Humildade é um conceito complexo, e muitas vezes difícil de compreender. Muitas pessoas confundem humildade com fraqueza, auto-desvalorização, falta de confiança em si próprio.
Muitos acham q a humildade é uma espécie de "máscara social" q as pessoas aprendem a usar de acordo com a conveniência, para "se sair bem" e não parecerem arrogantes quando elogiados.
Por exemplo, quando uma pessoa é muito bonita, ou inteligente, ao ser elogiada por essas características "pega mal" ela concordar com quem a elogiou dizendo "é verdade, eu sou um gato; ou eu sou um gênio". E fica muito melhor, socialmente, ela dizer "imagina, é q hj me arrumei um pouquinho" ou então "ah, eu sou burra em diversas coisas".
Mas a verdadeira humildade não existe "para ficar bem com os outros", não parte de uma preocupação consigo próprio. A verdadeira modéstia nasce da percepção do mundo q nos cerca. Uma pessoa bonita não deve dizer o supracitado para evitar parecer arrogante, mas pelo apercebimento objetivo de q existem milhões de pessoas mais belas q ela. Uma pessoa inteligente não deve dizer o supracitado para evitar q seus amigos invejem suas capacidades intelectuais, mas por saber q na verdade, comparada ao verdadeiros gênios, tem uma capacidade cognitiva quase mediana.
Uma pessoa extremamente bonita e inteligente se achará o ápice da espécie humana até amadurecer, ganhar experiência, e pela vida encontrar dezenas de pessoas melhores q ela. E mais humildes, modestas, a este respeito do q ela. Apenas quando saímos do nosso casulo da segurança individual, ganhamos experiência de vida, sucessivamente quebramos a cara e nos decepcionamos, passamos a ser mais observadores, aprendemos mais a ouvir do q falar, percebemos nossa pequenez, nossos limites, nossa visão parcial e limitada ao que queremos ver.
Para ilustrar o q pretendo expor vou usar um exemplo. O exemplo do maior profeta q o povo de Israel já teve, Moshe (Moisés). Há várias formas de responder pq, dentre todos os israelitas, justamente foi ele o escolhido para ter uma intimidade tão grande com HaShem. Há quem diga q foi por sua linhagem, há quem diga q foi por seu zelo e coragem.
Eu acredito q foi por sua humildade. Q ele foi escolhido por "não se achar grande coisa". Pois, se ele fosse cheio de si, não obedeceria cegamente, se acharia no direito de fazer "a sua Lei" e não estaria propenso a obedecer em tudo, cegamente, o q lhe era ordenado. Vejamos algumas passagens de sua vida.
Ex 3:
11 Então Moisés disse a D'us: «Quem sou eu para ir até o Faraó e tirar os filhos de Israel lá do Egito?»
Ex 4:
10 Moisés insistiu com D'us: «Meu Senhor, eu não tenho facilidade para falar, nem ontem, nem anteontem, nem depois que falaste ao teu servo; minha boca e minha língua são pesadas». 11 D'us replicou: «Quem dá a boca para o homem? Quem o torna mudo ou surdo, capaz de ver ou cego? Não sou eu, HaShem? 12 Agora vá, e eu estarei em sua boca e lhe ensinarei o que você há de falar».
13 Moisés, porém, insistiu: «Não, meu Senhor, envia o intermediário que quiseres». 14 D'us ficou irritado com Moisés e lhe disse: «Você não tem o seu irmão Aarão, o levita? Sei que ele sabe falar bem. Ele está vindo ao seu encontro e ficará alegre em ver você.
Moisés é tão modesto, "acha" tão pouco de si q isso até irrita a D'us. Mesmo diretamente recrutado, pessoalmente, pelo Criador, Moisés não se acha digno da tarefa. Pede q HaShem escolha outro em seu lugar, não se acha capaz, expõe seus defeitos.
Caso Moisés fosse o tipo de pessoa q nessa situação dissesse "realmente, eu sou muito santo, um líder nato, o Senhor não poderia ter escolhido melhor" ele não teria sido escolhido para tarefa tão importante. Pois se fosse esse tipo de pessoa tão "convencida e cheia de si" colocaria o próprio ego, os próprios interesses e conveniências, acima das ordens q recebia.
