteceu ainda está por vir
E o futuro não é mais como era antigamente.

Quem me dera ao menos uma vez
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
Fala demais por não ter nada a dizer.

Quem me dera ao menos uma vez
Que o mais simples fosse visto
Como o mais importante
Mas nos deram espelhos e vimos um mundo doente.

Quem me dera ao menos uma vez
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês
Sua maldade, então, deixaram Deus tão triste.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda
Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim.

E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.

Quem me dera ao menos uma vez
Acreditar por um instante em tudo que existe
E acreditar que o mundo é perfeito
E que todas as pessoas são felizes.

Quem me dera ao menos uma vez
Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos, obrigado.

Quem me dera ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente.

Eu quis o perigo e até sangrei sozinho
Entenda
Assim pude trazer você de volta pra mim
Quando descobri que é sempre só você
Que me entende do início ao fim.

E é só você que tem a cura pro meu vício
De insistir nessa saudade que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.

Nos deram espelhos e vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui.

Renato Russo

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Quadrilha - Carlos Drummond de Andrade



João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O Brasil é um país cheio de boas intenções

Nascer no Brasil é uma verdadeira bênção, constantemente pouco reconhecida. Não é à toa q inúmeros estrangeiros escolhem aqui morar. Clima tropical, solo fértil, povo acolhedor, oportunidades múltiplas. Seguramente nem tudo é bom, como exemplos: a corrupção, péssimos serviços públicos, pobreza, criminalidade.

Creio q grande parte dos problemas brasileiros são resultado de um descompasso, uma falta de sintonia, entre a "alta cultura" dos eruditos e a "cultura popular" da "plebe", algo profundamente marcado pelas questões étnico-raciais entre "brancos" e "negros".

Tanto "brancos" como "negros" entre aspas pois os "brancos" muitas vezes não são propriamente brancos, mas o querem ser, e os "negros" muitas vezes não se vêm como negros, devido à grande miscigenação e racismo não-declarado; preferindo ver-se como "semi-brancos". Inúmeras vezes me vi diante de pessoas claramente negras q se declaravam brancas, e se ofendiam se alguém lhes dissesse q não eram brancas.

Como dizia um professor meu, "nos EUA uma gota de sangue negro faz de alguém aparentemente branco um negro. No Brasil, uma gota de sangue branco faz de alguém aparentemente negro um branco."

A elite branca brasileira parece posicionar-se sócio-culturalmente como se estivesse numa "missão civilizatória" visando "melhorar, instruir, ou educar" a "plebe inculta e mestiça". E isso pode ser demonstrado por esta elite tentar "iluminar o povo com a alta cultura (européia, é claro)". Neste texto explorarei 2 exemplos disto: nosso hino nacional e nossos parâmetros curriculares federais.

Numa avaliação internacional feita por músicos e maestros, o Hino Nacional Brasileiro foi eleito como o segundo mais belo do mundo, atrás apenas de "La Marseillaise", o célebre hino francês. Seguramente é belíssimo nosso hino. Porém, tem um "pequeno" problema: poucos brasileiros o sabem cantar.

Este hino é cheio de palavras belíssimas, como plácido, fúlgido, impávido, clave, flâmula, brado etcs. Termos eruditos completamente estranhos ao "povão". Sua melodia é riquíssima, mas não reflete nenhum ritmo brasileiro, popular. Não há nada em nosso hino nacional q faça "o povo brasileiro" se identificar com ele. O hino não foi feito pelo povo, nem para o povo. Mas sim pela elite, para a elite.

Muitos acham q o povo brasileiro não conhece nem canta o hino por falta de patriotismo. Creio q o problema é outro. O povo não o canta pois não se reconhece nele, não sente q este hino seja verdadeiramente "nacional", mas apenas representa aquela parcela "branca, educada, elitista" da população. Há um claro descompasso entre as aspirações, o folclore, a lírica e a musicalidade populares, em relação às representações "oficiais" da cultura brasileira. O hino não atende ao povo, por isso ele o rejeita.

Outra demonstração clara do desencontro entre as intenções da elite e as aspirações do povo são os Parâmetros Curriculares Nacionais para a educação pública. Sou professora de História e usarei esta disciplina como exemplo.