Na Torah há diversos alertas para o povo não ficar "convencido" e cheio de si, vejam 2:
Dt 8:
17 Portanto, não vá pensar: ‘Foi a minha força e o poder de minhas mãos que me conquistaram essas riquezas’.
Dt 9:
4 Quando Javé seu D'us os tiver expulsado da sua frente, não vá pensar: ‘Foi por causa da minha justiça que D'us me fez entrar e tomar posse desta terra’. Não. É por causa da injustiça dessas nações que D'us as expulsará da sua frente. 5 Se você vai conquistar essas terras, não é por causa da sua justiça e honradez, e sim porque HaShem seu D'us vai expulsá-las da sua frente por causa da injustiça delas, e também para cumprir a promessa que ele havia jurado a seus antepassados Abraão, Isaac e Jacó. 6 Saiba, portanto: não é por causa da justiça de você que HaShem seu D'us lhe concede possuir esta terra boa, pois você é um povo de cabeça dura.
Muitas vezes, quando nos deparamos com pessoas q têm um conhecimento menor q o nosso, é comum sermos arrogantes, "superiores" e professorais no sentido "percebi q vc não sabe nada, só fala bobagem; agora cale-se e aprenda com quem realmente sabe". Tudo o q for dito depois disso pode ser até bom e elaborado, mas já nasce com um vício original. Foi plantado de forma adversa, diz muito mais sobre o quanto quem o expõe "se acha o máximo e gosta de usar seu conhecimento para se exibir, diminuir e humilhar os outros." O q demonstra q essa pessoa pode até entender muito de teoria, mas seus conhecimentos não são usados na prática.
Ao explicar, ou argumentar com pessoas q achamos ter menor conhecimento, devemos ter o cuidado de nos expressar de forma q a mensagem seja recebida de forma propícia, não como uma crítica, não de forma a "diminuir" o outro. Não devemos agir como se estivéssemos encastelados numa imaculada torre de marfim, devemos "ficar no mesmo nível", explicar de forma q a outra pessoa compreenda.
Exemplo fácil. Vc vê uma criança pequena colocando o dedo na tomada. De nada adianta falar-lhe "vc é muito burra, assim vc vai morrer" ou então dar uma explicação técnica sobre elétrons e correntes alternadas. É necessário ser maduro, não agir com a mesma infantilidade da criança, explicar-lhe de forma q ela entenda "assim vc vai fazer dodói, da tomada sai um 'raio' q machuca se vc colocar o dedo".
É preciso explicar cada coisa da forma mais calorosa, paciente, e apropriada à compreensão do destinatário, de forma q essa explicação lhe acrescente, faça com q ele cresça. Devemos perceber q explicar uma coisa para alguém não é uma oportunidade de exibirmos nossa erudição, nossos "grandes conhecimentos", mas sim é uma chance de contribuir com a evolução dos q nos cercam.
Devemos ter consciência de q, por mais q saibamos (ou achamos q sabemos) há pelo menos 5 mil pessoas no mundo q sabem sobre isso muito mais q nós, com maior profundidade, e q elas não se gabam disso. E não se gabam justamente pq elas próprias sabem q existem outras mil pessoas q sabem mais q elas próprias. E mesmo a mais sábia dentre essas mil pessoas, se perguntada, agirá justamente como Moisés; dirá "quem sou eu para tão grande responsabilidade? Há outros muito melhores q eu!"
Concluindo, acredito q HaShem escolheu Moisés, q passou a ser referido por "Moshe Rabenu" (Moisés, nosso pai), justamente por saber q ele teria a maturidade, a experiência, a compreensão "psicológica" do outro, para orientar de forma adequada, com as palavras corretas, pacientemente, ao povo de Israel. Por saber q ele não se colocaria àfrente do povo, mas sim o povo àfrente se si (cf Ex 32:32; Dt 9: 8, 14, 26).
Moisés não foi escolhido por ser o q melhor guardava a Lei, por saber todas as regras de cashrut, por sua eloquência, por nunca ter se contaminado com a idolatria (afinal, ele era um príncipe do Egito), por nunca ter pecado (vcs lembram do egípcio q ele matou? Cf Ex 2:12), por ser um "líder nato", por ter sido "preparado" para isso.
Acredito q o motivo fundamental q fez HaShem escolher Moisés foi justamente este:
Nm 12:
3 Moisés era o homem mais humilde entre todos os homens da terra.
E este foi o grande diferencial deste grande homem: sendo grande, achava-se pequeno. Mesmo quando HaShem o convocou pessoalmente, achou-se pouco digno, pouco preparado, aquém, incapaz de cumprir tão importante tarefa.
E é por isso que
Dt 34:
10 Em Israel nunca mais surgiu outro profeta como Moisés, a quem Javé conhecia face a face.
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Balanco de Yom Kipur 5773
A passagem do ano velho para o Ano Novo sempre é um tempo de reflexão sobre o passado e o futuro. No Ocidente celebra-se o Reveillon de acordo com o calendário Gregoriano, e muito dessa reflexão se perde entre preparações para a ceia, escolha de roupas, socialização com os amigos, bebedeiras e contagem regressiva.
Nunca senti q eu me encaixasse neste tipo de celebração. Desde muito jovem via com aversão coisas típicas desta época, como escolher a roupa de baixo de acordo com as energias "q se quer atrair", vestir-se de branco, guardar sementes de uva ou romã na carteira, pular 7ondas, jogar flores ao mar. É assim q, no Brazil, se comemora a passagem de ano na noite de 31 de dezembro.
Não sou judia, mas noachide. Os filhos de Noé, ou bnei Noach, são gentios q acatam a revelação do Sinai, são tementes a D'us, almejam um dia ser considerados "justos entre as nações".
Nesta busca religiosa, muitas são as dúvidas, os titubeios, hesitações, idas e vindas. E neste ano passado de 5772 grande foi o conhecimento q adquiri. Neste dia do Perdão (Yom Kipur) venho me debruçar sobre os avanços e melhoras e tive nestes últimos 12 meses.
Cresci, amadureci, melhorei, me fortaleci.
Nesta altura dos meses no ano passado eu tinha mais dúvidas e seguramente estava mais perdida do q hoje. Nunca devemos desdenhar, fazer pouco do presente da vida. Da oportunidade de viver um novo dia e nele aprender uma coisa nova.
Ano passado eu não tinha "emprego fixo". Neste novo ano me efetivei, concursada, como funcionária pública, como professora da rede estadual de SP. Muitos verão nisso pouca coisa. Mas para quem não tem "papai e mamãe" q o sustente, não é "de família rica", não tem "patrimônio" nem mesmo casa própria, ter um emprego efetivo é uma bênção. É a certeza q, ainda q eu ganhe pouco, não passarei fome, não me verei obrigada a morar "debaixo da ponte", nem terei q me degradar ou humilhar para ter o pão de cada dia. Portanto, agradeço a HaShem a bênção de ter dado tudo certo no curso de formação de professores, q eu tenha conseguido entregar todos os documentos em tempo hábil, e todas as burocracias e papeladas tenham dado certo.
Até o fim de 2011 eu era "categoria F" na rede estadual. A cada ano caía numa escola diferente, e muitas vezes ruim. Quando fui fazer a escolha de em qual escola me efetivaria, temi pois escolhi uma escola q não conhecia, não tinha a menor ideia de como seria. Tive uma boa surpresa ao optar pela E.E. Prof. José Cardoso. Primeiro pq tive a oportunidade de poder escolher uma escola na cidade em q eu já residia, sorte q poucos recém efetivados têm. Segundo pq a escola é bastante similar às q eu já conhecia, e não "terrificante" como outras das quais muito já ouvi falar. Terceiro, pq lá fiz novos amigos, boa gente, conheci colegas de trabalho dedicados, e superiores sem a "sanha burocrática de preencher papeis" q padeci em outras unidades escolares.
Neste 2012 comecei a cursar Libras, a linguagem brasileira de sinais. Embora seja muito difícil e eu esteja muito aquém de ser fluente, aprendi muito e me sinto agora mais preparada para lidar com alunos deficientes.