O Currículo educacional brasileiro é tão maravilhoso quanto nosso hino. Muito bem-estudado, elaboradíssimo, abarca todo o conhecimento da História Universal, do ponto de vista europeu. Lendo-o me perguntei: "provavelmente quem escreveu isso é PhD em Coimbra, Oxford ou Harvard". E produziu parâmetros visando colocar os alunos brasileiros em condições de disputar vagas nestas instituições.

De acordo com estes parâmetros, eu deveria formar alunos na oitava série, com 14 anos, na posse de todo o conhecimento da História Universal, desde a pré-História até o fim da Guerra Fria. Q maravilha! Quem lê este documento ACHA q isto é posto em prática, transformado em realidade. Vã ilusão.

Os alunos estão "se lixando" para a Grécia, Roma, o Feudalismo, a Revolução Francesa. Nada disso faz parte do seu cotidiano e seu horizonte cultural. Querem aprender coisas palpáveis, práticas, úteis. E essas coisas não fazem parte do currículo.

A disciplina de "História" tenta fazer do aluno um mini-historiador, e não ensinar-lhe sobre cidadania, Direitos Humanos, relações inter-raciais. Não procura, em nenhum momento, ensinar a instrumentalizar o conhecimento histórico para a compreensão do hoje. Não há nenhum conteúdo q me instrua a ensinar-lhes sobre documentos, imposto de renda, política, atualidades, as coisas q os estudantes realmente precisam e querem aprender.

Ao invés de educá-los para a vida e a cidadania, os PCN's me dizem q eu devo prepará-los para o vestibular da USP. O "pequeno" problema é, como todos sabem, q raramente um aluno egresso de escola pública entrará na USP. Seguramente, menos de 1 por sala. E em prol deste 1, q entraria na USP de qquer forma, eu sacrifico os outros 40, q deixam de aprender coisas úteis para "perder tempo" não aprendendo coisas q, para eles, seriam muito úteis.

Outro exemplo é a disciplina de Química, q tenta fazer dum aluno um mini-químico, calculando elétrons, ligações covalentes e mols. Em nenhum momento pretende prepará-los para usar estes conhecimentos no cotidiano. Nada lhes ensina sobre higiene pessoal, limpeza doméstica, farmacologia e interação medicamentosa, agricultura e pesticidas. Os alunos perdem tempo não aprendendo a ser mini-químicos, enquanto poderiam estar aprendendo química instrumental, para usar no dia-a-dia, beneficiando sua saúde.

Os burocratas, q ganham como juízes, e trabalham em Brasília no ar condicionado, representantes da "elite branca" não vêm a realidade pois nunca deram sequer uma aula na rede pública. Quem realmente sabe do q está falando, pois lida cotidianamente com a realidade existente e não imaginada, freqüentemente manifesta os problemas curriculares.

Apenas para obter como resposta q o currículo é ótimo, foi elaborado por um PhD pela Sorbonne, e q se ele não funciona é por incapacidade dos professores. Meio q dizem "quem são vcs, meros professorinhos da rede pública, para achar q podem dizem para nós, professores doutores, o q deve ser ensinado?"

Respondo: "nós somos aqueles q têm CONHECIMENTO DE CAUSA para falar disso, somos nós que ensinamos, somos nós q sabemos o q funciona e o q é ruim. Vcs, burocratas de terno italiano e sapatos Louboutin, não têm a menor idéia da realidade. Vcs criam leis para um país q não existe." Estes burocratas podem estar cheios de boas intenções, mas elas mais atrapalham do q ajudam quem de fato trabalha no dia a dia escolar.

É necessário romper com essa noção de q a elite deve "civilizar" a plebe inculta. O povo não precisa "ser civilizado na cultura européia", mas instrumentalizado para serem agentes interventores e conscientes na realidade brasileira.

Não é o povo q tem q "melhorar" para poder cantar nosso elaboradíssimo hino. É o hino q tem q ser mudado para refletir a cultura, e o povo brasileiro. Não são os estudantes, nem os professores, q têm q "melhorar" para cumprir o currículo. São os PCN's q têm q melhorar para atender as demandas dos alunos, para ensinar-lhes coisas úteis, cotidianas, e não abstratas, distantes, estranhas à cultura brasileira.