Sou uma pessoa bastante frugal, alguns diriam "mão de vaca" e não costumo "gastar dinheiro à toa". Cada centavo q ganho é suado e sofrido, portanto dispendê-los merece reflexão. Neste novo ano me dei um presente pródigo. Isso só foi possível pois para me efetivar fiz a "Escola de Formação de Professores", um curso online do Estado para os q passaram no concurso "provarem" q podiam lecionar. Os cursistas receberam como "bolsa de estudos" 4 parcelas de quase R$ 1.500,00. Eu recebia de bolsa mais do q ganhava para dar aulas. E não fosse essa bolsa, não poderia ter-me dado o presente citado. Comprei-me um iPad. Enquanto o fazia, com o coração na mão por gastar tanto dinheiro (quase R$ 2.500,00), pedia a HaShem q não me arrependesse. E em nenhum momento isso se deu. O iPad "revolucionou minha vida", me trouxe maior conexão com meus amigos, aumentou minha socialização, me abriu todo um novo universo de possibilidades, facilitou em muito meu cotidiano. Foi uma das melhores compras da minha vida, um dinheiro q não foi "gasto", mas "investido", pois me trouxe retorno.
Neste ano deixei para trás pessoas q me deixaram para trás. Parei de tanto remoer o passado. Desisti de algumas coisas e refoquei minhas energias em outras. Reorganizei todas as minhas músicas no PC. Mandei por correio um presente pro Jarson Brenner, uma das melhores surpresas q a Internet me trouxe. Redescobri o Romeu Marinho, vi o quanto sua amizade e sua família são especiais. Reencontrei o Henrique "Figura", sua esposa Jaque e suas filhas. Pude segurar em meus braços Benjamin, filho da minha grande amiga Gisele Bailer. Adicionei Aristein Woo como irmão, e Maria José Tomasella como mãe. Me aproximei dos meus primos Gisele e Renan. Tratei bem da minha avó, lhe fiz comida, pensei suas feridas e até lhe dei banho; e nada disso me pesou como obrigação, o fiz com gosto e carinho, pois como lhe disse com todas as letras "Vc é minha avó e eu te amo". Agradeço a oportunidade de ter podido lhe dizer isso e espero q no próximo ano eu diga a todas as pessoas de minha afeição o quanto as estimo.
Li poesias. Li a obra completa de Álvaro de Campos. Me deleitei com a Tabacaria. Reli "A Metamorfose" do Kafka. Li o Bhagavad Gita. Li a "História dos nossos gestos" dos Luís da Câmara Cascudo.
Sempre fui essencialmente acomodada e sedentária. Neste ano, para minha grande surpresa, abandonei isso. Comecei a fazer caminhadas, e apesar da descrença em mim própria, consegui levar isso a sério. Dei várias voltas no Lago Azul, fiz todas as trilhas do Horto Florestal de Rio Claro. Este contato com a natureza foi salutar. Toda vez q começava ia com a mente assestada em q não era capaz, até descobrir q era mais do q capaz de me superar, e de andar 10 kms. Q meu corpo, há tanto tempo dormente, é capaz de melhorar, se fortalecer. Hoje, quando apalpo minhas pernas, fico surpresa q não são mais molengas como antes. Agora consigo ver os músculos nas coxas e panturrilhas, o q muito me estimula a nesse novo ano investir ainda mais em minha saúde e forma física. Percebi q, se eu quiser ter o corpo duma Viviane Araújo ou Gracyanne Barbosa, eu posso. Quem sabe neste 5773 eu o atinja.
Estudei bastante a Torah. Publiquei ensaios teológicos no meu blog. Fiz dezenas de perguntas em comunidades no Face. Muitas originaram debates acalorados. Debati com rabinos, rabinos de verdade, deles recebi ensinamentos, e muito cresci com suas instruções e seus silêncios. Minha comunidade Bnei Noach se tornou ativa, cresceu, evoluiu, e está auxiliando muitos noachides em busca de instrução.
Meu blog está cada vez mais bem sucedido. Recebe dezenas de visitas diárias, ganhou novos seguidores, novos comentários. Há quem procure por mim na internet! Nunca achei q isso aconteceria!
Fortaleci minha amizade com diversas pessoas. E percebi q outras não mereciam minha dedicação. Tive uma grande decepção, mas tb boas surpresas. Pessoas com as quais contava me viraram as costas. Outras, q eu mal conhecia, se revelaram bons amigos. Para isso, o Facebook é muito bom. Ele nos dá, em números, o quanto as outras pessoas estão atentas ou prestam atenção em nós. Diversas vezes me perguntei "putz, quase todo dia curto ou comento algo q a pessoa X publica, mas ela não curte nem comenta nada q eu publico" ou então "já mandei tantas mensagens e e-mails tentando encontrar a pessoa X e ela não responde, 'dá um migué' ou adia isso prum momento q nunca vem". Aprendi a não mais dar tanta atenção a quem me ignora, a não mais esperar nada dessas pessoas. Aprendi q, embora eu considere tão amigos hj as pessoas q eram minhas amigas há alguns anos, elas se esqueceram de mim. Percebi q eu as estimava hj tanto quanto da última vez q as vi, mas a recíproca não era verdadeira. E percebi q não deveria me mortificar por isso. Assim como amigos vão, novos amigos vêm. E q os amigos do passado q permaneceram constantes mereciam muito mais da minha dedicação.
Investi meu tempo ocioso nas Tessituras de Penelope, fiz dezenas de trabalhos q me trazem alegria e orgulho. Sim, orgulho, da minha capacidade de fazer coisas bonitas, exclusivas e úteis, com minhas próprias mãos. Muitas das peças q fiz presenteei a pessoas amadas. Me sinto feliz q algo feito com minhas mãos sirva para enfeitar, aquecer e preservar a saúde das pessoas de minha estima. Publicando estes trabalhos num blog, recebi muito feedback positivo. Não só eu acho bonitas as coisas q faço. E cada novo seguidor e comentário é um estímulo a mais para fazer artes ainda mais elaboradas. Espero q no futuro minha arte com linha e agulha venha a ser uma nova fonte de renda, e humildemente peço isso para o Novo Ano q se inicia.
Ganhei um sobrinho. Meu segundo. A primeira, Ana Letícia Santos, pouco vejo, mas tive algum contato, a presenteei com um cachecol e um bolsa. Na Austrália, nasceu meu segundo sobrinho, Liam Novais Dermott. Espero no futuro ter uma relação próxima com ele. E q ambos meus sobrinhos saibam q os amo como se meus filhos fossem. Q na tia Fernanda eles têm uma amiga, uma protetora, alguém com quem poderão contar a qquer hora, não importa a distância e o tempo q nos separam.
Nem tudo foi bom neste ano, e nem tudo fiz bem neste ano. Alguns projetos foram esquecidos, outros adiados. Fiz e pensei coisas das quais não me orgulho. Sei q poderia ter feito muito melhor, fosse mais tenaz, constante, paciente, comprometida, disciplinada, responsável, flexível, aberta, receptiva, prudente. Fosse menos ansiosa, neurótica, apegada ao passado, arrogante, egoísta, preguiçosa, desbocada, gulosa, pessimista, prolixa, pedante e muitas outras coisas.
Porém neste ano percebo q não girei em falso. Não sou a mesma pessoa q era no período anterior. Cresci, amadureci, melhorei, aprendi, me fortaleci, refleti, li, pensei, aprendi a calar, aprendi a ver as coisas de outra forma, observei, escrevi, fiz novos amigos.
Agradeço a D'us por todas as experiências q me proporcionou. Agradeço pela bênção de ter podido viver 5772. E humildemente suplico q neste 5773 eu possa ser inscrita no Livro da Vida. Q eu aprenda ainda mais. Q eu seja capaz de atender às expectativas. Q eu cumpra meu Destino. Q a tecnologia nos traga muitas mais facilidades, oportunidades e chances de crescimento. Q eu possa colaborar na retificação do mundo (Tikkum Olam), q meus esforços e atividades sejam para o bem. Que HaMassiach venha. Q ano q vem eu escreva o próximo texto de Jerusalém.
Shaná Tová we Chatimah Tová le kulam!