As "boas intenções" são ótimas até falharem no teste da realidade. Até percebermos q elas apenas aparentam ser boas. Na verdade são perniciosas, pois nos fazem desperdiçar anos e anos digressando sobre Roma enquanto os alunos não sabem a diferença entre o CPF e o RG, não têm a menor idéia do q é carga tributária, quais são seus direitos trabalhistas e pq são obrigados a votar a cada 2 anos.

Como diz o famoso ditado "de boas intenções o inferno está cheio", pois não basta ter "boas intenções"; é necessário q, no teste prático, elas sejam validadas como boas. Se o teste prático não as valida, estas intenções mais são uma camisa de força q limita as ações dos professores, q se vêm como um Napoleão de hospício, digressando longamente sobre assuntos q, para os alunos, são tresloucados, irreais e inúteis.


domingo, 21 de outubro de 2012

Aprendendo com a diplomacia de Oswaldo Aranha

Poucos conhecem a importância da ação deste diplomata brasileiro na criação do Estado de Israel. Todos os anos é realizada a Assembléia Geral da ONU, q sempre é inaugurada com o discurso do presidente do Brasil. Isso não ocorre por a ONU considerar q o Brasil seja "importante", mas por tradição, em honra à ação de Oswaldo Aranha, q foi a primeira pessoa a discursar na Assembléia Geral, quando de sua fundação.

Sem a ação positiva de Oswaldo Aranha, a resolução da criação do Estado de Israel talvez nunca tivesse sido aprovada pela ONU, e hj não haveria Aliyah (retorno dos judeus a Eretz Israel). O protagonismo de Oswaldo Aranha é relatado neste texto, q cito em parte.

"Tão logo abriu a sessão, Oswaldo Aranha percebeu que com aquela presença no plenário, a proposta da UNSCOP não iria alcançar o elevando quórum necessário para sua aprovação. Estava se desenhando no horizonte a tão temida quarta-feira negra: a rejeição da partilha. Os judeus depois de uma vivencia de 1.812 anos sem-Estado teriam perdido a primeira grande chance de soerguerem-no na Palestina britânica, anos depois de poderem recriar o seu país na terra bíblica. Momento sumamente sombrio, depois tantas perseguições, tanto sofrimento. Pesado silencio dos judeus se contratava com a exaltada alegria dos inimigos da Partilha.

"Mas numa faísca de iluminada lucidez, Oswaldo Aranha encontrou uma saída legitima para impedir a implosão do direito de autodeterminação dos povos. Aconselhou aos membros da Agência Judaica sair em busca do aumento do número de oradores inscritos na sessão. Assim, quando os inimigos de Israel começaram a exigir em coro a imediata votação, Oswaldo Aranha declarou solenemente: “Senhores, temos uma lista de oradores”. E exatamente no horário marcado para encerramento da sessão, Aranha solenemente se levantou e disse: “Senhores, nós tivemos um longo e dramático dia sobre as demandas históricas sobre o que foi proposto. Suspendo a sessão até a manhã de sexta-feira (no dia seguinte, quinta, era feriado nacional, Dia de Ação de Graças...).

"Com o singelo e simples conselho, Oswaldo Aranha conseguiu evitar que ocorresse a quarta-feira negra para os judeus. Destarte, no dia de 29, sábado de quando veio a ocorrer a votação, resultou a aprovação da proposta da Partilha, com 33 votos a favor, 13 contra, 10 abstenções. Nahum Goldman, membro da delegação, declarou que Aranha salvara a Partilha. Posteriormente, seria outorgado a ele, post-mortem, em sinal de agradecimento de Israel, a medalha Ben Gurion." fonte: http://www.visaojudaica.com.br/Novembro2007/artigos/19.html

Reflexão:

Não são apenas pessoas com cargos de destaque q carregam a responsabilidade de fazer a coisa certa na hora exata. Cada um de nós tem capacidade e somos apresentados à possibilidade de ajudar aos outros, quando a oportunidade se apresenta. Da mesma forma q Oswaldo Aranha teve lucidez e paciência para esperar o momento correto de agir para ter o melhor resultado possível, devemos ter sua perspicácia e inteligência para saber o momento e a forma correta de fazer as coisas.