Elisheva bat Noach
Nunca senti q eu me encaixasse neste tipo de celebração. Desde muito jovem via com aversão coisas típicas desta época, como escolher a roupa de baixo de acordo com as energias "q se quer atrair", vestir-se de branco, guardar sementes de uva ou romã na carteira, pular 7ondas, jogar flores ao mar. É assim q, no Brazil, se comemora a passagem de ano na noite de 31 de dezembro.
Não sou judia, mas noachide. Os filhos de Noé, ou bnei Noach, são gentios q acatam a revelação do Sinai, são tementes a D'us, almejam um dia ser considerados "justos entre as nações".
Nesta busca religiosa, muitas são as dúvidas, os titubeios, hesitações, idas e vindas. E neste ano passado de 5772 grande foi o conhecimento q adquiri. Neste dia do Perdão (Yom Kipur) venho me debruçar sobre os avanços e melhoras e tive nestes últimos 12 meses.
Cresci, amadureci, melhorei, me fortaleci.
Nesta altura dos meses no ano passado eu tinha mais dúvidas e seguramente estava mais perdida do q hoje. Nunca devemos desdenhar, fazer pouco do presente da vida. Da oportunidade de viver um novo dia e nele aprender uma coisa nova.
Ano passado eu não tinha "emprego fixo". Neste novo ano me efetivei, concursada, como funcionária pública, como professora da rede estadual de SP. Muitos verão nisso pouca coisa. Mas para quem não tem "papai e mamãe" q o sustente, não é "de família rica", não tem "patrimônio" nem mesmo casa própria, ter um emprego efetivo é uma bênção. É a certeza q, ainda q eu ganhe pouco, não passarei fome, não me verei obrigada a morar "debaixo da ponte", nem terei q me degradar ou humilhar para ter o pão de cada dia. Portanto, agradeço a HaShem a bênção de ter dado tudo certo no curso de formação de professores, q eu tenha conseguido entregar todos os documentos em tempo hábil, e todas as burocracias e papeladas tenham dado certo.
Até o fim de 2011 eu era "categoria F" na rede estadual. A cada ano caía numa escola diferente, e muitas vezes ruim. Quando fui fazer a escolha de em qual escola me efetivaria, temi pois escolhi uma escola q não conhecia, não tinha a menor ideia de como seria. Tive uma boa surpresa ao optar pela E.E. Prof. José Cardoso. Primeiro pq tive a oportunidade de poder escolher uma escola na cidade em q eu já residia, sorte q poucos recém efetivados têm. Segundo pq a escola é bastante similar às q eu já conhecia, e não "terrificante" como outras das quais muito já ouvi falar. Terceiro, pq lá fiz novos amigos, boa gente, conheci colegas de trabalho dedicados, e superiores sem a "sanha burocrática de preencher papeis" q padeci em outras unidades escolares.
Neste 2012 comecei a cursar Libras, a linguagem brasileira de sinais. Embora seja muito difícil e eu esteja muito aquém de ser fluente, aprendi muito e me sinto agora mais preparada para lidar com alunos deficientes.
Sou uma pessoa bastante frugal, alguns diriam "mão de vaca" e não costumo "gastar dinheiro à toa". Cada centavo q ganho é suado e sofrido, portanto dispendê-los merece reflexão. Neste novo ano me dei um presente pródigo. Isso só foi possível pois para me efetivar fiz a "Escola de Formação de Professores", um curso online do Estado para os q passaram no concurso "provarem" q podiam lecionar. Os cursistas receberam como "bolsa de estudos" 4 parcelas de quase R$ 1.500,00. Eu recebia de bolsa mais do q ganhava para dar aulas. E não fosse essa bolsa, não poderia ter-me dado o presente citado. Comprei-me um iPad. Enquanto o fazia, com o coração na mão por gastar tanto dinheiro (quase R$ 2.500,00), pedia a HaShem q não me arrependesse. E em nenhum momento isso se deu. O iPad "revolucionou minha vida", me trouxe maior conexão com meus amigos, aumentou minha socialização, me abriu todo um novo universo de possibilidades, facilitou em muito meu cotidiano. Foi uma das melhores compras da minha vida, um dinheiro q não foi "gasto", mas "investido", pois me trouxe retorno.