Para quem não sabe, a definição de "política" é: "a arte de conviver com os diferentes" ou "a capacidade de conciliar interesses divergentes". Não são só "os políticos" q fazem política, todos nós a praticamos, ou deveríamos, em prol da harmonia, da convivência, do "bem geral". Se Oswaldo Aranha não tivesse a inteligência e o senso de oportunidade de adiar a votação sob sua responsabilidade, ou se tivesse dito "na verdade, não quero votar hj pois hj a resolução seria pró-Palestina e eu sou pró-Israel", não haveria Israel.

Diplomata experiente ele sabia, como um toureiro, q enfrentar o problema de frente, em desigualdade de forças, teria um mal resultado. Da mesma forma q o toureiro usa sua capa para direcionar o ataque do touro para longe de si, por saber-se mais fraco fisicamente, Oswaldo Aranha "deu uma volta" nos anti-sionistas. Sabia q não poderia enfretá-los de "peito aberto", mas poderia usar sua diplomacia e senso político para esperar a melhor oportunidade para agir. E assim, vencer.

Quando cada um de nós se vê diante de um touro raivoso, mais forte e violento q nós, partindo para o ataque, enfrentá-lo diretamente numa batalha física não é a melhor estratégia. Devemos ter paciência, inteligência, saber o momento correto de dar um passo atrás e o de dar um passo à frente. Um touro pesa mais de meia tonelada, tem chifres de 1 metro e a testosterona de 30 homens. Um toureiro pesa 70 quilos. Porém tem algo q o touro é incapaz: a capacidade de controlar seu medo, sua raiva, de "prever" o comportamento dos outros, e agir não movido pelo instinto, pela emoção, mas pela razão, estudo e técnica.

Muitas vezes, quando "os outros nos atacam" ou falam mal de nós sentimos um ímpeto imediato de "colocar os pingos nos is", de "lavar nossa honra", movidos pelo instinto de auto-preservação, pela raiva, pelo medo. Ora, isso é enfrentar "o touro" de frente, em desvantagem de forças.

Ao perceber q a votação na quarta-feira negra seria contrária à criação do Estado de Israel, Oswaldo Aranha não manifestou sua discordância, não teve medo, não se precipitou. Sabia q naquele momento ele estava em desvantagem, respirou fundo, agiu de maneira política, adiou a resposta, e a decisão.

Quando nos vemos em uma discussão, tal como os debates q temos na comunidade Bnei Noach ( https://www.facebook.com/groups/246079458738548/ )e alguém publica algo q não gostamos, não devemos reagir movidos por nossos instintos. Devemos respirar fundo, agir politicamente, ter senso de oportunidade, paciência, diplomacia.

Numa frase: se qquer pessoa escrever algo q vc não gostou, espere pelo menos 24 horas antes de responder.

Isso fará a adrenalina baixar, vc pensar bem, ponderar as palavras, agir com inteligência, "manobrando o touro" disposto a usar da violência e, no caso humano, do desrespeito e falta de efucação. Como diz uma frase famosa "nunca devemos discutir com um ignorante, pq ele te arrasta ao nível dele e ganha por experiência".

Oswaldo Aranha não discutiu com os ignorantes. Teve "jogo de cintura", maturidade, temperança, para lidar com a situação.Contemporizou, esperou, e munido das armas corretas, racionais e lícitas, agiu num momento mais favorável e ponderado. O resultado de sua diplomacia é inestimável.

Q todos possamos aprender com o exemplo deste grande homem! Q saibamos ser diplomáticos, esperar o momento correto de agir e escolher as palavras corretas para atingir nossos objetivos. E q eles sejam bons!

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Na vespera de não partir nunca - Fernando Pessoa

Na véspera de não partir nunca
Ao menos não há que arrumar malas
Nem que fazer planos em papel
Com acompanhamento involuntário de esquecimentos,
Para o partir ainda livre do dia seguinte.
Não há que fazer nada
Na véspera de não partir nunca.
Grande sossego de já não haver sequer de que ter sossego!
Grande tranquilidade a que nem sabe encolher ombros
Por isto tudo, ter pensado o tudo
É o ter chegado deliberadamente a nada.
Grande alegria de não ter precisão de ser alegre,
Como uma oportunidade virada do avesso.
Há quantas vezes vivo
A vida vegetativa do pensamento!
Todos os dias sine linea
Sossego, sim, sossego...
Grande tranquilidade...
Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas!
Que prazer olhar para as malas fitando como para nada!
Dormita, alma, dormita!
Aproveita, dormita!
Dormita!
É pouco o tempo que tens! Dormita!
É a véspera de não partir nunca!