Neste ano deixei para trás pessoas q me deixaram para trás. Parei de tanto remoer o passado. Desisti de algumas coisas e refoquei minhas energias em outras. Reorganizei todas as minhas músicas no PC. Mandei por correio um presente pro Jarson Brenner, uma das melhores surpresas q a Internet me trouxe. Redescobri o Romeu Marinho, vi o quanto sua amizade e sua família são especiais. Reencontrei o Henrique "Figura", sua esposa Jaque e suas filhas. Pude segurar em meus braços Benjamin, filho da minha grande amiga Gisele Bailer. Adicionei Aristein Woo como irmão, e Maria José Tomasella como mãe. Me aproximei dos meus primos Gisele e Renan. Tratei bem da minha avó, lhe fiz comida, pensei suas feridas e até lhe dei banho; e nada disso me pesou como obrigação, o fiz com gosto e carinho, pois como lhe disse com todas as letras "Vc é minha avó e eu te amo". Agradeço a oportunidade de ter podido lhe dizer isso e espero q no próximo ano eu diga a todas as pessoas de minha afeição o quanto as estimo.
Li poesias. Li a obra completa de Álvaro de Campos. Me deleitei com a Tabacaria. Reli "A Metamorfose" do Kafka. Li o Bhagavad Gita. Li a "História dos nossos gestos" dos Luís da Câmara Cascudo.
Sempre fui essencialmente acomodada e sedentária. Neste ano, para minha grande surpresa, abandonei isso. Comecei a fazer caminhadas, e apesar da descrença em mim própria, consegui levar isso a sério. Dei várias voltas no Lago Azul, fiz todas as trilhas do Horto Florestal de Rio Claro. Este contato com a natureza foi salutar. Toda vez q começava ia com a mente assestada em q não era capaz, até descobrir q era mais do q capaz de me superar, e de andar 10 kms. Q meu corpo, há tanto tempo dormente, é capaz de melhorar, se fortalecer. Hoje, quando apalpo minhas pernas, fico surpresa q não são mais molengas como antes. Agora consigo ver os músculos nas coxas e panturrilhas, o q muito me estimula a nesse novo ano investir ainda mais em minha saúde e forma física. Percebi q, se eu quiser ter o corpo duma Viviane Araújo ou Gracyanne Barbosa, eu posso. Quem sabe neste 5773 eu o atinja.
Estudei bastante a Torah. Publiquei ensaios teológicos no meu blog. Fiz dezenas de perguntas em comunidades no Face. Muitas originaram debates acalorados. Debati com rabinos, rabinos de verdade, deles recebi ensinamentos, e muito cresci com suas instruções e seus silêncios. Minha comunidade Bnei Noach se tornou ativa, cresceu, evoluiu, e está auxiliando muitos noachides em busca de instrução.
Meu blog está cada vez mais bem sucedido. Recebe dezenas de visitas diárias, ganhou novos seguidores, novos comentários. Há quem procure por mim na internet! Nunca achei q isso aconteceria!
Fortaleci minha amizade com diversas pessoas. E percebi q outras não mereciam minha dedicação. Tive uma grande decepção, mas tb boas surpresas. Pessoas com as quais contava me viraram as costas. Outras, q eu mal conhecia, se revelaram bons amigos. Para isso, o Facebook é muito bom. Ele nos dá, em números, o quanto as outras pessoas estão atentas ou prestam atenção em nós. Diversas vezes me perguntei "putz, quase todo dia curto ou comento algo q a pessoa X publica, mas ela não curte nem comenta nada q eu publico" ou então "já mandei tantas mensagens e e-mails tentando encontrar a pessoa X e ela não responde, 'dá um migué' ou adia isso prum momento q nunca vem". Aprendi a não mais dar tanta atenção a quem me ignora, a não mais esperar nada dessas pessoas. Aprendi q, embora eu considere tão amigos hj as pessoas q eram minhas amigas há alguns anos, elas se esqueceram de mim. Percebi q eu as estimava hj tanto quanto da última vez q as vi, mas a recíproca não era verdadeira. E percebi q não deveria me mortificar por isso. Assim como amigos vão, novos amigos vêm. E q os amigos do passado q permaneceram constantes mereciam muito mais da minha dedicação.