27-9-1934

Via Álvaro de Campos

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Pequenos detalhes determinantes

Pensei dar a este texto o nome "Do espanhol, ou de Civilization II" mas o título ficaria por demais enigmático. Pretendo neste texto expor como pequenos detalhes q acontecem durante nosso desenvolvimento podem ser determinantes em nosso futuro.

Nunca tive uma única aula de espanhol, ou castelhano, em toda minha vida. Contudo, alguns poderão auferir q por mais roto q seja meu portunhol, me saio muito bem na comunicação com interlocutores fluentes apenas nesta língua, seja oralmente ou por escrito. Já li livros inteiros em castelhano.

A compreensão desta língua veio-me como uma espécie de bônus dum costume q cada vez mais progressivamente cairá em desuso: a telespectação passiva de programas de TV. Com os avanços da internet e dos novos gadgets, as novas gerações não mais assistirão, passivamente, a milhares de horas de programação televisiva, como ainda faço.

Muitos acham, com certa razão, q "na TV só passa lixo". Mas mesmo no "lixo" podemos encontrar materiais úteis e reaproveitáveis.

Como boa brasileira, sempre fui noveleira. Como adolescente romântica e boba, tb acompanhava as novelas mexicanas q passavam no Brasil. Até q, zapeando naqueles "canais lixo" da TV a cabo, encontrei uma pérola: "El Canal de las Estrellas", a rede internacional da Televisa mexicana. Fiquei exultante pois não mais precisaria esperar q as novelas envelhecessem para só então serem transmitidas no Brasil: eu poderia assisti-las fresquinhas, diretamente da fonte. Em espanhol.

No começo, "boiei" bastante, pouco entendia. Mais acompanhava as imagens, expressões e situações do q compreendia aos diálogos. Porém, como assistia diariamente, a umas 3 produções diferentes, com o passar dos meses a barreira da língua caiu. Passei a compreender as falas, as coisas escritas, a identificar os falsos cognatos, expressões q não tinham correspondente em português, adquirindo a "musicalidade", o ritmo diferente q se usa ao falar em espanhol.

Alguns capítulos gravava, e até decorava. Percebi q as pessoas q o estudavam eram péssimas em espanhol e tinham forte sotaque pois articulavam sua fala como "brasileiros tentando falar espanhol". Compreendi q assim ninguém se torna fluente. É necessário criar um novo "diretório raiz" e nele inserir a língua estrangeira. E não, como a maioria das pessoas fazem, no diretório de sua língua nativa "abrir novas pastas" com as equivalências entre a língua q já se sabe e a q se está aprendendo. Não devemos "pensar em português" e então traduzir pro espanhol, mas sim pensar diretamente em espanhol. Apenas assim se compreende e usa a língua em sua plenitude, se apropriando de sua "equação gramatical única" e sua musicalidade específica.

Ao me ver assistindo essas novelas, meus familiares reviravam os olhos de forma condescendente, vendo nisso apenas infantilidade e perda de tempo. Não poderiam estar mais errados. E outro costume meu era visto da mesma forma: minha verdadeira compulsão pelo jogo Sid Meier's Civilization II.

Joguei a versão I, II, II Multiplayer, Call to Power e IV. De todas, a II sempre foi minha favorita. Gastei milhares, seguramente milhares, de horas nesse jogo. Era comum passar um dia todo jogando, até 12 horas seguidas, e só parar quando a tendinite no indicador direito me obrigava, pelos sucessivos cliques no mouse.

Acredito q essas milhares de horas foram fundamentais para o desenvolvimento da minha capacidade de articular pensamentos complexos e minha ampla memória "RAM".

Para quem nunca o jogou: em Civ II começamos com uma unidade, fundamos uma cidade e essa cidade produz novas unidades, de guerreiros e fundadores de cidades. Vc vai aos poucos iniciando novas cidades, ampliando seu "império", elas vão crescendo de tamanho, é preciso administrá-las, optar entre diversas formas de governo, adquirir novas tecnologias, guerrear com outros povos e conquistar suas cidades para, no final vencer de 2 formas: ou dominando o mundo ou chegando a Alfa Centauro com uma nave espacial.

Acredito q este jogo foi determinante no meu desenvolvimento mental pois para ser bem sucedido nele é necessário agir e pensar como um maestro regendo uma complexa sinfonia. Articular, equilibrar, orçar, apaziguar, planejar, negociar diplomaticamente, saber o tempo certo de fazer paz e guerra. Tudo isso como um malabarista, com muitas "bolas" em jogo. Se cada uma dessas "bolas" a não se deixar cair for uma de nossas cidades, podemos chegar a ter dezenas, ou até centenas delas.

E a cada novo turno é necessário lembrar-se de sua posição geográfica (num planeta com continentes sempre diferentes), seus planos para ela, o q ela está produzindo, se está em zona de guerra, se está em revolta ou precisa ser pacificada, suas rotas de comércio, quais instalações já foram nela construídas e quais precisam ser erigidas, quais têm "Maravilhas do Mundo", quais são mais suscetíveis a espionagem e subversão, e como cada um desses paradigmas se comporta em cada forma de governo.

Cada jogo pode levar dias, ou semanas. E a cada vez q desligamos o computador e vamos jogar no dia seguinte, é necessário o reboot imediato de todas essas informações, muito detalhadas. Falhas de memória ou incapacidade em manejar tantas informações complexas simultaneamente resultam na incapacidade de vencer, mesmo no nível mais fácil. E eu triunfei dezenas de vezes no nível mais difícil, no qual a inteligência artificial do jogo é verdadeiramente desafiante.

Acredito q foi justamente o jogar Civ II q lapidou ou treinou meus neurônios para articular coerentemente e simultaneamente informações complexas e até conflitantes. É o q me possibilita, por exemplo, ler um texto e às vezes parar numa espécie de "tilt" ao atinar "peraí, há umas 50 páginas atrás afirmaram uma coisa q não casa com o q está escrito agora". Ou então estudando a Torah perceber "hum, acho q essa lei de Deuteronômio dialoga com aquela outra lei de Levítico" e assim inferir conexões e reflexões não-óbvias.

É curioso perceber como estes 2 detalhes, essas 2 coisas q fiz por puro prazer, resultaram em ganhos q não previ. Por isso jamais devemos subestimar as atividades nas quais nos envolvemos pois tudo, tudo mesmo, serve de aprendizado. Milhares de horas q, à vistas dos outros, eu desperdiçava, resultaram em muitos ganhos cognitivos.

Aos pais, e a todos, fica então o conselho: estimulem seus filhos e propiciem a si próprios experiências amplas, diversificadas. Não necessariamente "educativas". Não apenas o q se diz "pedagógico" serve ao nosso aprendizado. Se vc for criança ou adolescente, procure assistir a canais estrangeiros, vc pode de repente se descobrir fluente em outra língua, sem ter gasto um centavo e se divertindo no processo. Usem jogos complexos e estratégicos, não se limite aos joguinhos de corrida e luta.

O resultado de estimular-se de diversas formas pode ser a diferença entre vc se situar apenas "na média" ou se destacar entre os demais. Todas as habilidades q desenvolvemos, mesmo q pareçam não ter aplicação imediata, contribuirão para tudo q fizermos no futuro, mesmo q não tenha ligação com novelas mexicanas ou jogos de computador.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Da Humildade, ou da Modestia

Humildade é um conceito complexo, e muitas vezes difícil de compreender. Muitas pessoas confundem humildade com fraqueza, auto-desvalorização, falta de confiança em si próprio.

Muitos acham q a humildade é uma espécie de "máscara social" q as pessoas aprendem a usar de acordo com a conveniência, para "se sair bem" e não parecerem arrogantes quando elogiados.

Por exemplo, quando uma pessoa é muito bonita, ou inteligente, ao ser elogiada por essas características "pega mal" ela concordar com quem a elogiou dizendo "é verdade, eu sou um gato; ou eu sou um gênio". E fica muito melhor, socialmente, ela dizer "imagina, é q hj me arrumei um pouquinho" ou então "ah, eu sou burra em diversas coisas".