Investi meu tempo ocioso nas Tessituras de Penelope, fiz dezenas de trabalhos q me trazem alegria e orgulho. Sim, orgulho, da minha capacidade de fazer coisas bonitas, exclusivas e úteis, com minhas próprias mãos. Muitas das peças q fiz presenteei a pessoas amadas. Me sinto feliz q algo feito com minhas mãos sirva para enfeitar, aquecer e preservar a saúde das pessoas de minha estima. Publicando estes trabalhos num blog, recebi muito feedback positivo. Não só eu acho bonitas as coisas q faço. E cada novo seguidor e comentário é um estímulo a mais para fazer artes ainda mais elaboradas. Espero q no futuro minha arte com linha e agulha venha a ser uma nova fonte de renda, e humildemente peço isso para o Novo Ano q se inicia.
Ganhei um sobrinho. Meu segundo. A primeira, Ana Letícia Santos, pouco vejo, mas tive algum contato, a presenteei com um cachecol e um bolsa. Na Austrália, nasceu meu segundo sobrinho, Liam Novais Dermott. Espero no futuro ter uma relação próxima com ele. E q ambos meus sobrinhos saibam q os amo como se meus filhos fossem. Q na tia Fernanda eles têm uma amiga, uma protetora, alguém com quem poderão contar a qquer hora, não importa a distância e o tempo q nos separam.
Nem tudo foi bom neste ano, e nem tudo fiz bem neste ano. Alguns projetos foram esquecidos, outros adiados. Fiz e pensei coisas das quais não me orgulho. Sei q poderia ter feito muito melhor, fosse mais tenaz, constante, paciente, comprometida, disciplinada, responsável, flexível, aberta, receptiva, prudente. Fosse menos ansiosa, neurótica, apegada ao passado, arrogante, egoísta, preguiçosa, desbocada, gulosa, pessimista, prolixa, pedante e muitas outras coisas.
Porém neste ano percebo q não girei em falso. Não sou a mesma pessoa q era no período anterior. Cresci, amadureci, melhorei, aprendi, me fortaleci, refleti, li, pensei, aprendi a calar, aprendi a ver as coisas de outra forma, observei, escrevi, fiz novos amigos.
Agradeço a D'us por todas as experiências q me proporcionou. Agradeço pela bênção de ter podido viver 5772. E humildemente suplico q neste 5773 eu possa ser inscrita no Livro da Vida. Q eu aprenda ainda mais. Q eu seja capaz de atender às expectativas. Q eu cumpra meu Destino. Q a tecnologia nos traga muitas mais facilidades, oportunidades e chances de crescimento. Q eu possa colaborar na retificação do mundo (Tikkum Olam), q meus esforços e atividades sejam para o bem. Que HaMassiach venha. Q ano q vem eu escreva o próximo texto de Jerusalém.
Shaná Tová we Chatimah Tová le kulam!
Elisheva bat Noach
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Poema de Sete Faces - Carlos Drummond de Andrade
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
sábado, 18 de agosto de 2012
Soneto Amar, de Florbela Espanca
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar! Amar! E não amar ninguém!
Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...
Soneto Lingua portuguesa, de Olavo Bilac
Última flor do Lácio, inculta e bela,
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
Língua Portuguesa - Olavo Bilac
És, a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...
Amo-te assim, desconhecida e obscura.
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!
Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,
Em que da voz materna ouvi: "meu filho!",
E em que Camões chorou, no exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!
Língua Portuguesa - Olavo Bilac
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
Mar Português e Dactilografia, de Fernando Pessoa
Mar Português - do livro "Mensagem"
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
——————
Dactilografia, via Álvaro de Campos
Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projeto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.
Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!
Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.
Outrora. Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.
Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra ...
Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever
Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.
——————
Dactilografia, via Álvaro de Campos
Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projeto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.
Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!
Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.
Outrora. Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.
Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra ...
Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
Para Viver um Grande Amor - Vinicius de Moraes
Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.
Texto extraído do livro "Para Viver Um Grande Amor", de Vinícius de Moraes, José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1984, pág. 130.
Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.
Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.
Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vanidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.
Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.
Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.
É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...
Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?
Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.
É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.
Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.
Texto extraído do livro "Para Viver Um Grande Amor", de Vinícius de Moraes, José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1984, pág. 130.
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