Mas a verdadeira humildade não existe "para ficar bem com os outros", não parte de uma preocupação consigo próprio. A verdadeira modéstia nasce da percepção do mundo q nos cerca. Uma pessoa bonita não deve dizer o supracitado para evitar parecer arrogante, mas pelo apercebimento objetivo de q existem milhões de pessoas mais belas q ela. Uma pessoa inteligente não deve dizer o supracitado para evitar q seus amigos invejem suas capacidades intelectuais, mas por saber q na verdade, comparada ao verdadeiros gênios, tem uma capacidade cognitiva quase mediana.

Uma pessoa extremamente bonita e inteligente se achará o ápice da espécie humana até amadurecer, ganhar experiência, e pela vida encontrar dezenas de pessoas melhores q ela. E mais humildes, modestas, a este respeito do q ela. Apenas quando saímos do nosso casulo da segurança individual, ganhamos experiência de vida, sucessivamente quebramos a cara e nos decepcionamos, passamos a ser mais observadores, aprendemos mais a ouvir do q falar, percebemos nossa pequenez, nossos limites, nossa visão parcial e limitada ao que queremos ver.

Para ilustrar o q pretendo expor vou usar um exemplo. O exemplo do maior profeta q o povo de Israel já teve, Moshe (Moisés). Há várias formas de responder pq, dentre todos os israelitas, justamente foi ele o escolhido para ter uma intimidade tão grande com HaShem. Há quem diga q foi por sua linhagem, há quem diga q foi por seu zelo e coragem.

Eu acredito q foi por sua humildade. Q ele foi escolhido por "não se achar grande coisa". Pois, se ele fosse cheio de si, não obedeceria cegamente, se acharia no direito de fazer "a sua Lei" e não estaria propenso a obedecer em tudo, cegamente, o q lhe era ordenado. Vejamos algumas passagens de sua vida.

Ex 3:
11 Então Moisés disse a D'us: «Quem sou eu para ir até o Faraó e tirar os filhos de Israel lá do Egito?»

Ex 4:
10 Moisés insistiu com D'us: «Meu Senhor, eu não tenho facilidade para falar, nem ontem, nem anteontem, nem depois que falaste ao teu servo; minha boca e minha língua são pesadas». 11 D'us replicou: «Quem dá a boca para o homem? Quem o torna mudo ou surdo, capaz de ver ou cego? Não sou eu, HaShem? 12 Agora vá, e eu estarei em sua boca e lhe ensinarei o que você há de falar».

13 Moisés, porém, insistiu: «Não, meu Senhor, envia o intermediário que quiseres». 14 D'us ficou irritado com Moisés e lhe disse: «Você não tem o seu irmão Aarão, o levita? Sei que ele sabe falar bem. Ele está vindo ao seu encontro e ficará alegre em ver você.

Moisés é tão modesto, "acha" tão pouco de si q isso até irrita a D'us. Mesmo diretamente recrutado, pessoalmente, pelo Criador, Moisés não se acha digno da tarefa. Pede q HaShem escolha outro em seu lugar, não se acha capaz, expõe seus defeitos.

Caso Moisés fosse o tipo de pessoa q nessa situação dissesse "realmente, eu sou muito santo, um líder nato, o Senhor não poderia ter escolhido melhor" ele não teria sido escolhido para tarefa tão importante. Pois se fosse esse tipo de pessoa tão "convencida e cheia de si" colocaria o próprio ego, os próprios interesses e conveniências, acima das ordens q recebia.

Na Torah há diversos alertas para o povo não ficar "convencido" e cheio de si, vejam 2:

Dt 8:
17 Portanto, não vá pensar: ‘Foi a minha força e o poder de minhas mãos que me conquistaram essas riquezas’.

Dt 9:
4 Quando Javé seu D'us os tiver expulsado da sua frente, não vá pensar: ‘Foi por causa da minha justiça que D'us me fez entrar e tomar posse desta terra’. Não. É por causa da injustiça dessas nações que D'us as expulsará da sua frente. 5 Se você vai conquistar essas terras, não é por causa da sua justiça e honradez, e sim porque HaShem seu D'us vai expulsá-las da sua frente por causa da injustiça delas, e também para cumprir a promessa que ele havia jurado a seus antepassados Abraão, Isaac e Jacó. 6 Saiba, portanto: não é por causa da justiça de você que HaShem seu D'us lhe concede possuir esta terra boa, pois você é um povo de cabeça dura.

Muitas vezes, quando nos deparamos com pessoas q têm um conhecimento menor q o nosso, é comum sermos arrogantes, "superiores" e professorais no sentido "percebi q vc não sabe nada, só fala bobagem; agora cale-se e aprenda com quem realmente sabe". Tudo o q for dito depois disso pode ser até bom e elaborado, mas já nasce com um vício original. Foi plantado de forma adversa, diz muito mais sobre o quanto quem o expõe "se acha o máximo e gosta de usar seu conhecimento para se exibir, diminuir e humilhar os outros." O q demonstra q essa pessoa pode até entender muito de teoria, mas seus conhecimentos não são usados na prática.

Ao explicar, ou argumentar com pessoas q achamos ter menor conhecimento, devemos ter o cuidado de nos expressar de forma q a mensagem seja recebida de forma propícia, não como uma crítica, não de forma a "diminuir" o outro. Não devemos agir como se estivéssemos encastelados numa imaculada torre de marfim, devemos "ficar no mesmo nível", explicar de forma q a outra pessoa compreenda.

Exemplo fácil. Vc vê uma criança pequena colocando o dedo na tomada. De nada adianta falar-lhe "vc é muito burra, assim vc vai morrer" ou então dar uma explicação técnica sobre elétrons e correntes alternadas. É necessário ser maduro, não agir com a mesma infantilidade da criança, explicar-lhe de forma q ela entenda "assim vc vai fazer dodói, da tomada sai um 'raio' q machuca se vc colocar o dedo".

É preciso explicar cada coisa da forma mais calorosa, paciente, e apropriada à compreensão do destinatário, de forma q essa explicação lhe acrescente, faça com q ele cresça. Devemos perceber q explicar uma coisa para alguém não é uma oportunidade de exibirmos nossa erudição, nossos "grandes conhecimentos", mas sim é uma chance de contribuir com a evolução dos q nos cercam.

Devemos ter consciência de q, por mais q saibamos (ou achamos q sabemos) há pelo menos 5 mil pessoas no mundo q sabem sobre isso muito mais q nós, com maior profundidade, e q elas não se gabam disso. E não se gabam justamente pq elas próprias sabem q existem outras mil pessoas q sabem mais q elas próprias. E mesmo a mais sábia dentre essas mil pessoas, se perguntada, agirá justamente como Moisés; dirá "quem sou eu para tão grande responsabilidade? Há outros muito melhores q eu!"

Concluindo, acredito q HaShem escolheu Moisés, q passou a ser referido por "Moshe Rabenu" (Moisés, nosso pai), justamente por saber q ele teria a maturidade, a experiência, a compreensão "psicológica" do outro, para orientar de forma adequada, com as palavras corretas, pacientemente, ao povo de Israel. Por saber q ele não se colocaria àfrente do povo, mas sim o povo àfrente se si (cf Ex 32:32; Dt 9: 8, 14, 26).

Moisés não foi escolhido por ser o q melhor guardava a Lei, por saber todas as regras de cashrut, por sua eloquência, por nunca ter se contaminado com a idolatria (afinal, ele era um príncipe do Egito), por nunca ter pecado (vcs lembram do egípcio q ele matou? Cf Ex 2:12), por ser um "líder nato", por ter sido "preparado" para isso.

Acredito q o motivo fundamental q fez HaShem escolher Moisés foi justamente este:

Nm 12:
3 Moisés era o homem mais humilde entre todos os homens da terra.

E este foi o grande diferencial deste grande homem: sendo grande, achava-se pequeno. Mesmo quando HaShem o convocou pessoalmente, achou-se pouco digno, pouco preparado, aquém, incapaz de cumprir tão importante tarefa.

E é por isso que

Dt 34:
10 Em Israel nunca mais surgiu outro profeta como Moisés, a quem Javé conhecia face a face.
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